Capítulo 4 - A Noite

Durante a noite, eu ouvi Edward.

Eu tinha me levantado algumas horas depois que Emmett e Rosalie foram embora, suas vozes sumindo pelo bater da porta da frente. Eu permaneci imóvel na escuridão da casa silenciosa e desconhecida, até que fiquei muito desconfortável por estar parada.

O botão da minha calça jeans estava cavando em meu estômago, eu podia sentir a pequena marca vermelha que estava esfregando na pele logo abaixo do meu umbigo. Quando rolei, minha camisa torceu, a emenda esticando através do meu estômago como uma corda fina.

Sentei-me em frustração e balancei meus pés no chão, afastando-me da cama para procurar cegamente através das minhas malas até que senti algo que parecia uma calça de pijama macia de flanela e o disforme volumoso de uma grande camisa. Troquei a roupa que eu tinha usado durante os últimos três miseráveis dias e as joguei no chão, pensando em pegá-las pela manhã. Ou talvez eu não as pegasse. Se Edward viesse até aqui, eu sabia que isso iria irritá-lo.

Fiquei de calcinha – sentindo nojo - e olhei para a cama, que ainda estava perfeitamente arrumada. Eu não consegui puxar os cobertores cheirando como eu estava. Com um suspiro, peguei meu pijama nos braços, junto com um frasco de shampoo, um sabonete e uma camisa extra para que eu não tivesse que pedir uma toalha a Edward, e fui em busca de um chuveiro.

Todo o segundo andar estava escuro. Achei que Edward ainda estava lá embaixo porque não havia uma única luz em qualquer lugar perto de mim. Tropecei ao redor através de um segundo quarto que era contíguo ao corredor estreito. À minha direita vi uma porta que estava entreaberta. Eu podia apenas ver o chão com azulejos brancos, de cor azul na tira do luar que entrava pela janela. Empurrei a porta completamente aberta e tateei procurando por um interruptor de luz.

Quando as luzes se acenderam, eu pisquei várias vezes, a luz veio forte em meus olhos. Uma pia de mármore verde, um vaso sanitário no canto e uma grande banheira com uma cortina de chuveiro em torno dela. Escorreguei para dentro e fechei a porta atrás de mim, esperando que eu fosse silenciosa o bastante e que Edward não pudesse me ouvir. Se ele estivesse dormindo, eu não queria acordá-lo.

Joguei minhas roupas na pia e rapidamente liguei o chuveiro, o sentimento de alívio passando através de mim. Retirei minha calcinha - que estava grossa com o suor seco - e mal consegui rasgar a cortina para fora do caminho antes de pular sob o fluxo de água.

Quando o spray quente bateu em minha pele, eu tive que abafar um gemido.

Correndo sabão em todo meu corpo, senti como se estivesse renascendo. Lavando a dor da coragem e o medo de vir a este lugar. Eu tinha feito isso e eu ainda estava viva porque não importava o quanto ele estivesse irritado, Edward não podia me quebrar. Eu massageei o shampoo no meu couro cabeludo, alegrando-me com a sensação das bolhas e tirando os emaranhados gordurosos. Derrubei minha cabeça para trás e deixei a espuma branca passar pelas minhas costas, saboreando a sensação sedosa disto.

Assim que senti a força retornando aos meus membros, o chuveiro ficou sem água quente.

O fluxo frio atacou-me tão de repente que foi quase doloroso. Eu dei um pequeno grito de surpresa e desajeitadamente me enrosquei com a cortina, tentando fugir das chamas de gelo que lambiam a minha pele. Rastejando sobre o lado da banheira, escorreguei contra o mármore liso e me bati com uma pancada alta quando meu quadril atingiu o chão.

Gemi e rolei para as minhas costas, nua e molhada, olhando para a pequena luz no teto.

"Claro." Murmurei para mim mesma. Com um suspiro resignado, rolei para o meu estômago e empurrei-me para as minhas mãos e joelhos, murmurando maldições para as casas antigas com má qualidade de água quente.

Foi quando eu o ouvi.

O tilintar suave de um piano desafinado rolando acima das escadas da frente, um pouco abafado pela distância e pela porta do banheiro entre nós.

Eu congelei e ouvi atentamente, tentando determinar se ele estava irritado.

Ele era sempre bem fácil de ler quando estava tocando piano. Essa era uma das únicas vezes que ele era assim. Ele sempre demonstrava o que sentia, completamente inconsciente. Eu tinha dito a ele isso uma vez há muito tempo e ele tinha murmurado algo, seu rosto vermelho do rubor da vergonha, e disse a mim que tinha que começar a trabalhar.

Ele tocava apenas tristeza agora e eu sabia que era pelo seu pai.

Ele não tinha me escutado, eu não o tinha acordado.

Respirei um suspiro de alívio e me levantei, secando-me com uma das minhas camisas. Então eu puxei a seca sobre a minha cabeça e deslizei a calça do pijama rapidamente, esperando que pudessem dissipar o frio. Pegando a minha roupa íntima e deixando o shampoo, eu abri a porta a esgueirei-me para a cama.

A música ficou mais forte, pois se desviou até mim sem impedimentos. Eu me perguntava se eu seria capaz de ouvi-lo do meu quarto no fundo da casa.

Sem sequer pensar no que eu estava fazendo, com a roupa íntima enrolada na minha mão esquerda, eu lentamente desci as escadas.

Segui o som e a luz ofuscante da sala até o salão principal. Era muito pequeno, coberta de parede a parede com livros. Havia duas poltronas confortáveis e um grande sofá de couro verde-escuro no canto com uma lareira de pedra escura. As paredes eram de uma madeira escura bonita, a cortina vermelha profunda com franjas douradas. No fundo da sala – empurrado contra a parede oposta com três grandes janelas - estava um piano velho, de encosto alto. E tocando, seu corpo de costas para mim, estava Edward.

Encostei-me no batente da porta e cruzei os braços apertados sobre o meu peito. Meus dedos roçaram minhas costelas, que se tornaram mais proeminentes nos últimos dias. Eu podia sentir a água do meu cabelo escorrendo pelas minhas costas, me resfriando enquanto eu ouvia e observava. A música era sombria, seus dedos tão fáceis e tão miseráveis.

"O que você quer?" Sua voz me assustou. Ele não perdeu uma nota.

Eu rapidamente me levantei ereta, deixando cair meus braços com a surpresa. Ele não tinha nem virado a cabeça, mas ele sempre sabia que eu estava lá.

"Eu estou com fome." Eu disse simplesmente e verdadeiramente. Nós não tínhamos comido muito nos trens. Outro luxo que supostamente não podíamos pagar.

Ele parou de tocar por um instante, seus dedos repousando sobre as teclas levemente, sem pressionar para baixo. Eu vi seus ombros tencionarem por um momento. Então ele se virou para mim.

Seus olhos brilharam em meu rosto, percebendo meu cabelo molhado e a aparência simples. Seus olhos percorreram meu corpo rapidamente, como se ele estivesse procurando algo. Eu pensei que eu poderia ter imaginado isso porque ele estava olhando direto para meu rosto novamente e encolhendo os ombros.

"Não há nada para comer na casa." Ele disse enquanto se virou e voltou a tocar.

Eu corei ligeiramente em aborrecimento. Ele tinha me arrastado para cá, taciturno e de luto, e parecia decidido a fingir que eu não existia. O mínimo que ele poderia fazer era tomar conta das minhas fodidas necessidades básicas.

Esfreguei minhas mãos para cima e para baixo dos meus braços, tentando dissipar o frio e a frustração, quando tive uma idéia.

Com um leve sorriso, eu me virei e me dirigi para o que eu sabia ser a cozinha. Acendi a luz e fui para a despensa. Abrindo o armário esculpido, fiz uma busca rápida, passando pelos sortidos - muito caros - licores até que encontrei uma garrafa de gim. Agarrando-a, voltei para a cozinha e remexi nos armários até que encontrei um copo. Edward ainda estava tocando.

Voltei para a biblioteca e entrei sem qualquer trepidação, enroscando-me em uma das grandes poltronas de modo que eu estava de frente para ele, um copo de gim na minha mão. Eu o bebi e observei, esperando que ele me reconhecesse enquanto eu escutava a sua bela e irritante música.

Ele nunca me olhou.

Estremeci um pouco quando terminei o copo num gole final e o coloquei sobre a mesa ao meu lado. Seu modo de tocar vacilou um pouco e eu me perguntei se ele tinha ouvido o barulho do copo.

Eu senti a constante e pulsante queimação no meu estômago quando meus olhos fixaram em suas costas. Os músculos e ossos de suas omoplatas se movendo por baixo da camisa como ondas em toda a superfície do oceano, rolando e sacudindo enquanto o sabor do álcool ficava na minha boca.

A primeira vez que eu o vi, esse mesmo gosto estava na minha língua. Eu estava rindo, bêbada, vendo minhas amigas beijando seus meninos e desejando desesperadamente que eu estivesse beijando alguém também. Eu queria sempre estar beijando alguém.

Ele tinha deslizado no banquinho ao meu lado, tímido e desajeitado, mas com uma luz irresistível em seus olhos, fixados apenas em mim.

"Posso te pagar uma bebida?" Ele perguntou educadamente, apenas uma sugestão de um sorriso em seu rosto. Ele estava nervoso, mas era muito bom em esconder isso. Isso, ou ele tinha um inferno de auto-respeito, mesmo que ele não tivesse muita autoconfiança. Eu não tinha conhecimento de que algo assim era possível até que olhei para o seu rosto, timidamente esperançoso com a sugestão de um sorriso maroto.

Olhei pra ele de cima para baixo sem pudor, todas as formas esquecidas, avaliando-o como se fosse um pedaço de carne. Ele era magro e pálido, seu cabelo era uma confusão diabólica que parecia que nunca tinha sido escovado. Ele estava usando uma camisa branca de botões que estava abotoada até o topo, com uma gravata preta fina. Sorri para ele, a ponto de rejeitá-lo com tanto tato quanto eu era capaz naquele ponto da noite, que, honestamente, não teria sido muito mais.

Mas então eu vi Jessica e Lauren, ainda presas aos seus namorados pelos lábios e poucas partes menos saborosas de seus corpos. Senti uma pontada de indignação, que logo foi substituída por uma travessura.

Eu me virei para o rapaz na minha frente e sorri para ele. Inclinei-me um pouco e agarrei sua gravata. Seus olhos se arregalaram de surpresa, mas ele não me afastou. Eu soltei a gravata e desabotoei três botões, expondo uma pitada pálida da sua clavícula angular. Então eu me virei para o garçom e pedi um gim com tônica.

O menino levantou os olhos para mim um pouco. "Um gim-tônica?" Ele perguntou com curiosidade.

Eu ri e peguei o copo quando o garçom o trouxe, tomando um gole generoso. "Tem gosto de árvore de Natal." Expliquei.

"Claro que sim." O rapaz sorriu e parecia estar segurando uma risada. Então ele estendeu a mão, seus olhos ficando graves e sérios. "Eu sou Edward".

"Bella." Eu concordei, pegando sua mão e apertando-a firmemente com outro sorriso largo.

"E o que você faz, Bella?" Edward tomou um gole da sua cerveja, seus olhos curiosos nunca deixando os meus.

"Eu sou uma estudante daqui." Eu sorri. "E você?"

Eu poderia dizer que ele era mais velho do que eu, embora eu não pudesse dizer o quanto. Talvez ele fosse um estudante de graduação, talvez apenas alguns anos mais velho que eu.

Ele tomou um longo gole da cerveja quando olhou seu colo antes de encontrar meus olhos novamente com um encolher de ombros auto-depreciativo. "Eu sou microbiologista".

Não era um estudante, então.

Eu sabia que ele esperava que eu ficasse impressionada, boba com as grandes palavras que eu não entendia. Eu não era uma idiota e eu entendi a palavra. A palavra e muito mais. Ele era um daqueles falsos médicos que gastavam todo seu tempo em laboratórios e, com todas as probabilidades, raramente freqüentando bares. Dei uma olhada no que ele estava vestindo, o que ele fazia para viver e a calma do seu rosto e em menos de três segundos eu achei que ele estava caidinho. Não me senti nem um pouco culpada por isso.

Eu era a sua novidade, então.

"Bem, isso parece absolutamente fascinante." Eu disse atrapalhada, sarcástica e extremamente paternalista.

Achei que isso poderia ser de duas maneiras. Ele poderia pensar que eu estava mais sóbria do que eu estava e se afastaria ofendido, ou ele acharia que eu estava mais bêbada do que eu estava e faria uma investida em mim.

Ele parecia estar mais inclinado para esta última.

Mas, no final, ele não fez nada disso. Ele não fez um movimento e ele não olhou para mim como se eu tivesse apenas brincando com ele sobre sua profissão. Ele fez algo que eu não tinha encontrado em um tempo: ele disparou de volta.

"Eu lhe asseguro, é muito pouco interessante para várias pessoas." Ele abaixou a cabeça um pouco, sorrindo torto, o que de repente eu achei cativante.

Ou talvez eu estivesse simplesmente bêbada.

De qualquer maneira, fiquei intrigada.

"Bem, eu não sou várias pessoas." Eu me inclinei para frente novamente, sugestivamente. "Por que você não me testa?"

Edward não perdeu o duplo significado. Eu não queria que ele perdesse.

Seus olhos se arregalaram de surpresa e sua boca caiu ligeiramente aberta, claramente não esperando um avanço desses tão cedo. Virei minha cabeça levemente pela sua reação inocente, minha curiosidade crescendo. Eu o vi lamber seus lábios. Eles eram rachados e finos e eu não tinha absolutamente nenhum desejo de beijá-los, mas eu beijei mesmo assim. Pressionei minha boca à sua com rapidez, separando meus lábios apenas o suficiente para respirar em sua pele quente por um segundo. Foi agradável e bêbado e completamente normal.

Então eu ouvi Jessica e Lauren falando alto; obviamente perguntando onde eu estava. Eu me afastei e me virei, acenando.

Olhei de volta para Edward. Ele estava olhando para mim em choque, completamente sem palavras.

Eu ri, orgulhosa de mim mesma.

"Essa é a minha dica, Edward." Eu suspirei e engoli o resto do meu gim-tônica. Limpei minha boca e vi seus olhos se fixarem na pequena gota do líquido que escorria ao longo do exterior da minha mão. "Obrigada pela bebida".

Com uma piscada, eu me prendi aos braços de Jessica e Lauren e saí do bar para o ar da noite.

A música parou de tocar abruptamente com um estrondo e eu pisquei fora das minhas memórias, encontrando que meus olhos ainda estavam presos sem hesitação nas costas de Edward. Ele estava curvado agora, seus cotovelos sobre as teclas, suas mãos fechadas em punhos em seu cabelo com força. Sua respiração estava estável, ele não estava chorando.

Eu me levantei e peguei o copo vazio da mesa ao meu lado.

"Eu vou para a cama." Eu disse rapidamente, e saí da sala sem esperar por uma resposta, ou uma confirmação.

Meu ritmo acelerou enquanto eu subia as escadas. Eu estava quase correndo quando eu fiz meu caminho pelo corredor.

Quando cheguei ao quarto frio no fundo da casa, deixei o copo sobre a cômoda e peguei as minhas roupas do chão, colocando-as longe sem um som. Então eu puxei os cobertores da cama e me deitei.

Fiquei ali, quieta e acordada, ouvindo o tilintar de garrafas no armário de bebidas e o som do interruptor de luz da cozinha quando ele a desligou.


Nota da Irene: As lembranças da Bella me matam. Eu fico me debatendo para saber o que os levou ao que eles são hoje. É bom saber que eles um dia foram um casal normal... ou quase... Até quinta que vem. Reviews são bem vindas. Bjus