Atos de Vingança III
Interlúdio
Alojado no que aparentava ser uma antiga forja na qual em tempos imemoriais os ferreiros de Poseidon confeccionavam as escamas dos soldados do exército do deus dos mares, Mu trabalhava de forma incessante. Com o máximo de diligência que sua ainda debilitada saúde permitia seu aprendiz, Kiki, ajudava. Há quantas horas, ou dias, trabalhavam já não tinham mais certeza. O ar da enorme sala impregnado com o odor do sangue utilizado na restauração das armaduras cintilava e vibrava devido às faíscas e estridentes sons do choque de metal contra metal.
- Mestre Mu? – falou Kiki,tirando seu mestre do estado meditativo em que trabalhava.-O senhor acha que conseguiremos restaurar todas essas armaduras a tempo?
Como o cavaleiro não respondesse, o jovem aprendiz continuou:
- Não que eu esteja duvidando da habilidade do senhor, mas estamos há um longo tempo sem descanso. Ainda que consigamos terminar a tempo não há o risco de que o senhor estar exausto demais para lutar?
O silêncio se prolongou por mais alguns minutos, entrecortado apenas pelo som das ferramentas em ação. Quer por estar finalmente satisfeito com seu trabalho, ou comovido com a preocupação de seu aprendiz Mu colocou de lado seu atual objeto de trabalho, o escudo da Medusa, e, voltando-se para seu aprendiz, disse:
- Sim, Kiki, há risco. Um risco enorme. Assim como há um risco tão grande quanto de os donos das dezenas de armaduras que consertamos até agora estejam tão fragilizados devido à grande quantidade de sangue cedida para a restauração. Mas, da mesma forma que isso não vai impedir nenhum deles de vesti-las e entrar em combate; não posso me permitir descansar enquanto não tiver certeza de que todos eles contarão com a melhor proteção possível quando chegar a hora. Se isso significar trabalho ininterrupto até a hora da batalha... Assim o farei.
Palmas desviam a atenção de ambos para a porta de onde dois objetos, frutas, foram arremessados e facilmente aparados por eles.
- Belas palavras, meu amigo. Mas, sua disposição de nada adiantará se você não se cuidar.
Com um sorriso Mu cumprimenta o recém-chegado.
- Agradeço sua preocupação, Aldebaran, porém o que falei para Kiki continua válido. Não posso descansar ainda. – disse, colocando o presente sobre uma bancada.
- Não vou conseguir fazê-lo mudar de idéia, não é?- perguntou Aldebaran.
- Não.- foi a resposta de Mu.
- Já que é assim– disse Touro colocando a urna de sua armadura no chão- Se já tiver acabado com a armadura de Perseu, chegou a vez da minha.
Sem se fazer de rogado Mu pega novamente suas ferramentas e abre a urna.
- Ao trabalho, então, velho amigo.
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Starhill
O retorno de Tisífone ao Santuário de Atena espalhou o terror sem distinção entre nêmesis e cavaleiros negros. Que a erínia havia fracassado em sua tentativa de eliminar os cavaleiros já era sabido, a dúvida restante era a razão para isso ter provocado um aparente cisma entre as quatro deusas. Apesar de estar tão curioso quanto os outros habitantes do Santuário, Thallas não se atrevera a tecer nenhum comentário desde que fora convocado para se apresentar diante das Erínias em Starhill.
Prostrado com a testa de encontro ao chão Thallas usava o máximo de seus poderes para ocultar seus planos das Erínias que, no momento, não pareciam ter muito interesse nele, limitando-se a voltear ao seu redor, perdidas em seus próprios pensamentos. Era um jogo arriscado, ainda que não fossem capazes de ler completamente sua mente, as deusas poderiam notar a barreira mental erguida por ele; daí para arrancarem à força seus segredos não demoraria.
- Há algum motivo para tua impaciência, mortal?-perguntou Alecto interpretando erroneamente a preocupação de Thallas.
- Senhora?
- TENDES OUTROS AFAZERES QUE NÃO CONSAGRAR TUA VIDA E ALMA À TUAS MESTRAS?
- Não, de maneira nenhuma!Vivo para servi-las.
- Então, sossegai teu espírito! Dentro em breve terás oportunidade de colocar à prova tuas juras de fidelidade.
A frase de Tisífone atiça ainda mais a curiosidade de Thallas.
- Oh! Isso significa que as Senhoras conseguiram descobrir onde Palas Atena está escondida e planejam lançar um ataque?Esplêndido!
- Não... Infelizmente... Há um erro em vosso raciocínio...- a contrariedade sentida por Alecto pela situação em que se encontrava era tanta que a erínia mal podia falar a respeito.
- Não compreendo...
- EM VERDADE NÃO FAZEMOS IDÉIA DO ESCONDERIJO DE ATENA. TISÍFONE FOI INCAPAZ DE ENCONTRÁ-LO...- rosnou Megera, o desgosto estampado em cada sílaba pronunciada.
- Porém!-apressou-se a outra em justificar- Os reais problemas são a intervenção de Poseidon e Adratéia! Não há razão alguma para ela se atrever a interferir em nossos assuntos!
- De fato!É incompreensível que uma divindade como Nêmesis incorra na estupidez de aceitar o pedido de Atena por arbitragem!
-NÃO FOI ESTUPIDEZ, MAS AFRONTA!COMO SE AS ERÍNIAS FOSSEM CAPAZES DE INCORRER EM INJUSTIÇA...
- Perdoem minha ignorância, excelsas senhoras...- murmurou Thallas, cujo ânimo aumentava sensivelmente conforme a situação se tornava mais clara -... Mas, estão vossas senhorias a dizer que a senhora Adratéia está considerando nos trair?
- ELA NÃO SE ATREVERIA... – falou Megera, embora não sem dúvida.
- ...Nossos poderes sempre foram infinitamente superiores aos dela...
-...E agora, graças aos teus esforços, mortal, estamos ainda mais poderosas!
- Sim, sim, é verdade. Porém, permitam-me lembrar vossas excelências que as forças de Nêmesis Adratéia aumentam na mesma proporção que suas próprias. E ainda há o risco de as senhoras serem obrigadas a enfrentar Palas Atena e Poseidon...
- O mortal tem razão...
- ...O deus dos mares realmente disse que advogaria em favor da sobrinha...
-...CASO ELA O LIBERTE TERÍAMOS UM GRAVE PROBLEMA EM NOSSAS MÃOS...
- Quais foram as condições do acordo?
- Palas Atena teria doze dias para comparecer a esta fétida terra e enfrentar o julgamento...
-... Caso o contrário a própria Adratéia se juntará a nós...
-... E VARREREMOS O MUNDO ATRÁS DA FILHA DE ZEUS SEM MISERICÓRDIA PARA COM NADA NEM NINGUÉM QUE SE ATREVER A FICAR EM NOSSO CAMINHO!
- E o que aconteceria caso a Senhora Adratéia julgar em favor de Atena?
Um longo silêncio se abateu sobre as Erínias. Pareciam ter dificuldade em aceitar semelhante idéia.
- ENTÃO... Seríamos... Obrigadas... A... POUPAR... Atena...- responderam a uma só voz.
- E abdicar da riqueza de liberdade e alimento conseguidos desde a conquista do Santuário?
A nova pergunta provoca novo silêncio nas três deusas. Foram séculos de esquecimento e abandono, obrigadas a ver a humanidade caminhar, não sem vários retrocessos, em direção à paz e justiça. Raras eram as vezes que tinham o sangue de um criminoso ou a alma de uma vítima sedenta por vingança para saborear.
Diante da confusão das Erínias Thallas resolveu se arriscar. Na pior das hipóteses, sua sentença de morte, suspensa há tantos anos, seria finalmente executada. Porém, como este sempre foi um dos termos de seu acordo com as deusas da vingança, não custava arriscar. Sem saber Nêmesis havia aberto caminho para os sonhos de liberdade de Thallas.
- Minhas senhoras!- disse, sorrindo da maneira mais melíflua que conseguiu – Creio ter a resposta para vossos problemas.
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Cidadela Submarina
Alheios ao alvoroço provocado pela notícia de combate iminente Tétis e Sorento ocupavam seu tempo velando a urna de seu senhor. Alguns instantes após a conversa com as deusas da vingança o deus dos mares os convocara, porém, não parecia mais ter forças para ignorar o poder do selo de Atena. Temerosos de não conseguirem novo contato com Poseidon antes da partida dos cavaleiros e cientes de que não haveria muito com o que poderiam contribuir nos preparativos, os marinas se revezavam na vigília à urna.
- O que nos impede de romper esse lacre? – perguntou Tétis, inconformada com o que considerava uma injustiça contra seu amo.
- As dezenas de cavaleiros do outro lado dessa porta?- respondeu Sorento – Atena e seus súditos podem estar gratos por nossa atuação nessa guerra, mas não creio que fossem pensar duas vezes antes de nos neutralizar e aprisionar novamente Poseidon.
- Mas, pelo que Atena disse, a atuação de Poseidon é indispensável para o sucesso dos planos dela! Como ele pode fazer alguma coisa trancado em um pedaço de cerâmica?
- Com a ajuda de meus fiéis servos, é claro. - ressoou o cosmo do deus.
- Meu senhor!- exclamou Sorento-Pensamos que não conseguiríamos contato antes que Atena avançasse contra as deusas da vingança!
- Quais são suas ordens?
- Minha fiel Tétis... Rompa o lacre.
- Como?
- O senhor tem certeza?
- OBEDEÇA!
Sem mais questionamentos Tétis avançou contra o lacre,cujo poder lhe queimava a ponta dos dedos conforme se aproximavam da urna.
- TÉTIS!
-S-s-sim...
Quando finalmente conseguiu agarrar o lacre e destruí-lo Tétis esperou, ansiosa, por algum tipo de grande manifestação, porém, sua expectativa foi recepcionada pelo silêncio. Confusa a mulher virou-se para Sorento em busca de uma explicação, encontrando, aí a manifestação divina que buscava.
- Sorento!- gritou em pânico
Com os olhos vidrados, fixos em algum ponto distante, Sorento respirava profunda e rapidamente. Seu rosto exprimia uma mistura de espanto e profunda concentração. Quer reagindo à voz de Tétis, ou ao resultado de seu conflito interno Sorento ergueu a mão direita em direção à qual o tridente dourado do deus dos mares, que estava a quilômetros daquele lugar, imediatamente se dirigiu.
Surpresa e insegura, Tétis se manteve prostrada à espera de ordens. Quer fosse por estar se acostumando ao novo corpo, por resistência de Sorento ou mesmo por indecisão a respeito do próximo passo a tomar, Poseidon levou alguns momentos para dirigir a palavra à serva.
- Quanto tempo já se passou desde que os convoquei?
- Quase dez dias, meu senhor.
- Como andam os preparativos de Atena?-questionou o deus após mais alguns instantes de silêncio.
- O cavaleiro de Áries e seu aprendiz terminaram de consertar todas as armaduras. -respondeu- Os outros cavaleiros aproveitaram o período para treinar e curar suas feridas.
- E a saúde de Atena?
- Melhorando a cada dia. As marcas da tortura ainda estão nítidas em seu corpo, mas o vigor já retornou. Apesar disso, não creio que esteja no auge de suas forças na hora da batalha.
- Nenhum deles estará. É por isso que minha intervenção é imperiosa. -rosnou o deus- A vitória das deusas da vingança não é uma opção! Leve-me até Atena.- falou dirigindo-se para a porta.
-O senhor pretende entrar em combate?- espantou-se a marina. – Devo, então, buscar vossas escamas? – perguntou, esquecendo-se de que, caso necessitasse, o próprio deus seria capaz de invocar sua proteção.
O comentário de Tétis a respeito das escamas fez o corpo de Sorento interromper sua caminhada. Com o olhar distante, ele correu a palma de sua mão livre pela lâmina central do tridente até verter sangue.
- Não. – respondeu finalmente o deus – Estas servirão perfeitamente.
Com estas palavras Poseidon desenhou um tridente sobre o peitoral da avariada escama de Sirente trajada por Sorento usando o sangue que escorria copiosamente da mão do rapaz. Conforme o símbolo tomava forma as castigadas escamas faiscavam e se retorciam adquirindo novas formas, em poucos instantes o corpo do General Marina ostentava uma proteção digna de um deus.
Continua...
