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Título: O recluso

Sumário: Bella, uma recém-formada da Universidade de Washington, se vê sozinha e desorientada ao sair da faculdade e perder seu pai. Uma oportunidade surge para trabalhar como governanta na casa de um misterioso homem em Port Angeles.

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Recluso:

Pessoa que espontaneamente se isolou do convívio social.

(Dicionário UOL)

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Capítulo 5

Abril de 2016

BPOV

Olho para o relógio na parede e mexo meus pés inquietos no chão da sala. Já passam das 18 horas e ele ainda não voltou pra casa. O jantar já está quase pronto. Ele geralmente chega mais cedo quando tem alguma reunião fora de casa.

Trinta minutos mais tarde ele finalmente entra pela porta da frente. Eu noto sua aparência: não está impecável como sempre. As mangas da camisa social estão enroladas até o cotovelo, ele tirou o paletó e a gravata. E o seu cabelo. Deus, eu tive que espremer minhas pernas juntas agora. Ao invés da mais perfeita ordem, as pontas do cabelo estão em várias direções, numa bagunça sexy.

Ele parece cansado, eu reparo quando nossos olhos se encontram.

"Isabella, desculpe a demora. A minha reunião não foi o que eu esperava e demorou demais". Embora eu perceba exasperação em seu tom, seu olhar transmite suas desculpas.

"Não tem problema, Sr. Masen", eu falo. "Está tudo bem? Você parece cansado", eu comento e imediatamente me arrependo. Ele pode achar que ultrapassei o limite.

Ele me observa atentamente e acena. "Foi um encontro...desgastante, mas acabou tudo bem".

Eu aceno.

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Após o jantar, nós nos encontramos em seu escritório.

"Fique a vontade", ele gesticula para uma poltrona em frente à sua mesa. Ele se senta do lado oposto. Ele tomou banho e agora veste roupas mais casuais: uma calça jeans escura e uma camisa polo branca.

"Hoje faz um mês que você começou a trabalhar. Veja se está tudo certo", ele me entrega um papal. É um tipo de demonstrativo dos meus dias de trabalho e o comprovante de transferência do pagamento para minha conta.

"O valor é um pouco maior do que nós combinamos", eu observo.

"O valor a mais se refere às horas a mais que você trabalhou. Em dias como hoje, que está aqui até mais tarde".

Eu abro a boca pra discordar, mas ele me silencia.

"É assim que eu sempre fiz com a Sra. Clearwater. Além disso, você se supera a cada dia", um minúsculo sorriso aparece na sua face. "A sua culinária é muito mais do que eu esperava. Só isso já vale o seu pagamento, acredite".

Eu mordo meu lábio nervosamente pelo elogio. Eu gosto do fato de que ele aprecia meus dotes culinários.

Ele limpa a garganta e fala mais uma vez, olhando para sua mesa.

"Eu acho que você pode ficar com a suíte bege. Acredito que ela vai te atender perfeitamente", ele afirma tranquilamente.

O que? Ficar com o quarto?

Ele percebendo minha expressão confusa. "Oh. Você não está pensando em ficar? Eu achei que você queria...", suas palavras morrem antes de concluir o pensamento.

"Sim...Não...Quer dizer, eu quero ficar...no emprego, é o que eu quero dizer. Se o senhor está satisfeito comigo, eu quero continuar trabalhando aqui. Eu não havia decidido sobre morar aqui, no entanto".

"Entendo", ele fala meio carrancudo. "Eu assumi demais, me perdoe".

Meu peito dói ao vê-lo assim e as palavras me escapam sem um segundo pensamento.

"Não. Tudo bem. Eu...eu acho que será melhor se eu vier morar aqui".

Sério, Bella? Como você sabe? E se as coisas não derem certo? Você não terá pra onde ir!

"Tem certeza?"

"Sim. Eu tenho certeza". Não. Eu não sei se é a melhor opção.

Ele sorri ou quase isso, mas parece satisfeito. Eu sorrio verdadeiramente por isso.

"Se você não gostar de algo no quarto ou precisar de qualquer coisa, me avise que eu providenciarei. E sinta-se a vontade em toda a casa, você pode utilizar a biblioteca, a piscina...tudo".

Sobrecarregada pela rapidez dos acontecimentos, eu apenas aceno.

"Você vai precisar de ajuda com sua mudança? Eu posso contratar uma empresa e eles se encarregam de tudo", ele me olha com expectativa.

"Huh, eu acho que não há necessidade, já que eu não vou precisar trazer móveis e coisas grandes. Aliás, eu precisarei de uma empresa pra transferir tudo o que tenho para algum box de aluguel".

"Claro. Eu conheço uma empresa de confiança. Só me avise o dia e eu acerto tudo com eles".

Eu aceno, sem saber o que dizer e sem entender este homem na minha frente. Ele está tão solicito e pronto para facilitar a minha vida.

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Uma semana depois eu já estou instalada em meu novo lar. Trazer minhas coisas pra cá foi muito fácil. Durante a semana eu encaixotei o que iria ficar guardado no box e a empresa que o Sr. Masen contratou se encarregou de desmontar os móveis e levar tudo.

Então, eu entreguei a casa do meu pai. Eu não me deixo pensar muito sobre isso, não quero ficar triste e lamentar o que já passou.

O meu novo quarto é enorme, mais do que o dobro do antigo, na casa de Charlie. Há uma TV enorme, aparelho de DVD e um notebook a minha disposição. Os móveis são lindos, a cama é a mais confortável que eu já senti e tudo está na mais perfeita harmonia.

Quando eu contei pra Rose que viria morar aqui, ela quase teve um ataque.

"Bella, eu ainda acho muito cedo. Você não o conhece direito. Ele pode ter intenções obscuras", ela parece indignada ao telefone. "Você disse que o salário é bom. Dá pra você pagar por algum lugar só seu".

"Rose, ele não tem nenhuma intenção por trás disso não", eu defendo. "Morar lá era uma opção para qualquer um, estava descrito na vaga antes mesmo que de me candidatar", eu explico.

"Além do mais, já deu pra perceber que ele não é uma má pessoa. E eu conhecia a irmã dele. Alice. Ela é um amor", eu sorrio ao lembrar dela. "Não há nenhum perigo".

Então, aqui estou. Em meu novo lar. Como esperado, eu ainda não me sinto completamente à vontade. Acho que vai demorar um pouquinho. O Sr. Masen já me perguntou várias vezes se eu preciso de algo mais, se estou bem acomodada e me diz que tenho trânsito livre em toda a casa, o tempo todo. Fora isso, ele continua reservado como sempre e nós almoçamos juntos apenas mais duas vezes.

As próximas três semanas se passam muito rapidamente. Eu estou mais adaptada e confortável aqui. Em relação ao meu patrão, nada mudou. Alguns dias ele parece estar em um humor melhor, se exercita na piscina e se mostra mais presente pela casa. Mas em outros, ele quase não sai do escritório e quando o faz, sua expressão é carrancuda e triste.

Eu vi Alice apenas mais uma vez. Ele apareceu de surpresa – pelo menos pra mim – um sábado à tarde e ficou pouco tempo. Nenhum outro membro da família ou amigo veio visitá-lo. Eu me pego cada vez mais curiosa e inconformada com isso. Não é possível que ele não tenha amigos! E seus pais? Por que não o visitam?

Eu me sinto triste por ele, entendendo agora o porquê a Sra. Cope o chamou de recluso. Recordo de Alice dizer que ele não gosta muito de interagir com pessoas, mas eu pensei que seria diferente com a família.

Ele é do tipo silencioso, não se preocupa em conversar e falar qualquer coisa apenas para preencher o silêncio. Eu entendo e aceito o jeito dele. Agora já somos capazes de estar no mesmo quarto em silêncio e eu não fico tão desconfortável. Lembro de uma noite, há cerca de uma semana. Eu estava na sala de estar, assistindo a um filme e ele desceu de seu quarto e se sentou lá. Aos poucos, após o filme acabar, nós começamos a conversar. Ele quis saber mais sobre Rose e Ang, eu acabei contando um pouco sobre a situação do meu pai e da casa. Ele pareceu genuinamente preocupado e triste pela minha perda. E indignado pelo abandono da minha mãe quando era criança.

Foi a única vez, também, que ele disse algo sobre sua família.

"Eu sei como é ter um dos pais que não nos amam como deveriam", ele sussurra com um olhar distante. "E perder alguém".

Ele fala por experiência própria, eu percebo.

Eu quero consolá-lo e perguntar mais, mas me contenho. Ainda não temos tanta intimidade e não quero que ele se afaste. Eu apenas concordo e nós mudamos a conversa para um tópico mais agradável.

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Maio de 2016

"Isabella, quando você puder, venha ao meu escritório", o Sr. Masen fala ao me encontrar na cozinha.

"Claro. Vou apenas limpar as mãos".

Ele acena e eu o procuro alguns minutos depois. Bato na porta e entro.

"Sente-se", ele diz, como todas as vezes que nos encontramos aqui. "Eu preciso fazer uma viagem que não estava programada", ele suspira.

Eu sei bem como ele detesta sair da rotina e da sua programação antecipadamente definida.

"Ficarei em Boston por cinco dias. Preciso que você reserve um hotel e compre as passagens", ele continua. "O voo de ida eu preciso para amanhã à tarde".

Nós acertamos todos os detalhes do que preciso resolver e ele me dispensa.

Cinco dias!

Já tem algumas semanas que ele não viaja e das últimas vezes durou um ou dois dias. Agora eu ficarei cinco dias sozinha nessa casa.

A questão não é medo de ficar só. Eu já morei sozinha antes.

Eu ficarei cinco dias sem vê-lo. Eu não gosto disso.

Acho que estou acostumada ao vê-lo todos os dias. É só isso, eu repito na minha cabeça.

Mas no fundo, eu desconfio que seja mais. Tenho lutado contra uma atração crescente por ele. Eu passo os dias desejando que ele desça do quarto ou saia do seu escritório para que eu possa vê-lo, para conversarmos - mesmo que por poucos instantes. Ele ainda me faz perguntas pessoais como nas primeiras semanas: pergunta dos meus amigos, da minha família e sobre coisas mais superficiais. Eu adoro esses momentos. Não sei se estou me enganando, mas sinto como se de alguma forma, minha vida tem algum interesse pra ele. E eu quero que ele me note, pois eu não consigo tirá-lo da minha mente.

É impossível mesmo não pensar nele, garota! Afinal, vocês moram sob o mesmo teto. Você o vê todos os dias!, eu falo comigo mesma.

Eu quero lutar contra essa atração, pois sei que nada pode acontecer entre nós. Afinal, ele é meu patrão. Ademais, eu duvido que ele tem algum interesse romântico ou sexual em minha direção. Ele é lindo, rico e mais velho. Pode ter a mulher que desejar. Esse pensamento faz meu peito apertar.

Eu levo minhas mãos ao rosto e quero me estapear. Eu tenho que esquecer isso. Não devo pensar nele.

Volto para a cozinha para terminar o almoço antes de planejar a viagem dele.

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No dia seguinte, com toda a viagem já programada, eu chamo um táxi para buscá-lo em casa. Eu me ofereci para levá-lo ao aeroporto, mas ele recusou sem justificar. Não sei o motivo. Será que ele não confia em andar no carro comigo dirigindo? É a única explicação que eu vejo.

Estamos em silêncio na sala esperando o carro e eu me sinto agitada por dentro. Quero abraçá-lo e dizer que vou sentir falta dele. Mas eu não posso fazer isso. Eu não posso tocá-lo. Além do apeto de mão no dia em que nos conhecemos, houve poucos toques entre nós. Outros apertos de mão e um ou dois esbarrões. O mesmo choque da primeira vez, aconteceu nas demais ocasiões.

Uma buzina soa lá fora e ele se prepara para sair com as malas. Antes de sair pela porta, ele vira para me olhar.

"Se precisar de algo, entre em contato por celular ou e-mail", ele instrui mais uma vez.

"Eu sei", eu respondo. "Tenha uma ótima viagem, Edward", eu acrescento, dizendo seu nome de batismo pela primeira vez.

Ele me fita intensamente.

Eu espero para ele falar qualquer coisa. Me dizer para não chamá-lo de Edward ou qualquer coisa.

Depois do que parece uma eternidade, ele fala.

"Cuide-se, Bella".

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Hum, as coisas estão começando a progredir...

Respondendo a alguns comentários anônimos:

Vai ter capítulo sob o ponto de vista do Edward?

Sim, mas não agora.

Qual a frequência de postagem dos capítulos?

Não posto em dias fixos, mas são dois ou três capítulos por semana :)

Desculpem pelos errinhos e muito obrigada por comentarem e por seguirem essa fic! Esse retorno de vocês é demais!

Bjos e até mais.

T. Darcy