Capitulo 02

Era por volta de meio-dia, os dirigentes do clube estavam sentados em uma grande mesa redonda, acompanhados de Kaká e seu agente, que se chamava Nicholas. O hotel Plaza tinha reservado a parte VIP inteira do restaurante, garantindo privacidade para que o encontro ocorresse sem interferências externas.

O chefe estava próximo à mesa, fazendo os pratos com seus ajudantes numa espécie de cozinha móvel e os garçons atendiam apenas a mesa deles. Lá fora, os jornalistas se amontoavam na entrada do prédio, ansiosos por noticias.

O brasileiro sentia seu estômago revirando-se de nervoso, mas colocou um sorriso no rosto e respondia as perguntas dos dirigentes, enquanto beliscava coisas no prato.

-E como vai o coração, Kaká? –um dos dirigentes perguntou em espanhol, seu nome era Alberto. –Namorando alguém no momento?

-Já namorei algumas meninas, mas agora estou focado na profissão. –ele respondeu sincero, sem sotaque. –A vida útil de um jogador é muito curta, então quero aproveitar o máximo que puder e deixar minha marca no futebol.

Alberto acenou em aprovação, deixando Kaká um pouco mais calmo. Ele era um dos dirigentes mais influentes do time, além de sempre ser o que fazia perguntas sobre outras coisas além do futebol. Alguns minutos passaram-se e de repente, todos viraram a cabeça em uma única direção, as conversas pararam. O jogador seguiu o fluxo e viu que Cristiano entrava na parte VIP.

Também estava acompanhado de seu agente, sua postura demonstrava confiança e ele simplesmente dominou o momento. O português parecia muito à vontade, o cabelo estilizado como sempre, vestindo camisa social branca com os dois primeiros botões abertos e terno preto. Kaká respirou fundo e sentiu que afundou na cadeira.

Ok, ele não conseguia ser daquele jeito. Ainda era meio tímido e ficava nervoso com certas situações. Claro que no campo era uma realidade totalmente diferente, mas fora de lá ainda se sentia como um adolescente perdido.

Cristiano cumprimentou a todos e pediu desculpas pela demora devido ao trânsito. Sentou-se ao lado de Kaká e sorriu para o brasileiro, parecendo um pouco surpreso com a sua presença.

-Nosso clube tem muito interesse em contratar os dois. Sabemos que vocês já tiveram alguns problemas com rivalidade antes, mas esperamos que isso esteja superado. –Alberto disse, encarando os dois.

-É apenas o fervor do jogo... –Cristiano disse em um espanhol carregado, trocando olhares rápidos com Kaká. –Mas se tivermos que ficar na mesma equipe, que assim seja. Somos profissionais acima de tudo.

-Com certeza. Acho que até essa contratação dupla pode trazer algo inovador pro Real Madrid. –o outro completou o raciocínio.

-Ótimo! Vamos então começar com a papelada... –Alberto fez um sinal com a mão.

Segundos depois, os jogadores já tinham assinado os contratos e pousado pra fotos juntos. Os agentes conversavam com a diretora e resolviam detalhes de quando iriam começar os treinos e coisas parecidas, quando Cristiano aproximou-se de Kaká.

-Quero que saibas que realmente espero que isso dê certo. –falou baixo, em português. –Esta é uma nova oportunidade pra mim e muito importante pra minha carreira, entendestes?

-Não precisa continuar com esse discurso entre nós, Cristiano Ronaldo. –Kaká respondeu no mesmo tom baixo, olhando ao redor. –Vamos simplesmente nos manter cada um em seu lado do campo, não atrapalhando o outro.

-Mas quem disse que estou a mentir? –ele levantou as sobrancelhas, parecendo surpreso e ligeiramente ofendido. –Como te faleis na última vez em que nos encontramos, tu jogas muito bem e gostei de tê-lo como adversário. Tê-lo na equipe vai ser melhor, não concordas?

O brasileiro sentia-se estressado e um pouco incomodado com a situação. Conhecia de perto o potencial daquele homem que estava à sua frente e sabia que era melhor tê-lo ao seu favor do que contra. Fora que essa atitude do Cristiano realmente o deixou perplexo, não esperava nada parecido. Até então sua postura sempre foi meio narcisista e superior...

-Ok, desculpe a grosseria. –fechou os olhos, passando a mão no rosto. –Estou um pouco estressado.

-Acho que começamos de maneira errada. –Cristiano sorriu de lado. –Podemos consertar isso, o que achas?

-Acho uma boa idéi...

Antes que Kaká pudesse terminar sua frase, Nicholas aproximou-se.

-Desculpe interromper, mas precisamos ir, Ricardo. –ele fez um gesto com a mão. –Precisamos acertar os detalhes da sua mudança de Milão pra Madrid. Afinal, vocês dois começam a jogar na próxima temporada, ou seja, daqui a um mês.

-Que tal deixarmos pra acertar tudo quando chegarmos em Madrid? –Kaká perguntou para o português.

-Por mim está ótimo. Nos vemos em um mês, gajo. –Cristiano afastou-se.

(...)

Cristiano limpou o suor que escorria pelo seu rosto. Finalmente sua casa estava pronta e agora acertava os últimos detalhes. Claro que tinha empregados para ajudá-lo, mas tinha certas coisas que preferia fazer sozinho, como por exemplo, organizar seus livros na estante e instalar seus eletrônicos.

Claro que quase ninguém conhece esse seu lado, mas ninguém precisa ficar sabendo. O que os outros tem que conhecer é o Cristiano Ronaldo jogador, artilheiro, mito no campo. Agora, aquele lado que gosta de comer comida da mãe, de ler um livro quando está de folga ou jogar videogame, que ainda sente saudades do pai, que se sente solitário mesmo com todo o dinheiro e fama, ninguém vai conhecer, é pessoal.

Sorriu ao ver que seu trabalho estava concluído. Tomou um longo banho e se arrumou para sair, afinal a noite é uma criança e ele precisava conhecer os lugares mais badalados de Madrid. Depois de escolher um visual esporte fino, entrou na sua Lamborghini preta e dirigiu rapidamente pelas ruas até um famoso restaurante.

Lá ele comer alguma coisa e partiu para uma balada. Óbvio que os paparazzi ficaram em cima, registrando cada momento. E óbvio que ele gostava de ser o centro das atenções de vez em quando.

(...)

Kaká bebeu um gole de café, enquanto lia uma revista. Estava muito cansado, ainda não tinha se acostumado com a mudança de fuso horário. Sua nova casa já estava toda arrumada e não sabia o que fazer exatamente.

Largou a revista aberta e atravessou cozinha, indo para a sala. Deitou no sofá, apoiando a xícara na mesinha de centro. Ligou a tv e ficou zapeando pelos canais até que sono aos poucos foi chegando.

Sonhou que estava jogando pelo Real Madrid, era o jogo de estréia e o estádio estava lotado. Estava indo muito bem, conseguindo fazer grandes passes, até que de repente Cristiano apareceu na sua frente e atrapalhou seu lance.

-Tu nunca serás melhor que eu e sempre ficarás em segundo.

Então todos começaram a rir dele, até mesmo seus companheiros de time e a torcida. Acordou assustado e com a tv com som alto. Kaká respirou fundo e desligou o aparelho. Esse nervosismo de estréia o estava consumindo.