As olheiras contrastam com a pele branca. Um cigarro aceso num cinzeiro cheio de cigarros já apagados. Fumaça no ar. Funciona assim. Trabalha melhor desse jeito. As costas doem, passou horas na mesma posição, sem a certeza se buscava inspiração ou se buscava conforto naquela tela. Mas ele não dá a mínima, no fim das contas. Queria fazer algo entre o abstrato e o surreal, mas só conseguiu uma bagunça em preto e branco. Reflexo? Cuspindo no branco ansiedade em preto?
Não dá a mínima, não dá a mínima.
Tanto que só lembra que deixou a porta aberta quando ouve alguém entrando. Conhece o barulho dos passos. É ela. Sabe que vai passar pela porta do ateliê, encarando-o quase assustada - até porque já está mais do que acostumada com situações como aquela -, indiferente à nudez e ao corpo sujo de nanquim. Uma bagunça nas paredes que ela já decorou. Vai entrar, e vai comentar sobre mais algum detalhe que ele esqueceu sobre a noite que se finda, dando lugar à cacofonia matinal.
Não demora.
Ela entra. Ele não olha.
-Sai, tem um cara pelado na sua cama...
Sem bondias, só uma frase pra lembrar o detalhe sobre a noite que esquecera.
-Oh, verdade.
-Vim pra saber porque não dá as caras no campus há mais de uma semana...
-Uma semana? Nossa...
Ela se aproxima, encarando a tela. Deve estar maravilhada, mas ela ainda não virou o rosto para encará-la.
Ino não se importa com as faltas depois de ver o resultado da ausência.
segundo capêtulo para vocês
cherosas, não deixem review, deixem o número do telefone, para batermos aquele papo
