Cuddy não cerrou os olhos durante toda a noite. O pânico havia tomado conta do seu ser de maneira intensa, e dormir não era mais uma possibilidade. Alguém conhecia seu segredo. Esse mesmo alguém havia entrado em sua casa e chegado a menos de um metro do seu bem mais precioso, Rach.
Ela tinha certeza de que a pessoa não estava blefando e ela também não tinha a mínima vontade de arriscar a vida da sua pequena. Qualquer que fosse a condição, ela se sentia na obrigação de obedecer. Tomando seu frappuccino e observando Marina à distância, Cuddy sabia que não se sentiria em paz o dia todo, enquanto não estivesse em casa novamente.
"Marina." - Ela chamou, e a babá colocou Rach no cercadinho antes de chegar até Cuddy.
"Sim, senhora".
"Ligue para um chaveiro e peça para ele trocar todas as fechaduras da casa. E por favor, não deixe nenhuma chave sob o tapete da entrada. Leve a cópia com você."
"Tudo bem".
O semblante dela estava calmo e ela sorriu com firmeza para Cuddy. Ela já havia se virado afim de se afastar quando Cuddy a chamou novamente.
"Pois não?"
"Marina, pelo amor de Deus, tome cuidado com a Rach. Não tire os olhos dela por um minuto."
"Tudo bem, senhora. Tem alguma coisa errada?"
"Não."
Cuddy lembrou-se muito bem das palavras que ouvira. "Sem contar para ninguém sobre essa ligação." Ela confiava em Marina e gostaria de contar a ela, mas havia muito em jogo.
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14:20 p.m
"Cuddy?"
O semblante dela era de extremo cansaço. House analisou os ombros torcidos e olhar fosco.
"Está tudo bem? Parece que você foi atropelada por um tanque de guerra."
"House, você veio para falar alguma coisa importante ou só para encher o meu saco?"
Ela não queria ser fria e estúpida, mas toda essa situação estava deixando-a completamente enlouquecida. E ela não queria envolvê-lo, ela só queria se jogar nos braços dele e pedir ajuda. Seus olhos subiram pelo corpo dele, perambulando pelos seus punhos fortes, os braços másculos, seu pescoço, sua jugular que vibrava calmamente, seus lábios secos e então chegou a eles.
Os olhos. Aquele mar oceânico cheio de intrigas e de uma inteligência impactante. Ela queria que ele soubesse. Queria o apoio dele.
Mas isso não estava em questão.
House ficou apreensivo durante toda a análise que ela estava fazendo, sem saber o que dizer. Ele pensou em indagá-la sobre o atraso na reunião com o conselho, sobre tê-la encontrada cochilando sobre o volante do carro no estacionamento.
E o telefone dela tocou.
Cuddy olhou incrédula para o aparelho vibrando e então abriu a nova mensagem que havia chegado de restrito.
"Aceite o tratamento."
Cuddy focou o olhar no aparelho durante alguns minutos. Ela estava lendo isso mesmo?
"Craniotomia pterional. Assine para mim, Cuddy".
A garganta dela secou. O ar parecia areia. Ela não podia aceitar aquilo. House ia matar a paciente. Ele não tinha controle sobre o aneurisma e a craniotomia ia ser a declaração de óbito. Como ela aceitaria aquilo com a consciência tranqüila? Poderia estar assinando uma sentença de morte.
"É óbvio que eu não vou assinar isso, House. Quantos Vicodin você tomou?"
"Ah, por favor, Cuddy. Eu não vou interferir. Aquele cirurgião chefe enjoado está pré-avisado."
"Eu disse que não."
Cuddy manteve um olhar duro e uma posição indiscutível. House era esperto o suficiente para entender que aquilo significava derrota. Ela respirou fundo e voltou a escrever na ata judicial. House reajustou os ombros, e à caminho da porta, deixou vazar a resposta.
"Você costumava ser mais flexível, Cuddy. Mas sabe o que dizem... quem desdenha quer comprar."
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A tarde havia sido silenciosa. Cuddy estava mais calma e serena. Decidiu passar na lanchonete.
"Uma Cesaer Salad com azeite extra virgem" - Ela pediu à senhora do outro lado do balcão. A mulher saiu lamentando em espanhol, imaginando que Cuddy não pudesse entendê-la. Quando ela voltou carregando o prato em questão, estendeu-o á Cuddy com um sorriso cansado.
"Gracias, Rosalind. Tomar unos días de descanso, ya sé lo que usted necesita."
A senhora olhou para ela espantada, e tentou justificar-se, envergonhada.
"Doutora Cuddy, perdóname. Estoy cansada, não queria ser indigente."
"Rosi, tome su tiempo libre. Usted no es de hierro."
E Cuddy foi sentar-se, ciente de que estudar espanhol não havia sido uma completa perda de tempo. Com isso notou o grupo de investidores que sentou na mesa ao lado, tomando seus cafés expressos com a mesma sistematização que usavam na gestão de negócios. Havia um médico com eles, e ela esforçou-se para lembrar- se dele.
Ah sim, o neurocirurgião. Tiler.
Lembrou-se da quedinha que a doutora Cameron tivera por ele logo que o apresentou à equipe. Não era de se estranhar, um rapaz tão viril, cabelos negros, físico forte, sem músculos excessivos, e um belo sorriso. Ela poderia investir se não passasse o tempo todo com a cabeça em uma única pessoa.
Pegou o jornal á sua frente e passou a mastigar as palavras com a mesma rapidez que mastigava a salada. De longe, Tiler olhava para ela com um sorriso de grande interesse.
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O Land Rover acelerava nas mãos da reitora de medicina mais jovem do país. Ela já estava perto de casa quando o celular tocou, e então ela estacionou no acostamento da avenida para atender. Tirando o pequeno aparelho do porta luvas, ela identificou o destinatário da chamada como restrito e então voltou à direção, dirigindo com pouca velocidade.
"Pois não?"
O rouco metálico arrepiou-a até a nuca. Houve um silêncio enlouquecedor.
"Alô?"
"Cuddy, Cuddy, Cuddy. Trocar as fechaduras não vai me manter do lado de fora. Você infringiu as regras. Não fez o que eu mandei. Parece que não tem medo."
"Eu... não podia matar uma pessoa por causa de um jogo idiota."
Houve um logo suspiro do outro lado. Os olhos dela encheram de lágrimas. Essa situação era insustentável.
"Você ainda não entende, não é? Não há saída. A submissão não é uma opção, Lisa. Ou você faz o que eu estou mandando, ou você vai pagar as conseqüências."
"Eu não posso matar uma pessoa inocente!" - Ela gritou. O carro estava parado no semáforo, e o motorista do carro ao lado encarou-a assustado.
"Você não se acostumou?"
"Eu não sou obrigada a fazer o que você quer."
"Você sabe como se brinca de esconde-esconde, Cuddy? Eu vou contar até dez e você terá que achar."
Cuddy não estava entendendo. Ela estacionou na frente da sua casa, a luz da sala estava acesa. A voz metálica começou a cantar.
"Uma patinha foi passear, além da montanha para brincar, a mamãe gritou quáquáquáquá, mas a pequena patinha não voltou de lá."
Cuddy achou idiotice ouvir aquela cantiga numa voz tão assustadora. Onde essa maldita pessoa queria chegar?
"Conte comigo: 10, 9, 8, 7, 6, 5, 4, 3, 2, 1."
"O que você quer?"
"Procure a nossa patinha."
Cuddy pegou as coisas e saiu do carro, imaginando que aquela ligação devia ser uma brincadeira de mau gosto, uma tentativa ignorante de assustá-la. O celular tocou e ela abriu o arquivo enviado.
Cuddy jogou a bolsa no chão e saiu correndo na direção da casa.
No visor do celular, havia uma foto de Rachel, vestida com uma fantasia de pato.
