I
Era pleno Dezembro. A neve caía aos montes sobre a Coreia do Sul, fazendo com que as pessoas se constipassem mais depressa e ficassem sempre em casa. As crianças não queriam ficar em casa, sempre com vontade de ir brincar na neve, mas os pais, cansados da rotina dos seus trabalhos, acabavam por não lhes aceder o pedido, preferindo ver televisão no sofá, enquanto apreciavam o calor proveniente das suas lareiras ou dos seus chás.
Árvores de Natal brilhavam através das janelas, bem como as mil e uma decorações natalícias. Homens disfarçados de Pai Natal enchiam as entradas das lojas e estas, por sua vez, estavam apinhadas de chocolates, roupas quentes e, sobretudo, pessoas. Pessoas felizes que compravam presentes para os seus entes queridos.
Longe dali, daquele vaivém incessante dos carros, das músicas natalícias que já tocaram tantas vezes que as pessoas já se lhes perderam a conta, do cheiro a dióxido de carbono que os carros emitiam sem parar, a neve também caía.
Caía na floresta, mas mais lentamente e com menos intensidade. Os flocos de neve caíam tão lentamente que mais pareciam penas. Penas tão brancas como a espuma límpida de um sabão. Mesmo quando caíam no chão, não pareciam ganhar aquela cor suja como nas outras localidades: não ficavam com tons sujos de castanho por se misturar com a terra.
Para além de cair no chão, também se derretia por entre as madeixas de Byun Baekhyun.
Não sabia ao certo há quanto tempo estava ali parado, a olhar para o chão. Para aquele monte de terra e pedra, com letras gravadas nela. Só sabia que sentia raiva.
Cerrou os punhos.
"Estúpido…", pensou para consigo. "Estúpido!"
Pontapeou a caixa que tinha trazido consigo da cidade e que estava pousada sobre a campa. As suas cores vermelhas e douradas estavam agora cheias de gotas, fruto dos flocos de neve que tinham derretido em cima do papel de embrulho.
Parece que tinha sido ontem. A última vez que o tinha visto olhar para si. A última vez que o tinha visto respirar.
Tinha olhado para ele, mas não com aquele olhar habitual… Era um olhar vazio. Um olhar típico de uma pessoa que está prestes a partir e não pode voltar… Todo o seu cabelo tinha caído, apenas com uma faixa como substituição. Ouvira o barulho do medidor de pulso com os seus beep beep fracos.
Porém, ele parecera não se importar muito com isso. Continuava com o mesmo estúpido sorriso na cara, típico de uma criança feliz, mesmo sabendo que estava prestes a morrer. Era por isso que sentia raiva.
Sentia raiva de Chanyeol por ele ter coragem de olhar para ele quando lançou o seu último suspiro, antes de os seus olhos se tornarem tão negros quanto a imensidão da tristeza que o assomou. Como é que ele tivera coragem de olhar para ele quando aqueles beep se tornaram infinitos?
"Odeio-te… Seu traidor…".
Baekhyun cerrou os dentes com força, sentindo as lágrimas virem-lhe aos olhos de novo. Ficou surpreso. Pensava que as suas lágrimas tinham secado, de tanto ter chorado nos últimos meses. Porém, não iria chorar. Não ali, à frente dele.
Virou-se de costas para a campa, inspirando fundo e limpando as lágrimas rapidamente. Não podia ser fraco à frente do seu melhor amigo. Ou ex melhor amigo… Não podia mostrar-lhe que estava assim por causa dele, quando ele tinha feito o que fez. Não iria vacilar e cometer o mesmo erro de se preocupar com ele de novo.
- Feliz Natal. – Murmurou num tom seco, afastando-se devagar daquele sítio.
A neve parecia querer cair mais intensamente agora. Baekhyun batia o queixo. Parece que, de repente, a temperatura ainda tinha baixado mais e, apesar de todos os agasalhos que trouxera e lhe pesavam no corpo, o vento gelado parecia conseguir entrar por dentro de toda aquela roupa.
Arrastava os pés debaixo da grossa camada de neve, já que não os conseguia levantar devido ao peso que esta exercia sobre os seus pés. Já sabia que a sua mãe lhe ia dar um sermão quando chegasse a casa, pois as suas meias já estavam a ficar encharcadas.
Saindo do cemitério, deparou-se com a densa floresta que ainda tinha que atravessar até chegar à paragem de autocarros mais próxima. Olhando para trás, soltou um último suspiro antes de voltar a caminhar, encharcado até aos joelhos. Decidiu tomar o caminho mais comprido, escolhendo o caminho que dava a volta à floresta inteira.
A floresta era tão pacífica no Inverno… Sabia-lhe bem estar ali. Era um local maravilhoso em todas as alturas do ano. No Verão, cheirava a pinheiro e as cigarras não se calavam. O único problema é que era alvo de muitos incêndios. No Inverno, era um dos locais mais frios da Coreia do Sul, com queda constante de neve. Quase todos os animais se refugiam nas suas tocas e só aqueles que sobreviviam ao frio extremo se deixavam ver ou apenas se camuflavam na neve.
Uma coruja das neves piou num galho.
- Obrigado. – Uma voz grave ecoou pelas copas brancas das árvores.
Baekhyun estacou. Estaria a imaginar coisas? Conhecia aquela voz demasiado bem para simplesmente a ignorar e continuar a caminhar, por isso, virou-se lentamente, observando o carreiro vazio que se estendia atrás dele. Talvez a visita àquele lugar o tivesse afectado em demasia.
Uma pequena chama de esperança tinha-o invadido, mas depois acabou por ser esmagada pelo facto do corpo do seu melhor amigo estar debaixo de terra e o seu nome estar gravado naquela maldita pedra.
Encheu as bochechas de ar, exalando depois o ar suspenso nestas e observando o fumo a subir e a misturar-se com a paisagem. Com um grande peso nos ombros, voltou a virar-se para continuar a caminhar, até desaparecer no branco da floresta.
