III – Crash!
O vento soprava forte naquela manhã, sinal de que o Outono estava mesmo à porta.
Quase no fim Setembro e apesar do frio trazido pelas rajadas de vento, o céu azul ainda permanecia. De vez em quanto, uma nuvem ou outra aparecia para relembrar as pessoas que Outubro estava quase a chegar. Contudo, ainda se viam pessoas de manga curta e saia, capazes de desafiar o tempo atmosférico.
Nos últimos anos que se passaram, o clima tinha mudado drasticamente. Os dias eram mais quentes, mesmo durante o Inverno. Havia dias de Inverno com céu limpo e temperaturas de Primavera e dias de Verão com aguaceiros intensos. Há quem diga que são os tempos que estão a mudar, como um ciclo, e há quem diga que é por causa das alterações climáticas.
As aulas já tinham começado há quase um mês. Os jovens ainda não estavam habituados às intensas horas de estudo, quando o tempo ainda se encontrava tão bom. Os mais preguiçosos, que se tinham habituado a deitar-se tarde durante as férias, dormiam agora nas aulas, e os professores, irados, refilavam com eles, com as suas vozes a ecoar pela sala e pelos corredores da escola. Os outros, que apenas não queriam estar ali (preferiam estar na praia ou em casa, a jogar um bom videojogo), olhavam pela janela, enquanto inalavam o cheiro das flores e árvores, cujas folhas já ameaçavam começar a cair, provenientes do exterior e sentiam a brisa fria nas suas caras ou apenas fixavam o olhar nos professores, fingindo estar atentos ao que eles explicavam.
- Baekhyun-ah! Diz-me que fizeste os trabalhos…!
Os dois amigos caminhavam lado a lado, arrastando-se pelo passeio com pouca vontade de estudar. Era uma pena terem ficado com o turno da tarde… Não podiam aproveitá-las para jogar em casa um do outro.
Baekhyun não tinha dormido nada na noite anterior, pelo que estava com pouca paciência para o que quer que fosse. Tinha ficado a estudar até tarde, já que não tinha prestado atenção nenhuma às aulas durante o mês inteiro e os testes estavam quase à porta.
"Onde é que está a tua responsabilidade?!", já dizia a sua mãe; "Tens 18 anos, por amor de Deus!"
- Baekhyun-ah…!
- O que é?! – Cortou o rapaz.
Chanyeol ainda demorou um pouco para se recompor, trocando a sua cara assustada pelo seu sorriso inigualável de novo:
- Fizeste os trabalhos de Economia?
- Sim, fiz…
- Empresta-me, vá lá…! Vá lá, vá lá, vá lá…!
- Aish, que chato! Não te vou emprestar nenhuns trabalhos! Tens que começar a ser mais responsável!
Baekhyun ignora-o, mas, como esperado, o amigo não iria desistir até conseguir o que queria. Como prevenção, sacou dos fones, ligando-os ao mp3 e continuando a andar, enquanto via o rapaz esbracejar ao pé dele. Foi assim durante o caminho todo.
Quando chegaram à entrada da escola, Baekhyun voltou a guardar o mp3 na mala. Já andava naquele liceu há 3 anos, mas continuava a achar que não era lá muito seguro andar por aí com coisas caras nas mãos.
Entraram pelo portão e logo se misturaram com a enchente de alunos e alunas que frequentavam aquela escola.
Baekhyun olha para Chanyeol de esguelha. Estranho… Tinha-se calado:
- Chanyeol-ah…
- O que foi? – O amigo devolve-lhe o olhar, carrancudo.
Baekhyun riu.
- Ya, o que é que tem tanta piada?
- Nada, nada… Senhor porco…
Chanyeol deixou cair o queixo, ofendido. Baekhyun conhecia todos os pontos fracos do amigo e vice-versa. Não valia a pena Chanyeol tentar não parecer um porco quando estava desconfiado ou irritado, não conseguia evitá-lo.
Baekhyun continuou a andar, fingindo não se importar com a reacção do amigo. Depressa Chanyeol veio a correr atrás dele. Parece que já tinha voltado ao normal.
Entraram no pavilhão, vislumbrando o extenso corredor de cacifos vermelhos que se estendia. Foram passando pela multidão, onde ainda se ouvia vozes a queixarem-se do regresso às aulas e umas tantas outras a discutirem matéria, trabalhos de casa e coisas banais, como namorados.
Ambos se cruzaram com um grupo de raparigas. Baekhyun focou o olhar numa delas imediatamente.
Park Suzy. Aquele jeito de sorrir, de andar, de prender o cabelo atrás da orelha… Aquele perfume frutado, típico de Verão, e aquela bandolete rosa-bebé no seu cabelo negro como a noite… Eram inconfundíveis. Caramba… Só ele sabia há quanto tempo é que lutava por um pouco da sua atenção… O problema é que nem eram da mesma turma, senão já teria arranjado uma maneira de se aproximar dela.
Mesmo depois de ter passado, o seu rasto de perfume continuava ali, a pairar no ar.
- Viste, Baekhyun-ah? – Chanyeol dá-lhe um toque no ombro, acordando-o dos seus devaneios. – Era a Suzy! Porque é que não a cumprimentaste?
- Fala baixo…! – Baekhyun dá-lhe um puxão, fazendo-o caminhar mais depressa.
- Oh pá, há anos que andas a tentar conquistá-la…! Deixa-me lá ajudar-te!
- É que nem te atrevas, Park Chanyeol! Desfaço-te em pó antes de teres tempo de reparar nisso!
- O que é que eu perdi? – Pergunta-lhes uma voz conhecida, atrás das suas costas. Ambos se viraram.
D.O olhava para eles, divertido, apenas com uma alça da mochila às costas, enquanto os seus grandes olhos piscavam, alternando a sua visão entre os dois amigos.
Do Kyungsoo… Uma das pessoas que sabia que podia contar em qualquer altura. Os seus hobbies eram a cozinha e o estudo. Não admira que ele fosse o melhor aluno da turma. Era um rapaz bastante calculista e esperto. Quando não o conhecem bem, acham-no frio e algo assustador. Os seus grandes olhos e lábios em forma de coração costumam fazer furor entre as raparigas… Incluindo Suzy… Vá-se lá saber o que é que D.O tem que Baekhyun não tivesse…
- Deixem-me adivinhar… - Kyungsoo cruza os braços. – A Suzy de novo?
Baekhyun ia preparar-se para proferir a sua desculpa mais bem planeada, mas Chanyeol adiantou-se:
- Em cheio! – E soltou uma gargalhada.
D.O revira os olhos:
- Quando é que tencionas falar com ela?
- Boa pergunta… - Mais uma vez, o seu amigo adiantou-se.
Kyungsoo esboçou um sorriso ao ouvir Chanyeol gargalhar.
Desta vez, foi a vez de Baekhyun revirar os olhos. Parece o amigo tinha conseguido por Kyungsoo do seu lado. Estava preocupado que este gozo se espalhasse pelo grupo e que não parassem de lhe atazanar o juízo. Virou-se e começou a andar. Aquela ia ser uma longa tarde…
Rapidamente, Chanyeol e Kyungsoo seguiram-no.
À medida que caminhavam, o resto do grupo foi-se juntado. Primeiro Kai, que ao avistar o seu melhor amigo Kyungsoo, se apressou a aproximar-se dos rapazes, animado. Depois Luhan, Xiumin, Sehun…
Os doze rapazes caminhavam pelo corredor. Uns falavam animadamente, outros olhavam para o tecto enquanto ouviam música e outros andavam à luta uns com os outros, em forma de brincadeira.
Atravessaram o pavilhão e saíram para o intervalo. Um mini jardim de chorões entendia-se, com vários bancos, onde estudantes conversavam ou faziam os trabalhos. Ao fundo, um telheiro protegia na sua sombra quatro bancos vazios. Kai e Chanyeol precipitaram-se para o sítio, atirando as malas para cima dos bancos:
- Vá, despachem-se! – Gritou Chanyeol, esbracejando.
Todos os membros chegaram ao telheiro. Kris deixa-se cair num banco, fatigado:
- Meu Deus… Só começámos as aulas há um mês e eu já estou farto…
- Tu estás sempre farto de tudo… - Resmungou Sehun.
Chanyeol ri, sentando-se no banco e cruzando as pernas como uma criança, enchendo as bochechas de ar:
- Tenho fome…
Num ápice, Suho abriu a mochila, tirando de lá uma sandes e atirando-a a Chanyeol.
Baekhyun sorri. Suho sempre fora atencioso e sempre tratara os amigos como se fossem da família… Ou mesmo como se fossem os seus próprios filhos. Mimava cada um de uma maneira única. Decerto seria um bom pai no futuro.
Era a primeira vez que estavam todos juntos num intervalo, já que tinham ficado quase todos em turmas diferentes. Baekhyun só tinha conseguido ficar com Chanyeol, D.O e Chen. Era bom poder ouvir as palhaçadas que cada um dizia e de ouvir Sehun a resmungar, como sempre fazia.
- Obrigado, hyung! – Chanyeol abriu o alumínio prementemente, fazendo-o em pedaços. Era como se não comesse há semanas. De facto, não tinha mudado nem um bocadinho. Mas Baekhyun não se importava com isso. Sabia que ele nunca iria mudar.
- Ora essa! – Suho esboçou um dos seus típicos sorrisos que são capazes de iluminar uma cidade inteira. Outra coisa que atraía as raparigas… - Já agora… Chanyeol-ah… - Olhou para ele, agora sério. – Fizeste os trabalhos desta vez, não foi?
Chanyeol estacou imediatamente, com a sandes a meio caminho da boca, que se encontrava aberta. Olhou para o rapaz devagar e depois forçou um sorriso:
- Claro…
Suho arqueou uma sobrancelha, virando-se para Baekhyun:
- Vocês tinham trabalhos de que matérias?
- Bem… - Baekhyun transfere o peso do corpo de uma perna para a outra. – Economia, Matemática… Não tínhamos mais.
- Uau, bacon…! – Comentou Chen, sorrindo em jeito de gozo. – Lembraste-te dos trabalhos?
Baekhyun olhou para o rapaz, semicerrando os olhos. Este, por sua vez, ainda riu mais. Chen adorava gozar com as pessoas e isso, por vezes, deixava-o irritado, ainda por cima hoje, que estava impaciente devido às poucas horas de sono.
- Bem, Chanyeol-ah… Se fizeste os trabalhos de casa, podes deixar-me vê-los, não é verdade? – Suho esboçou-lhe um sorriso falso.
- Ah! Pois…! Pois podia… Mas não quero que os copies! – E soltou uma gargalhada nervosa.
- Tu sabes que eu nunca copiaria, Park Chanyeol… Mostra-me os trabalhos.
Era verdade. Suho estava em décimo lugar no Quadro de Excelência da escola. Era um dos alunos mais conceituados dali, conhecido pela sua inteligência, pontualidade, assiduidade e bom coração. Era Delegado da sua turma e era respeitado por todos. Por isso mesmo, ele e os rapazes chamavam-lhe "mãe", já que ele era o mais responsável dos doze. Para além disso, Chanyeol estaria à beira de chumbar o ano passado se não fosse o rapaz a incentivá-lo e ajudá-lo.
Baekhyun arqueia as sobrancelhas. Quando Suho começava a chamar os rapazes pelo nome completo, era sinal que a sua paciência se estava a esgotar e, tal como uma mãe zangada, um sermão iria seguir-se.
Até ele próprio sentia medo de Suho. Ele mudava muito quando ficava zangado. Era como se o rapaz tivesse dupla personalidade. Num momento, um jovem radiante, sorridente, preocupado com todos, inocente… Noutro momento, frio, distante, agressivo, assustador. Porém, para o seu alívio e de todos, não era nessas alturas que o Dark Suho vinha ao de cima.
Chanyeol manteve-se imóvel, com a mão que segurava a sandes a tremer:
- Ah, hyung… - Voltou a soltar outra gargalhada nervosa. – Olha só as horas! Tenho que ir andando, que eu combinei com um colega encontrarmo-nos para fazer o trabalho de grupo!
E levantou-se, pegando na mochila e começando a correr. Mesmo assim, Suho foi mais rápido, agarrando-lhe a pega da mala, o que o fez ser puxado para trás, quase caindo:
- Poupa-me, Chanyeol… - Puxou-o mais para trás, fazendo-o sentar-se no banco de novo. – Tu não farias um trabalho de grupo com "um colega". Farias com o Baekhyun ou o Chen.
Chanyeol engoliu em seco, olhando para baixo:
- Pronto, está bem… Não, não fiz os trabalhos…
A expressão de Suho suavizou, voltando a sorrir:
- Assim está melhor… Nada de mentir! Mas… - A sua cara de mãe zangada veio, finalmente, à tona. – Porque carga de água é que não fizeste os trabalhos?!
- D-Desculpa, mãe! – Chanyeol abanava as mãos à frente da cara, como uma criança nervosa.
- Tu…!
- Cá vamos nós… - Comentou Sehun, o que fez D.O sorrir, em concordância.
Tal como esperado, um sermão seguiu-se. Os dez rapazes riam-se de um Suho fulo, com o dedo indicador no ar, enquanto praguejava e com Chanyeol, encolhido no seu cantinho como uma criança assustada.
Baekhyun abanou a cabeça negativamente, em sinal de desaprovação. Chanyeol parecia uma autêntica criança. Mesmo tendo 18 anos, a sua imagem de uma criança, com o cabelo a tapar-lhe os olhos ainda permanecia na sua mente. Sabia que iria envelhecer mais rápido que o amigo, mas isso não interessava. O que interessava é que envelhecessem juntos.
Umas gargalhadas misturaram-se com a do grupo, estranhas aos ouvidos de Baekhyun. Começou a observar o ambiente à sua volta. Parece que também Kyungsoo tinha reparado que mais alguém se ria da cena que se desenrolava e também procurava de onde provinham os risos. Porém, não era um riso amigável…
Ambos os rapazes conseguiram identificar de onde vinham as gargalhadas e, tal como esperado, não vinham de um grupo nada bom.
A uns metros de distância, numa mesa de pedra, Do Nam e o seu grupo olhavam para Chanyeol, deliciados com o que viam.
Baekhyun voltou a trocar olhares com D.O, voltando o seu olhar de novo para o grupo.
Do Nam e o seu grupo eram conhecidos pelos estragos feitos não só dentro da escola, mas também fora dela. Eram conhecidos na cidade por roubarem, vandalizarem, praticarem bullying e outras coisas más, das quais Baekhyun não gostava de enumerar.
Suho pareceu ter-se apercebido de que mais alguém estava a ouvir a sua conversa, por isso calou-se, olhando para os delinquentes com o seu ar negro.
Baekhyun reparou que os amigos tinham congelado, olhando para o amigo.
Agora sim, o dark Suho tinha aparecido. Olhava Do Nam e o seu gang com os seus olhos, que tinham ficado mais negros de um momento para o outro. Parece que o grupo entendeu a mensagem, retribuindo-lhe o olhar com desdém. O clima estava a ficar de cortar à faca, por isso, Xiumin decidiu intervir, abrindo a boca, mas a campainha foi mais rápida.
Parece que o som da campainha tinha acordado Suho do seu transe negro. Olhou para trás, para os rapazes, e esboçou um sorriso, talvez na esperança de os aliviar:
- Vamos para as aulas?
Ninguém foi capaz de se pronunciar. Tinham medo que, com alguma palavra errada, o seu hyung explodisse, por isso, limitaram-se a assentir.
Todos caminharam para dentro do edifício, separando-se ao longo do caminho, cada grupo para um sala diferente. No fim, só Chanyeol, Baekhyun e Chen caminhavam para a sala, sozinhos entre a multidão.
- Vocês viram aquilo? – Chanyeol ainda estava em choque. – Não é todos os dias que isto acontece…!
- De facto… - Acrescentou Chen. – Será que ele se meteu em afrontas com o Do Nam?
- Não creio… - Baekhyun ajeita a mochila nos ombros. – O Suho é demasiado bonzinho para se meter em problemas com gente como aquela…
- Pelo olhar não parecia… - Chen olha para o chão, pensativo.
Chanyeol escancara a boca, soltando um "A-HA!" a alto e bom som, fazendo com que os rapazes e alunos que por ali passavam se assustassem ou olhassem para ele de esguelha.
- O que é que foi, idiota…? - Baekhyun respira fundo.
- Imagina que ele é um daqueles gangsters todos maus e que batem nos miúdos inocentes nos becos sem saída?
- Cá vamos nós… - Chen revira os olhos.
- Por amor de Deus, Chanyeol! Vê se cresces!
- Mais do que isto? Eu já meço 1,83m!
Chen leva a mão à testa, produzindo o barulho de um estalo. Chanyeol ainda olhou para ele, rindo. Ele tinha dito aquilo de propósito para causar o riso entre os rapazes, mas aconteceu o inverso, principalmente em Baekhyun. Aquelas poucas horas de sono faziam-se notar no seu temperamento.
Sem perder muito mais tempo, Baekhyun entrou para dentro da sala, deixando os amigos para trás. Precisava mesmo de estar num ambiente calmo e regrado como uma sala de aula, mas sabia que, durante o tempo que estivesse ali, Chanyeol não iria parar de o chatear para que lhe emprestasse os trabalhos de casa, já que Suho estava noutra turma.
Pousou a mala sobre a mesa, arrastando a cadeira para trás e deixando-se cair nesta. Olhou lá para fora, observando os alunos que ainda permaneciam no intervalo, com preguiça de entrar para as aulas. Como ele os entendia…
Pouco depois, ouviu a cadeira à sua frente ser arrastada. Chanyeol sentou-se, virando-se automaticamente para trás, esboçando um leve sorriso, como que arrependido:
- Hm… Estás bem, Baekhyun-ah?
Baekhyun não retirou os olhos do exterior. Estava completamente vidrado e cansado. Nem durante a tarde tivera tempo de passar pelas brasas.
Mas, mesmo cansado, pareceu arranjar forças para voltar a fixar os pés na terra, pois uma bandolete rosa-bebé lhe tinha saltado à vista.
Suzy caminhava para o portão da escola, juntamente com as suas amigas. Ah, era verdade… Hoje, ela saía mais cedo, mas não ia já para casa. Baekhyun sabia que a rapariga tinha treinos de ténis antes de ir para casa. Desde o Verão que assim era.
Chanyeol solta uma gargalhada, começando a cantar, com a sua voz grave e irritante, a canção "Love is in the air". Baekhyun olhou automaticamente para ele, com ar ameaçador.
- Uau, finalmente acordaste! – O rapaz voltou a gargalhar. – Deixa lá a Suzy em paz e diz-me o que se passa.
- Não se passa nada… - Baekhyun boceja. – Só não dormi bem. E depois levar com gente chata…
Chanyeol escancara a boca, fingindo-se ofendido:
- Não acredito… Estou a tentar animar-te e tu não me ligas nenhuma! Que ingrato! Queres café? Eu pago-te um!
- Não, não é preciso…
- Então dá-me os trabalhos de Economia!
Como não queria ser mais chateado, Baekhyun virou-se para trás, abrindo a mochila e retirando de lá o caderno.
Ao fechar a mala, levantou ligeiramente a cabeça e ouviu, uma vez mais, gargalhadas. Não vinham da sala, mas sim de lá de fora. Ele conhecia-as.
Olhou para o recreio pelo canto do olho. Como esperado, era Do Nam e os seus amigos. Caminhavam descontraídos até às grades da escola, enquanto faziam piadinhas por quem passavam. Encostaram-se às grades, ficando de frente para o edifício da escola e Do Nam, com os seus olhos perspicazes, avistou Baekhyun e Chanyeol automaticamente, apontando para eles descaradamente. O resto dos rapazes olhou para onde o líder apontava, mas fixaram o seu olhar em Chanyeol.
Baekhyun semicerrou os olhos, estranhando. Chanyeol pareceu não reparar, já que copiava os trabalhos de casa afincadamente.
Um dos amigos do rufia reparou que Baekhyun olhava para eles, o que fez o rapaz desviar o olhar. Esperava não arranjar problemas por causa disso, mas sabia que, mais logo, iria falar com Suho. Tinha ficado preocupado quanto ao amigo. Iria pedir ao hyung para evitar discussões em público. Tinha medo que Chanyeol fosse alvo de algum plano daqueles delinquentes.
Voltou-se para a frente, já que o professor entrava na sala e precisava de se curvar perante ele. Chanyeol virou-se para trás, entregando-lhe o caderno apressadamente.
(…)
- Esqueci-me de te agradecer por me teres dado os trabalhos. – Chanyeol sorri para o amigo, mas Baekhyun não reagiu, continuando a olhar em frente, vidrado.
Ainda estava a matutar sobre ter visto Do Nam a olhar para Chanyeol com olhar de quem estava a planear alguma. Em oposição, também pensava que podia ser a sua mania da perseguição de novo. Já não sabia de nada. Só sabia que aquilo o tinha deixado desconfortável, mas não iria contar ao rapaz. Provavelmente, Chanyeol iria começar a resmungar ou rir-se-ia na sua cara.
Já começava a anoitecer mais depressa, e os candeeiros de rua já se começavam a acender, apesar de ainda haver luz natural. Os dois jovens passavam agora pelas ruas movimentadas de Seul, cheias de pessoas, carros e cores de alguns placards publicitários. Como estava perto da hora de jantar, o cheiro a comida inundava o passeio, juntamente com o barulho abafado dos talheres e do jornal da noite a passar na televisão.
- Hei, acorda lá, pá! – Chanyeol empurra-o levemente, tal como sempre. – Estás quase a chegar a casa. Para de me ignorar só por um bocadinho!
- Desculpa… - Baekhyun devolve-lhe o olhar. – Não tens de quê. Mas vê lá se, para a próxima, fazes os trabalhos! Tem sido sempre assim desde o início do ano!
- Está bem, está bem… Hoje estavas todo babado com a Suzy, hã?
- Não vais começar, pois não? – Tira o telemóvel do bolso, para ignorar o facto de o amigo ter razão. Quando alguém falava dela, quase que o coração lhe saltava pela boca.
Chanyeol calou-se durante um bocado. Quando fazia aquilo, só podia querer dizer que tinha algo que ele estava hesitante em dizer, o que o preocupou um bocado. De qualquer maneira, sabia que, mais cedo ou mais tarde, o rapaz ia acabar por lhe contar o que o atormentava.
- Baekhyun-ah… Não me batas, mas… - O jovem respirou fundo e Baekhyun olhou automaticamente para ele. - … O Kai conseguiu o número dela e deu-mo.
- O QUÊ? Porquê?!
- Calma! Ele só lhe pediu o número por tua causa! Agora, já podes falar com ela, não?
Baekhyun para à frente do portão do jardim. Mesmo no meio da cidade, aquele jardim conseguia libertar aromas que se sobrepunham ao fumo dos carros.
Olhou para o amigo, carrancudo:
- Ela vai pensar que eu sou o Kai.
- Dizes-lhe que não!
- E o que é que ela vai pensar? – Baekhyun estava a ficar impaciente com toda aquela conversa. Mais uma vez, a sua necessidade de horas de sono começava a falar alto. – Isso pode meter-nos a todos numa grande embrulhada e depois ela vai pensar que eu sou um falhado. Apaga já esse número, ouviste?
- Vá lá, Baekhyun! Deixa de ser assim! Sabes há quanto tempo é que andas a tentar dizer-lhe um "Olá"?
O rapaz revira os olhos. Mais uma vez, Chanyeol tinha razão, mas não iria perder a postura. Aquilo era errado, e Chanyeol devia sabê-lo.
- Eu não quero esse número.
- Deixa-te de coisas, Baekhyun! – Chanyeol arranca-lhe o telemóvel das mãos. – É a única oportunidade de falares com ela. Não a desperdices!
- Park Chanyeol, dá-me o telemóvel. Agora!
Baekhyun esticou-se para chegar às mãos do amigo e tentar recuperar o telemóvel, mas este esticou os braços mais para cima, continuando a discar o número de Suzy no remetente das mensagens.
Decidido a recuperar o telemóvel, Baekhyun saltou e quase que conseguiu agarrá-lo, mas o amigo desatou a correr:
- Não me vais apanhar! És fraquinho a correr!
Baekhyun estava prestes a explodir de ira, por isso, sprintou pelo jardim adentro, atrás do amigo, que ria, divertido. Ele continuava a mesma criança de sempre. Num outro momento, teria achado piada, mas agora, com a vontade de dormir, só queria apanhá-lo e fazê-lo em picadinho.
- Park Chanyeol, já chega de brincadeiras! – Berrava, mas o jovem, como previsto, não lhe dava ouvidos. Baekhyun já começava a ficar cansado. – Dá-me o telemóvel! Eu não quero isso! Se o fizeres, vou ficar mesmo chateado!
- Tu és incapaz de ficar chateado comigo! – Chanyeol vira-se para trás, ainda a correr, quase esbarrando contra uns idosos que atravessavam o passeio do parque.
Como corria para trás, Baekhyun conseguiu ganhar avanço, mas ao reparar nisso, o amigo virou-se de novo para a frente, correndo até ao final do parque e virando para a direita.
Com sinais visíveis de cansaço, saiu do parque, ainda atrás de Chanyeol. Estava a ficar mesmo cansado. Conseguia ver o rapaz, mas a uma grande distância, e que ia aumentando gradualmente.
- Chanyeol, já chega!
Agora, corriam pelo meio da multidão, já envolvidos pela cidade novamente. Os transeuntes resmungavam quando o amigo passava por eles, pois quase os derrubava.
- Está quase a enviar! – Cantarolava Chanyeol, o que fez com que Baekhyun se esforçasse mais.
- Chanyeol, já chega!
Baekhyun esbarra contra um homem, fazendo com que a sua maleta abra e de lá saiam mil e um papéis.
- Olha o que fizeste! – Barafustou o homem, tentando apanhar os papéis que esvoaçavam no ar, mas o rapaz já ia demasiado avançado para o conseguir ouvir.
Baekhyun arregala os olhos. Chanyeol estava tão divertido a irritá-lo que nem reparava para onde ia. O amigo estava a correr em direcção a uma multidão que esperava o sinal verde para atravessar.
- Chanyeol, para! – Gritou, mas desta vez não era por causa do telemóvel. Ele não vira que estava a aproximar-se de uma passadeira, onde circulavam bastantes carros. – Ouviste?! Para!
Os transeuntes que aguardavam para atravessar olharam Baekhyun de lado, julgando-o. Deviam pensar que ele era só mais um miúdo barulhento, um arruaceiro. Pelos vistos, também pensaram o mesmo de Chanyeol, já que o viram passar entre eles e não o pararam. O sinal nunca mais mudava para verde.
- Não me apanhas! – Chanyeol ri, enquanto se enfia pelo meio das pessoas, precipitando-se para a passadeira e pisando o seu asfalto.
- Chanyeol! Chanyeol! Volta aqui! – Baekhyun também se esgueira para meio da multidão. Esta, por sua vez, parecia nunca mais ter fim. Parece que, a cada passo que o rapaz dava, aquele aglomerado de pessoas ia ganhando espessura.
Um barulho forte de uns travões e de vidros a partirem-se ecoou pela rua, o que fez com que as pessoas soltassem um grito colectivo. O coração de Baekhyun contraiu-se até ficar do tamanho de uma pedrinha. Sentia-se como se tivesse acabado de engolir um pedregulho devido ao peso no estômago.
Arranjando forças onde não sabia que as tinha, o jovem conseguiu afastar as pessoas que lhe tapavam a visão para a passadeira.
Sentiu o cérebro explodir quando viu o amigo deitado no chão, inconsciente, virado de barriga para cima. Da sua cabeça jorrava sangue de um golpe enorme do lado esquerdo da testa. O telemóvel de Baekhyun tinha voado para longe e encontrava-se estilhaçado no chão. Ao lado do corpo do amigo, o condutor falava ao telemóvel, preocupado.
- CHANYEOL! – Baekhyun correu até ao rapaz, ajoelhando-se ao lado dele. Queria levantar-lhe a cabeça e tentar acordá-lo, mas tinha medo de lhe tocar. Ali, no chão, ferido, Chanyeol parecia frágil como vidro. – Chanyeol, seu idiota… Acorda!
- Tem calma, companheiro… - O condutor agacha-se ao pé de Baekhyun, pondo uma mão no seu ombro. – Eu já chamei uma ambulância. Vai ficar tudo bem, hã?
Com tanto desespero e medo, a voz do homem só lhe soou como que ao fundo do túnel. Agora, Baekhyun só conseguia olhar para o amigo e pensar em sair dali a correr com ele às costas até ao hospital.
- A-Ah… Ai… - Murmurou Chanyeol, virando a cabeça para os lados devagar.
- Chanyeol!
Baekhyun tentou alcançar o amigo, mas o condutor deteve-o:
- Não lhe toques. Ele não pode mudar de posição. A coluna dele pode estar frágil. Esperemos pelos médicos, sim?
Chanyeol abre os olhos, como se tivesse acabado de acordar. Olhou para o amigo:
- Baekhyun… Mas o que raio estou a fazer aqui deitado…? – Tentou levantar-se, mas foi impedido pelo homem. – Hey, eu preciso de ir para casa, senhor…
- Tu não vais a lado nenhum.
- Ai… Que dor de cabeça… Será do sol? – Chanyeol leva a mão à cabeça, tocando de leve na ferida da testa. Franziu o sobrolho ao sentir o sangue nos seus dedos. – O que é isto…? Não me digas que…
- Deixa lá isso! – Cortou Baekhyun. Sabia muito bem que o sangue fazia imensa impressão a Chanyeol. Sempre que propunha verem um filme de terror juntos, o rapaz recusava sempre por não gostar de ver sangue.
Como previsto de uma pessoa infantil, o amigo ignorou-o, olhando para o sangue na sua mão:
- Oh meu Deus… - Ficou com falta de ar automaticamente.
- Tem calma, rapaz… - O condutor interveio de novo, tentando acalmá-lo.
- O que é que aconteceu? O que é que se passa? Eu quero ir para casa…! – Chanyeol olha em volta e ainda fica mais em pânico por ter um monte de pessoas à volta dele, olhando-o, preocupadas.
- Tem calma, Chanyeol! – Disse Baekhyun. Mas a verdade é que estava tanto ou mais em pânico do que o próprio amigo. – Tu caíste e bateste com a cabeça, nada mais. Agora, fica quieto.
Porém, Chanyeol não pareceu acalmar-se. Não se mexia um centímetro, mas continuava a respirar pesadamente, com os olhos esbugalhados. Começava a perder a cor.
- Tem calma, companheiro… A ambulância já lá vem… - O homem tentou apaziguá-lo de novo, mas ainda piorou a situação.
- Ambulância…? Sangue, ambulâncias… Meu Deus…
Chanyeol começou a hiperventilar, o que o levou a perder os sentidos. O condutor, sem saber o que fazer, voltou a endireitar-se, desesperado, olhando para o fundo da estrada, enquanto o barulho das sirenes da ambulância ficava cada vez mais alto à medida que se aproximava do local.
(…)
- Felizmente foi só um susto, senhora Park. – Informou o médico, enquanto olhava para os seus apontamentos. – Mesmo assim, pelo sim, pelo não, ainda lhe vamos fazer alguns exame.
A senhora Park assentiu e o médico voltou para dentro do quarto onde Chanyeol se encontrava.
- Aquele rapaz não tem juízo nenhum… - Comentou, olhando para a parede oposta, soltando um suspiro.
Baekhyun observou a mãe de Chanyeol.
Ali estava, com o seu corpo dobrado e velho encostado à parede, com ar cansado e preocupado. Os cabelos brancos começavam a ganhar a batalha, caindo-lhe no rosto, marcado por algumas rugas. Trabalhava arduamente para sustentar o café que ela e o marido tinham aberto há já alguns anos, e que estava em risco de fechar. As coisas não pareciam andar muito fáceis a nível monetário. Para além disso, Chanyeol não parecia ajudar, visto que não se aplicava minimamente na escola e, consequentemente, as suas notas eram fracas.
Ao reparar que o rapaz olhava para ela, a senhora devolveu-lhe o olhar, forçando um sorriso que, mesmo forçado, parecia verdadeiramente saudoso.
- Obrigada por te preocupares com o Chanyeol-ah… - Pousou a mão no ombro de Baekhyun. – És um óptimo amigo… Não o deixes cair… Nunca. Está bem?
Baekhyun não sabia bem o que dizer, já que aquele momento era levemente constrangedor, por isso limitou-se a assentir. A senhora soltou uma gargalhada sem forças:
- Não precisas de ficar aqui por muito mais tempo… São horas de jantar e os teus pais devem estar preocupados…
- Mas não faz mal…
- Não, meu querido… Vai lá… Não queiras preocupar os teus pais como o Chanyeol me preocupa a mim…
Baekhyun ainda pensou em responder, mas decidiu ficar calado e assentir:
- Adeus…
Como resposta, a senhora Park assentiu, voltando a olhar para a frente.
