Cuddy estava dobrando o casaco azul marinho de Rachel e colocando-o na mala, com todo o cuidado. Ela abriu a gaveta e tentou se decidir entre uma blusa branca e uma marrom, ambas de gola rulê.

"Mãe!"

Rachel subiu na cama com apenas um pulo, desequilibrando uma pilha de roupas. Seu cabelo estava com resto de crepom rosa nas pontas.

"Rach, o que eu disse sobre ficar pintando o cabelo? Não era de azul, agora ficou rosa?"
"Ah mãe. Atualiza, né. Azul é coisa do passado, vê se a Britney Spears ou a Shakira ou até a Avril pintam o cabelo de azul. Não. É de rosa. Rosa is the new black!"

Cuddy deu uma gargalhada, impossível de conter. Era uma garota adorável. Ela pegou o par de botas pretas dela e colocou na mala.

"Iremos viajar, mãe?"

Cuddy deu um meio sorriso, os olhos cheios de lágrimas. Ela não queria essa despedida. Ela queria ficar com sua filha, queria aguentar as crises de rebeldia dela, queria discutir sobre cereais de borboleta e cabelos coloridos.

Mas não podia.

"Bom, bebê, você irá fazer uma pequena viagem. Coisa de duas semanas."

Rachel deitou na cama, uma perna dobrada e o pé sobre o outro joelho, formando uma espécie de quatro. Ela esticou as mãos pro teto, enquanto falava.

"Espero que seja para Londres, ou pelo menos para a França. Quem sabe na Estônia né, mãe? Eles têm wi-fi na praia!"

"Rachel, você vai pra um camping em Madri, ok."

"Madri, mãe? Quem sabe Milão. Tem desfiles de moda lá, todo o tempo."

Cuddy terminou de colocar frascos de shampoo e um par de sabonetes antibacterianos na mala e fechou o zíper.

"Primeiro, não tem desfile todo o tempo mocinha. É somente na semana de moda em Milão, ok. E Madri é uma capital encantadora. Você vai adorar."

Rachel encarou a mãe por alguns segundos, certa de que não havia nada a ser feito. Quando Lisa Cuddy tomava uma decisão, estava encerrado o assunto. Ela desceu da cama e olhou pela janela, pensativa. Sua mãe aproximou-se e passou os dedos pelas finas madeixas, estalando um beijo singelo na bochecha dela.

"Tudo bem, Baby Rach?"

"Tudo, mãe. Eu só estou com saudade da Marina."

"Eu também, bebê."

O silêncio imperou no quarto, enquanto Cuddy lutava agilmente contra as lágrimas que queriam crescer. Ela respirou fundo e continuou.

"Vá se arrumar, querida. Te levo pro aeroporto daqui a 1 hora."

"Já vou. Espera só eu..."

"Agora, Rachel."

Rachel pegou a toalha no canto da cama e foi andando cabisbaixa. Ela voltou a olhar para Cuddy e lhe ofereceu o mais belo sorriso.

"Você é muito mandona, mãe. Que que isso."


Tiler estava no saguão do hospital, conversando, quando a enfermeira Tamires o interceptou.

"Sim, Tamis?"

"O Dr. Wilson pediu que o senhor comparecesse à sala dele assim que possível."
"Entendo. Ele mencionou o motivo da reunião?"

Tamires debruçou sobre o balcão, a franja cortando-lhe a vista e adicionando um toque de charme. Os cachos caiam pelos ombros e deslizavam pela costa como uma cascata infinita.

"Tiler, querido. Você acha que aquele doutor, amigo íntimo da nossa querida reitora, ia me dar satisfação dos assuntos pessoais dele? Estou só passando o recado."

Tiler debruçou sobre o balcão, aproximando-se ainda mais da enfermeira, o suficiente para fazê-la ruborizar.

"Eu te daria todo tipo de satisfação. Você sabe."

Uma das mãos dele deslizou pelo queixo dela e ele se afastou, deixando-a deslumbrada por trás dele.


Duas batidas na porta e Wilson gritou lá de dentro.

"Entre."

Tiler entrou sorridente. Ele jamais tirava esse sorriso dos lábios, criando sempre uma atmosfera de bom humor ao seu redor. Ele acenou para Wilson e então se sentou na cadeira que os pacientes costumam frequentar, frente a frente com o oncologista.

"Precisa de mim, Dr. Wilson?"

"Na verdade, Dr. West, eu gostaria de ter uma conversa de homem pra homem. Claro, se você não se importar."

Wilson parecia bem mais sério que o eventual e isso neutralizou o sorriso do neurocirurgião. Parecia que o sorriso de simpatia havia se convertido em um meio sorriso debochado.

"Sem problemas."

Wilson ajustou na cadeira, sem perder o contato visual com ele. O silêncio imperou por alguns instantes, enquanto ambos estudavam-se como jogadores estudam tabuleiros de xadrez.

"Quais são as suas intenções com a Cuddy?"

Tiler deixou escapar um riso seco.

"Você pergunta como melhor amigo ou rival em potencial?"

"A Cuddy é minha amiga, somente isso."

Tiler colocou os braços atrás da cabeça, os dedos entrelaçados servindo de encosto para a nuca cansada.

"Eu a considero extremamente atraente, claro. Embarcaria em qualquer tipo de relacionamento com ela se ela assim o quisesse. Mas sabe como é. Ela é minha chefe, então não posso sair por aí dizendo como o traseiro dela fica a maior delícia do mundo naquelas saias-lápis."

Wilson tossiu, assentindo com a cabeça.

"Mas Dr. Wilson, por que a pergunta?"

"Sabe, Dr. West, coisas estranhas tem acontecido ao hospital e a ela depois que você apareceu. Eu só queria me certificar de que você não está envolvido em nada que possa prejudicá-la."

Tiler esticou os braços e então inclinou o corpo para frente, afim de encarar Wilson. O sorriso havia desaparecido do rosto dele.

"Você quer dizer que eu trouxe problemas para a Dra Cuddy? Propositalmente?"

"Não, eu não disse isso."

"Então, explique-se melhor, doutor. Eu não gosto de ser acusado de nada sem provas legítimas."

"Dr. West, eu..."

"Pode me chamar de Tiler."

"Tiler, é o seguinte: a Lisa já tem problemas demais, e você está sempre por perto dela. Todos nesse hospital achavam que vocês estavam em um relacionamento até ela e o House aparecerem juntos. Seu escritório foi "incrivelmente" destruído sem que ninguém precisasse arrombar a porta e não roubaram nada. Sabe, Tiler, nada se encaixa. Uma semana você se assanha todo com ela e em outra faz a festa entre as enfermeiras. Não que eu deva me intrometer na sua vida, e nem você me deve satisfações, mas enquanto estiver relacionado com a Lisa, eu vou me intrometer."

Tiler dessa vez deu uma risada bem gratificante. Para ele, porque Wilson continua reto, imóvel, os ombros rígidos e o olhar bem seco.

"Você acha que eu destruí o escritório para chamar a atenção? Você acha que eu tenho 15 anos, Dr. Wilson? A polícia já me fez essa questão e eu já disse, eu passei a noite na casa da Keyla, a Chefe da Equipe de Obstetria. Já foi tudo confirmado pelas câmeras de segurança do prédio dela, a hora que eu cheguei e a hora que eu saí. Está feliz agora?"

"A doutora Keyla? Está brincando comigo?"

"Não, cara. Aquela mulher é fogo na roupa, se é que você me entende."

Wilson deu um meio sorriso e então continuou:

"De qualquer maneira, quero que saiba que estarei observando de perto. Além do mais, você deve saber que Gregory House também não quer ver a sua alma perambulando perto da Cuddy."

"Eu sei disso."

Tiler levantou-se e arrumou a calça. Ele passou a costa da mão pelos cabelos e perguntou:

"É só isso?"

"Sim, mas não se esqueça, Tiler. Não mexa com fogo se não quiser se queimar."

Tiler ignorou a mensagem de relance, direcionando-se até a porta. Antes de sair, ele deu um sorriso genuíno e acrescentou, com uma nota de sarcasmo.

"Não se preocupe, James. Eu tenho curso de pirofagia."


Cuddy encostou-se à barra do portão de embarque e acenou para a pequena Rachel, delicadamente vestida de um jeans Diesel e uma camisetinha, com sandálias no pé. As monitoras tinham todo o cuidado com as crianças, mantendo-as todas juntas afim de não haver problemas.

Rachel estava com as pontas do cabelo rosa, o que fez sua mãe sorrir. Era uma maldição de personalidade.

As crianças formaram uma fila e começaram a subir na plataforma que as levaria à porta do avião. Cuddy ficou com os olhos presos na sua criança, nos cabelos cheios de brilho, na risada dela, cheia de uma vivacidade incrível. Enfim, Rachel Cuddy saiu de cena, entrando no avião.

Cuddy limpou as lágrimas que insistiam em cair.

Essa era a única maneira de mantê-la salva.


Tiler acabara de sair e Wilson certificou-se de que ele não voltaria.

"Pode sair do esconderijo, Sherlock."

House saiu de trás da cortina lateral do escritório e sentou-se na poltrona de couro branco. Ele estava pensativo, e Wilson riu da cara dele. Livremente.

"Ele não é um cara ruim, House."

"Não me convenceu."

"Ao menos ele foi sincero."

"Talvez até demais. Só eu posso falar da bunda da Cuddy, entendido?"

Wilson pegou uma barra de cereais do bolso e passou a mastigá-la; esticou as pernas e colocou-as na lateral da sua mesa.

"Tanto faz. Ele já sabe de vocês e não parece que vai querer atrapalhar. Ele sabe que a Cuddy está na sua."

"É por isso que você tem 4 ex-mulheres. É muito ingênuo. A Cuddy é maravilhosa demais e eu sei que esse metido à George Clooney não vai deixar de assediá-la."

"E o que você vai fazer?"

House pensou por alguns segundos, e deu um sorriso muito maléfico. Na certa, não indicava uma boa idéia.

"House?" Perguntou Wilson, um pouco mais alto e apreensivo.

House já havia saído.