Capítulo 25 - A Troca

Observei o sol enquanto ele lentamente começou a rastejar em direção ao céu, iluminando a paisagem plana e brilhando a neve derretida. Fiquei na cama, imóvel, e considerei o que eu faria, o que eu diria.

Fiquei entrando e saindo da consciência por toda a noite. Parecia que toda vez que eu me sentia começando a cair no sono, meus olhos se abririam rapidamente e voariam para o relógio. Quase a cada meia hora eu me encontraria olhando para os números luminosos, tentando fazer o tempo se mover mais rápido, rezando para o sol nascer mais cedo.

As palavras que ele disse continuavam ecoando em minha mente, eu não poderia esquecer a expressão em seu rosto, ou a lágrima trilhando em sua bochecha. Meu desejo de ir vê-lo, despertá-lo e confortá-lo guerreava com o meu instinto de fugir e procurar a solidão, ou, ao contrário, afastá-lo.

O resultado destes dois impulsos conflitantes foi que eu fiquei presa à cama, incapaz de tomar uma decisão, ainda assim, completamente incapaz de conseguir dormir.

Será que ele lamentaria ter falado comigo na noite passada, que era um resultado da exaustão e muito vinho?

Eu daria uma olhada para ele e desejaria que ele nunca tivesse vindo?

Tudo sempre parecia diferente na parte da manhã, e com Edward quase sempre parecia pior. Nosso relacionamento era escuridão e negação.

Por volta das oito horas, ouvi o bater de panelas lá em baixo, fazendo-me rapidamente pular na cama. Ouvi passos, a porta da geladeira abrindo e fechando e senti meu coração começar a bater mais rapidamente enquanto eu contemplava o inevitável - eu teria que enfrentá-lo.

O crepitar e cheiro de bacon frito pairou levemente no ar. Joguei as cobertas e saltei para os meus pés, correndo rapidamente pelo quarto e balançando a porta aberta. Eu não hesitei, não parei para um segundo pensamento, antes que eu estivesse derrapando pelas escadas, as minhas meias não conseguindo obter um bom controle sobre a madeira polida do piso. Quando cheguei ao primeiro andar, eu parei e respirei fundo, tentando acalmar meus nervos e a constante batida do meu coração.

Com um aceno final determinado, entrei na cozinha e logo parei ao ver o que encontrei.

Edward estava no fogão, com uma espátula na mão, fritando ovos em uma frigideira pequena. A velha camisa preta que ele estava usando sob seu casaco estava amassada do sono, as mangas enroladas até os cotovelos, seus antebraços expostos. Seu cabelo estava completamente fora de controle, como sempre estava quando ele fazia uma tentativa de domá-lo. Eu olhei para baixo para ver que seus pés estavam completamente nus no chão de pedra fria.

A imagem era tão notavelmente doméstica que eu tive que morder de volta um sorriso.

Ele estava olhando para os ovos na frente dele com intensa concentração, nem mesmo percebendo que eu tinha entrado.

Eu dei outro passo em direção a ele, inclinando a cabeça, finalmente alertando-o da minha presença. "Você fez o café da manhã?" Perguntei a ele baixinho.

A cabeça de Edward virou ao redor quando ouviu-me, piscando seus olhos com surpresa. Eu podia sentir-me começar a corar quando o seu olhar se perdeu rapidamente sobre a minha camisa larga até a minha bermuda. Eu me mexi desconfortavelmente quando seus olhos demoraram um pouco sobre minhas pernas nuas, antes de terminar a sua descida para minhas grandes meias de lã.

Então, ele estava olhando de volta para o meu rossto com um pequeno sorriso.

"Você fez o jantar." Ele encolheu os ombros em resposta. "Sente-se".

Eu não discuti.

Caminhei até a mesa e deslizei na cadeira mais próxima, observando curiosamente enquanto ele separava os ovos mexidos em dois pratos. Ele dividiu o bacon em seguida, e abriu dois muffins na torradeira.

Eu levantei minhas sobrancelhas, impressionada.

Ele olhou por cima do ombro para mim por um momento, perguntando, "Você ainda gosta de ketchup em seus ovos?"

Eu não pude evitar o sorriso que se espalhou no meu rosto. "Sim, eu gosto".

Assentindo sem dizer nada, Edward pegou o frasco de ketchup na geladeira e o colocou sobre a mesa na minha frente, junto com o prato que estava repleto de comida. Peguei um pedaço de bacon, dando uma grande mordida e mastigando devagar quando ele queimou minha boca.

Ele puxou sua própria cadeira e sentou-se diante de mim, cavando em sua refeição ansiosamente. Tossi uma risada quando o vi estremecer, descobrindo como eu que ainda estava quente demais para comer.

"Como você dormiu?" Perguntei a ele, batendo no vidro do frasco de ketchup, tentando colocar um pouco no meu prato. Ele deslizou ao longo do gargalo do frasco relutantemente antes de aterrar em meus ovos em uma grande piscina.

Edward engoliu a comida com algum esforço antes de responder, "Surpreendentemente bem, na verdade".

Levou toda o meu controle para não rolar os olhos para ele.

Claro que sim.

Ele dormiu profundamente no sofá enquanto eu estava estressada e rolava na cama a noite toda, preocupada com o que ele tinha dito, com o que eu estava sentindo, permitindo que a culpa me alcançasse, e em pânico com o que aconteceria na parte da manhã.

Edward estava olhando para o prato de novo, com a intenção de cavar seu alimento, parecendo estar decidido a comê-lo o mais rapidamente possível, apesar de estar quente.

Eu fiquei de pés e andei até a geladeira, retirando a garrafa de suco de laranja. Ergui a sobrancelha para Edward em silenciosa pergunta e ele assentiu com entusiasmo, com a boca cheia. Enchi dois copos e os trouxe para a mesa.

Voltei ao meu lugar, sorvendo o líquido gelado com gratidão.

Ficamos em silêncio por um tempo antes que eu tivesse a coragem de voltar a falar. "Desculpe por eu não ter limpado o outro quarto antes de você chegar aqui".

Edward ignorou meu pedido de desculpas. "Não se preocupe com isso. Eu realmente não queria dormir no velho quarto de Rosalie, de qualquer maneira".

Eu tentei não agir surpresa quando recebi essa informação.

Eu acho que isso não importava muito - o quarto que era dele, o quarto que era da sua irmã - só que cada informação que Edward me oferecia sobre que tipo de casa esta tinha sido, toda vez que ele inadvertidamente me provocava a imaginar a sua infância, eu sentia um impulso incontrolável de curiosidade.

"Bem." Eu respondi, finalmente, me sentindo nervosa. "Eu acho que o seu quarto estará fora de questão por um tempo se formor pintá-lo. Então, quando você vier novamente, se você quiser dormir na cama grande..."

Edward cortou minha oferta incerta abruptamente.

"Eu não estava pensando em passar a noite." Ele declarou simplesmente. "Isso não vai acontecer novamente".

Eu pisquei, momentaneamente sem palavras.

A finalidade com a qual ele disse as palavras foi fria. Suas palavras, seu tom foi semelhante às declarações finaliznado as conversar que ele tinha feito no passado. Só que, por algum motivo, quando eu ouvi sua resposta, ele não parecia rude ou irritado.

Parecia defensivo.

Isso me deu um repente, percebendo que eu tinha feito uma má leitura dele por um tempo muito longo.

"Oh." Eu disse depois. "Tudo bem. Mas se você quiser..."

"O sofá é muito confortável." Ele interrompeu mais uma vez, não permitindo-me terminar a minha oferta.

Eu o estudei cuidadosamente, seu corpo tenso e sua expressão firme. Eu sabia, pelo cerrar da sua mandíbula e o aço dos seus olhos que não havia nenhuma maneira que eu pudesse discutir com ele naquele momento. Mordi meus lábios e olhei para longe, sem saber o que dizer.

"Sério, Bella." Eu o ouvi dizer baixinho. Meus olhos se arrastaram do meu prato ao encontro dos dele. "A cama é sua agora. Eu nunca a colocaria para fora porque eu sou estúpido o suficiente para ficar muito bêbado e cansado para dirigir com segurança".

Eu coloquei o meu garfo no meu prato com um barulho leve e ri, balançando a cabeça e sorrindo para ele.

Os cantos de sua boca se contraíram em resposta. "O quê?" Ele perguntou curiosamente.

Dei de ombros impotente, segurando minhas mãos em sinal de uma rendição bem-humorada. "Eu realmente não sei o que dizer quando você é agradável comigo".

Edward sorriu. "Bem, você poderia começar por dizer 'obrigada'."

"Obrigada." Eu repeti, ainda rindo um pouco. Lentamente eu deixei o sorriso cair do meu rosto e me inclinei para a frente, esperando que eu parecesse verdadeira quando eu adicionei, "De verdade".

"De nada." Edward acenou com a cabeça em confirmação.

"Então." Limpei a garganta, inclinando-me para trás e olhando para o meu café da manhã, na tentativa de quebrar o contato visual com ele. "A quanto tempo você acordou?"

"Algumas horas." Edward respondeu, retomando sua comilança vigorosa.

"Por quê?" Eu perguntei em voz alta.

"Eu realmente tenho que voltar para a cidade".

"Oh." Eu disse, tossindo um pouco quando senti um pouco do muffin grudando na minha garganta. Tomei um gole de suco de laranja para limpá-lo antes de lembrar algo de repente. "Ei, você ligou para a sua mãe? Deixei uma mensagem ontem à noite que dizia que você ligaria para ela de manhã".

Edward balançou a cabeça, sem se preocupar. "Vou ligar para ela quando eu for embora. Dar a ela um tempo a mais para dormir".

Eu balancei a cabeça e peguei o garfo, torcendo-o nervosamente no meu prato, mas não levantando qualquer alimento à boca. "Como ela está?"

Eu podia sentir os olhos de Edward em mim muito de repente enquanto eu continuei a estudar meu prato.

Eu arrisquei um olhar para encontrar o seu olhar e sua expressão pensativa, talvez até suave, enquanto ele considerava a pergunta.

"Ela está indo muito bem, considerando as circunstâncias." Ele disse finalmente.

"Fico feliz." Eu disse honestamente. "E como estão as coisas na casa dela?"

"Bem." Edward acenou com a cabeça, sua expressão ficando distante. "É muito menor do que essa, mas é muito agradável. É mais perto do trabalho, mais perto de Rose, e eu me sinto muito mais confortável sabendo que minha mãe não está sozinha".

Eu sorri.

"Ela tem sorte de ter você com ela." Eu disse sem pensar.

Edward focou em mim imediatamente e baixei os olhos, sentindo meu rosto todo corar em constrangimento.

"Sim." Ele sussurrou após uma batida.

Olhei de volta para ele lentamente, não de toda surpresa ao ver seu olhar ainda fixo sem hesitação em mim.

"Escute, Edward..." Eu comecei nervosamente.

"Hey, Bella!" Ouvi, de repente, a porta da frente sendo aberta e fechada novamente. "Toc, toc!" uma voz chamou alto.

Edward e eu congelamos em choque, olhando um para o outro e depois para a porta da frente. Levantei-me rapidamente, minha cadeira raspando na pedra do chão. Edward seguiu o meu exemplo, a expressão em seu rosto parecia que ele estava prestes a ser pego fazendo algo errado.

Eu realmente não entendi a súbita queimação no meu rosto quando eu percebi a única pessoa que poderia ser.

"Alice?" Chamei em resposta como uma pergunta.

Eu podia ouvir seus passos pequenos fazendo seu caminho em direção à cozinha e ela já estava falando alto e animadamente para mim, mesmo que ela não tivesse chegado até mim ainda.

"Hey Bella!" Ela chamou enquanto caminhava pelo corredor. "Eu só queria ver se você iria até o celeiro hoje, talvez poderíamos trabalhar com Santana um pouco..." Ela virou a esquina para a cozinha e parou abruptamente, seus olhos caindo imediatamente para o outro lado da mesa.

"Edward." Ela afirmou, sem se preocupar em mascarar a sua surpresa.

"Olá, Alice." Ele acenou com a cabeça educadamente. Olhei para ele por um instante, por tempo suficiente para vê-lo se mover desconfortavelmente, antes que eu me virasse para minha amiga.

Ela ainda estava olhando para o meu marido. "Uh... como você está?"

"Muito bem, obrigada." Ele sorriu, parecendo um pouco tenso. "E você?"

Ela acenou com as mãos. "Estou ótima. Eu só estava..." Então ela parou e olhou para mim, então de volta para ele, então para baixo em nosso café da manhã meio comido. "Interrompendo." Ela completou, virando em seus calcanhares. "Eu já vou".

Eu abri minha boca para impedi-la, em seguida, a fechei rapidamente. Eu não tinha certeza se eu deveria impedi-la, se Edward não se sentia confortável ao redor dela. Eu não podia imaginar por que ele não se sentirria, mas...

"Você não tem que ir, Alice." Eu ouvi Edward falar de repente.

Alice parou e olhou para mim para confirmação. Eu me virei para olhar para Edward curiosamente, mordendo meu lábio.

"Então, eu acho que vou começar a me arrumar para ir embora." Edward explicou, com um encolher de ombros.

"Oh." Eu disse, surpreendida pelo seu repentino desejo de partir. "Um... certo".

Eu o vi hesitar um pouco com a minha expressão, mesmo que eu tenha tentado parecer neutra. Eu não tinha certeza exatamente de qual emoção estava escrita na minha cara porque eu não sabia exatamente como me sentia.

"A menos que..." Ele se esquivou, hesitante. "Há alguma coisa que você precise?"

"Não." Eu respondi rapidamente, balançando a cabeça e plantando um sorriso em meu rosto. "Eu estou bem".

"Bem, eu vou... uh... vê-la no próximo fim de semana?" Sua confirmação saiu como uma pergunta.

Eu podia sentir a estranha e desajeitada tensão quebrando ao redor de nós enquanto Alice observava a nossa troca silenciosa. Minhas bochechas continuaram a corar e eu praticamente senti a curiosidade rolando dela em ondas.

"Claro." Eu balancei a cabeça decididamente.

Edward me concedeu um pequeno sorriso e desculpou-se educadamente. Eu dei uma olhada para Alice quando passei por ela, seguindo-o até a porta. Ele colocou seu casaco e as botas em silêncio enquanto eu estava ao seu lado, torcendo as mãos juntas.

Quando ele saiu para a varanda e desceu as escadas para o seu carro, eu não o acompanhei.

Voltei para a cozinha quando ouvi o barulho do motor do seu carro sendo ligado. Eu andei pela sala lentamente, sentindo uma estranha sensação de pavor tremer no meu estômago com a idéia de enfrentar Alice.

Entrando na cozinha, eu encontrei Alice de pé no fogão, pegando bacon frio na panela e o jogando em sua boca. Ela lambeu os dedos quando me ouviu entrar, virando seu rosto para mim.

"Então...?" Ela disse lentamente, levantando as sobrancelhas com expectativa.

Eu balancei a cabeça e peguei os pratos inacabados da mesa, sentindo meus pêlos eriçarem com o seu óbvio interesse. "Não é o que parecia ser".

"O que parecia?" Alice me perguntou com um sorriso.

"Eu não sei." Eu disse, largando os pratos na pia e ligando a água. "Não é o que isso era".

"E o que era?" Ela quis saber.

"Café da manhã." Eu disse a ela secamente.

"Bem, certamente era o que isso parecia ser".

"Bom".

Eu raspei os ovos frios e borrachentos para o lixo antes de colocar os pratos debaixo da água quente e pegar uma esponja para esfregá-los. A água queimou minhas mãos, fazendo minha pele ficar vermelha e irritada, mas eu ignorei a dor.

Alice caminhou para o meu lado direito e pegou os pratos limpos das minhas mãos, pegando um pano de prato para secá-los e empilhá-los ordenadamente no balcão.

"Então, o que ele estava fazendo aqui?" Alice perguntou após um momento de silêncio.

"Há um vazamento no telhado." Eu disse, olhando para ela com o canto do meu olho. Ela parecia estar realmente concentrada em secar um garfo, então eu continuei. "Ele chegou ontem para dar uma olhada".

"E passou a noite?" Sua pergunta foi inocente, mas não pude deixar de ouvir a afirmação implícita.

"Ficou tarde." Eu disse, meu tom defensivo, efetivamente encerrando o assunto.

"Eu entendo." Alice deixou cair.

Eu sabia que era completamente irracional ficar chateada com Alice.

Afinal, tudo o que ela sabia sobre Edward e eu era que nós nos detestávamos, e que ele me expulsou de casa, que brigamos e gritamos e choramos e vivíamos em cidades diferentes. Éramos misteriosos e voláteis aos seus olhos. Eu realmente não podia culpá-la pelas suas perguntas confusas, especialmente depois de entrar em uma casa repleta de estranha rivalidade a qualquer manhã apóas a tensão.

Eu sabia que ela estava apenas perguntando porque ela se importava comigo.

Ou com Edward.

De repente, ocorreu-me o pensamento de que ela era voluntária no mesmo lugar onde Edward passava vários dos seus dias na semana. Eu não tinha idéia de que tipo de relação de trabalho eles tinham, se eles eram amigos ou não, mas certamente isso me obrigava a ver a sua amizade com uma luz diferente. Talvez ela falasse e risse e brincasse com Edward da mesma forma que ela fazia comigo.

"Então, o vazamento?" Alice solicitou, quebrando-me dos meus pensamentos. "É ruim?"

"É somente em um quarto, então... eu acho que não." Eu disse a ela quando coloquei o ketchup de volta na geladeira. "Mas vamos ter que retirar todo o papel de parede e pintar".

"Isso é péssimo." Alice assentiu com simpatia. "Quer que eu pergunte a Jasper se ele pode dar uma olhada no telhado? Ele não cobraria de você, nem nada".

Lembrei-me da expressão de Edward quando eu tinha sugerido contratar alguém.

"Obrigada pela oferta, mas eu acho que Edward realmente quer consertá-lo sozinho." Eu disse com um encolher de ombros, como se não fosse nada demais. "Esta casa é muito importante para ele".

"Eu aposto que é." Alice estava sorrindo novamente.

"Você quer alguma coisa?" Eu suspirei, cruzando os braços quando eu - mais uma vez - mudei de assunto.

"Bem, eu queria ver se você queria limpar as tendas." Ela começou, com um sorriso rastejando em seu rosto. "Mas agora estou pensando que uma pequena troca seria boa..."

Eu senti meu coração saltar uma batida. "O que você quer dizer?"

"Você me ajuda com os cavalos." Ela explicou. "E eu vou ajudá-la a tirar o papel de parede".

Deixei meus braços ao meu lado e senti meu rosto sulcar em confusão com a sua proposta.

"Eu ajudaria você de qualquer jeito." Eu disse a ela honestamente.

"Eu sei disso." Foi a vez de Alice revirar os olhos. "Mas isto é como o mundo funciona. Tenho que ser justa sobre isso".

Eu olhei para ela, em gratidão, sentindo um sorriso começando a puxar os cantos da minha boca.

"Combinado".

Os dias seguintes foram os melhores que eu poderia lembrar em um longo tempo.

Durante toda a semana Alice e eu estávamos volúveis e impulsivas, saltando de uma casa para a outra, numa correria louca pelas colinas como crianças. O tempo estava finalmente começando a esquentar, a neve derretendo e transformando o solo em uma lama fofa. Alice apresentou-me aos prazeres simples da lama e eu redescobri minha afinidade com respingos através das poças - algo que eu não tinha feito desde que eu era uma criança em Forks.

Eu ajudaria Alice com os cavalos na parte da manhã e da tarde. Nas horas entre isso, trabalharíamos em descascar o papel de parede do quarto frio. Quando Alice percebeu como era difícil, ela imediatamente levou o projeto para Jasper, que sugeriu furarmos o papel e pulverizá-lo com água e vinagre para soltá-lo.

É claro, isso fez tudo cerca de dez vezes mais fácil.

Na quarta-feira, Alice impulsionou-me nas costas de Roswell e nós andamos ao redor do campo, sem cabrestos ou selas. Sentei-me com as minhas mãos pressionadas firmemente em sua cernelha e mexi meu quadril ao seu movimento de balanço, tentando não escorregar na lama. Assim que me senti confortável, eu fui capaz de apreciar a altura que ele me emprestou, e o poder que eu pude sentir sob minhas pernas. Meus olhos eram levados para Santana de vez em quando, curiosos para saber como seria andar nele. Ele era muito mais alto do que todos os outros cavalos e muito mais atlético. Eu sorri, imaginando o quão rapidamente ele me atiraria das suas costas.

Foi na quinta-feira que eu me encontrei sozinha no quarto frio, Alice foi para a cidade cedo para ir à clínica. Eu não perguntei a ela se Edward estaria trabalhando lá hoje e não me ofereci para acompanhá-la. Em vez disso, fiquei descascando o papel de parede remanescente na segunda parede.

Era um trabalho tedioso e difícil, e após várias horas, eu desmoronei na cama com um suspiro, preguiçosamente espalhando meus membros em todo o cobertor cheio de papel de parede. Eu ignorei o amassar do plástico embaixo de mim e olhei para o teto por alguns momentos. Respirando constantemente para dentro e para fora, senti uma onda de realização começar a fluir através de mim.

Sentei-me, querendo analisar o meu trabalho mais uma vez antes de descer para me fazer um almoço.

A parede inteira em que estive trabalhando estava limpa, deixando metade do quarto descascado e pronto para pintar. Sorri sozinha, pensando que talvez eu pudesse recorrer a Alice para me ajudar a terminá-lo amanhã para que eu pudesse mostrar a Edward o que eu tinha feito quando ele retornasse neste fim de semana.

Estiquei minhas pernas doloridas, estalando meu pescoço e tentando esfregar a dor longe quando eu me levantei. Mordi meu lábio, olhando em volta para o chão coberto, cheio de papel de parede. Isso me lembrou da pele abandonada de uma cobra. Não havia nenhuma maneira que Edward fosse capaz de dormir neste quarto quando ele viesse trabalhar no telhado, e eu não poderia deixá-lo dormir no sofá novamente. Eu teria que gastar o dia de amanhã limpando o quarto de hóspedes.

O quarto de Rosalie.

Olhei para o relógio, observando que era apenas depois das duas. Suspirei novamente, sabendo que Alice não estaria de volta da cidade por várias horas. Fui até a parede mais distante e comecei a pegar algumas das tiras de papel maiores do chão para jogar fora.

Fiz meu caminho ao longo da parede, recolhendo o lixo quando passei, até que bati na porta do armário. Minha testa franziu quando notei que parte da madeira estava levemente desgastada da água que pingava do teto. Colocando o papel que eu havia coletado em uma pilha ao meu lado, apertei meus lábios e abri a porta.

Eu gemi alto para a visão do interior.

Praticamente vazio de roupas, as paredes do armário estavam pingando e descamando muito mais do que as paredes do resto do quarto. Eu tinha certeza que a lona que Edward tinha pregado no telhado estava protegendo agora, mas não havia maneira de desfazer o dano.

Sem sequer pensar nisso, arranquei algumas camisas que Edward tinha deixado no armário e as joguei sobre a cama coberta de plástico úmido e pesado.

Olhei para as caixas que estavam espalhadas pelo chão. A maioria delas parecia bastante seca ao longo da parede do fundo, mas havia uma grande ao lado da porta que estava toda encharcada. Eu a puxei pela escuridão do armário, o papelão tão encharcado que rasgou em minhas mãos.

Eu a arrastei suavemente para o meio do quarto, onde eu já tinha empurrado a cama, estante, e cômoda em uma pequena ilha no centro.

Peguei as roupas da cama e as puxei fora dos seus cabides, andando até o térreo para lançá-las na secadora. Quando fiz meu caminho de volta até o quarto, balancei minha cabeça imaginando a expressão de Edward quando eu lhe mostrasse o dano recém-descoberto.

Assim que voltei para o quarto, meus olhos caíram imediatamente para a caixa grande que eu tinha acabado de salvar da desintegração. Meus dedos coçaram e eu senti a curiosidade inegável impulsionar através de mim.

Dizendo-me que eu queria apenas verificar para ter certeza de que tudo que estava dentro permanecia intacto, avancei e caí de joelhos ao lado dela. Eu dedilhei nas bordas por um instante antes de puxar a parte superior aberta e olhar dentro.

Havia dezenas de cadernos de couro em diversas cores diferentes.

Estendi a mão avidamente e puxei um para fora, mordendo meu lábio. Abri a capa frontal para ler a inscrição no interior.

Lia-se:

Isso é propriedade de Edward Anthony Cullen.

1995-1996

Pisquei incerta para o caderno - incerta se eu deveria olhar, incerta sobre o que eu encontraria - por vários segundos antes de eu abri-lo na primeira página.

Não era um caderno normal. Não havia muito nas velhas e encharcadas páginas que seriam consideradas como uma típica entrada. Principalmente, havia apenas notas e rabiscos, esboços de penas de insetos e animais. Havia vários esboços de árvores.

Enquanto eu folheava o caderno, comecei a reconhecer que todas as árvores que Edward havia desenhado tinham o mesmo nó grande em seus troncos. Eles eram todos desenhos de uma árvore, em diferentes fases das estações. Ao lado dos esboços estavam pequenas histórias ou notas: criaturas que viviam na árvore, uma aranha estranha que ele viu rastejando em sua casca, e como ele havia lido sob suas copas sombreadas por horas.

Eu continuei virando as páginas rapidamente, olhando seus desenhos e notas com um interesse desmascarado. Eu tinha quase lido o diário inteiro quando um desenho chamou minha atenção.

Esta era uma árvore diferente.

Ou, a mesma árvore, só que... não era a mesma árvore.

Ela havia sido destruída.

O esboço todo estava escuro e preenchido, tornando a aparência da casca estranha e preta. O tronco estava dividido, quase como se tivesse sido dividido em dois por uma força grande, invisível.

Meus olhos se arregalaram quando eu, de repente reconheci a árvore morta no quintal, olhando fixamente para mim nas páginas das memórias do Edward de 15 anos.

Eu olhei de soslaio para a escrita abaixo da imagem. Não era mais como as de antes, e foi escrita mais furiosamente do que qualquer outra coisa que eu tinha visto no diário. Esfreguei meus dedos ao longo de cada linha enquanto tentei ler.

Um assalto de claridade e tudo está destruído. Menos de um segundo de beleza e luz e eletricidade e a vida alegre se torna cinzas. Um pai que quer se livrar do quintal do que já não pertende aos vivos. Eu implorei. Implorei a ele para não cortá-la. Há ainda uma vida que pode surgir. Eu nunca senti essa tristeza antes, essa traição. Não há razão dita quando eu sinto isso, mas eu sinto.

Sempre fatos e estudos e realidade e uma árvore se parte e eu nunca senti tanto.

Havia mais ali, mas eu realmente não conseguia decifrar.

Todo o texto do diário era assim: notas escalonadas e frases fragmentadas.

Ele escrevia como pensava.

Era muito estranho pensar em um cientista escrevendo do jeito que ele escrevia. Eu o teria imaginado - mesmo como um adolescente - escrevendo frases perfeitas. A maior parte do que ele tinha anotado faltava a excentricidade do artista, mas ainda parecia distintamente como uma tortura da alma. Em vez de paixão e amor, Edward gritava com números e nomes.

Exceto por esta passagem.

Havia dor e medo e confusão gritando de cada palavra sobre a árvore carbonizada. Frases e palavras sagrando juntas, uma falta de ordem e calma. Eu podia ver em suas notas um eco do caos no quarto principal, os gritos no alto das escadas. Essa parte dele - a intensidade e o fogo - que eu nunca tinha visto nele antes, eu estava vendo isso agora.

Engoli de forma audível, fechei o diário e o coloquei de volta na caixa.

Eu hesitei por um momento, lutando contra o desejo quase incontrolável de ler mais.

Eu queria pegar outro daqueles cadernos de couro e devorar página após página. Eu queria saber o quão longe sua escrita me levaria. De volta para suas primeiras palavras escritas? Eu veria através do tempo onde nos conhecemos no bar? O que ele escreveria sobre mim? Eu estaria calma e catalogada como as plantas e os insetos? Eu seria uma árvore em chamas?

Eu estava praticamente tremendo com a minha necessidade de saber.

Mas não era só sobre mim. Eu encontrei-me me perguntando o que ele escreveu sobre Esme e Carlisle e Rosalie, o que ele escreveu sobre seus amigos e sua escola e sua tarefa de casa, o que ele escreveu sobre as garotas que ele namorou, ou suas músicas favoritas, ou os insetos que ele observou. Eu queria saber todos os pequenos detalhes, cada pequeno conhecimento, e cada pequeno pensamento.

E através de toda essa necessidade e desejo e insaciável curiosidade, eu dobrei as laterais da caixa para fechá-la em cima.

Não havia nada que eu pudesse encontrar nesses diários.

O homem que me trouxe para esta casa era diferente do garoto que ele havia sido. Ele não era mais inocente, ele não era curioso e aventureiro, e ele não era um cientista. Ele mesmo havia me dito isso.

Quando eu estava prestes a empurrar a caixa para debaixo da cama, algo chamou minha atenção.

Estava preso junto à lateral da caixa, entre os cadernos e o papelão. Eu puxei o retalho do topo novamente, mordendo meu lábio quando percebi por que parecia familiar.

Era o pequeno livro de couro de poesia.

Parecia que tinha sido anos atrás que eu o havia cavado para fora dessa caixa na mesa da cozinha, exatamente antes de eu ter quebrado a lâmpada de Edward. Eu o havia deixado na mesa da cozinha quando eu subi as escadas, deixando Edward limpar os cacos de vidro e sangue.

Pela segunda vez, estendi a mão para dentro puxar o livrinho de dentro da caixa e olhei para ele. Eu o segurei na minha frente e passei a palma da minha mão esquerda sobre a sua superfície, sorrindo para a suavidade do couro.

Eu li a inscrição no interior novamente.

Segurei o pequeno livro em minhas mãos, olhando para ele com curiosidade, e não sentindo vontade de embalá-lo para longe com o resto dos cadernos. Essas eram as memórias de Edward, seus pensamentos particulares e medos e desejos. Eu não tinha nada com isso.

Mas este livro? Este livro, sem dúvida, era para mim.

Se alguma parte de mim reconhecia que Edward nunca o tinha dado para mim, e que ele poderia ter tido uma razão para não me dar, eu a ignorei. Eu não leria seus diários porque eles eram para ele. Mas isso tinha sido feito para eu ler.

Virei a primeira página, pressionando-o levemente para baixo quando os meus olhos dispararam de linha para linha sobre o primeiro poema que Edward tinha transcrito nas páginas do diário.

Encontrei-me respirando alto enquanto lia para mim.

apesar de tudo
que respira e se move, desde a Morte
(com as mais longas mãos brancas
alisando cada ruga)
alisará totalmente as nossas mentes
antes de sair do meu quarto
eu me viro, e (me inclinando
pela manhã) beijo
este travesseiro, querida
onde nossas cabeças viviam e estavam.

"Cummings*." Eu murmurei para mim, um sentimento de nostalgia lavando através de mim como uma corrente de água gelada. Eu podia sentir as palavras martelando na minha cabeça, perfeitamente ritmadas com as batidas do meu coração.

*Edward Estlin Cummings, usualmente abreviado como e. e. cummings, em minúsculas, como o poeta assinava e publicava. Cummings é conhecido do grande público pelo estilo não usual utilizado na maior parte de seus poemas, que incluem o uso não ortodoxo tanto das letras maiúsculas e minúsculas quanto da pontuação, com as quais, inesperadamente, de forma aparentemente errônea, para o leitor desavisado a ponto de não compreender a essência da própria linguagem verbal tal como captada pelo poeta, é capaz de interromper uma frase, ou mesmo palavras individualmente; explora fonemas individuais para chegar ao "microritmo". O poema acima trata-se de "in spite of everything".

Tinha uma data abaixo dele, uma que fez a minha respiração travar no meu peito. Uma que me lembrou de corridas e lágrimas e palavras de conforto sendo sussurradas contra o meu ombro enquanto eu dormia. Foi o dia em que todo o meu mundo desmoronou ao meu redor e a única coisa que sobrou foi Edward e eu, enlaçados nos escombros.

Edward tinha escrito este poema, tinha encontrado palavras, as palavras de outro, para falar sobre a manhã seguinte em que Jacob tinha me deixado.

Nosso relacionamento era escuridão e negação.

Sentei no quarto frio, as cascas da parede em volta de mim, segurando o livro e olhando para as belas palavras, até que ouvi o estrondo de um carro subindo a calçada.


Nota da Irene: Eu fiquei pasma com o livrinho de Edward Ele era tão expressivo. Eu adorei quando a Alice chega. Parece a típica cena de "o dia depois da noitada". Bem que nós queríamos né? Meninas, o melhor está por vir. Espero vcs na quinta que vem.

Ah, falta bem pouquinho pra vcs ganharem a cena extra de Parachute, então mãos a obra.

Até amanhã em Fridays at Noon.