Capítulo 44 - O Quarto
Nossos pés desembarcaram em um ritmo perfeito, lentos e arrastados com cada passo sobre o chão de linóleo. Meu pulso estava envolvido em torno do seu braço, meus dedos agarrando em seu casaco que estava um pouco úmido da chuva, e o único contato entre nós. Eu queria pressionar o comprimento do meu corpo contra o dele, inclinar nele completamente para apoio, mas eu estava muito molhada.
Eu não queria que Edward ficasse com tanto frio quanto eu estava.
"Há mais alguém aqui?" Eu sussurrei a pergunta, incapaz de esconder o tremor na minha voz, não tendo certeza qual eu queria que fosse a sua resposta. Se eu queria que fôssemos apenas nós dois, a sós com o meu pai. Se eu queria uma centena de pessoas entre nós e guardando-me da dor de vê-lo em uma cama de hospital.
Sabendo que nada disso era para mim.
Eu pude sentir os olhos de Edward moverem, olhando para o topo da minha cabeça, mas eu mantive o meu olhar nivelado para a frente. Preparada e com tanto medo, esperando que nós chegássemos ao quarto do meu pai. Cada porta que passávamos, eu podia sentir meu coração engatando no meu peito, em seguida, batendo forte novamente quando ele me guiava para a frente.
"Billy Black." Ele me disse baixinho.
Minha respiração parou por um momento, presa nesse nome, antes de eu soltá-la em um movimento rápido.
O melhor amigo do meu pai.
É claro que ele estaria aqui. É claro que ele tinha todo o direito. É claro que eu tinha até mesmo o esperado. Ouvir o nome dele, a confirmação pelos lábios de Edward de que ele estava esperando no quarto com Charlie, e eu soube que teria ficado surpresa se ele não estivesse.
O homem que sempre esteve lá para Charlie.
Assim como ele sempre esteve lá para mim.
Eu engoli em seco. "Apenas Billy?"
Edward ficou em silêncio por um momento, e então seus passos diminuíram para uma parada. Minha mão pegou em seu braço e eu hesitei ao lado dele enquanto virava os olhos para o seu rosto. Sua expressão era ao mesmo tempo intensa e suave quando eu o senti tão gentilmente, tão cuidadosamente, pressionar meu corpo na parede ao meu lado.
Eu endireitei minhas costas contra o gesso frio para encará-lo.
"Jacob estava aqui." Ele me disse, seus olhos prendendo com os meus. Segurando meu olhar de forma constante, preocupada e em apoio. Sua garganta mexeu quando ele engoliu. "Ele saiu há cerca de meia hora, recebeu um telefonema de alguém. Eu não sei para onde ele foi".
"Eu sei." Eu exalei.
Os olhos de Edward endureceram um pouco, sua boca abrindo sem qualquer intenção de falar.
Ele olhou para mim – segurando-me contra a parede - e esperou.
Era impossível saber o que ele estava pensando, mas ele não parecia bravo.
A mão que ainda estava descansando em seu braço apertou, meus dedos prendendo o algodão do seu casaco, logo abaixo do seu cotovelo. "Eu o vi, Edward".
"Onde?" Ele queria saber, seu olhar caindo para o chão enquanto ele considerava minha admissão.
"No bar do outro lado da cidade." Eu disse a ele, meus olhos passando rapidamente pelo seu rosto, indo e voltando para procurar algum vestígio de emoção. Uma única pista para o que ele estava pensando ou sentindo. "Alguém deve ter dito a ele que eu estava lá".
Prendi minha respiração por um instante enquanto ele ficava parado, momentaneamente congelado e considerando.
No bar do outro lado da cidade.
Talvez ele achasse que eu estive bebendo, talvez ele soubesse que eu não estava, mas a fraqueza ainda foi admitida. Eu tinha ido ao bar antes de ter vindo até o meu pai. Edward tinha chegado ao hospital primeiro, para apoiar-me, e eu estava em um bar.
Com Jacob.
Eu queria dizer a ele o que tinha acontecido. Eu queria dizer a ele sobre Ângela e a bebida deixada intocada no balcão e como eu corri de Jacob como uma covarde.
Tudo que eu pude fazer foi esperar.
Esperar com todas as explicações e as garantias, esperar com toda a razão e implorar - sabendo que ele poderia nunca ouvi-las. Sabendo que, mesmo que ele as escutasse, elas ainda podiam não importar a ele.
Talvez nada que eu pudesse dizer importasse agora.
"Você falou com ele?" Edward perguntou por fim, seus olhos levantando para encontrar os meus.
Tudo o que eu podia ver era uma calma perfeita. Sua expressão era tranquila, verde silenciado com indiferença, de uma conversa há muito vindo.
Mordi meu lábio para segurar o tremor, a agitação de frio. "Eu não consegui".
Eu tinha fugido de Jacob antes. Eu não tinha sido capaz de falar com ele naquela época também. Era como se tudo isso tivesse acontecido antes, que eu tinha vivido através desse quase um ano atrás e, talvez, nada estivesse diferente. Eu tinha tentado fugir de Jacob há muito tempo. Mas isso não mudou nada.
Ainda assim, algo atravessou o rosto de Edward, as minhas palavras ou a minha expressão.
"Ei, não se preocupe com isso agora." Ele disse suavemente, seu braço deslizando lentamente pelo meu braço para me puxar para o seu peito, angulando meus ombros para ele, com apoio, em vez de intimidade.
Então, nós estávamos andando novamente.
Andando e parando na porta seguinte.
"É aqui." Ele me disse, seus olhos segurando os meus. "Você está pronta?"
Eu inalei, eu exalei.
"Sim".
~ O ~
Eu me segurei contra a pia, o banheiro misericordiosamente vazio enquanto eu engolia em seco para respirar. Eu podia sentir meu corpo todo tremendo com adrenalina, com medo, e com uma terrível e cruel esperança.
Ele estava lá fora.
Ele estava no bar que eu vinha quase todas as noites. Talvez sim, ou talvez não, ele estivesse me procurando, isso chacoalhou em torno do meu cérebro. Seus olhos tinham encontrado os meus do outro lado do salão, o escuro dos seus tão familiar, a surpresa e não surpresa dentro deles. A familiaridade e a inevitabilidade, o conforto e as perguntas.
Eu tinha levantado do meu lugar, mas, em vez de caminhar em direção a ele, eu tinha me virado para longe da confusão em seu rosto, e fugi para a segurança da porcelana e vidro e azulejo. Uma pausa momentânea no ruído ao meu redor e dentro da minha cabeça.
Não foi nada útil, no entanto.
Mesmo que ele não fosse real, como eu deveria escapar dele?
A aparição, a ideia dele, a sensação dele ainda me seguia por toda parte.
Houve silêncio por um longo tempo antes de ele falar.
"Como está Edward?"
Eu ouvi sua voz atrás de mim, tranquila e penetrante. Olhei para as minhas mãos segurando firmemente a pedra da pia, pressionando tão forte enquanto os lados dos meus quadris me equilibravam.
"Por que você está me perguntando?" Minha voz estava tão suave, atada com amargura.
Dez quarteirões de distância de onde eu morava.
De onde eu morava com Edward.
Com o meu marido.
Ele não poderia estar aqui.
Era mundos colidindo e estrelas supernova queimando e explosões no céu. Era o colapso de toda a estrutura cuidadosa e delicada que eu tinha erguido em minha própria defesa. Quebrando com um olhar, apenas com o som da sua voz.
Jacob em Nova York.
Eu o ouvi rir sem humor.
"Eu não sei, porque você está casada com ele?" Ele soou mais perto.
Quatro anos hoje.
Lentamente, levantei meus olhos para o espelho do banheiro, desenhos e manchas de batom e esse homem alto e lindo nas minhas costas. Ele tinha se afastado da porta, entrando na luz fluorescente, seus olhos escuros presos nos meus através dos nossos reflexos.
"Ele costumava ser seu amigo." Eu atirei. "Por que você não pergunta a ele?"
Eu podia me lembrar de quando éramos nós três.
Jacob e Edward e eu.
Ou, nós quatro, sempre que Edward tinha uma mulher em seu braço. Substitutas, como se viu, para aquela que ele realmente queria. Porque ele nunca foi realmente meu amigo. Ele certamente nunca foi amigo de Jacob. E nós nunca fomos amigos dele.
Outro passo.
"Porque eu não..." Ele fez uma pausa.
Eu sabia o fim para essa frase.
Porque eu não me importo.
Nós nunca nos importamos com Edward, não do jeito que ele se importava conosco.
"Como você está?" Ele perguntou então. Era o que ele realmente queria saber. A pergunta que me deixou enjoada, mas eu preferia isso.
Ele não tinha o direito de perguntar depois do que fez com Edward.
Eu não tinha o direito de responder.
Eu dei de ombros. "Tudo bem".
Tentando esconder, tentando fugir na solidão de um banheiro de um bar. Tentando escapar da sensação de asfixia em meu peito quando eu o vi do outro lado do salão. Minha segurança, meu santuário de bebidas, quebrado em um instante e eu me encontrei fugindo.
Eu sempre fugia.
Eu simplesmente nunca pensei, nem por um instante, que ele seguiria.
"Se você não estiver, Bella, você pode me dizer." Eu o ouvi dizer de forma gentil, eu o vi facilmente se aproximando mais. "Você pode me dizer qualquer coisa. Eu seria a última pessoa a julgar alguém".
Meus olhos estreitaram com suas palavras.
"Certo." Eu zombei, mesmo que eu sentisse meus braços começando a tremer sob o peso do que ele estava dizendo. Com muito cuidado, em tom de desculpas. "Porque você é o mais repugnante de todos nós".
Jacob balançou sua cabeça levemente, não negando nada, ignorando o rosnar do tigre.
Então, ele estava bem atrás de mim e eu pude sentir o calor do seu corpo em minhas costas. Suas mãos levantaram e descansaram suavemente no meu bíceps, seus dedos curvando e fortes. Controlando a adrenalina vibrante correndo através de mim.
"Bella, eu sei que você não está feliz." Sua voz era pouco mais que um sussurro.
"Você sabe?" Eu cuspi uma risada áspera. "Eu me pergunto por que seria".
Jacob ficou em silêncio por um momento e eu o observei cuidadosamente no espelho, meu corpo todo tenso sob o seu enquanto ele olhava para o meu ombro. Eu não conseguia ler sua expressão. Culpa, ou dor, ou pesar, escondidos no movimento para baixo dos seus olhos.
Eu podia sentir sua respiração no meu pescoço.
Isso aqueceu cada centímetro de mim quando eu estremeci contra o sentimento.
"Por que você se casou com ele?"
"Sério, Jacob?" Eu cuspi, girando para encará-lo.
Suas mãos me soltaram imediatamente quando ele deu dois passos rápidos para trás, levantando os braços em sinal de rendição.
De onde é que ele vinha falando com aquela voz machucada, como se tudo isso fosse algo que tivesse sido feito contra ele? Como ele podia sequer pensar que tinha o direito de perguntar?
Ele tinha?
~ O ~
Eu vi Billy Black primeiro, meus olhos caindo no imediato movimento quando ele saltou da sua cadeira ao me ver. Em seu rosto estava o sorriso familiar, tão gentil e calmante, como se ele me visse todos os dias e estivesse feliz em me ver todos os dias. Foi fácil vê-lo atravessar o quarto em quatro passos equilibrados, fácil senti-lo puxar-me para um abraço forte. Grande e cheio de amor.
"Bella." Eu podia senti-lo sorrir o meu nome quando descansei meu queixo levemente em seu ombro, segurando-me firmemente contra ele. "É tão bom ver você".
"Você também." Eu sussurrei, fechando meus olhos por um momento. Inalando o cheiro, a sensação de tudo o que me rodeava. Então meus olhos abriram para a cama atrás dele, para o homem deitado imóvel sob cobertores brancos, embalado por máquinas que apitavam. "Como ele está?"
Billy se afastou, segurando meus ombros de forma encorajadora. "Ele está bem, ele está bem." Ele acenou em garantia. "Apenas dormindo".
Engoli em seco, meus olhos fixos e imóveis. "Talvez não devêssemos acordá-lo".
"Bobagem." Billy zombou, soltando-me e voltando-se para o seu amigo. "Ele quer vê-la".
Eu observei quando ele se aproximou, à vontade e sem medo, do meu pai adormecido. Tão pálido e imóvel como a morte. Um arrepio correu através de mim e imediatamente senti Edward ao meu lado, nossos ombros roçando, seus olhos no meu rosto.
Eu não me virei para olhar para ele.
Eu mantive meus olhos em Billy quando ele se inclinou para o meu pai, suas mãos movendo delicadas e calmas em seus ombros fracos e cobertos, e eu pressionei meu ombro muito levemente em Edward ao meu lado.
Sentindo sua força me mantendo à tona.
"Charlie. Ei, Chefe." Billy sussurrou. "Adivinha quem está aqui".
Eu vi os olhos do meu pai piscarem abertos, fechados e abertos de novo, e eu estava andando pelo quarto até ele, minhas pernas se movendo, não porque eu dissesse a elas, mas porque elas tinham que se mover. Três passos e eu estava perto o suficiente para que eu pudesse ver a confusão momentânea nos olhos do meu pai antes que eles pousassem em mim.
Fui até a cama, minha mão caindo inutilmente contra o colchão.
"Oi, pai." Eu disse pausadamente e tencionei meu queixo e apertei.
Por um momento, ele apenas olhou para mim, seu rosto duro e branco.
Como se ele não me reconhecesse, como se ele estivesse bravo, como se ele não me quisesse tão perto dele.
Eu lutei contra todo o sentimento de rejeição que ameaçou me paralisar a cada segundo que passava, enquanto ele não disse nada. Eu lutei fortemente contra isso e esperei, simplesmente esperei, porque eu tinha que esperar e porque Edward estava atrás de mim.
Então o rosto do meu pai pareceu desmoronar, seus olhos suavizando e olhando para cima para mim com admiração.
"Bells." Ele respirou meu apelido como uma oração. "Você está aqui".
Então eu entendi o seu silêncio como incredulidade, como o controle contra toda a emoção, como a necessidade de verificar a verdade entre o que seus olhos viam e o que seu coração queria. Eu podia ver tudo refletido em seus olhos, em seu rosto, o que eu tinha sentido desde o momento em que recebi o telefonema no Colorado.
Eu verei você novamente algum dia?
E a resposta retumbante foi segurada neste momento onde eu estava ao lado da sua cama e respirava em torno dele e caía muito cuidadosamente sobre ele, colocando minha cabeça sob o seu queixo quando senti as lágrimas derramando, com felicidade e muito alívio.
"Claro que eu estou aqui." Eu sussurrei e chorei no tecido leve da camisola leve que cobria seu peito. Repeti várias vezes, como se ele não pudesse me ouvir. Como se dizer isso mil vezes fosse ajudá-lo a acreditar. Fosse me ajudar a acreditar. "Claro que eu estou aqui".
Senti seus braços, lentos e ponderados pela lesão, envolvendo em torno do meu corpo trêmulo, arrastando-me para ele como pedras no oceano. A batida vital do seu coração era forte e rápida contra meu ombro direito e eu não pude conter o fluxo de lágrimas ao escutar isso, ao seu ritmo.
Eu não conseguia me afastar e me desculpar por meu pai ficar molhado da chuva e do sal dos meus olhos. Toda vez que seus braços apertavam em torno de mim, eu sabia que ele não queria que eu me desculpasse. Eu sabia que ele não estava com frio do nosso abraço. Aquecia-me saber que eu o aquecia.
Finalmente, levantei minha cabeça para olhar em seu rosto. Ele estava me olhando com ternura, um pequeno sorriso demorando em seus lábios.
"Você está bem?" Perguntei a ele, suplicante.
Ele inclinou a cabeça para a minha preocupação, suas sobrancelhas franzindo em simpatia. Em seguida, ele estava tirando um braço de cima de mim e trazendo sua mão para o meu rosto, um dedo escovando delicadamente pela minha bochecha.
Lentamente, ele acenou com a cabeça.
Agora que você está aqui.
Peguei sua mão na minha e a segurei contra a minha bochecha, meus olhos pressionando fechados contra a dor que rasgou através de mim - culpa e arrependimento consumindo através de todo o amor que eu sentia por ele. Todos os anos desperdiçados, todos os mal-entendidos silenciosos, toda a grande culpa. Os momentos perdidos com ele, espelhando e refletindo os momentos de Edward perdidos com Carlisle. A culpa pesando diretamente nos meus ombros, o perdão estendido sem pensamento.
"Bella." Eu o ouvi dizer baixinho.
Meus olhos se abriram com o seu tom: não mais amável, ou arrependido, mas preocupado agora e urgente.
Eu o vi olhando por cima do meu ombro, em direção ao outro lado do quarto. Sua mão caiu do meu rosto, mas eu a segurei enquanto me endireitava levemente e virava na direção do seu olhar, em direção a sussurros agora rápidos e claros.
Edward e Billy estavam no outro lado do quarto, bloqueando a porta levemente. Ainda assim, eu podia ver através dos seus ombros o corpo alto do filho de Billy. Eu não podia ouvir o que eles estavam dizendo um ao outro, mas parecia que Jacob estava fazendo a maior parte da conversa. Sua boca movendo com uma urgência silenciosa, seus olhos passando rapidamente do seu pai e pegando fogo sempre que caíam em Edward.
Então, em um momento de silêncio, seus olhos pousaram em mim como sempre faziam. A rudeza com que ele tinha parado de falar, a natureza deliberada do seu olhar, fez com que os outros dois homens também se virassem.
O olhar de Billy era de expectativa, esperando por uma resposta.
O rosto de Edward estava livre de emoção mais uma vez - o modelo perfeito da indiferença forçada.
Jacob sorriu.
Eu apertei mais forte a mão de Charlie.
~ O ~
Ele estava tão perto.
Ele estava tão perto que eu tive que inclinar minha cabeça para trás para continuar olhando em seus olhos.
Ele estava tão perto que eu podia sentir o calor dos nossos corpos lutando entre nós.
"Por que você se casou com ele, Bella? Foi para me deixar com ciúmes? Ou você realmente o queria?" Eu o observei quando ele balançou a cabeça levemente, seus olhos escuros ficando absurdamente mais escuros quando ele inclinou contra a pia, seu corpo posicionado a poucos centímetros do meu.
Raiva e luxúria, eu senti meu coração martelando em meus ouvidos.
"Por que você está me matando assim?" Ele perguntou, exigiu, sua voz falhando um pouco.
Eu poderia dizer que não era uma pergunta que ele quisesse resposta.
Ele estava perguntando isso para si mesmo.
Senti um indesejável toque de emoção com as suas palavras torturadas - o olhar em seus olhos - e tentei o meu melhor para ignorar isso, para sufocar.
"Você não me queria." Eu disse, a rudeza em minha voz não era nem um pouco falsa. "Isso não significava que eu tinha que ficar sozinha".
O silêncio que seguiu foi esmagador.
Eu nunca havia dito isso antes, não em voz alta.
Jacob estava totalmente nas garras do tigre agora, tirando os dentes da sua garganta e cara a cara com meu desgosto contínuo por mim mesma.
"Vá para casa, Jacob." Eu disse finalmente, porque eu estava presa e não podia voltar atrás. Minha voz saiu surpreendentemente calma e uniforme. Eu desviei meus olhos. "Vá para casa para a sua esposa, vá para casa para a sua família. Você escolheu isso".
Eu podia me sentir endurecendo, decidida a machucar Jacob tanto quanto demorasse para ele se calar. Enquanto ele continuasse falando, enquanto ele mantivesse o raciocínio, eu realmente estava enojada.
Porque eu estava ouvindo.
Jacob tomou uma instável respiração profunda, seus lábios quase tocando a parte de trás da minha cabeça. "Eu vim aqui por você. Eu vim para Nova York por você, Bella".
"Não sozinho." Eu silvei, minha voz de repente suave e mortalmente baixa. "E muito tarde".
Fechei meus olhos e me virei para encará-lo, puxando meus braços protetoramente sobre o meu peito enquanto ele se afastava para dar-me espaço, afastando-me dele e de mim mesma. Tentando encontrar um lugar dentro de mim onde eu estivesse calma, onde eu não podia ouvi-lo.
Eu sabia que tal lugar não existia.
"Você o ama?" Jacob perguntou de repente.
A pergunta soou oca e não natural, e eu abri meus olhos lentamente para ver Jacob mudar seu peso ansiosamente, tentando ler algo por trás do véu de lágrimas que cobria meu rosto.
"Estou tentando." Eu ofeguei. "Estou tentando seguir em frente. Estou tentando não me importar. Estou tentando odiar você".
Tudo que eu podia ouvir era a minha própria voz gritando e ecoando dentro da minha cabeça. Eu não tinha ideia se as palavras estavam saindo como gritos, ou como choro.
De qualquer maneira, eu estava implorando.
Ele deu um passo, depois outro, e depois outro, fechando a lacuna que eu tinha tentado criar entre nós.
"Bella." Ele sussurrou meu nome novamente, seus lábios pressionando no meu cabelo enquanto ele falava.
"Eu não posso." Eu respirei a resposta.
Não quando ele estava aqui atrás de mim, tão quente e familiar, como se tudo mais parecesse estar se desfazendo. Não apenas se desfazendo, mas desmoronando tão rapidamente e tão completamente que eu não conseguia controlar - não conseguia sequer começar a entender.
De alguma forma, sua mão encontrou minha cintura antes que eu estivesse sequer ciente de que ele havia se movido, e eu estava sendo puxada para trás em direção a ele. Meu corpo estremeceu com o contato, ficou tenso, antes que eu deixasse minha cabeça cair para a frente para descansar em seu ombro, entregando-me com os meus olhos ainda resolutamente fechados.
"Eu não vou perdê-la de novo." Eu o ouvi respirar em meu pescoço.
Meus olhos se abriram.
"Não..." Eu disse tremulamente, contorcendo-me para longe dele. "Não, não, não..." Gaguejando e balançando minha cabeça com veemência.
Eu procurei no rosto de Jacob desesperadamente por qualquer indício de uma mentira, procurando e procurando até que eu pude encontrar o lugar onde ele quebraria meu coração novamente.
Eu não conseguia parar de andar para trás, inconscientemente e balançando a minha cabeça, como se ele fosse um predador que tinha me prendido sob o seu olhar. E ele era. E eu me encontrei com as minhas costas pressionadas contra uma das portas dos boxes.
"Não." Eu disse de novo, a palavra caindo dos meus lábios uma e outra vez até que nem sequer parecia mais ter um significado.
"Eu sei que tenho sido um idiota." Jacob me interrompeu, seu olhar intenso caindo e se tornando insuportavelmente triste. "Eu nunca deveria ter pedido a você para ir embora. Eu deveria ter vindo atrás de você anos atrás. Eu deveria ter estado lá quando..." Ele fez uma pausa, em seguida, olhou para mim, implorando. "Mas eu só... eu preciso de você agora".
~ O ~
Edward ficou parado no meio do quarto, perto do final da cama do meu pai. Sua expressão era controlada, mas tensa, seus olhos fixos em mim e nunca nervosos. Ele estava simplesmente esperando pegar suas dicas de mim, como sempre tinha feito. Agora, porém, eu não tinha pistas para dar a ele. Toda a minha postura tinha sido retirada de mim. Ele tinha ajudado a tirá-la, visto tudo desmoronar. Eu não tinha certeza do que ele esperava ver agora.
Ainda assim, ele não me deixaria sozinha no quarto.
Billy estava ao lado da cadeira onde Jacob estava sentado, à minha esquerda. Eles formavam a imagem de uma família unida, amarrada junta com todo o amor que fez parte da minha infância, meu passado. Jacob passou a significar muitas coisas ao longo da minha vida, mas o Jacob aqui diante de mim era o que tinha sido o melhor amigo de uma menininha. Ele era solidário e possessivo e amoroso, preocupado comigo e com Charlie. Pela primeira vez desde que ele tinha encontrado Nessie, ele estava completamente presente, seus olhos e sua concentração apenas em mim. Uma atenção inegável.
Isso me assustou.
E, no centro de tudo isso, eu estava sentada na cama do meu pai, segurando sua mão com força na minha, ancorando-me.
"Como está Nova York?" A voz do meu pai era calma e levemente hesitante, como se ele achasse que me fazer muitas perguntas me faria fugir novamente.
Eu olhei para ele por um momento, um pouco confusa com a pergunta.
"Quero dizer, você não... o hospital não disse a você?" Eu gaguejei, olhando na direção de Edward.
"Disse-me o quê?" Charlie perguntou, seus olhos voando rapidamente para o meu marido antes de virarem para mim procurando por respostas, incisivamente.
Ele parecia muito como meu pai naquele momento.
O pai que eu conhecia quando era menina, que me castigaria e gritaria comigo em frustração e observaria sem dizer nada enquanto minha mãe me dizia que eu era indesejada. O homem que pendurava lembretes na geladeira e me levava para tomar sorvete e entrava no meu quarto à noite quando eu estava com medo, para expulsar os monstros.
Eu sempre pude ler o seu humor, eu sempre soube o que ele estava prestes a dizer.
Nós nunca tínhamos sido tão próximos quanto os Black, mas nós nos conhecíamos como espelhos.
Eu sabia que tínhamos nos afastado, eu sabia que era minha culpa, mas eu nunca, nem por um momento sequer, considerei o fato de que Charlie não sabia onde eu estava. Nós nunca tínhamos que dizer tudo um ao outro, nós sempre sabíamos.
"Eles me ligaram..." Eu comecei, ainda me perguntando como eu não pensei nisso.
Como o hospital soube onde me encontrar?
Se ele não havia dito a eles, então quem...?
"Eu a localizei, Bells." Sua voz atravessou o quarto pela primeira vez. Meus olhos voaram para Jacob enquanto ele sorria para mim, inclinando levemente sua cabeça. "Dei a eles o seu número".
"Você... me localizou?" Minha garganta de repente estava muito seca.
"Você achou que eu não faria isso?" Jacob perguntou suavemente agora, inclinado para a frente.
Eu recuei levemente, reflexivamente, e olhei para Edward.
Seus olhos estavam duros em Jacob, seu rosto morto e como uma pedra.
"Nessie falou com algumas pessoas no Colorado, na cidade onde vocês estavam." Ele elaborou, sua voz recuperando um tom distante e amigável. Enganosamente confortável, ele se recostou em sua cadeira, dando-me meu espaço. "Ela me deu o número da sua casa".
"Ela..." Eu tentei, minha voz morrendo quando recolhi a informação.
"Ela cresceu lá, Bella".
Não era a voz de Jacob dessa vez, mas a de Edward.
Eu me virei para encará-lo agora, para vê-lo andando ao lado da cama, para mais perto de mim agora. Eu queria tanto estender a mão e tocá-lo, eu queria tanto ser capaz de lê-lo, mas ele não estava me dando nada, ele estava me mantendo fora de propósito.
Ela cresceu lá.
Como eu poderia esquecer?
Nessie tinha sido sua amiga de infância, a memória cravando e protestando em minha mente enquanto suas palavras ecoavam. Ela cresceu lá. Em Hartsel, com as pessoas que eu agora considerava minha família. Como Tanya, como tantas outras, ela esteve apaixonada por Edward antes que ele me escolhesse. A menina da porta ao lado com quem ele brincava antes de o mundo ter sido cruel com ele.
Talvez ela ficasse sentada com ele enquanto ele desenhava aquela árvore em seu diário.
Ela o tinha seguido para a faculdade, todo o caminho até New Hampshire, ela tinha ido naquela viagem por ele. Vindo por ele, partido com Jacob e meu futuro, minha vida. Mas ela tinha vivido naquele lugar, crescido com aquelas pessoas. Apresentada tantas vezes em meus pesadelos, era difícil vê-la como qualquer outra pessoa. Especialmente um deles.
Talvez eu tivesse sido amiga dela.
"Claro." Eu sussurrei, impotente.
O rosto de Edward estava tão vazio.
"Você estava no Colorado, Bells?" Meu pai perguntou, minha confusão se tornando a sua.
"Visitando a família de Edward." Eu expliquei e não expliquei.
Eu parei ali, sem saber o que mais dizer.
Era muito duro dizer que nos mudamos para lá. Dizer a ele agora que nos mudamos para muito mais perto dele. Que nos mudamos para qualquer lugar sem dizer a ele, sem deixá-lo saber onde no mundo a sua única filha estava. Mudando ao redor dele, ao redor de Forks, como se ele fosse alguém a ser evitado.
Ele acenou pensativamente antes das suas sobrancelhas franzirem com preocupação. "Está tudo bem?"
Eu congelei.
"Estava tudo bem." Foi a garantia de Edward, em sua voz calma e olhar firme.
Para dizer a ele por que nós fomos para lá, teríamos que dizer que Edward tinha perdido seu pai. Eu podia vê-lo, não querendo que Charlie pensasse nisso. Como poderia tão facilmente ter sido eu que nunca teria visto meu pai novamente, sem nunca ser capaz de dizer a ele do meu arrependimento e meu amor. Como isso quase aconteceu. E como parecia demais para lidar.
O rosto de Edward, porém, não deixou espaço para Charlie ter dúvida.
Tudo estava bem, porque Edward disse que estava.
Meu pai pareceu aliviado quando se virou para mim. "Bem, estou feliz que eles tenham sido capazes de ficar com você".
"Eu também." Segurei sua mão um pouco mais apertada. Então eu virei minha cabeça levemente, tentando não encontrar os olhos dele enquanto eu assentia meu reconhecimento - sinceridade e medo muito interligados. "Obrigada, Jacob".
"Sem problemas, Bells." Eu podia ouvir seu sorriso ainda em sua voz. "Você sabe que eu sempre posso encontrar você".
~ O ~
O cômodo era marrom escuro e vermelho em todos os lugares. A chave estava queimando em minha palma, as arestas cortando em minha pele enquanto eu a agarrava apertado, e mais apertado.
Ele parou na minha frente, como uma oferenda.
"Se você não me quer, você deve sair agora".
Era simples assim.
Era sempre assim tão simples.
E, honestamente, o que havia para ter medo?
No espaço entre meus pais e Nessie e Edward, ao breve espaço de tempo de quatro anos sem ele, Jacob tinha começado a significar para mim que ele nunca foi antes. Todo o motivo de chegar a ele era que ele era tanto a minha autodestruição quanto a minha salvação. Mesmo que ele fosse a luz em meu coração, ele havia começado a ser também o lugar mais absolutamente assustador que meu corpo poderia ir.
E o pior lugar mais absolutamente assustador, era onde eu queria estar.
Todos esses anos atrás eu fiz um pacto com o diabo: ele poderia ter a minha alma - ele poderia ter a alma de Edward - apenas para que eu não ficasse sozinha.
Foi nesse momento, olhando para um Jacob parado esperançoso e propenso diante de mim, que eu percebi que eu era muito jovem - com muito medo e dor - para fazer esse tipo de negócio. E, acima de tudo, eu estive levando Edward para baixo comigo, arrastando-o e ao seu grande amor para a escuridão comigo. Lentamente, eu estava sendo tão má quanto eu queria ser naquela época, quando eu pensei que poderia lidar com isso.
E agora a piada era que ter Jacob - e destruir Edward – me deixaria tão vazia como eu sempre tinha sido.
Então eu o beijei.
Esmaguei meus lábios contra os dele com toda a dor e sofrimento e agonia que eu tinha experimentado ao longo dos anos, esfregando-me contra o desejo e o amor em minha cabeça e minha língua.
Eu finalmente entendi a piada, e a piada era eu.
~ O ~
A caminhonete parou sem que eu percebesse.
O motor ainda estava roncando, um ronronar constante, o único som no silêncio que se abatera sobre mim. Eu me senti totalmente drenada quando meus olhos caíram sobre a casa, escura e solene na noite, iluminada apenas pelos faróis. Ainda estava chovendo, é claro, e as gotas eram faíscas de luz no pára-brisa, fazendo tudo parecer confuso e um pouco fora de foco.
Então, o motor desligou e fomos jogados na escuridão completa, tudo preto e azul em volta de mim. Ouvi a batida da porta do lado do motorista ao ser fechada e observei quando sua figura nas sombras atravessou na minha frente.
Ele abriu a minha porta e então eu podia ouvir a chuva suave na grama em harmonia com a batida contra o capô.
Senti Edward estender a mão, seus dedos fechando devagar e com cuidado em torno da mão que estava descansando imóvel em meu colo. Ele a levantou para si mesmo sem puxar, apenas uma sugestão e uma promessa de paciência.
Eu era uma besta selvagem.
E Edward sabia disso porque ele era uma também.
Eu podia ver em seu rosto - em tudo que eu não podia ver – sempre que ele olhava para Jacob. Nós todos tínhamos deixado o hospital quando ficou tarde demais. Jacob havia me envolvido em um longo abraço de um amigo de infância. Nada mais. Foi o suficiente, porém, para o meu coração acelerar de medo e para a mandíbula de Edward travar.
"Vamos." Ele me disse baixinho, sua voz ainda sombria.
Isso enviou um arrepio através de mim, mas havia fogo em seus olhos agora. Eles brilhavam quentes com toda a preocupação e amor e mágoa que estiveram tão ausentes no hospital. A fraqueza que ele não podia mostrar a Jacob, a insegurança e absoluta autoconfiança misturadas juntas. Tempestades de emoção e, através disso, cada centímetro que se importava comigo.
Ao seu comando, eu pude sentir um puxão gentil na minha mão e no meu estômago.
Encontrei-me saindo do carro e parando desajeitadamente diante dele, na frente da casa onde eu cresci.
Era menor que a dos Cullen e mais fria.
Eu olhei para o rosto de Edward, e o que eu encontrei lá agora fez a minha respiração engatar.
Eu suspirei e aceitei o presente.
Senti o braço de Edward vir em torno de mim e encostei minha cabeça em seu ombro, sem olhar para ele, mas ainda pensando naquele momento que ele era muito bonito.
Eu inspirei, tão forte, e segurei em Edward enquanto fizemos o nosso caminho até as escadas da varanda.
E, em seu ombro, eu sussurrei meus agradecimentos.
~ O ~
"O que estamos fazendo?" Eu ouvi a voz de Jacob ao meu lado na escuridão.
Nossos corpos nus estavam quentes e sob as cobertas.
"O que você quer dizer?"
Ele suspirou. "Eu não posso ver nenhum de nós saindo disso ileso".
Eu podia senti-lo se apoiando em sua mão para olhar para mim.
Eu mantive meus olhos fixos no teto.
"Claro que não. Isso vai nos quebrar." Uma bolha de uma risada louca e bêbada ameaçou irromper de mim, explodindo como a dor que eu podia sentir queimando sobre cada centímetro da minha pele. "Será o massacre mais fodidamente sangrento que você já viu".
Nota da Irene:
7 minutos de silencio. =O
Muito chocada pra comentar. Agora é aguardar ela postar novamente.
Era pra eu ter postado ontem, mas só agora parei em casa. Até amanHã em First & Ten.
Ps.: Essa autora nunca faz o que eu penso que ela vai fazer.
