Sakura entrou em seu apartamento atordoada pelo que acabara de não acontecer. Em um momento queria matar Sasuke por não achá-la digna de se aproveitar, no momento seguinte, estava quase beijando ele.

–"Deus, o que foi isso?" – pensou ela enquanto se sentava no sofá.

Resolveu manter a calma e tomar um banho para se livrar daquele arrepio na nuca. O término de seu namoro com Naruto estava muito recente e ela havia sofrido por ter perdido a amizade que cultivara desde a infância. Não pretendia se envolver com ninguém por pelo menos uns seis meses.

Namorou Naruto por cerca de um ano e constatou, nesse período, que não poderia ser mais do que a melhor amiga dele. O loiro era muito divertido, ele a fazia rir o dia inteiro, era bonito e a colocava pra cima quando ela estava triste, mas simplesmente não conseguia se sentir de fato namorando ele.

Era estranho beijar ele e na primeira vez em que fizeram sexo ela não sentiu emoção alguma. Tentou convencer a si mesma de que era apenas por ser sua primeira vez, mas foi igual na segunda e na terceira vez. E isso foi suficiente para Sakura terminar o namoro e Naruto a amizade dos dois.

Terminando seu banho, Sakura pôs um pijama e preparou macarrão instantâneo, estava muito cansada para perder seu tempo comendo. Após a breve refeição, tomou um comprimido para dor de cabeça e se deitou.

Dormiu pensando no que havia quase acontecido entre ela e Sasuke. Ela queria aquele beijo. Sabia que queria. E sabia que, caso ele tomasse iniciativa, ela não resistiria. Mas não iria correr atrás, se fosse pra acontecer, aconteceria naturalmente.

Sasuke acordou com toda a disposição do mundo, até cantou durante o banho. Tomou um café rápido para não se atrasar, escovou os dentes e se arrumou para a faculdade com mais esmero do que costumava. Passou perfume e não penteou o cabelo. Nunca penteava mesmo.

Após uma breve ligação de sua mãe, desceu até o estacionamento de seu prédio, pegou seu carro e partiu para a faculdade.

Sakura havia acordado mais cedo para buscar seu carro no departamento de trânsito, o que não levou mais de vinte minutos.

Chegou na faculdade quinze minutos antes da hora de sua aula e encontrou Ino e Gaara conversando próximos ao prédio de seu curso.

– Bom dia, gente. – disse Sakura ao casal.

– Bom dia, Saky. – notando que Gaara não respondeu e sabendo do quão fechado seu namorado era, Ino lembrou-se que não os havia apresentado e resolveu fazê-lo. – Ah, amor, essa aqui é a Sakura. Sakura, esse daqui é o amor.

Gaara estendeu a mão para Sakura e murmurou um "prazer" quase inaudível.

– Prazer, Gaara. – disse Sakura apertando a mão de Gaara e sorrindo.

Os três conversaram por um tempo e até Hinata chegar e chamar Ino para um cantinho para contar alguma fofoca. Sakura e Gaara não se conheciam direito, mas surpreendentemente estavam tendo uma conversa divertida.

Falavam sobre Ino e sobre seus transtornos bipolares e riam comentando as bobagens que ela vivia dizendo. Sasuke chegou no exato momento em que Sakura gargalhava sobre alguma coisa que Gaara havia dito e uma estranha sensação invadiu seu corpo.

Era como se seu sangue fervesse. Seus dentes trincaram, seus punhos cerraram-se e pela primeira vez em sua vida sentiu ciúmes de alguém. Sentiu-se traído pelo fato de ter programado conversar com Sakura e chamá-la para sair e chegando lá deu de cara com ela flertando com aquele "cabeça de fósforo".

–"Quer saber, tem uma fila de garotas que me preferem a ele, não vou me afetar por essa aí" – e pensando nisso, direcionou-se à seu curso a passos firmes.

Ino e Hinata voltaram a conversar com Sakura e Gaara sobre um assunto qualquer até que soasse o sinal de que deveriam ir para suas salas. As meninas se separaram de Gaara e entraram na sala. Enquanto esperavam o professor de anatomia, Ino iniciou a conversa.

– Ei vocês estão sabendo da festa vip que vai ter nesse sábado? – perguntou ela as duas amigas.

– Que festa? – perguntou Sakura.

– Uma que vai ter no sábado, mas é só para quem foi convidado. A maioria são veteranos, só vou porque Gaara conseguiu dois convites. – disse a loira dando um sorriso que se transformou em um bico de descontentamento segundos depois. – Queria tanto que vocês fossem comigo.

– Kiba me convidou para ir nessa festa, mas eu não sei, estava pensando em ficar em casa no sábado e estudar um pouco para pegar o ritmo da faculdade. – disse Hinata.

– Deixa de bobagem, Hina, não vamos te perdoar se você não for, não é, Sakura? – disse Ino em tom de brincadeira.

– Mas, Ino, pra eu não perdoar Hinata tenho primeiro que arranjar um jeito de ir, né? – disse Sakura.

O professor entrou na sala antes que Ino pudesse responder pondo um fim na conversa das três e dos demais alunos da sala.

Não se tocou no assunto, mas Sakura pensou durante a aula inteira sobre o que faria para conseguir entrar na festa, se Sasuke estaria na festa, se Sasuke a chamaria pra ir com ele, se ele a chamasse com que roupa iria e no porque de estar tão ansiosa por uma festinha de nada.

A aula terminou e Sakura notou que não havia esclarecido uma dúvida.

– A propósito, Hina, quem é aquele tal Kiba que tinha convidado você pra festa? – perguntou Sakura.

– Ah, K-kiba.. Bem.. – pôde-se ver Hinata extremamente corada.

– É o bofe da Hinata. – disse Ino abrindo sua bolsa e retirando uma serra de unha. – Ele é um pouco estranho, mas é bonito. Tem um aspecto meio... Selvagem.

– Aê, Hinata. – disse Sakura zombando e piorando a situação de sua amiga que parecia querer cavar um buraco e se enterrar.

As três continuaram a conversar animadamente até que em um estalo mental Sakura se sobressaltou.

– Gente, estamos atrasadas! – disse ela exasperada olhando em seu relógio.

– Mas a sala de bioquímica é aqui do lado. – disse Ino apontando na direção da sala.

– Mas eu me inscrevi em medicina atlética. Tenho que correr para a quadra poliesportiva. Tchau, meninas! – dito isso, Sakura saiu em disparada rumo a sua aula.

Corria apressadamente no campus e por desviar o olhar para seu relógio por um mero instante acabou tropeçando em uma pedra e caindo em cima de alguém. Foi uma queda e tanto. Papéis voaram e celulares se desmontaram.

Em meio a uma série descontrolada de pedidos de desculpa Sakura notou que havia caído em cima de Sasuke. Sentiu seu rosto corar levemente, mas logo se recompôs e ajudou ele a catar os pedaços de seu celular.

Foi quando juntava a bateria do celular de Sasuke que pôde ver que dois convites da festa vip haviam caído de sua bolsa do mesmo.

– Você vai? – perguntou ela juntando os convites e entregando para ele.

– Acho que não, e você? – perguntou ele juntando a mochila dela.

– Não tenho convites. – disse ela.

– Fica com os meus, não pretendo ir nisso mesmo. – disse ele entregando os convites, mas visto que ela só pegou um, continuou. – Toma esse outro, leva aquele ruivo com você. – disse a ultima parte com um tom de desgosto na voz. Quase desdém.

– Gaara? – disse Sakura.

– É, que seja. – disse ele desviando dela e seguindo seu caminho.

Sakura não fazia ideia do motivo do comportamento de Sasuke ou porque ele sugeriu que ela convidasse o namorado de sua amiga para ir com ela, mas agora ela estava atrasada para aula. Este fato a fez ignorar o que acabara de acontecer e seguir correndo, desta vez, olhando para frente.

Três dias se passaram depois do incidente da queda e nem sinal de Sasuke. Se por um lado Sakura estava aliviada por não ter que se esforçar pra manter o controle, por outro estava decepcionada, pois, mesmo que tentasse se convencer do contrário, queria aquele beijo interrompido desde que pousara os olhos no rapaz.

O sábado de Sakura tinha se resumido em uma só palavra: Estudar. Já havia desistido da ideia de ir para aquela tal festa vip, só conhecia Ino e Hinata na faculdade e as duas estariam acompanhadas, tinha Sasuke, mas este não ia, o que faria lá? Encheria a cara?

Pensando os prós e contras de ir pra festa, Sakura resolver, por fim, ficar em casa. Estudaria, assistiria alguma série, leria um livro, faria qualquer coisa que lhe poupasse do tédio.

Após aproximadamente duas horas de estudo, se levantou e foi até a cozinha tomar um copo d'água. Ao chegar lá percebeu que havia esquecido seu celular em cima do balcão da cozinha e o pegou de lá.

Enquanto tomava água, desbloqueou seu celular para checar as horas, mas o que lhe chamou atenção foram três chamadas perdidas de um número não salvo no celular. Resolveu ligar de volta.

Sentou-se a mesa da cozinha enquanto o celular chamava insistentemente.

– Alô?!– disse a voz do outro lado da linha.

– Quem tá falando? – disse Sakura para voz do outro lado da linha.

– Sou eu, Sakura. – ao notar que a mesma permaneceu calada, continuou. – O Sasuke!

– Sasuke? – disse ela – Como você conseguiu meu número?

– Hinata me deu. – disse ele dando de ombros. – Então, você já está pronta?

– Pronta?

– É, para a festa..

– Sasuke, pensei que você não ia à festa. – disse ela confusa.

– Eu não ia, mas estou entediado. – explicou ele. – Se arrume. Busco você em uma hora. Tchau.

Antes que pudesse retrucar, Sakura ouviu um bipe insistente indicando que a ligação havia terminado.

– Arg, que ódio, agora eu vou ter que me arrumar na velocidade de luz. – disse ela saindo da cozinha já em direção ao banheiro.

Tomou um banho sem lavar o cabelo, o que poupou bastante tempo, saiu do banho pingando água por todo o apartamento, havia esquecido a toalha no quarto.

Chegando no quarto se secou e colocou um vestido no estilo tubinho, preto com alguns detalhes em cobre, fez chapinha em seus cabelos já lisos e os jogou pro lado, fez uma maquiagem escura que realçou o verde esmeralda de seus olhos e calçou uma anko boot.

Sasuke chegou minutos antes do combinado, ligou para Sakura avisando que já estava esperando ela em frente ao seu prédio e pediu que ela não demorasse. Sakura escovou os dentes, se olhou no espelho, retocou o batom, se olhou no espelho, passou o perfume, se olhou no espelho pela milésima vez e se perguntou por que estava tão ansiosa.

Apanhou sua bolsa e os convites, desligou as luzes, respirou fundo e desceu ao encontro de Sasuke.

Sasuke estava à espera de Sakura fazia dez minutos. Cansado de ficar sentado sem fazer nada, resolveu desligar o carro e sair do mesmo para tomar um ar.

Encostado na porta do carro, e já discando o número de Sakura para apressá-la, Sasuke pôde ver, num rápido desvio de olhar da tela do celular para o portão do prédio, o que ele julgou ser a figura mais feminina e avassaladora que já tinha visto.

Ela parecia uma felina andando na direção dele, era como se a cada passo que ela ficava mais próxima o coração de Sasuke fosse dobrado. Ela o seduzia sem o menor esforço. Seus olhos verdes faziam a boca de Sasuke secar e as mãos suarem. E ele se perdia nas próprias emoções.

– Quer uma foto? – disse Sakura zombando pelo fato de Sasuke ter encarado ela por cerca de dez segundos sem dizer qualquer palavra.

– Você... Você está linda, Sakura. – disse ele com toda sinceridade que havia em si.

– Você também, Sasuke. – disse ela sorrindo.

Ele abriu a porta e murmurou um "vamos" para que ela entrasse no carro. Entrou no carro também e seguiu para a festa tentando concentrar o pensamento em qualquer coisa que não fosse Sakura, porém era um tanto complicado com seu doce perfume exalando no carro. Como ele queria sentir aquele perfume em seu pescoço.

Chegando na festa entraram juntos, o que ocasionou alguns olhares tortos de meninas apaixonadas por Sasuke.

– Você não precisa ficar comigo se não quiser, Sakura. Não viemos juntos. – disse ao notar que ela corria os olhos pelo salão, provavelmente procurando o "cabeça de fósforo".

– Tudo bem. – disse ela com certa mágoa achando que ele estava se desfazendo de sua companhia e assim saindo de perto de Sasuke para procurar suas amigas.

Achou Ino, mas esta estava dançando animadamente e um tanto indecentemente com Gaara. Andou um pouco mais atrás de Hinata, mas não a achou. Acabou por desistir e ir para o bar. Não ficaria bêbada, mas uma ou duas margaritas não fazem mal a ninguém.

Já estava em seu terceiro copo quando um rapaz bonito e extremamente branco sentou-se no banco ao seu lado.

– Oi. – disse ele com um sorriso amigável no rosto.

– Oi. – respondeu ela.

– Qual seu nome? – perguntou ele pedindo um copo de uísque.

– Sakura, e o seu? – respondeu ela tomando um gole de sua margarita.

– Sai.

Sasuke bebia e conversava com seus amigos e observava Sakura de longe. Viu o rapaz se aproximar dela e puxar conversa. Achou por um instante que ela estivesse traindo Gaara, mas segundos depois o avistou na pista de dança se agarrando com uma loira. Se sentiu um babaca por ter pensado que Sakura estava flertando com ele e por ter agido durante a semana toda como um completo idiota com Sakura. Tinha que se desculpar. Resolveu tomá-la para si, não queria mais nenhum rapaz cercando ela.

Caminhou até o bar interrompendo uma conversa não muito animada entre Sakura e um rapaz branquelo que Sasuke desconhecia. A segurou pela cintura e sussurrou em seu ouvido: - Vem comigo. Já deu dessa festa.

Sakura sentiu um calafrio e sua única reação foi descer do banco amparada pelas mãos de Sasuke e seguir com o mesmo, sem soltar as mãos. Eles saíram do clube onde a festa ocorria e entraram no carro de Sasuke sem trocar sequer um olhar.

Sasuke dirigiu por cerca de cinco minutos e logo pararam em uma praça. Sasuke saiu do carro e deu a volta abrindo a porta para Sakura que desceu do carro e caminhou ao lado dele até um banco.

Os dois se sentaram em silêncio. Sasuke olhou para o céu e avistou uma lua minguante que lhe cativou. Uma brisa fria soprou e Sakura se encolheu. Sasuke desviou o olhar da lua para os olhos de Sakura e concluiu que estes eram mais cativantes do que a própria lua. Sakura pode sentir a alma de Sasuke através daqueles olhos tão negros que a encaravam com tamanha ternura.

As mãos se tocaram levemente, sobressaltando ambos. Devido a um súbito frio nos dedos, e a uma vontade imensa de sentir a pele macia de Sakura, Sasuke agarrou-lhe a mão. Sakura encostou a cabeça em seu ombro e eles permaneceram assim. Calados. Apreciando as desculpas pedidas em silêncio. Apreciando o toque singelo das mãos. Apreciando a paz que um proporcionava ao outro.