Capítulo 29 - O Detente*
*Détente é uma palavra francesa que significa distensão ou relaxamento. O termo tem sido usado em política internacional desde a década de 1970. De uma maneira geral, o termo pode ser empregado para se referir a qualquer situação internacional em que nações que entretinham anteriormente um relacionamento hostil sem, no entanto, estarem em um estado de guerra declarada, passam a restabelecer relações diplomáticas e culturais, apaziguando seu relacionamento e diminuindo o risco de conflito declarado.
Estiquei minhas pernas na minha frente, minhas coxas doloridas em protesto. Colocando meus pés no chão, relaxei meu corpo inteiro, descansando facilmente na escada da varanda. O sol estava quente, já que batia nas minhas pernas, e eu podia sentir o calor através do jeans. A fadiga agradável fez seu caminho através dos meus membros, tornando-me alegremente imóvel.
Ouvi a porta da frente abrir atrás de mim e pegadas estalarem na madeira. Estiquei o pescoço ao redor, um pequeno sorriso tocando minha boca quando Edward fez o seu caminho de volta para fora e até mim, equilibrando dois pratos e dois copos de água.
Retornando o sorriso fácil, ele entregou um dos pratos para mim antes de sentar ao meu lado. Eu não poderia realmente dizer que o rosto de Edward se iluminava quando ele me via... não da mesma maneira que eu tinha certeza que o meu fazia. Mas aquela expressão de dor controlada tinha começado a desvanecer-se quando seus olhos caíam sobre mim. Seu corpo relaxava e ele parecia... não feliz, mas interessado. Como se estar aqui comigo fosse mais do que algum dever que ele tinha de realizar.
Eu, por outro lado, tinha começado a medir o tempo nos dias que se passavam até que eu conseguisse vê-lo novamente.
Desde que chegamos no Colorado, minha vida tinha sido centrada em torno de Edward, quer eu quisesse ou não. As horas passadas sozinha eram pontuadas pela sua presença no final do dia, dias de solidão lavados em tensão enquanto eu esperava que ele voltasse para casa. Mesmo quando eu quis evitá-lo, quis ignorá-lo, quis odiá-lo, ele ainda era a única certeza que eu tinha na minha vida.
Tudo era diferente agora.
Nas últimas semanas, a tensão entre nós havia evaporado. Tudo ficou por dizer, persistindo a centímetros abaixo da superfície, e eu sabia que um dia se tornaria inevitável. Por enquanto, porém, fazíamos conversa fiadas e piadas leves e sorríamos e ríamos. Era algo que tinha sido raro entre nós desde o início.
Todo sábado de manhã eu podia sentir meu coração batendo e eu começava a suar frio, antecipando e temendo sua chegada. Meus ouvidos se atentavam e minha cabeça girava ao redor quando eu ouvia o barulho de pneus na entrada. No primeiro fim de semana que ele trouxe a tinta no caminhão de Emmett, eu tinha torcido meus braços em volta do seu pescoço sem pensar. O rubor violento do meu rosto e suas garantias murmuradas de que estava tudo bem me impediram de fazer isso novamente.
Edward gentilmente colocou os copos cheios no primeiro degrau, com cuidado para não quebrá-los com suas longas pernas quando ele se ajustou em uma posição mais confortável, um degrau acima de mim.
Olhei para o sanduíche, levantando-o do prato ansiosamente e dando uma mordida enorme sem qualquer hesitação.
"Deus te abençoe, Edward." Eu murmurei e sufoquei um gemido de gratidão com a boca cheia de manteiga de amendoim pegajosa.
Edward olhou para mim e sorriu, divertido. "Não foi nada".
Eu sorri de volta para ele enquanto engolia com alguma dificuldade. Dando outra grande mordida com avidez, fiquei surpresa com o quanto eu tinha sentido falta do gosto simples e infantil de um sanduíche de manteiga de amendoim e geléia. Depois de pular o café da manhã em prol de ajudar Edward a raspar o lado esquerdo da casa, eu tinha certeza de que qualquer alimento teria sido gostoso. Mas isso? Isso era celestial.
"Não que eu realmente me importe." Edward comentou, mordendo seu próprio sanduíche. "Mas há alguma razão específica para você estar se acovardando hoje tão cedo? Quero dizer, nós não trabalhamos por muito tempo. Pelo menos não comparado à maioria dos fins de semana".
"Eu não sei." Respondi com um encolher de ombros, agarrando minha água e lavando a massa espessa de manteiga de amendoim na parte de trás da minha garganta. "Eu passei muito tempo com Alice esta semana. Eu acho que isso está começando a me cansar".
"Trabalhando?" Ele perguntou.
"Principalmente." Concordei com um aceno. "Ela também está me ensinando a cavalgar. É muito divertido, mas eu fico muito dolorida..."
Eu sorri para ele e fiquei surpresa ao ver seus olhos se apertarem ligeiramente. Ele olhou para longe de mim, na direção da cabana dos Whitlock.
"Você caiu?" Ele perguntou, sua voz vaga e distante.
"Ainda não." Eu ri da sua preocupação e sua mal fingida indiferença. "Mas eu acho que é apenas uma questão de tempo".
Ele balançou a cabeça. "Parece um pouco arriscado".
"Eu sou cuidadosa." Eu disse a ele, me endireitando um pouco ao lado dele. Então eu me inclinei e bati meu ombro contra o seu tom de brincadeira. "É muito divertido, Edward. Você devia passar por aqui e experimentar algum dia".
Uma dica de um sorriso tocou os cantos da sua boca e ele olhou para o seu sanduíche, depois virou de volta para mim. "Eu não sou muito bom em cavalgar".
"Você já cavalgou antes?" Perguntei a ele, surpresa.
"Algumas vezes." Edward confirmou com um aceno. "Meu pai adorava".
Seu sorriso caiu com a menção do seu pai.
Eu me mexi desconfortavelmente, insegura sobre o que dizer. Eu não sabia quase nada sobre Carlisle Cullen, sobre como ele era, o que ele gostava, o que ele detestava, e o efeito que ele tinha sobre as pessoas ao seu redor. Eu queria desesperadamente falar com Edward livremente, oferecer minhas condolências, fazer perguntas e aprender o que eu podia sobre o homem que tinha criado o meu marido e que Esme tinha amado tanto.
Tão longe quanto tínhamos chegado nas últimas semanas, eu ainda não me sentia como se eu tivesse o direito de falar sobre Carlisle Cullen.
"Alice disse que ele ficou emocionado quando ela e Jasper decidiram se mudar para cá." Recordei a única informação que tinha sido dada a mim sobre o falecido pai de Edward, a minha voz foi simpática. "Algumas das terras em que os cavalos vivem pertence à sua família, certo?"
"Toda essa terra pertencia a nós".
"O quê?" Minhas sobrancelhas subiram curiosamente quando eu coloquei meu sanduíche para baixo no meu prato e peguei mais água.
"Meu pai emprestou a terra para Alice e Jasper para eles criarem seus cavalos e construírem a cabana." Edward explicou, a sua expressão ficando distante. "Ele deu tudo para eles".
"Eu não sabia disso." Eu disse baixinho.
Ficamos em silêncio por vários momentos. Estudei a expressão de Edward cuidadosamente, observando-o olhar para a terra diante de nós. Eu me perguntei se isso o incomodava, a generosidade de Carlisle. Ele deu tudo a eles. A maneira como ele havia dito isso foi tranqüila e quase amarga. O pai de Edward tinha obviamente amado Alice e Jasper como seus próprios filhos, e seu único filho havia praticamente se tornado um estranho.
Por minha causa, eu me lembrei.
Eu era a razão do afastamento de Edward de sua família. Eu era a faísca que causou a dor e o ciúme que ele sentia agora.
Eu batalhei com o desejo de alcançar a mão dele e escovar alguns cabelos do seu rosto.
Desviei o olhar finalmente, seguindo seus olhos, tentando ver o que ele via. Eu sabia que era inútil. Não havia nada físico capturando seu olhar.
"Então, você gosta?" Ouvi a sua voz de repente. Meus olhos voaram para os seus e eu inclinei minha cabeça para um lado em confusão. Ele esclareceu, "De montar cavalos?"
Não houve hesitação na minha resposta. "Eu realmente amo." Eu disse a ele com entusiasmo, esquecendo-me quase que imediatamente da tristeza e da pena que eu estava sentindo momentos antes. Ele sempre era tão bom em me distrair. "Não é como nada que eu já fiz antes".
Seu sorriso de resposta foi pequeno, mas houve uma pitada de risada em suas palavras. "Um pouco diferente do que andar de moto?"
Minha mente permaneceu por apenas um segundo sobre o rosto sorridente de Jacob me ensinando a andar de moto na sujeira da reserva de La Push.
Fiquei surpresa com a rapidez que eu fui capaz de empurrar a imagem de lado.
"É estranho, mas... nem mesmo é semelhante a isso." Respondi hesitantemente. Eu continuei, minhas palavras cambaleando e lutando. "Quero dizer, você não é apenas uma coisa sentada em suas costas. Existe essa estranha... conexão. Eu cuido deles e eles cuidam de mim, e é quase como..." Eu balancei minha cabeça, não sabendo como explicar a ele. Então eu adicionei baixinho, "Eu nunca senti nada assim... essa confiança mútua".
Edward me encarou por um longo tempo, seu rosto ilegível.
Finalmente, ele falou com um pequeno sorriso. "Você se parece com meu pai".
"O quê?" Eu pisquei, confusa.
"Quando você fala sobre eles." Ele explicou. "Você tem esse olhar em seu rosto... você parece com Carlisle".
Seus olhos eram intensos nos meus, mas eu não podia dizer o que ele estava pensando. Senti o calor correndo pelo meu rosto, ondas de fogo pintando minha pele vermelha sob o seu olhar. Desviei o olhar dele sem jeito, sem saber o que dizer em resposta.
Edward não estava olhando para mim quando ele disse calmamente, "Estou feliz que você esteja fazendo algo que você goste".
Olhei para ele, envergonhada. "Sim".
A tensão começou a rastejar de volta sobre nós, inevitável e certa. Evitamos os olhos um do outro e eu lutei para encontrar algo mais a dizer. Eu queria perguntar a ele sobre Carlisle, sobre por que ele amava tanto os cavalos, sobre o por que Edward estar com tanto medo deles. Eu queria falar com ele como se fosse simples, como se fôssemos amigos, como se tudo pudesse ser fácil entre nós. Eu queria agradecê-lo por ficar feliz e ter o interesse e por se sentar ao meu lado.
Eu não pude forçar as palavras a saírem.
No meio do silêncio, peguei no meu sanduíche comido pela metade e empurrei outra grande mordida na minha boca. Sem sequer pensar nisso, eu gemi baixinho, o sabor forte e nostálgico lembrando-me como eu estava com fome.
Senti os olhos de Edward em minhas costas, leve e divertido, mais uma vez.
"Oh, cara." Eu gemi em apreciação. "Eu não comia um desses há tanto tempo..."
"Eu não vejo você comer um desses em anos." Edward concordou.
"Desde que eu estava grávida, provavelmente." Eu disse sem pensar.
Minha boca fechou e meus olhos imediatamente agarraram os de Edward, mas ele pareceu não se afetar pelo comentário.
"Eu acho que é." Ele balançou a cabeça. Então ele sorriu um pouco quando acrescentou, "Eu sempre pensei que você estava se transformando em uma criança em vez de tendo uma".
"Meu Deus, eu me sentia assim!" Eu ri, o alívio passando por mim.
Seu rosto não parecia irritado ou desconfortável ou triste. Parecia que ele estava se lembrando.
Lembrei-me também.
Lembrei-me de me esquivar das aulas para ir comer samosas* no pequeno restaurante indiano na rua.
*Samosas: Tipo de massa indiana recheada com batatas ou legumes ou carne.
Lembrei-me de levantar no meio da noite e acordar Edward, insistindo em ir ao supermercado para comprar homos* e melancia.
*Homos: alimento popular mediterrâneo feito da mistura de grão-de-bico amassado com pasta de gergelim e temperos.
Lembrei-me chamá-lo para pegar algum tipo de comida no caminho para casa do trabalho, certa de que eu morreria se eu não comesse.
Lembrei-me, acima de tudo, de esperar Edward voltar para casa.
A porta se abriria e eu ouviria as sacolas balançando em seus braços. Não importava onde eu estava no seu amplo apartamento, eu o ouviria e viria correndo para fora, deslizando e derrapando em minhas meias de cano alto enquanto eu ia até ele.
Sem olhar para ele, eu arrancaria as sacolas das suas mãos ansiosamente.
"Você conseguiu comprar?" Eu lhe perguntava, jogando a comida em cima do balcão e vasculhando as caixas desesperadamente.
"Olá para você também." Eu o ouvia responder com um sorriso em sua voz enquanto eu abria as caixas aleatoriamente.
"Olá." Eu respondia, a minha saudação cortada. "Você conseguiu comprar?"
A risada de Edward arrepiava meu cabelo, seus braços envolviam delicadamente em torno de mim por trás, seu peito pressionando contra as minhas costas. Com suas palavras retumbando contra a minha pele, ele me assegurava, "Claro que eu consegui".
Eu apontava para cada uma das caixas, por sua vez, mentalmente as verificando na lista. "Os bolinhos e os Mu Shu* e aquelas coisas de frango... você conseguiu as coisas de frango?" Perguntei-lhe, horrorizada, quando retomei minha busca.
*Mu Shu ou Moo Shu é uma massa recheada com legumes e porco, como um rolinho ou uma panqueca, e é uma comida originada da cozinha chinesa.
"Eu consegui." Ele me disse quando eu estava abrindo a última caixa. O cheiro me bateu e eu dei um suspiro de alívio. Senti um beijo leve na lateral do meu pescoço e sua palma descansando categoricamente contra o meu estômago. "Quantos bebês você tem aí dentro?"
"Apenas um." Eu sorri e virei em seus braços. Suas mãos me soltaram e se moveram para o balcão quando ele se inclinou sobre mim. "Um bebê muito faminto que precisa daquele frango".
Minha voz estava ofegante e contente e, com seu pequeno sorriso, eu estendi e coloquei meus lábios contra os dele. Sua boca era suave e se movendo contra a minha, sua mão se arrastando até tocar meu queixo carinhosamente. Eu separei meus lábios e senti seu suspiro afiado na minha boca, pressionando-me um pouco mais forte.
Meus dedos se arrastaram ao longo do seu cinto, provocando a sua camisa ligeiramente, fazendo-o tremer contra mim. Meus lábios curvaram em um sorriso em torno dele quando eu o senti relutantemente me chamar de volta.
"Você tem gosto de manteiga de amendoim." Ele comentou quando se afastou, sua voz rouca e um pouco ofegante.
Dei de ombros, voltando-me para fora do seu abraço e pegando um prato para que eu pudesse começar a empilhar os alimentos fora das caixas. "Eu fiquei com fome enquanto estava esperando, então fiz um sanduíche".
"De manteiga de amendoim?" Ele perguntou com uma risada, afastando-se mim para recolher alimentos no seu prato.
"E geléia!" Eu adicionei feliz.
Suas sobrancelhas subiram. "E agora você quer comida chinesa?" Ele se esquivou em dúvida.
"Sim. Por que não?" Perguntei a ele, genuinamente curiosa. Levantei meu prato cheio e o levei para o sofá, resmungando baixinho, "Eu me pergunto como é que seria o sabor de frango com manteiga de amendoim..."
Edward riu alto e seguiu-me para o sofá, sentando-se ao meu lado e entregando-me um par de pauzinhos. "Você é, sem dúvida, a pessoa mais nojenta que eu já conheci".
Eu abri minha boca para retrucar, mas optei por preenchê-la com Mu Shu. Eu podia sentir os olhos de Edward em mim o tempo todo, observando com fascinação enquanto eu dava garfadas no meu alimento rapidamente. Quando acabei, levantei meus olhos para os seus com um sorriso satisfeito e, em seguida, olhei casualmente para baixo em seu alimento. Ele revirou os olhos e moveu o seu jantar para fora do meu alcance, continuando a comer em um ritmo irritantemente lento.
Quando ele finalmente terminou, ele puxou o meu prato das minhas mãos e levou os pratos para a pia, antes de arrumar as caixas inacabadas de comida chinesa e colocá-las na geladeira. Eu abri minha boca para protestar quando eu senti um estranho 'pop' desconfortável dentro do meu estômago.
Eu engasguei baixinho e coloquei minha mão sobre o movimento estranho, como se para pará-lo. Olhei para baixo, meus olhos trancados na minha barriga, e eu podia sentir meu rosto todo empalidecer.
Eu não estava surpresa, não era a primeira vez que eu o sentia se mexer.
Ainda assim, cada vez que eu sentia isso, eu sentia a evidência da pequena vida crescendo dentro de mim, sentia o peso do que eu estava fazendo dando um pequeno empurrão, sentia meu coração saltar uma batida e meu corpo inteiro tencionar de medo e trepidação.
"Você está bem?" Ouvi a voz macia de Edward no meu ouvido quando ele deslizou de volta ao meu lado. Seu braço roçou contra o meu levemente, todo quente e confortável.
"Está tudo bem." Eu murmurei, sem convencer.
Edward suspirou, e eu sabia que ele não estava enganado. Seu braço direito serpenteou por trás de mim, puxando-me para o lado dele mais apertada. Seu braço esquerdo esticou através da minha barriga, seus dedos deslizando ao redor dos meus e relaxando-os, substituindo a palma da minha mão com a sua sobre o pequeno cutucador. Quando ele sentiu o movimento debaixo da minha pele, ele baixou sua cabeça, suavemente beijando meu ombro.
"Você alguma vez teve medo?" Perguntei a ele, minha voz calma.
"Não." Ele disse confiantemente, levantando seus olhos para os meus. Então, como se fosse a explicação mais simples do mundo, "Eu não me permito estar".
"Eu estou." Eu admiti, minha voz vacilante. "Toda hora." Olhei para ele, implorando e honesta. "Às vezes me pergunto se eu fiquei louca".
Eu vi um lampejo de algo em seus olhos, seu rosto inteiro ficando solene. Sua voz ficou seca e hesitante quando ele perguntou como um engolir em seco, "Você está lamentando isso?"
Olhei para ele rapidamente.
"Não." Eu lhe disse com firmeza.
Inclinei-me e pressionei meus lábios nos seus mais uma vez, sentindo-o derreter embaixo de mim quando ele se permitiu ser tranquilizado. Quando eu me afastei, seus olhos eram suaves nos meus e quando deitei minha cabeça em seu ombro, senti seu peito dar um suspiro.
Ficamos sentados em silêncio por vários momentos agradáveis.
"Você acha que eu deveria assistir... como... uma aula?" Perguntei a ele, de repente.
Eu pude sentir Edward recuar um pouco para olhar para mim. "Aula?"
Virei a cabeça para olhar para ele, descansando meu queixo contra o seu peito. "Aula de parto." Expliquei, incerta. "Você sabe, para a respiração e outras coisas?"
As sobrancelhas de Edward franziram. "Você quer?"
Eu poderia dizer que ele não se opunha à idéia, ele estava simplesmente curioso.
"Eu não sei." Dei de ombros, sentindo-me estúpida. "Eu só... eu não quero ser uma gritadora".
Edward bufou levemente e eu corei em constrangimento, sabendo que ele me provocaria pela minha vaidade, como ele sempre fazia. Sentindo meu aborrecimento, ele se inclinou e pressionou um beijo contra o meu templo.
"Você não é uma gritadora." Ele me assegurou. "Você é mais como uma resmungona..." Então ele sorriu e beijou minha bochecha. "E uma tagarela..." Outro beijo no meu queixo. "E, ocasionalmente, uma louca..." Eu podia sentir o sorriso nos lábios dele quando eles deslizaram um rastro quente em meu pescoço.
Eu me afastei dele, rindo.
"Cale a boca." Eu exigi de brincadeira, dando cotoveladas nas suas costelas.
"Ow".
Lembrei-me de tudo sobre aquela noite, e muitas outras, com notável clareza, detalhes notáveis. Elas não eram memórias que algum dia pensei que seria capaz de lembrar, as memórias que eu poderia chamar à mente à vontade.
Mas quando eu estava ao redor dele, encontrei-me querendo lembrar como era, como tinha sido entre nós. Eu não sei se eu pensava que poderia encontrar respostas no passado, encontrar uma explicação para o que tinha dado tão horrivelmente errado. Eu sabia... eu sabia o que tinha dado errado. E, ainda assim, tudo jogando diante de mim parecia tão fora do meu controle.
Eu poderia ter mudado alguma coisa?
Meus olhos caíram sobre Edward - o Edward que era tão diferente daquele amável e risonho homem - e me perguntei se ele se lembrava daquela noite também.
Ele estava sorrindo para mim, seu braço ao lado do meu, mas não o tocando.
Eu podia sentir, pela primeira vez em muito tempo, a dor do espaço entre nós. Eu não podia tocá-lo. Ele tinha sido meu amigo e meu amante, ele era meu marido, tínhamos sido casados por anos, tínhamos feito amor inúmeras vezes.
E eu não podia tocá-lo.
De repente, eu me odiava por isso.
"As coisas nem sempre foram ruins entre nós, certo?" Perguntei para ele de repente, minha voz calma quando olhei para ele por baixo dos meus cílios.
Seus olhos voaram para os meus, parecendo surpresos com a pergunta, com a profundidade ampla que isso englobava. Eu vi a surpresa se transformar em medo e raiva antes do seu rosto lavar cada pitada de emoção. Ele abriu e fechou sua boca várias vezes antes de se afastar de mim, sua testa franzida e imóvel.
Após vários minutos de um silêncio insuportável, minutos em que eu nunca me virei para longe dele, ele levantou-se abruptamente.
Olhando para mim, ele limpou a garganta e disse, "Eu acho que eu vou..."
Ele não terminou seu pensamento. Ele balançou a cabeça para o lado da casa em que estivemos trabalhando antes de se dirigir para dentro com seu prato.
Fiquei sentada na varanda, imóvel, ouvindo-o deixar seu prato na pia com um barulho, como se tivesse perdido o controle sobre ele. Pensei ter ouvido uma maldição abafada lá de dentro, mas eu não fui vê-lo. Em vez disso, olhei para fora através das colinas, sentindo o calor e a dor nas minhas pernas, esperando que ele voltasse para fora.
Ele passou por mim sem dizer nada, indo para o lado da casa para continuar seu trabalho sem olhar para trás.
Eu não tinha certeza de quanto tempo eu fiquei sentada na varanda, observando-o. O resto do meu sanduíche permaneceu intocado, uma onda de frustração caiu em mim e apresentou-se firme no meu peito.
A única coisa mais dolorosa do que vê-lo se afastar de mim, do que vê-lo desligar-me uma e outra vez, era o conhecimento de que eu tinha feito isso para mim mesma. A razão de eu ainda estar sentada nos degraus, a razão de eu não poder segui-lo, a razão de eu não poder exigir respostas não deveria ser colocada em nenhum lugar além de com firmeza sobre os meus ombros. Talvez a culpa ou a covardia ou o orgulho me deixassem imóvel.
Poderíamos falar sobre tudo, exceto o que importava.
Edward não olhou na minha direção.
Deve ter sido perto de uma hora e meia antes de eu finalmente me levantar e trazer meu prato e meu copo para dentro. Joguei o resto do meu sanduíche no lixo e coloquei meu prato na pia ao lado do de Edward. Eu os lavei rapidamente, ligando a água tão quente quanto poderia até queimar as minhas mãos.
Considerei qual seria a reação de Edward se eu me oferecesse para ir lá fora e ajudá-lo agora.
Lembrei-me de uma panela de sopa batendo contra gesso, córregos vermelhos correndo pela parede como sangue.
Decidi fazer o jantar, em vez disso.
Passei a próxima hora ralando o queijo e cortando legumes, lendo e procurando receitas por aí com salsa fresca. Momentos de um ridículo pânico e descobertas enquanto eu fazia o molho mexicano, tão graciosamente quanto fiz todo o resto. Minha capacidade de seguir receitas sem destruir a comida, a cozinha, ou a minha saúde, tinham melhorado, mesmo quando a minha confiança na minha capacidade não tinha. Tudo que eu fazia eu ainda me aproximava com os olhos arregalados com a expectativa de fracasso.
Era muito mais gratificante quando eu entendia direito.
Eu tinha quase esquecido completamente a presença de Edward lá fora, até que ouvi o balanço da porta dos fundos abrir e fechar suavemente. Olhei para cima das tortillas finas que eu estava amassando, momentaneamente assustada.
Edward entrou no escurecimento da luz do dia, secando a testa suada e encontrando meus olhos com um pequeno sorriso esgotado.
Olhei para a sua camisa esfarrapada, salpicada com tinta e amassada do uso. Suas mãos estavam sujas e também grossas quando ele as enxugou em seu jeans. Eu podia sentir o cheiro de suor e trabalho e calor saindo dele, que era distinto, mas não desagradável.
"Como vai o resto do lado?" Perguntei-lhe educadamente quando ele fez o seu caminho até mim. Voltei para a comida, tentando o meu melhor para não olhar para ele.
"Ainda é um trabalho em progresso, mas está indo." Edward me disse, cambaleando e satisfeito. Então eu senti seu corpo junto ao meu, suas mãos sobre o balcão enquanto ele inclinou-se contra ele. "Que cheiro é esse?" Ele perguntou, sua voz comicamente intensa.
"Quesadillas*." Dei de ombros, sorrindo um pouco.
*Quesadilla é uma comida típica mexicana. Na maior parte do país é feita com tortillas e queijo.
Edward gemeu baixinho. "Cheira incrível, Bella".
Olhei para ele quando ouvi o seu louvor, surpresa com o quão próximo ele tinha ficado. Quando meus olhos levantaram para os seus, ele se moveu ligeiramente para trás, como se ele tivesse acabado de perceber a sua própria proximidade também. Foi um movimento pequeno, mas ambos estávamos cientes dele.
Voltei-me para longe dele novamente.
"Elas devem estar prontas em 20 minutos ou mais." Eu disse logo. Sorri um pouco quando adicionei com um suspiro, "Você deve tomar um banho ou algo assim..."
"Isso é realmente uma idéia fantástica." Edward respondeu, ignorando a indireta.
Ele sorriu e pediu licença, saindo da cozinha para a escada principal. Eu continuei a cozinhar enquanto ouvi o chuveiro ligado. Arrumei a mesa quando ouvi a água desligar. Tirei as quesadillas do forno quando ouvi passos leves descendo as escadas.
No que parecia ser segundos, Edward havia retornado limpo e estranhamente leve. Seus olhos acenderam e ficaram ansiosos quando ele viu que eu estava trazendo o prato de quesadillas para a mesa. Ele estava usando calças limpas que estavam soltas em torno da sua cintura, uma camisa azul limpa e seu cabelo estava úmido, despenteado, e disparando em todas as direções imagináveis.
Ele era aquele menino novamente.
Eu não pude deixar de sorrir quando ele puxou a cadeira com entusiasmo, toda a tensão de mais cedo tinha desaparecido novamente. Seus olhos se fecharam quando ele inalou o cheiro de queijo derretido, abacate, frango e pimentas. Quando ele os abriu novamente, eles caíram para a tigela de molho fresco que eu tinha conseguido fazer finalmente.
Sua boca abriu um pouco e eu meio que esperei que ele começasse a babar.
Eu não conseguia lembrar dele gostando de comida mexicana assim antes.
"Aqui está." Eu disse, colocando várias das quesadillas no prato em frente a ele, antes de virar para ir para o meu lugar.
"Obrigado." A voz de Edward era incrivelmente sincera.
Eu ri um pouco quando me sentei, secretamente lisonjeada e orgulhosa. Era incrível o quão diferente era comer com ele nesses sábados, considerando a forma como estivemos apenas alguns meses atrás. Refeições em silêncio e amargurados, comida azeda pelo descontentamento que enchia toda a casa. Tudo estava livre e leve e bem agora.
Olhei para Edward quando dei a minha primeira mordida na tortilla crocante e assada. Eu estava esperando encontrá-lo empilhando comida em sua boca ou lambendo o prato limpo. Após todo o trabalho que ele tinha feito hoje, não teria me chocado, pelo menos.
Meus olhos se arregalaram um pouco de surpresa quando caíram na forma imóvel de Edward, tensa e olhando para o seu prato com uma expressão estranha em seu rosto. De repente, seu olhar moveu-se para mim. Eu o vi engolir um pouco, estreitando seus olhos como se estivesse tentando montar alguma coisa.
"O quê?" Eu perguntei, colocando de volta a quesadilla no prato, ruborizando de vermelho quando fiquei impressionada e de repente autoconsciente. "Por que você está me olhando assim?"
Edward permitiu que a minha pergunta permanecesse no ar por um longo tempo.
Eu podia vê-lo pensar, no entanto. Considerando o que dizer, intrigado e com pesar e imaginando. Eu não tinha certeza de que eu já o tivesse visto tão desconfortável. Qualquer desconforto que ele sentiu nos nossos últimos anos juntos foi sempre acompanhado com raiva ou irritação. Isto era algo totalmente diferente.
Ele estava decidindo alguma coisa. Sobre mim, ou sobre si mesmo.
Por fim, ele falou. Sua voz era tão baixa que eu encontrei-me inclinada para a frente um pouco.
"As coisas nem sempre foram ruins entre nós." Eu o ouvi dizer suavemente. Ele fez uma pausa e olhou para longe de mim antes de continuar com um pequeno suspiro, "E elas não estão ruins agora".
Pisquei para ele, chocada.
Edward se mexeu na cadeira, os dedos escolhendo seu alimento com essa mesma tensão, e eu podia ver os músculos em seus braços enrijecerem e relaxarem, quase como se estivessem loucos para arrancar as palavras que ele tinha falado do ar e engoli-las de volta.
Meu peito se aqueceu e eu não queria que ele fizesse isso.
Finalmente, forcei um sorriso no meu rosto e a risada que escapou dos meus lábios soou verdadeira porque foi. "Você só está dizendo isso porque eu fiz o jantar." Eu o provoquei levemente, desejando que ele olhasse para mim.
Com as minhas palavras, ele olhou.
Então ele estava sorrindo para mim, aceitando a minha oferta. "Isso não doeu." Ele brincou.
Depois disso, conversamos com total facilidade e cordialidade. Ele havia respondido a pergunta que eu não tinha estado preparada para perguntar com uma resposta que ele não estava pronto para dar. Mas empurramos isso com nossa confortável e falsa camaradagem, que nós não queríamos e não conseguíamos escapar.
Ele me contou um pouco sobre seu trabalho na clínica, sobre alguns dos pacientes que ele tinha visto durante toda a semana, e sobre como ele preferia isso ao trabalho no hospital. Ele disse-me nomes e casos, sobre os colegas de trabalho e a comida do restaurante. Ele não me disse nada sobre ele, sobre nada parecido com o que ele tinha confiado a mim naquela noite no sofá da sala.
Nós tínhamos chegado à superfície.
Eu disse a ele um pouco sobre os cavalos e sobre o trabalho que eu fazia com Alice, sobre a satisfação das tarefas que eu estava fazendo, e sobre lentamente aprender a cavalgar. Contei-lhe sobre cada um dos cavalos, recordando suas personalidades com um sorriso e me encontrando rindo baixinho quando descrevi Santana para ele. Ele me perguntou se esse era o grande cavalo vermelho com o qual ele tinha me visto, preocupado que ele fosse me machucar.
"Eu não monto no Santana." Eu zombei, como se fosse óbvio. "Eu realmente não estou nem perto desse nível".
"O que você quer dizer?" A testa de Edward franziu, sem entender.
"Santana é mais... desafiador... do que os outros cavalos." Eu assumi com um encolher de ombros. "Neste momento eu estou apenas trabalhando em não cair de um cavalo perfeitamente comportado".
Os olhos de Edward se estreitaram. "Ele é perigoso?"
"Incompreendido." Eu o corrigi.
"Talvez você não deva montá-lo".
"Talvez eu não monte".
Edward ficou quieto então.
Conversamos um pouco mais depois disso, sobre nossos planos para a casa e que, se chovesse no próximo fim de semana como era previsto, poderíamos trabalhar na pintura do quarto frio. O ar não estava tenso, mas tornou-se subitamente pesado enquanto a noite avançava. Limpei a mesa quando a conversa começou a diminuir.
Quando liguei a água para começar a lavar a louça, eu pulei de surpresa quando Edward veio ao meu lado para ajudar. Trabalhamos lado a lado, nunca tocando os ombros ou escovando nossos dedos, parecendo incapazes de falar a uma distância tão próxima. Não passei pratos para ele e ele nunca os passou para mim. Cada um de nós lavava e secava o seu, separadamente, nunca cruzando caminhos.
A tensão que estalava entre nós era diferente.
Quando terminamos, desliguei a água com um suspiro que quase soou como uma bufada. Eu me afastei da pia rapidamente, precisando ocupar as minhas mãos e fingindo escovar migalhas invisíveis da mesa da cozinha.
Edward enxugou as mãos lentamente no pano de prato e eu podia sentir seus olhos nas minhas costas.
Eu ouvi sua voz atrás de mim. "Você se importa se eu dormir esta noite no quarto de Rose?"
Eu chicoteei ao redor um pouco depressa demais, minhas sobrancelhas subindo e minha boca abrindo. Edward estava evitando meus olhos com cuidado, sua estrutura rígida, mãos apertadas atrás dele enquanto elas envolviam em torno da borda da pia.
"Por favor." Eu disse, um pouco forçada demais. "Sinta-se..." Eu parei, as palavras morrendo na minha garganta. Sinta-se em casa. Em vez disso, eu terminei, "à vontade".
Edward acenou com um pequeno sorriso em agradecimento.
Quando ele virou para se dirigir às escadas mais uma vez, ele disse, "Obrigado pelo jantar, Bella".
"Obrigada pelo almoço." Eu sorri.
"A qualquer hora".
Observei sua forma tranquila fazer seu caminho para fora da cozinha e virar a esquina. Ouvi passos suaves quando ele subiu a escada. Ouvi quando a porta do quarto abriu e rangeu se fechando novamente.
A porta do quarto que era ao lado do meu.
Nota da Irene: Hoje estou falecida. Acabei de ler o capítulo que a autora postou hoje. O 39 {temos ainda 14 semanas para alcançá-la, contando com a minha pausa de um mês}. Gente, essa fic é perfeita. *muitos surtos aqui, pausa para respirar*
Sim, esse capítulo foi tão fofo, eu fico toda besta com esse relacionamento indefinido deles dois. Mas aviso logo: Próximo capítulo é bombástico. Hohoho. Adoro soltar meios-spoilers.
Agradeço a minha beta super fiel Ju, que além de betar metade das minhas fics, ainda surta comigo e irá atravessar o país pra me encontrar para comemorarmos nossos aniversários juntas. Primeiro ela virá a Manaus, para ser assada viva na Amazônia e depois iremos nos encontrar em Belo Horizonte, com nossas pervas Titinha e Rafa.
Ah... fala sério. Amizade assim, só Crepúsculo para formar!
Obrigado tia Steph. Você mudou minha vida.
*declaração gay*
Ah, estou postando antes porque sabe Deus se a internet amanhã irá funcionar. Estão mudando o cabeamento da Net de toda cidade (eu acho que o calor derreteu metade da fiação, kkkk)
Soooo... enjoy!
Ok... minha maior nota e quero aproveitar para dizer a chrometurtle que ela é maravilhosa. Só ela pra me fazer ter tantas emoções diferentes lendo uma só fic. Maravilhosaaaaaaaaaa!
* o que o calor não faz com a mente das pessoas*... reviews?
