ATOS DE VINGANÇA III

Capítulo XI

Salão Dourado

Vozes exaltadas, cheiro intenso de fuligem e cegueira momentânea causada por um misterioso lampejo de luz. Essas foram as sensações a atingir os sentidos de Aioros quando este saiu da nona casa. Conforme sua visão retornava ele conseguia distinguir contornos dos pilares com os símbolos zodiacais em chamas e pessoas espalhadas pelo salão. Seu corpo formigava e pequenas labaredas brincavam inócuas em sua armadura até apagarem.

- Permita que eu me apresente. Sou Selene...

- Eu me lembro de nosso encontro em Veneza.- cortou Aioros, confuso – Onde estou?

- No Salão dourado.- respondeu a mulher.

- Eu deveria estar nas escadarias de Capricórnio!-espantou-se Sagitário – Como cheguei aqui?

- Aioros! Estávamos preocupados com sua demora! Quando as chamas douradas prevaleceram e você não apareceu achamos que estava incapacitado. - disse Aiolia aproximando-se com Camus, Milo, Mu, e Shura.

Diante da confusão de Sagitário Selene tomou a palavra:

- Como já devem ter percebido o espaço na trilha das doze casas foi fracionado para evitar interferências indevidas nos combates. - disse Selene, visivelmente exasperada. Não era a primeira vez que repetia suas palavras - Assim, apenas o defensor original da Casa Zodiacal pode nela entrar, e para sair deve derrotar seu nêmesis. Os vencedores, sejam cavaleiros de ouro ou nêmesis, são trazidos para cá ao tentarem sair da casa em questão.

- Já percebemos isso. - disse Shura - queremos saber a razão.

- Tudo o que sei é que só poderemos sair deste salão quando o último combate acabar e seu vencedor chegar aqui. - respondeu a Selene- Não há o que eu possa fazer.

- Leão, Touro, Áries, Capricórnio, Aquário, Escorpião e agora Sagitário. - contou Milo. - Pelas chamas parece que o combate em Libra está prestes a se encerrar, novamente com vitória nossa. Não vai demorar muito tempo.

- Ainda faltam Peixes, Virgem, Gêmeos e Câncer. -ponderou Mu observando a forma como as chamas crepitavam - Nenhum dos quais parece estar indo muito bem.

- Ainda assim está fácil demais... -murmurou Camus.

- Desconfia de algo, Camus? – perguntou Aiolia.

-Sim. - respondeu Aquário - Aldebaran, como parte do grupo que enfrentou Tisífone, deveria ser um dos mais debilitados. No entanto, foi o primeiro a chegar...

- Aliás, acho que o ouvi roncar alguns minutos atrás... - comentou Shura olhando de soslaio para onde o Touro aparentemente dormia.

-..Aioros também enfrentou a Erínia, e já tinha vencido seu duelo muito antes de Mu, que foi o quarto de nós, conseguir sair de Áries. – completou Camus.

- Não creio que os nêmesis facilitariam os combates... – falou Selene após ouvir o comentário de Camus.

- Mas não é impossível... – disse Aioros após pensar por algum tempo.- Desconheço o que ocorreu com os outros cavaleiros, mas minha experiência com o nêmesis de Sagitário faz justiça às palavras de Camus. Aliás, minha demora em sair da casa de Sagitário foi justamende devido a essa experiência.

- O que está dizendo?- questionou a mulher.

- É difícil explicar. Sei apenas o que senti enquanto lutava... -enquanto buscava palavras Aioros encontrou os olhos de Aldebaran, cujo silêncio fora confundido com sono por Shura.- Era como se ele...

-... Sentisse incerteza sobre sua de sua missão, e não soubesse o que fazer... Até me encontrar.

Cemitério do Santuário.

Zonzo e exausto, Ikki mal ouvia as palavras de Thallas. Debatera-se o mais que pode para livrar seu tornozelo da mão do Leviatã, que o arrastava e prendia com tal força que já não sentia o pé. A descoberta de fendas na armadura inimiga de nada adiantou, o homem ignorava completamente os golpes recebidos. Erguido no ar e lançado ao chão, alguns metros à frente, como um boneco de pano o cavaleiro de bronze tentou sem sucesso colocar-se de pé; a perna pela qual fora arrastado não sustentava seu peso.

- Não há razão para esse olhar de ódio, Fênix. Estou fazendo um favor à sua família.– respondeu Thallas derrubando com um mero aceno o adversário que se tentava se levantar. Sua voz aparentava calma, mas a mão ferida se contraiu quando defletiu o ataque. – Ou acha que o arrastei até aqui só por prazer? Prometi que o reuniria com seu irmão e cumprirei minha promessa.

O comentário conseguiu chamar a atenção de Ikki. Olhando rapidamente à sua volta não demorou a entender o que Thallas quis dizer: havia sido arrastado até o túmulo de Shun.

- Seu irmão, ao contrário dos outros cavaleiros, não merecia apodrecer ao relento como comida de abutre. – falou Leviatã ao ver a expressão de incredulidade de Fênix – É preciso muita coragem para dar a vida por alguém, mesmo sabendo que seu gesto será inútil. Tanto os nêmesis, quanto os cavaleiros negros e os Ventos concordaram. Mesmo as deusas da vingança não discordaram. Andrômeda impressionou a muitos.

Ikki não pode evitar o sentimento de orgulho que o inundou ao ouvir as palavras de seu pretenso algoz. Com lágrimas nos olhos e vigor renovado avançou contra Thallas.

- Se até vermes como vocês foram capazes de honrar meu irmão, não há como eu me permitir ser derrotado, muito menos sobre seu túmulo!

A velocidade do ataque surpreendeu Thallas, o qual instintivamente usou os braços para defletir os golpes enquanto recuava em busca de equilíbrio. Os golpes eram lançados em sucessão tal que a mera pressão dos movimentos do Leviatã, antes suficientes para derrubar Fênix, agora não bastavam.

- Isso não me dará a vitória, mas me dá tempo para pensar em outra estratégia...- vibrou internamente Ikki enquanto atacava, bloqueava e esquivava dos ataques inimigos –... Estranho, agora ele está evitando usar a mão esquerda para defender e quando a usa para atacar não usa força total. Estará finalmente sentindo meus golpes?

- Como podem as emoções de uma só pessoa oscilarem tanto em tão pouco tempo? –pensava Thallas – Num instante seu ódio por mim é palpável, no outro seus golpes exalam serenidade e esperança! Esse homem é um esquizofrênico!

Leviatã concentrou seu cosmo nas mãos e lançou contra Fênix, que ao invés de recuar ataca diretamente. A onda de choque derruba novamente o cavaleiro de bronze sobre o túmulo do irmão e espalha os destroços das outras lápides. Por reflexo, ergueu os braços para defender-se daquele que supôs ser um ataque fulminante. Ao invés do som de ossos esmagados o que ouviu foi um palavrão de Thallas e tilintar de fragmentos de metal se chocando com o chão.

Casa de Gêmeos

Sentado sobre os restos de uma pilastra caída o Nêmesis de Gêmeos observava sua antiga prisão, o corpo do cavaleiro de ouro de Gêmeos. O prazer sentido ao agredi-lo lentamente dava lugar ao desprezo por quem o ocupava.

- Vergonhoso... -disse o nêmesis – E pensar que passei anos impedido de viver graças à tamanha fraqueza.

Lutando contra a exaustão, Saga fazia de tudo para colocar-se de pé, a ideia de permanecer de joelhos diante da criatura lhe feria mais do que qualquer golpe recebido até o momento.

- Mas sempre foi assim, não é verdade? - saltando em direção à Saga e agachando-se ao lado do cavaleiro o nêmesis continuou seu discurso – Nem essa armadura conseguiria caso eu não lhe emprestasse minha força...

- Nunca dependi de você...- retrucou Saga.

- NUNCA? - gritou o homem, puxando os cabelos do cavaleiro de ouro – Sua hipocrisia é tão grande a ponto de negar todas as vezes em que recorreu a mim para vencer? Ou das inúmeras vezes em que me libertou por medo de morrer? E mesmo quando não me era dado o controle, eram minhas as forças usadas para avançar. Admita... Sem mim, você não é, nem nunca foi, nada!

A réplica de Saga reduziu o nariz do nêmesis a uma disforme fonte de sangue. Afastando o punho do rosto de seu duplo apenas o suficiente para que pudesse estender os dedos, o cavaleiro de ouro lançou a Explosão Galáctica, a qual abriu uma cratera sob seus pés e lançou o nêmesis para extremo oposto da terceira casa.

Mais surpreso do que irritado o nêmesis girou o corpo várias vezes até alterar o ângulo em que fora arremessado, conseguindo, assim, colocar novamente os pés no chão e usá-los para diminuir sua velocidade. Quando finalmente conseguiu parar estava enterrado até os joelhos, e Saga, com os cabelos rubros pelo sangue que vertia do escalpo arrancado pelo nêmesis durante o ataque surpresa, a poucos metros de si.

- EXPLOSÃO GALÁCTICA!

- OUTRA DIMENSÃO!

A ironia da situação não escapou aos combatentes, os quais não perderam a oportunidade de trocar provocações.

- Como se sente, encurralado da mesma forma que encurralou meu irmão? - falou Saga.

- NOSSO irmão!Não importa o que diga, sou tão irmão de Kanon quanto você!Dividimos os mesmos pais, habitamos o mesmo ventre, sofremos as mesmas dores e privações!-corrigiu o nêmesis – E não estou encurralado, pois de nada adianta sua determinação,já que lhe falta o principal: A FORÇA! - bradou o nêmesis.

Cemitério do Santuário

- Não. Você não matará ninguém. Nem hoje, nem nunca mais. Eu, June de Camaleão, não vou permitir.

-June?– espantou-se Fênix.- Então, era você quem nos seguia?

- Como eu poderia permitir que o assassino de Shun escapasse?- respondeu a jovem – Ainda mais vendo que você estava em apuros? A trilha de destruição e morte desses monstros acaba aqui.

- Pare com isso, June!- implorou Ikki – Você não é páreo para ele! Recue!

Alheio ao diálogo entre os cavaleiros Thallas parecia estar mais interessado no chicote de June enrolado em seu braço direito. Seu olhar ia da amazona para o chicote e traía um sério dilema interno.

- Como esses cavaleiros foram capazes de vencer tantos desafios com uma compreensão tão limitada de seus poderes? Estamos lutando há horas e Ikki parece não fazer idéia de como me enfrentar. E essa garota, cujo cosmo é risível nem percebe que, se quisesse, poderia ter arrancado meu braço logo no primeiro ataque!-pensava Thallas.- Será possível que chegaram até aqui apenas graças à Niké?

- Não posso fazer isso, Ikki. - retrucou a mulher, que mantinha o braço de Thallas firmemente preso em seu chicote– Não se preocupe comigo, ataque!

- Mova-se e a garota morre. – disse Leviatã com os olhos fixos em June.

- Droga!- rosnou o cavaleiro de bronze, que ensaiava um ataque.- Sei que sou mais rápido, mas ele compensa com pura força bruta... O que eu faço?

- Não tenho medo da morte. – disse June forçando o chicote.- Você pagará pela morte de Shun. Custe o que custar.

- Confesso que nunca entendi o motivo pelo qual os autointitulados heróis não temem a morte.– respondeu Thallas cedendo cuidadosamente à pressão. –Eu temo. Sempre temi. Talvez seja por isso tenha me esforçado tanto para continuar vivo por todo esse tempo... E é por temer a morte que não posso permitir que seu namoradinho seja vingado. Em compensação, terei prazer em reuni-los... Argh!

- Eu sou seu adversário, Thallas de Leviatã. - disse Ikki erguendo o cosmo e atacando. Seu golpe fora bloqueado, seu punho estava sendo impiedosamente esmagado, mas era inconteste que seu adversário sofria agora para dominá-lo. – Nem por cima do meu cadáver você encostará em um fio de cabelo que seja de June.

Casa de Gêmeos

Quando as mãos do nêmesis se fecharam o coração de Saga apertou-se em sincronia, mais uma vez sua técnica fora neutralizada a um custo mínimo para o inimigo. De onde vinha a diferença de forças se ambos eram, em tese, o mesmo homem? Haveria verdade nas palavras da criatura de que não eram gêmeos, mas trigêmeos?

- Pela expressão em seus olhos consigo ver que finalmente está considerando a verdade sobre a natureza de nossa relação.-falou o nêmesis – Somos formas de vida incompletas, você e eu. Duas mentes, duas almas, trancafiadas em um mesmo corpo!

O cosmo do nêmesis de Gêmeos explodiu, pulverizando o piso ao redor de suas pernas, libertando-o. Para proteger-se, Saga saltou para trás evitando ser derrubado pela destruição sob seus pés.

- Aliás, éramos.- corrigiu o nêmesis caminhando em direção a Saga– Agora sou completo. Tenho um corpo só para mim.

-O que você fala não faz sentido... - falou o cavaleiro recuando espantado -... Está insinuando que de algum modo os embriões que dariam origem a nós fundiram-se novamente durante a gestação? Já ouvi falar disso, mas... Ainda que fosse verdade, a ideia de que duas consciências pudessem sobreviver dessa forma é... Absurda, para dizer o mínimo.

- Não. Não é. Pense bem, consegue lembrar de algum momento de sua vida em que minha voz não estivesse reverberando no fundo de sua mente? Não sou um espírito maligno,nem algo do qual você se livraria com terapia e remédios pesados. Só nos separamos quando o escudo de Atena me expulsou de meu corpo.

- Meu corpo.

- Parte desse corpo me pertencia!Você me negou a vida!Por mais de 27 anos fui privado de liberdade, obrigado a vivenciar tudo de carona na sua consciência covarde!- gritou o nêmesis saltando sobre Saga - Fui condenado à uma morte prematura da qual só escapei fundindo-me novamente a você após a destruição dos domínios de Hades!

- Então foi por isso que não senti sua influência nas duas vezes em que fui trazido de volta durante a Guerra Santa...- murmurou o cavaleiro defletindo o ataque com uma rajada de cosmo - Se eu soubesse do que trazia comigo teria continuado no limbo.

- Hahaha! Não seja ridículo!Quantas vezes teve a chance de acabar com a própria vida e como bônus destruir a minha?Sempre lhe faltou coragem. Não seria naquele momento que mudaria de idéia.

- É verdade, nunca tive coragem de cometer suicídio por medo de morrer sozinho, deixando-o livre para causar danos ao mundo. Por isso preferi continuar vivo e lutar para mantê-lo sob controle dentro de mim.

- E todos nós sabemos o resultado esplêndido de seus esforços... -ironizou o nêmesis.

-Tranquei Kanon no Cabo Sounion.- respondeu Saga – Trancaria você também caso fosse um indivíduo à parte. E caso não fosse possível, o mataria.

- Então mate!-provocou o nêmesis abrindo os braços- Mate-me!Estamos aqui há horas e mal conseguiu arranhar minha armadura. Cada minuto que passa é mais um prego em seu caixão. Enquanto suas forças se esvaem, as minhas aumentam e você não faz ideia da razão! Vou explicar: ao contrário de você não tenho medo de minha própria força nem pudores de ocupar meu real lugar no cosmo. Seu medo o impediu de assumir seu lugar de direito como líder dos cavaleiros, e, consequentemente, senhor do planeta. Eu não tenho esse medo. Nunca tive. Desde o momento em que percebi o significado de minha existência recusei a mediocridade a qual você se submeteu durante toda a vida.

- Não há nada mais medíocre do que se curvar diante de alguém em busca de migalhas de poder...

- Migalhas de poder?Hihahahahaha! Sabes muito bem que não me contento com pouco...- em um rápido movimento o nêmesis ataca Saga que esquiva - Quando Nêmesis Adratéia finalmente proferir sua sentença os seis deuses lutarão até a morte... Quando a luta acabar será minha vez.

- Imbecil... Acha mesmo que nós cavaleiros, ou mesmos os nêmesis e cavaleiros negros que porventura sobrevivam deixaremos você completar seu plano?- rosnou Saga esquivando dos ataques cada vez mais rápidos do adversário – Ou que não tentaremos proteger nossos deuses caso o julgamento resulte em combate aberto?

- É claro que os mortais vencedores dos combates pelo Santuário farão o impossível para defender seus mestres. Conto com isso! -respondeu o nêmesis – Vocês lutarão como idiotas adestrados que são e serão esmagados pelos deuses em fúria! Exaustas e sem ninguém para defendê-las as divindades sobreviventes cairão sob os golpes de uma velha amiga nossa...

Cemitério do Santuário

De um lado a amazona de Camaleão forçava o chicote, sem perceber que lentamente desgastava a manopla de Leviatã, do outro Ikki aumentava mais e mais a pressão contra sua já machucada mão esquerda tornando cada vez mais difícil disfarçar a dor.

- Não consigo nem lembrar a última vez que estive nessa situação... Séculos talvez... Parabéns, cavaleiros, vocês conseguiram um impasse... – falou o homem com dificuldade – Entretanto, é só isso que conseguiram: um impasse... E ele acaba agora!

Em um rápido movimento o chicote no braço de Thallas foi firmemente agarrado e puxado, levando a amazona ao chão. Desenhando um longo arco Leviatã ergueu a arma e trouxe para baixo com violência errando June por pouco. A velocidade e potência do ataque prejudicavam sua precisão, porém impediam a jovem de sair do alcance da arma. O mero deslocamento de ar provocado pelas chicotadas imobilizara June. Não havia como escapar.

- Pare, Thallas! – gritava Ikki atacando o antebraço inimigo em um esforço desesperado para libertar-se – Eu sou seu adversário, deixe a garota fora disso!

- Ela é um soldado! - retrucou Leviatã preparando-se para o abate – Morrer em combate sempre foi esperado. Não a humilhe bancando o príncipe encantado. Honre sua aliada prestando bastante atenção no modo que ela escolheu para morrer: estraçalhada pela própria arma!

- Esse braço tem de estar quebrado! Não é possível que ele seja tão mais forte que Lisandro e Manticore.- pensava Ikki desesperado – O tempo está passando, preciso fazer alguma coisa rápido!

A atenção de Ikki foi atraída pelo silvo do chicote acima de sua cabeça. Thallas o girava com velocidade suficiente para formar um pequeno tornado de poeira e detritos ao seu redor, o próximo movimento seria o fim de June.

Movendo-se com o máximo de liberdade que a mão de Thallas lhe permitia, Ikki lançou-se à frente atacando não o adversário, mas sua arma. Leviatã teve o braço engolfado pelas chamas da Fênix e o chicote de Camaleão, incapaz de resistir às forças extremas às quais fora submetido, desintegrou-se muito antes do alvo. Frustrado, Leviatã tentou usar seu cosmo contra a amazona. Sem perder tempo Ikki atacou com força total o braço que o prendia, arrancando um grito de dor de Thallas e fazendo-o errar o ataque.

- FUJA JUNE!- gritou Ikki.

Rosnando de dor, Leviatã virou-se para o cavaleiro de bronze, agarrou-o pelo rosto com a mão livre e ergueu o cosmo. No curto intervalo antes que a palma de Thallas lhe obstruísse a visão Ikki viu sua morte estampada nos olhos desvairados do homem. E morto estaria se June tivesse fugido, ao invés de erguer-se e, mesmo desarmada avançar contra Leviatã. A perna da amazona o acertou brutalmente no pescoço arremessando-o longe. Thallas atingiu o chão com estrondo e rolou algumas vezes antes de parar.

Por um longo tempo apenas a respiração dos três guerreiros e o som dos destroços erguidos com a queda de Thallas retornando ao chão foram ouvidos. Conforme a nuvem de poeira se dissipava ficava bem claro que os últimos acontecimentos haviam surpreendido a todos. Ao se erguer Leviatã levou a mão ao pescoço sem conseguir disfarçar o espanto ao perceber que sua armadura quebrara com o chute da amazona.

- Admito que achei nosso combate revigorante, Fênix. –falou Thallas segurando o braço ferido, o qual sangrava profusamente- Não fosse sua imaturidade teria percebido o quão perto chegou de vencer esta luta...

- Sei muito bem qual minha distância até a vitória. Sua armadura está chegando ao limite, não vai demorar muito mais para eu a arranque do seu corpo. – respondeu Ikki se erguendo, em guarda, o rosto marcado por queimaduras - A luta ainda não acabou, Thallas.

A bravata do cavaleiro arrancou um sorriso contrariado de Leviatã. Seu braço esquerdo de fato doía bastante não só devido à fratura, mas também aos inúmeros golpes recebidos, ambas as manoplas estavam visivelmente danificadas, grande parte do lado direito da armadura apresentava fissuras devido ao dano indireto causado pelo Vôo da Fênix, sem contar com a metade da proteção de seu pescoço, estilhaçada como vidro com o chute da amazona de Camaleão.

- Tem razão, não acabou. – falou Leviatã erguendo o cosmo e concentrando-o na mão direita.- Entretanto, acabará. Em breve.

- Ikki... O cosmo dele... É imenso.- falou June ainda sem entender como conseguira mover alguém tão superior a si própria.

- Por isso queria que fugisse. - falou Ikki queimando o próprio cosmo. – Infelizmente, não parece ser mais uma opção.

Se pudesse ler mentes Ikki saberia que apesar da aparência calma Thallas pesava cuidadosamente seu próximo movimento. Não só a dificuldade do combate aumentava exponencialmente (o que depois de séculos trancafiado no subsolo lhe agradava muito, na verdade) como seu sexto sentido, afiado após incontáveis batalhas lhe dizia que algo muito mais perigoso do que Fênix e Camaleão estava à espreita, aguardando o momento certo de agir. A ameaça foi sentida ainda nas ruínas do relógio zodiacal, mas lá ainda era muito indistinta. Por um instante considerou ser June a fonte da sensação, algo que aparentemente Ikki também achara. Porém, agora via como absoluta impossibilidade, pois mesmo oculto o cosmo ultrapassava e muito o da amazona.

A maior fonte de preocupação para Thallas era a impressão de que quem ou o que estivesse acompanhando seus movimentos não parecia disposto a intervir, apenas a deixar clara a possibilidade de intervenção. Todas as vezes que chegava perto de matar Ikki, e mais recentemente, June, o espectador se manifestava. Talvez ainda estivesse indeciso entre confiar no poder dos cavaleiros e ajuda-los.

Independente da enorme diferença de forças era nítido que ambos estavam cansados e enfraquecidos, mesmo assim o cosmo que Thallas agora emanava era maior do que qualquer coisa antes manifestada durante a luta, nem para bloquear o ataque conjunto de toda a confraria tinha feito algo parecido. Por outro lado, a fúria assassina parecia ter diminuído após o chute de June, apesar das ameaças tanto a postura quanto a expressão e o cosmo de Leviatã aparentavam autocontrole.

A mudança de atitude e o comentário a respeito de estar próximo da vitória atiçavam a curiosidade do cavaleiro de bronze, o qual revisitava o combate em busca de estratégias e respostas. Em especial para a seguinte pergunta: como June conseguiu causar tamanho estrago com golpe tão simples? Após longas horas de luta ele próprio mal conseguira arranhar a armadura inimiga enquanto a amazona com um mero chute fizera voar um homem cujo cosmo queimava com tanta intensidade que o sangue que antes escorria agora evaporava assim que tocava no metal que cobria seus ferimentos.

A despeito das dúvidas ambos sabiam que uma guerra de atrito não era opção. Para Ikki alongar o combate seria aumentar as chances de, fatigado, terminar exposto ao avassalador cosmo inimigo. Por sua vez Thallas sabia que aguardar mais tempo além de colocar em risco seu plano de libertar-se das Erínias, permitiria a Fênix e Camaleão finalmente compreender o funcionamento da armadura de Leviatã. E ainda havia o espectador oculto...

- Espero que tenham aproveitado esses sussurros para fazerem suas despedidas, pois não lhes darei outra chance!-bradou Leviatã lançando-se à frente.

Graças à ensurdecedora onda de choque gerada pelo ataque de Thallas o fim da frase mal foi ouvido pelos cavaleiros. No entanto, Ikki não precisava ouvir para reagir. Tão logo Leviatã iniciou seu movimento Fênix avançou abrindo caminho com seu corpo. Atrás dele, protegida, June aguardava.

Ciente de que Ikki não conseguiria aguentar por muito tempo Thallas aumentou a pressão, disposto a estraçalhar ambos os cavaleiros de uma só vez. Era uma saída covarde, tinha de admitir, mas não poderia permitir aos cavaleiros novas oportunidades de feri-lo. O restante de suas forças deveria ser preservado para os sobreviventes do julgamento de Nêmesis.

- Desista, Ikki!Foi um duelo memorável,lembrarei dele por séculos, porém é óbvio que você está no limite!- rosnou Thallas avançando- Não há como o cosmo de um mero cavaleiro de bronze, não importa o quão experiente, resistir ao meu por mais do que alguns segundos.

- Você está pior do que pensávamos, então!-brandou Fênix explodindo seu cosmo - Vôo da Fênix!

- Do que está falando, seu louco?- perguntou Leviatã, tentando disfarçar sua preocupação ao se perceber obrigado a interromper seu avanço e sustentar o conflito de forças.

Usando Ikki como apoio e o Vôo da Fênix como guia June atravessou a periferia do golpe de Thallas, o qual não conseguia ver nem sentir seus movimentos graças à enormidade de seu próprio ataque e a precisão com que Ikki explodiu seu cosmo para mascarar a manobra. Ao aterrissar a amazona não perdeu tempo, lançando-se de imediato contra Thallas, atingindo-o com um fulminante chute no braço esquerdo.

– Que nós só precisávamos de um segundo! -falou June ao sentir o salto de sua bota atravessar a armadura de Leviatã.

Não foi um golpe preciso nem forte, talvez tenha sido um dos mais desajeitados ataques já desferido por um cavaleiro de Atena, mas foi o mais eficiente jamais lançado por June. Surpresa. Raiva. Orgulho ferido. Dor. Foram essas as sensações que inundaram o corpo de Leviatã, o qual as externou com o mais diabólico urro já emitido por uma garganta humana. Dessa vez, porém, Fênix não recuou, pois perdida em meio ao apavorante grito estava uma quase imperceptível nota de impotência, a qual Ikki não falhou em captar e distorcer em um brado de pavor o qual terminou em violenta explosão, à qual se seguiu enorme torre de fumaça à semelhança de um cogumelo atômico.

O céu do Santuário, enegrecido pelo cosmo das deusas da Vingança e revolto com a fúria dos poderes dos Ventos se iluminou com a imagem de um pássaro flamejante travado em combate com uma gigantesca e monstruosa serpente, em cuja cauda, quase perdido em meio a tão imponentes figuras, um pequeno lagarto, parecia se esforçar ao máximo para ter sua presença sentida pelo réptil maior.

Salão do Grande Mestre

Absortos em violento debate Poseidon, Atena, Tisífone e Alecto mal perceberam o templo vibrar; Megera e Nêmesis, por outro lado, não só notaram como compreenderam de imediato seu significado, a primeira fechou o punho ao redor do cabo da espada com firmeza capaz de verter sangue; a segunda, novamente, sorriu com olhos fixos na Erínia, a qual sustentou o olhar. O tempo da sentença se aproximava...


Aos poucos bravos que ainda acompanham essa fic os tranquilizo de que a encerrarei em breve.