III

O mundo parecia girando mais rápido que o normal. Erza tentou abrir os olhos, mas aquele simples movimento parecia ser impossível. Ela gemeu e encolheu as pernas, ficando em posição fetal.

— Oi… ela sentiu a mão de alguém em seu ombro. — Você tá bem?

Era meio óbvio que não, ela não estava nada bem.

— Onde…? — ela tentou perguntar, mas teve um acesso de tosse assim que pronunciou a primeira palavra.

— Aqui. Toma um pouco de água — a pessoa ao seu lado disse. Com muito esforço, Erza conseguiu sentar e com as mãos trêmulas começou a sorver grandes goles da água que era oferecida.

— Obrigada — ela disse enquanto abria os olhos. Ela viu que era uma menina que estava a ajudando. Lentamente os olhos de Erza deslizaram pelo local em que elas estavam: uma cela. Aos poucos, as lembranças do que havia acontecido retornaram e ela se perguntou porquê estava viva e sem nenhum ferimento.

— Eles te jogaram aqui desacordada. Você dormiu por quatro dias — a menina informou. — Meu nome é Wendy.

— Como você veio parar aqui, Wendy? — Erza perguntou enquanto sua mente já trabalhava mil por hora na tentativa de formular um plano de fuga.

— Eu não sei — a menina encolheu os ombros. — Sempre estive aqui. Desde que me entendo por gente.

— E o que é aqui exatamente?

— Não sei… — os ombros de Wendy se encolheram ainda mais. — Eles mantêm várias pessoas trancadas no prédio. Algumas saem e voltam depois. Outras, como eu, só ficam aqui o tempo inteiro. Não tenho muito contato com os outros. Às vezes jogam alguém novo aqui na minha cela, como aconteceu com você. Mas logo levam embora.

Definitivamente nada fazia sentido no que aquela menina estava falando.

— Eu ouvi os guardas dizendo que te deram alguma coisa pra dormir e que você não ia acordar tão cedo — Wendy informou.

Erza encostou a cabeça na parede e encarou o teto. Nada daquilo fazia sentido.

— Ah, vejam quem acordou — Erza ficou alerta ao ouvir uma voz vinda do outro lado da cela. — Eu já estava preocupada que o tranquilizante que aplicaram em você havia sido muito forte. Eu detestaria perder uma ótima agente como você.

— E você acha que eu trabalharia para você porquê? — Erza retrucou com desdém. A mulher que falava saiu das sombras e sorriu de uma forma sombria.

— Erza, Erza… Você realmente não deveria tentar brincar conosco.

— Eu nem sei quem são vocês. Como iria levá-los a sério? — Erza disse em tom indiferente.

— Sabertooth — a mulher disse como se essa palavra fosse clarear alguma coisa na mente de Erza.

— Sinto muito, mas isso não ajuda em muita coisa.

— Não vou entrar em muitos detalhes por enquanto, mas você vai aceitar nossos termos, Erza.

— Eu já disse que… — Erza começou a falar, mas foi interrompida pela chegada de um homem.

— Minerva, estão te chamando lá em cima — ele falou para a mulher que até então conversava (ou seria melhor dizer ameaçava?) Erza.

— Eu já vou — ela disse, mas sem tirar os olhos de Erza, que continuava mantendo a pose de indiferença. — Sabe, Erza, realmente você precisa começar a baixar essa sua crista. Temos que chegar a um consenso acerca dos nossos termos. A única a perder aqui com teimosia e birra é você… e o seu marido — Minerva sorriu quando Erza arregalou os olhos. — Ah, vejo que já podemos começar as nossas negociações. Mas, por enquanto, vá aproveitando a sua estadia conosco. Tenho certeza que será um período muito proveitoso para ambas as partes.

Ela se afastou antes que Erza conseguisse esboçar qualquer reação.

Como assim eles envolvendo Jellal naquilo? O que eram aquelas pessoas e como eles ousavam pensar em ameaçar o seu marido?

[…]

Já fazia quase um mês que Erza não dava notícias. Ela nunca havia passado tanto tempo sem dar um telefonema para dizer que estava indo tudo bem e que logo iria voltar. E isso estava começando a deixar Jellal a ponto de subir as paredes pela preocupação que sentia. Mas ele tentava não demonstrar isso. Não queria deixar os amigos preocupados. Provavelmente Erza ligaria e pediria mil desculpas antes de fazer duas mil promessas de como compensaria pela falta de notícias.

E se isso não acontece em breve, Jellal estava pensando em ir até a Fairy Tail perguntar se eles poderiam dar alguma informação sobre a sua esposa. Mas enquanto isso, ele continuaria esperando. Erza sempre ligava, uma hora ou outra, ela acabava ligando.

— Estou pensando em comprar um cachorro — Jellal disse, de repente, enquanto coçava as orelhas do gato de Natsu, Happy, que estava estirado preguiçosamente no tapete da sala. Jellal estava sentado ao lado dele e com a mão livre sintonizava o canal do jogo que iria assistir com Natsu.

— Um cachorro? Por que você quer um cachorro? — Natsu perguntou sem entender aquele súbito interesse do amigo em animais.

— Eu quero um filho… Mas a Erza diz que é muito cedo, que nós não temos experiência e todo blá, blá, blá que eu não quero repetir. Então, vou sugerir começarmos por um cachorro. Se o filhote sobreviver, então daremos conta do recado.

— Você sabe que um cachorro e um bebê tem muita diferença, né?

— Vai ser um teste — Jellal balançou os ombros. — E eu vou comprar o cachorro sem ela saber porque eu já tô imaginando o que ela vai dizer sobre pelos pelo sofá, ração espalhada pela cozinha e todas as outras surpresas que um cachorro pode deixar pela casa.

— Das duas uma: ou ela vai adorar chegar em casa e dá de cara um uma bola de pelo ou ela vai chutar você e o cachorro de casa — Natsu disse rindo.

— Se for a opção dois, vou procurar abrigo na tua casa — Jellal retrucou.

— Nem pense. Você tem um timing péssimo. Na última vez que inventou de aparecer lá em casa foi quando eu tinha conseguido justamente colocar a mão dentro do decote da Lucy.

Jellal revirou os olhos. Natsu e Lucy viviam às turras e ela fazia jogo duro com o namorado em relação ao sexo.

— E pelo jeito as coisas não evoluíram muito depois disso.

— A Lucy disse que eu não fiz por onde merecer — Natsu resmungou. — Eu não entendo o que ela quer pra eu "merecer".

— Uma aliança no dedo — Jellal falou e Natsu fez um careta.

— Não é que eu não queira casar com ela, mas, sei lá, ainda é cedo…

— Esse papo de "ainda é cedo" parece com a Erza. A vida passa muito rápido, sabe. Você não quer viver com a Lucy pelo resto da tua vida? Então, pra que ficar perdendo tempo?

— Depois que você conheceu a Erza virou um romântico meloso — Natsu torceu o nariz.

— Eu não acho que eu seja "um romântico meloso". Você e a Erza que são fechados demais.

Natsu ficou quieto e Jellal achou melhor não interferir mais a vida amorosa do amigo. Natsu era doido por Lucy. Jellal realmente não entendia o que estava o impedindo de fazer aquele pedido de casamento de uma vez.

O jogo começou e o assunto acabou ficando totalmente em "o seu time é uma bosta", "aquilo foi penauti!", "estão roubando!", "esse jogador é uma bomba" e todas as variantes possíveis. Quando o intervalo começou, Jellal levantou para ir pedir uma pizza, mas começaram a tocar a campainha e ele acabou indo atender.

— Sr. Jellal Fernandes? — um homem loiro, acompanhado de um moreno e um outro de cabelos longos, perguntou.

— Sim. Sou eu — Jellal disse desconfiado.

— Nós somos da Fairy Tail. Meu nome é Laxus — o homem estendeu a mão e Jellal aceitou o cumprimento.

— Um dos chefes da Erza. Ela já comentou sobre você — Jellal saiu do caminho e fez um sinal para que eles entrassem. — Algum problema? Tem a ver com o fato da Erza não dar notícias há dias?

— Na verdade sim — Laxus respondeu. — Nós estivemos tentando resolver tudo sem envolvê-lo, mas não podemos mais esconder a verdade de você.

— Que… Que verdade? — Jellal perguntou enquanto sentia que toda a cor fugia do seu rosto.

— Sobre o que a Erza realmente faz na Fairy Tail...