Capítulo 43 – A Bebida
Eu sentia como se estivesse caindo.
Não caindo.
Afundando.
Sentada na madeira dura de um banco, cotovelos contra a madeira dura do bar. Dedos traçando padrões molhados até que secassem no grão. Eu sentia como se eu estivesse descendo, não de uma grande altura como eu tinha conseguido nos últimos meses, mas de volta para as partes mais obscuras e detestáveis de mim. Para longe de cada conexão humana que eu tinha feito, tinha forjado, tinha forçado.
Era uma sensação tão estranha, surreal, estar de volta a esta cidade. De volta a um lugar que eu nunca tive qualquer intenção de voltar, um lugar sobre o qual eu tinha sonhado durante anos. Após a beleza estranha e dura do Colorado, retornar a esta chuva e verde. Tudo novo que eu tinha conhecido, deixado para trás por tudo antigo que eu costumava amar.
Quando eu era criança, eu tinha verdadeiramente amado este lugar. As árvores, o mar, as pessoas sorrindo para mim e me conhecendo. Eu uma vez caminhei pelas ruas dessa cidade, sendo parte de uma família tão grande como o noroeste do Pacífico.
Eu ainda conhecia cada pessoa sentada no bar comigo.
Eu não sabia o nome de todos eles, não conseguia me lembrar de cada interação que nós já tivemos. Alguns eram vagas lembranças, alguns eram apenas rostos, alguns eram apenas nomes, alguns eram apenas sugestões. Todos eles familiares.
Eu podia senti-los me observando e eu não tinha certeza se era porque eles se lembravam de mim ou não.
Às vezes eu imaginava que eu parecia muito diferente.
Como uma pessoa pode viver a sua vida, ter todas as suas cicatrizes, e ainda parecer como elas eram quando jovens? Quando eles eram felizes? Parecia impossível que eu ainda pudesse parecer como a Bella Swan que tinha vivido entre eles por tanto tempo, vibrante e inocente e apaixonada.
Eu não era nem uma sombra daquela menina.
Então, mesmo que eles tivessem me reconhecido, ninguém se aproximou.
Os olhares ardentes de curiosidade, fascinação e fofocas pressionando contra mim foram minhas únicas boas-vindas. O silêncio deles me cercava como uma pergunta hostil. Por que você voltou?
Forks ainda era uma cidade tão pequena.
Minha respiração era baixa e estável, meu coração batendo sólido e regular. Minha mão permanecia congelada contra o balcão liso, ao lado de um copo de esquecimento.
Você quer regredir?
Eu podia ouvir as palavras de Edward batendo na minha cabeça, ver seus olhos me desafiando a destruir tudo mais uma vez.
Mas ele não estava aqui agora.
Eu o queria, mas eu não poderia pedir a ele para vir comigo.
Eu não poderia pedir, sabendo que ele viria, quer ele quisesse ou não. Ele viria, e eu nunca saberia se foi por culpa, ou pena, ou empatia, ou amor. Por obrigação. Por dever. Por moralidade.
Se eu fizesse esse pedido, ele não veria sequer uma escolha.
Ele nunca tinha visto suas opções quando se tratava de mim.
Nós éramos iguais quanto a isso.
Desde que eu tinha conhecido Edward. Desde que eu o tinha beijado. Desde que eu tinha dado a ele a primeira amostra de como seria uma vida comigo, enquanto eu me afastava dele rindo.
E o rápido espiral de escolhas que ele me deu em retorno.
Viver de acordo com o seu ideal de vida e bondade, onde eu ficaria constantemente com medo e me prejudicaria em busca de uma perfeição que não estava em mim. Ou arrastar minha vida, a vida dele, até um lugar manejável e acabar constantemente pedindo desculpas.
Vamos jogar tudo fora. Cada momento, cada minúsculo pedaço de progresso que nós fizemos, nossas vidas, nossa saúde... um ao outro.
Eu sabia que quando ele disse isso, uma parte dele queria isso. A parte que tinha medo de mim. A parte que estava com medo do que eu seria capaz se eu recuperasse a minha força. Se eu percebesse que tinha alguma força.
Não que isso importasse agora.
Eu já o tinha perdido, não tinha?
Ele não me amava mais.
Ele não tinha mais nada a temer.
E eu não tinha certeza se eu tinha algo a perder.
Não havia força em mim.
Havia apenas dor, como uma dor surda que passava por cada centímetro do meu peito ao pensar nele.
Minha mão apertou em torno do copo por um momento, os músculos do meu braço tensos, como se evitassem levantar o álcool para os meus lábios.
Pronta para atacar, eu congelei e tremi.
"Bella?" Eu ouvi meu nome baixinho, com choque e incerteza. "Bella Swan?"
Lentamente, muito lentamente, eu virei minha cabeça para os agudos familiares que haviam moldado o meu nome. Uma voz tão clara na minha memória, tão inesquecível, tão dolorosamente real, que eu senti um disparo de medo quando levantei meus olhos. Não me surpreendi ao ver quem era, com medo porque eu já sabia.
Ela estava a uma distância cuidadosa ao meu lado, olhos castanhos piscando e perguntando.
"Ângela." Eu respirei, minha voz firme e suave, cuidadosa ao dizer o nome dela fácil e calmamente. Como se eu a estivesse esperando, como se eu sempre a estivesse esperando.
Era uma mentira.
Eu nunca pensei que eu a veria novamente.
Nunca pensei muito nela.
Ângela Weber. A beleza de pele caramelo, a melhor amiga doce e tímida. A menina com quem eu tinha crescido. A menina com quem eu havia descoberto Forks. A menina com quem eu tinha compartilhado tudo.
A menina que tinha sido a primeira a provar minha crueldade.
Minha vítima esquecida, que nunca pareceu importante no esquema das coisas. Amantes e filho, marido torturado e família. Ninguém nunca lamenta pela melhor amiga, o pequeno pedaço da infância abandonada. O que essas amizades poderiam importar? Formadas desde tão jovem, tornavam-se tão irrelevantes com o crescimento e a experiência.
E aqui estava ela diante de mim.
Destino.
Eu olhei para ela e me senti enfraquecer a nada.
Por medo, por autoaversão, por angústia e por ela, minha conta.
Ela estava olhando para mim com surpresa e sem malícia. Ela estava como pedra e gelo, mascarando quase perfeitamente os seus sentimentos. Ela não era hostil, nunca com raiva, mas ela estava cautelosa. Ela tinha mudado, assim como eu tinha mudado. Nenhum indício daquela menina que eu conhecia, tão encantadoramente quieta e compreensiva. Os anos a haviam endurecido de alguma forma.
E, em seus olhos, eu pude ver que eu, também, a havia endurecido.
"É você." Ela disse, maravilha atada ao tom. Suas sobrancelhas levantaram com a expectativa, sua boca formando uma carranca. Eu podia vê-la, dividida, tentando decidir como ela deveria se sentir sobre a minha aparição repentina.
Imaginando, talvez, se eu era a mesma garota que a tinha deixado parada na calçada de alcatrão negro todos aqueles anos atrás. Gritando em sua cara, chamando-a de nomes aprendidos, culpando-a por tudo que estava errado. Eu era uma vida de amor não retornado que se deleitava com as lágrimas dela. Eu tinha sentido prazer em seu enfraquecimento, em seu pranto. A prova do seu amor por mim, pisada sob os pés.
"Sim." Eu assenti, deixando meus olhos caírem para a minha mão no balcão.
Em seguida para as mãos dela, quando elas serpentearam sobre a madeira ao meu lado. Eu pude ouvi-la sentando no banco à minha esquerda. Reunindo sua força para o confronto de anos, uma ação silenciosa com a qual eu havia me tornado muito familiarizada.
"Faz muito tempo." Sua voz tinha perdido sua surpresa, tinha se tornado resignada.
Determinada.
Eu podia ouvir tão claramente nela os ecos da minha própria voz, da minha própria vida. Ela estava enfrentando seus demônios agora, como eu tinha feito tantas vezes. Como eu tinha visto tantos outros fazerem. Ela tinha o tom, a expressão e a postura de um guerreiro.
E eu era o seu demônio.
Perguntei-me se havia alguma pessoa viva, alguma pessoa que eu gostasse antes de ir ao Colorado, que não me via dessa forma.
A filha indesejada de Renée.
A amante indesejada de Jacob.
A esposa indesejada de Edward.
"Faz." Eu não tinha certeza do que dizer, o que ela queria que eu dissesse.
Fazia um longo tempo.
Muito longo.
Eu não estava preparada para este pedido de desculpas. Todos os outros, eu conhecia de cor. Todos os outros tinham se arrastado e arrastado pela minha cabeça a cada dia, uma e outra vez e com obsessão, remontando cada erro.
Mas eu era tão jovem quando conheci Ângela.
Eu estava tão irritada.
Eu nunca quis me lembrar dela.
Agora que eu estava de volta, eu não tinha escolha. Ela estava me olhando com curiosidade não filtrada e eu fiquei esperando para ver seu rosto mudar, seu corpo se mover, sua raiva incendiar. Fiquei esperando que a qualquer momento ela se lembraria o quanto eu tinha sido dura com ela. Eu pensei que, com certeza em um minuto, ela chamaria a atenção para tudo o que eu tinha gritado para ela. Coisas que não deveriam ser esquecidas.
Quando olhei de volta para o seu rosto, porém, eu sabia que estava esperando em vão.
O tempo tinha suavizado cada golpe, curado cada ferida. Ela tinha mudado, mudado, mudado e, no final, talvez eu não fosse importante o suficiente para realmente machucá-la. Assim como ela não tinha sido importante o suficiente para eu me sentir culpada.
Até agora, até este momento.
Minha culpa estava neste balcão.
"O que você está fazendo aqui?" Ela me perguntou finalmente.
E aí estava.
A pergunta silenciosa que eu tinha certeza que estava na mente de todos.
Ela queria saber por que eu tinha voltado para assombrá-la, para assombrar a todos. Por que eu tinha tirado deles uma criança doce e feliz e tinha retornado com apenas uma casca, um oco arruinado com a forma semelhante. Por que eu tinha sacrificado aquela garota em um altar pela pessoa que eu tinha me tornado e por que eu tinha retornado para mostrar a eles.
Por que você voltou?
Mas eu tinha um motivo.
E não se tratava de Ângela, a menina que tinha significado tudo para mim quando eu era tão jovem, quando tudo era tão simples.
E certamente não era pelo resto deles. Não era por esta cidade, minha casa.
Era pela única razão que restava no mundo que significava algo para mim.
"Meu pai." Eu olhei para ela quando disse isso, minha voz estava firme e sem medo.
Eu tinha que estar aqui.
Eu vi algo passar pelos olhos de Ângela, apenas por um momento. Foi um leve abrandamento, uma pontada familiar que me comoveu mais do que eu jamais pensei que poderia.
Porque ela o amava.
Como todo mundo nesta cidade, ela amava Charlie Swan.
Um homem que eu mal conhecia.
"É claro." Sua voz ficou mais baixa. "Como ele está?"
A forma como ela fez a pergunta, a reverência em seu rosto enquanto ela esperava pela minha resposta, disse-me que ela não estava perguntando casualmente.
"Você sabe o que aconteceu?"
Ângela encolheu os ombros, um sorriso triste tocando os cantos da sua boca.
"Forks." Ela afirmou simplesmente, como forma de explicação.
Forks ainda era uma cidade muito pequena.
Eu balancei a cabeça uma vez, exalando. "Sim".
Lentamente, muito cuidadosamente, a mão de Ângela esticou e roçou suavemente contra a pele do meu braço e segurou. Eu olhei para o leve contato, apenas mal tocando e aquecendo, e senti meu queixo apertar reflexivamente.
Ângela esperou sem dizer uma palavra, seus olhos nunca deixando o meu rosto.
Eu tremi levemente, sentindo meu corpo inteiro travar e desligar. Senti o meu medo desaparecer, a minha culpa e meus arrependimentos, em favor da apatia. Um presente da insensibilidade. Autopreservação assumindo, defensiva e sem lágrimas.
Até que eu falei.
Minha voz era baixa e fria, imparcial enquanto eu sentia o gelo rastejar em minhas veias. Eu imitei as palavras que o médico tinha falado para mim por telefone, quase literalmente. Eu disse a ela que ele estava acordado, que ele estava falando e alerta, que ele não poderia andar pelo resto da sua vida. Minha boca se movia, meus lábios trabalhavam, enunciados e claros. Ainda assim, eu sentia como se não estivesse dizendo nada a ela. Ângela acenava, eu dizia mais a ela, e nada disso significava muita coisa.
Se ela percebeu como as minhas palavras era clínicas, como eram impessoais, ela não deu nenhuma indicação. Ela sorriu com simpatia, com incentivo - sempre muda e em guarda - e não disse nada.
Eu não mencionei como meu espírito estava, como os dele estavam. Eu não falei sobre o que nós desejávamos, o que nós queríamos, o que nós planejamos, o que nós esperávamos.
Eu não tinha esperanças.
É por isso que eu estava sentada neste bar.
"Você está bem?" Ângela queria saber, sua pergunta cuidadosa e solícita.
"Sim, eu estou bem." Eu disse reflexivamente. "Obrigada".
Eu encontrei seu olhar então, e pisquei levemente em um alarme silencioso.
Eu tinha esperado que ela perguntasse, por sentir simpatia, por curiosidade e preocupação com o meu pai. Eu esperava qualquer saudação socialmente correta e condolências, cada resposta adequada. Ângela sempre tinha sido tão gentil, tão educadamente compassiva, e eu sabia que não merecia nada disso dela.
Eu não a conhecia mais. E ela não me conhecia.
Ainda assim, ela olhou para mim, as sobrancelhas juntas em descrença. "Sério?"
Eu abri minha boca para tranquilizá-la, então a fechei novamente antes que as palavras pudessem escapar, antes que elas pudessem me prender em uma mentira.
Alice tinha me ensinado sobre a confiança.
Coloque tudo para fora e você estará livre.
Eu passei a minha vida inteira me escondendo para que ninguém visse aquela garota, o meu lado cruel e magoado e perigoso. Em muitas maneiras, eu tinha passado a minha vida inteira dizendo às pessoas como o meu pai estava, fingindo que eu sabia, para que ninguém soubesse que eu estava muito fodida e com medo de vê-lo.
Casando com um homem que me amava para que todos acreditassem que eu era digna de amor, sem realmente acreditar que eu merecia.
Eu mostrava meus dentes com tanta frequência, só assim o filme ficava no projetor, para que o burlesco continuasse, então todo mundo acreditava na história sobre a minha vida perfeita.
Eu olhei para Ângela e eu poderia dizer, de alguma forma, por algum motivo, que ela não acreditou nisso nem por um momento. Ela me observava sentada aqui, lutando e guerreando e esperando em silenciosa tortura, e ela sabia.
Ela sabia além de qualquer uma das minhas máscaras, qualquer das mentiras, e ela conhecia o que havia além.
Mesmo que eu tivesse esquecido, ela tinha visto atrás da cortina.
Eu engoli e inalei, engasgando. "Eu não o vi ainda".
Desviei o olhar de Ângela rapidamente, mas não antes de ver sua expressão mudar para uma de confusão, mal-entendida.
"Quem?"
Ela não entendeu.
Inimaginável.
Eu respirei fundo e nivelei meu olhar com o dela, estimulando. "Charlie".
Ela não perdeu uma batida.
"Por que não?" Sua pergunta foi tão despretensiosa, apenas uma pergunta. Ela a perguntou sem as camadas e camadas que eu queria colocar sobre ela. Todas as implicações e desculpas que eu queria equiparar com essas duas pequenas palavras, ela as falou sem.
O simples pedido da verdade.
"Eu acabei de chegar na cidade... agora." Eu disse a ela, a honestidade fazendo minha voz tremer. Baixei meus olhos mais uma vez e observei meu próprio dedo enquanto traçava ao longo do copo mais uma vez. Amorosamente, ou com saudade. "Foi muito mais fácil vir até aqui".
Senti sua mão cair do meu braço, tão silenciosamente e suavemente como havia me tocado primeiro. Ela estava balançando a cabeça lentamente e aos poucos, seus olhos vagando enquanto ela pensava. Seu lábio inferior estava preso entre os seus dentes, da mesma forma que sempre ficava quando ela era uma criança, quando ela estava pensando. Querendo saber.
Eu soube imediatamente como deveria parecer para ela, o medo em seus olhos.
"Eu não sou uma alcoólatra." Eu disse rapidamente, mesmo que minha voz fosse baixa. Então, depois de uma pausa, "Talvez eu seja. Mas eu não..."
Eu queria dizer a ela que eu não bebia muitas vezes mais. Eu queria dizer a ela que eu não enchia a cara, ou tropeçava, ou dormia na rua. Eu queria dizer a ela que eu só bebia quando sentia medo, ou me sentia fraca, ou vulnerável. Que eu usava o álcool para fazer tudo suave em mim endurecer. Para tornar-me alguém que poderia lidar com suas emoções, com as suas ações.
Mas talvez isso fosse ser uma alcoólatra.
Dependente e assustada.
ângela estava me olhando, sua expressão ainda distante, balançando a cabeça. "Você não tem que me convencer de nada".
Eu balancei a cabeça, sabendo. "Eu quero".
Ângela soltou um pequeno suspiro, sua boca apertando levemente quando ela me concedeu o menor sorriso. Seus olhos ainda pareciam defensivos através da empatia.
"Certo".
Eu sabia o que ela queria dizer.
Nós não éramos amigas. Ela não me conhecia. Eu não devia nada a ela. E ela não devia nada a mim. O pensamento ficou na minha cabeça como um espinho, espetando desconfortavelmente, mas apresentou a verdade.
Eu a odiava.
Eu odiava que ela não gostasse de mim e eu odiava que eu quisesse que ela gostasse, mesmo que eu não tivesse o direito. Eu odiava que eu não tivesse o direito. Eu odiava que eu não a conhecesse, porque a forma como ela estava me ouvindo agora, o jeito que ela estava olhando para mim, era mais do que eu merecia. Eu odiava que ela fosse tão compreensiva e cheia de amor como Esme e Alice, mas tão fiel e protetora como Rosalie ou Edward. Eu odiava que eu não pudesse tocá-la, eu odiava que ela não quisesse mais me tocar.
Eu odiava o que eu tinha feito a ela.
Eu odiava que ela não soubesse.
Então, eu disse a ela.
"O que eu disse para você quando éramos crianças, todas aquelas coisas que eu disse..." Eu finalmente consegui, sem saber como pedir desculpas por algo que aconteceu há tanto tempo. Como me desculpar por outra pessoa. Eu não achei que eu poderia, minhas palavras hesitaram e saíram apressadas. Em vez disso, eu simplesmente terminei, "Foi imperdoável".
E tinha sido.
Seu único erro foi ser a mais próxima de mim quando minha mãe me deixou.
Ela aguentou cada chicotada, cada grito de raiva e ódio de uma adolescente rejeitada, cada golpe que deveria ter pousado em alguém com o dobro da sua força e metade da sua bondade.
Ela sabia, melhor que ninguém, o quanto eu iria longe para machucar as pessoas que me amavam.
Melhor do que ninguém, exceto por Edward.
Como eu tinha me deixado esquecer?
Ela estava me observando com cuidado, considerando minha admissão por um momento antes de sacudir a cabeça uma vez. "Sim".
Foi como um chute no peito, a forma como todo o ar pareceu correr dos meus pulmões em uma respiração ofegante.
Seus olhos estavam sem brilho e impassíveis, bem longe do verde irritado e rancoroso do olhar de Edward quando ele também tinha se recusado a me perdoar.
"Ângela..." Senti-me dizer o nome dela, implorando.
"O quê?" Suas sobrancelhas levantaram preguiçosamente, sua voz tão calma e nivelada. "O que você quer que eu diga? Que eu perdoo você?"
"Não, eu só..."
"Eu nunca odiei tanto alguém quanto eu odiei você naquela época." Ela disse com um encolher de ombros. Eu vi a menor centelha de algo em seus olhos, apenas por um momento, antes que desaparecesse. "Você me ensinou o significado da palavra. Você foi a primeira pessoa a quebrar meu coração".
Eu não entendi.
Eu não conseguia compreender como ela poderia sentar ao meu lado e dizer estas coisas. Como, se o que ela disse fosse verdade - e não havia nenhuma dúvida em minha mente que era - como ela ainda podia olhar para mim com simpatia pelo meu pai, pela minha situação. Como ela poderia querer saber se eu estava bem, se eu precisava do seu apoio, se eu precisava da sua ajuda.
E então ela deu de ombros novamente e sorriu.
"Eu superei isso".
As palavras tão simples, a ação tão fácil.
A única coisa que eu nunca tinha sido capaz de fazer, com qualquer coisa, com qualquer um em minha vida.
Superar.
Eu senti como se estivesse caindo.
E o preço que eu paguei por estar em queda livre foi que todos podiam ver isso.
Cada pessoa do meu passado, Ângela e todo mundo que eu lembrava ou não, assistiria. Eles me veriam neste lugar, escondida da minha vida, muito assustada para se mover.
Havia benefícios nisso, porém. Seus olhos fizeram tudo parecer tão real. Era bom, mesmo que doesse, porque havia um certo tipo de graça em ver tudo exatamente como era.
Edward disse-me uma vez antes que tudo o que eu sentia, cada torção sombria dentro de mim, acontecia a portas fechadas.
A calma que tomou conta de mim foi inédita, inesperada.
Eu não era mais que o paradigma altaneiro de arrependimento e esperança e perdão que Edward queria tanto que eu fosse, que eu queria tanto que fosse verdade.
Eu era apenas uma garota em um bar.
De volta a onde tudo tinha começado.
"Não é tarde demais." Ângela disse baixinho, lembrando-me que talvez isso fosse onde tudo começou, mas que não teria que terminar neste lugar. Eu olhei para ela e vi apenas incentivo. "Você ainda pode ir até ele".
Por um momento, eu não conseguia respirar.
"Eu não tenho certeza se posso." Eu sussurrei.
"Por quê?"
Eu hesitei por um momento. Então, "Eu não sou... forte o suficiente para fazer isso".
Para minha surpresa, Ângela riu, balançando a cabeça como se eu estivesse fazendo algum tipo de piada. Senti minha boca cair ligeiramente aberta com a última reação que eu esperava dela, a risada leve e tranquila, mas sincera.
"O que é engraçado?" Perguntei inexpressivamente, confusa e magoada por não saber.
"É só que é tão estranho ouvi-la dizer isso." Ela esclareceu, um pequeno sorriso ainda persistente em seus lábios. "A pessoa sentada diante de mim escapar, tentando se esconder em um bar." Ela se inclinou para a frente, meu estômago apertando, quando sussurrou, "A pessoa que não tomou uma gota".
Eu olhei para baixo, seguindo o seu olhar para o meu copo intocado de gin. A bebida estava embaçada e fria e eu percebi que meus olhos tinham se enchido de lágrimas, a revelação da risada de Ângela fazendo uma finalmente deslizar pela minha bochecha.
O molhado fez cócegas na minha pele quando eu olhei de volta para a jovem mulher me observando, o olhar em seu rosto orgulhoso, sem posse. Respeitosa e tolerante. Esquecida.
"Eu senti sua falta, Ângela".
"Bella..." Sua mão esticou para mim novamente quando sua voz sumiu, insegura. Desta vez ela pousou no meu ombro, com conforto impessoal. Contato e distância, perto e insuperável.
A pontada de arrependimento que eu senti no momento foi tão nítida, que eu não consegui falar.
"Eu estou tão assustada." Eu finalmente admiti.
"Tudo bem." Ângela respondeu, sua mão apertando ligeiramente. "Você tem permissão de ter medo".
Eu tomei uma respiração profunda, puxando-a como se eu pudesse encontrar a coragem no ar, em meus pulmões, no meu sangue.
Eu não estava errada.
Eu estava de volta ao início.
Tudo tinha começado nesta cidade, tinha se propagado dessas pessoas. Eu estava tão consumida com o quanto seria difícil ser isso que eu tinha esquecido de ver isso por aquilo que realmente era.
Um começo.
Se eu tivesse retornado para onde eu comecei, se eu deixasse tudo de lado, cada momento antes de eu chegar aqui... então isso se tornaria um novo começo. Eu poderia escrever uma outra história. Eu escolheria ser outra pessoa, alguém melhor. Alguém mais parecida com a garota que as pessoas amavam antes. A garota que as pessoas ajudavam, mesmo quando ela não merecia isso. Alguém digna de Ângela Weber.
E Edward Cullen.
"Você ficará bem." Ela sussurrou, soltando-me com um leve empurrão. "Você pode fazer isso".
Minha mão caiu longe do bar, sem esforço. Eu balancei a cabeça, acreditando nela, não tirando meus olhos dos dela. Eu levantei devagar à sua frente, levantando meu queixo, reunindo minha força.
"Obrigada, Ângela".
Ela sorriu novamente, ainda pouco, mas muito suavemente. Eu sorri de volta para ela, muito grata para dizer algo mais. Não tendo certeza se ela sabia o que tinha me dado, sem saber se isso importaria para ela, afinal.
Este era o começo.
Este era o momento em que eu poderia optar por me tornar o que eu estive tentando tão fortemente ser. Este era o momento quando eu me tornaria real. Nada do que veio antes, nada do que eu tinha feito, significava nada além da pessoa que eu tinha forjado depois disso.
Eu era forte.
Eu poderia fazer isso.
E então eu ouvi a voz dele.
"Bella?"
O tempo congela quando você está com medo.
Tudo fica mais lento até que cada batida do coração pareça como uma faca no seu peito. Cada respiração queima. Queima como um espeto quente.
A realização final.
Deixar ir não significa que você cai para sempre.
Há sempre um baque no final.
Aceitar o passado e começar de novo não apaga nenhum fodido momento.
Isso significa que você tem que enfrentá-los novamente.
Enfrentá-los novamente e esperar que você seja uma pessoa melhor.
Uma pessoa mais forte.
Eu me virei lentamente, o gelo acumulando e rachando em minhas entranhas, cacos de vidro perfurando minha garganta.
Eu virei até que vi seus olhos.
Eu balbuciei seu nome, apenas um sopro de som.
"Jacob?"
Ele estava parado tão perto de mim, muito perto. Eu podia sentir o calor dele, derretendo contra a minha pele. Minha reação a ele foi imediata, visceral. Meu corpo inteiro tencionou, tremendo. Minha mente girando solta e fora de controle. Imediatamente a minha força pareceu desaparecer, tudo uma ilusão em face da realidade.
Ele deu um passo em minha direção, seu corpo grande e convidando-me a entrar.
Cada centímetro dele era um conforto familiar.
Eu me senti mal quando dei um passo para trás.
Mordi o interior do meu lábio com tanta força que tirei sangue, saboreando o cobre pulsando e alegrando-me com a dor.
"Bella, como você está? Você está bem?" Ele deu um passo em minha direção novamente, não percebendo que eu estava tentando colocar distância entre nós. Seus olhos castanhos eram tão gentís, sua mão se estendeu para mim tão calmamente. Quando seus dedos roçaram meu braço carinhosamente, eu inalei bruscamente. "Quando você chegou aqui?"
Eu abri minha boca para responder.
Eu não conseguia falar.
Por um momento, eu estava paralisada. Tão insegura. Eu olhei para Ângela, que estava nos observando com cuidado. Os olhos dela passando entre nós, eles pareciam mais duros agora. Perguntei-me quanto da minha angústia ela podia ver. Quanto do meu medo.
Minha pulsação estava martelando em meus ouvidos, rítmica e rápida.
"Eu... eu preciso ir." Eu gaguejei, tropeçando.
As sobrancelhas de Jacob franziram em confusão quando ele abriu a boca para falar, para protestar. Para manter-me com ele. Eu não podia mais ouvi-lo. Eu não poderia lidar com ele ainda. Eu não estava pronta. Eu não sabia se eu algum dia estaria.
Eu me virei de repente e comecei a caminhar para a porta, para a minha fuga. Meus passos eram rápidos e vivificantes e quando eu balancei a porta para trás, eu estava quase correndo. Arremessando meu corpo para fora e para o estacionamento.
"Bella!" Eu o ouvi me chamando do outro lado do vidro.
Eu não podia parar.
Eu me atrapalhei com as minhas chaves por apenas um momento antes que eu fosse capaz de subir em minha caminhonete e me enfiar na noite.
Meu braço estava se movendo, parecendo como se não estivesse ligado a mim. Senti as lágrimas rolando em córregos constantes, piscando pelas minhas bochechas a cada maldição proferida. Tentar conter o fluxo só o fez piorar, os olhos piscando de volta na noite e a chuva começando a bater no metal e no vidro em torrentes.
Eu sabia que eu o veria eventualmente. Não havia nenhuma maneira que eu poderia existir em Forks sem ele aqui. Sua presença era o musgo nas árvores, as nuvens rolando sobre os oceanos. Constantes e bonitas.
Eu pensei que eu teria mais tempo.
Eu pensei que eu o enfrentaria nos meus termos.
Eu pensei que eu saberia o que dizer.
Agora eu me sentia tão perdida, tão indefesa. Incapaz de encará-lo, incapaz até mesmo de falar. De me mover. Este teste final, onde os jogadores já não estavam em minha cabeça, nem em minhas memórias, e eu estava falhando em cada marca. Toda a minha determinação tinha sido um sonho. Eu tinha esquecido Ângela e como eu a tinha machucado, eu tinha fugido de Jacob sem uma palavra, eu tinha me escondido do meu próprio pai quando ele mais precisava de mim. Se este era um novo começo e eu era uma nova pessoa, eu não estava certa de por que eu me sentia tão assustada e selvagem como sempre me senti.
Eu dirigi sem rumo, sempre sabendo onde eu acabaria.
Eu não estava na estrada por mais de 20 minutos quando finalmente puxei a caminhonete para uma parada.
Parecia que havia passado mil anos.
Eu lutei tanto para chegar aqui e eu estava chegando exausta e faminta e machucada.
As luzes do hospital brilhavam através das cascatas de água caindo do pára-brisa.
Eu abri a porta para a chuva, deslizando no asfalto molhado quando saí. Eu me equilibrei na maçaneta antes de cair, sentindo-me tão tonta que eu mal podia me colocar de pé. Nem uma única bebida e eu ainda estava embriagada. Medo e apreensão e memórias de cada horror, todos misturados em um coquetel que eu estava tomando com cada suspiro. Lágrimas misturavam e se lavaram na chuva.
Eu levantei para parar por um momento, sentindo as gotas caírem e conectarem com o meu corpo enquanto eu olhava para a luz além das portas.
Este é o momento em que você se torna real.
Eu não poderia fazer Ângela perdoar.
Eu não poderia estar de igual para igual com Jacob.
Eu não poderia fazer Edward me amar.
Mas eu poderia fazer isso.
Eu tinha que fazer isso.
Eu atravessei as portas, vidro deslizando aberto quando eu me aproximei e perguntei-me o quanto eu estava realmente assustada. Perguntei-me o quanto Edward tinha ficado assustado quando eu estava neste lugar. Com o nosso filho.
"Posso ajudá-la, senhorita?" Uma voz gentil perguntou.
Eu pisquei para a mulher sentada atrás de uma grande mesa.
Eu não a conhecia.
"Eu... eu estou procurando por Charlie Swan." Eu tremi, rangendo meus dentes.
Ela assentiu com a cabeça e digitou o nome dele no computador antes de me dar o número do quarto dele.
Ela perguntou se eu era da família.
Eu posso ter respondido a ela.
Mas, em seguida, eu estava caminhando, cada passo cambaleante sob o meu peso. Subindo no elevador para o quinto andar, liberada em um corredor vazio. Eu podia sentir o hospital começar a rastejar para dentro de mim, mesmo quando eu me forcei para a frente, focada nos números das portas. A doença silenciosa, o toque de telefones abafados, o sinal sonoro e constante das máquinas. Em algum lugar, havia sangue.
Eu senti meus joelhos começando a enfraquecer.
Parando até que eu caísse, deixei-me cair, escorregando pela parede, bêbada, curvando-me em mim mesma.
Puxei minhas pernas até o meu peito, abraçando-as e descansando meu queixo sobre elas. Desejando que as lágrimas diminuíssem. Desejando que o corredor parasse de girar. Desejando que meu pai estivesse em qualquer lugar, menos neste lugar.
Com o canto do meu olho, eu pude ver alguém caminhando em minha direção.
Eu pude ouvir os passos dele no chão de linóleo, batidas suaves.
Enfiei meu rosto em minhas pernas e tentei bloquear o movimento.
Perguntei-me se ele tentaria me ajudar, ou se ele me pediria para sair.
O homem parou perto de mim, eu podia sentir seus olhos olhando para a minha forma encolhida, mas ele não disse nada.
Silêncio e sua respiração tranquila.
Levantei minha cabeça cautelosamente, trêmula e instável, e encontrei os olhos de Edward olhando para mim.
Meu coração saltou uma vez, um choque de um desfibrilador, e então se acalmou.
Eu deveria ter ficado surpresa, cada terminação nervosa do meu corpo deveria estar em choque. Eu deveria estar aliviada, ou feliz, ou grata. Somente uma minúscula parte de mim permitia que essas emoções refletissem e se dissipassem. O resto de mim, corpo e mente, simplesmente expirava: é claro.
É claro que ele estava aqui.
Eu sabia que eu o veria, eventualmente. Não havia nenhuma maneira que eu poderia existir em um hospital sem ele aqui. Sua presença era o sofrimento e gritos, a dor embotada em medicina. Constante e bonita.
Ele era o médico, eu a paciente. A doente, a ferida para o seu curador. Entre todos os cheiros horríveis, os sons e as visões, Edward sempre estaria aqui.
Eu tinha sido uma tola de pensar que eu poderia fazer isso sem ele.
Ele era parte disso.
O único que se lembrava.
Lembrava daquele dia e de todo o resto.
Ele tinha sido aquele a tropeçar através das portas, sem saber o que o encontraria do outro lado. Um amor tão real e um medo tão forte que engasgava cada parte de você, parava cada músculo e atirava combustível para o coração.
E quando tudo acabou, eu tinha empurrado Edward para longe quando ele me pediu para ficar, para segurar o nosso filho, para ficar com as nossas famílias. Para me tornar uma família com ele, para ser a família que eu tinha visto em lampejos quando ele me abraçava e me beijava e ria comigo, mas, em vez disso, eu fugi.
Eu continuei fugindo, atravessando o país, e agora que eu estava de volta, eu estava quebrada.
E nós nunca fomos uma família assim novamente.
Não até este momento.
Como eu posso ainda amar você?
Eu tinha pensado que era uma pergunta retórica.
Suas palavras, dolorosas em resposta à minha necessidade de implorar pelo seu amor.
Talvez não fosse.
Talvez ele estivesse perguntando.
Como faço para levar essa história a um lugar novo?
Eu podia ver isso em seu rosto enquanto ele permanecia acima de mim, hesitante e observando-me atentamente, porque havia um animal dentro de mim.
E Edward sabia, porque ele tinha um também.
Aqui, não porque eu pedi, mas porque ele queria.
Precisava, talvez.
Precisava da mesma forma que eu precisava.
Finalmente, Edward se abaixou ao meu nível silenciosamente, deslizando pela parede para que ele estivesse sentado ao meu lado. Ele manteve um espaço seguro entre nós, seus olhos nunca me deixando enquanto eu respirava fundo, inspirava e exalava.
Terror fresco fazendo-me pular.
"Como ele está?" Eu ofeguei, olhando para a parede em frente a nós, enquanto eu me preparava.
Suas palavras ecoaram, não pareciam reais. Havia quase um sorriso em sua voz, apenas um traço. Triste e aliviado.
Seu pai está bem.
Eu podia sentir o cheiro do hospital e, por trás dos meus olhos, eu podia ver alguém que estava morrendo.
Uma criança.
Eu estava me empurrando contra algo real, tentando correr pelo corredor até o meu filho.
Não.
Meu pai.
Eu podia me lembrar da cor, da sensação do tecido do vestido que eu estava usando na noite em que meu filho morreu, na noite em que eu corri para fora do restaurante e direto para um quarto de hospital. E então todos estavam vestidos de branco e tentando me explicar o que estava acontecendo, antes e depois. Então, muito mais tarde, minha mão roçando meu estômago vazio enquanto Edward me olhava.
Naquele momento, eu fiquei assustada, totalmente.
E eu ainda estava.
"Você está aqui." Eu disse, tão baixo que eu não sabia se ele me ouviria.
Sua mão estava na parte de trás da minha cabeça em seguida, seus dedos enroscando no meu cabelo, segurando-me sem dizer uma palavra.
Nota da Irene:
Bem meninas, ai vai o ultimo capítulo postado pela autora. Espero que vcs tbm tenham sentido a mesma esperança que eu nesse final de capítulo. Mas a autora é completamente imprevisível e eu estou quase louca esperando ela postar o próximo.
=)
Obrigado a todas que acompanham a fic. Ela é uma historia completamente diferente e muito angustiante... Não é pros fracos! Hahahahaahah
