Capítulo 42 - A Viagem

Havia um silêncio pesado no ar, sufocantemente paciente e pontuado pelo leve padrão da chuva no telhado.

Olhei para a garagem para a minha caminhonete, vermelha e com faróis em chamas através do cinza da manhã. Embalada e pronta para me levar para longe deste lugar, da casa que eu tinha construído para a casa onde nasci. Do lugar onde eu desejava ficar para o lugar onde eu ansiava por voltar. Dicotomia guerreava dentro de mim, implacável e incontestável.

Minha mão deslizou ao longo da madeira molhada do corrimão enquanto seis pessoas tranquilas se situavam em minhas costas.

Lentamente, com um profundo suspiro, eu me virei para encará-las.

Eu já tinha dito adeus, da única maneira que importava.

Este era simplesmente um cumprimento; um ritual, uma cerimônia.

Um olhar para trás.

Um último olhar.

Esme deu-me um pequeno sorriso encorajador e um passo à frente. Eu não fiquei surpresa ao sentir seus braços primeiro. Sempre primeiro. Sempre a mais disposta a amar; braços abertos e o coração do tamanho do mundo inteiro. Ela sentia sua tristeza e sua felicidade, puramente e sem medo. Seu aperto era forte em torno dos meus ombros quando ela se abaixou para me abraçar. Seu cabelo cor de bronze dourado roçou minha bochecha enquanto ela segurava-me nela.

Rosalie e Emmett se moveram juntos. Rosalie me segurou tão firmemente como Esme, mais apertado, mas foi bem rápida em dar um passo para trás. O braço de Emmett envolveu ao redor do ombro dela imediatamente, prendendo-a contra o seu lado. Apoiando-a quando seu rosto desmoronou. Eu podia ver pesar no sorriso de Emmett, no seu silêncio, mas havia ainda a felicidade. Apoio e cuidado por Rosalie, e por mim. Esperança que eu encontraria o que eu precisava, esperança que eu pudesse ajudar meu pai. Feliz por eu ter essa chance. Sempre brilhante, mesmo através da chuva.

Jasper acenou para mim sobre a cabeça de Alice, simples e calmo.

Tão silencioso.

O abraço de Alice foi todo sussurros no meu ouvido, implorando-me para ficar, implorando-me para voltar, implorando-me para nunca, jamais esquecê-la. Segurei-me bem perto dela, minhas mãos apertando suas costas, meu rosto escavando em seu ombro, esmagando. Esta garota, que me ensinou o que era amar. Amar alguém, amar a mim mesma, amar a minha vida. E a vivê-la.

Eu só podia me agarrar a ela até que ela se afastou.

Havia apenas ele, em seguida.

Prendi minha respiração quando ele veio em minha direção, observando com um coração batendo enquanto os outros entraram na casa para que pudéssemos ficar sozinhos.

Eu não queria que eles se fossem.

Eu não queria ir.

E se eu ainda precisasse deles?

Senti as pontas dos dedos dele dançando ao longo do exterior das minhas mãos, em busca de entrada. Eu virei minhas palmas das mãos ligeiramente, senti seus dedos deslizarem entre os meus. Nossas mãos pressionadas juntas entre os nossos corpos, ligando-nos fisicamente, mesmo quando ele me olhava tão profundamente.

"Você tem certeza?" Ele perguntou baixinho, muito baixinho.

Ele tinha ficado comigo a noite toda, ajudando-me a empacotar minhas coisas e perguntando de novo e de novo se eu queria que ele viesse comigo. E eu queria. Mas eu não poderia pedir isso a ele, eu não poderia colocar esse peso sobre ele. Eu queria algo dele que ele não poderia mais dar para mim, e por isso ele não poderia estar ao meu lado. Ele poderia me ajudar a empacotar minhas coisas, ele podia observar sem dizer uma palavra enquanto eu dobrava os papéis do divórcio na minha bolsa, ele poderia dizer adeus para mim na chuva. Mas ele precisava ficar livre de mim, de todo o sofrimento que eu queria forçar a ele.

Eu assenti para ele lentamente, confirmando que a minha escolha tinha sido feita.

O resto era escolha dele.

Eu levaria a caminhonete porque eu precisaria dela assim que eu estivesse lá. Eu precisaria dessa mobilidade sempre, pertencendo a mim. Eu não tinha mais medo de me mudar. Um avião seria mais rápido, um avião me levaria para Forks imediatamente. Eu não precisava de nada imediato. Eu precisava de tempo para me arrastar até lá, para observar cada centímetro de terra, cada quilômetro que eu estava estendendo entre nós.

O telefone celular de Edward estava enfiado no bolso do meu leve casaco, um presente para mim nas horas escuras da noite.

A respiração de Edward estremeceu levemente e então sua testa estava pressionada contra a minha. Nossas mãos ainda ligadas, eu fechei meus olhos contra a sensação da sua pele contra a minha. Mais íntimo do que sexo, mais casto do que um beijo.

Nós estávamos respirando o ar um do outro.

Eu não tinha certeza de quanto tempo ficamos assim, mal se tocando e sem vontade de nos afastar.

Por fim, inevitavelmente, nós nos separamos.

Caminhei até a caminhonete através da chuva, entrando rapidamente para que eu não ficasse encharcada através das horas. Bati a porta atrás de mim e, mais uma vez, tudo ficou em silêncio, exceto pela chuva e o barulho do motor. Liguei os limpadores de pára-brisa e observei por mais um momento enquanto o corpo alto de Edward ficou claro através do vidro borrado e apagado. Mais e mais.

Havia um rasgo em meu peito e na minha cabeça enquanto eu puxei o carro lentamente, nunca tirando meus olhos da figura imóvel dele.

A casa atrás dele estava iluminada e cheia com todas as pessoas que eu tinha aprendido a amar, a cultivar e perder.

Mas foi a silhueta dele - só a dele - que foi a última coisa que eu vi.

Todo o resto era a estrada aberta diante de mim.

~ O ~

Edward estava ao meu lado, sua perna tocando a minha no ar sufocante do avião.

Olhei para ele, seus dedos lentamente passando em toda a madeira lisa da pequena caixa que ele segurava. Era um gesto doloroso, e isso fez meu estômago virar por ver.

Meus olhos subiram até seu rosto, mas ele estava olhando para o chão na frente dele.

Nem dormindo, nem me vendo, nem vendo suas mãos.

Apenas olhando.

Sua mente em algum outro lugar, eu permiti que meus olhos caíssem sobre a caixa novamente.

Eu não o segurei. Eu havia me recusado a tocá-la. Eu o tinha obrigado a mantê-la longe de mim, para segurá-la. Ele precisava mais disso do que eu. Ele sempre tinha precisado mais disso. E eu não pude olhar para ela, não pude tocá-la, não pude segurá-la durante os últimos dois meses enquanto tínhamos embalado todos os nossos pertences.

Não era uma caixa.

Tudo o que ela continha, tudo o que não sustentou.

Meu futuro, trancado, naquelas pequenas cinzas.

Dois meses.

Já havia passado dois meses desde que eu tinha perdido... ele.

Eu tinha esperado sentir mais dor, sentir um vazio que fosse mais do que físico. Em vez disso, simplesmente parecia como se nunca tivesse acontecido. Como se não tivesse sido real. Eu nunca o tinha visto, nunca o conheci, e assim ele nunca tinha existido. Ele não tinha tido sequer a chance de tentar viver. Simplesmente não houve força suficiente. Seu corpo, o que eu tinha dado a ele, não foi suficiente. E o que eu tinha feito a ele? Tirado todas as chances.

O resto tinha sido coisa de Deus.

O que quer que isso significasse.

Olhei pela janela do avião e perguntei-me como seria. Seria como todos os filmes glamorosos e mágicos. Cheia de edifícios altos e oportunidades. Tudo seria como eu imaginei? Seria um lugar que eu poderia ser feliz? Seria parecido com o lugar onde eu poderia construir uma nova vida e me tornar uma nova pessoa?

Eu pensei que estaria mais nervosa.

Mas o que poderia assustar-me agora?

Nada.

Nada, exceto aquela caixinha que Edward segurava em suas mãos.

~ O ~

Eu estava dirigindo há horas.

Segui a linha vermelha do mapa, olhando para ela apenas ocasionalmente para confirmar o que eu já sabia, não necessitando do GPS que Edward tinha enfiado no porta-luvas. Eu nunca tinha tido um notável senso de direção. Eu nunca tinha reclamado de uma memória impecável. Nunca me senti totalmente confiante de ler um mapa.

Mas havia algo dentro de mim, chamando-me para casa.

Puxando-me tão forte, tão forte, que tudo que eu podia fazer era acelerar e dirigir e dirigir e dirigir.

A beleza das paisagens em torno de mim era marcante, o que notei apenas levemente a cada hora, ou algo assim, enquanto elas mudavam e mudavam ao meu redor. Eu guardava as formas e cores em minha mente antes de virar os olhos para o asfalto. O alcatrão preto e linhas amarelas parecendo ser as únicas coisas no mundo, as únicas realidades físicas que poderiam prender minha atenção.

O sol estava começando a se pôr antes de eu começar a sentir a realidade do dia, a realidade do que eu estava fazendo.

Para onde eu estava indo.

Viajando, por estradas ou pelo ar, era impossível não me lembrar de voar pelo país naquele dia com Edward e tudo o que eu possuía no mundo. Algumas coisas que eu não pude. Fugindo três mil milhas para longe de tudo o que era familiar.

Porque tudo o que era familiar era o que estava me derrubando.

Tinha sido mais fácil quando Edward tinha me arrastado para o Colorado naquele trem. Eu podia lembrar vividamente da apreensão que senti quando fomos para Hartsel, sem realmente saber para onde eu estava indo. Não compreendendo por que eu estava indo. Não sabendo o que era esperado de mim. Não sabendo o que eu esperava dele, de mim mesma.

Isso não era nada de novo.

Houve desespero, o pensamento da miséria e da estagnação eram as únicas emoções que eu poderia esperar dele e para ele. Tinha sido assim durante quatro anos, por que seria diferente em outro estado? Em outra casa? Como poderia ser diferente?

Eu não sabia mais nada.

Eu não conseguia imaginar nada diferente, nada que pudesse me manter lá além do mantra de que eu não estaria sozinha. Cada momento horrível era suportável porque Edward estaria lá também. Lutando para sobreviver. No silêncio e no ódio. Minha vida em miniatura.

Eu não achava que Edward algum dia quis empurrar-me para a sua família, tão duro e tão plenamente até que me tornei uma deles. Marcando suas vidas com toda a minha dor e todo o potencial de esquecer que eu já tive, que eles poderiam ajudar a despertar em mim.

Eu não acho que ele tinha me torturado a fim de me ensinar uma lição, a fim de me ajudar a merecer o amor.

Não havia nada planejado sobre o que aconteceu naquela casa.

Apenas os erros feitos por nós dois, falíveis e humanos.

Meus erros o levaram para a infelicidade, miséria, morte e raiva e angústia.

Mas seus erros me levaram a Emmett e Alice e Esme e a Rosalie no final.

Para um trabalho e um propósito e uma vida.

Para a minha liberdade, que ele deu para mim agora.

E que eu tinha sido capaz de dar a ele.

Ainda assim, eu podia sentir meu coração começando a correr, minhas mãos agarrando ao volante no desvanecimento do dia.

Conforme eu dirigia para longe dele, mais e mais, sentindo cada quilômetro tiquetaqueando sob os pneus da velha caminhonete, eu podia sentir a distância. A tensão. O... anseio.

O anseio pela pintura branca brilhante, alegre e protetora na madeira podre de cada elemento.

O anseio pelo quarto frio, tão quente no verão e belo como um prado.

O anseio pela graça angustiante daquela sepultura na árvore.

Perguntei-me se Edward voltaria para a casa agora que eu tinha ido embora.

~ O ~

"Eu tenho algo especial planejado para nós em casa..." Ele disse, com tanto querer e afeto.

Eu não queria ir para casa.

Eu estava empolgada com as diversões da cidade, apaixonada com tudo sobre Nova York.

Eu amava o barulho e o desconforto e o espaço e os sabores. Adorava as buzinas e as multidões agitadas. Eu amava que todas as noites, a cada minuto, houvesse algo acontecendo que poderia me distrair de qualquer tristeza ou descontentamento que eu pudesse sentir.

Nova York anestesiava tudo.

Até o meu primeiro aniversário de casamento.

Edward implorou-me para ficar em casa com ele e eu tinha implorado de volta para ele, sempre sabendo que eu ganharia.

Eu queria me arrumar.

Eu queria ficar bonita.

Eu queria que Edward me quisesse desesperadamente.

Eu queria que cada homem na cidade me quisesse desesperadamente.

Homens que não sabiam o que eu era.

Estéril.

Quando Edward e eu saímos do nosso táxi para a calçada do lado de fora do Lincoln Center, eu parecia tudo, exceto estéril. Vestido preto abraçando as curvas e mergulhando até o fim pelos meus tornozelos até a rua. Um ombro totalmente nu, a parte mais importante do vestido. Brincos lustrosos de diamante que caíam em cascatas como cadeias cintilantes em cachoeiras para escovar em minha clavícula.

Eu podia ver os olhares para os lados, os olhares furtivos, a admiração educada.

Eu não conseguia ter o suficiente.

Eu sorri brilhantemente quando entramos no prédio, cartazes brilhantes e altos para Don Giovanni de Mozart colocado em cada canto do salão.

Edward apresentou-me a um casal que ele conhecia, a esposa com quem ele trabalhava. Eles ficaram encantados ao me conhecer, eu fiquei encantada em conhecê-los. Eu me movi por todo o salão, conversando facilmente, rindo e feliz. Notei que a minha leveza afetou Edward, sorrisos pequenos puxando seus lábios de vez em quando. Suas mãos sempre tentando estar sobre mim. No meu braço, em minha cintura, nas minhas costas.

Quando ele me levou para o nosso camarote, tomei um momento para admirar o projeto do edifício, todos os ouros e vermelhos e azuis.

Eu estava sorrindo muito até tomarmos nossos lugares e as luzes se apagarem para nada.

Houve uma onda de música, a abertura no veludo quebrando a escuridão e eletrizando com o movimento das pessoas nos bastidores. Tentei me concentrar nos sons, mas, na escuridão, encontrei-me pensando apenas na mão de Edward, a centímetros do meu próprio descanso de braço. Folheei o programa, lendo o início do Libretto, inquieta. Minhas coxas estavam tensas quando movi minhas duas mãos para descansarem sobre elas.

No momento em que as cortinas se abriram eu tinha me rendido e tinha virado minha cabeça para olhar para Edward.

Ele não estava olhando para mim.

Encontrei-me o observando com cuidado, observando a concentração intensa no seu rosto quando a ópera começou a se desenrolar diante de nós. Perguntei-me o que ele estava pensando, no que ele estava tão focado. Eu estava segurando o Libretto, talvez ele estivesse tentando entender italiano, ou ler a linguagem corporal dos cantores.

Ou, talvez ele tenha sido cativado pelo aspecto visual, pelos trajes brilhantes.

Eu podia imaginar, também, que ele estava pensando em algo completamente diferente. Algo a ver com a música que ele tanto amava sendo tocada em um nível tão magistral.

Talvez esta ópera significasse algo para ele, talvez ele a entendesse em um nível que eu não podia.

De repente, os olhos de Edward lançaram para os meus.

Eu não tinha percebido que eu ainda estava de frente para a sua direção, então seus olhos em meu rosto me assustaram.

Olhei para longe rapidamente, reativamente, não querendo que ele me visse olhando para ele.

Eu não poderia agir como se eu o achasse interessante.

Eu não poderia agir como se eu quisesse falar com ele.

Porque, a verdade era que eu não queria.

Eu não queria dizer nada.

Às vezes, não muitas vezes, mas às vezes, eu só queria olhar para ele.

Mas ele tentaria falar comigo, sabendo que eu não queria, e não se importando.

Porque ele achava que deveria.

Eu só queria olhar para ele e ele não me deixava.

Perguntei-me, não pela primeira vez, por que eu o tinha obrigado a trazer-me aqui, por que eu tinha pensado que era uma boa ideia se nós dois saíssemos juntos. Por que eu tinha casado com ele e o deixado vir comigo para Nova York. Por que eu o tinha deixado levar aquela pequena caixa e o deixei sentar ao meu lado.

Eu não o amava, eu não o queria.

Por que eu simplesmente não tinha dito a ele para deixar-me em paz? Por que eu não poderia simplesmente ter dito a ele que eu queria ir à ópera sozinha, sendo aniversário de casamento ou não?

Um ano atrás, eu poderia ter feito isso.

Mas toda a amargura se foi.

E tanto quanto eu me ressentia dele, eu o queria comigo.

A única pessoa no mundo que eu podia ter certeza que era mais miserável do que eu.

~ O ~

Não foi até às 2hs30min da manhã que eu finalmente admiti para mim mesma que tinha que parar e descansar por algumas horas.

Eu não tinha percebido até meus olhos ficarem pesados exatamente o quão longe eu tinha viajado, exatamente o quão longe eu estava da segurança do lugar de onde eu tinha vindo. O quanto eu tinha me impulsionado pela profunda e incerta escuridão.

Eu sabia pelas placas que eu estava em algum lugar ao sul de Idaho, mas eu não conseguia lembrar o nome da cidade.

Ainda perto de Utah.

Puxei para o estacionamento quase vazio de um pequeno motel, em uma cidade pequena, sem dúvida.

Não diferente de Hartsel e nada como Hartsel.

Porque essa cidade não era nada sem as pessoas que viviam nela.

Pessoas que eu havia deixado para trás, talvez para sempre.

Abri a porta e empurrei-me para fora da caminhonete, minhas pernas um pouco trêmulas e cansadas do longo trecho de estrada que eu tinha acabado de percorrer. Olhei ao redor e para as luzes tremeluzentes que diziam Temos Vagas. Não era um motel muito bom, parecia ser um lugar pouco desejável para passar a noite, mas eu tinha certeza que seria mais barato e eu não tinha muito dinheiro.

Não com Mike prometendo enviar-me o meu salário final, não com a forma como a minha caminhonete engolia gasolina.

Não querendo usar o cartão de Edward.

Se eu chegasse em Forks com segurança, eu o cortaria.

Um sino tocou quando atravessei a porta que ostentava uma pequena placa que dizia "recepção".

Havia um homem magro sentado no balcão, que olhou para cima quando ouviu-me entrar. Ele tinha cabelo loiro oleoso e olhos azuis penetrantes que se arrastaram preguiçosamente sobre mim, avaliando enquanto um sorriso longo surgiu sobre suas características.

Limpei minha garganta, passando de um pé para o outro antes de parar, "Um quarto de solteiro".

Olhando-me mais uma vez, eu vi sua língua passar pelo seu lábio superior momentaneamente antes que ele olhasse ao redor do meu ombro, certificando-se que eu estava realmente sozinha. Minha caminhonete silenciosa e desajeitada, claramente o único carro estacionado na frente.

"Deve ser horrível ficar só, não é?" Ele demorou, sua voz gotejando suavidade e sugestão.

Eu tremi um pouco quando ele se inclinou para frente, sua mão sobre a chave enquanto ele a deslizava ao longo da superfície do balcão para mim.

"Não." Eu disse rapidamente.

Com a minha curta resposta, um largo sorriso rompeu em seu rosto, seus dentes afiados e amarelos. Com as sobrancelhas erguidas, ele retirou a mão da chave, levantando a outra em um gesto de rendição paquerador. Em seguida, ele estava cruzando os braços, recostando-se confortavelmente, presunçosamente.

"Simplesmente avise-me se você precisar de alguma coisa." Ele provocou com uma piscadela.

Peguei a chave rapidamente e, com um aceno de cabeça, virei-me e caminhei para fora da porta tão calmamente quanto eu podia. Abri a porta da caminhonete, peguei minha pequena bolsa do chão e tranquei a porta atrás de mim. Então eu fiz questão de tomar o meu tempo à procura da porta número 127, andando lentamente e com uma confiança fingida que eu não podia sentir.

Levei três tentativas para abrir a porta, meus dedos tremendo enquanto eu tentava encaixar a chave na fechadura. Quando finalmente a porta se abriu, eu entrei rapidamente, balançando minha bolsa para os meus pés e fechando a porta às minhas costas. Por um momento eu me encostei contra o metal frio pintado de bege, tentando me acalmar.

Eu me sentia tão insegura, tão incerta.

Eu só tinha um pensamento naquele momento: eu gostaria que Edward estivesse aqui.

Pensei em sua pele, ficando marrom e dura de um verão passado no sol comigo. Pensei em seus braços, ficando fortes e musculosos enquanto ele trabalhava na casa, e como eles envolviam em torno de mim em conforto. Pensei sobre o sorriso dele, no jeito que ele era tão raro e tão emocionante e a forma como iluminava seu rosto inteiro.

Apertei meus olhos fechados por um momento antes de tomar uma respiração profunda e empurrar-me para longe da porta. Virei-me, girei a tranca e enganchei a corrente antes de erguer meus ombros com determinação.

Eu poderia fazer isso sozinha.

Braços machucados, gritando em uma noite de nevasca, os papéis do divórcio selados com um beijo e Edward não tinham sido tão reconfortantes comigo antes.

Peguei minha bolsa e a coloquei na pequena cama, acendendo a luz sobre a cômoda. Eu a abri, as mãos ainda tremendo um pouco, e imediatamente encontrei meus dedos envolvidos em torno do pequeno livro de couro que passou a significar a minha força.

Ou a minha maior fraqueza.

Sentei-me lentamente enquanto eu folheava as páginas, desembarcando em uma que eu ainda não tinha lido.

Porque eu não espero voltar outra vez / Porque eu não espero / Porque eu não espero voltar...

Chupei uma respiração profunda e irregular. O poema era de T. S. Eliot e eu o conhecia bem o suficiente para que eu não tivesse que olhar para a data abaixo dele. Lendo as primeiras linhas, toda a escuridão e desespero, eu sabia que só poderia ter sido logo depois que tínhamos perdido nosso filho.

Ou qualquer um dos meses seguintes, eu admiti para mim mesma a contragosto.

Tinha havido alguma felicidade depois disso?

Algum dia?

Porque estas asas não são mais asas para voar / Mas apenas andorinhas para bater no ar / O ar que agora está tão fraco e seco / Mais fraco e mais seco do que a vontade / Ensina-nos a se importar e não se importar / Ensina-nos a sentar imóveis.

Fechei o livro e, novamente, meus olhos.

Respirei fundo e simplesmente me sentei, encontrando conforto na calma que descia sobre mim. Ondas de exaustão rolavam atrás das minhas pálpebras. A libertação tensa na poesia, a comiseração dolorida e eu não me senti tão sozinha.

Eu tinha Eliot.

E Edward.

Colocando o livro na mesa de cabeceira, estendi a mão para a minha bolsa. Procurei dentro por um momento até que minhas mãos pousaram sobre algo que parecia confortável para dormir. Puxando uma camisa de flanela, ouvi um baque surdo quando algo rígido, ou outra coisa, bateu no chão em silêncio.

Um livro.

Eu lentamente me curvei para pegá-lo.

O Morro dos Ventos Uivantes.

Por alguma razão, o título, a cópia, me assustou.

Era da biblioteca de Hartsel, tinha sido o livro que eu tinha começado a ler na noite em que a luz desapareceu na cabana. Eu tinha adormecido o segurando, eu o deixara cair no chão.

Edward deve ter pensado que eu ainda estava lendo.

Ou que eu tinha gostado, que o queria.

Parte de mim estava surpresa por ele até mesmo lembrar que livro era.

Mas apenas uma parte de mim.

Claro que ele se lembrava.

~ O ~

"Eu tenho ingressos para a ópera." Edward disse com um sorriso quando entrou na sala. "Achei que talvez você gostaria de ir. Fazer disso uma tradição?"

Eu olhei para ele do sofá, minhas pernas encolhidas embaixo de mim vestida com um short, meu cabelo emaranhado e sujo de um dia ocioso.

Nosso segundo aniversário de casamento tinha chegado sem avisar e lentamente.

Eu só me lembrei dele quando Edward sussurrou em meu ouvido esta manhã com um beijo no meu pescoço. Eu tinha sorrido, eu havia tocado seu rosto levemente, e então eu tinha saído de nossa cama e descido para tomar café da manhã.

"Podemos apenas ficar aqui?" Perguntei a ele, minha voz calma e muito patética.

Edward piscou para mim por um instante, como se não tivesse certeza que tinha realmente me escutado.

"Você quer... ficar aqui?"

Após um ano de festas intermináveis, eventos sociais intermináveis, infinitas taças de champanhe, algo em mim - no fundo - se sentia muito cansado. Sair todas as noites tinha cobrado seu preço, em algo em mim que eu não poderia explicar. Tive o cuidado, porém, de não mostrar nada disso para Edward. Sem cansaço, sem fadiga. Apenas vestindo entusiasmo. Ele parou de ir comigo às vezes.

Exatamente como eu queria.

Descobri que não tornava nada melhor ir sozinha.

Eu ainda odiava cada segundo disso.

Então, talvez eu voltasse para as distrações amanhã.

Afinal, tinha que ser melhor do que essa fadiga entorpecida que eu podia sentir em cada centímetro da minha pele, dos meus ossos.

Mas, hoje à noite, eu não tinha forças em mim.

"Está tudo bem?" Eu perguntei, forçando-me a colocar minha atenção na expressão de Edward. Eu podia ver surpresa, mas qualquer outra emoção foi cuidadosamente escondida. Era decepção? Alívio? Ou era a apatia que ele me mostrava claramente?

Eu pensei que talvez, se ele realmente quisesse, eu sairia com ele.

Para fazê-lo feliz.

A ideia deixou-me ainda mais exausta, vazia.

"Claro." Edward concordou com um aceno de cabeça.

Eu nunca tinha que fazer um esforço com ele, nunca tinha que ser uma esposa falsa, porque ele sempre aceitava.

A tudo e qualquer coisa.

Então, virando-se quando ele saiu da sala, "Eu só tenho que... fazer algumas ligações".

Cancelar reservas, vender ingressos, pedir desculpas às pessoas.

Nada disso tinha jamais me importado.

Eu não poderia estar certa, mas eu pensei ter visto um pequeno lampejo de algo como esperança em seus olhos.

Pelo bem dele, eu queria ter imaginado isso.

Ele não sabia que eu estava sem esperança?

Depois de alguns minutos, eu o ouvi andar para a sala.

"Você está se sentindo bem?" Ele perguntou.

Olhei para ele, notando que havia ele tirado seu terno e agora estava vestindo calças largas de dormir e uma velha camisa. Eu podia ver os ossos dos seus braços e peito sob o tecido, em destaque em seu corpo magro. Meus olhos caíram para minhas mãos.

"Sim." Assegurei-lhe em voz baixa. Em seguida, sorrindo fracamente para ele, "Só cansada".

"Existe alguma coisa...?" Ele começou.

"Não".

Edward deu mais um passo em minha direção, depois outro, até que ele estava de pé bem na frente do sofá, olhando para mim.

"Você quer que eu faça o jantar para você?" Ele ofereceu gentilmente.

Eu considerei isso por um momento. Então, "Uma bebida?"

Eu não conseguia comer.

Com um aceno de cabeça, Edward saiu da sala novamente, desta vez em direção à cozinha.

Ouvi o tilintar do gelo no copo, ouvi a bebida sendo derramada e senti meu estômago estirar e minha boca salivar.

Ele voltou com apenas uma bebida e entregou-me o copo gelado cuidadosamente, nossos dedos mal se tocando. Percebi quando eu tomei um gole, enquanto eu o via se endireitar e ficar sem jeito diante de mim como um servo treinado, que ele não havia feito um para si mesmo porque ele esperava ser dispensado.

Por alguma razão, esse reconhecimento fez o meu estômago rolar.

"Você quer se sentar comigo por um tempo?" Eu o convidei, minha voz calma e meu corpo se movendo ligeiramente de modo que houvesse espaço no sofá para ele.

Edward piscou novamente.

Outra surpresa.

Ele abaixou-se para o lado oposto do sofá com cautela, como se esperasse que eu de repente o chutasse para fora, ou gritasse, ou jogasse o copo na cabeça dele. Algo que seria um comportamento mais normal do que eu estar sentada ao lado dele, com as pernas nuas e tomando gin contemplativamente.

Os olhos de Edward não me deixaram por um longo tempo.

"Não olhe para mim." Eu queria estalar as palavras, dar-lhe o que ele esperava. Elas saíram como um apelo sussurrado. Encontrei-me pensando, mais uma vez, no quanto eu soava patética.

No quanto eu estava vulnerável.

Edward deu um aceno rápido e se levantou. Ele atravessou a sala para a grande estante de livros, digitalizando as laterais dos livros por um momento antes de arrancar um da parede de literatura. Sem uma palavra, ou uma segunda olhada para mim, ele voltou ao seu lugar no sofá e abriu o livro, começando a ler.

Eu o tinha observado bruscamente, visto o título do livro quando ele voltou para seu lugar ao meu lado.

Foi a minha vez de ser surpreendida.

"É seu?" Eu queria saber.

Edward olhou para mim interrogativamente e acenou com a cabeça ligeiramente para o romance que ele estava segurando.

Os cantos da sua boca contraíram um pouco. "Sim".

"Você já o leu?"

"Uma vez, há muito tempo." Edward respondeu, seus olhos deixando os meus e caindo de volta para a página diante dele.

Perguntei-me se isso significava que ele tinha lido na faculdade, que ele tinha sido forçado. Ele não era muito fã de literatura. Eu duvidava que ele tivesse escolhido um romance clássico como O Morro dos Ventos Uivantes por conta própria.

Então, novamente, eu realmente não sabia o que ele faria por conta própria.

Eu realmente não o conhecia.

Suspirei depois de um longo momento, pensando no meu próprio tempo na faculdade.

O quanto eu amava as palavras.

E como ingenuamente e inocentemente eu acreditava em seu poder, e sua beleza.

"Eu acho que eu nunca o li todo." Eu admiti, tristemente sorrindo para nada, para ninguém.

"Sério?" Edward ergueu seu olhar mais uma vez, sua expressão cheia de curiosidade. "Onde você parou?"

Ele estava olhando para mim como se eu fosse a pessoa mais misteriosa, mais fascinante do mundo.

Ele era um tolo.

"Eu não tenho certeza." Eu disse com um encolher de ombros despreocupado. "Provavelmente apenas me cansei do jeito fodido que os pobres falam".

O rosto de Edward abriu um pequeno sorriso. "Compreensível." Ele concordou, voltando mais uma vez para a história.

Deixando-me sozinha do lado de fora.

Sozinha no sofá, mesmo que estivéssemos tão próximos um do outro. Mesmo que tudo que eu tivesse que fazer era estender a minha perna apenas um centímetro e meu pé estaria descansando contra a sua coxa. Ainda havia quilômetros entre nós, e paredes muito altas para escalar.

Eu não podia sequer imaginar tentar ler esse livro agora, não podia imaginar querer chegar até o fim da história.

Às vezes era melhor não saber de nada.

Amar uma menina e deixá-la.

Amar um menino e casar com outra pessoa.

Amar alguém que nunca o amaria de volta.

Amar a pessoa errada e destruir o mundo.

~ O ~

Eu estacionei na beira da estrada em frente da Linha do Estado de Washington e liguei para o hospital do telefone de Edward.

O céu estava coberto de nuvens sempre constantes, mas não estava frio. Ainda assim, segurando o telefone na minha orelha, meu corpo inteiro estava tremendo, batendo os dentes enquanto eu esperava por uma resposta.

Conversei com uma enfermeira, que me passou para um médico.

Conversei com um médico, que me deu uma atualização.

Meu pai estava estável e eu exalei em uma onda de emoção.

Meu pai ainda não estava falando, e meu corpo inteiro tencionou.

Meu pai muito provavelmente ficaria paralisado pelo resto da sua vida e eu congelei.

Sangue bombeou através dos meus ouvidos e enfraqueceu os meus membros.

Rapidamente dizendo ao médico que eu estaria lá em poucas horas, suplicando-lhe para ligar se houvesse alguma mudança, eu desliguei o telefone.

Imediatamente eu caí de joelhos na beira da estrada, vomitando o pouco que eu tinha comido no café da manhã.

O gosto era amargo no fundo da minha garganta, o enjôo exigindo tudo de mim até não sobrar nada.

Com as pernas trêmulas, endireitei meu corpo, silenciosamente amaldiçoando minha própria fraqueza.

Minha mão deslizou sobre o metal liso e sujo da minha caminhonete, em busca de estabilidade.

Houve pânico, frio e pressa assim que o peso do medo se instalou na boca do meu estômago.

Eu não sabia se conseguiria fazer isso.

Eu queria ajudar meu pai, eu queria estar lá para ele, mas eu não sabia o que eu poderia fazer isso. Antes de ir para Hartsel, eu teria simplesmente ficado ao lado da cama dele, dito palavras vazias de esperança e encorajamento, e sido completamente e totalmente inútil.

E isso não tinha mudado.

Eu tinha sentido como se eu tivesse amadurecido tanto nos meses que eu tinha ficado no Colorado com Edward, como se eu tivesse aprendido tanto sobre mim mesma e o mundo ao meu redor.

E, ainda assim, só precisou de uma coisa, um momento, para me trazer de volta para a estaca zero.

Eu não era boa em sobreviver a desastres.

Porque parecia que cada momento da minha vida estava desmoronando junto, arrastando-me de volta para Forks, a fim de me destruir. Destruir qualquer felicidade que eu tivesse encontrado, ou tivesse tentado encontrar. O pânico de perder meu pai, de perder minha família, de perder Edward, de perder o pouco que sobrou para mim desta jornada, desse regresso ansioso para casa.

Eu queria tanto, com cada fibra do meu ser, voltar atrás e fugir.

Dirigir e dirigir e dirigir até que eu estivesse de volta a Hartsel.

De volta a todos os que me faziam forte.

Envolvida nos braços de Edward.

Eu tomei uma respiração profunda.

Em seguida, outra.

Tentei lembrar da minha conversa com Jasper, da calma que eu tinha sentido ao falar com ele. Esse sentimento estranho que eu mal tinha visto quando fazia a minha despedida. A clareza inexplicável de perceber que o mundo se manteria em movimento, com ou sem mim. Que havia escolhas, mas também havia momentos que eram inevitáveis.

Inevitável, ele havia dito, que Edward me encontraria.

Pensei em todos os momentos de epifania que eu tinha passado, sofrido e celebrado por quase um ano na casa da fazenda. Eu sabia que cada momento que eu tinha lutado contra Edward e sua família e contra mim mesma, nunca seria o suficiente no final.

Eu tive que limpar o quarto de Edward.

Eu tive que cair de Santana.

Eu tive que segurar os papéis do divórcio.

Eu tive que chorar no túmulo do meu filho.

E agora... eu tinha que enfrentar o resto disso.

Meu pai.

Minha mãe.

Jacob...

O telefonema do hospital tinha provocado o ressurgimento do sentimento. Positivo ou negativo era irrelevante. Eu tinha confiado apenas a Jasper e Alice o que eu temia experimentar. Eu disse a eles da única maneira que eu conseguia pensar em descrever isso, dormente por meses e reavivando de repente com o pensamento de voltar para casa.

Eu não sabia o que eu sentia quando pensei em ver Jacob de novo.

Só que era poderoso e forte, lento e consumidor.

Eu tinha me lembrado dele algumas vezes em Hartsel, no começo. No sorriso de Emmett, ou nas piadas de Alice, ou nas árvores e rios e campos de terra. A imagem dele havia desaparecido, no entanto. Houve momentos em que eu pensava que estava livre dele, que eu não teria que pensar mais nele. As memórias remanescentes sempre eram centradas em torno de Edward, em torno do que eu tinha feito para ele em nome de todo aquele amor consumidor e destrutivo.

Agora, enquanto eu ia progressivamente me aproximando de Forks, eu podia senti-lo acenando.

O destino se desenrolava sozinho, uma onda no mar que parecia avançar.

Eu odiava que eu não tivesse escolha aqui.

Ele quereria estar lá para Charlie.

Ele quereria estar lá para mim.

E eu queria tanto não me importar.

Eu queria sentir apenas preocupação pelo meu pai, determinação para ajudá-lo, para reconstruir a nossa relação e para ajudá-lo a reconstruir sua vida, ao meu lado enquanto eu reconstruía a minha. Eu queria sentir apenas saudade pela minha família deixada em Hartsel, planejando e tramando quando eu poderia voltar a vê-los novamente. Eu queria sentir apenas amor por Edward, a pessoa em minha vida que merecia mais do que ninguém.

Apertando minhas mãos em punhos, eu as bati contra o capô quando deixei escapar um grunhido de frustração. Eu recuei até a porta e a puxei aberta, ignorando os carros que rugiam ao passar de vez em quando.

Deslizando para o banco, peguei o livro de couro do porta-luvas.

A voz que me confortava.

A verdade dobrada em rima.

No nosso terceiro aniversário de casamento, Edward tinha anotado um poema curto de Blake.

Sua letra estava desleixada, como se ele estivesse apressado.

Ó Rosa, tu estás doente / o verme invisível / que voa na noite / no meio da tempestade uivando / Encontrou o teu leito / de rubra alegria / e seu negro amor secreto / a vida te abrevia

Fechei o livro novamente e o joguei para o chão atrás de mim, a tensão correndo por mim em vez de alívio.

As palavras de Blake, como Edward as tinha escrito, não me acalmaram, ou me entristeceram, ou me encheram de saudades, como sempre faziam.

Eu não senti nada do que eu queria sentir.

Eu me senti como o gato de Schrodinger* em uma caixa.

*Gato de Schrodinger: é uma das ideias mais bizarras já produzidas pela mente humana. Trata-se de uma experiência imaginária na qual um gato, no papel de cobaia, está vivo e morto ao mesmo tempo! E não estamos falando de espiritismo, mas de mecânica quântica, o ramo da física que estuda o estranhíssimo mundo das partículas subatômicas (menores que os átomos). A hipótese foi concebida pelo físico austríaco Erwin Schrödinger, um dos mais brilhantes cientistas do século XX.

Nem vivo nem morto, nem ego nem identidade, nem partícula nem onda, oscilando entre estados.

Entre ser uma coisa e tornar-se outra.

Minhas mãos estavam fechadas no volante, gritando para eu fugir.

Eu não tinha certeza de que era realmente possível mudar.

~ O ~

O gin estava tão deliciosamente quente escorrendo pela minha garganta até dentro de mim.

Coloquei a taça de volta para baixo sobre a madeira envernizada do bar e deixei meus dedos passarem na condensação fria que revestia o lado de fora do vidro.

Eu gostei da sensação disso.

Gostei da maneira como os olhos daquele homem ficavam quando ele olhava para mim do outro lado do bar.

Olhei para ele com um pequeno sorriso, olhando-o de cima abaixo enquanto ele olhava para mim. Ele tinha a pele escura e cabelo escuro, muito parecido com Jacob. Seu rosto não tinha o mesmo brilho quando ele sorria, mas eu realmente não podia recordar do sorriso de Jake muito claramente. Fazia anos que eu o tinha visto.

Ele era um pobre substituto.

Mas seu peito era largo e forte, seus braços musculosos, então eu aceitei com um sorriso quando ele mandou o garçom com outro gin e tônica.

Eu não o tocaria, mas beberia com ele se ele quisesse.

Beijar estranhos tinha me metido em muitos problemas antes.

E eu vivia para beber.

Era a única coisa pela qual eu ansiava, vinha a este bar. A coisa que me fazia levantar de manhã. Lembrei-me de quando eu tinha algo me guiando, alguma ligação que eu pensava que eu encontraria na faculdade, ou no meu trabalho, ou no meu casamento, ou em Manhattan. Algo que me guiasse para dentro.

Eu encontrei este bar.

Tomei um gole da minha bebida fria e o homem do outro lado do bar levantou-se, ainda sorrindo, caminhando em minha direção. Arrogante e confiante.

Antes que ele chegasse a mim, senti uma mão fechar sobre o meu braço, girando-me suavemente em torno do meu banco.

Surpreendida e sem equilíbrio, eu gritei e estendi as duas mãos quando me virei.

Senti a familiaridade dos dedos, das palmas das mãos, do aperto contra o meu bíceps e minha cintura para me firmar. Reconheci os ossos e os músculos do peito contra o qual minhas mãos pousaram, procurando estabilidade. Eu conhecia os olhos verdes suaves que olhavam para mim, ilegíveis e serenos.

"O que você está fazendo aqui?" Eu perguntei em voz alta, meu rosto quebrando em um sorriso enquanto eu estava dividida entre aborrecimento, diversão e uma curiosidade desenfreada.

Edward nunca vinha aqui.

"Levando você para casa." Ele disse, sua voz plana quando ele me puxou para ele, tentando levantar-me do meu assento.

Eu resisti, empurrando-o para trás, minha irritação queimando.

"Você não vai me levar a lugar algum." Eu respondi.

"Esse cara está te incomodando?"

Nós dois viramos ao mesmo tempo para ver o homem do outro lado do bar, em pé ao nosso lado, seus olhos escuros presos em Edward com hostilidade. Eu podia vê-lo posicionando-se ligeiramente, na defensiva e com olhar de posse.

Eu a vi primeiro.

Edward tirou as mãos de mim, minhas próprias mãos deslizando do seu peito enquanto ele se adiantou, bloqueando-me com o seu corpo. Eu vi seus olhos faiscarem de repente com algo parecido com raiva.

Mais emoção do que eu tinha visto nele em meses.

"Eu sou a porra do marido dela." Ele praticamente rosnou as palavras.

Eu podia ver a sobrancelha do outro homem subindo, não tendo certeza se ele acreditava nisso e não tendo certeza se ele realmente se importava.

Eu não pude deixar de sorrir, sentindo-me elogiada por esse homem ter dificuldade em acreditar que alguém como eu casaria com alguém como Edward.

A diferença entre nós ainda tinha um quilômetro de distância.

Por alguma razão, o pensamento fez meu interesse e diversão na situação retornarem.

"Está tudo bem." Inclinei-me para o lado para que eu pudesse fazer contato visual com o outro homem, sorrindo para ele como uma conspiradora e balançando a cabeça, "Ele é a porra do meu marido".

Ambas as sobrancelhas subiram nesse momento.

O homem inclinou a cabeça ligeiramente para Edward, Desculpe, e se virou para ir embora depois de atirar-me uma piscadela sugestiva, a qualquer hora que você quiser.

Edward se virou para mim então, o fogo em seus olhos morrendo imediatamente.

"Bella, por favor, venha comigo." Sua voz soou cansada.

"Já que você pediu tão amavelmente." Eu sorri, pulando para fora do banco.

Eu supunha que ele tivesse ganhado a minha cooperação para sair do prédio por uma noite, mesmo que ele tivesse saído para arruinar a minha.

Quando saímos para a calçada, eu passei meu braço pelo de Edward e pressionei meu lado contra o dele com força. Ele se virou para olhar para mim por apenas um momento, seus olhos piscando para a minha mão em volta do seu antebraço como se ele pudesse sentir a minha pele através do seu casaco.

Então, ele estava observando a rua enquanto ele me levava.

"Você veio me procurar." Eu comentei, minha voz soando doce e lisonjeada.

Eu duvidava que ele pudesse ouvir a condescendência.

Quando ele tinha conseguido?

"Claro que eu vim." Ele respondeu, como se eu devesse esperar por isso. Sua voz estava calma e ainda firme.

Senti um suspiro de tédio exasperado implorando para escapar.

Mesmo quando ele estava vindo para me resgatar da bebida e dos homens inconvenientes, ele nem sequer tentava soar interessado.

"Por quê?" Eu quis saber, inclinando a cabeça para um lado.

Ele encolheu os ombros. "Você disse que iria para casa mais cedo hoje à noite".

Tentei me lembrar de quando eu poderia ter dito tal coisa, feito tal promessa. Não foi esta manhã, eu não o tinha visto o dia todo. Eu não acho que eu o tinha visto na noite anterior também.

"Eu disse?"

Edward olhou para mim novamente.

A mesma expressão no seu rosto, o mesmo olhar cada vez que nossos olhos se encontravam em um restaurante, em um museu, em casa, no nosso quarto, na nossa cama.

Quando ele olhava para mim, era como se ele não estivesse me vendo.

Eu não sabia o que aquilo significava, e eu não tinha me perguntado muito até agora. Até que ele me puxou para fora do bar e de volta para a nossa casa, cada ação dizendo que ele se importava e cada olhar dizendo que ele não se importava. Havia algo que eu estava perdendo, eu tinha certeza.

Eu não percebi o que era até a manhã seguinte.

Com ressaca e dor e um olhar para uma única rosa de haste longa em nossa mesa de cabeceira e lembrei-me que ontem à noite nós estávamos casados por três anos.

~ O ~

Desliguei o motor da caminhonete com as mãos trêmulas.

Tudo ao meu redor e olhando através do vidro da minha janela, estava Forks, Washington.

A pequena cidade - nublada e chuvosa, toda tingida de verde e azul e cinza - onde eu morava.

Meu coração estava batendo tão forte, trovejando através do meu corpo inteiro, tentando encontrar a força para abrir a porta e sair. Para permitir que todos os sons e cheiros e chuva chegassem a mim. A familiaridade estava rachando através da minha força, rasgando através de mim, furiosa.

Eu era tão covarde.

Não pela primeira vez, perguntei-me o que Edward tinha visto em mim.

Quando ele me conheceu e agora, quando eu o tinha deixado.

Ele tinha pensado que eu era forte o suficiente para fazer isso sozinha.

Pior, ele me fez acreditar que eu era.

Agora, tão longe dele, eu sabia que ambos estivemos muito errados.

Quando tranquei a caminhonete e saí em direção ao único bar em Forks - uma cidade inteira longe do hospital - eu não conseguia descobrir por que Edward nunca, jamais, me deixou ir embora. Por que toda vez que eu o empurrava, pensando que eu era o problema, Edward tinha empurrado de volta com um outro ponto de exclamação.

Ele deveria ter me deixado naquela noite que eu esqueci o nosso terceiro aniversário de casamento.

Eu sabia que ele tinha considerado essa possibilidade.

Ele poderia ter se salvado.

Um ano a partir daquela noite, no nosso quarto aniversário, foi a noite em que eu vi Jacob novamente pela primeira vez desde que eu tinha deixado Washington. Neste bar, olhos trancados, e eu sabia que qualquer que fosse a surpresa encantadora e doentiamente romântica que Edward tivesse para mim em casa ficaria sem resposta, fechada e inútil.

Deslizei em um banquinho e coloquei minha mão levemente sobre o balcão.

"Uma gin tônica, por favor".

Porque O Morro dos Ventos Uivantes não era apenas um romance. Porque era apenas um melodrama ridículo e gótico até que não era mais. Até que eu li as palavras, realmente as li, e percebi que, na verdade, era a história mais antiga do mundo.

A história contra a qual eu tinha lutado, e lutando para perpetuar por toda a minha vida.

Eu sou a Fazenda e você é as Montanhas e você nunca deve possuir-me, não importa se isso rasgue o meu corpo e alma no processo.

Meus dedos correram ao longo do vidro liso, sentindo o frio.

Eu não tinha certeza de que era possível mudar.


Nota da Irene: Pois é... mais um capítulo...

Bem, algumas meninas tem cobrado mais um capítulo da fic e eu lutei contra mim mesma durante duas semanas para conseguir traduzir esse capítulo... pq sinceramente a Bella me confunde até os ossos e é super tenso traduzir quando está nessas partes... =p

A autora postou mais um capítulo tão grande quanto esse, e como ela leva em média 2 meses pra postar, não vou correr... assim que conseguir terminar, posto pra vcs.

Estamos com tantas fics que tem sido complicado dar prioridades... desculpem!

Anatomy of a Human está super fofo, mas não tenho certeza se consigo terminar para domingo. Estou em crise, gente. Não consigo me concentrar muito para conseguir traduzir e postar de qualquer jeito não me agrada. Então, tenham paciencia comigo. =p

Só a Ju mesmo pra me salvar e me aguentar. Kkkk. Obrigado por revisar, Jesuisbilana!

Beijukas!