Capítulo 8 - O Carro

Conviver com Edward era tão horrível como eu pensava que seria.

Eu o evitava há quase uma semana quando ele invadiu a cozinha enquanto eu estava enchendo um copo de água da torneira e me disse que me levaria para o mercado. Ele saiu da cozinha sem me dar a chance de inventar uma desculpa, ou recusar educadamente. Eu estava tão surpresa, tão faminta, que eu provavelmente não teria recusado, de qualquer maneira.

O silêncio pairava sobre a casa completamente e eu estava começando a sentir a tensão atingir o seu ponto de ebulição, pedindo por algum tipo de libertação. Nós não havíamos dito duas palavras um ao outro desde o dia em que ele me disse que estava se mudando para cá por tempo indeterminado e desde que eu tinha dado apenas uma indicação vaga da minha intenção de ficar com ele.

Era tão terrivelmente óbvio que ele não me queria mais, que ele esperava que eu voltasse para Nova York no instante em que ele me ofereceu. Ele me ignorou completamente pelos próximos dias, já não trazendo comida para mim à noite. Isto me forçou a ir à caça nos armários e suportar qualquer sopa enlatada, ou legumes, que encontrava lá. Não era muito, mas me sustentava e permitiu-me ignorá-lo explicitamente em resposta.

Eu só podia supor que ele tinha começado a trabalhar no hospital de Colorado Springs na segunda-feira, já que ele saía todas as manhãs, desde aquele dia, vestindo roupas bonitas e um jaleco branco com seu nome bordado no bolso. Ele nunca mencionou isso para mim, no entanto. Inferno, ele mal tinha olhado para mim até a manhã de quinta-feira, quando anunciou que faríamos compras juntos.

Eu me arrastei até o carro como se eu estivesse caminhando para a minha própria execução, a única coisa mantendo-me em movimento foi a profunda fome e o desespero que eu sentia na boca do meu estômago. Deslizei para o carro prata e percebi que não era o mesmo carro prata alugado. É claro, ainda era prata, mas o interior era de couro verde-escuro, em vez de preto. Eu me perguntei se ele havia realmente comprado um carro. Eu realmente não queria perguntar a ele.

Edward se jogou no banco do motorista ao meu lado e ligou o carro, saindo para a rodovia com uma velocidade desnecessária. Ele não estava olhando para mim, ou falando comigo, mas era ainda a maior atenção que ele me deu em seis dias.

Eu sabia que as coisas teriam sido mais fáceis para mim, e talvez para ele, se eu tivesse simplesmente expressado verbalmente a minha vontade de permanecer no Colorado. Mas eu não tinha certeza de que eu poderia fazer isso. Eu não queria ficar aqui e ele sabia disso. Dizer as palavras em voz alta as tornaria muito reais, muito definitivas. Isso significaria que eu tinha tomado uma decisão, que eu havia pensado nas duas opções diante de mim e que eu tinha escolhido uma sobre a outra. Eu não tinha certeza se eu estava pronta para lidar com isso.

Toda noite eu pensaria em ir embora. Eu pensaria em roubar seu carro prata e dirigir para Colorado Springs, ou Denver, e voar para longe dali. Eu ficaria deitada acordada durante horas e fantasiaria sobre todos os lugares que eu iria, todas as coisas que eu faria quando eu estivesse livre dele. E então eu me lembrava do que eu era, o que minha vida era, e eu rolaria e dormiria.

Mais do que ter medo de ir embora, mais do que ter medo de ficar, eu tinha medo do que Edward diria. Parte de mim estava com medo de que ele me recusasse, que ele me mandasse de volta a Nova York com um olhar duro e os papéis do divórcio. E se ele não fizesse isso? Bem, então ele procuraria uma explicação. Perguntando-me se eu queria ficar com ele na forma de uma pergunta experimental. 'Sim' era uma resposta fácil, o 'por que' era muito mais difícil.

Ele deve ter percebido há muito tempo o que o meu silêncio – o que a minha presença contínua - significava. Ele deve ter colocado tudo junto naquela sua mente brilhante: que eu me recusei a deixar um homem de quem eu tinha medo porque ele era a única vida que eu conhecia agora. E ter medo seria sempre melhor do que ficar sozinha. Ainda assim, ele nunca me fez dizer isto, nunca pediu para ouvir as palavras, nunca me pediu para implorar. Em vez disso, ele me disse para entrar no carro para que ele pudesse me levar para o mercado. Assim ele poderia me comprar comida e eu poderia viver com ele.

Viajamos por quase quinze minutos, só virando uma vez, e então ele estava estacionando o carro em uma pequena vaga. Olhei para cima curiosamente e li a placa pintada na loja: South Park Mercantil. Era um pequeno mercado independente que era uma das únicas empresas que existiam em Hartsel.

Eu vivia aqui agora.

Quando eu saí do carro fiz uma pausa, esperando que Edward desse o próximo passo para perto de mim. Quando ele não saiu do carro, eu olhei de volta para ele através do vidro colorido verde do pára-brisa. Ele olhou para mim, imóvel. Voltei para o carro e abri a minha porta, inclinando-me para ele.

"Você não vem?" Perguntei a ele, insegura.

Em vez de me responder, Edward estendeu seu cartão de crédito.

Abri minha boca para falar, então a fechei sem dizer nada. Arrebatei o cartão da mão dele, sentindo o calor do rubor na minha cara. Eu me endireitei e bati a porta do carro com frustração, girando no meu calcanhar para entrar na loja.

Era quase impossível encontrar alguma coisa reconhecível.

Tudo era orgânico e cultivado aqui e estranhamente peculiar. Evitei o amigável e sorridente empregado quando me esquivei para baixo nos corredores, arrebatando a tudo e qualquer coisa que eu pudesse usar para fazer refeições reconhecíveis para mim. Eu não era uma cozinheira muito boa, mas eu estava com tanta fome que eu tinha certeza que eu não tinha que ser.

Considerei procurar por coisas que Edward gostaria, e rapidamente decidi contra isso. Se ele quisesse alguma coisa, ele deveria ter vindo comigo. Em vez disso, ele me deixou para eu me virar sozinha para sobreviver contra essas pessoas curiosas e felizes e sua curiosa lojinha encantadora. Ele teria que procurar suas próprias refeições.

Paguei por tudo o mais rápido que pude e um homem chamado Mike com um sorriso bonito me ajudou a trazer as sacolas para fora. Eu nunca tinha visto Edward se mover tão rápido como ele se moveu quando pegou as compras das mãos de Mike e as enfiou no banco de trás e no porta-malas do carro prata.

Com um adeus afiado e um aceno de mão, Edward empurrou Mike para longe e deslizou de volta para o seu assento, acelerando o motor. Eu disparei um olhar de desculpas para Mike, que sorriu para mim e acenou antes de voltar para dentro. Abri minha porta e mal a tinha fechado novamente antes que Edward estivesse acelerando para fora da vaga e voltando para casa.

Olhei para Edward, meus olhos arregalados, por vários momentos. Quando ele continuou a não dizer nada, eu me virei para olhar pela janela. Ele sempre parecia tão calmo, tão completamente composto em meio à tensão que eu tinha certeza que acabaria por me esmagar.

Assisti os pastos passarem em ondas, seguindo a linha do fio de telefone com os meus olhos, até que Edward acelerou e eu comecei a ter dores de cabeça.

No momento em que chegamos em casa eu tinha decidido que estava cheia disso.

Edward e eu nunca tivemos longas discussões, nunca conversamos e jogamos conversa fora, mesmo quando nos casamos. Éramos, em geral, um casal quieto. Mas isso era insuportável, e eu podia me sentir quebrando.

Edward desligou o motor com um clique e me esperou sair do carro.

"Você pode levar os mantimentos e colocá-los onde quiser." Ele disse, sua voz calma e firme. Ele não me ajudaria.

Claro.

Sentei-me completamente imóvel, passando minhas mãos contra as minhas coxas, incapaz de me mover. Meus olhos ainda estavam fixos na janela e todo o meu corpo estava rígido.

Eu não acho que ele pensou alguma coisa do meu silêncio até que vários minutos se passaram e ele abriu sua própria porta para sair. Eu o senti parar ao meu lado quando ele finalmente percebeu que eu não tinha feito nenhum movimento para destravar meu cinto de segurança.

Eu o senti lentamente, hesitantemente, afundar em seu assento. Ele deixou sua porta aberta.

Eu estava bastante certa de que ele não falaria primeiro, mas eu não quis arriscar que ele dissesse meu nome, ou perguntasse o que eu estava fazendo. Porque que se dane se eu soubesse essa porra.

Eu me virei tão de repente que vi suas sobrancelhas levantarem. "Isso não vai funcionar." Eu disse abruptamente.

Edward hesitou, olhando para a casa, depois de volta para mim. "O que não vai funcionar?"

"Isso!" Eu chorei, meu desespero e medo e tensão correndo para fora de mim. Eu fiz sinal entre eu e ele vigorosamente. "Este jogo onde você finge que eu não existo a menos que a porra do seu humor se altere gravemente!"

Edward piscou para mim em silêncio por vários momentos, não respondendo.

Respirei profundamente, tentando acalmar-me, antes de soltar, "Você tem que parar de ficar irritado comigo eventualmente".

Isso chegou aos ouvidos dele.

Vi seus olhos cintilarem para a vida e sua boca endurecer em uma linha fina, sua mandíbula enrijeceu e tencionou. "Eu?" Ele vociferou. Sua voz era venenosa.

Eu queria dar um tapa nele. Eu queria sacudi-lo pelos ombros e gritar na cara dele. E então eu queria me sentar lá enquanto ele me batia, gritava comigo. Qualquer coisa menos esta indiferença silenciosa; sua punição dolorida. Alienando-me, forçando-me a viver sem conforto em um lugar estranho, ele certamente sabia exatamente como jogar com as minhas fraquezas.

Agarrando uma das sacolas de mantimento dos meus pés, agarrei a alça e empurrei a porta com meu ombro, soltando o meu cinto de segurança e ficando de pé. Estando fora do carro, eu me virei para enfrentá-lo de modo que, mais uma vez, eu estava olhando para ele.

"Ouça, Edward. Eu decidi ficar aqui, para melhor, ou para pior. Então ou você pode se controlar e começar a se comportar como um ser humano razoável, ou você pode me chutar, porra. Mas o que você está fazendo nesse exato minuto? Deixando-me ficar e continuando a me torturar? Eu não agüento mais essa porra. Especialmente de você".

Virei-me no meu calcanhar, nem mesmo me preocupando em fechar a porta do carro atrás de mim, e corri até os degraus da varanda para a porta da frente. Entrei na casa e joguei a sacola sobre a mesa no corredor, sem sequer olhar para ver o que estava nela. Sem olhar para ver a reação de Edward, fui subindo as escadas da frente em direção ao meu quarto.

Eu nem mesmo senti o frio que geralmente me dava arrepios, o quarto sempre estava uns sólidos dez graus mais frio do que o resto da casa. Em vez disso, o ar bateu no meu rosto aquecido com uma mordida que só aumentou a minha raiva.

Atirei-me na cama, enterrei meu rosto profundamente no travesseiro e soltei um grito abafado. Dei socos no colchão algumas vezes, liberando a energia em excesso e desejando que isso fosse o peito de Edward. Então, ofegante, eu virei para as minhas costas e olhei para o teto enquanto eu continuava a bufar.

Eu não tinha certeza de quanto tempo eu fiquei deitada lá quando ouvi uma batida da porta do carro.

Edward estava saindo somente agora do carro?

Meus dentes ainda estavam cerrados contra a violenta liberação de tensão, eu rolei sobre o meu estômago e empurrei-me para que eu pudesse ver a entrada de carros pela janela.

Edward estava parado na porta aberta do lado do passageiro, olhando para o banco em que eu estive sentada. Eu estava longe demais para ler a expressão em seu rosto, mas suas feições pareciam torcidas com algum tipo de emoção.

Observei, perplexa, quando ele fechou a porta suavemente. Seus dedos pousaram no metal por um momento. Ele permaneceu parado por vários segundos, parecendo estar dividido entre entrar na casa e ficar onde estava.

Então, com um movimento deliberado, ele abriu a porta traseira do carro e pegou um punhado de sacolas do supermercado.

Eu me virei e espremi meu corpo de volta para a cama para que eu estivesse deitada de costas, olhando para o teto mais uma vez.

Com um profundo suspiro, escutei o barulho da porta da frente abrir e fechar por três vezes; notei o ruído dos seus sapatos na entrada da garagem entrando e saindo da casa; e ouvi um barulho e coisas raspando quando Edward colocou tudo que eu precisava nos armários da cozinha.


Nota da Beta:

Então, o que estão achando da fic?

A Nêni já voltou da lua de mel, mas está "doidinha" organizando as coisas da nova vida de casada e a mudança, então vou continuar postando as fics pra ela. Não se preocupem!

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Bjs,

Ju