Atos de Vingança III
Capítulo IV
Santuário de Atena, casa de Câncer
Sozinha, Selene chorava. Quando finalmente as deusas da vingança permitiram que voltasse a se mover pareciam estar satisfeitas com o castigo dado. Entretanto, como Thallas e Áries também descobriram, a agonia mental e física fora apenas o começo. Ninguém conseguia tocá-los sem se experimentar uma fração da tortura que lhes havia sido imposta horas antes. Graças a isso o trio foi obrigado a rastejar com as próprias forças para fora da décima terceira casa e tratar sozinho de suas feridas.
Do lado de fora da área residencial da casa de Câncer Andreas atualizava Bóreas e Eurus, que haviam retornado recentemente ao Santuário sobre os últimos acontecimentos. Apesar do tom reservado que usavam, muito da conversa era captado por Selene.
- Olá, rapazes. É bom vê-los novamente – disse saindo do leito e se aproximando do trio. Um comentário de Eurus, não totalmente compreendido lhe chamara a atenção.
- Selene!Você deveria estar repousando! – repreendeu Andreas.
- Ele está certo. Volte para dentro, podemos conversar mais tarde, não há razão para interromper sua recuperação.
- Foi uma grande insensibilidade de nossa parte vir aqui incomodá-la. - murmurou Eurus.
- Estaria mentindo se dissesse que estou bem. Mas ouvi parte da conversa de vocês com Andreas, e senti que, de alguma forma, já estavam esperando que isso acontecesse.
Nenhum dos ventos moveu um músculo.
- Não façam essas caras. Era questão de tempo até que as deusas nos punissem por nossa incompetência. Apenas me digam, há quanto tempo sabem das falcatruas de Thallas.
- Não tenho certeza do que está se referindo, Selene. – explicou Eurus – Somente hoje conseguimos arrancar algumas confissões de Nicomedes. Parece que o que quer que eles estivessem planejando com Gêmeos, já vem acontecendo há um bom tempo.
- Provavelmente desde que o libertaram de minha prisão de gelo. – sugeriu Bóreas – Se eu tivesse desconfiado de certos detalhes teria vindo direto para cá depois de descobrir sobre a morte de Zéfiro e a sobrevivência de parte dos cavaleiros de ouro.
- Você estava no Egito, correto? – perguntou Andreas. – Pelo que entendi, provavelmente foi seu encontro com os cavaleiros de ouro que os fez abandonar o sigilo.
- É provável. De certa forma, posso ser considerado o responsável pelo fracasso da missão de Áries e pela sobrevivência de vários cavaleiros de Atena. – era possível notar alívio na voz de Bóreas. – De qualquer forma, peço desculpas por não estar aqui para ajudá-la, Selene.
- Mas, o que você quis dizer com "desconfiado de certos detalhes"? - perguntou Selene. – E de que adiantaria você estar aqui? Seria mais um a sofrer a punição.
- Se estivéssemos conseguido falar com você antes do acontecido talvez ocastigo pudesse ter sido evitado.
- Não estou entendo...
- Acho melhor você se sentar, Selene – disse Andreas com uma expressão de preocupação no rosto. – É uma longa história...
XxxxxX
Em algum lugar sob o oceano pacífico
"Saudações, meus cavaleiros. Por favor, não se assustem, está tudo bem. Sei que parece estranho, mas estamos seguros nesse lugar. Não, não estão experimentando ilusões, nem alterações de consciência. Estou, de verdade, junto de vocês, mais uma vez. Sou eu mesma. Alguns de vocês me conhecem por Saori Kido, outros apenas por Atena. Sou ambas, e estou viva. Aqui. Com vocês. Acalmem-se, por favor, acalmem-se. Todas as suas perguntas serão respondidas no momento certo. Eu mesma não tenho todas as respostas. Mas, tentarei explicar o pouco que sei.
Não me lembro de muita coisa de antes de acordar aqui, tão atordoada quanto vocês. Minha última memória de quando os enviei para a segurança dos Cinco Picos, na China. Pode não ter sido a melhor escolha, mas eu esperava que nossos inimigos se dessem por satisfeitos com nossa rendição, e não os perseguissem.
Do tempo de cativeiro tenho poucas lembranças. A maioria vagas. Posso ter delirado isso não é impossível, porém, tinha a impressão de que, de tempos em tempos, tanto as Erínias quanto Nêmesis interrompiam seus ataques contra mim. Nesses intervalos, sentia alguém cuidando de mim. Não vejo outra explicação para meu corpo mortal ter resistido por tanto tempo naquelas condições.
Alguns dias atrás, acordei neste lugar, nesta cidadela submersa, e vi meu salvador diante de mim: Sorento de Sirene. Creio que ele possa explicar melhor o que aconteceu nesse intervalo."
XxxxxX
- VOCÊ FEZ O QUE?
- Fale baixo!- repreendeu Bóreas tapando-lhe a boca – Quer que sejamos mortos?
- Que reação queria que eu tivesse?- exclamou a mulher, quando finalmente foi solta –Não fazem duas horas que o mundo caiu sobre minha cabeça, e acabo de descobrir que foi culpa de vocês!
- Eles não têm nada a ver com isso. – explicou Eurus – Bóreas meramente desconfiava de que eu acabaria tomando uma atitude, e Andreas descobriu apenas agora.
- E posso saber por que diabos sua cabeça ainda está sobre o pescoço? Não me diga que fizeram algum pacto de suicídio, e decidiram guardar segredo. Se for esse o motivo saibam que não estou interessada!
- Acalme-se, Selene. Fiz o que fiz pelo mesmo motivo pelo qual você enfrenta Thallas diariamente nos conselhos de guerra: essa luta está errada! Não é justiça, não é vingança, é caos!
Selene nada falou, realmente essa era sua opinião particular a respeito da atuação das tropas das deusas da vingança.
- A cada dia recebemos ordens mais e mais discrepantes. Não estamos mais dirimindo conflitos, nem punindo o agressor, mas incentivando a agressão. Se tivéssemos realmente massacrado os cavaleiros de Atena como pretendíamos o mundo seria um mar de sangue agora.
- Suponha que eu esteja concordando com você. – disse Selene após algum tempo – Como tirou Atena daqui?
XxxxxX
"Confesso ser incapaz de lembrar a data ou os detalhes exatos da conversa, mas tentarei reconstruir os eventos o melhor possível. Após me recuperar do ataque sofrido na mansão Solo, retomei minhas atividades tocando em eventos beneficentes. A atuação das Erínias estava, aliás, está, criando, mais e mais órfãos. Não tendo como enfrentá-las diretamente empenhei meus esforços para minorar os estragos por elas causados.
Após um desses eventos, fui abordado por um homem que se apresentou como Filipe. Embora, tenha inicialmente demonstrado ser apenas um admirador de minha música, e atos de caridade, ele não levou muito tempo para deixar claro que desejava mais do que me parabenizar pela minha atitude para com os necessitados.
Em certo momento da conversa fui chamado não pelo nome, mas pelo título: general marina de Sirene.
- Creio que esteja me confundindo com outra pessoa, meu caro. –respondi.
- Ouça: não tenho muito tempo antes que minha ausência seja notada, portanto, não me faça gastá-lo com rodeios. Você é o antigo guardião do pilar do Atlântico Sul, e servo fiel do deus dos mares, Poseidon. Fidelidade essa que o fez auxiliar os cavaleiros de Atena quando percebeu que a batalha entre seus senhores não era vontade de seu mestre, mas de um usurpador.
- Você parece saber muito a meu respeito, enquanto eu tenho apenas seu nome. Se é que Filipe é seu verdadeiro nome.
- Sim, é meu nome. Se deseja saber meu título é Eurus, guerreiro do Vento Leste. Mas minha biografia não importa, o que importa é que neste exato instante estou lhe oferecendo uma chance de diminuir o sofrimento de milhares de crianças em escala global.
- Como eu, sozinho, poderia fazer isso?
- Não sozinho. Com ajuda de Atena.
Diante de meu espanto ele me ofereceu um dia para que eu decidisse se iria confiar nele ou não. Na noite seguinte ele apareceu novamente. Eu havia rastreado Tétis assim que me recuperei do combate na mansão Solo, e mantinha contato freqüente com ela. Quando o suposto traidor apareceu em meu quarto de hotel ela estava lá para me ajudar a dominá-lo, e extrair a verdade. O homem não só não reagiu como demonstrou um conhecimento de nossas ações que se estendia por vários meses. Se quisesse nos fazer mal já teria feito.
Sim, eu estava desconfiado. Mas, a oportunidade era preciosa demais para deixar passar. Por isso, arriscamos. O prestígio de Eurus dentro das tropas das deusas nos colocou dentro do Santuário. Passamos dias no cemitério, aguardando o melhor momento. E ele surgiu quando as deusas se reuniram para decidir o destino dos cavaleiros encastelados em Jamir. Enquanto nossos inimigos debatiam Tétis e eu retirávamos Atena de sua prisão em Star Hill e fugíamos pelas montanhas, em direção ao mar.
Uma vez nas ruínas do templo submarino pegamos a urna em que Atena aprisionou nosso senhor Poseidon e viemos para este lugar, uma das muitas cidadelas do deus dos mares, esquecida pelas eras. E aqui, nossos mestres fizeram o possível para trazer todos vocês em segurança.
O que aconteceu com o traidor? Não sei dizer. Tampouco seria capaz de explicar seus motivos. Mas, sejam quais forem tais motivos, eles nos deram a chance de que precisávamos para acabar com essa loucura."
XxxxxX
- A verdade é que estou cansado, Selene.- suspirou Filipe – Não agüento mais que não estou sozinho nisso. Você também está cansada de tudo o que vem acontecendo. Fomos trazidos de volta com uma missão. E essa missão não só não se completa como foi desvirtuada. Todos nós demos nossas vidas por uma causa, anos atrás. Você, eu, Maximus, Orestes, até mesmo o cabeça dura do Nicomedes. Matamos e morremos por algo que achávamos certo. Nós enfrentamos um traidor, um tirano, alguém que se rebelou contra sua líder, uma defensora da paz. É verdade que para isso nós Ventos também acabamos por manchar nossas reputações com o pecado da traição. Mas isso era o de menos. O importante era que lutávamos pelo que achávamos certo. Até o próprio Máscara da Morte seria capaz de entender isso. Por Zeus, ele nos matou guiado por essa filosofia. E agora, eu me vejo nessa nova vida sem um propósito, sem uma razão de existir. Fui trazido de volta para tentar me vingar não só do cavaleiro de Câncer, mas também de Gêmeos, que ordenou nossa morte e o que estou fazendo?Incentivando pessoas que, não fosse nossa interferência estariam em paz muito felizes, a sujarem as mãos de sangue! Quase fui cúmplice da morte da mulher a quem em outra vida jurei proteger, e por cujo nome eu morri! Cansei de viver um paradoxo moral.
Selene caminhava de um lado para o outro, impaciente, com a maior desenvoltura que seus ferimentos permitiam. Não podia negar que compreendia os sentimentos de Filipe e Máximus. Era um absurdo que agissem baseados em tais sentimentos, por mais corretos que fossem. Alguns instantes após Eurus se calar, ela resolveu expor suas próprias opiniões.
- E agora? Qual nosso próximo passo?
- Como assim "nosso próximo passo"? – perguntou Eurus – Tudo que era possível fazer para equilibrar a balança já foi feito.
- Não basta equilibrar a balança, devemos fazê-la pender a nosso favor! Thallas definitivamente está fazendo isso. Antes apenas desconfiava, depois de hoje tenho certeza de que o ataque que sofri de Ilyria foi idéia dele. Com ajuda de Gêmeos, provavelmente.
- Mas o que pretende fazer? Tornar isso um combate em quatro frentes? Nós versus Thallas, versus Atena versus as filhas da Noite? – espantou-se Eurus.
- A quantidade de jogadores depende de como encaramos a questão– sugeriu Selene – Já prestaram atenção como as Erínias e Nêmesis não se entendem totalmente? Desconfio que, de alguma forma, Nêmesis esteja tentando controlar a fúria das outras deusas, limitar sua ação.
- Se for realmente assim, então, ela está perdendo terreno, pois foi Tisífone quem saiu do Santuário atrás dos cavaleiros, não ela, ou os nêmesis. – disse Eurus.
- Acho que é com isso que Thallas e Gêmeos contam: que após a derrota de Atena as deusas acabem se enfrentando. - disse Bóreas – Não consigo ver como exatamente eles poderiam se aproveitar de um confronto entre elas, mas desconfio que tenham mandado Ilyria e Orestes para a morte para abrir caminho. Qualquer um de nós pode ser o próximo.
- Não podemos fazer nada abertamente. -disse Andreas- São apenas desconfianças.
- Sim. Mas, quando as tropas de Atena chegarem, e, acredite, elas virão, é questão de tempo.- falou Bóreas – Poderemos aproveitar a confusão para dar à elas uma chance.
- Trair abertamente as deusas?- perguntou Andreas, assustado.
- Porque não? Nossa missão já foi desvirtuada. Não precisamos destruir a humanidade para punir os cavaleiros. Não podemos permitir que mais inocentes se machuquem no fogo cruzado. – disse Bóreas – Sempre soubemos que éramos descartáveis. Estamos vivendo um tempo emprestado. Simplesmente daremos um uso decente a ele.
- Andreas... – fala Selene virando-se para o filho. – Em tese, você tem a obrigação de nos impedir. Principalmente, considerando que foi você quem nos trouxe de volta.
- Talvez, tenha essa obrigação. Mas vou descumpri-la. Desde o princípio meu objetivo era um só: conseguir poder para me vingar do homem que destruiu minha vida. Vocês três podem fazer o que quiserem. Só não interrompam minha vingança.
- Áries disse que matou Máscara da Morte.– replicou a mulher.- Sua vingança já não tem sentido.
- Atena está livre, e os cavaleiros de Áries e Virgem vivos. Juntos, eles podem trazê-lo de volta facilmente. -respondeu o nêmesis de Câncer- Quando o fizerem, eu estarei esperando.
XxxxxX
As explicações de Saori e Sorento não bastaram para aliviar as preocupações dos cavaleiros. Depois de tantos meses de privações e angústias era difícil aceitar que a fortaleza de um antigo inimigo fosse oferecer os tão esperados refúgio, e esperança. Ciente disso, Saori caminhava entre as fileiras de cavaleiros, soldados e servos, tentando animá-los. Seu cosmo, ainda enfraquecido, se não os ajudava a aceitar a situação pelo menos a tornava tolerável. Quando finalmente se reencontrou com Shiryu, Hyoga e Ikki as lágrimas que vinha segurando retornaram.
- Ikki...- falou entre soluços- Eu... Eu... O Shun...
- Eu sei, eu sei. Também me sinto assim... – respondeu Fênix abraçando a jovem – Mas, prefiro pensar que ele se foi fazendo aquilo que considerava importante: defendendo os amigos. O sacrifício de Shun não foi em vão, eu prometo.
- Não, Ikki, nós prometemos. – disse a deusa – Nunca mais choraremos pela partida prematura de um ente querido.
Erguendo a voz e cosmo Saori se dirigiu a todos os seus súditos:
– Enxugaremos nossas lágrimas! Curaremos nossas feridas! Quando estivermos prontos voltaremos ao nosso Santuário, e enfrentaremos Nêmesis, as Erínias e seus cavaleiros negros. Mas, dessa vez, será nos nossos termos! Retirem os sentimentos de vingança de seus corações. Não é o ódio que nos fará triunfar, mas o amor. O amor e o respeito que nutrimos pela humanidade, e por nossos amigos que caíram por causa dessa batalha sem sentido. Não levaremos vingança, mas justiça aos nossos inimigos.
Lentamente, conforme ouviam as palavras de Atena, os cavaleiros ergueram seus cosmos. Ao fim do discurso mesmo Sorento e Tétis haviam se unido a eles.
XxxxxX
Santuário
Após a partida de Tisífone, todos os moradores do Santuário aguardavam em expectativa. A cada minuto que se passava sem que a Erínia retornasse essa expectativa crescia. Estava a divindade se divertindo com o extermínio de suas vítimas, ou a recém liberta Atena e seus cavaleiros haviam conseguido o impensável?
Quer fosse graças ao nascer do sol que se aproximava, ou à atmosfera de apreensão no Santuário, poucos perceberam quando onze das chamas do relógio zodiacal se acenderam por um breve instante.
Na casa de Gêmeos, três dos mais atentos soldados das deusas da vingança não perderam um só instante do curioso evento.
- Bem, isso encerra as especulações. – disse o nêmesis de Gêmeos – Tisífone fracassou. Elas não são invencíveis, no fim das contas.
- Resta ainda uma coisa a se especular: ela ainda vive? – questionou Notus
- Isso não importa.
- Importa, e muito!
- As outras duas estariam berrando a plenos pulmões se a irmã tivesse sido destruída. – murmurou Thallas interrompendo a discussão antes que piorasse– Não. Ela ainda vive. Pode ter sido frustrada, mas ainda vive.
-Eis a importância de saber se Tisífone foi destruída ou não! Nossos planos são inúteis se Nêmesis e as Erínias não forem neutralizadas, ou contidas por tempo o suficiente para podermos agir. Tenho dúvidas se os cavaleiros conseguirão nos dar tempo o suficiente.
- Notus, preocupe-se apenas em cumprir seu papel. Em breve, Atena e seus cavaleiros invadirão o Santuário, e, então, poderemos agir.
- Há algum motivo para essa confiança toda? – perguntou Thallas.
- Boa pergunta, seu sorriso está mais maníaco que o normal. – disse Notus.
Sem responder de imediato, Gêmeos vai até os aposentos interiores da terceira casa, retornando de lá com uma estranha caixa.
- O que vocês acham que foi o breve acender do relógio zodiacal?
- Ora, isso é óbvio! Um sinal de que os cavaleiros de Atena estão vivos e bem. -respondeu Notus.
- Talvez tenha reagido ao cosmo dos cavaleiros ao se encontrarem com Atena. – disse Thallas. - Um efeito colateral do que quer que eles estejam fazendo agora. Quem sabe?
- Foi uma declaração de guerra, meus caros. -respondeu o Nêmesis- Assim como o escândalo feito pelas deusas da vingança enquanto puniam Thallas e Selene também o foi. E esta -disse abrindo a caixa- é a resposta que daremos a elas.
As chamas do relógio de fogo piscaram novamente, mas Leviatã e Notus não se preocupavam mais com os significados ocultos que o fato poderia ter. A atenção de ambos estava toda voltada para o conteúdo da misteriosa caixa trazida por Gêmeos. Cuidadosamente protegida por um fundo acolchoado repousava uma adaga dourada.
Continua...
