Atos de Vingança III

Capítulo III

Jamir

- O que era aquilo?

- Não sei, mas espero que tenha morrido, ou no mínimo, sido ferido profundamente!

- Idem. Porém, acho que a flecha nem arranhou o couro daquela coisa...

- Tem certeza?Pensei que já estivesse correndo quando a flecha fez contato.

- Claro que estava! Comecei a correr assim que vi aquela aberração! Estou apenas sendo realista.

- Também estou com essa sensação, admito. Aliás, ótima idéia essa nuvem de pétalas.

- Obrigado. Foi o máximo que consegui pensar quando você foi atingido. Como está?

- Não foi profundo, parou na armadura. Mas tenho a impressão de que golpe atravessou todo o peitoral. E ela nem mesmo utilizou cosmo para nos atacar... Se só a força bruta foi capaz disso...

- Ela? Como sabe que é fêmea?

- Tinha seios. Pelo menos pareciam seios. Jura que não percebeu?

- Sinceramente? Considerar aqueles apêndices deformados como seios seria ofender de maneira irremediável e injustificável todos os outros seios que já vi na vida.

- ...

- Sem contar que eu estava ocupado demais aumentando a distância entre nós e, para fins de discussão, ela.

- Err... Hmm...Enfim... Mudando de assunto: será que conseguimos voltar ao acampamento aproveitando a nuvem de pétalas?

- A nuvem foi um improviso, duvido que dure muito. Precisamos pensar em outra coisa.

- Talvez seja melhor assim, não sabemos se eles estão sob ataque. Se não estiverem acabaremos levando o problema até eles. Acho que teremos de mantê-la aqui.

- Espero que não esteja sugerindo um sacrifício heróico.

- Não podemos deixar essa coisa se aproximar dos outros, nem conseguiremos ficar escondidos nesse buraco por muito tempo!

- Aioros, já morri três vezes por meus ideais, mais do que você, diga-se de passagem!Da próxima vez que morrer, quero seja por velhice.

- Tem idéia melhor?

- Fugir para longe do acampamento. Com sorte não só a convenceremos que estamos sozinhos aqui, como também a despistaremos.

- Hm. Boa idéia. Preparado?

- Sempre.

Aproveitando a vantagem da nuvem de pétalas os cavaleiros de ouro saltaram de seu esconderijo. O vulto da misteriosa e estranha agressora mal era visível em meio às pétalas, mas Afrodite, não contando que a recíproca fosse verdadeira lançou nova nuvem, dessa vez de rosas negras.

As flores envolveram a criatura que, apesar de não reclamar dos espinhos em seu couro parecia estar visivelmente irritada com o perfume e a visão limitada. Silvos e um frenético bater de asas deram a Aioros a certeza de que, pelo menos por enquanto, os cavaleiros não constavam das preocupações imediatas da adversária. Disposto a aproveitar a chance, talvez única, ergueu seu cosmo a máximo e lançou seu mais poderoso ataque contra o crânio do monstro.

- INFINITY BREAK!

XxxxX

Espaço aéreo indiano.

Alheios à situação de seus aliados desde que saíram do Brasil, Hyoga e Ikki tentavam recuperar o tempo perdido trocando o máximo possível de informações com os cavaleiros de ouro do grupo de Kanon que encontraram na mansão Kido. Uma vez vencidas as desconfianças iniciais os sete cavaleiros não perderam tempo para elaborarem novos planos de contra-ataque.

- Mil perdões, mestre. Não tenho palavras para expressar minha vergonha...

- Relaxe, Hyoga. Suas atitudes são perfeitamente compreensíveis, dadas as circunstâncias. Você não foi o único a se precipitar.

- Não nos percamos em culpas ou responsabilidades. – sentenciou Dohko – Ninguém se feriu gravemente, Seika está bem, talvez resfriada, mas bem. O importante é que finalmente temos uma chance real de fazer algo contra nossos adversários.

- Eu não teria tanta certeza. Pelo que Camus explicou vocês tomaram uma boa surra. Imagino que o grupo de Mu não deva ter se saído muito melhor. Pouco importa o número de novos cavaleiros negros ou o que mais as deusas enviem contra nós. Enquanto um daqueles Nêmesis estiver de pé nós teremos fracassado. E ainda há a questão de salvarmos Atena e determos as próprias deusas da vingança.

- Ikki tem razão. Todos os cavaleiros remanescentes alcançaram sucessivas vitórias contra as forças inimigas, mas nada de substancial foi feito.

- É por isso que venho dizendo para levarmos o combate até eles!- bradou Aiolia esmurrando o braço da cadeira. – Nossos planos até aqui eram inúteis por não termos como derrubar os nêmesis de Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Sagitário, Capricórnio e Peixes. Uma vez que temos a certeza de que nossos colegas estão vivos a melhor coisa a fazer é invadir o santuário e acabar com a raça desses desgraçados!

- E quanto às Erínias e Nêmesis? Não há como ter certeza de que Atena conseguiria aprisioná-las caso consigamos libertá-la. Isso se chegarmos tão longe.

- Ainda que Atena esteja fraca demais para prender as deusas da vingança, caso nós doze consigamos vencer...

- O que, por si só, já é uma grande suposição. Todos nós sentimos o cosmo delas agora a pouco. Estamos a centenas de quilômetros da Grécia e ainda assim por pouco o avião não se espatifou no pacífico.

- Talvez seja uma suposição. - continuou Aiolia- Mas, ainda assim acredito que teremos poder de fogo para escapar de lá com Atena, caso seja impossível vencer as deusas.

XxxxX

Após vários minutos de pânico o acampamento dos cavaleiros refugiados experimentava uma paz vigilante. Apesar de Afrodite e Aioros ainda não terem retornado, não havia indicação de que o grupo estivesse em perigo imediato. Independente disso, os cavaleiros de ouro não estavam dispostos a arriscar.

- Está decidido então, se Saga e eu não voltarmos, nem entrarmos em contato nos próximos 10 minutos Mu teleportará todo o grupo o mais longe que puder.

- Ainda acho muito arriscado irem apenas vocês dois, Aldebaran. Não seria melhor Mu ir sozinho, ou com um de vocês, que seja, e teleportar todo mundo de volta? O número de teleportados seria infinitamente inferior!

- Mas poderíamos ser seguidos. Caso isso acontecesse acabaríamos obrigados a entrar em combate, justamente o que estamos tentando evitar.

Vencido, Shura limitou-se a gesticular com impaciência para que os companheiros seguissem adiante com a missão. Antes que ambos desaparecessem de seu campo de visão já tinha vestido sua armadura.

- Acha que teremos de combater, Shura?

- Gostaria que não, Mu. Mas, desde antes da loucura que seguiu àquela explosão misteriosa não consigo tirar uma sensação de peso em meu coração. E agora, com a demora de Afrodite e Aioros não consigo afastá-la por nada. Confesso que tenho medo do que poderá acontecer nas próximas horas.

- Também sinto algo parecido. Rezemos para que ambos estejamos errados.

XxxxX

Não muito longe dali, a origem do problema liberava sua fúria. Por um momento, Tisífone tivera a impressão de que as presas a tinham frustrado. A Erínia sempre achou incrível que criaturas tão patéticas como os seres humanos, cujas mentes tão facilmente aceitavam as mais absurdas sugestões tinham a petulância de se atrever a enfrentar os deuses.

Não bastava terem tentado distraí-la com uma mal cheirosa nuvem de pétalas durante a fuga, ainda se atreveram atacar-lhe a face. Entretanto, o golpe apenas a irritou. Os ataques dos cavaleiros choviam sobre as escamas da Erínia, praticamente sem efeito. A única coisa que os livrava dos contra-ataques era a velocidade, mas mesmo assim a deusa se aproximava mais e mais.

- Sinto como se estivéssemos lutando por horas, mas nem conseguimos fazê-la mudar de posição!- queixou-se Aioros – Consegue ver alguma abertura?

- Não estaríamos aqui ainda se conseguisse.-replicou Afrodite- Minhas flores mal a irritam e suas flechas nem a arranham... É um milagre que ainda estejamos vivos.

- Ssssim... Um milagre... Suas desprezíveis vidas só se mantêm por vontade divina. NOSSA VONTADE!

O urro que se seguiu foi o suficiente para lançar os cavaleiros ao chão. Não sendo a primeira vez que sofriam tal ataque se recuperaram relativamente rápido, pondo-se de pé e preparando-se para bloquear a próxima leva, porém, a Erínia não estava mais à vista. Atentos, começaram a circular o campo da batalha, era improvável que a criatura tivesse desistido.

Já Tisífone, vários metros acima deles se preparava para um mergulho quase suicida sobre os cavaleiros. A determinação com que se esforçavam para prenderem sua atenção era prova mais do que suficiente da existência de mais cavaleiros escondidos nas proximidades. Assim que os exterminasse se encarregaria dos outros.

- Acho que teremos de apelar para sua idéia de sacrifício heróico, Aioros.

- Quem diria que você acabaria concordando comigo...

Vindo do alto, um poderoso rugido dado por Tisífone foi o que bastou para obrigar Peixes e Sagitário a se ajoelharem, tremendo. Não era preciso que olhassem para cima para saberem que tinham poucos segundos para pensarem em algo.

-N-não consigo me mexer! – exclamou Afrodite.

- Nem eu! Consegue ativar suas armadilhas?

- N-não sei... Mas não vai adiantar nada!

- N-não importa! Talvez nos dê mais alguns minutos!

Desesperado o cavaleiro de Peixes se concentrou. Além do pavor que se espalhava por seu corpo, seu cosmo também parecia ter sido afetado. O crescente som da gargalhada triunfante da Erínia dificultava ainda mais seus esforços. A proximidade aumentava mais e mais a sensação de pânico. Aioros, ciente da dificuldade do colega, mas preso na mesma espiral de desespero não conseguia evitar de implorar ao amigo que se esforçasse, dificultando ainda mais a situação.

- Vamos!

- Estou tentando!

- Não podemos morrer aqui!

- Estou tentando! Maldição, estou tentando!

- HAHAHAHAHAHAHAHAHAHHA!

- AFRODITE, PELO AMOR DE ATENA!

- EU NÃO CONSIGO!

Já era possível sentir a respiração da criatura ao redor de seus corpos. Nenhum dos cavaleiros conseguia segurar as lágrimas de pavor.

- MORRAM, MORTAIS!

XxxxX

Shaka passara a maior parte da viagem em silêncio, mas, diante dos arrojados planos de Aiolia, decidiu dividir com os amigos a dúvida que o ocupava.

- Todas essas questões são importantes, mas creio que haja um detalhe sendo negligenciado por nós até o momento. – diante dos olhares intrigados dos outros continuou- Somando nossas experiências na Grécia com as dos cavaleiros de bronze no Brasil cheguei à conclusão de que os nêmesis não estão vivos. Não mais do que os cavaleiros ressuscitados por Hades estavam.

- Como assim?

- Lembra-se, Velho Mestre, do que seu nêmesis lhe disse durante o combate?

- Confesso que essa história de ser fisicamente mais novo que vocês e ainda assim ser chamado de Velho Mestre está começando a ficar meio assustadora... - falou Dohko arrancando sorrisos dos demais- Mas, sim, me lembro. Ele comentou que passou a existir no momento em que fui concebido. Que era meu desejo de justiça elevado ao infinito. Que tinha todas as minhas qualidades e nenhum dos meus defeitos. Apesar disso, ele pareceu tão impulsivo quanto eu era na minha adolescência. Ele também falou algo sobre seus medos e dúvidas se bem me lembro. Foram esses comentários que o fizeram pensar em sua teoria, Shaka?

- Dentre outras coisas. Todas as pessoas carregam dentro de si uma auto-imagem, um arquétipo de si próprias. Uma figura normalmente essa figura dotada de características, quer sejam defeitos ou qualidades, muito superiores àquelas verdadeiramente possuídas pelo indivíduo, mesmo os que se consideram inferiores ao que realmente são possuem um arquétipo de perfeição inatingível. Creio que nossos inimigos sejam tais arquétipos dotados de corpo físico e consciência.

- Um momento, Shaka – disse Ikki – Mesmo assumindo sua teoria sobre tais criaturas e as palavras do nêmesis de Libra como verdade ainda não há como explicar os nêmesis de Gêmeos e Câncer. Não consigo conceber que a personalidade maligna de Saga fosse seu ideal de perfeição!

- Não um ideal de perfeição. – disse Dohko- Mas, um ideal deturpado de justiça que ele, em sã consciência, não tinha coragem de colocar em prática.

- Isso explica Saga, mas ainda deixa em aberto o nêmesis de Câncer, que não se enquadra nisso, afinal, é o filho do Máscara da Morte!-exclamou Milo.- O que por si só já é algo surpreendente!

- Concordo. Por isso estou ansioso para falar com o Máscara da Morte. Se conseguirmos elucidar o papel do filho dele...

A conversa foi interrompida por um súbito clarão, acompanhado de um estrondo semelhante à queda de um raio. Espantados, os cavaleiros se aglomeraram nas janelas da aeronave, na esperança de ver algo que explicasse o acontecido. Após alguns minutos de espera novos clarões e estrondos atingiram o avião, e, dessa vez, foi possível localizar sua origem.

Adiantando-se aos demais Camus se dirigiu à cabine do piloto pedindo que alterasse o curso em direção às luzes. Não havia dúvidas de que estavam presenciavam os efeitos de um combate de cavaleiros. A questão era contra quem seus aliados lutavam.

XxxxX

- AFRODITE DE PEIXES!

- Quem?

Já completamente entregue ao desespero Afrodite sentiu um súbito renovar de suas forças. Não tinha certeza se a voz em seus ouvidos tinha sido ouvida por Aioros, ou mesmo pela Erínia, mas, ao ouvi-la, teve a certeza de que aquele não era o dia em que deveria morrer.

- LEVANTE-SE E LUTE, CAVALEIRO DE ATENA!

Surpreso, Peixes viu seu corpo se erguer, como se movido por engrenagens invisíveis. Seu cosmo, até então constrito pelo poder da Erínia explodiu sem controle. Sua mente não conseguia entender o que se passava, mas, em algum grau subconsciente ela e seu cosmo sabiam o que deveria ser feito.

Ao redor do campo de batalha centenas de destroços foram lançados aos céus. Incontáveis ramos repletos de espinhos surgiram do solo, crescendo em velocidade assustadora em direção à Erínia, que se debate em fúria. Força para arrebentar os ramos não faltava à Tisífone. Cada movimento da deusa arrancava vários deles de suas raízes, porém, a cada ramo arrancado vários outros o substituíam. Em instantes estava com as garras presas ao chão e as asas imobilizadas.

- GRRRRRRRRRRR!

- Aioros. Consegue se mover? – perguntou Afrodite, o espanto estampado em sua voz

- Eu... Sim, consigo!- respondeu Sagitário, tão surpreso quanto.

- SOLTAI ESSAS AMARRAS! NÓS VOS ORDENAMOS!

- Não sei o que está acontecendo, nem por quanto tempo vou conseguir manter isso. Se tiver alguma idéia, acho bom executar logo.

- Consegue abaixar o pescoço dela?

- Acho que sim.

A um gesto do cavaleiro de Peixes novos ramos envolvem Tísifone, enroscando-se em seus cabelos-serpente e seu pescoço.

- É o máximo que consigo.

- Podem ter conseguido imobilizar-nos agora, porém, isso não durará por muito tempo. Ambos morrerão, nossas presas estraçalharão a carne de seus corpos!

- Ela... Está certa, Aioros, estou chegando ao meu limite... O que quer que tenha acontecido comigo não é duradouro.

- Não se preocupe, é o suficiente.

Pegando seu arco, Aioros mirou em direção à cabeça da Erínia e aguardou. Ao ver a deusa inspirar para um novo rugido disparou. Em perfeita sincronia com os movimentos de Tisífone, a flecha a atinge em cheio a garganta.

- GRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! MALLLDITO!ARRRRRGHHH!

Gemendo de dor Tisífone se debateu furiosa. Seu corpo cresceu até se tornar grande demais para a prisão de Afrodite poder contê-la. Com um rápido movimento agarrou os dourados, um em cada mão, e começou a esmagá-los.

- Ahhhhhhhh!

- Minha armadura!

- Verrrmesssss!Vou essspremer a vida de sssseus corpossss e depois devorá-lossss. Pagarão pela afronta!

- GRANDE CHIFRE!

- Explosão Galáctica!

- ARGH!

Fosse pela surpresa ou pela combinação dos ataques Tisífone cambaleou ao ser atingida, relaxando a pressão sobre Aioros e Afrodite.

- Saga! Aldebaran! Fico feliz em vê-los!- disse Aioros!

- O que estão fazendo aqui?

- Salvando suas vidas, o que parece?

- ESTÃO A POR EM RISCO SUAS PRÓPRIAS VIDAS!

Fechando ainda mais as mãos Tisífone se lança contra os recém-chegados com uma série de golpes com seus agora gigantescos punhos. Dentro deles, Peixes e Sagitário mal tinham fôlego para gritar de dor. Os sons dos golpes ecoavam pelas montanhas, os rugidos rachavam as rochas, mas Touro e Gêmeos não se recuaram. A firmeza e segurança com que se moviam na presença da Erínia a surpreenderam. Mesmo seus servos sentiam desconforto diante das deusas da vingança, independente do humor que elas apresentassem. Havia uma influência externa, mas ela não conseguia identificar qual.

Alheios às preocupações de Tisífone, Aldebaran e Saga faziam o possível para libertar os amigos. Ao subir o vale se sentiram sufocados, não importava a velocidade com que se movessem parecia impossível alcançar o destino. Já estavam certos de que haviam sido capturados em uma ilusão quando seus olhos foram atingidos por uma luz cegante. Ao abri-los, estavam no meio do campo de batalha, com a Erínia, Peixes e Sagitário a poucos metros adiante.

Vendo a reação provocada pela flecha de Aioros, ignoraram quaisquer explicações e lançaram-se ao combate. Saga tentou saltar para atingir os braços de Tisífone a curta distância, mas esta usou a cauda para jogá-lo ao chão. Atento, Aldebaran atingiu o tronco da deusa com um poderoso golpe de ombros, desequilibrando-a. Disposta a não conceder a menor vantagem aos cavaleiros de ouro, a Erínia abriu a mão com a qual pretendia se apoiar, de modo que o cavaleiro que segurasse fosse prensado contra o chão sob seu enorme peso.

- ARGH!

- Não! Aioros!

Preocupado com o amigo Aldebaran não pode evitar ser agarrado pelas víboras do couro cabeludo de Tisífone, erguido do chão e levado em direção ao corpo da deusa. A armadura de ouro rachava sob as mordidas, mas ainda resistia.

- Com ela manipulando seu tamanho o tempo todo fica difícil esquivar. Desse jeito estaremos sempre dentro de sua área de ataque.– rosnou Saga correndo em direção à criatura - Aldebaran! Proteja-se como puder! – gritou erguendo o cosmo.

-Hein?Me proteger de que?

- EXPLOSÃO...

- Ai, droga!

Abraçando as serpentes e girando o corpo da melhor maneira que conseguiu, Aldebaran coloca o maior número de atacantes entre ele e Saga.

- ...GALÁCTICA!

Considerando que, devido as circunstâncias, Afrodite e Aioros estavam protegidos pelas escamas da criatura, e Aldebaran a uma distância razoavelmente segura; Saga lançou uma explosão galáctica visando cobrir a maior área e causando o maior dano possível.

- AAAAARGH!

A proximidade com o alvo fez cair de joelhos a alguns metros de distância. A nuvem de poeira gerada foi enorme, Entretanto, o grito da criatura indicava que não tinha sido uma tentativa inútil.

Um ponto dourado se soltou da nuvem de poeira, seguido imediatamente por um gigantesco braço. Girando no ar Afrodite desviava das garras de Tisífone, que tateavam o ar em seu encalço. No rastro do cavaleiro de Peixes, uma nuvem de rosas negras dançava e se chocava contra o corpo da Erínia.

- TOLO! REALMENTE ACHA QUE FLORES PODEM DETER AS GARRAS DA VINGANÇA?

O enorme vulto do outro braço de Tisífone toma forma em meio à fumaça. Num piscar de olhos Aioros é arremessado por entre as nuvens de rosas negras, em direção de Afrodite. Não prevendo tal ataque este é atingido em cheio, atingido o chão em alta velocidade junto com o companheiro.

- Afrodite! Aioros!- gritou Saga.

- TU TE PREOCUPAS DEMAIS COM TEUS AMIGOS! TANTO QUE NÃO PERCEBES QUANDO, CLARAMENTE, É A TUA VIDA QUE ESTÁ EM JOGO!

Mesmo reagindo à velocidade da luz Saga mal conseguiu bloquear o ataque que foi forte o suficiente para abrir sua guarda e arremessá-lo a alguns metros de onde estava. Ao se erguer notou que seus braços sangravam mesmo com a armadura aparentando estar intacta.

- Droga, não posso ser atingido de novo...

- Preparai-vos mortal, serás o primeiro de tua corja a provar a sentir o poder do cosmo de uma Erínia!

Tisífone grita, mas de sua boca não sai som, mas uma intensa luz vermelha. Saga rola e salta pelo campo de batalha tentando escapar. Quando percebeu que estava sendo guiado para perto de seus companheiros caídos já era tarde demais. Atingidos pela estranha luz Peixes, Sagitário e Gêmeos se contorceram, chorando de dor. Nenhuma ferida foi feita em seus corpos, mas eles sangraram copiosamente. Em suas mentes ecoava a voz de Tisífone, zombando de seus esforços e os incentivando à rendição.

Com a visão turvada pelo sangue os cavaleiros não conseguiam ter certeza do que estavam vendo, mas a impressão que tinham era de que Aldebaran, a quem julgavam desmaiado devido ao impacto da Explosão Galáctica, apesar de ainda às voltas com as serpentes do cabelo de Tisífone estava consciente da situação dos colegas.

Com a respiração suspensa viram Aldebaran socar uma das serpentes, agarrá-la, e, em seguida saltar, em direção ao rosto de Tisífone. Usando a armadura de Touro como arma cravou o espinho de sua joelheira no olho direito da Erínia reagiu rosnando e erguendo a mão para tentar agarrá-lo.

- AARRRGH!

Usando a serpente que segurava e olho que ferira como pontos de apoios Aldebaran lançou-se para o outro lado do rosto da Erínia, fazendo com que ela atingisse a própria face. Urrando de ódio a deusa usou a outra mão tentando derrubá-lo de seus cabelos. Girando desajeitadamente o cavaleiro aproveita o ataque para passar para a mão da Erínia, que tenta esmagá-lo com um tapa.

- MALDITO VERME IMPERTINENTE!

- Eu vou me arrepender disso... – murmurou Aldebaran - Eu sei que vou...

Saltando sobre a mão que se aproximava, e usando-a como plataforma ele se joga no ar novamente em direção ao rosto da Erínia, que, preparada, já preparava um novo disparo.

- Acho que vou precisar de um empurrãozinho aqui em cima, rapazes!

- Do que esse idiota está falando? – perguntou Afrodite estupefato.

- Acho que já sei!- disse Saga- EXPLOSÃO... !

- VOCÊ ENLOUQUECEU DE NOVO? – gritou Aioros segurando os braços de Gêmeos- De que lado você está?

- ANDEM LOGO! A VISTA DAQUI DE CIMA ESTÁ PIORANDO!

- Ahahahahaha...

- Pare de me atrapalhar, não temos muito tempo!- com uma cotovelada Saga se livra do já enfraquecido Aioros. –EXPLOSÃO GALÁCTICA!

Quando ouviu o pedido, Saga achou que Aldebaran queria apenas poder atacar à queima-roupa, sem risco de ser pego no golpe da adversária. Mirando entre Aldebaran e as mãos da Erínia, Saga criou uma onda de choque para empurrar o amigo mais rápido e mais longe do que seu impulso inicial o levaria. Entretanto,o cavaleiro, ao invés de atacar, usou a onda de choque para entrar na boca de Tisífone. Ela própria, surpresa, interrompeu seu ataque, tossindo. Sua expressão deixava claro que não tinha idéia do que se passava. No chão, Gêmeos, Sagitário e Peixes se entreolharam, sem nada entender.

Em meio à confusão geral a voz de Aldebaran soou, como se este estivesse bradando a plenos pulmões. Ao grito do Touro se seguiu um apavorante urro de dor de Tisífone, de cuja boca saíam vários feixes de luz dourada. A cada brado de Aldebaran se seguia outro, de Tisífone, cortado pelos lampejos de luz dourada. A Erínia se debatia, agarrando o pescoço em nítido sofrimento, sem conseguir fechar a boca.

Aproveitando a oportunidade Saga, Aioros e Afrodite se lançaram sobre ela, que mesmo diante de um ataque interno, conseguia rechaçá-los. Após seis ou sete sessões de gritos furiosos e agoniados, Tisífone finalmente conseguiu expectorar o cavaleiro de Touro. Caída ao lado do corpo de Aldebaran, tão danificada e corroída quanto a armadura do cavaleiro, estava a flecha de Sagitário que, entre brilhos intermitentes, dissolveu-se até desaparecer.

- Bassssta... Já bassssta...- rosnava a deusa, sangrando - Finalmente entendemos o motivo de tantos deuses caírem diante de vossos golpes...

O ar estalava ao redor da Erínia, faíscas saltavam de suas escamas enquanto seu corpo crescia mais e mais. Em pouco tempo, suas asas já estavam grandes o suficiente para cobrir o céu. Suas mãos brilhavam com o cosmo acumulado.

- Alguma idéia?- perguntou Saga.

- Definitivamente esgotei minha cota. – respondeu Aldebaran

- Acho que consigo nos envenenar para que não sintamos dor. – falou Afrodite

- Com tanta energia caindo sobre nós teremos muito azar se sentirmos algo. – disse Aioros

- ...Mas, atentai para uma coisa... É possível fugir... Ssssim, é possível fugir das Erínias... Mas nunca para longe, nunca por muito tempo... E vós,ahhh, vós... VÓS JÁ FUGISTES DEMAIS!

Com essas palavras Tisífone juntou as mãos. A onda de choque derruba os quatro dourados. O cosmo que havia se acumulado é então liberado em uma poderosa rajada, ampla o suficiente para varrer centenas de metros.

XxxxX

- Nunca imaginei que pudesse vir em meu socorro.

- Bem sabe que não foi a primeira vez. Mas, devo confessar que tive ajuda. Em minha situação seria impossível salvá-la se não tivesse.

- Mesmo assim, agradeço.

- Então, una seu cosmo ao meu. Juntos, podermos ajudar muitos mais.

- Perdoe pergunta, mas... O que você ganha com isso?

- Vai negociar mesmo com tanta coisa em jogo? Vejo que a experiência a mudou.

- Menos do que parece. De toda a forma, você tem razão. Haverá tempo para resolver tais questões depois.

XxxxX

– Alguma chance de Shura e Mu virem nos resgatar?

- A essa altura eu espero que já estejam bem longe daqui.

- Então, creio que isso é adeus.

- Foi um prazer lutar com vocês.

Quando finalmente foram atingidos nenhuma dor foi sentida. Seus corpos simplesmente se desfizeram pouco a pouco, enquanto todo o vale era desfigurado pelo destrutivo cosmo de Tisífone. Conforme seus corpos eram destruídos os quatro cavaleiros tiveram a nítida sensação de ouvir vozes chamando seus nomes. Elas provocavam sensações de conforto e vigor. Por um momento, Afrodite chegou a pensar ter reconhecido a ambas.

No limite da audição, enquanto a última fração de consciência se apagava uma terceira voz foi ouvida. Era Tisífone. Parecia haver ainda mais ódio e frustração em sua voz. Por algum motivo, essa idéia os fez sorrir. E assim, sorrindo, permitiram que suas mentes deslizassem para a inconsciência.


Continua...