Capítulo. 11 - É hora de dar tchau.
Cuddy pulou do carro assim que Tiler estacionou. Eles já haviam se afastado do centro movimentado de Princeton, e ela não se recordava de ter visitado aquele local durante a sua vida. Não importava.
O que realmente importava era que House estava dentro desse enorme galpão e ela ia tirá-lo de lá, não importava o preço a ser pago. Ela correu até o enorme portão de aço que tinha um lenço amarrado no cadeado. Seu lenço vermelho de tafetá.
Cuddy estava com um péssimo pressentimento, mas continuou a desamarrá-lo apressada. Tiler estava bem atrás dela.
"Não devíamos entrar aí sozinhos, Cuddy. Vamos chamar a polícia."
"Não vamos chamar a polícia. Não posso arriscar a vida dele, você não entende?"
Cuddy puxou a porta e deparou-se com um enorme corredor escuro. Ela entrou e Tiler entrou logo atrás dela. Cuddy ficou parada enquanto Tiler fechava o portão.
"O que está fazendo, Tiler? O portão tem que ficar aberto para nós fugirmos."
Quando Tiler West virou-se novamente de frente para ela, ele estava sorrindo. Foi nesse momento em que Cuddy percebeu que ele apontava um revólver contra o peito dela. O pulmão dela se contraiu e ela mal pôde respirar.
"A verdade, Cuddy, é que ninguém vai fugir daqui."
"Seu grande filho da puta, você..."
"Cale a boca e continue andando, se quiser que aquele manco vagabundo continue vivo."
Cuddy engoliu as lágrimas que tentaram nascer, e continuou andando pelo frio e escuro corredor. Enquanto ela andava, podia sentir o cano gelado da arma pressionando sua coluna cervical.
House abriu os olhos, mas tentou divagar sobre o local onde estava. Sua cabeça latejava e ele tinha certeza de que estava sangrando. O rosto doía, o que certamente indicava que alguém havia descontado certa fúria nele.
Tentou levantar e notou que estava amordaçado e amarrado à cadeira. Seus pulsos doíam, talvez pela força que aqueles arames faziam contra seu osso. Ele respirou fundo, os lábios doloridos e o gosto leve de sangue. Oh merda, quem estaria brincando com ele?
House cerrou os olhos e manteve-se calmo, segurando o ar e estabelecendo um ritmo calmo de respiração. Ele parou quando escutou o som de trincas sendo abertas. Os olhos semicerrados identificaram a primeira pessoa que apareceu e ele sorriu por baixo da fita ao vê-la.
Cuddy.
Mas ao notar o medo estampado nos olhos dela e a loucura nos olhos de Tiler, ele entendeu a situação.
Ela também não estava ali voluntariamente.
Cuddy foi jogada pra dentro da sala. Seus olhos encontraram com os de House, e sem trocar nenhuma palavra, ela sentiu que ele estava muito feliz em vê-la, apesar da situação. Seus olhos se encheram de lágrimas ao vê-lo tão ferido, mas ela teve que suportar a dor.
Tiler entrou logo depois e fechou a porta.
"Ora, ora, Cuddy. Tire a fita da boca dele. Como nós vamos conversar desse jeito?"
Cuddy encarou-o com um olhar que transmitia nada mais do que o ódio diluído. Ela caminhou lentamente até ele e passou uma leve olhada pelas amarras. Jamais conseguiria desfazê-las com velocidade. Cuddy deslizou a mão sobre o rosto dele, acariciando-lhe lentamente. Ele fechou os olhos por um segundo, aproveitando a sensação.
Ela retirou a fita lentamente e desviou o olhar para não se machucar com aquela visão.
"Já chega de romance na minha frente."
Tiler a tirou do momento enquanto arrastava uma cadeira para frente de House, deixando um espaço de um metro entre eles.
"Sente-se aí Cuddy."
Cuddy sentou-se e seu olhar prendeu-se ao de House. Será que eles sairiam vivos dali? Tiler West era o restrito? O que ele queria?
Tiler puxou uma cadeira e sentou-se na lateral, entre os dois, formando um triângulo perfeito. Ele apontou a arma para House e deu uma risadinha. House lutava contra a sensação de dizer a ela que a amava e que sentia muito pelo que estava acontecendo, mas enfim, o que isso iria mudar?
"Então, Cuddy. Eu conto ou você conta?"
Cuddy engoliu e seco e desviou seu olhar de House para Tiler.
"Contar o quê?"
"Você sabe... Seu segredinho sujo. Vamos lá. House merece saber a verdade antes de morrer."
"Por favor." - A voz dela era frágil e suplicante. Ela evitou retribuir o olhar fixo de House.
"Ou você conta, ou eu conto."
"Contar o quê?"
House tentou parecer firme, mas a voz saiu esganiçada, meio rouca. Talvez fosse a desidratação.
"House, me desculpe." - Disse ela, abaixando a cabeça.
Ele a encarou, mas ela não levantou a cabeça para retribuir. Parecia ter aceitado algum tipo de punição.
"Eu vou te contar uma historinha, Greg. Começa dia 15 de setembro, numa manhã escura..."
Quando terminou, Tiler esperava algum tipo de reação negativa dele. Estudou por minutos o rosto de House e não notou nenhuma mudança. Parecia que nada daquilo havia surpreendido ele.
Cuddy, por outro lado, deixara os ombros caírem numa expressão funesta de derrota. Ela parecia ter desmoronado junto com todas as palavras. Seu colo estava marcado pelas duras lágrimas que tentava inutilmente secar com o dorso da mão. Em momento nenhum ela mantivera contato visual com eles.
"Essa não é versão verdadeira dos fatos."
Cuddy levantou os olhos, surpresa e Tiler fez a mesma coisa. De que diabos ele estava falando?
"Eu é que vou contar uma pequena historinha para vocês dois."
Flashback on
"Ele não terminou. Cuddy fincou a seringa no peito dele com violência. O homem deu um grito e ela afastou, levando consigo a seringa utilizada. Antes de sair, ela desligou o monitor que regulava os batimentos cardíacos. Cuddy deu uma ultima olhada para trás, antes de sair pelo corredor, entrando num atalho que a levaria direto ao saguão sem deixar rastros."
Ela acabara de cortar o mal pela raiz.
Isso era o que Cuddy pensava. Mas afinal, ela não tinha sido a verdadeira culpada.
Assim que Cuddy saíra do quarto, a porta do banheiro se abriu e House saiu.
Ele havia escutado tudo. Palavra por palavra, as acusações, as confidências, as ameaças. Seus olhos faiscavam e ninguém nunca vira um homem tão furioso. Na cama, o homem começava a se contorcer. House tinha cerca de 10 minutos para socorrê-lo e salvá-lo.
Tempo suficiente.
"É verdade o que aquela médica disse? Você tentou violentá-la?"
O homem deitou a cabeça e afundou-a. A morfina começara a atacar.
"Me ajude. Ela... tentou... me matar."
A voz do homem estava entrecortada por suspiros e gemidos estrangulados. Ele fazia força para reagir.
"É verdade ou não?"
"É... É verdade, agora des... ligue... isso, me ajude, eu... Estou morrendo."
08 minutos. House caminhou até a porta e fechou-a delicadamente.
"Você sabia que esse quarto é isolado acusticamente?"
House ouviu um som que parecia ser um não, mas não era claro o suficiente. O homem estava tremendo violentamente enquanto suas veias pareciam que iam explodir.
"Pode gritar à vontade. Você tentou violentar a mulher que eu amo e acabou de ameaçar fazer o mesmo com a única criança pela qual eu tenho algum sentimento decente. Você acha mesmo que vou ajudá-lo?
O homem tentou gritar, mas House andou lentamente até ele e começou a desligar os aparelhos que restaram. A respiração dele estava acelerando e desaparecendo, exigindo um esforço incrivelmente doloroso para que ele sobrevivesse.
House sentou-se no banco e puxou o gameboy do bolso. Esticou as pernas e
colocou-as sobre a maca, para enfim dar o seu veredito.
"Você nunca mais vai tocar naquela mulher. Fique á vontade para morrer lentamente. Não estou com pressa."
House deu uma breve olhada no relógio.
05 minutos.
Ainda dava tempo para uma partida no gameboy.
Flashback off
Cuddy estava boquiaberta. Tiler tinha descansado a arma no chão, e seu rosto era de simples espanto. House mantinha o rosto rígido.
"Enfim, é isso. Você não o matou, Cuddy. Eu matei."
O olhar que eles trocaram foi de... Amor. A palavra certa era amor. Ela não podia acreditar que carregara essa culpa por anos e neste momento, havia sido tirada de seus ombros. Cuddy se sentia livre. E ainda mais apaixonada por ele, por House ter carregado seus segredos e sua culpa silenciosamente mesmo eles não estando juntos. Era uma abnegação suprema, que nem ela imaginaria em seus mais devotos sonhos.
"Ora, ora, ora. O que temos aqui? Um casal de assassinos mentirosos. Eu sempre soube que vocês dois se mereciam. São feitos do mesmo material de quinta categoria. Acontece que eu estou aqui para fazer justiça e é isso que o que vou fazer."
Tiler levantou-se e caminhou até a mesa do outro lado da sala e pegou algo que estava dentro da gaveta. Quando se virou, ele carregava mais uma arma e um brilho doentio nos olhos. O coração dela disparou.
Tiler veio em sua direção e colocou a arma na mão dela, parando bem atrás de sua cadeira. Cuddy teve uma idéia de relance, pensou em virar o revólver e sentiu a boca do cano encostar-se na sua cabeça.
"Atire nele."
"O quê?" - A arma queimava nas mãos dela. Não, não, não. Ela não ia atirar no homem que amava. O que ele pretendia com isso?
"House, mande-a fazer isso. Ou ela atira em você ou eu atiro nela. Qual vai ser?"
"O que você ganha com isso, cara?"
A voz de House deveria soar como firme, mas os três sabiam que ela soava amedrontada e fraca. Tiler deu uma breve gargalhada, sem nunca tirar o cano frio da cabeça dela.
"Vocês mataram um homem. Nada mais justo do que eu equilibrar as coisas, certo? Ou vocês acham que são deuses, para decidir quem vive e quem morre? O homem tinha uma família, não acha?"
E com isso, Tiler destravou a arma e voltou a escorá-la nos cabelos brilhosos. Ele sorriu para House.
"Cuddy. Por favor." - Ele pediu, a voz dele soava tão triste como desesperada. "Eu não posso te perder. Atire."
"House..." - E ela começara a chorar. Aquilo doía como facadas agudas no pescoço dela. Ela o amava como jamais amou ninguém e estava prestes a feri-lo."Eu te amo. Por favor, não me peça isso."
"Cuddy, se você me ama, faça logo. Eu não posso te perder."
E foi assim. Cuddy mirou no ombro, onde ela imaginou não ter nenhuma veia principal que causasse hemorragia nele. Fechou os olhos e atirou. O barulho ensurdeceu-a e a pólvora queimou o tecido da sua mão, fazendo com que ela derrubasse a arma. Tiler tirou-a do seu alcance imediatamente.
Ela abriu os olhos e viu que House estava chorando. Havia um buraco crescendo no seu ombro esquerdo e ela sentiu o estomago dar nós tão profundos quanto o seu pâncreas. Ela havia feito isso. Ela havia machucado ele. Sua vontade era correr até ele e salvá-lo, mas ela própria estava sob a mira de uma arma. Não podia fazer nada, a não ser aguardar ordens.
"Boa menina" - sussurrou Tiler e deu um daqueles sorrisos que ela já havia achado bonito, mas que agora era assustador.
Tiler passou por ela e chegou até House. Ele apontou a arma para a cabeça de House e virou-se para Cuddy, que estava incrédula e assustada.
"Suas últimas palavras antes de perder os miolos, Greg."
House a olha nos olhos. Havia uma profundidade gigantesca de sentimentos que iam acabar mal resolvidos entre eles. Havia chegado o fim da brincadeira e ele não dera a ela a vida que ela merecia. Ele a amava, ah como amava. Mas agora era tão tarde. Tudo tinha chegado ao fim e ele esperava morrer primeiro para não ver o que aconteceria com ela depois.
"Eu devia ter me casado com você, Lisa."
E então houve um silêncio inquietador. House fechou os olhos e Cuddy ajoelhou-se na sua frente, ficando num nível mais baixo. Ela abaixou a cabeça e tornou a fitar o chão.
Mas nada aconteceu.
"Tive uma idéia melhor."
Quando House abriu os olhos, percebeu que Tiler tinha parado atrás dela e de frente para ele. Nos seus olhos, havia a idéia mais doentia que um sociopata teria e House temeu.
"Ela é a mulher da sua vida, Gregory House. Até parece que eu vou te matar. Isso não vai doer nada! Vou matar ela! Você vai sofrer pelo resto da sua vida miserável, cuidando daquela outra menina miserável que no momento está na Espanha!"
"Não faça isso. Eu te dou o que você quiser."
Tiler levantou a arma e mirou-a para o centro da cabeça de Cuddy, que se mantinha imóvel e com o olhar fixo em House.
"Você já vai me dar o que eu quero. Eu quero o seu sofrimento, a sua dor."
House estava chorando novamente. Não podia acabar assim. Não era assim que as coisas iam acabar. Ele merecia uma chance de consertar as coisas. Ele passou a acreditar em Deus nesse momento e rezou para que Deus acreditasse nele por pelo menos alguns segundos.
"Últimas palavras, Cuddy"
Cuddy engatinhou até House e o puxou contra si. Os lábios dela sugaram os dele e ele invadiu-a com sua língua, tão quente e forte como nunca havia sido. A mão dela segurava a nuca dele com possessão e o manteve na sua pelo tempo que fosse necessário. O céu ao redor deles se abriu, trazendo a paz do paraíso por alguns segundos. Se era assim que tinha que ser, que o último momento valesse a pena. Assim que o beijo acabou, ela o abraçou e sussurrou no seu ouvido as palavras que escorreram direto para o coração dele.
"Eu nunca te traí e sempre, sempre te amei."
Cuddy voltou ao lugar onde estava originalmente e fechou os olhos. Tiler levantou a arma e cruzou a mira com o centro da cabeça dela.
"Mazel tov, House."
Ouviu-se um tiro.
