Cuddy teve alguma dificuldade em abrir a porta, mas assim que conseguiu, correu para dentro da casa. Estava um silêncio perturbador e ela mal conseguia respirar. Ela caminhou pelo corredor, os saltos ferindo seus calcanhares.

Do canto, viu Marina caída no chão, de costas para ela. Cuddy correu até ela, temendo o pior. Deu uma breve olhada sobre o corpo, não havia sangramentos nem ferimentos, ela estava respirando normalmente. Cuddy deslizou o dedo e analisou as órbitas oculares dela. Pupilas dilatadas. Ela estava sedada, drogada ou qualquer coisa do gênero.

Cuddy sentiu um aperto no peito. Rachel.

Ela correu até o quarto, abrindo a porta com força e pulando até a pequena cama. Ela não estava lá.

Chamou a pequena algumas vezes, na esperança de ser mesmo uma simples brincadeira de esconde-esconde. Nada. Cuddy ajoelhou-se na beira da cama e começou a chorar. Ela devia ter assinado o tratamento. Talvez a paciente até melhorasse. O que ela ia fazer agora? Não podia envolver a polícia. Não podia envolver ninguém.

Cuddy limpou o rosto com o torso da mão direita e notou uma caixa rosa do lado da cama. Ela abriu a caixa e havia um pequeno bilhete dizendo "Presentinho da mamãe! Fique linda para mim" e uma assinatura. Meu Deus! Era a assinatura dela, tão perfeita que até ela poderia se confundir. Na nota fiscal constava uma fantasia de pato tamanho infantil.

Cuddy levantou-se, os batimentos acelerados e a vista turva. Voltando ao corredor, puxou Marina até o sofá, deitando-a e rezando aos céus para que ela acordasse sem seqüelas. Cuddy passou por todas as janelas e portas, certificando a hipótese de arrombamento ou alguma negligência de Marina. Mas não, não havia erro. Estava tudo trancado.

Ela estava na sua fortaleza protegida e trancafiada, mas mesmo assim essa pessoa conseguia atingi-la. "Trocar as fechaduras não vai me manter do lado de fora." - Essas palavras faziam jus ao sentido agora.

Se ela tivesse escutado antes, Rachel estaria aqui. Droga, droga, droga.

As lágrimas voltaram com força e ela escorregou pela parede abraçando as pernas. Cuddy ofegou contra a própria dor e apoiou a cabeça contra os joelhos. Precisava de algum tipo de esperança.

Longe dali, seu celular tocou.

Ela levantou e começou a procurar o local onde havia jogado a bolsa. Encontrou-a perto da garagem. Havia várias chamadas perdidas. Ela colocou o celular no bolso, mas em questão de poucos segundos, ele estava tocando novamente.

Ela olhou para a tela, respirou fundo e atendeu.

"Por favor, não a machuque."

"Você quer sua filha de volta, Cuddy?"

"Por tudo de mais sagrado, não a machuque. Eu faço o que você quiser."

"Muito bem. Agora estamos falando a minha língua. Eu tenho uma tarefa para você."

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHH

"Mas é muito mulherzinha mesmo! Pede truco!" - gritou Wilson, segurando as cartas em uma mão e uma cerveja na outra.

Na mesa quadrada, havia uma pilha razoável de dólares e várias cartas espalhadas.

Wilson estava sentado frente-a-frente com Foreman, enquanto House e Taub cruzavam a mesa e tentavam medir o prejuízo da última jogada.

"Eu disse para jogar o coringa na última jogada, Nanico".

"Eu não tinha coringa para jogar! Como eu ia fazer isso?" - Berrou Taub, furioso.

House ergueu as mãos e lamentou:

"Mas eles não sabiam disso."

Foreman deu risada e House virou-se para Wilson.

"Isso não é justo! Por quê vocês jogam em três e eu jogo com metade de um jogador?"

"Três? A cerveja já fez efeito, House?" - Wilson estava rindo sem parar.

"Só o Denzel ali já vale por dois." Respondeu ele, balançando as sobrancelhas indicando Foreman.

O celular de Taub tocou, e ele se afastou da mesa. House o seguiu com os olhos, sua mente brilhante trabalhando.

"Oh, Taaaaaub seu gostosão! Venha cá, volte para cama pequena mina de tesouros. Uh"

Taub olhou para trás com uma cara fechada. Fez sinal de silêncio e voltou a falar. Foreman entrou na brincadeira:

"Venha logo, Astroboy, vem cá me mostrar seu canhão laser, ui, ui"

Os três caíram na risada quando ele voltou todo nervosinho.

"Viu o que vocês fizeram? Vou ter muito a explicar quando chegar em casa."

"Do que você está reclamando?" - Indagou House, enquanto bebericava sua cerveja "Devia estar grato, nós nem contamos para ela que você já deu uns amassos na moça da Radiologia."

Taub ia responder, e dessa vez o celular de House tocou. Ele olhou com desdém, imaginando que fosse Cameron ou até mesmo alguma enfermeira maluca. Cuddy? Ele se afastou da mesa, indo para o quarto, deixando os três tirando sarro dele.

"Cuddy?"

"Boa noite, House. Nós podemos nos encontrar?"

"Agora?"

"Sim."

"Onde?"

"HardRock Café."

"Te encontro lá em 10 minutos."

"Combinado."

House desligou o aparelho e ficou pensando na situação por alguns segundos. Cuddy havia enlouquecido ou então estava bêbada. E qualquer que fosse a hipótese correta, valia a pena ver de perto.

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHH

Cuddy estava maravilhosa vestida com um macacão de tafetá branco. Ele desenhava gentilmente todas as curvas sinuosas do seu corpo, e seus ombros estavam cobertos por uma jaqueta de couro.

Os cachos caíam perfeitos sobre o couro, e ela olhava pela janela, pensativa. Ela balançava o pé em inquietação, e sua ankle boots acabara fazendo um batuque infernal.

House entrou e andou pacientemente até ela. Ela não o encarou logo de início. Parecia mais que ela estava procurando uma maneira de olhá-lo nos olhos, mas sem sucesso. Ele sorriu e ela sentiu-se mais calma.

"Espero que haja um bom motivo para estarmos aqui. Deixei Wilson, Taub e Foreman na minha casa. Eles vão investigar tudo até eu voltar."

Cuddy deu um pequeno sorriso. Os olhos dele criaram um lampejo de brilho.

"Eu precisava te ver."

Cuddy manteve o olhar no dele. House reajustou-se no banco. Ele não sabia o que era mais desconfortável: a cadeira ou a objetividade dela. A garçonete se aproximou e ele pediu uma cerveja. Cuddy estendeu-se e pediu um Whisky puro. O pedido e as unhas pintadas de preto chamaram a atenção dele.

Sexy.

Assim que a garçonete sumira, ele percebeu que ela ainda estava o encarando. Porque ela estava fazendo isso? Ele podia facilmente perder o controle. Ela estava vestida como um furacão sexual, arrastando toda gota de testosterona para seu redor. Seu instinto natural era agarrá-la ali e beijá-la como se pudesse derretê-la com a língua.

E para melhorar, ela ficava provocando.

"Cuddy, você não vai me contar o que esta acontecendo?"

A garçonete voltou com as bebidas e se retirou rapidamente. Cuddy tomou um longe gole do Whisky. Parecia estar decidindo o que iria falar. Era como se ela tivesse escolhendo as palavras. House achou aquilo estranho, mas resolveu não comentar.

"Eu não consigo esquecer o que houve entre nós. Eu sei que você não quer nada de mim a não ser meu corpo, mas eu simplesmente não consigo tirar você da minha cabeça. Eu te quero. Me desculpe por isso. É impróprio e tão inadequado, mas é assim que eu me sinto."

House ficou estático. A garganta secou. Ele tocou a mesa com as pontas do dedo e procurou o olhar dela. Que, convenhamos, estava tão assustado e surpreso quanto o dele. Ele pensou em dizer muitas coisas, mas as palavras chegavam na ponta de sua língua e voltavam correndo para o fundo da faringe. Cuddy respirou fundo, jogou umas notas sobre a mesa e foi em direção à saída.

Ele jogou mais algumas notas e a seguiu.

"Cuddy!" Ele chamou, ela continuou andando pela lateral da lanchonete, dirigindo-se ao estacionamento, ignorando-o. Ela virou à direita e ele a perdeu de vista. Ele se esforçou em andar mais rápido, a dor em sua perna aumentou, ele não se importou.

Assim que ele virou á direita, quase caiu por cima dela.

Ela o estava esperando. House pensou em dizer alguma coisa. Mas ela chegou ainda mais perto dele e sussurrou.

"Me desculpe."

E fora seu fim. Ele sentiu as costas sendo jogadas contra a parede. Cuddy o encurralou e colocou uma das mãos espalmadas sobre a parede, bem ao lado do rosto dele. Com a outra mão, ela instintivamente o pegou pela nuca e puxou para si.

E foi assim. A língua dela invadiu a boca dele e ele não processou nenhuma outra resposta que não fosse a mais óbvia: corresponder. Suas mãos se apertaram contra a costa dela e a nuca, puxando-a para si, abafando o desejo. Ela segurou a nuca dele com as unhas e o manteve no lugar onde ela o queria, enquanto seu corpo voluptuoso encaixou-se contra o dele, provocando sensações irrecuperáveis.

No entanto, a visão do paraíso foi apenas uma miragem. Tão rápido ela o pegou de jeito e ainda mais rápido ela se desvencilhou dele e entrou no Land Rover, cantando pneus na direção da avenida principal.

House passou os dedos sobre os lábios com uma única certeza.

Ela tinha que ser sua.

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHH

Lágrimas rolavam dentro do Land Rover, levando consigo maquiagem e princípios. Cuddy odiou-se por ter que fazer aquilo pelos motivos errados, odiou a pessoa que a chantageava, odiou House por corresponder ao beijo.

Ela o queria com tanta força, mas não assim. Não nessa circunstância. Os lábios dele eram como seda egípcia sobre os lábios dela. Fora a melhor sensação do mundo. Foi a coisa mais ardente do mundo. Mas se ele soubesse o porquê de ela ter feito aquilo, jamais a perdoaria.

A verdade é... Ele nunca a perdoara.

Ele sempre a culparia por todos os mínimos erros de sua vida. E ainda assim ela o amava, por mais misantropo que ele conseguisse ser. O amor realmente é um sentimento muito complexo.

O telefone tocou, tirando Cuddy dos seus devaneios. Ela leu a mensagem vinda de restrito.

"Boa menina. Vá para casa, eu estou cumprindo minha parte do trato."

Ela acelerou o máximo que pôde para chegar a casa. Cuddy entrou na garagem com exímias habilidades de direção, e correu.

Passando pela porta da entrada, ouviu a risada de Rachel.