ATOS DE VINGANÇA III
Capítulo X
Star Hill
Sozinhos entre as ruínas no topo da Colina das Estrelas Shiryu e Hyoga observavam a batalha entre as tropas de Atena e das Erínias. As ondas de choque dos golpes lançados por todo o terreno faziam até mesmo o menor dos grãos de areia da montanha vibrar em resposta. Daquele lugar era possível ver até mesmo a vila de Rodorio, quase totalmente envolvida pelas chamas do duelo entre Babel de Centauro e Centauro Negro. Apesar de visível, a trilha das doze casas não lhes dava a menor indicação do andamento dos combates ali travados; fato que creditavam ao cosmo das quatro deusas na décima terceira casa, cujo poder era sentido com nitidez excessiva até, que aparentavam estar travados em titânico cabo de guerra com aqueles pertencentes à Atena e Poseidon.
- Ikki foi derrubado de novo... – comentou Hyoga.- Nesse ritmo acabará derrotado, precisamos fazer alguma coisa.
Não interfiram.
A voz, mais sentida que ouvida, provocou um leve arrepio no Cisne.
-E como faremos isso? – respondeu Shiryu- Nem ao menos conseguimos ver nossos inimigos.
Contrariado, Hyoga assentiu. Mesmo leve a nuvem de poeira e neve que os circundava tornava-se uma barreira quase impenetrável sempre que tentavam descer a montanha. Algumas vezes vozes e faces se manifestavam nas paredes da estranha prisão. De uma delas ambos os cavaleiros lembravam e graças às descrições de Máscara da Morte, Aldebaran e Sorento conseguiram identificar ambas: Filipe, guerreiro do Vento Leste, e Máximus, guerreiro do Vento Norte.
- Temos de tentar!-respondeu o cavaleiro saltando da montanha em direção ao campo de batalha.
Tolo...
- Não pode nos manter aqui para sempre!- gritou Shiryu ao ver o amigo ser jogado longe por uma forte rajada de vento. - Mais cedo ou mais tarde iremos romper essa barreira e sair daqui!
Mais tarde talvez...
- Você está bem? – perguntou Shiryu ajudando o amigo a se erguer.
- Sim... – disse o Cisne – Não sei bem o que eles estão tentando fazer, mas até agora não nos feriram gravemente.
- É verdade, parecem querer apenas nos manter aqui. O problema é que quanto mais tempo passamos aqui mais de nossos amigos sofrem e morrem. -reclamou Shiryu.
...Está certo...Muitos morrerão...
Não cabe a você decidir se viverão ou não...
As vozes pareciam vir de todos os lados, no início Hyoga tentou resfriar o ambiente o máximo na esperança de divisar ao menos um contorno; infelizmente, os Ventos pareciam se dispersar no ar, não muito mais sólidos do que uma brisa. O fato de Máximus ser guardião de Bóreas, o vento gelado do norte provavelmente o ajudava a combater o poder do Cisne.
- Mas se querem tanto assim ajudar aqueles que lutam e morrem, terão de passar por nós.
Como se sempre estivessem estado ali, ambos os Ventos se materializaram diante dos cavaleiros de bronze, que prontamente se puseram em guarda.
- Não nos mataram antes, não conseguirão nos matar agora!-bradou Hyoga avançando – Pó de Diamante!
Filipe de Eurus saltou para longe, ao passo que Máximus mais uma vez se dissipou no ar, materializando-se atrás de Hyoga sem aparentar o menor incômodo com o ataque.
- Eurus e Notus foram mais do que suficientes para derrotar a ambos. – disse Bóreas – E eu sou muito mais poderoso do que eles.
- Mesmo assim não foi capaz sequer de atrasar o cavaleiro Câncer! – disse Shiryu pondo-se entre Bóreas e Hyoga- Um cavaleiro de ouro que não resistiu à CÓLERA DO DRAGÃO!
O golpe de Shiryu tirou Bóreas do caminho, lançando-o para o ar; sem perder tempo Cisne saltou atrás do homem para continuar o ataque.
- Cuide do outro, Shiryu!-disse Hyoga atingindo Máximus com toda a força de seu poder congelante – Vou ensinar a esse cara o que significa o poder do frio do norte! Pó de diamante!
Mais acostumado que Hyoga com combates aéreos Máximus não teve dificuldade em desviar do ataque.
- Ensinar-me o que significa o frio do norte? Meu jovem, eu sou o frio do norte.
O céu sobre a montanha se fechou, nuvens negras bloquearam o sol. Perto do vendaval iniciado a corrente de ar que prendera os cavaleiros de bronze no topo da colina não passava de uma brisa. Enquanto ao redor de Hyoga flutuava uma fina névoa repleta de flocos de neve Bóreas deixava em seu caminho um rastro de pedras de granizo, só inferior em tamanho àquelas que atingiam as paredes e o topo de Star Hill.
- Q-quanto poder... – espantou-se Shiryu tiritando de frio com o escudo sobre a cabeça para defender-se das pedras de gelo gigantescas que caíam por todo o local. – M-me p-pergunto como deve ter sido o duelo de Máscara da Morte com esse homem...
- Violentíssimo. – respondeu Filipe, cujo cosmo criava uma barreira de ar para mantê-lo a salvo do gelo – Mas, rápido. Nunca fomos páreo para um cavaleiro de ouro.
A pergunta que Shiryu fez em seguida foi abafada pelo estrondo causado pelo som de algo se se movendo rápido o suficiente para quebrar a barreira do som. A nevasca provocada pelos cosmos de ambos dificultava a visão do combate, no entanto a onda de choque provocada pelo vôo de Bóreas dissipava e derretia neve e gelo em quantidade suficiente para que Eurus e Dragão assistissem aos violentos golpes recebidos pelo Cisne. Máximus não aparentava planejar sua trajetória, parecia guiar seus movimentos apenas pelo cosmo adversário. Depois do terceiro golpe recebido Hyoga já estava quase que completamente desnorteado, atacando a esmo, pois, mesmo quando a distância entre ambos não passava de poucos metros, ainda assim Bóreas escapava dos ataques.
- Como isso é possível? Eu sou capaz de me mover à velocidade da luz, já enfrentei deuses e sobrevivi, aliás, venci.- pensava Hyoga – E esse homem que apenas supera o som, está dominando o combate completamente. Por mais rápido que o som que ele seja não deveria ser capaz de fazer isso comigo... E o pior é que ele não encostou um dedo em mim! Estou sendo jogado de um lado para o outro como uma folha seca ao vento apenas pelo deslocamento de ar provocado pelo seu vôo!
Pairando a vários metros de distância Bóreas encarava o horizonte, os combates estavam equilibrados por todo o Santuário, salvo raras exceções. Estava incomodado por não sentir o cosmo de Notus; porém, as chamas diabólicas que pintavam o horizonte de vermelho eram um problema muito mais imediato.
Uma alteração nas correntes de ar lhe indicou o ataque iminente do adversário, um pontinho brilhante lutando contra a neve, o vento e o gelo. Dando à voz uma entonação imponente e desafiadora Máximus falou, sua voz carregada pelos ventos parecia o rugido da própria tempestade.
- Mostre-me do que é capaz cavaleiro, faça seu melhor. - e disparou em direção ao Cisne.
- Nem o pó de diamante, nem o kholódny smercht funcionaram contra ele. Só me resta a execução aurora, e mesmo ela será inútil se ele desviar. Devo aguardar até o último instante...
Com esse plano em mente Hyoga colocou-se em posição defensiva, esperou até que o adversário estivesse a pouco menos de um metrô de distância e atacou com força total.
- EXECUÇÃO AURORA!
O resultado, no entanto, não foi o esperado. Bóreas continuou seu vôo arrastando consigo o surpreso cavaleiro de bronze, a quem só restava sustentar o disparo da execução aurora e torcer para que o adversário fraquejasse antes que ambos atingissem o solo.
- Hyoga! Se eles se chocarem contra a montanha nessa velocidade ele vai ser esmagado!
Antes que Shiryu pudesse fazer alguma coisa para liberar Hyoga o ângulo da queda mudou drasticamente, estilhaços de rocha congelada se desprenderam da montanha quando os guerreiros do gelo a atingiram.
- Desviaram? Mas por quê?- Ao notar a direção da queda de Bóreas o Dragão olhou espantado para Filipe, que simplesmente sorriu, deu de ombros e colocou o indicador sobre os lábios.
- Não é hora de desviar do roteiro... Ainda. -disse Eurus- Mas, como seu amigo queria tanto lutar... Bóreas resolveu abrir uma exceção.
Vila de Rodorio
Em meio às chamas que se alastravam pela vila de Rodori Sirius, Argol, Dante e os poucos soldados capazes de se manter de pé lutavam. Dos reforços que esperavam, Cocheiro e Corvo, apenas Jamian havia conseguido se aproximar do campo de batalha e mesmo a força combinada de quatro cavaleiros de prata não era capaz de quebrar o cerco. Por outro lado, a tropa não havia perdido um soldado ainda.
Sempre que um pelotão inimigo parecia dominar o combate um bando de corvos descia sobre o campo de batalha atacando impiedosamente os cavaleiros negros, quando os pássaros se afastavam vários deles jaziam de joelhos com os rostos ensanguentados e vulneráveis ao fulminante ataque de Argol e Sirius.
- Um pelotão a menos... - murmurou Sirius enxugando a testa - ...Mas essas chamas vão acabar nos cozinhando.
- Anotem minhas palavras, se eu sobreviver eu juro que mato Babel!-reclamou Jamian.
- Isso se ele sobreviver... – comentou um soldado.
- Eu peço para o Máscara da Morte me mandar pro Yomotsu e mato o imbecil de novo!- retrucou o cavaleiro de prata – Ele deveria ser mais cuidadoso, nesse ritmo o Santuário estará carbonizado antes que consigamos reconquistá-lo!
- Se continuar perdendo tempo desse jeito não precisará da ajuda de Máscara da Morte!- gritou Argol afastando um cavaleiro negro que se aproximava sem que Jamian percebesse. -
- O problema não é Babel. - falou Sirius - Ele e aquele cavaleiro negro não conseguiriam fazer isso sozinhos em tão pouco tempo. É esse vento maldito! Há uma corrente de ar fluindo pela vila, alimentando e guiando o fogo na nossa direção.
- Pouco importa quem seja! Não há mais nada para fazer aqui. RECUEM!-respondeu Perseu gritando para os soldados - NÃO FUJAM, RECUEM!
A retirada estava indo bem até gritos de "avançar" serem ouvidos.
- O que está fazendo aqui, Dante? Você deveria estar preparando nossa rota de fuga. – espantou-se Sirius ao descobrir a origem da contra-ordem.
- Não há mais prédios a derrubar nem como cavar mais fossas! – falou Dante se aproximando com um grupo de soldados – Eu e os rapazes fizemos o que pudemos, mas é o limite. O fogo vai chegar aqui mais cedo ou mais tarde e para sair só atravessando as chamas.
Atendendo à deixa contida na fala de Dante o vento soprou ainda mais forte abrindo passagem para novas tropas inimigas. A cada cavaleiro negro caído mais surgiam por entre as chamas, enquanto os corpos dos derrotados explodiam em chamas.
Longe do campo de batalha para não ser notado e perto o bastante para poder influenciá-la Notus decidia se incinerava a todos os combatentes, pouco importando se sua lealdade estava com Atena ou as Erínias, ou continuava a tortura-los. A adaga dourada brilhava escarlate em suas mãos com o sangue de cavaleiros negros e de Atena. O ataque de Dragão e Cisne contra Bóreas e Eurus fora tudo o que Nicomedes precisara para iniciar os planos tecidos por Leviatã e Gêmeos.
- Ahhh... Dane-se!- resmungou fazendo malabarismos com a adaga – Nenhum deles é importante e já perdi tempo demais aqui. Que morram todos!
A um gesto seu as chamas subiram furiosas em colunas brilhantes, o vento carregou fagulhas sobre cada minúsculo pedaço de combustível presente no campo de batalha. Soldados, cavaleiros negros e de prata imediatamente começaram a tossir e sufocar, o ar quente demais para respirar. Línguas de fogo soltaram-se das colunas flamejantes a iluminar o céu e lançaram-se sobre o casebre com os soldados feridos que ao invés de desabar em uma chuva de escombros flamejantes a fragilizada construção resistia bravamente às chamas que por todo o lado se retorciam em direção aos céus como terríveis tornados de fogo, os quais rodopiavam pela vila terminando de destruir tudo que ainda estava de pé.
Assustado Notus tentou controlar a fúria do vento, porém o ar ao sobre a vila de Rodorio não o obedecia. Descargas elétricas calcinavam o chão, nuvens de fuligem atrapalhavam a visão e escombros incendiados dançavam pelo ar, não raras vezes atingindo Nicomedes, que por instinto ergueu os olhos para o céu. Um ponto brilhante avançava sobre a vila como uma estrela cadente trazendo negras nuvens de tempestade em seu rastro. Quanto mais próxima do solo mais fortes os ventos.
Quando a suposta estrela cadente atingiu a vila o fez com a força de um míssil obliterando tudo ao seu redor. Jogado ao chão pela onda de choque Nicomedes não conseguiu ver do que se tratava, mas tanto ele quanto os cavaleiros de prata e negros observaram estupefatos o fogo se debater como em agonia antes de se imobilizar em gigantescas e avermelhadas esculturas vítreas.
- O... O... O fogo congelou? – espantou-se um cavaleiro negro, constatando o óbvio.
- Mas... Como? – perguntou outro - É impossível!
Da cratera congelada dois homens rastejaram com dificuldade. Tontos e desequilibrados olharam ao redor, tentando compreender onde haviam caído. Bóreas foi o primeiro a ficar de pé, já o Cisne mal conseguia ficar de joelhos.
- Bóreas! Ajude-nos, Vento Norte! Com sua ajuda podemos acabar com esses cavaleiros!
- Notus estava conosco, mas parece que sua queda deve tê-lo desacordado.
Maximus ouviu os pedidos dos cavaleiros negros com uma expressão de confusão estampada no rosto e moveu a cabeça assentindo. Respondendo ao gesto, Sirius e Argol lançaram-se à frente, pois Hyoga nitidamente estava mais desnorteado que o adversário e ainda não havia se recomposto.
- Cuidado, Hyoga!
- TODOS PRO CHÃO! – gritou Hyoga com toda a força que conseguiu.
Jamian se jogou antes que Hyoga terminasse a frase, levando os soldados mais próximos consigo, já Dante usou as correntes de suas maças para convencer os mais distraídos, grupo que incluía além de alguns soldados Argol e Sirius, que não compreenderam de imediato o alerta.
Nem bem estavam todos no chão e Bóreas esvaziou os pulmões, apagando com seu sopro as poucas brasas remanescentes e estilhaçando as paredes de fogo congelado. Quando caiu de joelhos sem fôlego poucos cavaleiros negros ainda viviam, gemendo com estilhaços de gelo cravados em seus corpos.
- Parabéns, Hyoga...- disse Maximus num sussurro - Você é digno da cruz do norte... Não é comum que eu erre assim.
- E-e-er-rar?- gemeu um dos cavaleiros negros. – Você acabou com todo o nosso pelotão... S-Seu maldito...
- Você ainda vive e sofre. - falou Bóreas. – Peço desculpas por isso.
-Desculpas? Estes trastes de prata nem se arranharam!- respondeu outro .- D-desgraçado inútil!
- Estes "trastes de prata" acabaram com mais de duas dúzias de vocês, que ainda imploraram por minha ajuda. - replicou Maximus. –Como já disse: não é comum que eu erre assim. De qualquer forma, deve ser o suficiente para que resolvam o problema de vez.
- Resolver como, seu imbecil? Você nos aleijou!
- Ele não estava falando com vocês. – disse um dos soldados do Santuário colocando a ponta de sua lança sobre a nuca do cavaleiro negro.
- C-c-como é?!-perguntou o cavaleiro negro, tentando rastejar para longe.
-Fracassados como vocês merecem morrer. – rosnou Bóreas com desprezo.
Casa de Virgem
Se o combate em Touro mais parecia o encontro de duas impassíveis estátuas, a casa de Virgem aparentava ser um monastério. Tanto Shaka quanto seu nêmesis encontravam-se sentados em posição de lótus, apenas as ocasionais gotas de suor e sangue traíam o esforço feito.
O duelo estava sendo travado em outro plano, nêmesis e cavaleiro tentando intensamente romper as barreiras mentais e cósmicas do adversário. A cada sucesso inimigo Shaka era confrontado com seus pecados, seus maiores erros, cada ato condenável cometido.
É impossível para um mortal, por mais santo que seja, resistir indefinidamente aos próprios desejo, afastar eternamente seus medos. Apesar do imerecido título o cavaleiro de ouro de Virgem não passa de um homem comum e como o homem mortal comum e prepotente que é cairá vítima de seu próprio orgulho.
Como resposta Shaka ofereceu apenas silêncio. Sabia que a frustração e raiva que sentia por ter se deixado manipular por seu nêmesis o deixava em desvantagem, tais emoções eram sistematicamente atacadas e, de fato, mais cedo ou mais tarde erodiriam suas defesas. O combate teria de terminar antes.
Lamento, não vai. Talvez se soubesse reconhecer os próprios limites... Os cavaleiros de ouro são orgulhosos por natureza, a arrogância parte integrante do título. Você, porém, superou todos os limites. Não bastava ser considerado próximo a deus, o cavaleiro de Virgem precisa ser reverenciado como um.
Apenas o franzir do cenho traiu o abalo de Shaka.
Saga tentou mata-la. Afrodite, Shura e Máscara da Morte a renegaram. Aiolia se recusou a acreditar... Já você, a quem Atena escolheu para guia-la ao inferno, foi o único a ter a audácia de desobedecer ordens diretas. E com a vida do planeta inteiro em jogo!
Lampejos do embate com Hades em Giudecca cruzaram a mente do cavaleiro de ouro trazendo consigo a vergonha por sua conduta. A clareza das imagens se desfez conforme Shaka erguia o cosmo em defesa.
Tu és infantil. Em verdade o mais infantil e imaturo dos doze dourados. A postura "iluminada" não passa de uma farsa para esconder tua fragilidade. Teme o fracasso, a derrota, o lugar-comum. A possibilidade de ser igualado aos meros mortais o apavora.
No limite da resistência de suas defesas Shaka abriu os olhos, o cosmo acumulado explodiu inundando a casa de Virgem e repelindo o ataque do nêmesis. Quando o equilíbrio de forças foi restaurado o cavaleiro de ouro percebeu que os olhos do adversário estavam abertos e plácidos. Ciente da total atenção do dourado o nêmesis finalmente usou a própria voz:
- Sim, meus olhos estão abertos. E não, não acumulo cosmo de outra forma. O único motivo pelo qual você faz isso é por falta de confiança em seu próprio cosmo. Essa insegurança não faz parte de mim. Se for preciso erguerei meu cosmo ao infinito. Caso não seja suficiente morrerei em paz sabendo que fiz o melhor que pude.
Sem aparentar esforço o nêmesis ergueu o cosmo ainda mais, rompendo o escudo de Shaka e jogando o cavaleiro contra a parede.
- Q-que poder assombroso...
-Poder que poderia ser seu. -comentou calmamente o nêmesis- Se apenas fosse humilde o suficiente para encontra-lo dentro de si.
- E onde está a sua humildade? – perguntou o cavaleiro.
- Como?
- Se é humildade a fonte de seu poder onde está ela? Em que momento ela se manifesta?
- Não sou eu quem está sendo julgado.
- Muito pelo contrário. - Zonzo, Shaka retirou o que restava de seu elmo e pôs-se novamente de pé. – Assim como julga você será julgado.
- É mesmo?
- Desde que nos aproximamos da casa de Virgem minha vida foi devassada por você. Cada memória usada e abusada com o objetivo único de abalar minha convicção e enfraquecer minhas defesas... Uma atitude até previsível, considerando a sua, supostamente, divina missão e... sua conduta pregressa...
- Se refere ao meu ataque psíquico durante sua estadia na residência de Julian Solo?- um leve sorriso de deboche atravessou o rosto do nêmesis.
- Mas ao fazer isso está cometendo os mesmos erros que me acusa de cometer. – respondeu rapidamente Shaka cambaleando diante do ataque lançado junto com a pergunta – Você não é perfeito, nêmesis de Virgem, mas tudo que há de ruim em minha alma. Não vou permitir que minha vida seja vilipendiada por um reflexo distorcido de mim mesmo. Ohm!
Juntando as mãos Shaka ergueu seu cosmo. A violência do choque entre o ataque dourado e a barreira do nêmesis estilhaçou pilastras por toda a sexta casa.
- Seu discurso apaixonado trai as fraquezas e falhas de seu caráter. Ainda está se colocando em um pedestal. – disse o nêmesis sem emoção – Já passou da hora de tirá-lo daí: Tenbu Horin.
Com essas palavras o mundo se perdeu em escuridão para Shaka. Uma leve dor nos joelhos lhe avisou que havia ido ao chão. A rapidez com que sumiu foi a certeza de que seu tato também fora levado. A última imagem a desaparecer de sua visão foi o rosto de seu adversário, seu próprio rosto emoldurado por uma cegante luz dourada. Teriam suas vítimas sentido a mesma desolação diante daqueles impassíveis e distantes olhos azuis?
Salão do Grande Mestre
Conforme as horas avançavam ficava cada vez mais claro para Saori que o julgamento não passava de uma farsa, no máximo uma aposta arriscadíssima com poucas chances de sucesso. As Erínias jamais aceitariam a decisão de Nêmesis e não só esta dificilmente conseguiria impor sua vontade como não havia a certeza de que fosse proteger os réus inocentados da fúria da acusação frustrada. A cordialidade forçada aos poucos dava lugar para uma mal disfarçada agressividade entre os deuses, o ar estalava com a energia liberada pelas cinco divindades.
Mesmo com toda sua eloquência, Poseidon estava apenas ganhando tempo para que os cavaleiros chegassem à decima-terceira casa, e nem mesmo havia garantia de que seriam os cavaleiros de ouro os primeiros a chegar, se chegassem.
- IRRELEVANTE!-reclamou Megera – QUE IMPORTAM AS INTENÇÕES DE HADES?
-Por milênios Palas Atena limitou-se a aprisionar seus adversários, reservando a pena capital apenas aos servos mortais dos mesmos...-completou Alecto.
-É a prova que basta para que afirmemos ser a morte de Hades um crime inaceitável!-afirmou Tisífone.
- Inaceitável? – questionou Poseidon – Atena ofereceu a própria vida para encerrar os combates, ela praticamente se rendeu em troca da humanidade e meu irmão além de recusar a proposta fez tudo o que pôde para mata-la.
- ASSIM COMO TAMBÉM TENTASTE. -provocou Megera.
- Gostaria de aproveitar seu comentário, Megera, para questioná-la se Hades e Poseidon sofreriam com seu julgamento caso eu tivesse falecido. - perguntou Saori.
- DECERTO!-responderam as Erínias em uníssono.- O DERRAMAR DE SANGUE FAMILIAR É UM CRIME TERRÍVEL E COMO TAL DEVE SER PUNIDO COM RIGOR ÍMPAR!
- Tudo o que Atena fez foi defender a própria vida!- bradou o deus dos mares.
- Falso! Mentira! Falácia!
- Pelo menos duas vezes Atena ofereceu a vida pelos humanos!
- Um nobre gesto, porém infantil e inútil. – ironizou Poseidon – Afinal, meu irmão ignorou a oferta. Naquela situação não cabia mais diálogo ou sacrifício – completou dirigindo-se à Nêmesis – Só restava à Atena lutar e vencer!
- Disseste bem!
- Vencer!
- VENCER NÃO É MATAR!
A hipocrisia contida nas palavras ditas foi tamanha que calou Poseidon. Saori, porém, explodiu com um pragmatismo incomum.
- Era guerra! Uma guerra pelo futuro do planeta e da humanidade! Pessoas morrem em guerras! Muitos já haviam morrido pelas ambições de Hades, não havia alternativa!
- Talvez fales a verdade, talvez não houvesse realmente alternativa...
- Mas foi realmente essa a motivação?
- MATASTE HADES PELA HUMANIDADE?
- O que estão insinuando?
- NÃO INSINUAMOS! APRESENTAMOS FATOS!
- Não foi pela Terra! Não foi pelos homens!
- Menos ainda pela própria vida!
- FOI POR VINGANÇA!
- Vingança? Não sejam ridículas!
- Então negas que foi da visão de seu amante humano mortalmente ferido que retirou forças para vencer?
- Amante?- repetiu Saori, incrédula.
- SIM! AMANTE!
- O verme humano eliminado por Nêmesis Adratéia!
- Seiya nunca foi meu amante!
- Não por falta de vontade... Os sentimentos que nutres por ele estão estampados em cada sílaba pronunciada...
- Talvez não tenha sido amante, mas com certeza era amado!
-É INCONTESTÁVEL: TU MATASTE HADES PARA SALVAR SEIYA, CAVALEIRO DE BRONZE DE PÉGASO!
- Não! Não é verdade!
- Vimos tuas lágrimas quanto ele foi morto! Negas teu amor pelo mortal?
- Atena ama a todos os humanos!-interveio Poseidon. – E é óbvio que sofreu a morte de alguém que cresceu com ela nessa encarnação!
- Pela Terra morrerias! Pelos homens sofreria martírios! MAS POR PÉGASO MATASTE UM DEUS!
Continua
