Atos de Vingança III

Capítulo VI

A sensação de enlevo experimentada por Tétis ao ver seu mestre novamente liberto aos poucos foi substituída pelo temor do que aconteceria quando Atena e seus cavaleiros soubessem do ocorrido. Várias vezes tentou questionar Poseidon sobre o assunto, mas o deus não parecia interessado em perder tempo explicando suas ações; quando finalmente se dirigiu à serva foi para ordenar que se calasse.

Quando chegaram ao local onde Atena e seus cavaleiros estavam reunidos tiveram a recepção que Sorento previra anteriormente: assim que perceberam a natureza da situação os cavaleiros se dividiram em dois grupos, um se encarregou de proteger a deusa da Sabedoria e outro avançou sobre Poseidon. Assustada, Tétis instintivamente agarrou-se a Poseidon tentando tirá-lo da linha de fogo. Porém, o deus tinha outros planos.

Um mero olhar bastou para lançar os ataques de Leão, Capricórnio e Fênix em direção à abóbada aquosa da cidadela, onde se dispersaram pelo mar. Diante da estupefação de seus atacantes, com a fluidez de um maestro, regeu as águas oceânicas varrendo os três de seu caminho. Sem deter seus passos um só instante, ainda comandando as águas com o tridente, guiou os ataques de Áries, Escorpião, Sagitário, Peixes e Libra, que avançaram em defesa dos colegas, contra a barreira erguida por Virgem ao redor de Atena, que prontamente se desfez.

Sob a liderança de Gêmeos os cavaleiros ainda não neutralizados pelas águas nem por seus próprios golpes se lançaram para um ataque combinado contra o deus dos mares. Embora não tenha sido o suficiente para derrubá-lo, a união dos cosmos obrigou o deus a interromper o avanço e se defender mais ativamente. Com o tridente Poseidon deteve o ataque dos cavaleiros e, por um instante, pareceu que não seria capaz de controlar tantos cosmos ao mesmo tempo.

Porém, com um gesto imperioso o tridente foi erguido no ar, descendo a seguir em um furioso golpe no solo, que imediatamente se contorceu em violentos tremores. Os cosmos reunidos no ataque, que haviam seguido o movimento inicial do tridente, explodiram no ar, caindo como flechas de luz sobre os cavaleiros. Cessados os tremores nenhum cavaleiro estava em condições de impedir Poseidon. Julgando seu caminho desimpedido o deus caminhou tranquilamente na direção de Atena, que protegida pelo abraço de Aldebaran, o único cavaleiro ainda de pé, havia escapado completamente ilesa de toda a comoção.

Apesar de ciente da inutilidade de sua resistência, o cavaleiro de Touro se posicionou entre Poseidon e Atena, arrancando um sorriso do deus.

- Não é irônico que mais uma vez seja você a última linha de defesa contra o General Marina de Sirene? – perguntou o deus apontando o tridente para Aldebaran.

- Discordo. – respondeu Aldebaran erguendo seu cosmo e tentando aparentar tranqüilidade. - Prefiro considerar uma honra que meu destino seja o de sempre me sacrificar por aquilo que acredito e aqueles que me são caros. É uma honra maior ainda que agora eu não esteja diante de um mero subordinado, mas de um deus.

- Ninguém cometerá nenhum sacrifício hoje, Aldebaran. – falou Atena fisgando o tridente com seu báculo e o forçando Poseidon a apontá-lo para o chão. – É assim que pretende me ajudar a enfrentar as deusas da Vingança, atacando meus cavaleiros?

-Meu objetivo era apenas provar de uma vez por todas que, na atual situação, você sozinha não é adversária para as deusas da Vingança. – respondeu Poseidon tentando, sem sucesso, liberar seu tridente. – E permita chamar sua atenção para o fato de que nenhum deles se feriu gravemente.

- Percebi o cuidado com que eles foram nocauteados, foi tocante. Agradeço a preocupação. Mas já discutimos esse assunto, tenho total confiança em meus cavaleiros.

- A questão não é confiança, mas capacidade. Supondo que Nêmesis realmente concorde com seus argumentos, aliás, nossos, e depois? O que fará com as Erínias, caso elas não aceitem tal julgamento?

- Não decidi ainda qual a melhor posição a tomar. Se não conseguirmos uma solução pacífica talvez tenhamos de tomar medidas extremas.

- Medidas extremas? Quais?- riu Poseidon - Nem precisei me esforçar para neutralizar todos os seus cavaleiros. Mesmo tomando cuidado para que nenhum deles se ferisse no processo. As Erínias não serão tão gentis. Tentar virar Nêmesis contra elas foi uma ótima idéia, admito, mas ainda não é o suficiente, mesmo que obtenha resultado.

- Por isso obrigou Sorento e Tétis a libertá-lo, para me proteger? Aliás, Sorento aceitou sua intervenção ou você o dominou à força, como fez com Julian?

- A lealdade de Sorento por mim é inquestionável! Mas, pouco importa se meu atual hospedeiro concordou ou não com a situação. O fato é que mesmo a sua farsa não duraria muito tempo sem minha presença. Elas nunca reconheceriam nenhum dos meus marinas como meu representante. Devo participar pessoalmente...

-Com a ajuda de Sorento... – alfinetou Atena.

-...Do julgamento. – completou Poseidon, sem se alterar.

- Ainda não entendi o que você ganha com tudo isso.- disse Atena estreitando o olhar.

- Cheguei à conclusão de que quando seus cavaleiros enfrentaram os servos das deusas da Vingança nas ruínas de meu templo sob o mar no Cabo Sounion o alvo era eu, e não os cavaleiros. Foi uma feliz coincidência os cavaleiros de ouro estarem por lá. Caso você seja derrotada eu estarei sozinho para enfrentá-las, sem reino, soldados, ou armas. Prefiro ajudá-la a salvar este planeta mais uma vez, e deixar para depois a definição de quem tem o direito de protegê-lo e governá-lo.

- Muito bem. – suspirou Saori - Admito que não tenho outra alternativa a não ser investir às cegas, e reconheço, também, não ter como impedi-lo de intervir sem sacrificar as já minúsculas chances de vitória. Mas, reconheço também que se você investiu tanto nos ajudando e montando toda essa encenação é porque tem algo mais em mente.

- Depende de quanto sangue está disposta a derramar por esse planeta. – disse Poseidon explodindo seu cosmo e liberando, finalmente, seu tridente que foi imediatamente posto de encontro ao pescoço de Atena, para a agonia dos cavaleiros que a tudo assistiam ansiosos.

- Atena! – chamaram.

- Não façam nada. Poseidon quer apenas provar um ponto de vista. Assim como eu quero apenas provar o meu. - disse Atena, impassível, pondo seu báculo de encontro à barriga de Sorento. – Estou curiosa... Se a possessão foi voluntária, Sorento e você são um único indivíduo agora... O que aconteceria se o corpo de seu "leal hospedeiro" morresse? Você tentaria dominar a única pessoa presente que lhe receberia voluntariamente, fugiria para a urna ou morreria também?Aposto na urna, por algum motivo não consigo imaginar você usando salto agulha nem mostrando hombridade o suficiente para encarar a morte de frente.

- Você definitivamente amadureceu, Atena. – Poseidon murmurou entre dentes com um meio sorriso. – Embora tenha absorvido, e muito, a petulância humana. – completou pressionando cuidadosamente o tridente.

– Antes a petulância humana do que a prepotência divina. – erguendo o cosmo apenas o suficiente para um leve arrepio de desconforto percorresse o corpo de Sorento- Você mais do que ninguém sabe que eu daria a minha vida se tivesse a garantia de que as Erínias deixariam os humanos em paz. Como isso não acontecerá, não pretendo morrer nem me deixar matar.

-Se você conseguir manter essa tenacidade no campo de batalha talvez tenhamos uma chance. TÉTIS!

Atendendo à ordem de seu senhor a marina se aproxima insegura, em suas mãos a urna que prendia o deus dos mares.

- Sei que seus cavaleiros recuperaram a caixa na qual os deuses gêmeos foram aprisionados. Convoque seus ferreiros e me acompanhe até a forja. Temos muito que fazer antes do fim do prazo.

Acenando com a cabeça de maneira quase imperceptível para os cavaleiros Atena baixou o báculo ao mesmo tempo em que Poseidon recolheu o tridente. Seguidos por Tétis, Mu e Kiki se afastaram do grupo, arrancando olhares de desconfiança e curiosidade dos presentes. Alguns cavaleiros tentaram verbalizar protestos, mas Dohko e Shaka os calaram. O tempo de dúvidas havia chegado ao fim. A hora da batalha decisiva era iminente.

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Santuário.

Em silêncio, as quatro deusas se encaravam de lados opostos da décima terceira casa. Contrariadas ao extremo com o rumo da situação, mas sem alternativa senão aquiescer, as Erínias aguardavam com ansiedade o fim do prazo dado à Atena.

Faltando menos de vinte horas para o fim do prazo, Nêmesis Adratéia sentou-se no trono do Grande Mestre enquanto as Erínias se posicionavam, de pé, à sua direita. Thallas, Selene e os três Ventos se entreolharam curiosos com a situação quando vários cosmos, dois deles poderosíssimos, foram sentidos. Imediatamente voltaram suas atenções para as quatro deusas, em expectativa.

- ...Finalmente...

-...É CHEGADA A HORA...

-...De concluirmos nossa sagrada missão...

– Ventos! Tendes o direito de escolher qualquer alvo que lhes apetecer. – disse Nêmesis Adratéia para os Ventos – Mas, os cavaleiros de ouro não devem ser importunados até que passem, se passarem, pelas doze casas!

- Apenas três cavaleiros de ouro nos interessam, Senhora Adratéia. – disse Notus com uma reverência. – Porém, dificilmente sairão vivos da terceira, quarta e décima-segunda casas.

- Nos contentaremos, inicialmente, com os cavaleiros de bronze remanescentes. – falou Eurus.

– Quanto à vós, Selene...- falou Nêmesis.

- Não se preocupe, sei meu lugar, minha Senhora.- interrompeu a mulher. – Lá estarei aguardando para cumprir meu papel.

- Se Vossas Excelências me permitem. – disse Thallas – Gostaria de ter a honra de recepcionar os deuses que nos visitam e suas tropas. Tenho negócios inacabados com o cavaleiro de bronze de Fênix, os quais eu gostaria muito de resolver o quanto antes.

Virando-se para as Erínias Nêmesis aguardou que elas respondessem, o que as três fizeram com indisfarçável prazer.

- SIM!SIM!SIM!VÁ, THALLAS!LEVE NOSSA VOZ ATÉ OS OLIMPIANOS. QUE ELES SEJAM PREPARADOS PARA O QUE OS ESPERA!- disseram a uma só voz, transbordado de excitação.

Após profundas reverências os cinco se retiraram rapidamente em direção aos seus postos enquanto as quatro deusas espalhavam seus cosmos pelo Santuário. Dessa vez não permitiriam fugas.

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Disposto a poupar as forças de Atena o máximo, Poseidon assumiu o encargo de transportar as tropas até o Santuário. A gentileza, no entanto, de nada serviu para evitar o choque de ver os corpos dos caídos na batalha do Santuário ainda expostos e mutilados em todo o lugar. Brados de dor e raiva se espalharam entre os cavaleiros.

- Se tivéssemos conseguido voltar antes...- Aldebaran estava desconsolado - Se tivéssemos percebido a tempo que estávamos sendo guiados para uma armadilha.

- Nada teria mudado. - disse Argol- Provavelmente teríamos sido derrotados da mesma forma.

- Não duvido. – concordou Dohko

– Bando de frescos. – comentou Máscara da Morte –Estamos aqui há cinco minutos e todos já estão doidos de vontade de sair correndo. Admitam, essas deusas têm estilo.

- Eu tomaria cuidado com minhas palavras se fosse você, Máscara da Morte. – provocou Shiryu – Desse jeito vai acabar sem a armadura antes de o combate começar.

- Vá pra ...- replicou Câncer.

- Desgraçados! – gritou Aiolia ao prestar mais atenção nas vítimas ao redor.– Muitos deles nem soldados eram! Não havia motivo para ferirem criados e aprendizes.

Atena já esperava ver seu Santuário profanado, mas não havia se preparado emocionalmente para a visão dos corpos mutilados e expostos como troféus. Era com esforço que não lançava seu olhar na direção do Coliseu, nem corria para lá. A idéia de encontrar o corpo de Seiya naquelas condições a enojava e torturava, mas não conseguia evitar pensar no assunto. Fechando o punho com firmeza sobre o báculo se esforçou para reprimir as lágrimas. Sem sucesso.

- Atena... Não. Saori. Você nos prometeu que não choraríamos mais pelos nossos amigos. - Disse Ikki pondo a mão sobre o ombro da deusa. Ele mesmo mal reprimindo as lágrimas.

- Não desperdicem sua raiva nem suas lágrimas! – falou Poseidon. - Antes do fim do dia muitos de vocês não estarão aqui para assistir ao final da batalha. É provável que a maioria de vocês nem mesmo consiga acompanhar o início dela.

As frias palavras do deus dos mares atingiram um ponto sensível no ego e no coração dos presentes. Ouvir fatos tão duros de alguém com semblante tão sereno como Sorento foi como receber um tapa para muitos deles, a dor é mínima, mas o impacto do gesto é incalculável.

Sacudindo a cabeça, como que para afastar os pensamentos ruins e dúvidas Atena se dirigiu aos seus cavaleiros.

- Não estamos aqui para prantear nossos amigos. Podemos fazer isso após vencermos. E nós venceremos! – disse erguendo a voz – Nosso objetivo está lá, no alto da colina, depois das doze casas: A décima - terceira casa, o Salão do Grande Mestre! Lá estão as deusas da vingança, aguardando por mim. Aliás, por todos nós. Não podemos nos permitir fraquejar nem fracassar antes de alcançarmos aquele lugar e expulsarmos as Nêmesis e as Erínias desse solo sagrado. Muito já foi exigido de vocês. Infelizmente, sou obrigada a exigir mais. Continuem firmes. Se realmente não conseguirem ignorar aqueles que não estão conosco agora, pensem que eles partiram na esperança de que nós continuaríamos em frente.

Ao fim do discurso as lágrimas já não estavam mais contidas, porém não eram nem a tristeza nem a raiva que as moviam, mas a esperança. Liderados por Atena e Poseidon os cavaleiros avançaram com passos firmes em direção às doze casas.

- É estranho, não sinto nenhum cosmo além daqueles emanados pelas deusas da vingança. – comentou Shaka. – Estará o Santuário deserto?

- Mesmo o cosmo das deusas está diferente. Consigo raciocinar normalmente e não sinto medo algum. – disse Afrodite. - Me pergunto o que nos aguarda no caminho das doze casas.

Quando se aproximaram da primeira casa e a silhueta de uma pessoa trajando a armadura de Áries ficou discernível diante da entrada pareceu a todos que o silêncio das tropas das deusas da vingança seria quebrado, mas não foi o nêmesis de Áries quem os recebeu. Uma figura trajando vermelho os aguardava ao pé da escadaria.

- SEU MALDITO DESGRAÇADO!- gritou Ikki saltando do meio do grupo e atacando a figura, que apenas sorriu ao vê-lo avançar. - VÔO DA FÊNIX!

- Espere Ikki! – gritaram Atena e os outros cavaleiros de bronze, tarde demais.

Quando a poeira e os destroços erguidos pelo violento ataque de Fênix desobstruíram a visão do grupo a figura diante deles não mais trajava uma túnica, mas uma armadura, da qual distraidamente retirava os trapos do manto destruídos por Ikki.

- É bom vê-lo com saúde, Ikki de Fênix. Estava ansioso pela oportunidade de derrotá-lo novamente. Vejo que andou praticando. Isso é ótimo, você caiu muito fácil em nosso primeiro encontro. Apenas seja um pouco mais paciente sim? Por enquanto não estou aqui a lazer, mas a trabalho.

- Filho de uma...!

Foi preciso que Aldebaran e Aiolia segurassem o cavaleiro de bronze para que ele não se jogasse novamente contra Thallas, que simplesmente sorria para eles.

- Quem é você? – perguntou Atena.

- Perdoe minha indelicadeza, deusa que não fomos formalmente apresentados. – disse Thallas desviando o olhar de Fênix e fixando-o em Saori.- Sou Thallas de Leviatã, fiel servo das Erínias. Estou aqui para lhes informar as novas regras do acordo feito entre vossas excelências.

- Ótimo, uma armadilha. Quem suspeitaria? – grunhiu Shura pondo-se em guarda, exemplo seguido pelos demais cavaleiros.

- Não nos precipitemos, vamos ouvir o que ele tem a dizer. – apesar do conselho Dohko já esquadrinhava os arredores em busca de inimigos.

– Durante os doze dias do prazo dado por Nêmesis Adratéia todas as nossas forças retornaram ao Santuário e nenhuma investida contra a humanidade foi feita. – disse Thallas.

- O que foi muito honrado da parte das filhas da Noite. – disse Atena. – Mas os termos do acordo exigiam que a trégua dada à humanidade durasse até o fim do julgamento.

- Nenhuma das quatro deusas está disposta a suspender nossa missão sagrada de proporcionar justiça à Terra por mais tempo. Por isso o cosmo das quatro selou o Santuário. A partir do momento em que pisaram aqui vocês não poderão sair até a palavra final de Nêmesis Adratéia, que provavelmente será a sentença de morte para todos vocês. Não podemos correr o risco de nova fuga – antes que os deuses protestassem Thallas ergueu a mão para interrompê-los. –Seus crimes foram terríveis, e, ainda assim, vocês insistem em se comportar como se inocentes fossem, até mesmo tentando jogar minhas mestras umas contra as outras. É nítido que estão tentando perverter nossa sagrada missão. Elas sentem que Atena e seus cavaleiros precisam ser relembrados de quem é o pecador aqui.

Com um sorriso Leviatã abriu os braços. Como que respondendo ao gesto o chão tremeu por alguns instantes e por toda a escadaria gigantescos blocos de gelo afiadíssimos brotaram do solo bloqueando o caminho, sendo imediatamente recobertos por ramos repletos de espinhos e rosas multicoloridas. O espantoso espetáculo, porém, não ultrapassou a linha imaginária formada pelos braços de Thallas. Ainda surpresa com o acontecido Atena teve sua atenção desviada para o relógio zodiacal, cujas chamas pareciam brilhar com mais intensidade após o surgimento do gelo e das flores.

- Ah, vocês notaram o relógio. - disse Thallas. – Assim que vocês escaparam das garras da Senhora Tisífone ele acendeu. Entretanto, nós resolvemos dar outra utilidade para suas chamas. Vocês têm doze horas. E nem um minuto a mais para ultrapassar as doze casas, as quais, como já devem ter notado, estão bem mais protegidas do que quando os cavaleiros de ouro aqui residiam.

- O que acontece se não conseguirmos cumprir esse prazo? – perguntou Aioros.

- Não confiam em suas capacidades, cavaleiros de Atena?- provocou Thallas.

- Responda à pergunta!- ordenou a deusa.

- Se ao fim dessas doze horas Atena não estiver dentro da décima - terceira casa e os combates contra os Nêmesis e cavaleiros negros encerrados a trégua dada à humanidade será interrompida, o julgamento cancelado e todos os cavaleiros que ainda estiverem vivos serão sumariamente executados. Minhas mestras espalharão novamente seus cosmos sobre o planeta e os pecadores serão punidos de uma vez por todas. Exerceremos a punição definitiva.

- Isso é irracional! – revoltaram-se os cavaleiros – Não podem imaginar que aceitaremos tal coisa.

- De fato, não tínhamos tal ilusão. A covardia dos pecadores é conhecida por minhas mestras há milênios. – replicou Thallas.- Por isso elas me autorizaram a fazer uma contra-proposta.

- Que seria? – perguntou Saga.

- Se Atena admitir seus crimes e se entregar seus cavaleiros serão poupados. A menos, é claro, que tentem interferir com nossa missão. Isso inevitavelmente resultará em morte. Quanto à punição do resto da humanidade, ela continuará. O que está sendo discutido é um indulto aos seus cavaleiros. E nada mais. – disse Thallas virando-se para a deusa. – A decisão é sua, Palas Atena. Sua vida pela dos seus cavaleiros.

- Nem pense em uma coisa dessas, Saori! – disse Hyoga.

- Não precisamos ser protegidos.- falou Aiolia- Podemos cuidar de nós mesmos!

- Já fizemos milagres maiores e com prazos muito mais exíguos!- afirmou Shiryu.

- Ainda que concorde com isso não nada mudará, pois continuaremos lutando contra as deusas da Vingança. – completou Shina.

Mais comedido Poseidon se aproximou de Atena e sussurrou:

- Se as Erínias estão agindo dessa forma é porque temem o resultado do julgamento de Nêmesis. Não me surpreenderia se esse homem estivesse aqui apenas para tentar evitar que ele aconteça.

- Concordo. Não há motivo para toda essa encenação. – respondeu. - Mas, não serei manipulada. A gota d'água foi nossa discussão antes de virmos para cá.

-E então, Atena, já chegou à uma decisão? – questionou Thallas.

- Sim. Suas demonstrações de poder são impressionantes, e seus argumentos contundentes, admito.–respondeu a deusa- Mas, você ouviu meus cavaleiros. Se o objetivo era nos intimidar vocês falharam. Camus! Afrodite!

A resposta fez Thallas franzir a testa, confuso.

- Sim. – disse Aquário.

- Às ordens, Atena. – respondeu Peixes.

- Abram caminho. – ordenou Atena.

- Droga! – gritou Thallas se defendendo.

- EXECUÇÃO AURORA!

- ROSAS PIRANHAS!

Enquanto Afrodite e Camus usavam seus poderes para liberar o acesso à casa de Áries, Atena virou-se para os outros cavaleiros e ordenou:

- Assim que o bloqueio cair subirei as doze casas com Poseidon e os cavaleiros de ouro. Quero que os Cavaleiros de Prata, Bronze e soldados varram o Santuário de ponta a ponta. Encontrem os cavaleiros negros, e os convençam, por qualquer meio necessário, de que não são bem vindos. Depois se juntem a nós na décima - terceira casa. Onde, juntos, daremos a mesma mensagem às Erínias!

- Loucos!- gritou Thallas erguendo o cosmo e saltando acima dos ataques de Aquário e Peixes. – Acham que conseguirão sair vivos daqui?

- Máscara da Morte! Mu! – chamou a deusa.

Combinando seus poderes telecinéticos os dois dourados capturaram e derrubaram Leviatã no chão.

- Hmm... Isso foi constrangedor... Eu sou apenas o mensageiro... - disse Thallas lutando contra o controle de Câncer e Áries– Não descontem em mim suas frustrações... Mas, saibam que isso não muda nada. Quer concordem ou não, esses são os termos. Não podem nos impedir de executá-los. – completou Thallas libertando-se sem aparentar ter ferido nada além do ego com o ataque.

Atena virou-se para seus cavaleiros que aguardavam com ansiedade a próxima ordem. Quando seus olhos encontraram os de Ikki não pode evitar a lembrança das mortes de Seiya e Shun e dos corpos espalhados por todo o Santuário. Erínias haviam ultrapassado todos os limites.

- Cansamos de jogar pelas regras alheias. Não mais. - disse Atena - Sua proposta foi a gota d'água. Este é o nosso Santuário. Já fizemos muitas concessões permitindo que fosse profanado por tanto tempo. O mesmo se aplica à humanidade.

- Então, essa é a sua resposta final?

Ao voltar-se para Thallas a atenção de Saori caiu rapidamente sobre o Relógio Zodiacal, que se erguia no horizonte, por detrás de Leviatã. Sem tirar os olhos da construção apontou seu báculo na direção do homem e disse:

- Não, Thallas de Leviatã. Cansei de perder meu tempo com subordinados. – respondeu Atena – Minha resposta final será dada através de meus cavaleiros.

Quando finalmente as intenções de Atena foram compreendidas a Thallas mal restava tempo nem para se defender. Em perfeita sincronia os cavaleiros atacaram, arremessando Leviatã contra ao Relógio Zodiacal, cujas faces explodiram com o impacto dos cosmos lançados.

Em meio aos destroços fumegantes do mecanismo do relógio Thallas tentou se levantar. Graças a seu cosmo e armadura sobrevivera ao ataque, sem grandes seqüelas, mas não estava ileso. Além da inevitável desorientação, algumas feridas causadas pelo castigo imposto por suas mestras, não completamente curadas, acabaram reabrindo com a violência do ataque. Furioso com seus repetidos descuidos e ciente de que não tinha tempo para curtir a dor colocou-se de pé, limpou o sangue do rosto e, com seu cosmo, ordenou aos cavaleiros negros que se preparassem para iniciar seu ataque.

- ATAQUEM! FAÇAM-NOS SOFRER! ELES NÃO PODEM CHEGAR À DÉCIMA – TERCEIRA CASA EM HIPÓTESE ALGUMA!– gritou – MAS NÃO ESQUEÇAM: FÊNIX É MEU!

Como que em resposta aos brados de Thallas a voz de Ikki encheu o ar:

-VÔO DA FÊNIX!

Com um estrondo, a fragilizada torre ruiu.


Continua...