Sasuke acordou quando a claridade insistente lhe tocou os olhos. Sentiu as costas doerem e foi impedido ao tentar levantar por braços delicados que lhe envolviam os ombros. Abriu os olhos vagarosamente, piscando algumas vezes para se acostumar com a luz que lhe tocava as retinas. Reconheceu o ambiente, reconheceu o perfume, reconheceu os cabelos cor-de-rosa.
— Sakura? – Perguntou se dando conta de quem era a dona dos braços que o seguravam tão protetoramente.
— Ahn? Sasuke? – Sakura, sobressaltada, apertou mais o abraço. – O que houve com você? Eu fiquei tão preocupada! – Perguntou ao perceber que o mesmo estava acordado.
Surpreendeu-se com a preocupação da menina. Lembrava-se da noite anterior e dos desaforos que disse a ela, não conseguia entender como ela pôde ser tão zelosa depois de todo aquele show. Não se achava merecedor daquele tratamento. E, de fato, não merecia.
— Minha mãe... – Soltou-se dos braços de Sakura sentando-se de frente para a mesma com o objetivo de encará-la. – Minha mãe está morta, Sakura.
— Mas... Como foi isso, Sasuke? – Disse abraçando o mesmo novamente ao entender o motivo do desespero e descontrole do rapaz durante a madrugada.
— Me desculpe por hoje... – Pediu ignorando a pergunta. Não queria falar sobre o que aconteceu.
— Não precisa se desculpar, Sasuke. Está tudo bem. Você só estava-
— Sendo um idiota. Quem sou eu para me intrometer no seu relacionamento com Itachi.
— Verdade, você estava sendo um idiota, mas isso não existe. – Disse ela rapidamente.
— O que?
— Um relacionamento entre mim e Itachi.
— Você não precisa mentir, Sakura, eu vi quando você ligou para ele. Como não se conhecem?
— Mas eu não disse que não o conheço. – Ao notar a expressão interrogativa de Sasuke, Sakura explicou. – Eu o atropelei.
Sasuke automaticamente lembrou-se da ligação de seu irmão a dias atrás e logo tudo fez sentido.
Itachi acordou ao meio dia. Sua cabeça latejava e seu coração também. Não lembrava de outra vez em sua vida em que tivesse chorado tanto. A vontade que tinha era de se punir. Por mais que fizesse o possível para não acreditar, sabia que Sasuke estava certo quando disse que o culpado pelo acontecido havia sido ele. Se ele estivesse lá, ela seria socorrida bem antes e talvez agora estivesse se recuperando.
Mesmo que o médico tenha dito que as chances dela ter sobrevivido, ainda que atendida imediatamente, eram mínimas, elas existiam e Itachi não conseguia tirar esse 1% de chance de sua mãe estar viva de sua cabeça. Se sentia um péssimo filho, um irresponsável e todas aquelas outras coisas das quais Sasuke sempre o chamava e ele nunca ligava.
Passou as mãos pelos longos fios negros tentando em vão mudar o rumo de seus pensamentos. Era tão estranho não sentir fome, sono, sede, cansaço ou mesmo tristeza naquele momento. Era como se estivesse oco de sentimentos. Só sentia uma grande vazio em seu peito, como se lhe fora arrancado uma grande parte do coração.
— Ainda não acredito que pude ser tão idiota. — Disse Sasuke tomando um gole de café.
— Você estava nervoso, Sasuke. Aliás, ainda deve estar. — Sakura parecia compreendê-lo em tudo. Era incrível o modo como ela lhe entendia antes mesmo que ele lhe desse alguma explicação.
Terminaram de comer seus sanduíches na lanchonete próxima ao apartamento de Sakura e partiram sem um rumo certo. Sasuke ia ao volante enquanto ela observava a paisagem urbana, perdida em seus devaneios.
Certo, ela havia ficado ligeiramente encantada pela beleza de Itachi, mas nada havia acontecido e nem aconteceria. Sasuke estava passando por um momento difícil e ela ficaria ao seu lado pelo tempo que fosse necessário, tendo a certeza de que se envolver com o irmão dele quebraria a reaproximação com o ex.
— Para onde estamos indo? — Perguntou Sakura ao se dar conta de que não sabia o destino.
— Para uma praça. Aquela praça. — Sakura rapidamente se lembrou da praça referida. Era a praça deles dois. — Preciso respirar um pouco, esfriar a cabeça. Fui duro com Itachi ontem e a culpa não era realmente dele.
— Você deveria se desculpar com ele. — Sakura sugeriu.
Sasuke permaneceu calado durante o resto do percurso. Sabia que a rosada estava certa, mas não podia deixar de sentir ciúmes ao vê-la dar razão a Itachi. Isso era loucura, precisava se controlar. A menina não era mais nada além de uma boa amiga e para exigir algo dela, teria que tê-la de volta. E era exatamente isso que faria.
Não demorou muito mais para que finalmente chegassem a praça referida. Também não esperaram demais para encontrar uma vaga para estacionar o carro e descer, indo em direção aos bancos de concreto que lá haviam, jazidos perto de algumas árvores.
— Senti sua falta nesse tempo. — Sasuke disse após sentarem no mesmo banco daquela noite. Seus corpos estavam próximos e era bem possível que estivessem sentido cada pelo de seus corpos arrepiar. O silêncio, que não chegou a durar mais que cinco segundos, pareciam horas e o fazia clamar por uma resposta de Sakura. Um "que bom", pelo menos.
— Eu também senti. — Sakura encarava as borboletas que voavam cercando as flores, respondendo com toda naturalidade. Os resultados foram melhor que o esperado e isso era sinal de que as esperanças ainda estavam muito vivas.
— A gente ainda vai ficar junto um dia? — Perguntou inseguro.
— Calma, Sasuke. — pediu sem olhá-lo, ainda —Vamos com calma. Por enquanto somos só amigos, mas não sabemos do dia de amanhã. — completou, tentando não magoá-lo. Sakura ainda sentia algo muito forte por ele, mas não sabia se deveria insistir num relacionamento amoroso com o rapaz. Sempre que fazia isso, acabava se machucando. – Eu tenho medo de me magoar de novo. E te magoar.
— Tudo bem. — concordou — Mas fique por perto. Preciso de você. – Continuou com sinceridade.
— Eu estou aqui. Sempre estarei. — Sakura encostou a cabeça no ombro do rapaz, fazendo-o fechar os olhos para apreciar o momento. Ela o fazia muito bem.
A noite chegou e, como de costume, Sakura se arrumava para o trabalho. O dia fora muito cansativo e turbulento, mas seu trabalho não tinha ligação alguma com seus problemas pessoais. Precisava arcar com suas responsabilidades.
Pegou seu carro e, absorta em seus pensamentos, quase bateu um ciclista. Lembrou de Itachi imediatamente. Mesmo tendo pouca convivência com o moreno, preocupava-se com o mesmo. Ele devia estar tão mal quanto Sasuke. Talvez mais por conta da morte de sua mãe. Tentaria conversar com ele no dia seguinte.
— O que você tem hoje, Sakura? Está tão calada. — Pain indagou enquanto preparava alguma bebida.
— Não dormi muito bem hoje. Aconteceram umas coisas aí. — Disse tentando evitar o assunto.
— Tudo bem, se não quer contar. Mas estou aqui caso precise conversar. — Sugeriu gentilmente.
— Obrigada, Pain.
Sakura servia alguns rapazes quando avistou Itachi em uma mesa ao fundo do bar. O mesmo parecia embriagado. Seu cabelo estava bagunçado (o que era estranhamente sexy), tinha olheiras nos olhos e usava a mesma roupa do dia anterior. Suas expectativas foram confirmadas: ele estava bem pior que Sasuke.
Pediu a Pain que lhe desse um tempo, coisa rápida, e o mesmo concedeu. Tirou seu avental e deu a volta no balcão, indo em direção a mesa de Itachi.
— Ei, Itachi. — ele não a deu atenção. Parecia estar em transe enquanto encarava o copo de cerveja. — Ei, olha pra mim! — Sakura sacudiu seu braço em frente ao seu rosto, fazendo com que o mesmo despertasse.
— Oi, Sakura. — Respondeu por fim.
— Você não está bem. — acariciou-lhe as longas madeixas negras. — Você nem mesmo tomou banho desde ontem.
— Não consigo fazer nada, Cherry. Não tenho vontade, não tenho força. — Ele parecia prestes a chorar.
Sakura o abraçou, não podia vê-lo assim tão triste. Era estranho o apreço que nutria por Itachi, tendo o conhecido há tão pouco tempo. Sentiu um aperto no coração quando seu choro lhe molhou o ombro, onde a cabeça do rapaz repousava.
— Eu devia estar lá, Sakura, e eu não estava. Ela se foi por minha culpa e eu não posso fazer nada agora! — Itachi chorava e falava com tom baixo, como se falasse para si mesmo e não para Sakura.
— Espere um instante. Eu vou tirar você daqui.
Sakura correu até Shikamaru, que estava em seu escritório, nos fundos do bar. Relatou o acontecido ao mesmo e pediu que a dispensasse apenas no resto daquela noite. Shikamaru a liberou e ela lhe pediu mil desculpas pela falta de compromisso, mas não podia deixar Itachi naquela situação.
— Vamos embora daqui. —Sakura disse para Itachi, que ainda jazia sentando à mesa com um copo de cerveja quase vazio na mão.
O rapaz cambaleava no caminho do carro de Sakura e após entrar no mesmo, perguntou aonde iriam. Sakura percebeu que ainda não havia pensado nisso. Resolveu, por fim, ir para seu apartamento. Afinal, além de saber o caminho do mesmo, nele não haveriam lembranças da mãe de Itachi que pudessem deixá-lo pior do que estava.
— Vamos para a minha casa.
Itachi permaneceu calado, não conseguia completar seus pensamentos devido à grande quantidade de álcool presente em seu corpo. Ao chegarem, sentou-se ao sofá da sala. Sakura tirou sua camisa e o mesmo estava suado. Talvez pela bebedeira, talvez pelas fortes emoções que sentia.
— Vamos tomar um banho.
— Você vai comigo? — Itachi perguntou confuso.
— Só vou levar você até lá. — Sakura respondeu antes de apoiar o braço do rapaz em seu ombro para levantá-lo. — Vamos.
Andaram, ambos com dificuldade, até o banheiro do quarto de Sakura. Itachi se encostou na parede do banheiro.
— Tire sua calça, Itachi. Você consegue?
Itachi tentou diversas vezes, mas acabou por desistir depois de cair sobre a pia. Sakura, por fim, aceitou que teria que fazer isso e tentou ser o mais fria e controlada possível para não corar feito um tomate. Abaixou-se, retirando a calça de Itachi rapidamente e, após isso, encarar diretamente seu instrumento perceptivelmente elevado por baixo da boxerpreta. Tudo bem, só faltava aquela peça. Respirou fundo e, enquanto cerrava os olhos, tirou a cueca do rapaz e procurou não olhar mais para frente.
Lenvantou-se e, observando aquele deus em sua frente. Sakura não pode deixar de pensar que em outros momentos, ambos acabariam na sua cama. Mas, agora, não poderia fazer isso. Não com Itachi deprimido e bêbado.
— Já pode parar de me secar, Sakura. —Itachi disse despertando Sakura de seus devaneios.
— Não estava te secando. Vamos, entre logo no chuveiro.
— Você estava sim.
— Você está bêbado, não consegue tirar a própria cueca. Deve estar começando a ter alucinações também. Só pode.
Itachi, ignorando os deboches de Sakura, virou de costas e entrou no box do banheiro, fechando a porta do mesmo em seguida.
— Vou ficar aqui do lado de fora. Do jeito que você está, é bem possível que caia.
O tempo passou e Itachi não produzia um ruído sequer, apenas se ouvia o som das gotas de água caindo no chão. Sakura, se dando conta disso, sentiu uma súbita preocupação invadir seu peito e num impulso abriu a porta do box, deparando-se com Itachi em prantos, sentando no chão com as pernas abraçadas pelos braços e a água lhe escorrendo as costas delgadas.
— Itachi. — Sakura murmurou antes de se ajoelhar em frente ao rapaz e abraçá-lo sem se importar com a água que lhe molhava as roupas.
O moreno não conseguia nem se mover. A vontade de abraçar Sakura de volta era imensa, mas parecia estar paralisado em meio a tristeza que o consumia como areia movediça. Sakura pedia que ele se acalmasse enquanto o mesmo apenas chorava e tremia envolto em seus braços.
— Itachi, olhe pra mim. — pediu ao segurar a cabeça de Itachi em frente a sua, enquanto o mesmo permanecia de olhos cerrados. — Itachi, olhe pra mim! — o rapaz abriu os olhos molhados de lágrimas vagarosamente. — Eu estou aqui com você. Você não está sozinho. Nunca estará. Por favor, não fique assim.
As palavras de Sakura acalmaram o rapaz aos poucos e ambos mantinham o contato visual. Brigas, perdas, gritos... Uma vez perdidos no olhar um do outro, nada daquilo fazia sentido. E, como ímãs, as bocas se aproximaram de forma inconsciente e, antes mesmo que pudessem notar, trocavam um beijo ansioso, quase desesperado, como um beijo que se espera há muito tempo.
