Capítulo 45 - A Cidade
Em algum momento durante a noite, a chuva parou.
Eu podia ouvir o tamborilar suave através das janelas abertas, os pingos no telhado.
Edward seguiu-me pela escuridão da casa com sua mão na minha. Esperando pacientemente quando eu me atrapalhei em torno dos móveis, porque eu não estava disposta a acender as luzes.
Eu não queria ver a casa onde eu cresci.
Eu estava certa de que estava do mesmo jeito.
Eu podia ouvir a cadência constante da chuva como pano de fundo, trilha sonora para as faíscas que saíam do contato entre nossos corpos.
Alcançou um passo insuportável no momento em que meus passos vacilantes ficaram suaves, quando ele envolveu seu braço ao redor da minha cintura para me ajudar a subir as escadas.
Estava espancando as janelas e batendo nas paredes quando eu o puxei para a minha cama.
O som era ensurdecedor, um rugido que abafava cada movimento, cada palavra que poderíamos ter falado.
A dicotomia do silêncio, do rugido, fez-me mais consciente dele. Onde ele estava, onde ele estava me tocando, cada centímetro do meu próprio corpo. Eu não tinha certeza se era a chuva ou o meu coração que estava batendo tão fortemente nos meus ouvidos.
Então suas mãos estavam em mim, tirando as roupas molhadas até que eu estava sentada ao lado dele com nada além da minha calcinha.
Estava silêncio - ou eu estava surda para qualquer coisa - quando sua própria camisa saiu e ele me envolveu no algodão seco que cheirava a ele.
Ele se deitou em seguida, e esperou silenciosamente enquanto eu me sentava em cima dele - meu coração ainda batendo forte - olhando através da escuridão onde ele era apenas uma sombra cinza ao lado das minhas pernas nuas brancas estendidas. Imóvel e com os olhos voltados para o teto.
Eu podia sentir as palavras degolando na minha garganta, imaginei-me as gritando sobre a chuva e parecia impossível. Perguntas e reflexões e explicações, tudo girando em torno de nós no escuro, por dizer.
Sua presença em minha mente através das horas que passei dirigindo, nos momentos sozinha em um motel, a realidade chocante da sua aparição no hospital, agora no quarto onde eu cresci - deitado entre todos os fantasmas que eu já tinha tentado fugir - e eu podia sentir o peso disso pressionando meu corpo para baixo.
Para baixo até que eu estava deitada ao lado dele, não tocando, mas ainda sentindo a eletricidade do seu corpo, o calor crepitante correndo entre nós.
Para dentro do escuro e, mais ainda, para o sono.
Quando acordei, foi somente a partir do espaço de uma respiração, o comprimento de um piscar de olhos, e estava completamente silencioso.
Tinha parado de chover.
O céu estava claro, a lua que estava quase cheia lançava um tom de violeta em tudo, e minhas pernas pálidas descansavam ainda sobre os cobertores.
Deitada de costas, quase nua e quente, eu virei minha cabeça para a esquerda para vê-lo ao meu lado.
Tudo parecia confuso e surreal como um sonho.
Eu não me sentia acordada.
"Você está aqui." Eu sussurrei no momento em que pude ver a silhueta do seu rosto, a centelha de luz dos seus olhos abertos fixos no teto.
Sua cabeça virou lentamente, rolando sobre o travesseiro para que seus olhos pudessem encontrar os meus, cinza e brilhando ao luar.
"Eu peguei um vôo esta manhã." Sua voz era calma e suave, sua resposta simples.
Estendi minha mão, querendo agarrá-lo, mas não havia nada para tocar além de pele.
Não era minha para marcar.
Minha mão caiu e eu recolhi o material que me cobria - sua camisa - onde terminava na minha coxa. Observei meus dedos enquanto eu puxava o material sobre as minhas pernas nuas, mantendo meus olhos longe do seu peito nu.
"Por quê?" Eu sussurrei, a questão escapando em um suspiro.
Senti a mão de Edward deslizar para baixo para cobrir a minha, acalmando meus dedos rígidos. Sua pele era tão quente, escaldante contra meus dedos úmidos, ainda úmidos da chuva.
"Por que você acha?"
Toda a tensão silenciosa e rolando dentro de mim derreteu com a sua pergunta, o tom da sua voz. Suas palavras eram muito suaves, implorando por uma resposta. Era uma resposta óbvia demais para vocalizar, muito assustadora para admitir, muito desejada para pensar.
Eu não conseguia olhar para ele.
Finalmente, eu me perguntei em voz alta, "Você estava no hospital o dia todo?"
"Eu passei cerca de uma hora antes de você chegar lá." Eu podia sentir Edward balançando a cabeça. Eu podia ouvi-lo morder o interior da sua bochecha contra suas palavras, como se ele estivesse nervoso.
Meu estômago virou e todo o meu corpo tencionou levemente, empurrando de volta contra a culpa.
Se eu não tivesse ido para o bar, nós poderíamos ter entrado no hospital juntos.
Ele não teria que enfrentar Jacob sozinho, e nem eu.
No momento em que pensei nisso, no entanto, eu sabia que não era verdade.
Quando se tratava de Jacob, ambos estávamos sozinhos.
Era eu e era ele e o próprio pensamento de Edward entrando naquele hospital para enfrentar aquele homem encheu-me de medo.
Com a necessidade de correr.
O toque de Edward na minha mão apertou levemente.
"Estou hospedado em um pequeno motel na periferia da cidade." Ele me disse, puxando-me dos meus pensamentos.
Engoli em seco e olhei para cima então. Nivelei meu olhar com o dele. Vi a luz estranha da lua em seu peito, ombros, braços. As linhas de músculos ainda magros, mas fortes. Seus vibrantes olhos verdes, roubando todas as cores da noite.
Ele olhava de volta para mim, inabalável.
"Você voltará para lá?" Eu exalei a questão. Assim que fiz isso, ela pareceu se dissolver na minha língua e eu já não sabia o que eu estava perguntando.
Ou o que eu queria que fosse a sua resposta.
Voltar para o motel, voltar para Hartsel, voltar para uma vida sem mim.
Agora que ele tinha mostrado seu apoio, agora que ele tinha oferecido seu conforto, agora que ele viu o que me esperava aqui, isso o satisfaria?
Era o suficiente?
Houve apenas uma pausa antes do "Não".
Meu coração deu uma guinada com algo que parecia uma perigosa esperança e de repente eu me senti bem acordada, tudo nítido e claro e incrivelmente real. Eu podia sentir a textura familiar do cobertor embaixo de mim, eu podia sentir o calor da sua pele ao meu lado, eu podia sentir sua mão ainda sobre a minha.
"Eu quero que você fique aqui." Eu disse a ele.
"Eu sei." Ele respondeu, como se soubesse exatamente o que eu quis dizer.
Eu suspirei, meu corpo afundando de volta no alívio, nos travesseiros e no firme colchão.
Nós ficamos deitados ali por um longo tempo, de costas, nossas cabeças ainda voltadas para o outro. Eu podia sentir sua respiração no meu rosto e tentei inalar sua expiração.
Soltei a camisa e nossas mãos caíram, ainda entrelaçadas, no pequenino espaço entre nossos corpos.
Eu podia sentir-me deslizar uma vez mais, respirando em um ritmo hipnótico, o zumbido suave do contato e a magnética lua silenciosa embalando-me para dormir.
Voltando para os sonhos e para as verdades desfocadas.
"Eu costumava viver aqui." Eu suspirei baixinho quando meus olhos se fecharam.
~ O ~
O ar do oceano estava úmido, o vento salgado contra a minha pele. A familiar tinta amarela descascada sob meus dedos, dando lugar à madeira nua, que resistiu ao tempo.
Era uma sensação estranha - um primo distante de um déjà vu, talvez - ver tudo visto um milhão de vezes através de outros olhos. A terra e as estradas e edifícios inalterados, meu próprio coração tão distante.
Isso me fez querer rir e chorar ao mesmo tempo, pensar que eu poderia ter tudo isso de volta.
"Você sabe pescar?" Eu ouvi Edward perguntar ao meu lado, o tom interessado e meditativo em direção ao oceano.
Nós fizemos uma pausa na pequena faixa de estacionamento de conchas do mar para observar as ondas quebrarem levemente contra as rochas – sua cor cinza aço geralmente tempestuoso sob o céu. Ao nosso lado estava o motivo da sua pergunta, a loja de pesca favorita do meu pai: uma viagem emocionante na cidade de Port Angeles quando eu era uma menina.
"Eu fui com ele algumas vezes quando eu era realmente jovem, mas eu não me lembro." Respondi com um ligeiro encolher de ombros. "Eu vinha aqui com mais frequência".
"Por quê?" Edward perguntou.
Eu olhei para ele, parado ao meu lado em um moletom verde de Dartmouth, seu cabelo chicoteando loucamente com a brisa e suas bochechas rosadas.
Seu rosto era tão aberto agora, jovem e bonito e confortável.
Um grito longe do homem que esteve tão consumido com a sua raiva em Nova York, tão distante do homem que fugiu de mim na noite no Colorado - quebrado e cauteloso.
Até mesmo diferente do homem que tinha me apanhado do chão do hospital alguns dias atrás.
Quando eu tinha perguntado a ele esta manhã se ele gostaria que eu lhe mostrasse a cidade depois que eu visitasse meu pai, seu rosto se iluminou com um sorriso brilhante que eu nunca tinha visto antes.
E algumas horas depois, quando entrei no quarto do hospital do meu pai sozinha, eu vi o mesmo sorriso exato no rosto de Jacob.
"Jacob." Eu disse, parando na porta. Minhas pernas e minha língua de repente congeladas.
Ele viu minha hesitação com uma atenção afiada antes de responder, ainda sorrindo, "Eu estava de saída. Darei aos dois algum tempo a sós." Ele bateu de leve no ombro do meu pai. "Vá com calma, Chefe".
"Vejo você em breve, Jacob." Meu pai respondeu. "Obrigado pela visita".
Em algum lugar abaixo da camada de tensão, eu me perguntava sobre o tom de meu pai, com o fato de que ele não o chamou de 'Jake'. O carinho estava faltando em sua voz e seus olhos estavam fixos em mim.
Meu estômago afundou ligeiramente, imaginando o quanto meu pai podia ver.
Jacob parou ao meu lado, nossos ombros quase roçando, e ele se inclinou para sussurrar no meu ouvido.
Eu podia sentir sua respiração no meu pescoço.
"Nós podemos conversar mais tarde hoje, Bella?"
"Eu tenho planos." Eu respondi imediatamente, nem mesmo pensando sobre a minha resposta.
Pensando apenas no rosto de Edward.
As sobrancelhas de Jacob levantaram.
"Você não pode me evitar para sempre." Em seguida, ele sorriu para mim, inclinando-se tão perto que seus lábios roçaram contra a minha pele. "E você não precisa".
Sua voz era sedutora com conforto e familiaridade.
Ele saiu e eu estremeci.
Limpando a memória da minha mente com um balanço de cabeça, voltei minha atenção para o homem diante de mim, um pequeno sorriso ainda presente em seus lábios – o que era uma constante quando estávamos na loja, pegando iscas coloridas de arco-íris e correndo nossas mãos ao longo de potes e redes.
"Eu não acho que eu tinha paciência para realmente ficar sentada em um barco. Ou em... silêncio." Expliquei para ele com outro encolher de ombros depreciativo. "Enfim, eu costumava vir aqui porque eu gostava de passar o tempo com meu pai. E ele gostava de pescar".
O sorriso de Edward ficou incrivelmente suave, talvez imaginando uma versão mais jovem de mim: uma menininha mítica que poderia ter sido tão bondosa e altruísta como ele sempre foi.
Eu quase não conseguia nem lembrar dessa versão de mim mesma - ela era uma sombra neste lugar, uma assombração que eu não conseguia entender.
"E então eu cresci." Eu sorri severamente. "As coisas mudaram".
"Que coisas?" Sua voz era muito baixa quando ele perguntou.
Eu suspirei e olhei para os meus dedos com restos de tinta.
Eu esperava que a pintura da casa Hartsel sobrevivesse durante o inverno.
"Eu sei que ele me ama. Eu sei que ama. Ele só... não é tão bom em demonstrar isso. Ele teve problemas em ter um interesse em minha vida, dificuldade para se relacionar comigo em qualquer nível." Eu comecei, minhas palavras escorrendo lentamente, dando voz ao que eu sempre soube e nunca me preocupei em perguntar.
Eu continuei, "Quando eu era jovem, quando eu o idolatrava, isso não importava. Eu o seguia até a loja de iscas todos os dias da semana e nunca parecia importante que não, eu não sei... lêssemos os mesmos livros? Quando fiquei mais velha, parecia-me como... apatia. Ele me frustrava, então eu me afastei".
Eu parei então, sentindo-me subitamente boba.
Boba por dizer isso a ele, boba por pensar que eu tinha outra coisa além de uma sorte incrível.
Eu ainda tinha meu pai, ele ainda estava vivo, e eu tinha outra chance de ser sua filha se eu fosse corajosa o suficiente para aceitar isso.
Eu sempre tinha sido ingrata a todos os presentes que tinham sido me dados, eu sempre me senti indigna e resistente, e eu não tinha certeza se eu era diferente agora. Eu não tinha certeza de onde eu tinha crescido e onde eu tinha ficado. Edward insistia que havia partes de mim que não tinham mudado nada.
Talvez essa fosse uma delas.
Eu sempre desperdiçava oportunidades de ser feliz.
Deve ter havido alguma coisa no meu rosto, porque Edward estava olhando diretamente para mim quando sussurrou, "Sinto muito" sinceramente, como se ele entendesse. Como se quisesse apagar completamente qualquer sensação de que eu era boba, ou ingrata, ou culpada.
Eu dei de ombros, afastando-me dele ligeiramente.
Carlisle e Charlie não eram os mesmos homens.
Edward e eu não éramos as mesmas pessoas.
Nenhum relacionamento pode ser baseado em outro.
Em algum lugar lá dentro, eu sabia disso.
Eu sabia que se eu nunca me reconciliasse com o meu pai, Edward nunca me culparia por desperdiçar uma oportunidade que não tinha sido concedida a ele. Sua perda era um lembrete para mim, não uma obrigação. Eu não poderia corrigir nada porque eu devia isso a ele, só porque eu queria que fosse corrigido.
Mas saber alguma coisa e acreditar, verdadeiramente e profundamente, são duas coisas completamente diferentes.
Foi a intensidade consumidora dos seus olhos verdes contra o fundo cinza, o fogo acendendo o interesse e até mesmo a necessidade de conhecer um pouco dessa história que me fez continuar com palavras lentas e tranquilas.
"Quando minha mãe foi embora após o ensino médio, eu acho que ele tentou meio que se prender àquele abandono, como se ele achasse que isso nos aproximaria porque ele foi aquele que ficou." Olhei para baixo e para longe, depois de volta para o oceano quando mordi meu lábio. "Isso só me fez ficar mais ressentida com ele".
Eu ouvi Edward inalar profundamente ao meu lado.
Ele prendeu a respiração por um instante em silêncio antes de exalar sua pergunta, "Ele sabe sobre... você falou com ele em todos estes últimos anos?"
Houve um ligeiro tremor em sua voz, e eu soube imediatamente o que ele estava me perguntando.
"Ele sabe que eu estava grávida. Ele sabe que eu... perdi... o bebê." O eufemismo pareceu amargo na minha língua, minha voz suave e baixa. "Ele não sabe nada além disso".
Eu me virei para olhar para Edward agora, precisando ver a reação dele.
Não parecia haver uma.
Ele estava assentindo silenciosamente, seu rosto pensativo, olhando para a mesma distância que tinha acabado de ser preenchida pelo meu olhar: o ritmo das ondas prateadas diante de nós.
"Ele enviou-me uma carta uma vez, logo depois que nos mudamos para Nova York. Ele estava tentando me consolar, ele ficava me dizendo que haveria outras crianças..." Minha voz quebrou, falhando minhas palavras. "Eu simplesmente não podia..."
Os olhos de Edward atiraram para o meu rosto, toda a dúvida desaparecendo e sendo substituída por algo duro e apaixonado.
Eu vi sua mão estender para mim lentamente, senti-a próxima ao redor do meu ombro enquanto eu o deixei arrastar meu corpo em seu peito.
Eu respirei e passei meus braços ao redor da sua cintura firme, mas não apertado. Não segurando-o a mim, mas segurando-me nele.
"Você dirá a ele agora?" Ele perguntou, sua bochecha movendo com as palavras, em cima da minha cabeça.
"Eu quero..." Eu comecei.
Deixei as palavras penduradas, sem saber como terminar, inclinando minha cabeça para baixo para que a minha testa estivesse descansando em seu esterno, meus olhos fechados.
"O quê?" Ele perguntou, dando-me um aperto suave.
Eu senti a onda de culpa, a vergonha queimando em minhas bochechas ao pensar em Carlisle, ao pensar em Edward me confortando, antes que eu conseguisse sussurrar, "Eu não sei mais como falar com ele".
"Fale com ele como você fazia quando era jovem." Edward sugeriu, sua voz um pouco abafada, falando no meu cabelo. "Ele ainda é aquele homem".
Senti uma pontada súbita de dor em suas palavras, como a lâmina de uma faca descendo entre as minhas costelas, uma lágrima formigando de uma memória que empurrava o seu caminho para a minha consciência, espontaneamente e de forma insuportável.
A memória de uma menininha que amava ir até a delegacia com seu pai mais do que qualquer coisa. Mais do que a qualquer viagem de pesca, mais do que a qualquer loja de iscas.
Eu não tinha colocado em palavras no momento por que eu amava tanto ir trabalhar com o meu pai, mas eu sabia que agora era o quanto ele amava aquilo, o quanto eu o amava. Ele amava o que ele fazia e ele era o melhor no que fazia. Ele acreditava em seu trabalho, em como ele poderia fazer a diferença. Ele estava no comando de todos os outros homens, ele era o protetor, ele era tão forte, invencível.
Eu nunca me senti tão orgulhosa de ter o amor de alguém como eu sentia em ter o amor do Chefe de Polícia.
Quando ele me colocava na cama à noite, beijava-me na bochecha, dizia que me amava, eu dizia silenciosamente para mim mesma "meu" e isso me enchia de alegria.
Eu me afastei de Edward lentamente, balançando minha cabeça e afastando-me um passo, depois dois. Ele pareceu assustado, estendendo a mão para firmar-me por um momento, seus dedos do lado de fora do meu pulso antes de caírem de volta para o seu lado.
"Ele não é mais aquele homem. Isso foi roubado dele..." Eu lamentei, meus olhos encontrando os de Edward e vendo minha tristeza refletida em cada centímetro do seu rosto. "E se ele nunca amar nada do jeito que ele amava seu trabalho? E se ele nunca se sentir tão feliz novamente?"
"Perder o que você ama é difícil." Edward assentiu, engolindo o tremor em sua voz. "Ser incapaz de realizar a sua paixão pode ser... devastador. Totalmente".
"Talvez seja muito difícil." Eu respondi lentamente, rangendo meus dentes. "Eu não saberia o que dizer a ele".
Edward estendeu a mão para mim então, sua mão estendendo para roçar minha bochecha e viajar até o emaranhado no meu cabelo. O sorriso em seu rosto era dolorosamente triste e cheio de incentivo, força e fé.
"Você perdeu coisas também, Bella." Seus dedos torceram uma mecha do meu cabelo antes de a soltarem gentilmente, como uma carícia. "Você tem uma chance real aqui de ajudá-lo a passar por isso".
Eu assenti lentamente, hesitantemente, querendo que ele me tocasse novamente.
"E você tem um dom com as palavras".
~ O ~
Eu sempre pedia o mesmo sabor de sorvete.
Quando minha mãe costumava me trazer à sua sorveteria preferida no verão, nunca estava ensolarado lá fora. Não havia nenhum cone derretendo clichê, porque eu sempre pedia o meu sorvete em um copo. A proprietária, Janet, costumava me dar doces que eu esqueceria nos bolsos durante dias.
E eu sempre pedia rocky road*.
*Rocky road: sabor de sorvete de chocolate que contém marshmallows e amêndoas.
Minha mãe escolhia algo novo a cada vez. Ela se maravilhava com os sabores, lamentava-se sobre os que ela já havia provado, debatendo pelo que parecia horas na frente do balcão, incapaz de tomar uma decisão.
Eu podia me lembrar de vê-la e duvidar da minha própria certeza. Eu pedia o meu sorvete favorito e me perguntava o tempo todo se havia algo melhor, com muito medo de pedir algo novo.
Quando eu trouxe Edward à sorveteria, estava chovendo.
Nós rapidamente pegamos uma mesa, tentando não chacoalhar nossos casacos molhados no chão enquanto os tirávamos. Em seguida, ele pediu um sorvete de cheesecake de amora.
Eu pedi rocky road.
Nossa mesa era ao lado da janela e por um tempo eu observei as gotas de chuva deslizarem pelo vidro, a umidade me deixando com frio e o sorvete me deixando com mais frio ainda. Ele deslizou pela minha garganta de forma dolorosamente familiar e deliciosamente doce.
Eu deixei meus olhos caírem sobre Edward em minha frente.
Seu cabelo estava pingando e escuro, bochechas rosadas, lábios vermelhos. Cada cor contrastava fortemente contra a sua pele pálida, olhos de jade treinados em seu sorvete enquanto ele o colocava em sua boca. Ele estremeceu levemente e eu pensei que talvez ele estivesse com frio também.
Ele olhou para cima bruscamente para me pegar o olhando, oferecendo um pequeno sorriso que era gentil, mas curioso.
"Como está?" Ele me perguntou, apontando para o meu sorvete.
Após as primeiras mordidas, minha colher estava ociosa na sobremesa gelada.
"Bom." Eu respondi baixinho. Puxei uma colher e a estendi para ele.
Ele sorriu novamente e se inclinou para frente, aceitando a oferta.
Ele cantarolou sua aprovação.
"Quer experimentar o meu?"
Eu observei quando ele estendeu uma colher de sorvete, o sabor novo e incerto - talvez um que minha mãe tenha comido antes - e eu senti meu coração começar a bater forte no meu peito.
Edward me oferecer o sabor significava que eu não tinha sido nada como a minha mãe.
Um pouco de quem eu era quando eu era mais como ele.
Quando eu sabia o que eu queria e não podia me contentar com nada menos.
Não podia correr o risco e lutar por algo melhor.
"Por que eu?" Eu soltei de repente.
O braço de Edward congelou no ar, suas sobrancelhas franzindo enquanto ele repetia hesitantemente, "Por que você?"
A questão estava flutuando, esticando, ele não entendeu.
"Sim." Eu assenti. "Por que você me escolheu?"
Edward parou por um momento, seus olhos escuros e procurando os meus. "Você quer dizer...?"
"Quando nos conhecemos. Por que eu?" Eu esclareci. Em seguida, engoli em seco e continuei, "Por que você veio até mim? Por que você me chamou para sair naquele café? Por que você me viu naquele hospital? Por que... tudo isso? Eu poderia ter sido qualquer uma".
O braço de Edward caiu, ele colocou a colher em cima da mesa e ficou em silêncio por um longo tempo.
Eu contei cada segundo que ele não disse nada.
"Eu não..." Ele começou antes de parar.
Eu não sei.
Era assim que essa conversa normalmente acontecia.
Evasivo e impreciso e se esquivando e fugindo. Um encolher de ombros e uma recusa a se abrir. A considerar. A lembrar.
Acho que ele podia ver que não seria suficiente desta vez.
"Eu preciso saber, Edward." Eu tentei suavemente.
Ele assentiu antes de voltar calmamente, "Por que agora?"
Eu fiz uma pausa.
Por que não quando nos conhecemos?
Por que não antes de eu saber o quanto eu era importante para ele?
Por que não quando eu descobri?
Por que não antes de dormirmos juntos?
Antes de nos casarmos?
Antes de tudo ir para o inferno?
Eu sabia que a pergunta dele era tanto uma demanda quanto a minha.
Eu olhei para o seu rosto, muito quieto e olhos focados como pedras nos meus.
Inflexíveis e afiados.
"Agora é tudo que eu tenho." Eu disse finalmente.
Edward piscou e ficou em silêncio, estudando meu rosto.
Eu sabia que ele ainda estava tentando descobrir o ângulo, descobrir de onde a minha pergunta veio. Onde eu tinha ido de mostrar-lhe todos os lugares que eu me lembrava com carinho na minha cidade natal, a correr através da chuva e tomar sorvete diretamente para o meu medo.
Eu não sabia como dizer a ele que era esse lugar.
Só de estar aqui, eu podia sentir a nossa história chegando ao fim. Eu podia sentir a simetria e as segundas chances desaparecendo, e eu não tinha ideia de quanto tempo ele ficaria aqui, ou quanto tempo eu ficaria.
Era tão difícil pensar que tinha sido apenas uma semana desde que ele tinha me beijado na varanda da casa em Hartsel, o desejo feroz se defrontando com a sua negação.
Era algo com o qual nós dois precisávamos lidar, mas, mais uma vez, tínhamos sido forçados a deixar de lado.
Correndo para fora dos meus braços, correndo para eles, sem espaço entre isso para pensar.
Eu precisava desacelerar, lutar meu caminho através da tempestade.
Eu precisava de um começo.
Sua expressão - como se ele estivesse procurando por palavras no meu próprio rosto - fez meu estômago pesar como chumbo.
"Foi porque você... gostou da minha aparência?" Eu finalmente perguntei, o tremor na minha voz traindo um medo que eu sempre tive. A única razão pela qual ele tinha me beijado: luxúria e nada além disso.
Algo nos olhos de Edward mudou de repente, muito rápido para eu identificar, e ele soltou uma risada empolada com amargura.
"Depois de tudo, isso é o que você pensa de mim?" Ele perguntou, sua voz ausente de acusação ou raiva. Vazia, de alguma forma, através das sílabas que ele forçou a sair dos seus dentes ligeiramente cerrados.
"É só que... para você pareceu..." Eu lutei, recuando rapidamente ao seu sorriso triste.
"Instantâneo?" Ele terminou para mim, sua voz um desafio agora.
Eu o estava acusando de amor à primeira vista, ele queria saber. Algo que ambos sabíamos ser luxúria.
Futilidade?
Superficialidade?
Eu balancei minha cabeça rapidamente.
Não era isso, eu sabia.
"Você sempre pareceu tão certo." Eu expliquei, ainda implorando por uma explicação. Nunca compreendendo verdadeiramente a sua certeza, sua convicção. "Mas você nem me conhecia".
Eu queria que ele estivesse certo sobre mim e, além disso, eu queria saber o seu raciocínio. Eu sabia muito mais sobre mim mesma, sobre como ele se sentia sobre mim.
Mas eu ainda não sabia como isso tinha começado.
Aqui nesta cidade, no início de tudo, parecia inevitável que eu tivesse que perguntar.
Que ele deveria me dizer.
"Você era a mulher mais linda que eu já vi." Edward disse de repente, sua voz baixa. Meus olhos atiraram para os seus e eu não vi nenhuma desculpa neles. Ele continuou, "Eu conversei com você, no entanto, porque você parecia... diferente. Livre em uma maneira que eu nunca tinha sido".
A última frase foi dita cuidadosamente, saboreando a frase em sua língua.
"Livre..." Eu sussurrei a palavra sem perceber, incrédula.
"Você sente tudo tão intensamente, tão completamente." Ele elaborou, o olhar quente no meu rosto enquanto ele repetia quase exatamente as palavras de Esme. "Eu sempre pensei que era por que você era tão atraente para mim naquela época. Seus olhos, seu sorriso, toda a beleza parecia irradiar de dentro, da forma brusca que você sentia".
"Sua mãe disse a mesma coisa para mim antes de eu partir." Eu disse a ele.
Seu sorriso de resposta parecia dizer que ele não estava surpreso, que isso era óbvio.
Que todos no mundo, talvez, podiam me ver de uma forma que eu nunca me veria.
Porque se o que Edward e Esme tinham observado sobre mim fosse verdade, por que eles falavam como se isso fosse um ponto forte?
Como isso poderia me fazer ser bonita?
A emoção me fez fraca, me fez feia, me aleijou e me destruiu e a todos os que se importavam comigo.
Ela matou meu filho, desintegrou meu casamento. Ela me obrigou a partir da minha casa, derramou gim na minha garganta, me fez adormecer por todo o caminho. Tudo porque eu não podia lidar com a dor, não podia funcionar sob o peso da dor e da decepção e do amor.
Não era algo que sequer poderia fazer-me desejável.
Era a razão pela qual eu tinha que mudar.
"Eu só queria conhecer você." Edward continuou, puxando-me para fora da minha cabeça quando sua voz se tornou triste, um pouco mais baixa. "Levei muito tempo para descobrir que eu nunca conheceria. Não realmente. E, por esse ponto, não importava. A... a maneira como eu me sentia sobre você, não poderia ser interrompida. Mesmo que você nunca me deixasse entrar".
"Eu sou uma dançarina burlesca, certo?" Eu sorri para ele amargamente, usando sua própria metáfora.
Edward assentiu. "Você era".
Eu não tinha certeza se o seu uso do verbo no passado foi proposital ou não.
Eu esperava que fosse.
Algum dia, eu queria ficar nua diante dele. Eu queria seus olhos sobre cada centímetro de mim, até o meu núcleo. Eu quase podia imaginar a liberdade, a leveza. Eu quase podia sentir na minha pele.
"Eu quero que você me conheça." Eu disse depois de um momento, baixinho. "Eu quero conhecer a mim mesma".
Edward sorriu então, um sorriso pequeno e encorajador.
Ele pegou sua colher e deu outra mordida no seu sorvete.
"Então nós o faremos." Ele respondeu calmamente. "E eu gostaria de começar te dizendo uma coisa que eu sei sobre você, que eu acho que você não sabe".
"O quê?" Eu respirei, observando-o com cautela enquanto ele sorria.
"Você ainda é linda, Bella." Ele me disse, sua voz firme e deixando-me imóvel e prendendo minha respiração na frente dele.
Ele se inclinou para frente sinceramente, apaixonadamente.
"O mundo, as circunstâncias, não mudaram isso. Você aprendeu a controlar suas emoções, não pode ser descartada ou incapacitada por elas, mas você ainda sente tudo em seu interior. E você ainda é a mulher mais linda que eu já vi".
~ O ~
Edward e eu estivemos em Forks por cinco dias antes de eu levá-lo até a estrada de terra perto da reserva Quileute.
Nós tínhamos explorado a maior parte da cidade, visitado o meu pai todos os dias, dormido na mesma cama pequena todas as noites. Nós tínhamos falado do sério e do mundano. Nós tínhamos compartilhado silêncios ponderados e explosões de risos. Ele me dava toques gentis e olhares suaves, escovava contra a minha pele e me abraçava com força no escuro.
E não era o suficiente.
Tinha sido uma mudança tão sutil, uma mudança tão tranquila, que eu não tinha notado até que fosse tarde demais para voltar atrás. Eu não tinha notado até que não houvesse espaço para a culpa, ou a dúvida, ou a vergonha.
Eu não tinha me sentido assim nunca.
Nem quando era Jacob e eu e o amor era novo.
Nem quando era Jacob e eu e o amor era perfeito.
Nem quando era Jacob e eu e o amor estava traindo e sorrateiramente em quartos de hotel quentes que que contrastavam fortemente com o frio do inverno da cidade.
Não houve anos de apatia bocejando atrás de nós, jogando a felicidade e a paz em um foco ofuscante. Não houve nenhuma justaposição igual à contradição de como Edward me tratava antes e como ele olhava para mim agora.
Meu coração nunca doeu para estourar quando Jacob segurou minha mão, porque nunca tinha havido meses após meses de tortura de simplesmente desejar que ele o fizesse.
O que eu sentia agora, com Edward, não era nada parecido com o que eu tinha conhecido. Não era o amor jovem, não era esperançoso, ou ingênuo, mas era novo e parecia tão inocente. Tudo o que tínhamos passado apenas o ampliava. Toda vez que nossos olhos se encontravam, cada vez que nossas mãos roçavam, eu podia sentir o peso disso batendo através de todos os centímetros do meu corpo.
O impossível - o nunca que nós dois sussurramos para nós mesmos uma e outra vez na noite - parecia tão perto que eu poderia sentir o gosto. Queimava através de mim sempre que seus lábios tocavam minha bochecha, meu templo, meu ombro.
Eu podia sentir minha esperança apertando a buzina a cada momento com a minha dúvida.
Porque tudo era encorajador e platônico, uma distância cuidadosa daquela noite no Colorado, com uma tensão sufocante que era quase insuportável. Ele era solidário, tão gentil, tão fascinado com o lugar onde eu cresci. Ele fazia perguntas, bebia cada resposta como um homem morrendo de sede, e lentamente minhas respostas deixaram de ser tão afetadas, tão dolorosas para extrair, porque eu queria que ele soubesse tudo.
Nós saímos para jantar, andamos em florestas e prados, eu mostrei a ele as árvores que eu costumava subir e as rochas na praia que tinham sido meus fortes favoritos para observar a água, enquanto eu ficava sentada querendo saber o que havia além.
Redescobrir esses lugares, sentir o sal no ar mais uma vez, era viciante e maravilhoso.
Ficou mais nítido, mais claro, pela presença constante de Edward ao meu lado.
Eu gostaria de poder suspender o tempo e ficar neste lugar para sempre.
Mas à noite, em nosso quarto na cidade, enquanto estávamos jantando, Jacob tinha ligado para a casa.
Assim, no dia seguinte, eu trouxe Edward para a estrada de terra na periferia da cidade, onde eu tinha aprendido a andar de bicicleta ao lado do meu melhor amigo.
Este lugar de jovem inocência que se tornaria a minha ruína.
Eu tinha estacionado a caminhonete na grama, e nós a abandonamos para caminhar lentamente na areia embalada de pedras. Eu escutei o ranger debaixo dos nossos pés. Houve uma pausa na chuva, as nuvens segurando firme e o clima seco. A terra que atravessávamos estava apenas úmida.
Senti que eu deveria ser a primeira a falar.
Eu sentia como se eu falasse, se eu pudesse apenas segurá-lo em silêncio por um momento, eu poderia dizer qualquer coisa a ele. Ou tudo. Eu poderia dizer-lhe tudo o que eu sentia e muito mais. Meu jeito com as palavras, ele tinha dito.
Em vez disso, nós caminhamos lado a lado até que sua voz foi a primeira a quebrar a quietude.
"Como Charlie estava hoje?" Ele me perguntou, olhando para frente. Eu podia ouvir os pensamentos na sua pergunta, eu poderia ver isso em seu rosto. Suas palavras eram leves e polidas.
Eu me agarrei a elas, como um bêbado cambaleante perdendo o equilíbrio.
Deixei meus pensamentos agradecidos voltarem para o meu pai, com um suspiro de alívio, e encontrei-me sorrindo.
"Bom." Eu respondi baixinho.
"Eles disseram quando ele pode voltar para casa?"
Minha boca torceu em sua pergunta, a batalha agora familiar de alívio e apreensão em fúria dentro de mim.
"Em breve".
Eu queria dizer mais.
Eu queria dizer a ele sobre tudo o que os médicos haviam dito da sua melhoria e como meu pai flertava com as enfermeiras e como ontem ele chorou nos meus braços porque ele estava muito feliz que eu tinha vindo.
Minhas palavras ficaram presas, no entanto.
Como elas sempre pareciam ficar perto dele agora.
Afetada e monossilábica, incapaz de meditar sobre qualquer coisa, exceto dizer a ele sobre a forma egoísta que eu o queria; sobre o quanto eu queria consertar tudo o que havia de errado para que eu pudesse dizer a ele.
Eu me encontrei falando muito, de repente, palavras que eu não queria dizer.
"Eu sinto muito por não estar lá para você - realmente lá para você - quando Carlisle morreu".
Meus olhos estavam em seu rosto quando eu disse isso.
Eu observei quando ele aceitou o pedido de desculpas como um golpe.
Seus olhos arregalaram com o choque, em seguida com a dor, enquanto desciam para mim bruscamente. Houve uma falha em seu passo, um vacilar que me fez pensar que ele pararia por um momento. Mas ele continuou andando, mais lento agora, pausado, e eu mantive o ritmo quando ele desviou seus olhos. Escondendo sua emoção de mim e olhando para frente para as árvores.
"Eu sei." Ele respirou. Então sua boca apertou quando ele acrescentou, "Eu não queria que você estivesse lá para mim".
Eu engoli em seco. "É por isso que eu sinto muito".
Houve uma longa pausa.
Então, ele parou, embora ele ainda não estivesse olhando para mim.
"Eu perdoo você." Ele sussurrou, muito baixinho.
Eu mordi meu lábio, preocupando-me nervosamente. "Por que você me levou ao funeral dele?"
Senti um pouco de dificuldade em respirar. O ar estava muito grosso, muito pesado.
Implorando para chover.
"É complicado".
"Por que me levar para Hartsel?" Eu sussurrei em seguida, minha voz tão urgente através do silêncio. Quando ele não respondeu, não parecia que ele responderia, eu implorei. "Edward?"
Eu vi quando ele abriu sua boca para falar, antes de fechá-la rapidamente. Suas sobrancelhas estavam franzidas e parecia que ele estava sofrendo de alguma agonia privada quando balançou a cabeça.
"Você algum dia me contará?"
Ele sorriu suavemente em seguida, e sem humor. "Assim que eu souber, você saberá." Ele respondeu, encolhendo seus ombros largos. Ele pronunciou as palavras com uma finalidade, fim da discussão.
Ele andou para frente e eu segui alguns passos atrás.
Eu não esperava que ele falasse novamente.
Mas, claro, alguns minutos depois, de frente para mim, veio a pergunta inevitável.
"Então, o que aconteceu aqui?"
Eu não podia ver seu rosto, mas eu sabia que ele estava olhando em volta para a estrada deserta, à procura de alguma pista, alguma dica de beleza escondida. Eu praticamente podia ouvir a curiosidade em seu rosto. O deslocamento forçado no comportamento. Sombrio para curioso. Defensivo para alegre.
Nós éramos mestres nisso.
"Jacob." Eu disse o nome simplesmente, como uma explicação, como chumbo se instalando em meu intestino.
Ele não perdeu um passo desta vez.
Eu elaborei, "Este é o lugar onde eu aprendi a andar de bicicleta".
Eu esperei, observando-o com cuidado, mas nem um centímetro dele tencionou. Senti todo o meu corpo involuntariamente ficar em suspense, eriçado de medo, e ele apenas continuou caminhando para frente, com passos lânguidos. Movendo-se suavemente, graciosamente, e ouvindo em silêncio.
"Eu o vi no hospital... na primeira manhã em que fui ver o meu pai. E então ontem à noite ao telefone..." Minha voz tremeu levemente, e eu desejei que ele se virasse e olhasse para mim. "Ele quer falar comigo." Eu acrescentei, impotente.
Houve apenas uma batida antes que eu ouvisse um arquejo suave, sem compromisso, "Oh".
Eu parei onde estava, sem saber se ele notaria ou se continuaria caminhando.
"Eu não quero falar com ele." Eu disse, desejando que minha voz soasse mais firme. "Eu acho que... eu acho que eu poderia ter que falar. Mas eu simplesmente não..." Eu parei.
Edward deve ter ouvido a distância que ele estava colocando entre nós, porque ele parou de andar e se virou para mim. Quando vi a expressão no rosto dele - tão gentil e preocupada - eu tive que baixar meus olhos para o chão.
"Ei..." Sua voz era gentil quando eu o ouvi caminhar para mim. Uma mão estendeu para apertar meu ombro em encorajamento.
"Eu tenho medo dele, Edward." Eu admiti, envergonhada.
Senti uma mão quente tocar meu queixo, incitando minha cabeça lentamente a encontrar seus olhos. Eu queria me afastar, me virar, mas, em seguida, seu polegar - muito lentamente - acariciou todo o canto da minha mandíbula.
"Você não deveria ter." Ele me disse, sua voz insistente e honesta. "Ele não pode fazer nada para nós que não fizemos um ao outro uma centena de vezes".
Suas palavras foram como um soco inesperado no estômago e eu recuei para longe dele reflexivamente.
Eu sabia que era verdade.
Minha mente imediatamente virou-se para os gritos e o silêncio, a fome e a morte e o sangue.
Aos papéis do divórcio que nos dividiriam ao meio.
Meus olhos encontraram os dele e eu sabia que ele tinha a intenção que suas palavras fossem um incentivo, que ele estava confuso com a minha reação. Ele não conseguia entender por que ou como ele havia me machucado, simplesmente falando a verdade. A verdade que nós dois sabíamos, que ambos tínhamos tentado desesperadamente compensar. Que dor estava lá para esconder? Que negação foi deixada para chorar?
Como ele poderia saber o que eu sentia quando eu olhava para ele agora?
Ele achava que não havia mais nada a temer, que o pior já tinha passado e o caminho era uma linha reta em frente. Mas o caminho nunca tinha sido uma linha reta para mim e eu sabia agora que não havia mais uma coisa para se ter medo: talvez isso não importasse mais para Edward - talvez não o afetasse de uma forma ou de outra, e era por isso que ele não tinha medo - mas se eu ainda amasse Jacob, isso me destruiria, de corpo e alma.
Confessar a dor é simples.
Confessar a felicidade? Confessar a esperança, ou a necessidade, ou o amor?
Não há nada mais perigoso no mundo.
~ O ~
Era um dia ensolarado em Forks.
As nuvens carregadas rolando no alto, sempre presentes, estavam presas na baía por um determinado sol brilhante e inesperado. Iluminava as árvores e a grama molhada, cada superfície verde cintilante e brilhantemente incrédula. Esmeralda derramava sobre as superfícies molhadas, provocando calor e ânimo e sendo sentida por todas as pessoas na cidade.
Quando eu era jovem, minha mãe tinha me levado a Phoenix para visitar seus pais. Lembrei-me de como era no deserto: quente e nu e tão brilhante que tudo parecia ser matizado de um fraco e estranho azul.
Quando eu tinha voltado para Forks, eu sonhei durante semanas através de um filtro da mesma cor.
Eu pensei naquele lugar agora, enquanto eu dirigia pelas ruas lentas. Não era um dia cheio com o mesmo calor seco insuportável e paisagem esquelética, mas era definitivamente um brilho que cegava.
Tirei meus olhos da estrada por um momento para olhar para Edward ao meu lado.
Ele estava sentado em silêncio no banco do passageiro da caminhonete, pernas longas chutadas para a frente enquanto ele se inclinava para trás confortavelmente. Seu olhar estava fixo fora da janela e eu podia imaginar tudo o que seus olhos estavam vendo.
Eu ainda conhecia as ruas de cor.
Perguntei-me se ele estava contemplando a raridade do tempo, ou se o seu foco estava na cidade, em seus monumentos e pessoas e história. Talvez ele estivesse olhando para a cidade através dos meus olhos, perguntando-se sobre a infância que ele nunca tinha sido convidado a conhecer antes.
Através de um filtro azul como o deserto.
Eu queria falar com ele - quebrar o silêncio e simplesmente perguntar o que ele estava pensando, para o que ele estava olhando - mas o ar na caminhonete era sufocante.
Eu estava tão perto dele, e não perto o suficiente.
Concentrei-me para onde eu estava indo, em vez disso, na escola pública perto do centro da cidade. Eu estive relutante em sugerir o lugar, mas o sorriso malicioso no rosto de Edward quando eu sugeri foi suficiente para mudar a minha opinião sobre o assunto. Nada demorava tão pouco para iluminar seus olhos assim. Diversão e curiosidade... tudo.
Fiz voltas que eram automáticas e impressas, meus olhos caindo sobre as casas familiares, árvores que eu sempre soube que permaneceriam, lugares que pareciam diferentes através de novos olhos e com o sol batendo.
Então eu vi uma que me fez parar com o seu poder, fez-me puxar a caminhonete lentamente para o lado da estrada como se eu estivesse sendo forçada contra a minha própria vontade.
A biblioteca pública aninhada confortavelmente perto da escola.
Perto o suficiente para andar sempre que eu precisasse ir, estar lá, estar na companhia de amigos verdadeiros e duradouros.
Era o lugar onde eu tinha aprendido a ler. Onde eu tinha passado dias depois da escola, quando eu podia ignorar os apelos de Jacob por atenção da mesma forma que minha mãe podia ignorar os meus. Fantasia e ficção científica, literatura clássica e um leve livro adulto. Tudo o que eu conseguisse segurar em minhas mãos. E me esticando acima deles, estavam os poetas que eu tinha aprendido a adorar.
Era o lugar onde eu me apaixonei pela palavra escrita, perdida entre as estantes e prateleiras e vagando em lugares que não poderiam me machucar.
Onde o amor sempre era correspondido e finais felizes eram pré-determinados e corrigidos.
Onde a tragédia terminava na página final.
"Você quer entrar?"
Eu pulei com a voz de Edward, sua pergunta, apesar de ter sido baixa e hesitante.
Eu me virei para vê-lo me observando, seus olhos passando rapidamente para o prédio de tijolo algumas vezes e rapidamente. Seu rosto não tinha nada além de apoio e incentivo, mas havia algo indefinível em suas características que me fez inclinar-me para longe dele ligeiramente. Pressionando minhas costas no banco, meu braço na porta.
Eu não conseguia entender o que era, eu não estava convencida de que eu não estava imaginando.
"Não." Eu disse finalmente, minha voz firme e clara, definitiva.
"Por que não?"
Eu dei de ombros e olhei para longe dele, em direção às portas familiares.
Eu tinha passado por elas um milhão de vezes.
"Eu não pertenço mais a esse lugar".
Edward ficou em silêncio por um momento antes de me perguntar, "Por que você diz isso?"
Havia algo exigente sobre a maneira como ele perguntou, algo grave.
Isso fez a minha mandíbula apertar e clicar.
"Eu não sou mais aquela garota. Eu não quero ser. Eu trabalhei tão duro para não ser." Eu respondi, minha voz aguda. "E essa biblioteca pertencia a ela".
"Bella..." Eu o senti se movendo em direção a mim em seu assento.
"Não. Por favor." Eu não tinha certeza do que eu estava dizendo a ele para não fazer, ou pelo que eu estava pedindo. Eu só sabia que eu não poderia lidar com qualquer coisa que ele estivesse prestes a dizer. Meus olhos atiraram para o seu rosto, congelando-o em seu assento. Ele não se inclinou para me tocar. "Aquela garota era ingênua. Ela estava com medo e com raiva..."
"Eu casei com ela." Ele interrompeu, sua voz suave com um toque nu de indignação. "Eu a amava".
O passado me fez estremecer, mas era tudo que eu podia ouvir.
"Mas você não ama mais." Eu disse simplesmente, ignorando o baque duro do meu coração por uma única batida.
Eu não percebi que tinha soado como um desafio até que seus olhos atiraram para os meus.
Eu não percebi que tinha significado como um desafio até que senti o naufrágio na boca do meu estômago da sua expressão em branco.
Eu olhei de volta para ele, tentando ver alguma dica. Procurando desesperadamente por alguma pista, algum dizer, através do vazio. Esperando por uma única indicação de que sua expressão era forçada, na defensiva.
Tudo o que eu podia ver era Edward olhando de volta para mim, não refletindo nada, e a clareza em branco de alguém cuja confiança tinha sido absolutamente quebrada.
Eu senti o peso da desesperança nesse momento, quando eu entendi uma coisa muito de repente.
Talvez ele ainda me amasse, talvez ele não amasse, mas ele nunca diria isso de novo.
Ele nunca admitiria isso.
Porque quando se tratava de me amar, eu sempre joguei isso de volta em sua cara. Eu estava fazendo isso agora. Eu tinha deixado muito claro que as regras da decência, da humanidade, não se aplicavam a nós. E se não havia regras, não havia nenhuma razão para ele sequer confiar em mim.
Eu podia nos ver aqui para sempre.
Um de nós sempre forçando, um de nós sempre resistindo.
Mãos presas no cabelo um do outro.
Você solta primeiro.
Eu me virei, sufocando em seu silêncio.
Meus olhos focaram no asfalto da estrada diante de nós. Não no prédio que tinha me trazido aqui, não em seu rosto, que era insuportável naquele momento.
"Eu sinto muito, Edward." Eu disse depois de um longo tempo. "Eu não deveria ter..."
Minha voz morreu na minha garganta, engolindo um nó que tornou impossível falar aquelas palavras, terminar essa frase, ou até mesmo o pensamento.
Então eu permaneci imóvel, tão silenciosa quanto ele, olhando para a frente, rosto corado, com os meus dentes pressionando forte em meu lábio.
Nós ficamos sentados por um longo tempo naquela caminhonete, na frente da biblioteca.
Tanto tempo que as nuvens começaram a rolar sobre o sol, cobrindo a cidade na luz cinza escura que significava que tudo voltou ao normal.
As coisas eram como deveriam ser.
Eu odiava isso.
As coisas não deveriam ser assim.
Eu queria pegar Edward pela mão e levá-lo para essa biblioteca diante de mim, talvez provar a ele que eu ainda poderia ser a garota que ele tinha amado. Mais provas concretas, a forma como nós tínhamos pintado aquela maldita casa. A forma como eu tinha tentado esconder a minha queda, a forma como eu tinha conseguido um trabalho, a forma como eu o tinha beijado em seu escritório quando foi ideia minha, e na varanda, quando foi dele.
Em algum lugar dentro de mim, porém, eu sabia que era inútil.
O momento tinha passado e eu não poderia tomar de volta, arrebatando minhas palavras e o ar e a forma como ele sorriu para mim esta manhã.
Ele estava se fechando bem na minha frente.
Olhei para o tempo, impotente, vendo que era quase meio-dia.
Eu ainda não tinha visto meu pai hoje, e a perspectiva me aqueceu ligeiramente contra o frio tremendo da minha revelação.
Meu pai ainda me amava, contra toda a lógica e razão, e talvez ele soubesse o que fazer, o que dizer.
Pelo menos vê-lo me daria a chance de estar longe de Edward, esquecer por um tempo, recuperar minha força.
"Vamos voltar." Eu disse calmamente, ignorando a outra forma que essas palavras poderiam ser tomadas.
Nós nunca poderíamos voltar.
Eu observei minhas mãos segurando o volante, os nós dos dedos lentamente ficando brancos de apertar. Não fiz nenhum movimento para colocar o carro em marcha.
Eu precisava ficar longe dele quase tanto quanto eu precisava mantê-lo aqui, comigo, por tanto tempo quanto eu podia.
Seu movimento foi tanto lento quando súbito ao mesmo tempo. Houve a sua mão, sem aviso prévio, fechando sobre a minha em um instante, dedos pressionando meus dedos, apertando firme ao volante.
Eu virei minha cabeça lentamente para ele, mas seus olhos estavam focados na minha mão.
No aperto firme que nos mantinha aqui.
Lentamente, com muito cuidado, eu o senti erguer meus dedos um por um, esticando-os até que eles estavam em repouso e flácidos na palma da sua mão. Eu podia sentir os novos calos na sua mão do verão, ásperos sob a minha pele, como amigos agora.
A palma da minha mão estava grossa para combinar.
Então, minha respiração estremeceu em meus pulmões em um suspiro vibrante quando ele levantou minha mão para o seu rosto rapidamente e pressionou seus lábios nos meus dedos.
Só então ele olhou para mim, com um pequeno sorriso tranquilo.
Ele soltou minha mão e eu coloquei a caminhonete em marcha silenciosamente.
Ele me observou por todo o caminho de volta para casa, seus olhos ardendo contra a minha pele, tão calmos, mas enviando meu coração em um ritmo rápido e frenético.
Quando entrei na garagem e tirei a chave da ignição, eu me permiti olhar para ele.
Ele olhou para mim sem dizer uma palavra.
Então eu vi seus olhos piscarem para algum movimento do lado de fora, por cima do meu ombro.
Ele se transformou em gelo diante dos meus olhos.
Sua boca estava apertada, seus olhos endureceram como pedra. A cor sumiu das suas bochechas e, tão de repente quanto seu foco tinha mudado, ele estava de volta em mim com uma intensidade urgente. Havia um medo em seus olhos, uma preocupação que eu não conseguia entender, e eu não sei se era por mim ou por si mesmo.
Com as sobrancelhas franzidas, forcei meus olhos para longe da sua expressão e me virei para olhar por cima do meu ombro para a varanda do lado de fora, exatamente quando eu o ouvi respirar meu nome.
Eu a vi em seguida.
Sem dizer nada, eu abri a porta da caminhonete e parei na garagem, possessa, como se o vidro que nos separava pudesse ter criado uma espécie de miragem.
Talvez ela não fosse real.
Mas a expressão que eu tinha visto no rosto de Edward, a maneira desesperada que ele tinha dito o meu nome, me disse que ela era.
Nessie Black estava em pé na minha varanda.
Eu senti o metal e o vidro da caminhonete contra as minhas costas, as palmas das minhas mãos pressionadas planas e duramente.
Eu ouvi a outra porta abrir e bater fechada quando Edward emergiu.
Eu ouvi seus passos rápidos se deslocarem em minha direção, ou em direção a ela.
E então houve um trovão e os céus se abriram sobre todos nós.
Nota da Irene: Ahhh que felicidade estar postando esse capítulo. =D
Essa narrativa me deixa loucaaaaa. Mas de todos, esse é meu capítulo preferido. Nele nós vemos muitoooo mais esperança. Assim que ela postar o próximo aviso aqui.
Ps.: Gente, essa semana a Ju ficou com o vê dela que está doente, por isso só teremos PcA e PcE semana que vem. Daqui a pouco posto Now and Then.
Obrigado pelo carinho, povo!
