Atos de Vingança III

Capítulo IX

Sozinha no Salão Dourado Selene acompanhava ansiosa o desenrolar dos combates. Ao seu redor esculturas representando os doze signos zodiacais erguiam-se em pedestais de mármore. Cada um deles envolto em chamas brancas e douradas que se agitavam conforme os cavaleiros de ouro ou seus nêmesis se sobressaíssem.

Assim como as casas zodiacais o salão também flutuava entre dimensões. O único caminho que os vencedores, fossem quem fossem, poderiam percorrer para alcançar a décima-terceira casa passava por aquela câmara.

Atenta ao bruxulear das chamas, Selene tentava não se concentrar em demasia no duelo entre o filho que não viu crescer e o amigo (amante?) que abandonara. Infelizmente, o crepitar incessante das chamas e a penumbra do salão já a haviam levado para muito longe daquele santuário, mais precisamente para os pés do monte Etna, para o momento em que sua vida mudou completamente. Perdida nas lembranças dos terrores e alegrias de uma maternidade adolescente demorou a perceber uma peculiaridade nas convulsionantes chamas que a rodeavam.

- Como podem as chamas de Touro estar em repouso?-perguntou-se olhando a sua volta – Todas as outras ardem e dançam como em um vendaval. Mesmo as de Aquário e Virgem não se equilibraram um só instante. O que está acontecendo naquela casa?

Casa de Touro

Selene não teria se surpreendido tanto se tivesse em mente o cavaleiro cujo cosmo as chamas representavam. Ao contrário da maioria dos cavaleiros, independente da classe, Aldebaran, mesmo nos momentos mais difíceis, não se deixava levar pela raiva. Não raro procurava, e encontrava, nobreza e valor no mais aguerrido adversário, no mais simples teste de forças. Era praticamente impossível encontrar agressividade no cosmo desse guerreiro cujo riso fácil se manifestava mesmo diante dos maiores perigos.

- Eu tenho uma dúvida. – disse Aldebaran, sério.

- Qual seria? – respondeu o nêmesis sem se alterar.

- Bem, discutindo a respeito da real natureza de vocês chegamos a uma hipótese que nos pareceu bem provável. -nesse momento Aldebaran precisou parar de falar para evitar ser arrastado pelo cosmo do nêmesis. Estavam ambos de braços cruzados, apenas se observando, com o cosmo em equilíbrio há horas. O cavaleiro não imaginava que o mero ato de falar fosse exigir tanto- Nós... Achamos que vocês são fragmentos de nós, aquilo que há de melhor em nossas mentes, almas, corpos e cosmos. Ou, pelo menos, nosso ideal de perfeição.

- Não estão de todo errados, mas continue. -comentou o nêmesis, ele próprio recuando alguns milímetros enquanto falava.

- Se não estamos de todo errado, então estamos quase certos, o que só aumenta minha dúvida: como podem concordar com o que tem acontecido com o mundo, com tudo que as Erínias e Nêmesis têm feito contra a humanidade? É difícil crer que a melhor parte de mim nada faria para proteger os inocentes pegos nesse fogo cruzado.

O nêmesis respirou fundo, como se buscasse palavras para retrucar. Ao falar, porém, não foi sua voz que respondeu à pergunta de Aldebaran, mas outra, que, embora semelhante, soava muito mais antiga, mesmo que às vezes falseasse como a de uma criança. Após ouvir algumas frases o cavaleiro teve a impressão de estar ouvindo um coro de uma só voz, repetida e ampliada inúmeras vezes. Surpreso com o que ouvia e com o olhar do adversário que também mudara, adquirindo uma aparência distante e desfocada, Aldebaran foi levemente empurrado para trás.

-Sua inocência e bondade são sua força e sua ruína, Aldebaran de Touro. Quais e quantos foram os inocentes por ti protegidos enquanto Saga de Gêmeos governava o Santuário? Tua ação mais freqüente foi a omissão!Será que já esqueceu quantos inocentes tombaram pelas suas mãos?

A voz reverberava pela construção com potência não condizente com a aparência distante e alheia do nêmesis.

- Apontar os erros e contradições do adversário não apagará os seus próprios. Não caia nessa tentação infantil de supor que o simples fato de seu antagonista ser um pecador, te tornará mais puro por eliminação.

A voz mudava a cada palavra, embora ainda mantivesse o aspecto de coro, com novas vozes se somando e mesclando ao conjunto existente. Conforme o nêmesis falava Aldebaran sentia que não só já as havia ouvido antes, como em muitos casos fora o responsável por calá-las.

- E nem tente justificar alegando o mero cumprir de ordens superiores! Milhares já tentaram, e falharam, se esquivar com tal argumento! Havia informações mais que suficientes para que desconfiasse da real situação. Diga-se de passagem, foi graças a essas informações que Seiya de Pégaso escapou de teus dourados chifres. Dourados e ensangüentados!Você matou, Aldebaran de Touro. Matou! Mutilou!Feriu!Exterminou até! Incontáveis vítimas caíram sob teus golpes!

Ao ouvir semelhantes acusações vindas de alguém criado à sua imagem, e proferidas com as vozes, todas as vozes, de seus incontáveis adversários Aldebaran não conseguiu evitar o derramar de lágrimas por situações das quais, mesmo em sua ignorância, se arrependia amargamente.

No silêncio que se seguiu o nêmesis de Touro lentamente recuperou sua fisionomia natural. Por um curto instante pareceu confuso, mas se recuperou rapidamente, sorrindo de maneira triste e compreensiva para Aldebaran.

- Nós... Não. Eu... - disse em sua própria voz- Eu entendo sua dúvida. Imagino que esperava que a constatação do paradoxo entre minha natureza e minha missão me destruiria por completo ou, no mínimo, me levaria à loucura, não é?

-Con... Confesso que isso me passou pela cabeça. – respondeu Aldebaran, se recuperando lentamente do choque-Embora, seu discurso tenha esclarecido muitas coisas para mim. Vocês não são livres, não é? Nêmesis não lhes deu livre-arbítrio. Seria o mesmo que implorar para que vocês se rebelassem. Isso me faz pensar que vocês não concordam com o mal que suas mestras estão causando à humanidade, apenas não tem como fazer nada para evitar.

Diante disso o nêmesis simplesmente suspirou profundamente.

- Fomos criados para julgar os cavaleiros de Ouro de Palas Atena. É nosso único e último propósito. Até que seja cumprido, e possivelmente até depois, nada mais importa.

Casa de Sagitário

Aioros jazia de costas no chão, com a corda do arco retesada e uma flecha pronta para atravessar o olho direito de seu adversário cujo arco encontrava-se apoiado na garganta do dourado. Exaustos do combate e cientes da delicada situação nenhum dos dois sequer se atrevia a respirar fundo.

- Digno do cavaleiro escolhido para suceder Shion de Áries... -disse o nêmesis com um sorriso preocupado -... Estava me perguntando quanto tempo levaria até que você contra-atacasse... Mas... Por que não atirou? Já disse que nenhum de nós sairá daqui enquanto o outro não for derrotado...

- Derrotar não significa matar... -respondeu Aioros com um sussurro, a ponta do arco inimigo era extremamente afiada.

-Raras são as vezes em que a morte não é uma opção. Você é um cavaleiro de ouro. Sabe muito bem disso. Não pode acreditar realmente que se um de nós admitir derrota a barreira dimensional se abrirá.

- Digamos que eu ache que vale a pena arriscar.

-...Ainda que assim o seja, nenhum de nós se renderá.

-Sacrificar a própria vida é um risco e uma honra para qualquer cavaleiro. Não me importo de morrer em combate. Ainda mais com a certeza de que não morrerei em vão.- a corda do arco retesou-se alguns milímetros mais - Sendo você o que é com certeza também não. No entanto...

- No entanto...- repetiu, entredentes, o nêmesis.

- Aqui estamos nós, a um movimento de encerrar esse combate sem que ninguém tome a iniciativa. Eu sei o que detém minha mão. O que detém a sua?

Um leve tremor percorreu o nêmesis de Sagitário, com a respiração difícil e forçada ele respondeu:

- Nada... Detém... Minha mão...

Aioros não respondeu, simplesmente continuou olhando fixamente para os olhos do nêmesis, o qual, desconcertado, forçou lentamente o arco contra a garganta do cavaleiro caído.

- Atrás de mim está a parede onde escondi meu testamento para aqueles que eu esperava que, um dia, viriam até aqui e reconquistariam o Santuário em nome de Atena. Pensei em cobri-lo novamente, mas Atena pediu que não o fizesse; para ela minhas palavras devem continuar ali até o dia em que o mundo não precisar mais de um cavaleiro de Sagitário. Não só você o manteve intocado como durante todo o combate essa foi a única parede da nona casa que não sofreu dano significativo. Na verdade, tenho a ligeira impressão de que você protegeu meu testamento uma ou duas vezes enquanto lutávamos, bloqueando ataques que poderia ter tranquilamente evitado.

O olhar do nêmesis desviou-se por uma fração de segundo em direção ao texto.

- Também não consigo afastar a sensação de que eu poderia, aliás, deveria, ter morrido em mais de um momento durante esta luta. No entanto, justo quando eu considerava a morte certa, ela não vinha. No último instante eu escapava, por muitíssimo pouco, é verdade, mas o suficiente para continuar a combater.

-Coincidências... –disse o nêmesis após algum tempo.

- Não me tome por tolo. Achou realmente que eu não ia notar sua hesitação, seus erros providenciais nos momentos mais críticos? Há um nome específico para coincidências em série: padrão. –retrucou Aioros – E esse nome me levou a fazer a pergunta que repito agora: O que detém a sua mão?

Ruínas do Relógio Zodiacal

Com o ombro apoiado contra o que sobrou de uma das paredes da base do Relógio Zodiacal Thallas rangia os dentes de dor e raiva. Havia perdido Fênix de vista e o braço deslocado durante o bloqueio do último ataque se recusava a voltar para o lugar.

- Hnnng... Maldito braço, eu o arrancaria se uma hemorragia não fosse causar mais problemas do que essa dor abjeta já está causando! -resmungava consigo - Em breve Ikki vai estará recuperado do golpe recebido e eu aqui bancando o aleijado...

Um punho atravessou as ruinas em uma explosão de pedras, errando o crânio de Thallas por mera sorte.

-Ah, Fenix. Justo quando pensei que você perderia a deixa... –cumprimentou Leviatã recuando com um salto- ...Você parece ter um certo fetiche por entradas dramáticas. Foi treino ou talento?

- Ria enquanto pode, miserável. Piadas não vão salvá-lo. Prometi que vingaria a morte de Shun custe o que custar. – ao ouvir isso a careta de dor de Thallas foi interrompida por um rápido sorriso de alívio – E acredite: do jeito que esse combate está indo parece que não vai me custar quase nada.

Sem responder Thallas recuou acompanhando os movimentos de Ikki com olhar atento. De início havia suposto que a dificuldade em dominar o cavaleiro de bronze era apenas resultado dos ferimentos causados pelo castigo imposto pelas deusas da vingança e o ataque combinado dos cavaleiros. Agora duvidava da simplicidade da suposição, mesmo que Fênix tivesse passado todo esse tempo treinando ininterruptamente não conseguiria lhe causar tantos problemas. Seria possível que os acontecimentos na décima-terceira casa o estivessem afetando? De certa forma, estava ligado às Erínias, vivia graças à "misericórdia" delas. Se a mera preocupação das deusas com outros assuntos o enfraquecia o que aconteceria caso Notus conseguisse executar o plano elaborado por eles elaborado em conjunto com Gêmeos?

- Prepare-se, Thallas de Leviatã!- bradou Ikki – Chegou a hora de pagar pelos seus crimes! Vôo da Fênix!

Thallas não tentou fugir nem bloquear, deixou-se levar pelo ataque caindo a vários metros de distância. Quando Ikki se aproximou para conferir se havia vencido deparou-se com o homem ajoelhado massageando o ombro com um sorriso de satisfação no rosto ferido.

- Obrigado, Ikki. Já estava começando a achar que não conseguiria usar mais esse braço hoje.

- Você se deixou atingir de propósito?

Em resposta Leviatã abriu os braços e gritou. Gritou como um maníaco, como se sua vida dependesse de cada segundo de duração do grito. Conforme o volume aumentava o grito se transformava até soar como um rugido gutural e antigo. Parecia a Ikki que estava ouvindo a voz de uma criatura pré-histórica que havia se recusado a morrer. O que não estava tão longe da verdade.

Apesar de assustado Fênix não pensou duas vezes ao ver as mãos do inimigo se erguerem acima da cabeça. Saltou lateralmente o mais alto que pode e encolheu o corpo, protegendo o rosto com ambos os braços. Quando os braços de Thallas golpearam o chão Ikki já estava longe o suficiente para não ser atingido pelo impacto total da onda de choque gerada. O ataque, porém, estava longe de terminar. Das profundezas do solo gêiseres brotaram. Em um instante aquele ponto do Santuário foi coberto por um escaldante vapor. Ao voltar ao chão o cavaleiro de bronze foi recepcionado com um golpe certeiro em sua defesa, a qual por pouco não se desfez.

- Incrível!-pensou Ikki – Alguns instantes atrás esse homem mal conseguia deter meus ataques e agora ataca como se a última hora não tivesse acontecido... Será que estava brincando comigo?

Com seu adversário tão próximo que era possível definir as marcas em seu rosto, mesmo com todo o vapor no ar, Fênix notava em meio aos golpes trocados que havia algo diferente com Thallas. Seus movimentos estavam menos precisos, e ele não parecia se importar com isso, de alguma forma mesmo quando erravam o alvo ou eram bloqueados os golpes do Leviatã não pareciam ter a potência diminuída. Era quase como se não quisesse realmente atingir Ikki diretamente, como se os gestos fossem apenas o meio para um fim e não o objetivo principal.

- Onde estão as bravatas, cavaleiro? É assim que pretende a vingar a morte de seu irmão mais novo?- perguntou Thallas ao rachar a ombreira da armadura de bronze com um golpe de raspão – Quando me atacou em frente à Casa de Áries imaginei que finalmente tinha se tornado um adversário à minha altura. Vejo que me precipitei...

-Você fala demais! - Com uma cambalhota Ikki ganhou distância e preparou um contra-ataque. - Vou fazer mais do que deslocar seu braço dessa vez!

Erguendo o cosmo, Fênix saltou fazendo o golpe que deveria lhe atingir as costelas cruzar inutilmente o ar. Nem bem tinha aterrissado atrás do adversário, Ikki lançou o Vôo da Fênix com o máximo de força que conseguiu reunir. Para sua surpresa Thallas deteve o ataque apenas endireitando rapidamente o corpo. Esse simples movimento bastou para devolver contra o cavaleiro de bronze toda a potência do ataque.

- Mas... Mas... Como? – perguntava-se Ikki, massageando o braço utilizado no ataque. Por poucos instantes sua mão havia tocado a armadura de Thallas, e esse toque ínfimo havia bastado para estraçalhar a armadura de bronze. Sem ela, seu braço com certeza teria sido inutilizado.

- Estou decepcionado, Ikki.- disse Thallas caminhando em direção ao cavaleiro que, cada vez mais surpreso, notava uma leve pressão a cada passo inimigo – Aguardo uma batalha épica há anos. Achei que você seria capaz de me proporcionar esse prazer. Parece que me enganei! À exceção dos cavaleiros de ouro, os quais fui proibido de combater, apenas Dragão, Fênix, Cisne e Andrômeda conseguiram atrair minha atenção. Você era um expoente entre eles. Derrotou e comandou os cavaleiros negros, incapacitou Shaka de Virgem, resistiu contra Saga, derrotou Kanon de Gêmeos, humilhou Aiacos de Garuda e foi elogiado pelo próprio deus da morte, sendo o único a conseguir afetar Tânatos mesmo sem o auxílio do revigorante sangue de Atena... Eu esperava mais, muito mais de você!

Uma vez ciente do que aconteceria, embora ainda ignorasse a razão disso, Ikki rolou para o lado. O local onde estava e toda a faixa de terra dali até Thallas estava revirada como se algo extremamente pesado tivesse cruzado aquele espaço em altíssima velocidade. Ao longe, quase perdido em meio aos sons dos outros combates soou o eco de pedras sendo atingidas por uma força considerável.

- Não há cosmo em seus ataques... –observou Ikki – Essa pressão não passa de ar deslocado por seus movimentos. Pelo modo como o chão treme quando com seus passos parece que ele ainda está se controlando. Mas... Ainda há alguma coisa errada. Mesmo que este seja seu real poder, ele não deveria poder se mover com tanta desenvoltura depois de receber tantos golpes. Ele não é invulnerável, isso é certeza... Então, o que está acontecendo?

Reagindo a um novo movimento de Thallas, Ikki lançou o Vôo da Fênix. No local onde seu golpe encontrou a onda de choque gerada pelo inimigo uma cratera se abriu no chão.

- Certo, posso neutralizá-lo com o Vôo da Fênix, mas estarei exausto antes de conseguir quebrar sua defesa. -pensou Ikki.

- Já desistiu, cavaleiro? – perguntou Thallas – Estou começando a achar que devo ir atrás daquela jovem, qual é mesmo o nome... June? Ela também me fez algumas ameaças bem interessantes quando Andrômeda morreu pelo que eu soube. Talvez seja ela o anjo vingador que estou esperando. Vejamos, onde ela está?

- NÃO!

Para o espanto de ambos, o golpe de Ikki foi rápido demais para ser esquivado dando a Thallas tempo apenas o suficiente para apará-lo.

- Você não vai matar mais ninguém! Se dependesse de mim nenhum seguidor de Atena morreria pelas mãos de vermes como vocês!

Novo golpe. Mais uma vez o Leviatã mal consegue bloquear, o recuo por ele executado para evitar uma queda faz o chão ceder, desequilibrando-o de imediato. Vendo o inimigo tentar firmar o corpo Ikki avançou. O ar ao redor dos combatentes rimbombava a cada golpe bloqueado por Thallas. Quando este finalmente abriu a guarda e curvou-se sob a intensidade do ataque o cavaleiro de bronze preparou-se para o golpe final.

- É o seu fim! As asas da Fênix vão varrê-lo para sempre desse solo sagrado, por Shun e por todos os inocentes que morreram nessa guerra sem sentido!VÔO DA FÊNIX!

Mais uma vez Thallas anulou o ataque apenas endireitando sua postura. Caído a seus pés Ikki lutava para se manter consciente. Mesmo com a visão desfocada e a tontura ele conseguia notar que nem todos os golpes haviam sido em vão, arranhões e fissuras marcavam a armadura inimiga; mesmo o rosto de Leviatã ostentava alguns ferimentos novos. Porém, não tantos quanto deveria após semelhante ataque.

- Agora sim... Por um momento fiquei assustado, mas você é extremamente previsível, garoto –murmurou consigo Thallas.

- Como...? – perguntou Ikki que tinha conseguido entender parte do que fora dito.

- Nada demais. – falou Thallas agarrando-o pelo pé- Por Shun você disse, não foi? Pois bem, como quiser. No fim das contas é até condizente que você pereça junto de seu irmão. Não espere receber o mesmo tratamento que ele, porém. Andrômeda mereceu um túmulo, já você será abandonado para apodrecer sobre a cova de seu irmão.

Após dizer isso Leviatã começou a arrastar Ikki em direção ao cemitério, cada vez que o cavaleiro se debatia era erguido no ar e jogado contra o chão. Após algum tempo, não restavam mais a Ikki forças para resistir.

Bem longe, no limite de sua percepção, o jovem tinha a impressão bem tênue de que alguém observara o combate e agora os seguia. Do fundo de seu coração desejava que não fosse nenhum dos soldados. Olhando para Thallas, Ikki teve a impressão de que ele ou não tinha percebido nada ou fingia não perceber o cosmo que os acompanhava. Foi nesse momento que notou que a mão que lhe apertava firmemente o tornozelo fora a mesma a bloquear o ataque lançando quando da ameaça feita à June. Um discreto filete de sangue, só percebido ao atingir a armadura de bronze, escorria pelas rachaduras da manopla.

Casa de Touro

A cordialidade entre Aldebaran e seu nêmesis havia terminado. A meio caminho entre os dois uma quantidade gigantesca de cosmo brilhava e se revolvia em arcos de energia como uma pequena estrela. Há muito o chão já havia cedido sob seus pés. Com destroços até as canelas cada um deles se esforçava para sobrepujar o outro. O responsável pela situação fora o nêmesis de Touro, que após responder aos comentários Aldebaran partira para o ataque com fúria ímpar.

-Atena está na décima-terceira casa, enfrentando um julgamento cuja sentença mesmo que favorável não a beneficiará. E você não tem como fazer nada para interferir se não passar por mim!- bradava o nêmesis de Touro acima do rugido dos cosmos em colisão.

- Sei muito bem disso... -respondeu Aldebaran sem entender a razão para o comentário.

- Você tem pena de mim. – disse o nêmesis caminhando, com esforço hercúleo em direção a Aldebaran- Não tente negar, sinto isso em seu cosmo!

- Como... Não me entristecer com existências como as de vocês? - replicou Aldebaran fazendo o possível para não ser derrubado pelos cosmos em convulsão– Encarnados como avatares da justiça, enviados para espalhar as trevas e incapazes de alterar seus destinos. Na verdade, parece que vocês, que deveriam ser os juízes, são os verdadeiros condenados.

O comentário fez o nêmesis parar.

- Não preciso de sua piedade. Agradeço seus sentimentos, de verdade. – disse – Mas não muda nada. Quer fazer algo por mim? Deixe-me cumprir minha missão.

- Quer que eu deixe você me matar?!-espantou-se o cavaleiro de ouro.

- Não. Quero que me ajude a termina-la de uma vez. Tenho de julgá-lo através do combate, e puni-lo com a morte se assim for preciso.E você tem de me vencer. -explicou o nêmesis – Elevemos nossos cosmos em um derradeiro embate! Dê tudo de si, Aldebaran de Touro! Mostre-me se é realmente merecedor de sua constelação, armadura e missão! Prove para os deuses que nunca agiu em vão! Que realmente trilha os caminhos da justiça!

Aldebaran sorriu e respondeu com firmeza:

- Como quiser! Julgue-me como achar melhor e leve à sua mestra seu veredito. Se cabe ao meu cosmo provar a pureza de meus propósitos ei-lo em todo seu poder: GRANDE CHIFRE!

No salão dourado as chamas de Touro explodiram engolfando todo o pedestal e incinerando parte do teto. A violência como queimavam obrigou Selene a se afastar para não ser queimada.

Na segunda casa, o nêmesis fez um último comentário, quase tão concomitante com o disparo de Aldebaran que sua voz por pouco não se perdeu em meio ao estrondo:

- Sendo este o fim, digo-lhe isso, Aldebaran, você errou: minha vontade é completamente livre em um aspecto...

Diante do olhar estupefato de Aldebaran, o nêmesis abaixou os braços e amansou seu cosmo. Toda a energia que flutuava dentro da Casa de Touro abateu-se sobre o homem sendo seguida pelo Grande Chifre, que o atingiu levando consigo todo o poder que antes se equilibrava entre os guerreiros. Mesmo em meio ao estrondo ensurdecedor que se preencheu a segunda casa por vários minutos o cavaleiro ouviu nitidamente uma voz que dizia:

-... Somente a mim cabe decidir sobre a realização seu julgamento...

Décima Terceira Casa

Nêmesis acompanhava a fala das Erínias e os apartes de Poseidon com atenção, sua face séria e compenetrada não deixava entrever nada sobre o que se passava em sua mente, para a frustração de Megera, que se esforçava, o mais discretamente possível, para sondar os pensamentos da juíza. Graças à vigília que realizava a Erínia foi a única a perceber o rápido sorriso de satisfação que passou pelos lábios de Nêmesis Adratéia.


Continua...