Atos de Vingança III

Capítulo II

Ruínas da Torre dos Ventos

Apesar de lamentar tanto quanto os outros ventos o rumo tomado por suas vidas, Notus foi o único dos três a se recusar terminantemente a visitar as ruínas daquela que tinha sido sua morada por tantos anos, a Torre dos Ventos. Sua justificativa era de que não existia razão voltar ao lugar. Graças à Máscara da Morte a única parte vagamente identificável da outrora imponente construção era uma pequena lápide, erguida sobre o túmulo do antigo líder dos quatro ventos, César de Éolo.

Nicomedes jamais admitiria isso para ninguém, mesmo ele considerava o assunto um tabu, mas aquele túmulo era basicamente o que o mantinha afastado do lugar. Não suportava lembrar o dia em que junto com Eurus, Bóreas e Zéfiro traíra e matara Éolo. Sua atitude confiante e segura a respeito do passado dos Ventos acabava na lembrança do momento em que os quatro sujaram as mãos com o sangue de seu líder.

Não bastasse estar naquele lugar, para ele, maldito, ainda restavam dúvidas a respeito do motivo para Bóreas ter ordenado, ou melhor, pedido que se encontrassem ali; oficialmente não havia líderes entre eles após a morte de César, independente do que Vento Norte pensasse sobre assunto.

Irritado, caminhava pelas ruínas tentando matar o tempo. O atraso de Eurus também não era animador. Não era preciso muito esforço para perceber que a demora não era acidental, estava sendo repreendido. Mas, fosse qual fosse a razão de ter sido deixado esperando por horas não, participaria mais das infantilidades de seus companheiros de armas. Não voltara à vida para ser tratado como uma criança.

- Ah, Notus, Notus... Impaciente como sempre.

Nicomedes não se dignificou a voltar-se na direção da voz.

- Há quanto tempo está aí, Filipe?

- Tempo o suficiente para ouvir seus resmungos. Estou surpreso por você demonstrar tão pouco respeito pelo local onde os corpos de nosso líder e amigos repousam.

- Nosso líder era um cego estúpido incapaz de fazer o certo, e o local onde os corpos apodrecidos de nossos amigos repousam não significa absolutamente nada. Afinal, ambos, assim como nós, estão vivos e bem.

- E isso por acaso desqualifica os sacrifícios feitos? Só por estarmos vivos novamente nossas vidas passadas perderam importância?

- Me recuso a acreditar que fui trazido aqui para discutir filosofia. O que quer de mim?

- Que desfaça essa pose de ofendido e seja paciente. Nenhum de nós tem nada importante para fazer em outro lugar.

- Se você diz... – resmungou sentando-se em um destroço próximo.

Para a sorte de Notus a espera não foi longa, poucos minutos após o fim da conversa Bóreas aterrissa entre os outros ventos. Com cuidado, o Vento Norte deposita na relva o longo embrulho que trazia nos braços.

- Bóreas, o que está havendo?Por que nos chamou aqui?

- Notus sabe.

- Notus sabe? bradou Nicomedes indignado- Absurdo! Não sou obrigado a ficar ouvindo essas asneiras!- Piadas de mau gosto são as mentiras que você vem contando para nós há meses!

- DÊ UM PASSO E EU JURO QUE NÃO PERDEREI TEMPO CONGELANDO SUA CARCAÇA MISERÁVEL! – explodiu Máximus ao ver Notus se erguer.

- Acalmem-se os dois!- interveio Eurus- Esse não é o lugar para brigarmos!Não aqui, onde nossos laços foram reforjados com sangue e...

- Oras, poupe-nos da pregação, Filipe! Esse monte de lixo não é mais importante que qualquer outro pedaço do planeta.

- Como vê, Filipe, esse é melhor lugar para uma briga entre nós. Mas, fique tranquilo, não pretendo sujar o solo em que meu corpo original repousa com o sangue desse verme. Não de graça pelo menos.

- Por Zeus! Se tem algo para falar, Máximus, fale logo de uma vez!

- Onde está Orestes?

Surpreso com a pergunta Nicomedes não conseguiu formular uma resposta, limitou-se a encarar Bóreas com uma expressão mista de espanto e raiva. Filipe não se saiu melhor, olhava de um para o outro sem conseguir entender o alcance da situaçã que Notus sabia de algo, mas pela atitude do Vento Norte parecia que a influência fora direta.

- Filipe.

- Sim, Máximus.

- Desenrole o objeto que eu trouxe. Quero que você faça isso.

Bóreas e Notus não desviaram seus olhares um do outro por um instante. Nem mesmo quando Eurus soltou uma exclamação de espanto recheada de tristeza.

- Onde... Onde... Onde você o encontrou, Bóreas?

- África. O cavaleiro de ouro de Touro contou da morte de Zéfiro quando nos encontramos no Egito. Peixes foi o responsável.

- É disso que estou sendo acusado?De saber da morte de Orestes?

- Não. A acusação é enviar Orestes para a morte.

- Ainda que eu tivesse enviado Orestes para qualquer lugar não sou responsável pelo fracasso dos Nêmesis em eliminar os cavaleiros de ouro. Aliás, Zéfiro participou da missão contra Peixes e os outros. É um absurdo me responsabilizar.

Os eventos seguintes ocorreram mais rápido do que Notus foi capaz de prever. Em um instante estava sustentando o olhar de irritado Bóreas, no outro estava no chão, sangrando. Com esforço conseguiu focalizar as silhuetas dos outros Ventos, percebendo, surpreso, que fora Filipe, e não Máximus a agredi-lo.

- Finalmente resolveu abandonar a pose de pacifista, Eurus? - falou entre acessos de tosse – Vocês estão exagerando. O que os faz pensar que sou responsável?

- Você é um só, Nicomedes. Não tem como nos vencer e não vamos deixá-lo fugir. É bom começar a falar a verdade.

- Esperem! Esperem!- pediu Notus sentando-se na relva, resignado –Entendo o que estão sentindo, acreditem. Estou tão chocado com a morte de Orestes quanto vocês. Entretanto, não sou tão ingênuo a ponto de esquecer que fomos ressuscitados para lutar. A morte não só é um risco aceitável como também faz parte do processo.

- Está insinuando que a morte dele foi um risco aceitável?

- Assim como a de César. Ouça-me antes de partir para a violência, Filipe!O que digo pode não significar nada para vocês, mas não enviei Orestes para a morte, não queria que isso acontecesse. A missão dele era apenas investigar se o ataque aos dourados que viajaram para a África deixou sobreviventes, e nada mais. Como adivinhar que o garoto seria estúpido o bastante para encarar sozinho sabe-se Nêmesis quantos cavaleiros de ouro?

- Vamos supor que estou acreditando no que diz... Como você sabia que os dourados estavam vivos?

Notus não pode deixar de sorrir.

- Honrando a armadura que visto, é óbvio. Enquanto Selene, os Nêmesis e vocês três perdiam tempo sentindo-se vitoriosos e caçando a escória da tropa de Atena, investigando junto com Thallas e Gêmeos eu descobri que havia chances de um ou mais cavaleiros de ouro terem sobrevivido. Por mais que os sobreviventes de prata e bronze estivessem atacando nossas posições estávamos perdendo muitos soldados e em locais muito distantes entre si. Com essa suspeita em mente não foi difícil perceber o cosmo dos cavaleiros de ouro. No dia em que Zéfiro foi enviado à África, com a desculpa de tentar achar as armaduras de ouro, por exemplo, eu estava na casa de Gêmeos com Thallas e sentimos nitidamente uma explosão cósmica poderosíssima, um verdadeiro farol brilhando para quem quisesse ver.

- Então, seu verme covarde – disse Bóreas - porque, honrando as armaduras que vestiam, não foram os três investigar, ao invés de enviar um desavisado Orestes para os braços da morte?

- Para sua informação eu fui investigar. Enquanto Orestes foi para a África, local que ele já tinha visitado no ataque inicial eu me encarreguei da mansão Solo. E adivinhe o que não descobri? Os corpos dos cavaleiros de ouro!

- De fato, isso explica muita coisa... -murmurou Eurus

- Satisfeitos? Já contei tudo o que sei. Vocês é que ainda não me explicaram como descobriram minha ligação com a morte de Orestes.

- Honrando nossos cérebros, é óbvio. – disse Bóreas – Além da despreocupação com o desaparecimento de nosso amigo, sua aliança com Gêmeos, cuja traição foi o estopim para nossas ações vinte anos atrás foi uma dica enorme. O inexplicável ataque de Ilyria à Selene e Andreas foi a gota d'água para que desconfiássemos que algo de muito errado estava acontecendo no Santuário.

- E o que pretendem fazer agora que conseguiram as informações?

- Nada. – falaram os ventos em uníssono.

- Queríamos apenas descobrir a verdade sobre o destino de Orestes. Agora que sabemos, podemos continuar com nossas vidas. – explicou Bóreas.

- Como assim nada? Vocês mesmos falaram que há algo errado acontecendo no Santuário. Vão se omitir? Enquanto eu falava imaginei que fossem contar tudo para Selene ou para as deusas...

- De que adianta isso? Mais cedo ou mais tarde elas saberão. De mais a mais Se alguém sofrerá com isso serão Thallas e Selene e não nós.

- Vão realmente me deixar impune?

- Você? Você é insignificante, Nicomedes. Não passa de um idiota que acha que se aliar a homens como Thallas e Gêmeos lhe dará algum poder. Não pense que está sendo menosprezado, sabemos que, tendo chance você tomará alguma atitude muito mais condenável do que mentir para nós. Reconhecemos o perigo que representa. Apenas não achamos que valha a pena fazer algo contra você no momento. Mas, tenha certeza disso: atreva-se a tentar algo contra qualquer um de nós, ou mesmo Selene, e pagará caro.

- Quanto a Selene, ela tem seus próprios meios de se defender.E, ao contrário dela, Thallas não passa de um marionete das Erínias.

- Isso não faz sentido. Vocês não são assim. Por menos fui congelado por meses. No que estão pensando?

Confuso Nicomedes observou os ventos norte e leste cavarem um túmulo para Zéfiro, praticamente ignorando sua a presença. Sem entender, já se preparava para alçar vôo de volta ao Santuário quando uma o idéia repentina o fez voltar-se para os companheiros. Mas, antes que pudesse falar um cegante clarão cruzou o céu em direção ao Santuário, sendo seguido por um violento tremor que sacudiu a terra por vários quilômetros. Não havia para notar o imenso cosmo das Erínias e Nêmesis irradiando do Santuário como um mar de ódio. Só havia um motivo para isso: haviam descoberto o engodo. Provavelmente já estavam atrás de culpados.

Grécia, Santuário de Atena, Salão do Grande Mestre.

Selene não sabia o que pensar, há meses desconfiava que Thallas, assim como Notus e Gêmeos, escondiam algo, mas jamais imaginou que pudesse ser algo tão importante quanto a sobrevivência dos cavaleiros de ouro. Enquanto as divindades questionavam Áries sobre o ataque à Jamir, lançou um longo e inquisitivo olhar para Leviatã, que se limitou a dar de ombros sutilmente e sorrir.

Um leve e crescente ruído chamou a atenção dos três mortais presentes, o templo tremeu com a fúria mal contida das deusas. Acima dos rangidos da terra se erguia o silvo do chicote de Alecto. Com dificuldade as outras divindades imobilizam Alecto que gritava de fúria e frustração. Por mais que quisessem arrancar a carne de Thallas e Selene Tisífone e Megera sabiam que com a fuga de Atena a situação não estava tão sob controle quanto imaginavam. A punição teria de esperar.

-Selene, infelizmente não há outra alternativa, temos de confessar...
- Do que você...?

O templo havia parado de tremer, mas as mãos de Thallas não. Toda a atenção das quatro deusas estava concentrada nele, mesmo as serpentes dos cabelos das Erínias o encaravam, se pretendia escapar da situação teria de agir bem rápido.

- Sim! Confessar! De fato nós já sabíamos sobre a sobrevivência dos cavaleiros de ouro...

- NÓS?

Leviatã ignorou o grito de espanto de Selene.

- Nós deveríamos ter informado às Senhoras assim que soubemos da morte de Zéfiro no Saara.

- O que Orestes foi fazer no...ELE MORREU?

-MORREU E VOCÊ SABE MUITO BEM DISSO! NÃO É HORA DE SE FAZER DE IDIOTA!VOCÊ ESTAVA COMIGO QUANDO FOI ORDENADO QUE ELE INVESTIGASSE O DESAPARECIMENTO DE CAVALEIROS NEGROS NA ÁFRICA!

O rosto de Thallas era uma máscara de revolta e surpresa tão perfeita que Selene chegou a se questionar se realmente havia dado semelhante ordem. Nêmesis e as Erínias acompanhavam a discussão com visível interesse, tão espantadas quanto a própria Selene.

- A morte de Zéfiro foi uma perda incrível para nós! Os Ventos não são como os novos cavaleiros negros, que podem ser substituídos a qualquer momento por outras almas sedentas por vingança... Para evitar que a notícia se espalhasse entre as tropas nem mesmo contamos aos outros três Ventos sobre o acontecido.

Selene tentou abrir a boca para protestar novamente, mas um gesto sutil de Áries a calou. O Nêmesis, apesar de muito ferido, havia percebido rapidamente gravidade da situação. Discutir só traria uma morte ainda mais rápida.

- Só nos restava uma saída: enviar um dos Nêmesis. O escolhido foi Gêmeos. A escolha dessa vez foi acertada, após um rápido combate Kanon de Gêmeos foi destruído, juntamente com os cavaleiros de bronze de Fênix e Cisne. Infelizmente, não esperávamos que os cavaleiros sobreviventes fossem voltar ao combate tão rápido. Foi, de fato, um terrível erro de cálculo que quase nos custou um dos mais poderosos soldados... Mas posso lhes assegurar que tudo o que fizemos foi com as melhores intenções...

A servilidade na voz de Thallas ultrapassava todas as escalas e limites que Selene jamais imaginou possíveis. Furiosa, agarrou Leviatã pela gola do manto num arroubo de ódio. Sentia que deveria matá-lo simplesmente por existir.

- Como conseguiu falar tantas mentiras em tão pouco tempo?Foi de improviso ou você estava ensaiando desde a morte de Zéfiro?

O olhar da sacerdotisa teria quebrado a vontade de homens mais fracos, mas Thallas o sustentou com a tranqüilidade de um mártir, como se toda sua vida o tivesse preparado para aquele momento.

- Pelos deuses, Selene, cresça! Entendo que esteja lamentando a morte de Orestes, mas negar sua responsabilidade não vai trazer o rapaz de volta!

As quatro deusas ainda estavam com dificuldade para absorver todos os fracassos relatados nos últimos minutos. Quando finalmente se manifestaram, em uníssono, é com um horrendo e insuportável urro de fúria incontida, alto o suficiente para que todo e cada um dos moradores do Santuário ouvissem a menor das palavras e tivessem absoluta certeza do futuro que os esperava.

- PERMITA-NOS TENTAR RESUMIR TUAS ANGUSTIANTES LAMÚRIAS: NÃO SÓ FOSTES INCAPAZES DE ELIMINAR OS SOBREVIVENTES DE NOSSO ATAQUE A ESTA MALDITA TERRA COMO TAMBÉM NÃO OBTIVERAM SUCESSO NAQUELE QUE DEVERIA TER SIDO O MAIS FULMINANTE DE NOSSOS GOLPES, O ASSASSINATO DOS CAVALEIROS DE OURO?PIOR, TUDO O QUE CONSEGUIRAM FOI UMA SUCESSÃO DE VERGONHOSAS DERROTAS CUJO RESULTADO FINAL FOI A MORTE DE DEZENAS DE SOLDADOS EM TROCA DE DOIS CAVALEIROS DE BRONZE E UM MARINA?

- Senhoras, se me permitem a audácia -murmura Áries – creio que podemos acrescentar a destruição de Lagarto, Unicórnio, Urso e o, mais importante, Câncer. Se contra-atacarmos imediatamente podemos...

A uma só voz as quatro divindades gritaram. Tremores abalaram várias regiões da Grécia. Tempestades varreram o mundo. Sensitivos ao redor do planeta foram hospitalizados em coma profundo. Vários partos chegaram ao fim com resultados trágicos. Ondas de violência e intolerância percorreram o mundo. E as deusas estavam apenas começando.

O cosmo das deusas varreu o Santuário. Nêmesis e cavaleiros negros faziam o possível para resistir. Peixes gemia e sangrava com os espinhos das trepadeiras que o impediam de ser lançado pelos ares abrindo sulcos em sua carne. A névoa e os fragmentos de gelo partido impediam que Aquário visse mais do que alguns centímetros diante de si, mas não precisava da visão para saber que dentro de mais alguns instantes tanto ele quanto seu gigantesco escudo de gelo seriam arremessados escadaria abaixo. Capricórnio, Escorpião e Libra, arremessados à sexta casa, uniram, em vão, seus cosmos ao de Virgem para formarem uma redoma protetora. Porém, mesmo as forças dos quatro nêmesis não era capaz de deter a onda de destruição, que a cada segundo os empurrava mais e mais. Gêmeos praguejava tentando manter o portal da Outra Dimensão aberto. Por todo o lugar, estilhaços de armaduras e gritos de dor enchiam os céus.

No centro do turbilhão, Selene, Thallas e Áries viram suas armaduras brilharem e arderem como se estivessem em chamas. Apavorados, constataram que a realidade era pior do que a ilusão. A carne de seus corpos queimava, suas mentes eram invadidas por visões de loucura, dor e morte. Imobilizados pela agonia mal conseguiam gritar.

Então, tão violentamente como havia começado, a terrível tempestade termina. Um silêncio de expectativa pairava sobre o santuário, por todo o lugar rostos feridos e espantados se erguiam em direção à décima terceira casa, onde uma tênue luminescência era a única indicação de que instantes atrás o local era o epicentro do turbilhão de energia que varrera o planeta.

Leviatã chorava sangue observava o céu noturno por onde ficava o telhado da do salão do Grande Mestre, gostaria de definir sua dor como insuportável, mas, no fundo, estava sentindo-se satisfeito por ter conseguido o que considerava impossível: sobreviver à fúria das deusas. Os lamentos de Selene e Áries lhe chegavam confusos e abafados. Com esforço conseguiu erguer o pescoço na direção das deusas notando, apesar da visão borrada, que havia uma Erínia a menos diante de si. Exausto deixou a cabeça cair no chão, emitindo um gorgolejar sofrido e angustiante, o que agradou bastante às deusas. Porém, não eram mais grasnidos de dor, e sim o mais próximo que Thallas conseguia chegar de uma gargalhada em seu atual estado.

As deusas não tinham se acalmado, apenas canalizado sua fúria para outros alvos.

Jamir, Índia.

Preocupados, Saga e Shura velavam o sono dos sobreviventes ao ataque do Nêmesis de Áries. Apesar de acharem ingenuidade a alegria com que foram recebidos entendiam bem o quanto aqueles cavaleiros de precisavam de esperança, ainda que passageira. Mesmo eles, cavaleiros de ouro calejados de tantos combates não puderam deixar de sorrir vendo Aldebaran erguer Kiki nos ombros e saudá-lo como herói. Até mesmo o distante Afrodite improvisou uma coroa de flores para o jovem (que pensou muito antes de aceitá-las) e fez uma reverência.

Infelizmente, a alegria não durou muito. Pouco tempo após abandonarem as ruínas da torre sentiram, mesmo naquele lugar distante os cosmos malignos das deusas da vingança. Era óbvio que estavam furiosas. Todo cuidado era pouco. Aioros sugeriu que saíssem dali o mais rápido possível, porém poucos estavam em condições de começar uma marcha forçada. Fizeram o melhor que podiam, mal podiam ver o local do combate de onde estavam. Com sorte, se fossem atacados, não seriam descobertos.

- Essa espera está me irritando. Quanto tempo se demora para plantar algumas flores?

- Você sabe o quanto Afrodite é meticuloso. Provavelmente deve estar transformando as ruínas em uma verdadeira floresta tropical, cheia de perigos para as tropas das deusas da vingança.

- Isso é o que me preocupa. Essa é a melhor hora para nos atacar. Se vierem em bando, como fizeram no Santuário não conseguiremos fazer nada. E aquele maldito perfeccionista fazendo Deus sabe o que lá em cima!

- Acalme-se, Shura, Aioros está com ele.

- Desculpe, sei que estou exagerando. Com a morte daqueles três cavaleiros e a derrota de Máscara da Morte é difícil não ficar preocupado. Mu não tem mesmo nenhuma idéia de como reverter?

- Eles têm conversado, na medida em que isso é possível. Mas, ambos sabem que sem a alma o corpo do Máscara vai começar a se decompor. E não dá para ficarmos investindo energias tentando evitar isso. Talvez Mu e Shaka juntos conseguissem guiá-lo de volta. Mas, isso é impossível, nem sabemos se o grupo dele sobreviveu. Pelo menos, até onde o Máscara da Morte sabe a alma de Atena não está na colina do Yomotsu.

- Talvez já tenha caído...

- Prefiro acreditar que ainda nem chegou lá. - repreendeu Saga- E você deveria fazer o mesmo.

- Certo, já entendi. Vou acordar o Aldebaran e tentar descansar um pouco.

- Bom descanso.

Nem bem Shura tinha convencido o Touro a acordar e ocupado seu lugar quando uma violenta explosão sacudiu as montanhas de Jamir acordando, em pânico, a todos os e choro convulsivo se espalharam pelo acampamento. Apesar de nada efetivamente ter acontecido, além da misteriosa explosão e do subseqüente tremor todos estavam completamente apavorados. O corpo de Máscara de Morte flutuava acima da confusão em uma tentativa do cavaleiro de impedir que seus apavorados colegas adiantassem o trabalho da natureza.

- Mu! – gritou Shura ao esbarrar no amigo em meio à confusão– O que está havendo?

- Não sei, acordei com a explosão. Achei que fosse um ataque, mas não estou vendo nem consigo sentir nenhum inimigo.

- Sim, tirando esse estouro da manada parecem estar todos bem,a penas apavorados. Vejo Aldebaran tentando impedir que o grupo se espalhe. Vou ajudá-lo, tente achar o Saga!

- Certo!

O cavaleiro de Gêmeos estava no outro extremo do acampamento, olhando fixamente para o horizonte, como se encarasse um inimigo invisível.

– Olhe para lá, Mu, e me diga o que sente. Não consigo sentir cosmo nenhum vindo das ruínas. Nem de Aioros, nem de Afrodite, nem de qualquer suposto inimigo. Tudo o que sinto é um medo irracional daquele lugar, a mesma coisa que você disse ter sentido ao ver as Erínias...

Não muito longe dali Aioros ajudava Afrodite a se erguer, alguma coisa caíra dos céus com tamanha violência que ambos foram imediatamente derrubados com o impacto. Seus ouvidos zumbiam e sentia-se nauseado, mas, fora isso, parecia estar bem.

- Como está?

- Um pouco tonto, mas acho que não me machuquei. O que aconteceu?

- Hssssss...

Continua...