Flashback on

15 de setembro, 6h da manhã.

Cuddy corria pelo quarteirão vizinho ao seu, o Ipod ligado em volume mediano. Estava cedo, mas o sol já aparecia timidamente, assim como as poucas pessoas que passavam por ela. Ao som de Limp Bizkit, ela corria quase que incansavelmente.

Ao virar a esquina, ela notou um homem encostado na parede e com a cabeça abaixada por ele, sentiu um braço forte puxá-la para trás com tanta força que a levou ao chão. Mesmo com a cabeça atordoada devido à forte pancada, Cuddy sentiu que estava sendo arrastada para um beco escuro.

"Não grite" - ordenou o homem.

Flashback off

Cuddy deixou-se sorrir. Já fazia duas semanas desde que ela aceitara que House entrasse em sua vida. Ela só se sentiria mais feliz e satisfeita, principalmente mais satisfeita, se Foreman não os tivesse interrompido naquele dia em seu escritório.

Era como um caso adolescente não resolvido. Eles não conseguiam ultrapassar de beijos e amassos e não era por falta de vontade - ambos queriam mais e mais do outro - mas sim porque a agenda lotada e o excesso de obrigações havia tomado conta deles. Mas no final das contas, ela não tinha do que reclamar. House tinha sido um cara irreconhecível esses dias, tratando-a com um carinho e afeto que ela nem sabia que ele poderia sentir.
Ele até lhe trazia seu café todas as manhãs. Isso era mais engraçado e inacreditavel do que romântico.

Agora, sentada na mesa lendo a página de negócios do jornal, ela cogitou a possibilidade de estar com ele. Na cama. Vestindo apenas seu par de Louboutin.

"Mãe, será que eu posso pintar meu cabelo de azul?"

Rachel a libertou de seus pensamentos eróticos e inadequados para o café da manhã. Ela estava sentada na sua frente comendo aqueles cereais de borboleta. Houve uma pequena guerra entre as duas por causa desses cereais bobos, e engraçado, Rachel ganhara a batalha.

"Me pedir um livro ou alguma coisa com um pingo de cultura você não quer, não é Rachel Lola Cuddy?"

Marina voltou para a cozinha, deixando ambas sozinhas. Rachel mastigou o cereal rapidamente e voltou a falar.

"Cultura é coisa de gente velha e eu sou só uma criança."

"Exatamente. Pintar o cabelo de azul não é coisa de criança, mas de gente ve-lha."

Rachel cerrou os olhos, tentando entender como a mãe havia lhe passado a perna. Segundos depois ela terminou de comer e desceu da mesa.

"Não tem problema, vou pintá-lo com papel crepom e todos vão me achar descolada."

Cuddy revirou os olhos, sorrindo. Ela não sabia como, mas tinha certeza de que aquele ar de rebeldia e indiferença social que Rachel tinha era idêntico à aquele com o qual ela tivera que lidar por 20 anos.

Marina retornou e sentou-se na mesa, comendo torradas. Cuddy olhou para ela, que parecia ter uma serenidade fora de série. Marina era sua companheira e pessoa de maior confiança, desde que ela adotara Rachel e precisou de alguém para socorrê-la.

E ao mesmo tempo que Cuddy precisava que Marina desdobrasse a atenção em Rachel, ela não podia cobrar isso da babá. Não podia falar nada.

Ou podia? Restrito havia desaparecido, embora ela sentisse sua presença 24 horas por dia. Ela nem pensara em comentar aquilo com House , Wilson ou quem quer que fosse. Seguira as riscas todas as orientações desde o episódio com o sumiço da filha. Mas talvez, talvez um pouco de ajuda fosse inofensivo. Ela tinha House ao seu lado. Não podia dar errado. Na verdade podia, mas ela tinha que arriscar.

"Marina, será que eu poderia te fazer um pedido? É de extrema importância."

"Sim, senhora Cuddy."

Cuddy esticou os braços preguiçosamente, arrumando-se na cadeira. Marina sentou-se bem perto dela, como que para ouvir um sussurro.

"Marina, a Rachel não está totalmente segura aqui. Por favor, não descuide dela por um segundo sequer, pois pode ser o suficiente para alguém desaparecer com essa menina. Você me entende?"

"Na verdade não, doutora. O que está acontecendo? Tem um seqüestrador à solta?"

"Bem... digamos que sim. É provável que tenha alguém de olho nela, mais interessado em me atingir do que atingir a Rachel em si. É por isso que estou te pedindo que não se descuide. Qualquer tempo perdido é irrecuperável."

"Essa pessoa tem alguma a ver com o meu desmaio, doutora?"

Marina entendera que seu desmaio não havia sido natural. Nada a convenceria de que tinha deixado Rachel no quarto e então cochilado com tanta força para cair dura no chão.

Ela era simples, mas não burra. Tinha certeza de que algo acontecera e mesmo depois que acordou com Lisa e Rachel brincando no chão da sala, ela sabia que algo estranho tinha acontecido.

"Sim, essa pessoa te sedou como um aviso de que ela pode pegar Rachel assim que der na telha. Eu sei que nem tudo está sob o seu controle, Marina, mas faça o que puder para manter minha pequena princesa a salvo, tudo bem?"

A babá deu um sorriso reconfortante para ela.

"Eu daria até a minha vida por esse pequeno tornado, doutora."

Cuddy sorriu, e o celular tocou estridentemente, acostumado a estragar todo e qualquer momento da vida pessoal dela. Ela deu uma breve olhava na tela e voltou a olhar para a mesa, mas Marina não estava mais lá.

Flashback on

15 de setembro, 6h e 15 da manhã.

Cuddy deu um grito que foi abafado por uma mão forte. Ela tentou empurrar aquele homem asqueroso, sabia que as intenções dele eram as piores possíveis. Meu Deus, como ela tinha ossos delicados. Parecia que iam quebrar assim que ela os forçasse mais um pouco. Os olhos dela tinham o brilho da dor, a mais pura expressão de pavor e medo.

Sem entender como, o homem já havia se posicionado entre as pernas dela e ela podia sentir a ereção dele sobre a calça de moletom. O vômito subiu pela sua garganta, deixando enojada. Cuddy conseguiu desvencilhar-se, e empurrou-o com o pé para tentar sair daquela armadilha, o homem parecia um polvo com tentáculos que a prendiam de maneira inexplicável.

"Cale a boca, vadia desgraçada."

Ele puxou-a pelo cabelo e Cuddy começou a chorar, desapontada com a sua falta de força. Ela tinha que fugir. Aquilo não podia acontecer. Cuddy sentiu uma mão apertar a sua traquéia com força, enquanto outra mão deslizava sobre o seu abdômen, por baixo da sua camiseta.

Terror era a palavra certa para descrever sua mente. Em um lampejo de lucidez, Cuddy tateou no escuro e encontrou alguma coisa. Ela não sabia o que era, mas não precisou identificar. Com toda a sua força, bateu o objeto então desconhecido contra a cabeça de seu agressor. O homem caiu ao seu lado, atordoado e para a sua surpresa, começou a convulsionar.

Cuddy levantou-se o mais rápido que pode e começou a correr, pela segunda vez naquele dia. Dessa vez, ela corria por um motivo diferente.

Medo.

Flashback off

Já era quase meia noite quando Cuddy colocou Rachel na cama, adormecida. Ela cobriu seu pequeno tronco, debruçando-se sobre a mesma e depositando um beijo suave na bochecha rosada. Nos cabelos havia alguns resquícios de azul, e ela teve que sorrir. Era um verdadeiro desafio lidar com uma personalidade tão forte. Como uma menina de 5 anos podia ter tanta presença de espírito?

Cuddy foi até a cozinha, retirando um pote de sorvete do refrigerador. Com a colher em mãos, saciou a sua fome de doce. Ela estava pronta para a segunda colherada quando o celular tocou. Um meio sorriso atravessou sua face. House.

"Não consegue dormir, Dr. House?"

Ela podia sentir o sorriso dele do outro lado da linha.

"Você quer que eu durma aqui?"

"Onde mais você iria dormir, House?"

"Vai pegar mal se seus vizinhos pegarem um manco dormindo na porta da sua casa, Cuddles."

Cuddy caminhou até a janela, e olhou. Nada. Ele estava brincando com ela? Ela abriu a porta e se deparou com ele sorrindo, trêmulo pelo frio constante da noite. Ela estendeu o braço, convidando-o a entrar e fechando a porta atrás de si.

Enquanto ele retirava o casaco gelado, ela fora até a cozinha e trouxera um copo de chá bem quente para ele, entregando-o com um sorriso maldoso nos lábios.

"Chá? Que bebida de mulherzinha é essa? Cadê o café dessa casa?"

Cuddy sentou-se no sofá e bateu no encosto para que ele se sentasse também. Ele obedeceu, e virou-se para o lado, encarando-a.

"Ou é chá ou então morra de frio."

"Cuddles, onde você aprendeu essa doçura toda?"

Ele colocou a xícara sobre a mesinha de centro, até virar-se para Cuddy e deslizar os dedos nos cabelos dela. Ela fechou os olhos, suspirando pelo contato. A mão dele roçou pela linha do maxilar dela, até que o polegar encontrou os lábios semi-abertos e deslizou sobre eles, suavemente. Ela deu uma leve soprada de ar, eriçando os pelos da nuca dele.

House aproximou-se ainda mais dela, roçando os lábios no dela, provocando, incendiando, antecipando. Cuddy entregou-se à sensação, mas manteve a submissão, esperando que ele tomasse o próximo passo. House então deixou um braço escorregar pela cintura dela, mantendo-a bem perto e deixou que a língua deslizasse para dentro da boca dela.

Cuddy logo correspondeu ansiosa. Ela o puxou contra si, deitando-se por baixo dela no sofá. O beijo era lento, provocador, quente. Não havia pressa, mas havia o gosto que era a cada segundo mais inebriante. Cuddy encaixou as pernas por fora das pernas dele, prendendo-o entre as suas pernas. Faltou-lhes o fôlego.

"Onde está o pequeno terremoto?"

"Dormindo."

"Perfeito." Ela sorriu com a resposta dele e ele retirou-lhe o sorriso por tomar seus lábios novamente. Preguiçosamente, porém com mais fogo do que talvez fosse possível.

Ele deslizou a mão pela perna dela até apertar com força e desejo a nádega esquerda, arrancando dela um gemido rouco. Ele a queria tanto. Não podia mais esperar. Foram semanas e ele estava cansado de engolir o desejo em seco. Situações inoportunas, funcionários inconvenientes, trabalho, reuniões, Rachel... Privacidade era algo desconhecido para ambos.

House acabara de sugar-lhe o pescoço quando a campainha tocou. Uma, duas, três vezes. Ele ignorou e continuou beijando, os lábios descendo na direção do colo.

"House, deve ser importante."

"Não é."

Ela estava decidida a parar, mas então ele roçou sua ereção contra ela, fazendo respirar bem fundo.

"Polícia! Abram a porta."

Os olhos dela abriram instintivamente, e House saiu de cima dela, contrariado. Cuddy sentiu um arrepio correr pela sua espinha enquanto caminhava rapidamente até a porta. Ela abriu o trinco e deu de cara com dois agentes, um aparentemente jovem em torno de seus 25 anos e outro mais adulto, talvez de 35 ou 40 anos.

"Lisa Cuddy?" - O mais velho perguntou solene e profissional.

"Sim, sou eu."

"A senhora conhece Marina Gonzalez?" - O ar sério do policial a deixou em alerta.

"Sim, ela é babá da minha filha. Aconteceu alguma coisa?"

House já havia se levantado e mancado até ela, posicionando-se silenciosamente atrás dela, encarando os policiais.

"Você sabe que horas exatamente a senhora Marina Gonzalez saiu da sua casa?"

"Sim, ela saiu daqui ás 17:40h, disse que tinha que ir embora rápido por conta de umas tarefas domésticas."

Os policiais trocaram um longo olhar, silencioso. O mais novo assentiu com a cabeça e se afastou, enquanto discava um número no celular.

"Lisa Cuddy, solicitamos que você permaneça no país até segunda ordem. É de extrema importância que você esteja acessível e disponível para qualquer tipo de investigação."

"Sim, eu entendo, de qualquer maneira eu não pretendia sair do país. Será que eu posso saber o que está acontecendo?"

"A senhora Marina Gonzalez está desaparecida, e a última pessoa a vê-la foi a senhora. Vamos esperar as 48 horas para abrir um inquérito de busca, mas no entanto não podemos esperar todo esse tempo para procurá-la. A família está desesperada."

"Mas, a Ma.. rina, ela estava ótima quando saiu daqui e..."

Cuddy estava meio tonta, House a segurou pelos braços e a puxou para dentro.

"Estaremos aqui ou no hospital para eventuais conversas, sintam-se à vontade." - Responde House, dispensando-os e fechando a porta.

Ele a levou até o balcão, olhando-a nos olhos e reparando se houvera alguma ruptura emocional. Não, ela estava bem. Confusa e desnorteada, assustada, mas bem. Ela estava trêmula, e quieta. Ele se preocupou. Passando os braços dos ombros para a cintura, House a puxou para si forçando um abraço perfeitamente encaixado.

Cuddy deixou-se abraçar, os braços fortes de House mantendo-a segura enquanto ela sussurrava aos céus que não tivesse ocorrido nada de mais com a sua babá. Ela ainda estava com a cabeça enterrada no pescoço dele quando o celular vibrou em sua mão e ela respirou fundo antes de olhar para a tela. Ela já sabia o que esperar.

"Ninguém mandou você abrir a boca. As regras eram: 'Não conte para ninguém'. Você infringiu e alguém vai pagar. Procure uma nova babá."

Restrito mostrara, mais uma vez, que ela não estava no controle.