Chapter 35:

- Russell Crowe? - perguntou a sua vez Narcisa, olhando-lhe interrogante.

- Sim, esse. Saiu no jornal. - aclarou Harry, olhando uma vez mais a foto do sujeito em questão.

- É um auror, Harry. - disse James, com falsa voz acalmada. Harry olhou-lhe com o cenho franzido num gesto de concentração, antes de baixar outra vez o olhar ao papel.

Harry deixou o jornal em seu lugar, e levantando com uma força que não sentia, atirou para acima da mão de Draco, enquanto lhe tendia a outra a Theodore. Ambos rapazes lhe seguiram estranhados, e com o rosto sério, Harry se despediu dos adultos, saindo da habitação e fechando a porta atrás de si.

Com determinação, Harry caminhou até seu dormitório, e deixou passar aos dois Slytherin, que lhe olharam inseguros, antes de lhe perguntar:

- Que passa, Harry? - com a digna selvageria de um leão, Harry enfrentou-lhes a ambos, antes de sentar em sua cama e dizer num sussurro:

- Deveríamos fazer algo.

- Algo? - repetiu Nott, interrogante. Harry assentiu fervorosamente com a cabeça, dantes de explicar:

- O pai de Draco poderia estar em problemas graves. E seguro que esse tio, esse tal Crowe, poderia fazer algo por nós.

- Que estás a propor, Harry? - inquiriu Draco, olhando-lhe com firmeza. Fazendo espalhafato com as mãos, Harry seguiu explicando baixinho:

- Em fazer-lhe uma visita. Extorquir, ou ameaçar-lhe, ou subornar ou… Não sei, algo pelo estilo. - Theo levantou as sobrancelhas, surpreendido por sua proposta, que, para ser sinceros, esperava, enquanto Draco lhe olhava com marcada gratidão. Após ver o intercâmbio de olhares entre o par, Nott decidiu romper o esmagador silêncio com algo de lógica fria:

- Mas…

- Vamos, somos comensais, garotos. Não é isto o que fazemos? - tentou incentivar lhes Harry, e Theodore voltou a repetir:

- Mas…

- Somos três contra um, Theodore, e lhe acrescenta o fator surpresa. Ganhamos! - interrompeu por segunda vez Harry, e Nott franziu o cenho, enquanto cortava em seco:

- Querem escutar-me um momento os dois? - no ato seus dois amigos calaram-se, olhando com uma mistura de surpresa e estranheza. Porque Theodore Nott nunca gritava. - Olhem, pode parecer todo o bonito que querem, mas abram os olhos de uma vez: esse tio é o chefe da secção dos Anjos da Justiça. Encontraram com um de seus colegas, e ao final os tiveram que salvar… Não acho que seja boa ideia ir à boca do lobo voluntariamente.

- Não pode comparar, Theo. Em Aylesbury tomou-nos por surpresa; ademais já estávamos exaustos pelo que tínhamos tido que fazer. - numa atitude puramente Slytherin, Nott alçou as sobrancelhas, olhando-lhe com autêntica incredulidade, e Harry franziu o cenho, enquanto seus olhos batiam-se num duelo silencioso. Duelo que pareceu ganhar Harry, porque o castanho alçou os braços em sinal de rendição, antes de dizer com voz resignada:

- Certo, façam o que queiram, mas eu não os acompanho.

- Theo… - chamou Draco a seu amigo, que lhe tinha dado as costas. Talvez o tom não fosse autêntica súplica, mas o conteúdo e o ar que lhe inferia sim o eram, e Nott virou, lhe olhando com determinação e frialdade. - Vamos, sabe que te precisamos…

Harry ficou pensativo por uns instantes; que tinha Nott que lhe fazia imprescindível? Por que sentia essa vontade incontroladas de chamar a atenção de Draco, de sentir que essas palavras iam dirigidas a ele? O moreno franziu o cenho, mas aguentou-se a vontade de intervir, sabendo que aquilo era coisa de amigos.

- Só por desta vez, Draco. - acedeu finalmente Theodore num sussurro, antes de ir do quarto, alegando cansaço. Sem que o loiro o notasse, o olhar verdosa de Harry e a gelada e fria de Theodore se cruzaram, e Potter observou com perplexa alegria o sinal que Theo lhe fazia, assinalando a seu companheiro. Sorriu levissimamente, reconhecendo a mensagem, e deixou que se fosse, fechando a porta por fora.

Observou como os ombros de Draco se afundavam, seu queixo baixava e se sentava na borda da cama, com ar abatido. Pensar no simples fato de que seu pai podia estar no cárcere fez que Harry se estremecesse, e apesar disso, se sentou ao lado do loiro, deixando que este passasse seu braço acima de seu ombro. Estreitou lhe contra si mesmo, enquanto a máscara altiva e orgulhosa do rapaz caía em pedaços, deixando ver seu verdadeiro rosto: uma cara pintada com tristeza, angústia, desespero.

E Harry soube o porquê de sua aparente inexpressividade na salinha de estar na que tinham aparecido. Sua mãe estava histérica pelo incerto futuro de seu marido, pelo que podia passar com seu sobrenome, sua fortuna, suas posses, sua reputação e por todo o que dirão, seguramente, e que Draco mostrasse seu nervosismo, sua incerteza por seu futuro e seu medo pelo de seu pai somente pioraria as coisas.

O resto do dia passaram-no juntos, tombados na cama de Harry, abraçados. Após todo o ocorrido até esse momento, Harry tentava assimilar o que tinha passado nesse curto espaço de tempo. Em matéria de minutos, os aurores tinham assaltado a moradia dos Malfoy, tinha-se inteirado de que seu pai e o de Draco estavam a ser investigados, e já tinha traçado um plano para conseguir os tirar dali, um plano que incluía visitas a aurores.

Harry sentia um estranho vazio no coração, que associava à tensão que lhe produzia saber que seu pai estava, provavelmente, em alguma sala de interrogatórios, prestando declaração. Moveu-se um pouco, acomodando a cabeça no varonil peito de Draco, enquanto pensava no estranho que se lhe fazia não saber se teria mais classes de Oclumência.

Pensar no pouco tempo que tinha demorado em se voltar dependente de seus pais, como qualquer outro garoto de sua idade, lhe surpreendia ainda. E pensar na forma em que se sentia nesse momento, sabendo que um dos dois podia não voltar, lhe surpreendia ainda mais.