Flashback on

15 de Setembro, 7:45h da manhã

House tinha um caso novo e Cuddy estava totalmente trancafiada na sua sala desde que chegara ao hospital. Ninguém se atrevera a perguntar porque a chefe estava quieta ou irritada. Ela pediu para cancelar todas as suas reuniões e adiou uma apresentação ao conselho.

Enquanto não podia averiguar o que se passava com sua chefe House tentou manter-se atento ao seu caso. Homem caucasiano, 35 anos, traumatismo, erupções cutâneas, dificuldades para respirar, batimentos cardíacos desregulares e convulsões.

Era um dia de sorte.

Flashback off


Quando House acordou na cama de Cuddy, ela já havia desaparecido. Ele lembrou-se de ter cuidado dela enquanto a mesma soluçava insistentemente em favor da babá desaparecida. Ela sabia o que diziam sobre os imigrantes que desapareciam, na certa estavam mortos ou deportados.

E ambas as opções a machucavam e ele não quis ir embora, por mais que ela tivesse insistido. Não havia acontecido nada entre eles, infelizmente, mas não era motivo suficiente para ele deixá-la sozinha numa situação como essa.

Obviamente, Lisa Cuddy acordou junto com os galos e já estava no hospital enquanto ele se questionava se devia levantar ou não. Era cedo demais. Ele precisava de repouso. Talvez fosse melhor não ir trabalhar.

Na certa, Cuddy voltaria para casa furiosa e eles enfim teriam uma briga seguida de sexo com raiva. Era tudo que ele queria.


Flashback on

15 de setembro, 08 horas da manhã.

Cuddy caminhou calmamente pelos corredores do hospital, tendo por destino a sala de House. Os saltos arrogantes da Prada faziam um som estranho quando encontravam o piso do hospital, era quase como gritos bem agudos e quase imperceptíveis. Todos a olhavam, alguns disfarçadamente e outros de maneira escancarada. Ela usava uma saia preta e uma blusa decotada vermelha, os cachos recém adquiridos e cortados jogavam-se pela sua costa.

Cuddy olhou através do vidro e não havia ninguém no escritório dele. Ela dirigiu-se ao painel de cirurgias. House e sua equipe estavam na sala A3, e foi para onde ela se dirigiu. Mais olhares, mais sussuros. Essa era a eterna realidade de Lisa Cuddy.

Ela puxou a manga da sua blusa para cobrir os pulsos arroxeados, e abriu silenciosamente a porta da galeria, fechando-a imediatamente atrás de si. Ela dirigiu-se até House.

"House, preciso do relatório do caso da Adele Kahn para ontem. Você já devia ter me entregado."

"Depois a Cameron leva na sua sala. Estou bem mais interessado na cirurgia desse paciente." Ele a olhou profundamente, preocupado com o bem estar dela. No entanto, ele também queria acompanhar aquele procedimento.

Cuddy olhou nos olhos dele e aproximou seu corpo, pensando em inúmeras maneiras de humilhá-lo e mostrar aos demais que ela era a chefe daquele caríssimo hospital.

"Você tem até as 14h para entregá-lo. Caso contrário, corto seu suprimento de Vicodin."

E então, ela olhou para baixo. O sangue parou de correr nas suas veias no exato instante em que ela se aproximou do vidro para ter certeza do que estava vendo. Ali, estirado sobre a mesa cirurgica do seu hospital, estava o homem que a havia atacado. Provavelmente seu corpo havia sinalizado algo aterrorizante, pois House levantou-se para certificar-se de que ela estava bem.

"Está tudo bem, Cuddy?"

Cuddy não respondeu, apenas saiu cambaleando da galeria o mais rápido que pode.

Flashback off


"Onde é que está aquele maldito do House?"

"Ele não veio hoje." Respondeu Chase, voltando os olhos para o microscópio metafísico à sua frente.

Cuddy encarou Foreman, mas ele apenas levantou os ombros, sinalizando a sua falta de informação ou falta de interesse. Talvez ambos. De qualquer modo, restou perguntar a Cameron, mas ela não estava presente.

Cuddy deu meia volta e voltou para o saguão, chamando Laine.

"Laine, ligue para aquele maldito do House e descubra onde ele está. Aqui não é colonia de férias."

Laine deu um meio sorriso enquanto cogitava a possibilidade de uma ligação muito mais apimentada ao homem, mas calou os devidos pensamentos enquanto discava o número. Nada.

"Ele não atende."

Cuddy olhou no relógio, e deu um meio sorriso. Filho da puta. Ele queria que ela voltasse para casa para que eles finalmente terminassem o que haviam começado. Não era como se ela não estivesse pegando fogo por ele, mas ela tinha obrigações.

"Laine, ligue na minha casa."

"Devo chamar a Marina?"

"Não, deve dizer ao puto do House para vir trabalhar."

Laine não conseguiu calar o pensamento mais impuro que podia ter sobre a relação de sua chefe com o médico mais difícil do hospital. Na certa eles deviam passar a noite toda brigando na cama. Ela gostaria de brigar desse modo com ele.

"Caiu na caixa postal, devo continuar ligando?"

"Não. Obrigado Laine."

Cuddy entrou na sua sala para pegar as fichas de atendimento da clínica. Já que House não viria trabalhar, ela iria. Ela notou algo diferente. Jogada na sua mesa, havia uma caixa vermelha, com um laço elegante em fita branca. Cuddy aproximou-se, deu a volta na mesa e parou frente-a-frente com o estranho presente.

Ela puxou a fita, delicadamente. Dentro da caixa, havia um DVD. Cuddy colocou-o no notebook e manteve toda a atenção na tela.

O vídeo mostrava Cameron retirando Vicodin da farmácia, sem receita, sem autorização do farmacêutico, sem prontuário. Na verdade, Cuddy agora notou que dentro da caixa havia uma cópia do caderno de controle farmacêutico e Cameron havia assinado, em nome de um paciente em coma.

Vicodin para um paciente em coma. Era possível tanta burrice e descuido de uma única vez? Era certo que ela tinha feito aquilo para House, mas até onde ia aquela devoção apaixonada? Ela não sabia que podia ter sérios problemas se descoberta?

De repente, o vídeo ficou todo preto. E letras brancas surgiram do nada.

"LEVE O DOSSIÊ PARA O CONSELHO DE MEDICINA"


Flashback on

15 de setembro, 08:30h da manhã.

Cuddy passou a tarde andando em círculos dentro da sua sala. Algo gritava dentro de si. Uma coisa primitiva e violenta. O cara havia atacado ela, tentara violentá-la, poderia tê-la matado, e agora seus funcionários faziam de tudo para salvá-lo.

Merda.

Ela trouxe a manga da blusa até o cotovelo e conferiu seus pulsos. Marcas roxas o cobriam como um bracelete invisível. Ela notou que havia começado a chorar, tamanho o seu nervosismo. Ela estava com medo, um medo estranho e incontrolável dentro de si. Aquele cara havia destruído algo dentro dela, quer seja a confiança, a segurança, algo não estava certo.

Ela começou a cogitar a possibilidade de ele reconhecê-la. E se ele voltasse a atacá-la? Ele poderia ter marcado seu endereço, sua rotina, seus horários. Cuddy estava em pânico novamente. Poderia ter sido Marina. Quem sabe, um dia desses, Rachel poderia estar indo para a escola e ele a atacasse. Ou sua mãe quando viesse visitá-la, ou Jules.

Ela estava enlouquecendo? Cuddy enfiou a mão na gaveta da escrivaninha e pegou uma cartela de calmante. Tomou logo dois, enquanto tentava inutilmente manter a calma. Ela sabia que enquanto esse cara estivesse nas ruas, ela jamais se sentiria segura novamente. Ela jamais voltaria a se sentir no controle do próprio destino.

Cuddy deu meia volta e se dirigiu à saída. Ela não ia assistir a própria queda.

Flashback off


"Eu só não entendi porque você fez isso, Cuddy? Há mais alguma coisa envolvida aqui?"

Ela sabia que ia dar merda. Fizera exatamente o que Restrito havia solicitado, e esperava uma reação incrédula de House. Sem contar, é claro, a fúria de Allison Cameron. Sentada em sua mesa, na mira de ambos, ela se sentia encurralada.

Obviamente, não ia demonstrar nada, mas sentia como se já tivesse sido vencida.

"O que você está insinuando com 'mais alguma coisa'? Eu estou apenas fazendo o meu trabalho. Você foi estúpido em pedir para um dos seus funcionários roubar Vicodin da farmácia, e você" - Ela inclinou o corpo e manteve os olhos na funcionária sentada na cadeira à esquerda "foi muito descuidada em não fazer a merda toda direito. Já que ia cometer um erro tão primitivo, pelo menos estudasse um álibi decente."

Cameron a fuzilou com o olhar. House balançou a bengala no ar, e quando pensou em dizer algo, sua funcionária o cortou.

"E como isso vai ser revertido? Porque o Dr. William me disse que eu posso ter a licença médica suspensa."

"Sua licença médica já foi suspensa por 45 dias. É por isso que eu a chamei aqui." - Resmungou House.

Cameron olhou para ele, pasma. Depois, retornou o olhar para Cuddy e dessa vez, carregado de ódio.

"E você não vai fazer nada a respeito?"

"Não." - Cuddy respondeu, friamente.

House sentiu a tensão crescendo entre as duas mulheres. Ele talvez adorasse isso em qualquer outra ocasião, mas não naquele momento. Tentando desviar-se daquela situação, ele virou-se para Cameron.

"Pode ir, conversaremos na minha sala."

Cuddy a encarou e Cameron retribuiu, e saiu pisando duro e irritada com a sua falta de argumentos para lidar com a chefe de seu chefe.

House esperou que ela saísse e então se levantou, indo parar atrás de Cuddy e massageando os ombros dela, lentamente.

"Você não precisava ter feito isso. O que aconteceu?"

"House, eu..." - Oh céus, ele tinha mesmo que começar aquela massagem justo agora? Ela estava a um passo de começar a gemer por baixo dele. "... não posso falar sobre isso agora."

"Eu entendo, mas você tem que admitir que não foi nem um pouco justa. Foreman e Chase já fizeram isso milhões de vezes e você nunca os entregou."

Os dedos dele pressionavam os ossos do seu ombro e pescoço, ela sentia o desejo subindo pelas suas terminações nervosas. Ela simplesmente não tinha como se explicar sem contar a ele sobre toda a história que a assombrava. O jeito era remediar a situação.

"House, eu tenho meus motivos e pode ter certeza que são os mais justos possíveis. Não se trata de ciúmes, mesmo que eu não goste nada de vê-la pendurada em você todo o tempo. Não tem nada a ver com isso. Mesmo assim, não posso te explicar do que se trata."

"Certo."

House se afastou dela, e indicou que ia sair da sala. Em seu rosto estava a expressão contrariada que ele sempre fazia quando não conseguia o que queria.

"Você sabe que ela vai te odiar pelo resto do tempo que trabalhar aqui, não é?"

"Eu sei. Mas eu espero que você coloque na cabeça dos seus subordinados e inclusive nessa sua cabeça teimosa que eu sou uma grande vadia, porém a vadia aqui paga o salário de cada funcionário desse hospital e que ela mantém o traseiro de todos empregado."

House deu um sorriso e mancou até chegar perto dela, puxando-a para um beijo delicioso. A língua dele preencheu cada mínimo espaço dentro da boca dela, fazendo-a perder o controle e a reação. Quando ele a soltou, ela ofegou contra ele e ele sussurrou.

"É por isso que eu tenho orgulho de você. Mesmo sendo 'uma grande vadia'."

Ela sorriu para ele enquanto ele saía. Segundos depois, uma memória caiu sobre seu colo, lembrando-a de que se ele soubesse de tudo não ficaria tão orgulhoso.


Flashback on

15 de setembro, 10h da manhã.

Cuddy entrou no quarto onde ele dormia. Seu coração estava batendo descontroladamente, quase gerando um desconforto. Ela observou o rosto dele, certa de que jamais em sua vida seria capaz de esquecer sua fisionomia.

Aproximando-se do leito, ele acordou.

"Você?"

Ele sussurrou, mas não parecia ter medo. Na verdade, cresceu um pequeno sorriso em seus lábios. Cuddy estava petrificada.

"Achou que tinha me matado, não é sua vagabunda?"

"Eu, eu... vou te entregar pra polícia, seu asqueroso."

"Vai? Tem certeza disso? Imagina o que as pessoas pensariam de você, uma médica que bate em um homem e o deixa morrendo no meio da rua."

"Você tentou me violentar."

"Isso é o que você diz, sua burra. Não se sabe se eles acreditarão. Além do mais, não me falta dinheiro para a fiança."

Cuddy não estava escutando isso, estava? Ela engoliu em seco. Não tinha sido uma boa idéia ter ido até ali.

"Eu vou sair desse hospital e imagine atrás de quem eu irei?" - Ele disse gargalhando.

Meu Deus. Ele estava rindo dela.

"Você não vai. Eu vou prestar queixa contra você."

"Certo. Sabe que eu acho a sua filha muito bonita? Aqueles pequenos olhos azuis. Não me lembro de você grávida dela... ela é adotada?"

"Fique longe da minha filha."

"Não sei se vai ser possível, doutora." Ele riu sarcasticamente.

"Você está querendo enganar quem, Lisa Cuddy? Você não mata ninguém. Você não vai ter a coragem necessária para me matar. Você é uma covarde fraca e se não tivesse me agredido, eu teria te mostrado o quanto você é pequena e insignificante naquele beco."

Cuddy poderia agüentar qualquer coisa. Poderia guardar aquela história para si mesma, poderia ignorar aquele acontecimento (ou fingir), poderia conviver com o medo e pânico insistentes. Mas ela não ia permitir que ele chegasse até sua filha. Rachel havia se tornado a coisa mais importante na sua vida, muito além de House, muito além daquele hospital, muito além de si mesma.

Cuddy abriu o criado mudo e pegou um pequeno vidro de morfina, e uma seringa. Ela retirou uma quantidade muito maior do que era humanamente aconselhável. Ele a olhou, um sorriso sarcástico no rosto.

"Cale a boca." - O coração dela estava acelerado e ela tinha dificuldades para compreender o que estava fazendo.

"Você ainda não aprendeu a lição, mas tudo bem, quando eu colocar as minhas mãos naquela menina você vai..."

Ele não terminou. Cuddy fincou a seringa no peito dele com violência. O homem deu um grito e ela afastou, levando consigo a seringa utilizada. Antes de sair, ela desligou o monitor que regulava os batimentos cardíacos. Cuddy deu uma ultima olhada para trás, antes de sair pelo corredor, entrando num atalho que a levaria direto ao saguão sem deixar rastros.

Ela acabara de cortar o mal pela raiz.

Flashback off.