Princeton Plasboro, 10 horas da manhã.

Cameron voltou para o vestiário afim de deixar um presente no armário de Chase. Obviamente, ele nem desconfiava. Já fazia dois meses que eles estavam, hum, entretidos um com o outro. Tudo bem que ela havia se questionado sobre ele quando Tiler West apareceu. Mas não era exatamente culpa dela. Tiler West possui características capazes de seduzir instantaneamente.

Enfim, Tiler parecia só ter olhos para uma mulher dentro do hospital e Cameron não se arriscaria a competir com ela.

De qualquer modo, ela havia retornado seu olhar para Chase. O australiano que se esforçava tanto em fazê-la feliz, embora ela o jogasse de um lado para o outro assim como fazia com o seu humor vagamente bipolar.

Ela abriu o armário dele e pensou que ele poderia ter sido mais esperto do que com essa combinação. Então afastou alguns livros e colocou a caixinha delicadamente no canto esquerdo.

Quando retirou a mão, notou que o pulso estava com uma mancha. Ao olhar no fundo do armário, seus olhos se arregalaram e ela ficou pálida.

Havia uma marreta usada e um frasco de tinta spray.

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHH

Wilson estava em pé no balcão da clínica, apenas observando a correria. De longe, via Lisa correndo entre uma reunião e outra, consciente da sua imensa responsabilidade dentro do hospital. Ele pesou os prós e os contras do cargo dela, e pelo menos na opinião dele, havia muito mais contras.

Não vinha ao caso, afinal. Ele estava preocupado com os últimos acontecimentos. Cuddy não estava agindo normalmente. Na verdade, toda a história do beijo em House, toda a história do carinho com que o Dr. West a tratava... nada disso era compreensível.

Ele não a sentia tão tensa assim desde quando Tritter andava pelos corredores do hospital procurando vestígios de House. Ou quando Vogler decidiu seguir de perto todo e qualquer suspiro dado por ela.

Ele a viu entrar na sua sala, apressada, os saltos vertiginosos batendo furiosamente contra o mármore enriquecido. Bateu na porta logo em seguida.

"Entre"- ela respondeu, sem entonação nenhuma na voz.

Ao ver o rosto dele, os ombros dela relaxaram e ela deu um meio sorriso.

"Diga, Wilson, no que posso ajudar?"

"Esperava por outra pessoa, Cuddy?"

Ela deixou de olhar para a agenda e voltou a encará-lo, e então Wilson pode ver de perto o quanto ela estava cansada.

"Não, por que a pergunta?"

"Você pareceu aliviada ao me ver. Quer dizer, parece que esperava alguém menos agradável."

"Acho que foi impressão sua." - Continuou ela, voltando os olhos para seu Blackberry.

"Cuddy, você vai me contar o que está acontecendo?"

Cuddy levantou o olhar, surpresa. Ela engoliu em seco, vagarosamente e respirou fundo.

"O que você quer dizer?"

Wilson sentou-se no sofá e a encarou. Ela sabia que não ia convencê-lo de que não havia nada errado. Mas também não podia dizer nada. Ela sabia que qualquer palavra que escapasse à respeito da sua atual situação poderia colocá-lo em perigo iminente. Ela continuou encarando-o, esperando com otimismo que ele desistisse dessa conversa.

"Porque você beijou o House?"

Pronto. Ela havia encontrado uma brecha para mudar de assunto. Não era exatamente algo que ela gostaria de discutir, mas era melhor do que a verdade.

"Wilson, eu... eu gosto dele de verdade. Não era a melhor maneira de
expressar, mas naquele momento eu perdi o controle. Ele também não me procurou depois do ocorrido, então pressumo que não foi o que ele esperava ou queria."

Ele ríu.

"Ah, Cuddy. Não me venha com essa de 'não era o que ele queria'. Gregory House quer te beijar desde que... se tornou Gregory House. É a realização da fantasia dele. No entanto ele deve pensar que você está envolvida com o Dr. West, assim como metade do hospital pensa."

"Isso não tem um pingo de verdade. Eu não tenho nenhum tipo de relacionamento pessoal com Tiler West. Ele é apenas um empregado."

"Não é o que as pessoas dizem, mas quem sou eu para duvidar da sua palavra?"

"James."

Wilson a olhou, ainda quieto. Ela era péssima em mentir para ele.

Provavelmente para o conselho ou para sua mãe ela fosse uma exímia mentirosa, mas para ele obviamente não. Ela não ia ceder. Merda.

"Tudo bem, Cuddy. Não vou me intrometer."

Ele se levantou, Cuddy seguiu seus movimentos. Ele se aproximou dela e a beijou docemente, mantendo os lábios na bochecha dela carinhosamente.

"Tome cuidado, Cuddy. Não quero ver nenhum dos meus dois melhores amigos machucados."

Cuddy ficou observando enquanto ele saía, pensativo. Sua postura firme desmanchou assim que ele fechou a porta atrás de si.

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHH

"O que eu não entendo é porque você estava mexendo no meu armário, Allison!"

"Como assim, 'mexendo no seu armário'? Eu fui deixar um presente, Bob. UM PRESENTE. Não é minha culpa se você esconde a prova do crime lá."

Chase deu um soco na porta de vidro, causando um grande estralo e assustando-a.

"Eu não fiz nada. Eu nem sei de onde saiu aquela marreta, você tem que acreditar em mim, que merda."

"Robert, é meio que dificil não é? Você sempre teve uma raiva incontrolável do

Tiler e isso veio a calhar, não é? Você estava lá quando teve aquela ceninha dele com a Cuddy! Você fez isso para incriminar o House?"

A voz dela caia lamentando e rasgando-lhe a garganta, num som gutural.

"Estava demorando para você colocá-lo na conversa. Toda maldita discussão que temos, você sempre consegue colocar Greg House no meio. É uma pena que ele não te queira, não é?"

Cameron o encarou, furiosa. Ela levantou-se, olhou no espelho e arrumou uma mecha de cabelo que lhe caía sobre o ombro.

"Prepare-se para falar com a polícia. Eles saberão de tudo pela manhã."
Dito isso, ela pegou seu casaco e saiu, deixando Chase extremamente chocado.

HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH HHHHHHHHHHHHHHHHHHH

Cuddy já estava com a cabeça cheia.

Pelo menos os motivos eram reais. Restrito havia dado uma trégua ou então estava planejando algo grandioso e cruel. No momento, essa preocupação podia ser descartada.

As costas doíam de tanto ficar sentada naquela cadeira horrível do conselho. E depois a conversa perigosa de Wilson, e toda a sua preocupação com a segurança de Rachel... ela era feita de carne e osso mas estava vivendo como se fosse feito de aço galvanizado.

Não podia continuar naquele ritmo horrorendo. Alimentando-se de saladas e vivendo de ginástica e trabalho. Ela vasculhou a bolsa e encontrou um vidro de Vicodin que havia confiscado de House. Fosse bom ou não, ela não estava se importando.

Mal havia jogado o comprimido garganta abaixo com dois goles de agua, a porta se abriu, barulhenta.

House.

Ele entrou, arrogante e prepotente, e fechou a porta. Caminhou lentamente até o sofá e sentou-se, interrogando-a com os olhos.

Ela endireitou na mesa e apoiou um dos cotovelos, criando uma base para o queixo, numa típica careta de tédio.

"Podemos pular para a parte em que você fala porque está aqui?"

"Certo. Você quer que eu seja objetivo, eu serei. Porque você me beijou?"

Cuddy engasgou com a pergunta; ela tornou a olhá-lo, mas ele apenas entornou o olhar, mais sério, exigindo uma resposta. Ela não sabia o que dizer. Pelos céus, ela era Lisa Cuddy, reitora de medicina, administradora daquele hospital, chefe da maioria do quadro de funcionários - e estava sem palavras. Totalmente sem ação.

"Foi uma brincadeira, uma aposta, uma curiosidade, uma fantasia... as opções são muitas, Cuddy."

Porque ele tinha que perguntar isso, merda? House nunca havia sido o cara que confronta. Mas naquele momento ele parecia sinceramente interessado em obter uma resposta.

"House, eu já respondi isso naquele dia."

Cuddy levantou-se e deu uma breve olhada pela janela, pensando em como se explicar. Não havia saída. Ela caminhou lentamente até a frente da mesa e encostou-se ali, a mesa pressionando seu quadril.

House não estava satisfeito.

Ele rodou a bengala na mão, duas, três, quatro vezes. Aquela não era a resposta que ele esperava. Não era suficiente.

"Você me atacou, Cuddy. Tente ser um pouco mais específica."

"Eu desejo você, todo santo dia. É suficiente?"

House arqueou a sobrancelha, incrédulo com a honestidade dela. Ele não achou que ela fosse dizer a verdade tão descaradamente. Ele levantou-se, olhou-a nos olhos, tão profundo que poderia assistir aos pensamentos correndo pelas suas veias.

"Eu desejo você há anos mas não é por isso que fico te beijando assim que me dá vontade."

Ela respirou fundo. Aquilo era inédito. A honestidade de sentimentos era inédita e provavelmente uma oportunidade única. House jamais diria uma coisa daquelas sem algum motivo. Ele sabia de algo ou então estava enlouquecendo pelo que acontecera no HardRock.

"House, isso foi... inesperado".

"Algo está acontecendo com você, Cuddy. É meio que óbvio. Você não iria me arrastar para um café e me beijar se não tivesse fortes razões para isso. É interessante demais para eu simplesmente esquecer."

Cuddy abaixou a cabeça e desistiu de olhá-lo nos olhos. Era esforço demais para manter a muralha em frente aos mísseis azuis. House observou a atitude dela, sua mente trabalhando incessantemente. Ele virou-se de costa para ela, e ela desencostou-se da mesa para acompanhá-lo até a saída.

Mas House não ia sair. Em questão de segundos, sem que ela se desse conta da rapidez, ele se virou e um dos seus braços enlaçou-lhe pela cintura, enquanto a outra mão encontrou repouso enrolado aos seus belos cachos.

A boca dele alcançou a dela, e não encontrou nenhuma resistência. Ela queria aquilo tanto quanto ele. Ela esperava por isso, como a vegetação seca espera pela tão aguardada chuva. A língua dele invadiu-a, com força e sabor, dobrando-se e circulando com movimentos desordenados, fazendo-a revirar os olhos de prazer. Eles cambalearam até que o quadril dela encostou na mesa e ela ficou presa entre a mesa e House.

"A porta está a-berta, House."

As mãos dele desceram sensualmente pela região lombar dela, até House abrir as mãos afim de cobrir todo o seu traseiro com as palmas e puxá-lo com força em sua direção, arrancando um gemido rouco dos lábios dela.

"Ho-u-se." A respiração dela estava entrecortada, ele não a deixava respirar direito. Ele desceu da boca pela linha do queixo e sua boca deslizou pelo pescoço dela, fazendo-a se render. Ela deu um longo suspiro e House sorriu. Fim da batalha. House beijou-lhe o pescoço, deslizando a língua por ele afim de arrepiá-la.

"House, isso é um erro, isso não vai dar certo, eu..."

Ele mordiscou o nóbulo da orelha dela, enquanto sussurava - "Você quer isso e eu também. Relaxe."

O homem era como o calor do Nirvana sobre a pele. Cuddy pensou um inúmeras razões para rejeitar aquela situação, esperou alguma orientação 'restrita', algum sinal, mas nada ocorreu. Ao que parecia, tudo conspirava para aquele momento libidinoso. Quando a língua dele deslizou sobre a sua novamente, ela perdeu toda a linha de raciocínio.

Era tarde demais, ela não queria parar. Seu corpo já estava em chamas.