N.a: Trecho em itálico = flashback.

II

— Está atrasado!

Jellal girou os olhos enquanto ocupava o lugar vago à frente de Ultear.

— Cinco minutos? — ele disse ironicamente.

— Poderia ser um segundo — Ultear retrucou irritada. Jellal desistiu de tentar entender aquela fixação de Ultear com horários.

— Erza viajou. Eu acordei de madrugada para me despedir dela e acabei perdendo a hora para levantar — Jellal explicou enquanto fazia um sinal para o garçom. — Não sei porque inventam de marcar esses vôos de madrugada — reclamou.

— Ela viajou de novo? — Ultear ergueu a sobrancelha antes de voltar a atenção para o cardápio. — Você não acha essas viagens da sua esposa muito estranhas não?

— O que você está querendo insinuar? — Jellal perguntou tentando não aparentar irritação, apesar de ser o que sentia. Não era a primeira vez que Ultear tentava jogar alguma indireta sobre Erza. — Pensando bem, esquece. Eu não quero saber.

— Bem, ela diz trabalhar em uma empresa de publicidade, mas ela já mostrou alguma publicidade que tenha produzido ou você já foi com ela em alguma festa em que premiam esse tipo de coisa? Além disso, que tantos cursos são esses que ela vai ministrar? — Ultear disse em um tom de quem não quer nada, mas Jellal sabia bem que ela queria envenená-lo, mas ele não ia permitir que ela colocasse qualquer tipo de dúvida na sua mente.

— Nós estamos aqui unicamente para discutir assuntos profissionais então pare de falar besteiras — ele disse em um tom seco e definitivo.

Ultear balançou os ombros e como ele pediu mudou o assunto da conversa para a venda dos designs das joias que ele havia criado. Jellal ouvia com meia atenção, pois sua mente estava oscilando entre prestar atenção na conversa da empresária e lembrar de momentos do seu passado com Erza.

— Ela devolveu os chocolates de novo — Jellal dizia em um tom meio desesperado para Natsu. — Não sei mais o que fazer. A Lucy não tinha dito que a Erza é louca por doces?

— Só te falei o que ela disse. Não conheço a Erza muito bem — Natsu balançou levemente os ombros e abriu a caixa de bombos que Erza havia devolvido. — Mas se ela não quer chocolates, eu quero.

Jellal deu um tapa na cabeça de Natsu, mas nem assim o rapaz parou de pegar os bombons.

— Eu realmente não sei o que fiz para ela fuja de mim desse jeito — Jellal disse desanimado. — Ok, eu omiti sobre ser o criador das joias da exposição, mas isso não foi tão grave assim.

— Ah, não é por isso que ela tem raiva de você — Natsu disse com a boca cheia de chocolate. — Como foi mesmo que ela falou pra Lucy? — ele colocou a mão no queixo e pensou um pouco. — Ah sim! "Que você é um galinha, cachorro, sem vergonha e que não merecia uma chance". Palavras da Erza.

— Que? E porque ela pensa isso? — Jellal perguntou com os olhos arregalados.

— Sei não. Só ouvi essa parte da conversa. O jogo estava mais interessante do que a conversa delas — Natsu balançou os ombros e Jellal deu um tapa mais forte na cabeça de Natsu.

— Eu realmente não sei o que a Lucy viu em você — Jellal resmungou. — Comilão e inútil!

— Hey! — Natsu exclamou ofendido. — Não sou inútil. Te fiz ficar rico, seu idiota! Se não fosse por mim você ainda estaria enfurnado naquele escritório de advocacia mofando! E nem teria conhecido a Erza! — o rapaz dizia em um tom inflamado, mas Jellal já havia levantado e estava indo em direção da saída. — Onde você vai?

— Perguntar pra Erza o motivo para ela não aceitar sair comigo! — Jellal disse decidido.

— Você vai é ser chutado de novo, isso sim! — Jellal ouviu Natsu gritar de dentro do apartamento, mas preferiu ignorá-lo. Foi até o apartamento de Erza e tocou a campainha, mas ninguém atendeu. Ele conferiu o relógio e percebeu que ela ainda não deveria ter voltado do trabalho.

Decidido que só iria embora de lá quando tivesse uma resposta satisfatória, sentou ao lado da porta e encostou as costas na parede. Ok, estava parecendo um pouco um stalker, porém simplesmente não conseguia tirar Erza da cabeça. Nunca uma mulher tinha o impressionado tanto e ele precisava estar perto dela para tentar descobrir que raios de sentimento era aquele que parecia sufocá-lo, mas que apesar de praticamente o deixar incapaz de respirar só por pensar nela, era tão bom que ele não queria esquecer ou desistir.

"Além de stalker, me tornei um piegas", suspirou enquanto encostava a cabeça na parede e encarava o teto.

— O que você está fazendo aqui? — Jellal estremeceu de susto ao ouvir a voz irritada de Erza perguntar. Ele estava com o pensamento tão longe que não havia percebido a aproximação dela.

— Eu vim para conversar com você — ele respondeu enquanto levantava. Erza estreitou os olhos e se ele tivesse um pouquinho de juízo ficaria com medo daquele olhar. Mas ele já estava lá e não ia desistir agora.

Erza cruzou os braços e ergueu a sobrancelha.

— Vamos, estou esperando — ela disse aborrecida.

Jellal suspirou.

— Você não vai me convidar para entrar?

— Não mesmo.

— Por favor, Erza, seja um pouco razoável…

Erza bufou, descruzou os braços e acabou abrindo a porta.

— Pronto. Agora o que você… — ela começou a falar, mas foi "atacada" de surpresa.

Jellal sabia que estava brincando com fogo e que corria o sério risco de ser chutado (ou coisa pior), mas ele não hesitou: assim que entraram no apartamento ele puxou a ruiva pela cintura e roçou os lábios nos dela. Se ele estava sendo injustamente de ser um "sem vergonha" então ia agir como um e fazer o que queria ter feito desde que colocou os olhos nela naquela festa.

Sua intenção era apenas dar um beijo curto e pedir para que ela lhe desse uma chance porque ele não era nada daquilo do que ela pensava, mas talvez beijá-la de uma forma tão impulsiva tenha sido um erro. Corrigindo, um erro GIGANTE, pois no instante seus lábios tocaram os dela, foi como se o mundo inteiro tivesse se tornado um caleidoscópio.

"Definitivamente você está perdido, Jellal Fernandes", ele pensou enquanto passava a língua pelos lábios cerrados dela e, para sua surpresa, não houve resistência.

Uma das mãos dela foi parar na nuca dele enquanto a outra segurava a camisa dele com força. Parecia que ela estava em uma luta interna entre trazê-lo mais para perto ou empurrá-lo para longe.

Ainda com a boca sobre a dela, ele a prensou contra a porta e tocou sua língua contra a dela, gemeu e apertou ainda mais os braços em volta da cintura dela.

Mas não o era o suficiente. Ele precisava de mais.

O problema foi antes que ele pudesse fazer algo mais ela se deu conta do que estava acontecendo e sem dó nem piedade alguma, ergueu a perna e o acertou em cheio em um local bastante dolorido.

Jellal recuou gemendo de dor e sabia, pela expressão no rosto dela, que agora ele teria uma morte lenta e dolorosa.

— Jellal, você está me ouvindo? — Ultear perguntou aborrecida fazendo com que ele acordasse de seu devaneio. Geralmente quando ele e Erza lembravam juntos como havia sido o primeiro beijo dos dois, ela caia na gargalhada dizendo que ele fez por merecer a joelhada e ele dizia que realmente não sabia como se apaixonou por uma pessoa tão "impiedosa", mas isso só a fazia rir mais.

— Se eu não tiver filhos, a culpa vai ser sua! — ele costumava acusar e Erza dizia que ele era um exagerado porque ela nem acertou com tanta força assim.

— Estou ouvindo… — ele se apressou em dizer. — Quer dizer, não. Me distrai por um momento.

— Pois então escute que o que eu estou falando é sério! — Ultear disse aborrecida e Jellal tentou se esforçar para não voltar a ficar perdido nas lembranças sobre a esposa. Mas era difícil. Não fazia nem um dia que ela havia ido e ele já estava morrendo de saudades.

"Acho que ela é uma bruxa, isso sim", Jellal pensou com um sorriso bobo. "Jogou um feitiço para que eu me tornasse um idiota apaixonado".

— Jellal! — Ultear exclamou irada ao perceber que ele não estava a ouvindo de novo.

[…]

Laxus estava exausto. Ele não via a hora que seu avô tivesse alta do hospital e voltasse para pôr ordem na Fairy Tail. Não era nem um pouco fácil administrar tudo aquilo. Era problema atrás de problema.

— Não é a toa que o velho teve um piripaque — Laxus resmungou enquanto dava o visto em um relatório. Makarov dizia estar 100%, mas os médicos não o liberaram afinal ele havia tido um infarto e por muito pouco não morreu. Não iam liberá-lo até ter total certeza de que ele não faria nada que pudesse colocar toda a recuperação pelo ralo.

Fazia mais de quinze dias que Erza e Gray tinham saído em missão e não deram um sinal de vida. Eles nunca haviam passado tanto tempo se comunicar com a base antes. Eles costumavam ligar mesmo que fosse apenas para dizer um: "Oi. Estamos investigando".

— Preciso de uma bebida… — Laxus fechou a pasta e decidiu que terminaria de ler os relatórios faltantes no dia seguinte. Ele já estava abrindo a porta do escritório quando o telefone começou a tocar. — Merda… Se for algum problema eu juro que vou jogar essa bosta pela janela!

Atendeu e ficou estático enquanto ouvia a outra do outro lado da linha falar. E tal como o prometido, Laxus atirou o telefone pela janela quando a ligação foi encerrada.

— O que foi isso, Laxus? — Freed, que trabalhava como secretário pessoal de Laxus quando ele estava dirigindo a Fairy Tail, perguntou, assustado, pelo barulho. — O que você jogou pela janela?

— Se você não calar a boca, eu vou jogar você também! — Laxus exclamou furioso. Freed deu um passo para trás não muito disposto a enfrentar a ira do chefe.

Laxus deu um soco na parede e fez com que Freed desse outro passo, mas dessa vez para frente, preocupado com a mão do loiro.

— Laxus… — Freed começou a falar, mas foi interrompido.

— Era uma armadilha.

— O quê?

— Era Gray no telefone. A missão era uma armadilha. Eles queriam pegá-los. Gray disse que conseguiu fugir, mas está muito ferido.

— E Erza?

— Gray não sabe. Eles a pegaram.