IV - Surpresa
Baekhyun batia com a caneta na folha de linhas vazia do seu caderno de apontamentos enquanto ouvia a professora a debitar matéria.
Olhou em volta, observando os seus amigos. Chen estava a dormir em plena aula, todo torto na cadeira, com a cabeça toda inclinada para trás. Só lhe faltava ressonar; D.O, por sua vez, prestava a máxima atenção à professora e escrevendo apontamentos rapidamente, nunca tirando os seus gigantes olhos da professora. Era incrível como, mesmo não olhando para o que escrevia, Kyungsoo conseguia manter a sua caligrafia direita e perfeita.
Voltou a olhar para a frente, soltando um suspiro e colocando o braço em cima da mesa para apoiar a cabeça com a mão. Tinha passado uma semana desde aquele incidente com Chanyeol e nem sinal dele. As aulas eram bastante aborrecidas e não tinha com quem caminhar até casa depois de sair da escola. Era deveras esquisito.
O amigo dissera-lhe por mensagens que tinha partido o braço direito. Dissera também que não valia a pena ir às aulas se não podia passar apontamentos, já que partiu o braço que utilizava para escrever. Na altura, Baekhyun ficou preocupado e tentou ligar-lhe, mas Chanyeol rejeitou a chamada, respondendo-lhe por mensagem que não podia falar, pois a mãe não o deixava mexer no telemóvel e ele estava a fazê-lo clandestinamente. Perguntou-lhe quanto tempo demoraria até voltar para a escola. Não obteve resposta. Talvez a mãe o tivesse apanhado.
Olhou lá para fora. No horizonte, o céu já começava a criar camas de nuvens cinzentas. Em breve, chegariam a Seul e o tempo melancólico, frio e húmido iria obrigar todas as pessoas a recolherem-se mais uma vez. Era sempre assim, todos os anos.
No recreio, já poucos alunos resistiam às temperaturas que tinham começado a baixar desde a semana passada. Não foi uma descida brusca, mas sim gradual e lenta. E tal como a temperatura, os alunos que queriam aproveitar o sol iam desistindo de estar ao ar livre aos poucos e poucos.
Talvez Do Nam também tivesse desistido de faltar às aulas para estar no exterior, já que ainda não o tinha visto. Também não havia sinal dos seus amigos. Provavelmente, ter-se-iam enfiado num beco longe dali, a fumar, beber e rir.
Olhou para o relógio afixado em cima do quadro negro, que se encontrava cheio de apontamentos. Não acreditava que ainda faltavam longos 45 minutos para sair dali e ir ter um pouco com os amigos para desanuviar. Agora que não tinha Chanyeol para o fazer rir, com as palhaçadas que fazia de tempos a tempos quando se virava para trás, as aulas eram uma tortura. Sentia mesmo saudades dele.
Baekhyun moveu o seu olhar para o lugar vazio à sua frente, pertencente a Chanyeol. Lembrou-se do dia em que tinha ficado com uma amigdalite. Não pôde ir às aulas durante uns dias depois de ter sido operado, mas o amigo não tinha aguentado muito tempo sem o ver. Logo no seu primeiro dia de repouso, tinha Chanyeol a bater-lhe à porta do quarto, preocupado.
Decidiu que iria fazer o mesmo naquela tarde. Depois de sair das aulas, iria visitá-lo para estar com ele um pouco e, talvez, para o animar. Depois de um choque como aquele, o amigo devia estar de rastos.
Sorriu para si mesmo. Agora, queria mesmo que o tempo deslizasse.
(…)
Baekhyun abriu a porta de casa, esgueirando-se para dentro apressadamente, com frio.
- Estou em casa! – Gritou, descalçando-se atabalhoadamente, ignorando o facto de ter deixado os sapatos desarrumados e subindo as escadas a correr.
- Porquê tanta pressa, querido?! – Berrou a mãe, da cozinha. – Onde vais?!
- Vou visitar o Chanyeol, mãe!
Baekhyun entra no quarto, precipitando-se para a sua cómoda, abrindo a primeira gaveta. Remexeu por entre quinquilharias e chegou a encontrar coisas que pensava ter perdido há anos. Tinha mesmo que arrumar aquelas gavetas…
Depois de muito procurar, encontrou o seu velho baralho de cartas. Há anos que não lhe tocava, já que os jogos o substituíram. Chanyeol decerto não podia jogar videojogos, já que devia ter o braço engessado e assim não conseguiria agarrar no comando e porque, mesmo se conseguisse, não iria dar muito jeito.
Abriu a mala e despejou o seu conteúdo para cima da cama, colocando as cartas lá dentro. O que é que poderia levar mais? Ainda ficou uns momentos a pensar, especado no meio do quarto, mas depois uma ideia surgiu-lhe. O rapaz correu até ao armário, abrindo-o e tirando de lá a sua caixa de Monopólio. Sabia que, se levasse aquele jogo, iria animar Chanyeol de certeza. Raras eram as vezes que Baekhyun ganhava ao amigo e, como tinha mau perder, Chanyeol gozava com ele.
Fechou a mochila e desceu as escadas, entrando na cozinha e abrindo o frigorífico. A mãe observou-o:
- Não te demores, ouviste?
- Está bem… - Baekhyun fecha a porta do eletrodoméstico, com duas latas de Coca-Cola em mãos. – Ajuda-me só a pôr as latas na mala, se faz favor.
A mãe assentiu, abrindo-lhe a mala e colocando as latas lá dentro:
- Mas ele está bem? Não foi nada de grave, pois não?
- Acho que não. Só partiu o braço e teve que levar uns pontos na testa, pelo que ele me disse.
- Estou a ver… - A mãe fecha-lhe a mochila. – Manda-lhe as melhoras pela família.
- Está bem, mãe!
Baekhyun não perdeu mais tempo, arrancando para o hall de entrada, calçando-se num ápice e vestindo um quispo por cima do uniforme, saindo de casa com passadas largas e rápidas. Tinha que aproveitar o pouco tempo que tinha para estar com ele antes que se tornasse demasiado tarde.
A casa de Chanyeol era apenas a três quarteirões dali, por isso, não iria demorar a chegar. Enfiou-se na rua das lojas e restaurantes e, mais uma vez, o cheiro a comida invadiu-lhe o nariz. Passou por um restaurante e cumprimentou duas senhoras que se encontravam à porta a falar.
O rapaz olhou para o seu relógio de pulso. Tinha que se apressar. Tentou andar mais depressa, mas sempre com cuidado para que as latas de sumo não se movessem muito, visto que tinham gás e podiam rebentar.
Virou à direita, deparando-se com aquele lance de escadas que ele tão bem conhecia. Em tempos, tinha caído daquelas escadas abaixo porque estava a jogar à apanhada com Chanyeol e outros rapazes dali. Com a pressa de descer os degraus, pensou que ia pisar o degrau, mas acabou por pisar ar e rebolou pelas escadas abaixo. Por sorte, só arranhou o joelho e ficou com umas quantas nódoas negras no corpo.
Baekhyun foi subindo cada degrau devagar, como se cada um detivesse uma boa memória e ele quisesse viajar através dela durante uns momentos. Mais uns quantos metros e estava em casa de Chanyeol.
Ao subir o último degrau, olhou para a esquerda, onde a rua onde ficava a casa de Chanyeol, iluminada pelas luzes alaranjadas dos candeeiros de rua, se estendia. Sentiu o seu coração contrair-se levemente. Ficou surpreendido por, subitamente, ter ficado nervoso. Riu para si mesmo. Parecia tão infantil quanto Chanyeol.
Apressou-se a chegar até à casa do amigo. Logo, aquelas heras que trepavam a velha pedra que sustentava o portão enferrujado, fizeram-no sentir automaticamente em casa. Afinal, aquela era como a sua segunda casa, já que passava lá maior parte do seu tempo. Abriu o portão e ouviu-o ranger, mas há muito que aquele barulho já não o atormentava.
Bateu à porta, mas como se estivesse a marcar os tempos de uma música. Era um dos sinais que ele e Chanyeol utilizavam para saberem que não era qualquer um que estava do outro lado da porta, mas sim o seu melhor amigo.
Afastou-se, expectante, ao ouvir passos pesados e lentos do outro lado da porta. Chanyeol devia estar mesmo de rastos. Porém, as suas expectativas caíram por terra quando a porta se abriu. Em vez de um Chanyeol engessado, uma senhora Park cansada saltou-lhe à vista. Pareceu-lhe algo surpreendida por o ver ali.
- Oh… Annyeonghaseyo, senhora Park…! – Baekhyun sorri-lhe levemente. – Posso entrar?
- A-Ah… Com certeza… - A senhora afastou-se, dando passagem a Baekhyun.
O rapaz entrou, descalçando os sapatos e calçando as pantufas que lhe correspondiam. A senhora Park já lhe tinha comprado calçado próprio, já que ele passava lá maior parte do tempo. Era como se fizesse da família.
Baekhyun sobe o degrau que separava o hall de entrada do resto da casa, deitando o olhar às escadas que davam acesso ao andar dos quartos. Esboçou um leve sorriso. Nem parecia que Chanyeol estava ali. Não ouvia nem um barulho. Talvez estivesse a dormir. Virou-se para a senhora:
- Então… - Ganhou coragem para proferir as palavras que queria dizer, já que a mãe de Chanyeol parecia ainda não ter recuperado do acidente. Continuava com um ar abatido e cansado. – O Chanyeol-ah… Está melhor…? – A senhora Park pareceu engolir em seco. Baekhyun sentiu-se automaticamente desconfortável. – Q-Quer dizer… O braço dele e tudo…
A mãe de Chanyeol franziu o sobrolho. Parecia confusa:
- Braço…? Que braço? Não me digas que ele, mal entrou na escola, já se aleijou de novo! – Levou as mãos ao cabelo, num gesto desespero. – Onde é que ele está? No hospital?!
O rapaz ficou sem qualquer vestígio de emoção, sentindo, de novo, o seu peito contrair-se, apertando o seu coração.
Chanyeol tinha-lhe dito que tinha partido o braço, mas, pelos vistos, tinha-lhe mentindo. Sentiu uma centelha de raiva a percorrê-lo. O que é que lhe tinha passado pela cabeça?
Como não queria preocupar mais a senhora Park, forçou um sorriso:
- Eu estava só a brincar… Vim cá buscar a bola de basquete para irmos todos jogar…!
- Não me mintas, Baekhyun-ah! Se ele estiver magoado…
- Ele não está, não se preocupe. – Cortou Baekhyun. – Ele só raspou com o cotovelo numa parede e abriu uma ferida, nada mais…!
- Não me voltes a pregar uma partida dessas, ouviste? – A mãe de Chanyeol não costumava levar as brincadeiras a sério. Por vezes, ria-se das suas próprias reacções quando lhe pregavam uma partida, mas desta vez, parecia ter levado aquilo muito a peito. Parece que o acidente do amigo a tinha deixado bastante alerta.
- Bem… Eu vou só lá acima, então… - Baekhyun lança um último sorriso à senhora, voltando-se para as escadas e caminhando na direcção delas. Quase jurava ter ouvido um soluço, mas não se atreveu a virar-se para trás. Nunca tivera jeito para animar as pessoas, sobretudo quando choravam.
Apressou-se a subir ao quarto de Chanyeol. Era o terceiro à direita. Nunca mais se esqueceu disso desde o dia em que se enganou no quarto e entrou no quarto da irmã do amigo. Como resultado, levou com um sapato na cara. A irmã de Chanyeol pensava que era o irmão a intrometer-se, por isso é que atirou o objecto que lhe estava mais à mão.
Entrou no quarto e, tal como previra, reinava um caos total naquela divisão. A cama estava por fazer, com os lençóis enrodilhados aos pés da cama. Na mesinha de cabeceira, uma quantidade de lenços de assoar amarrotados, um copo vazio e uma caixa de comprimidos para a febre tapavam duas molduras com fotos. À frente da cama, a cómoda já tinha um leve manto de pó sobre si, bem como a televisão nela pousada e as prateleiras de jogos abaixo desta. A um canto do quarto, um monte de roupa, que por sinal parecia usada, amontoava-se aos pés do armário onde Chanyeol guardava os seus mangás
Numa dessas esquinas desse armário, uma medalha, pendurada, reluzia à luz natural restante que entrava pela janela.
O campeonato de atletismo…
Quando andava no 6º ano, o amigo tinha-lhe implorado para que Baekhyun participasse com ele, para não se sentir tão nervoso. Depois de muito o chatear, lá concordou em fazê-lo. Como Baekhyun nunca fora bom em desportos, tinha ficado em 31º lugar, enquanto Chanyeol conseguira o 2º lugar.
Soltou um suspiro. Aquilo trazia boas memórias… Quando era mais novo, era tudo bastante mais fácil… Todas as matérias que tinha eram acessíveis, não tinha a pressão do mundo sobre si e o seu futuro… Desconhecia o amor. Desconhecia Suzy.
Baekhyun bufou. Não queria mesmo lembrar-se de Suzy, já que ela era a culpada de ele andar com o coração aos pulos na escola, mesmo que não a visse. Estava sempre na expectativa de a encontrar ao virar de uma esquina e dar de caras com ela… Ou então de a ver com outro alguém.
Sacudiu a cabeça. Já estava a pensar demais e a dispersar-se daquilo que era mais importante: encontrar Chanyeol.
Sacou do telemóvel, que estava no seu bolso, olhando-o e fazendo uma careta. Como o seu telemóvel se tinha partido por completo, a sua mãe tinha-lhe dado um provisório. O problema é que o aparelho era mesmo feio e pesado.
Abriu o menu das mensagens e discou o número do amigo no destinatário. Respirou fundo antes de escrever:
" Onde estás?"
Voltou a guardar o telemóvel dentro do bolso, procurando a bola de basquete com o olhar, mas sem sucesso. Devia estar escondida em algum monte de roupa, algures naquela bagunça.
Momentos depois, o telemóvel tocou dentro do bolso de Baekhyun, que o retirou para fora.
"Estou em casa, onde é que achas? Agora, não me mandes mais mensagens, está bem? A minha mãe ainda me apanha!"
O rapaz inspirou fundo, fechando os olhos lentamente à medida que enchia o peito de ar, irado. O que é que se passava com Chanyeol? Porque é que lhe estava a mentir? Pior, porque é que estava a mentir à própria mãe?
Voltou a abrir os olhos, abrindo a caixa de resposta, com as mãos a tremer de impaciência, mas depois deteve-se.
Não… Não lhe iria responder. Melhor, iria encontrá-lo. Queria saber o que raio andava ele a esconder.
Desceu as escadas, já sem realmente querer saber onde estava a bola. A senhora Park continuava no mesmo lugar desde que Baekhyun tinha subido. Olhou para ele, forçando um sorriso, cansada.
- Bem… Parece que a bola não está aqui… Vou procurá-la na minha garagem… Acho que a deixei lá… - O rapaz solta uma gargalhada, sentando-se no degrau para mudar de calçado novamente.
- Está bem… Mas diz ao Chanyeol para ele não chegar tarde…
- Com certeza! – Levantou-se, colocando a mala às costas e dirigindo-se para a porta.
- Ah, e Baekhyun-ah…! – A senhora deteve-o de sair. Baekhyun olhou para ela imediatamente. - … Se vires que ele está muito cansado, diz-lhe para parar, por favor… Sabes como ele não conhece os seus limites e ainda está frágil do acidente…
- Não se preocupe… - O jovem sentiu a garganta apertada. Detestava mentir, sobretudo às pessoas que mais gostava.
A mãe de Chanyeol não proferiu mais nenhuma palavra, acompanhando-o até ao alpendre e observando o rapaz a afastar-se, acenando.
Quando virou a esquina e a senhora Park finalmente o perdeu de vista, Baekhyun pôde desfazer o seu sorriso. Estava a ferver de raiva. Chanyeol nunca fora de mentir, principalmente aos pais. Podia ser infantil, mas nunca mentira.
Percorreu a rua a passo largo, já sem se preocupar com as latas de Coca-Cola que tinha na mala, e desceu os degraus da escada dois a dois. Quando chegou ao fim das escadas, continuou a caminhar em frente, rumo ao centro da cidade. Sabia que já estava a ficar tarde e que, provavelmente, a sua mãe iria dar-lhe um sermão quando chegasse a casa, mas não se importava.
Sem dar por isso, já caminhava no meio da multidão. Era hora de ponta, por isso, a densidade populacional crescia brutalmente. Baekhyun tinha que se espremer por entre as pessoas que enchiam o passeio, tamanha era a multidão e a sua premência de encontrar o amigo.
Começou a pensar em hipóteses de lugares onde Chanyeol se podia ter escondido. No café dos seus pais? Não, não podia ser, senão a sua mãe saberia onde ele estava. No parque de diversões que tinha aberto recentemente ao pé das docas? Impossível, ele tinha-lhe prometido que iriam juntos.
Baekhyun parou à porta de um restaurante, ofegante. O cheiro delicioso de kimchi vinha de dentro do estabelecimento e o seu estômago já começava a borbulhar com a fome. Devia ter comido antes de sair…
Encostou-se à parede, inclinando a cabeça para trás, até bater com a nuca contra o vidro do restaurante. Assim que o fez, uma nova hipótese surgiu-lhe na cabeça. Talvez ele tivesse fugido para ir ter com Baekhyun e foi ter com o resto dos rapazes.
Abriu o telemóvel e discou o número de Chen. O telemóvel chamava, chamava… Mas ninguém parecia atender. Aquele idiota devia ter deixado o telemóvel em casa de novo. Tentou de novo, na esperança de que o rapaz não tivesse atendido porque não chegara a tempo, mas o resultado foi o mesmo.
Soltou um suspiro pesado, impaciente. Estava a ver o tempo a passar e ainda não tinha descoberto nada. Os nervos apoderavam-se dele rapidamente, bem como a fome, que fazia a sua barriga borbulhar cada vez mais. O cheiro da comida também ajudava.
Decidiu afastar-se do restaurante, continuando a caminhar em frente, enquanto tinha os olhos postos no ecrã do telemóvel e discava o número de Suho. Ele sabia quase tudo sobre todos os amigos, por isso, tinha esperança que ele soubesse ou tivesse um palpite de onde Chanyeol pudesse estar.
O telemóvel chamou umas quantas vezes, mas para seu alívio, Suho atendeu, com a sua típica voz animada e doce:
- Annyeong, Baekhyun-ah!
- Hyung… Hyung… Ainda bem que atendeste… – Baekhyun respirava descompassadamente, pois caminhava com a máxima velocidade por entre as pessoas, furioso e cada vez mais preocupado.
Houve um silêncio do outro lado da linha durante uns instantes:
- … O que é que se passa? – A voz do rapaz tornou-se mais grave e madura. – Precisas de alguma coisa?
- Hyung, onde estás?
- Estou no salão de jogos com os outros. Porquê?
Baekhyun arqueou as sobrancelhas. Não se tinha lembrado do salão de jogos. Talvez Chanyeol estivesse por lá:
- Viste o Chanyeol?
- … Hã? O Chanyeol? – A voz dele suavizou um pouco, num tom confuso. – Mas ele não estava a repousar em casa?
- Também era essa a ideia que eu tinha…
- Como assim?
- É uma longa história. Não tenho tempo. Vê se o encontras por aí.
- Mas…
- Se o encontrares, liga-me, está bem?
Do outro lado da linha, ouviu Suho suspirar levemente:
- Está bem.
- Ok, obrigado. – E desligou, aumentando ainda mais a velocidade de passada.
(…)
Baekhyun estava sentado num baloiço, pontapeando a areia que servia como chão daquela parte do parque. Aquele tinha sido o último sítio onde procurara o amigo.
Tinha passado a última hora a procurá-lo em todos os lugares possíveis, desde salões de jogos até à loja de jogos e mangás, como um louco. Tinha inclusive voltado a casa do amigo, não fosse ele ter voltado, mas, tal como temera, não tinha. Suho também não parecia ter tido sorte. Não lhe tinha ligado.
Começava a pensar que era melhor ligar à polícia e contar o sucedido. Não sabia o que lhe tinha acontecido e tinha medo. Medo que Chanyeol se tivesse aleijado enquanto fugia de casa, já que ele ainda estava num estado débil… Não sabia se ele estava ferido. Aliás, não sabia nada.
Marcou o número dele no chamador e levou o telemóvel ao ouvido. Chamou durante uns momentos, mas Chanyeol acabou por rejeitar a chamada.
Baekhyun morde o lábio com força, apreensivo. O amigo tinha rejeitado a chamada, mas… E se não tinha sido Chanyeol a rejeitá-la? Começava a pensar que o rapaz podia ter sido roubado.
Arregalou os olhos. E se Do Nam o encontrou pelo caminho e o roubou? O seu grupinho não tinha aparecido na escola estes últimos dias, aliás, desde a semana passada. Para além disso, as suas desconfianças ganhavam força ao lembrar-se da maneira como aqueles delinquentes tinham olhado Chanyeol. E se o tivessem raptado?
Levantou-se de um salto. Estava decidido a ir à polícia. Pegou nas duas latas de Coca-Cola, agora vazias por as ter bebido para tentar enganar a fome, e deitou-as no lixo, sprintando rua abaixo.
A esquadra não era muito longe dali. Apenas tinha que se passar por umas quantas ruelas, pelo campo de desportos e virar à esquerda, para subir uma rua.
Correu pelas ruelas, enquanto ouvia o tilintar dos talheres e as gargalhadas que escapavam pelas janelas abertas de certos andares, provenientes de famílias, que jantavam animadamente.
Engoliu em seco, pensando na sua mãe. Tinha-lhe dito que não chegaria tarde, e ali estava ele, a fazer exactamente o contrário. Nem queria pensar nas consequências que se seguiriam… Provavelmente iriam implicar a privação de todos os jogos e saídas nocturnas.
Soltou um suspiro, por entre a sua respiração entrecortada. Só mesmo Chanyeol o fazia cometer aquelas loucuras…
Acelerou pelas ruelas até chegar ao campo de futebol. Já era de noite, por isso, estava escuro. O céu não tinha nem uma única estrela. As ruas estavam apenas iluminadas pela luz alaranjada dos candeeiros. O ar estava ameno, por isso, algumas pessoas passeavam ao longo do passeio, agora que já tinham saído do emprego e aproveitavam para descontrair um bocado e prepararem-se para o dia de trabalho seguinte.
Vozes de jovens ouviam-se do campo:
- Passa a bola, Min Joon!
Ouviu-se uma gargalhada esganiçada:
- Tu viste a queda do Park?!
- Levanta-te, desgraçado! – Disse uma voz mais grave, entre risos.
Baekhyun conhecia aquela voz. Do Nam.
Olhou de relance para o campo, onde um grupo de 5 rapazes suados se riam de um outro rapaz, que se levantava e sacudia a poeira das calças. Era alto, muito magro, mas Baekhyun não lhe conseguia ver a cara, visto que ele estava de costas.
- Foi um bom jogo… Obrigado por trazeres a bola. – Disse Do Nam, dando um aperto de mão ao rapaz que estava de costas.
A seguir, todos se dirigiram para a bancada. Do Nam retirou uma mochila, que aparentava estar cheia, de trás de um dos bancos e abriu-a. Tirou uma garrafa de vodka e abriu-a, com um sorriso ansioso nos lábios. Todos os rapazes o observaram e pareciam babar-se. Pareciam tão ansiosos para beber um pouco daquilo quanto o rapaz.
Do Nam bebeu uns quantos goles e os rapazes aplaudiram-no, como se ele tivesse acabado de fazer um feito que iria mudar a história de toda a humanidade. O rapaz sorriu, limpando a boca com o antebraço:
- Bem… Aqui o nosso amiguinho vai provar-nos que é dos nossos… - E olhou para o rapaz alto. – Não é, Park?
O rapaz alto pareceu hesitar, mas acabou por responder:
- Bem… Acho que sim… - E soltou uma gargalhada nervosa.
Baekhyun semicerrou os olhos automaticamente. Aquela voz era-lhe conhecida.
Ficou lívido. Apercebera-se que era Chanyeol.
Quando voltou a si, viu que o amigo já tinha pegado na garrafa, ainda que hesitante. Rodava a bola no chão com o pé. Podia ver que estava nervoso. Então, num gesto rápido, levou a garrafa à boca e todos os rapazes lançaram um uivo desafiador, encorajando-o. Chanyeol parou por um bocado, tossindo bruscamente, o que provocou uma gargalhada geral:
- É isso mesmo, man! – Disse um dos rapazes, levantando-se para lhe dar umas palmadinhas no ombro. – És cá dos nossos!
- Chanyeol! – Baekhyun gritou, com um misto de raiva, medo e mágoa, enquanto descia as escadas o mais rápido que podia.
O amigo pareceu congelar, visto que não se virou nem um centímetro para trás. Do Nam e os outros rapazes riam, enquanto viam Baekhyun a aproximar-se do rapaz.
- Chanyeol, o que fazes aqui? – Virou-o para si, para o encarar, mas o jovem virou a cara. Parecia envergonhado, como aquelas crianças que são apanhadas em flagrante.
Com a força com que Baekhyun o tinha virado para ele, a garrafa que estava nas mãos do amigo balançou bruscamente, o que fez com que um bocado da bebida saísse da garrafa e encharcasse a camisa do uniforme do rapaz. Chanyeol arregalou os olhos, mas o rapaz não se pareceu importar.
A bola rolou para longe e Baekhyun seguiu-a com o olhar. Era a bola que procurara anteriormente no quarto do amigo.
Voltou a encará-lo:
- Chanyeol… Podes explicar-me o que é que estás a fazer com esta gente?
Chanyeol engoliu em seco, mas não respondeu.
- Mas olha lá, estás a falar com quem? – Do Nam levanta-se, andando até Baekhyun e olhando-o com ar ameaçador. – Deixa-o em paz. Finalmente, o Chanyeol entendeu que não é mais criança e que deve fazer coisas de acordo com a idade dele.
Baekhyun vira-se para Do Nam, encarando-o com rancor:
- Eu tenho a mesma idade que ele e não sou um delinquente.
O grupo de rapazes uivou mais uma vez e o rapaz avançou um passo, o que resultou em Baekhyun a recuar levemente. Tinha-se feito de forte, mas a verdade é que tinha medo daqueles rapazes perigosos. Sabia muito bem do que eram capazes.
- Tu vais-te arrepender do que disseste… - Silvou Do Nam.
- Hm… H-Hyung… - Chanyeol meteu-se no meio dos dois. També falava baixo. Tinha medo do seu novo "amigo" – Deixa-o em paz…Vamos embora…?
O delinquente ainda olhou Baekhyun de cima a baixo, antes de se afastar:
- Sim. É melhor… - E passou por ele, dando-lhe um encontrão no ombro.
Baekhyun ainda cambaleou para trás, mas depois recompôs-se. Aquilo não lhe tinha doído nada, comparado com o que Chanyeol tinha acabado de fazer.
Virou-se para trás, observando o amigo a ir embora, com a bola por baixo do sovaco. Aquela bola marcada pelo tempo e por memórias de Verões passados a jogar com o resto dos amigos. Aquela bola, com desenhos de todos os tamanhos e feitios que eles tinham feito juntos quando estavam aborrecidos. Aquela bola, que agora estava em mãos estrangeiras e más.
Engoliu em seco, cerrando os dentes. Chanyeol não olhou nem uma única vez para trás, enquanto o braço de Do Nam pousava no seu pescoço e o delinquente olhava para ele, orgulhoso.
Continuou ali parado, até que os rapazes desaparecessem de vista.
