Capítulo 34 - A Loja
"Hey".
Eu o observei, imóvel, quando ele deu um passo em minha direção, descendo os degraus. Ele estava vestindo roupas bonitas, uma gravata vermelha.
Pisquei para ele. "Oi".
Uma longa pausa se arrastou entre nós enquanto eu olhava para ele estupidamente. Eu senti como se cada um dos meus ossos tivesse sido arrancado do meu corpo e substituído por titânio inflexível. Totalmente dura.
Fazia quase uma semana desde que eu tinha visto Edward. Até o momento em que ele finalmente apareceu, parado na varanda em suas roupas de trabalho em uma tarde de sábado, eu estava começando a me acostumar com a nova rotina: passar dias brilhantes e fáceis com Alice, passar noites sozinha e em agonia. Dias, noites, constantes sem uma palavra dele, um vislumbre.
Claro, eu sabia que este momento estava chegando.
Eu sabia que, quando ele me deixou em casa sem dizer uma palavra, não seria - não poderia - ser a última vez que eu olharia para o seu rosto, tão tenso e ansioso. Eu sabia que eu teria que enfrentá-lo, eventualmente. Mas há muita distinção entre saber que alguma coisa tem que acontecer e chegar ao inevitável momento quando ela realmente acontece.
Eu estava voltando da casa de Alice, suja e com feno no meu cabelo, mas sorrindo, quando eu tinha encontrado Edward na varanda da frente da casa da fazenda, encostado ao corrimão.
Esperando por mim.
Seus olhos encontraram os meus e minhas pernas pararam de funcionar.
Parei a alguns metros da varanda, incapaz de me mover.
Finalmente, quando eu não podia suportar por mais tempo, eu disse a ele, "O que você está fazendo aqui?"
Pensei ter visto algo perto de uma incerteza lavar o rosto de Edward, mas isso tinha desaparecido em um instante. Substituído por uma certeza e um sorriso.
"A casa não vai se pintar sozinha, Bella." Ele respondeu, sua voz leve.
O quê?
Olhei para ele fixamente.
Eu não respondi.
Eu podia vê-lo lutando no meu silêncio, e só me levou um momento para entender o por que.
Ele estava disposto a fingir junto comigo. Silenciosamente implorando-me para aceitar suas palavras como se eu tivesse as esperado, como se eu tivesse esquecido o que havia acontecido em menos de uma semana antes; esquecido os papéis na mesa da cozinha que eu lia a cada simples noite. Desejando desesperadamente que eu desempenhasse o papel de amigo com amnésia. E eu queria. Eu queria aceitar as suas palavras, eu queria que as coisas voltassem à forma como elas eram, mas eu não podia me mover. Não podia responder. Não podia entender.
Passando um tempo, ele suspirou e passou a mão pelos cabelos.
Um movimento honesto.
Então, parecendo incrivelmente pesaroso, ele estendeu os braços em sinal de rendição. "Olha, eu sei que você está com raiva de mim, e da forma como lidei com as coisas, a forma como eu reagi, eu mereço isso. Mas eu esperava que pudéssemos superar isso, eventualmente. Eu não quero que fiquemos estranhos em torno um do outro. Estes últimos meses foram..."
Ele parou por aí.
Ele não continuou ou deixou sua voz levar a nada com a incerteza, ele apenas fechou a boca.
Eu podia ver que ele não tinha intenção de continuar.
"O quê?" Perguntei-lhe alto desta vez, nervosamente, como se eu não o tivesse ouvido.
Edward encolheu os ombros, sua voz ficando muito baixa. "Eu não quero cortá-la da minha vida, Bella".
Isso me acordou.
Senti meu corpo inteiro empurrar um pouco enquanto eu piscava. Meus membros estavam subitamente formigando dolorosamente em todos os lugares e elétricos.
"Do que você está falando?" Exigi, ainda que minha voz fosse fraca e sussurrada. "Não é isso exatamente o que você quer? Eu beijei você e você me deu papéis do divórcio. Existe outra maneira de interpretar isso?"
Edward deu mais um passo para a frente; para longe da varanda, em minha direção.
Eu lutei com o desejo de voltar atrás.
"Claro que há." Ele respondeu, delicadamente.
Seus olhos estavam tão suaves. Dolorosamente suaves. Eu podia sentir a torção na boca do meu estômago.
Por favor, não olhe para mim desse jeito.
Em vez disso, eu simplesmente disse, "Esclareça para mim".
Sua mão estendeu como se ele quisesse se aproximar de mim, colocá-la no meu ombro. Eu não ficaria surpresa se ele tivesse tentado me acariciar como se estivesse tranquilizando um cavalo assustado, um animal selvagem.
Ele a deixou cair e ficou onde estava.
"Bella, nós somos uma grande parte da vida um do outro." Ele disse, seu tom calmo, destinado a seduzir-me ao conforto. "Não é como se eu quisesse simplesmente me afastar de você, nunca te ver de novo..."
"Isso não responde à minha pergunta".
Ele suspirou de novo, longo e frustrado.
Então ele olhou para mim, sua mandíbula junta, e disse com confiança, "Um divórcio não tem que ser o fim".
Seus olhos trancaram com os meus, brilhantes e desafiando-me a acreditar nele.
Deus, eu queria acreditar nele.
Eu queria pensar que este divórcio não seria o fim. Que poderíamos continuar com as nossas vidas, esquecer os papéis que assinamos que começaram e terminaram o nosso casamento, ser separados e juntos e falar e viver, assistir um ao outro crescendo e amando. Teríamos toda a nossa vida para conhecer um ao outro, para se apaixonar um pelo outro da maneira que nós fomos feitos para se apaixonar, como amantes ou como amigos ou como família. Sem leis, regras, ou papéis.
Mas não podíamos.
Não havia como chacoalhar a sensação na boca do estômago que me dizia que assinar esses papéis faria exatamente o que eles prometiam fazer, o que eles diziam que fariam. Tudo o que tinha acontecido antes estava corroendo a pequena esperança tentativa que tínhamos construído. Havia tanta história, tanto passado, nos separando. Não havia nada além de um pedaço de papel nos mantendo juntos. Tire isso e tudo desapareceria.
Nós seríamos separados.
"É claro que é o fim." Balbuciei, meu corpo tenso contra a corrente. "O que pode ainda existir?"
Edward olhou para mim por um longo tempo sem dizer nada.
Então, ele estava parada a centímetros de mim, suas mãos vindo para descansar em meus braços. Eu não tinha sequer o visto se mover. Eu podia sentir seus dedos apertando o tecido da minha camisa, eu podia sentir a pressão na minha pele. Ele não estava me segurando de forma agressiva, dolorosa, mas era forte o suficiente para queimar.
Incapaz de resistir, eu olhei para ele.
Respirando em mim, ele abaixou a cabeça para que nós ficássemos olho no olho. Era difícil decifrar sua expressão; rasgada em algum lugar entre uma gentileza enorme e um desespero distintamente sério. A dicotomia era o que eu não tinha visto antes, não sabia que existia.
Eu podia sentir suas palavras quentes no meu rosto, minha pele, meus lábios, enquanto ele falava.
"Cedo ou tarde você vai perceber que nem todo mundo está procurando por uma maneira de abandonar você".
Então ele me soltou e voltou para o seu carro.
Eu não o olhei ir embora. Em vez disso, senti o calor do seu toque, sua respiração e olhos, as palavras batendo através do meu cérebro quando ele deu um nome para o meu pior medo. Tão casualmente, tão facilmente. Como se ele soubesse o tempo todo.
Porque era isso, não era?
Afastei as lágrimas que eu nem sabia que eu tinha derramado até que senti o molhado em minhas mãos, lábios com gosto de sal. Eu fiquei onde ele tinha me deixado por vários minutos antes que eu controlasse meus membros agitados o suficiente para virar minha cabeça, meus olhos caindo sobre o lugar onde seu carro tinha estado, agora vazio.
Ouvi as palavras na minha cabeça novamente, aquelas que eu via por trás das minhas pálpebras quando Edward tinha me jogado para fora de casa. Correndo através do frio com as batidas do meu coração e do meu cérebro: É você. É sua culpa. Você é o denominador comum.
Era eu. Tinha que ser eu.
Porque minha mãe me deixou por outro homem.
Porque Jacob me deixou por outra mulher.
Porque eu tinha beijado Edward e ele tinha me empurrado, pegando e precisando, do seu corpo.
Eu tinha dependido dele - tinha tomado como certo que ele me amaria para sempre, que ele me esperaria para sempre – exatamente como eu tinha com o resto deles. Mesmo que eu tivesse jurado que nunca precisaria de ninguém de novo, eu tinha vindo a precisar dele.
Senti uma construção lenta de raiva, de auto-aversão, e foi um alívio bem-vindo. Sem mais lágrimas paralisando o meu pé sobre uma garagem vazia. Ainda havia fogo lá, mesmo através do medo doloroso e da insegurança. Edward tinha tentado o seu melhor para me deixar de joelhos mais uma vez. Mas eu tinha aprendido com o meu passado, eu tinha aprendido com os meus erros, e eu tinha mudado.
Essa era a verdade.
Houve dias durante a próxima semana, longos e curtos, quando o sol estava fora e eu estava com Alice e estávamos brincando com os cavalos e eu não pensei muito em Edward.
Havia dias que eu esquecia os papéis do divórcio que estavam estabelecidos na mesa da cozinha, esquecia o beijo, esquecia a noite que passei no banheiro de Esme batendo no chão e chorando desesperada, esquecia de Edward entrando em casa para soletrar meu pesadelo. Havia dias em que eu esquecia de tudo, até que tudo o que restava era o sol quente na minha pele e minha amiga sorrindo e os cavalos grandes e encantadores sob minhas mãos. Havia dias em que o vento ainda era parado e novas flores estavam estourando da terra, coloridas e despreocupadas, e Alice e eu pintávamos a casa por horas e depois andávamos por toda a terra para a floresta e as rochas e riachos e passávamos o dia felizes e na companhia uma da outra.
Houve dias em que eu estava bem.
Mas não era o suficiente.
Ser amiga de Alice não era suficiente. Amar Esme e Emmett e aprender com os cavalos e ficar curiosa sobre a terra e descer pelos caminhos na luz do sol não era suficiente. Limpar, pintar, querer arrumar as paredes da casa não era suficiente.
Porque tudo o que me fazia feliz, tudo que eu amava, pertencia a ele.
Havia dias em que Alice ia para o trabalho, ou o céu estava nublado e frio com a chuva, ou um cavalo estava irritado e difícil e sem vontade, arisco. Havia dias em que eu não conseguia me fazer caminhar sobre o morro, sentindo o esmagamento apertado no meu peito, implacável.
E então havia as noites.
Toda noite, sozinha na casa escura que não era minha, eu ia para a cozinha e ficava na mesa e olhava para os papéis do divórcio. Eu os lia uma centena de vezes. Uma e outra vez. Cada palavra batendo em mim, golpeando contra a minha felicidade, batendo nos meus ouvidos e coração, até que minhas pernas enfraqueciam e eu era obrigada a me sentar.
E então eu me sentava e lia. Centenas de vezes. Uma e outra vez.
Eu pensava sobre quanto tempo tinha se passado, os meses e meses que eu tinha vivido aqui, e me lembrava que, quando isso tudo começou, eu queria isso. Eu queria uma saída. Tentei me lembrar como eu me sentia naquela época, tentei buscar toda a minha raiva e ódio e medo novamente. Era a única coisa que poderia me ajudar agora, eu tinha certeza. Mas ela tinha ido embora.
Eu sentia apenas uma derrota.
Eu traçava a sua assinatura com o meu dedo então. Às vezes minha mão vacilava sobre a tinta. As linhas limpas, perfeitamente perfeitas. Sua mão estava firme quando ele o tinha assinado.
No sábado seguinte eu acordei com algo semelhante a um pânico apertado no meu peito.
Tudo o que eu tinha sentido, empurrado de lado e esmagado durante a semana toda na constatação de que eu o veria hoje. Eu não tinha falado com ele desde que ele tinha me deixado de pé no caminho da garagem, desde que ele tinha tentado fazer as pazes. Mas ele tinha vindo no sábado passado, e todos os fins de semana antes. Não importava quanto tempo, ou quão breve, ele estava lá.
Consistente.
Assim como eu. Sempre esperando por ele, sempre feliz ou com raiva de vê-lo. Ele viria e ditaria tudo sobre como o dia seria, e eu me moveria em torno dele numa órbita impotente, querendo agradá-lo ou acalmá-lo.
E ele tinha jogado essa minha parte - a parte que ansiava por estar perto dele novamente - pela primeira vez, de volta na minha cara. Ele arremessou o meu corpo contra uma porta e em um divórcio que descansava calmamente no meu colo e dormia com a minha respiração soprosa e com soluços durante a noite.
Ele não me queria.
Eu não podia culpá-lo.
Vesti-me rapidamente e corri, desesperada para não vê-lo.
Para sair antes que ele chegasse.
Para ter alguma coisa, alguma força ou atitude, quando eu voltasse.
Desci as escadas, saí pela porta, para o canto da calçada em um movimento fluido. Não houve quebra natural no movimento, nem um pingo de mudança de cenário. Eu estava deslizando na grande forma vermelha estacionada ao lado da casa que eu deixei intocada por semanas.
E então eu comecei a dirigir.
Minha caminhonete estava barulhenta e cantarolando sob as minhas mãos, mas ela corria suavemente na estrada e rapidamente. Sua cabine pareceu grande em torno de mim, e era reconfortante estar de volta dentro dela. Fazia muito tempo desde que eu tinha dirigido, desde que eu tinha sentido o poder de mover-me sobre o asfalto, empurrando-me para a frente com os movimentos das minhas próprias mãos e pés. Desde que minha caminhonete quebrou, mesmo muito tempo depois de Rosalie tê-la consertado, Edward tinha insistido em me levar em todos os lugares. Cada fim de semana, ele havia sacudido a cabeça e sorrido encantadoramente e me puxado para o seu carro rápido e prateado. Eu tinha pensado que era porque ele tinha gostado da minha companhia, que ele queria intimidade e o conforto de nos sentarmos lado a lado no caminho para a loja. Eu sabia agora...
Não. Eu não queria pensar nisso.
Eu não queria pensar em nada. Ainda assim, enquanto eu dirigia, o meu destino se tornou mais claro e mais óbvio. Um pensamento, uma ideia, surpreendente e terrível começou a se formar na minha cabeça. Eu me encontrei indo para o pequeno coração da cidade, pressionando meu pé mais forte contra o acelerador quando o medo tornou-se confiança, depois ansiedade e depois esperança.
Eu tinha que mostrar a ele.
Isto mostraria a ele.
Alguns minutos depois eu estacionei no único lugar em Hartsel que eu conhecia, que eu estava familiarizada, que eu me sentia confiante em entrar. Somente hoje, as palmas das minhas mãos estavam úmidas e havia suor nervoso na minha testa. Minha familiaridade não era um conforto, minha confiança era falsa e frágil, marcada por dúvidas. Eu podia sentir meu coração martelando.
Eu posso fazer isso.
Ignorei o pensamento errôneo de que cada ação que tomei - cada pensamento de passo dado - era simplesmente uma reação a Edward, e eu entrei no South Park Mercantile.
"Bella!"
Ouvi o meu nome quase no momento em que atravessei a porta. Minha confiança cuidadosamente controlada e o otimismo quebrado imediatamente, diminuindo a nada quando fui agredida com a realidade do que eu estava prestes a fazer. Eu vi a cabeça loira de Mike balançar por trás de um dos balcões, dando-me um sorriso e um aceno, antes de se aproximar. Ele parecia se mover em câmera lenta.
Eu posso fazer isso.
"Ei, Mike." Ofereci uma saudação fraca, minha voz sem firmeza.
Mike parou diante de mim, então, simpático e ansioso, olhando-me nos olhos. "Precisa de ajuda com alguma coisa?"
Ele me fazia essa pergunta toda vez que eu entrava na loja sozinha. Quando Edward tinha vindo comigo, ele geralmente evitava falar conosco. Mesmo que eu tivesse aprendido o meu caminho ao redor nos meses em que eu tinha vindo aqui, ele ainda perguntava. Não era uma pergunta difícil.
Só que, hoje, a resposta era difícil.
Eu abri minha boca.
Fechei minha boca.
Mike sorriu.
"Não, está tudo certo." Eu disse rapidamente, finalmente e reflexivamente, virando e agarrando uma cesta. Passei por ele com um aceno nervoso, esperando que ele não pudesse ver o rubor no meu rosto. Se ele percebeu, ele não fez comentários. Ele simplesmente assentiu com a cabeça de volta para mim, seu sorriso desaparecendo, intrigado.
Eu não posso fazer isso.
Andei por todos os pequenos corredores na loja. Apanhei mantimentos aleatórios, sem um plano ou uma razão. Em algum momento eu me perguntei se eu seria capaz de fazer algo com eles, se qualquer um dos ingredientes poderia ser combinado. Eu me preocuparia com isso mais tarde. E se eu descobrisse que eu tinha escolhido coisas impossíveis de se misturar, não importaria. Eu não tinha ninguém para cozinhar além de mim, nem ninguém para impressionar ou cuidar.
Minha mão agarrou apertado no punho de aço da cesta.
De vez em quando, meus olhos cintilavam em torno da loja, tentando encontrar Mike. Ele estava arrumando alguma coisa que eu não podia ver, e ele estava de costas para mim.
Ele estava assobiando.
Eu não tinha nenhuma razão no mundo para ficar nervosa perto dele.
Mike sempre foi gentil comigo, sem razão ou momento. Cabelos loiros e rosto de bebê, ele me ajudava com os mantimentos a cada semana, conversava sobre o tempo, ou a cidade, ou o que quer que eu aceitasse discutir. Ele tinha me pegado no lado da estrada, encharcada de chuva e atordoada. Ele era alguém em quem eu podia confiar, alguém em quem eu poderia confiar para me tratar de forma justa. Para me dar uma chance.
Mesmo que fosse uma chance que eu não merecia.
Quando eu não consegui ficar distante, quando a cesta que eu segurava estava completamente cheia de latas incompatíveis e caixas e sacos, eu fiz o meu caminho até Mike.
"Pronto." Eu disse, as palavras deixando-me em um suspiro rápido.
Eu quase acreditei que eu estava.
Mike se virou.
Ele estava enchendo os sacos de granola.
Seu rosto se iluminou em um sorriso de novo, ele me fez um sinal na direção do caixa. Eu o segui sem palavras, colocando a cesta pesada em cima do balcão enquanto ele contornou por trás dela e começou a apertar o número de itens.
"Achou tudo o que precisava?" Ele perguntou casualmente, olhando para mim por um momento antes de cavar na cesta para pescar três latas de chili e um feijão e verificando o preço.
"Eu acho que sei me virar muito bem agora." Minha voz estava calma e escalonada, não natural. Tentando ser leve e engraçada, sociável, e só parecendo terrivelmente estranha.
Ele não pareceu notar.
"Verdade." Ele riu. "Então, como você está hoje?"
"Tudo bem." Eu disse rapidamente.
Ele notou dessa vez.
Mike olhou para mim, seus olhos azuis quentes com uma preocupação ligeira, seu cenho franzido em questão. Ele continuou a digitar minhas compras, porém, seu olhar oscilava entre o meu rosto e a máquina registradora com uma curiosidade casual.
"Você está bem?" Ele me perguntou, inclinando a cabeça para um lado.
Engoli em seco e assenti. "Sim".
Ele me olhou por um momento mais antes de encolher e terminar a conta.
Eu assisti seus dedos, fortes e seguros, enquanto ele os batia nas teclas; o som click click click na minha cabeça em um ritmo constante. Meus olhos lentamente encontraram o caminho para o seu rosto, um olhar relaxado e concentração em suas feições.
Ele era tão desprotegido. Tão fácil de conversar, tão fácil de ler. Bem humorado e disposto.
Eu posso fazer isso.
"Bella?"
Ele deve ter me dito o total, terminando de digitar meu pedido, porque ele de repente estava olhando para mim com expectativa.
Murmurei um pedido de desculpas e entreguei a ele o meu cartão.
O cartão de Edward.
Ele o pegou e o deslizou através da máquina antes de entregá-lo de volta para mim com um sorriso tranquilizador, antes de colocar meus mantimentos na sacola. Tentei sorrir de volta. Talvez eu ainda pudesse conseguir. Ele não estava olhando para mim, de qualquer maneira.
Juntei minha coragem em uma respiração profunda.
"Um, ouça, Mike, eu estava pensando..." Eu parei, minhas unhas de repente se tornando muito interessantes.
"Sim?"
"Você acha que... aqui está... quero dizer..." Eu me atrapalhei, meus olhos olhando para ele timidamente. Ele estava olhando para mim com calma. Finalmente, deixei escapar rapidamente, "Você tem alguma vaga de emprego no momento?"
As mãos de Mike fizeram uma pausa sobre as minhas compras, uma caixa de arroz Basmati quase em um saco de papel.
"Você quer um emprego?" Ele tentou esconder a surpresa em sua voz.
Tentei não me sentir intimidada por ele.
"Um... sim."
Mike me olhou fixamente por um momento.
O maior momento da minha vida.
Então, de repente, seu rosto irrompeu em um sorriso exultante, brilhante e encantador.
"Claro!" Ele concordou com um entusiasmo inesperado. "Quero dizer, é claro." Ele abaixou-se sob o balcão e apareceu brevemente de volta, estendendo um pedaço de papel na minha frente. "Esta é a inscrição. Basta preenchê-la e você pode ser treinada rapidamente".
Pisquei furiosamente antes de estender uma mão hesitante para trazer a inscrição para mim. Antes que eu pudesse perguntar, Mike tinha empurrado uma caneta na minha mão também.
"Você não tem que... ler isso primeiro?" Perguntei duvidosa, preenchendo meu nome e endereço ordenadamente em quadrados pequenos.
Mike se inclinou para a frente conspiratoriamente. "Bem, só entre nós, não há realmente muitas outras inscrições. Há uma quantidade muito limitada de pessoas qualificadas em Hartsel".
"E eu sou qualificada?" Não havia nem uma pequena quantidade de incredulidade no meu tom quando eu percebi que tinha preenchido o máximo que pude com meus estudos e o número de segurança social. Eu não tinha emprego anterior, nem referências.
"Sim". Mike disse com firmeza, com um aceno de cabeça. Então ele encolheu os ombros. "Considerando que as inscrições são... bem, pedidos".
Dei o papel de volta para ele, tentando não me sentir constrangida.
"E você pode contratar qualquer um, simplesmente assim?"
Outro dar de ombros e Mike pegou a minha candidatura e a colocou de volta sob o balcão, sem sequer olhar para ela. "Claro".
Sem outra palavra, ele pegou a maioria das minhas sacolas do balcão, puxando-as em seus braços. Peguei as duas restantes que não eram nada pesadas. Ele caminhou até a frente do balcão e, juntos, sorrindo um para o outro, fomos para a porta.
Eu olhei para ele, meu coração ainda martelando, mas retardando quando a descrença começou a afundar.
Seu rosto ainda era aberto, ainda sorrindo enquanto andava ao meu lado.
"Você é o dono desta loja?" Perguntei- a ele de repente quando ele abriu a porta e fizemos o nosso caminho até a caminhonete.
Eu me perguntava por que eu nunca tinha lhe perguntado isso antes, nunca tinha pensado sobre isso. Ele era o único que eu já tinha visto trabalhando lá dentro. Ocasionalmente, havia outro cara ajudando-o, mas não havia ninguém regular, nem mais ninguém cujo nome eu conhecesse.
"Eu? Não. Bem, quase." Ele respondeu quando eu desbloqueei a caminhonete e abri a porta do lado do passageiro. Ele colocou as sacolas cuidadosamente no chão, organizando-as por peso, enquanto falava. "Minha família é dona, meu pai." Então ele se virou para mim, olhando-me firmemente, como se ele pudesse ler a minha mente. "Mas, quero dizer, eu posso contratar alguém se eu sentir que preciso de alguma ajuda. Isso não é um problema".
Ele estava realmente me contratando.
Eu não consegui parar isso então.
Senti o calor, a incrível força e alívio da aceitação, lavar através de mim. A percepção de que isso estava acontecendo, que eu tinha conseguido, que ele tinha dito sim. A tensão não deixou meu corpo, mas mudou para uma excitação trêmula em meus ossos. Um triunfo inesperado e novo; estranho.
"E você precisa?" Eu perguntei, colocando o resto das sacolas na caminhonete e fechando a porta, lutando contra a vontade desconcertante de abraçá-lo. "De ajuda, eu quero dizer".
"Que homem não precisa da ajuda de uma bela senhora?" Mike perguntou, brincando, com uma piscadela.
Desviei o olhar sem jeito. "Oh".
"Ei, eu estou apenas brincando." Mike disse imediatamente, percebendo meu olhar um pouco aflito e batendo seu ombro contra o meu de brincadeira. "Nós não somos a loja mais movimentada, com certeza, mas somos a única. Eu realmente poderia usar a ajuda extra. Talvez assim que você aprender os códigos, eu realmente serei capaz de tirar alguns dias de folga".
Eu sorri. "Certo".
De repente eu me perguntei se eu algum dia aprenderia os códigos, se eu poderia ser confiável com algo tão grande como cuidar da loja sozinha. Por que alguém confiaria a mim essa responsabilidade tão grande?
Minha preocupação imediata deve ter ficado evidente no meu rosto.
Mike colocou um braço encorajador em torno do meu ombro, dando-me um leve aperto. "Confie em mim, Bella. Está tudo bem. Vai ser divertido!" Eu me inclinei para ele um pouco quando olhei para o seu rosto sorridente. Eu não pude resistir ao desejo de responder o seu sorriso entusiasmado com uma versão diluída do meu.
Ainda assim, eu não sabia como responder.
"Então." Mike disse quando ele me soltou, "Quer vir amanhã e começar a treinar?"
"Claro." Balancei a cabeça com uma confiança que eu não sentia. "Quero dizer, o que for melhor para você".
"Tudo bem, esteja aqui às nove e nós vamos passar alguns produtos juntos".
"Obrigada, Mike." Eu disse a ele sinceramente. "Muito obrigada".
Ele sorriu para mim novamente, balançando a cabeça em reconhecimento e dando tapinhas no meu ombro. Mordi o lábio e me afastei dele, não sabendo o que dizer. Depois de um momento, eu fui até o lado do motorista da caminhonete, passando por ele no meu caminho.
"Ei, Bella!" Ele chamou quando abri a porta.
Olhei para ele, ainda parado do outro lado da minha caminhonete. Suas mãos estavam descansando casualmente sobre o capô, seus dedos tamborilando um pouco.
"Sim?"
Eu podia de repente ver uma mudança em seu comportamento. Ele estava se movendo desconfortavelmente de pé para pé, a mesma preocupação de antes de volta em seus olhos. Honesto e preocupado. Dedos tamborilando e batendo com nenhum ritmo particular.
"Tudo está bem, certo?" Ele perguntou, sua voz um pouco mais quieta.
Respirei fundo e segurei por um momento.
"Por que não estaria?" Perguntei levemente, balançando a cabeça e encolhendo os ombros com uma curiosidade fingida.
Ele sabe.
Eu era a esposa de um médico de Nova York. Um membro de uma das famílias mais proeminentes que Hartsel já havia visto. Eu vivia na maior casa em um raio de 50 milhas.
E eu estava pedindo um emprego em uma pequena loja de mercado.
Eu sabia que não havia maneira de como ele poderia saber, exatamente quando comecei a perceber que não havia nenhuma maneira que ele não pudesse saber. Mike estava olhando para mim e de repente eu pensei que talvez ele pudesse ver. Não os detalhes, mas o caminho e a razão. Não as palavras, mas os resultados. Talvez ele pudesse ver tudo isso.
Mas, novamente, talvez ele não pudesse.
Ele me olhou por um momento mais, então sorriu de novo. Não foi genuíno, não foi feliz, ou real, ou tranquilizante. Foi um sorriso que dizia que ele estava me deixando com isso. Ele não forçaria. Ele era gentil e bom e ele não estava prestes a me fazer admitir nada.
Senti outra onda de gratidão para com ele quando ele me deu uma piscada desajeitada.
"É chato lá naquela casa grande, hein?" Ele riu, charmoso e com falsa misericórdia.
Eu não pude sorrir neste momento.
"Algo assim." Eu murmurei, deslizando para dentro da cabine e fechando a porta, sem dizer outra palavra.
Mike acenou para mim de fora, afastando-se da caminhonete para a loja. Acenei fracamente e de maneira infantil em resposta antes de colocar a caminhonete de ré e me retirar do pequeno estacionamento. Quando eu mudei de marcha na estrada, eu me virei para olhar a vitrine da loja de novo. Mike tinha desaparecido lá dentro, a porta se fechando atrás dele.
Eu exalei, profunda e longamente.
No passeio todo minhas mãos tremiam no volante.
Meus olhos continuavam correndo para as compras no assento ao meu lado e de volta à estrada.
Amanhã eu estaria ensacando mantimentos exatamente como esses. Eu estaria enchendo sacos de granola e digitando números em um caixa e ajudando as pessoas a encontrarem as coisas que precisavam. Eu trabalharia por um determinado tempo e teria um trabalho e ganharia um salário. Eu seria útil para alguém além de mim.
Não era muito, mas era alguma coisa. Era a força, ou a solução. Era um passo, um movimento para a frente. Era o que eu não havia experimentado antes, era o que faltava, era talvez o 'suficiente' que eu precisava tão desesperadamente.
Eu tinha vindo para cá e eu não tinha nada.
Agora eu tinha Alice e Jasper, eu tinha Emmett e Esme, eu tinha os cavalos e a casa.
Agora eu tinha a loja e eu tinha Mike.
Eu tinha algo que não pertenceu a Edward primeiro, que eu não consegui através da sua generosidade ou sua culpa.
Eu mereceria tudo o que eu consegui, eu trabalharia duro e aceitaria o pagamento e isso seria justo e eu nunca teria de me sentir indigna de novo.
Isso era um único homem com um sorriso no rosto e uma palavra amável, disposto a me dar uma chance.
Era um pequeno trabalho com um pequeno pagamento, mas era honesto.
E era meu.
Era meu, mas era algo que eu poderia dar a ele. Era algo que eu poderia dizer para ele com orgulho. Eu caminharia até ele quando voltasse para a casa da fazenda, o enfrentaria sem medo ou inferioridade, e diria a ele, sem sombra de dúvida, que a mudança que ele tinha visto em mim, a mudança que eu tinha visto em mim, era real. Muito real.
E aqui estava a prova.
Quando eu estacionei na calçada, o carro prata ainda estava desaparecido.
Nota da Irene: As vezes eu não sei o que pensar sobre o Edward. Ele é tão confuso. Mas tudo muda na vida deles agora, não é? Bella trabalhando... e com Mike ainda por cima... uiuiuiiii
Bem, e como essa semana tivemos "uma leitora a beira de um ataque de reviews" a fic ganhou um capítulo extra. E é um BIG capítulo.
Espero que gostem.
Juliana, obrigada pelas mais de 300 reviews. Nunca tinha recebido tantas, fiquei emocionada. Passamos de 1000! \o/
Mas em FaN tbm recebemos mais de 200, então, como sou uma pessoa justa, tbm postarei um extra por lá. Estou tãooooo feliz.
Vamos para o próximo capítulo. Ju, você mereceu!
