Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
Um ENORME abraço para DW03 (ah, dá uma chance pra natureza! Tudo bem, pernilongos são seresm do inferno... Mas o Duo tem a desculpa de ter nascido nas colônias XD); Jubs-AF (o marshmallow de barrinhas de cereal foi meio bizarro mesmo... e não se desespere, todas as suas perguntas serão respondidas! Lentamente... mas serão.); Lis Martins (sua fic preferida está de volta! Obrigada por todos os comentários nas outras fics também!). Um beijão a todas as leitoras e espero que continuem gostando das intrigas e reviravoltas de:
Campo de Treinamento
Capítulo Dezoito: Confissões e Entendimento
A manhã de sábado começou tensa. Duo meticulosamente evitava Trowa, enquanto este se mantinha tipicamente silencioso e introvertido. Heero não forçou o acrobata a se desculpar logo, mas lhe deu tempo para formular sua aproximação.
Foi apenas no jogo semanal que Trowa finalmente tomou coragem.
Duo e Quatre rebatiam, e Heero arremessava quase perfeitamente quando o rapaz do circo chegou.
"Hei, Quatre… posso falar com Duo em particular?" perguntou baixinho, olhos obscurecidos pela franja.
Quatre sorriu, capaz de sentir a sinceridade de imediato. "Claro, Trowa. "Vou ficar com o time do Jason." Duo o apresentara para seus amigos, para que se enturmassem. Ficaria confortável com eles para dar tempo a sós para seus amigos.
Duo não ergueu o olhar quando o mais alto se sentou ao seu lado. Apoiava o queixo nos joelhos e o braço circundava as pernas.
Trowa respirou fundo. "É melhor eu falar logo. Desculpe Duo. Falei coisas ontem que não queria."
"Como eu deveria saber disso?" Duo se indispôs, ainda irritado pelas acusações. "Mal te conheço, Barton."
"Igualmente," o outro rebateu.
Duo o lançou um olhar sombrio. "Não sou do tipo silencioso, Trowa. Tenho a tendência de deixar minha personalidade correr solta. Você sabe que tipo de pessoa sou."
"É, eu sei."
"E sabe muito bem que nunca mataria ninguém."
Trowa assentiu.
"Mas você... sei quase nada sobre você," o rapaz de trança ressaltou. "Você não se abre."
O moreno de olhos verdes suspirou. "Talvez seja hora de compartilhar." Ajeitou-se, colocando os braços para trás e apoiando-se neles, as pernas esticadas. Talvez se Duo soubesse por que Nanashi era tão importante para si, entenderia o apego. "A razão por eu estar aqui, nesse acampamento, é porque eu ataque um policial. Mandei-o para o hospital."
Duo o observou com curiosidade, percebendo ter mais por trás.
Trowa suspirou. Não falara tanto há eras... provavelmente desde a caminhada com Quatre na semana passada. "Não quer saber por quê?"
Duo deu de ombros, abrindo um pequeno sorriso atrevido. "Era um tira... me parece razão suficiente... mas, por favor, continue."
Trowa relaxou um pouco, percebendo um começo de aceitação. "Um dos leões fugiu. Fui atrás dele... era bem velhinho, sem dente... quase cego. Um dos novatos tinha deixado a porta da jaula aberta quando foi lavar as tigelas." parou para respirar com calma. Mesmo com o rosto escondido pelo cabelo, a dor era óbvia. "Triton se afastou o bastante para alguém chamar a polícia. Cheguei nele primeiro e estava prestes a colocar a coleira quando esse oficial babaca..."
"Oh, que droga," Duo comentou rapidamente, já ciente para onde iria esta história.
"Ele me mandou sair do caminho e eu pedia para ele parar. Ele foi em frente e atirou em um velho animal inofensivo," a voz estava repleta de amargura. "Descarregou o cartucho nele."
"Ah, meu Deus, Tro'. Que horror," Duo se simpatizou tristemente, colocando uma mão no ombro do outro sem pensar duas vezes.
"É... eu perdi a cabeça," deu de ombros. "Ataquei o policial e todo mundo que tentava me tirar de cima dele." Ergueu o rosto revelando olhos assombrados. "Falei pra ele que o leão não era ameaça... que o tinha sob controle. Mas aquele covarde maldito o matou do mesmo jeito."
"Por isso ficou bravo sobre o cachorro ferido no pescoço," Duo entendeu, balançando a cabeça e deixando o braço ao redor do companheiro cair. "Você é mesmo maluco por animais, não é?"
"Não gosto de ver criaturas indefesas serem mal tratadas ou abusadas," Trowa explicou. "Não merecem isso. Eles deveriam poder confiar em seus treinadores, não é verdade?"
Duo sorriu de modo tranqüilizador. "É, deveriam. Eu também gosto do Nanashi, Tro'. É um bom cachorro."
"Agora entende porque não quero irritar o Diretor e perder o privilégio do canil?"
"Entendo sim," assegurou. "Mas você precisa entender porque não posso baixar a guarda com o K."
"Entendo." Trowa franziu o cenho, dando-se conta de que Heero os observava do campo. "Talvez fosse melhor se você não fosse mais para o canil..."
Não me parece justo," Duo contrariou.
"Eu sei, mas ajudaria a manter você e o K afastados."
"Olha, Tro', K já tentou fazer o Quatre me espionar por ele... para ter informações que pudesse usar contra mim e me mandar para a cadeia. Como sabe que ele não fará o mesmo com você?"
Trowa deu de ombros. "Eu diria 'não' mesmo. Então, que diferença faz?"
Duo respirou profundamente, frustrado, e uma idéia surgiu. "A diferença, acredite ou não, é que uma palavra sua pode me mandar de volta para L2. Mesmo se você mentisse, K usaria isso contra mim." Falou francamente. "Não gosto de ninguém tendo tal poder sobre mim." Sem sombra de dúvida, já que lhe dava nos nervos ter Heero com tal influência em sua vida. "Se quer que eu não me incomode com você sendo amiguinho do Kushrenada, tem que me retribuir de alguma forma."
Trowa esperou com curiosidade.
"Me conte como as drogas foram parar no seu baú."
Os olhos verdes se arregalaram. "Como você-?" Então sua face se contorceu. "enxerido como sempre, heim, Maxwell?"
"Não me passe sermão, Tro'. Heero já fez mais do que o suficiente. Eu estava errado e assumo," admitiu. "Apenas me dê uma resposta direta e estaremos quites."
"Você invadiu minhas coisas e eu tenho que confiar em você?" Trowa questionou com prudência.
"Você é coleguinha do meu pior inimigo," Duo respondeu facilmente.
Touché.
"Consegui com um dos outros internos," confessou. "São para o meu ombro. Distendi a um tempo atrás, numa queda, e todos os exercícios aqui fizeram voltar a doer."
"São só analgésicos?" perguntou, um quê de ceticismo.
"São… mas ilegais." Trowa o encarou diretamente nos olhos. "Se fosse para Kushrenada, conseguiria me mandar para L3 num piscar de olhos."
"Como se eu fosse choramingar pra ele," falou com sarcasmo. "Seu segredo está a salvo comigo, Tro'."
"Era o que precisava? De algo que pudesse usar contra mim?" Trowa questionou com frieza.
"Não... Precisava que confiasse em mim e fosse honesto comigo," respondeu "Ontem me acusou de assassinato."
"E admiti estar errado."
"Só precisava saber se realmente acreditava nisso," afirmou com calma.
"Acredito." Alguns minutos de silêncio se passaram, e então Trowa se voltou para Duo interrogativamente. "Estamos bem agora?"
O jovem de L2 assentiu com um meneio de cabeça. "É Tro', estamos." Olhou para o outro de canto de olho. "Quer apertar as mãos ou coisa do tipo?" sorriu brincalhão.
Trowa suspirou. "Se achar que é necessário."
"Um abraço seria legal, mas acho que vou ter que me contentar," gracejou, erguendo uma mão.
Apertaram as mãos solenemente, e voltaram a assistir ao jogo.
Quatre, tendo assistido o par de sua posição, sorriu. Quando Duo o encontrou, acenou para o loiro se juntar a eles.
"Tudo bem?" perguntou, colocando-se entre os amigos na grama.
"Tudo... estamos bem," Duo confirmou, encostando-se ao ombro do amigo e olhando por cima dos fios loiros para o moreno. "Certo, Tro'?"
Os olhos verdes revezaram entre um e outro e se estreitaram apenas milímetros. "Claro, Maxwell."
Sorrindo com a reação, Duo voltou sua atenção para a partida, deitando-se de barriga para baixo e piscando contra o brilho do sol. Tinha uma perfeita visão de Heero na base de arremesso e, quando o líder ergueu o braço para limpar o suor da testa e a barra da camisa se ergueu revelando um tanquinho sarado, Duo grunhiu deixando a cabeça cair nos braços cruzados. Não era justo Heero ser tão delicioso.
Quatre ouviu e sorriu de leve. "Curtindo o espetáculo?" zombou baixinho.
"Tortura," Duo resmungou com a cara na grama. "Pura tortura."
Heero mantivera parcial atenção em seus colegas de equipe, entre os arremessos, aliviado por parecer terem resolvido as diferenças. Agora se conseguisse fazer Duo ouvir a razão e resolver o seu mal entendido com ele, poderia até conseguir fazer o time trabalhar como uma unidade, ao invés de ter tantas personalidades conflitando. Notou Duo dormindo, aparentemente, com a cabeça aninhada nos braços, e um suave sorriso cruzou seus lábios; se alguém conseguia dormir durante uma partida de baseball, seria Duo.
O jogo acabou bem a tempo do banho, antes do jantar. Quando chegaram ao refeitório, a mesa do time Wing foi aglomerada pelo time Clip, o grupo do Jason. Duo os apresentou, com exceção de Quatre, e os dois times facilmente desenvolveram uma camaradagem.
"Você fez um baita jogasso, Heero," Jason comentou de seu assento, oposto ao moreno de olhos azuis.
Heero o olhou com um grunhido reservado de reconhecimento. "Ben não teve problema em rebater meus arremessos."
O dito cujo sorriu convencido. "É, meu velho jogava na liga profissional, Heero. Praticamente me criei num campo de baseball."
"Dá para ver," Heero respondeu. Olhou de relance para Duo e o viu empurrar a comida em seu prato, alheio. "Algo errado com a sua refeição, Maxwell?"
Duo ergueu o rosto rapidamente. "Não… nada." Percebeu que Jason observava a interação e sua face se avermelhou de leve e baixou o olhar novamente.
"Não pode viver com barras de proteína e biscoitos caninos," Heero sussurrou, com um leve tom de brincadeira.
Dessa vez, quando Duo ergueu o rosto, chocou-se contra profundos olhos azuis. "Eu... eu sei," gaguejou, perguntando-se porque estava sem fôlego de repente.
"Precisa se cuidar melhor," o líder acrescentou, sem pestanejar.
Duo sabia que seu rosto avermelhado estaria visível e desviou o olhar. Tentou zombar. "Cresci nas ruas, Yuy. Tomo conta de mim mesmo há anos."
A resposta de Heero foi interrompida quando um transeunte esbarrou em sua cadeira.
"Opa," ouviu o murmuro sarcástico.
Heero se virou no assento para encontrar olhos acinzentados "Algum problema, Norton?" perguntou de um modo que as pessoas mais perceptivas seriam espertas o suficientes para temer.
O líder do time Facção, Kyle Norton, aparentemente não se enquadrava na categoria de 'pessoas mais perceptivas'. "Sem problema, Yuy, exceto por achar que você fez alguns arremessos ilegais hoje."
"Cada arremesso foi dentro dos regulamentos," respondeu formalmente. "Então do que isso se trata de verdade?"
Kyle deu de ombros exageradamente. "Por que precisa ser sobre alguma coisa? Talvez eu só não goste de você." Seus olhar frio se desviou para Duo. "E eu definitivamente não gosto do seu companheiro bichinha."
Duo se acendeu de ódio, e afastou a cadeira.
"Calma!" Quatre avisou e colocou a mão no ombro do amigo bem a tempo do Diretor Kushrenada aparecer.
O rapaz de trança estava prestes a se erguer e se lançar no valentão, mas o gesto rápido do loiro o salvou de um grande erro.
Kyle escarnou satisfeito. "O quê? Sem resposta, Maxwell? Essa é novidade!"
Heero se levantou lentamente, o movimento preciso se assemelhando ao de um grande felino. "Norton, você tem uma boca grande. E até agora nada que preste saiu dela. Sugiro que continue seu caminho antes que as coisas se tornem... desagradáveis."
"É, Norton," Jason se intrometeu, dando seu apoio e de seu time ao de Heero. "Vá causar problemas em outro lugar."
Kyle se voltou para Jason com malícia. "Claro, Carroll… já sei como você se sente quanto a bichas."
O carcereiro abriu caminho pelo salão e estava perto o suficiente para ouvir. Sua atenção se voltou para o grupo, com curiosidade. "Algum problema?" olhos castanhos se estreitaram para Heero e Kyle.
"Não, senhor," Quatre respondeu rapidamente, sabendo que diplomacia não era o ponto forte de Heero. "Estavam apenas discutindo o jogo de hoje. Foi bem apertado... bem tenso."
Kyle deu de ombros, completamente relaxado ante uma figura de autoridade. "Apenas trocando algumas farpas, senhor. Sabe como é." Sorriu geniosamente.
"Certamente," respondeu Kushrenada. Seu olhar passeou pela mesa, deslizando por Duo sem uma faísca de reconhecimento. "Mantenham a civilidade, rapazes." Observou Kyle voltar para sua própria mesa e seguiu caminho, parando perto de Trowa. "Os treinadores me falaram que você tem jeito com os filhotes," comentou. "Espero que continue indo ao canil sempre que puder."
"Sem dúvida," Trowa falou com firmeza, lançando um olhar rápido, quase como um pedido de desculpas para Duo.
"Bom garoto," o carcereiro ronronou, e se retirou para rondar o refeitório.
Duo soltou um som estrangulado. "Bom garoto? Ele fala com você como se fosse um cachorro, Tro'."
O moreno mais alto não se importou. "É apenas uma expressão, Maxwell." Os olhos verdes encontraram os índigos, e Duo suspirou e deixou de lado. Agora via as razões de Trowa.
"Qual será que era o problema do Kyle?" o rapaz de trança perguntou de repente, virando-se para Heero.
O líder deu de ombros.
"Kyle é um babaca," Jason afirmou.
"Obviamente," Duo resmungou. "Mas eu nem o conheço... qual é a dele?"
"Eu o eliminei três vezes" Heero explicou, sentando-se de frente a seu prato.
O rapaz de cabelos compridos se virou para ele. "Ele é tão mal perdedor?"
"Pelo jeito."
"Mas pra que me colocar no meio?" Duo reclamou. Reservou um olhar preocupado para Jason. "Não tinha razão pra ele te dar um golpe baixo."
"Caramba, Duo… mais de uma pessoa me viu te beijar," Jason declarou com simplicidade. "As pessoas fofocam."
O rapaz de trança corou a menção do beijo, olhando de soslaio para Heero, que metodicamente terminava sua refeição interrompida.
Jason abriu um sorriso provocativo. "Talvez você devesse ter me dado um tapa na cara."
Duo rodou os olhos. "É um pouco tarde demais, Jase."
"Além do mais," Quatre se intrometeu. "Não é da conta do Kyle."
O olhar de Jason vacilou entre Duo e Quatre, um quê de dúvida. O rapaz de trança sorriu e balançou a cabeça. "Quat e eu? Melhores amigos, Jase. Sério."
Trowa o observou atentamente, franzindo o cenho de leve. Duo insistia em nunca mentir. E naquele momento, o nativo de L3 desejou ser verdade.
Enquanto isso, Jason retornou sua atenção para Heero. "E aí, de líder para líder, como acha que estão as chances de ganhar essa competição?"
Heero ergueu o olhar do prato. "Excelentes," proclamou.
"Uau… pense em 'excesso de confiança'..." Duo contrapôs.
O líder do time Wing se virou para ele. "Conhece nossos pontos fortes e fracos quase tão bem quanto eu, Maxwell. Realmente espera que percamos?"
"Bem… não. Mas eu não diria com essas palavras."
"Como então?"
Duo cedeu à pergunta de Jason. "Eu diria que temos uma chance tão boa quanto dos outros times."
Jason riu para si mesmo, observando Duo e Heero. "Vocês vão arrebentar," Levantou-se, pegando sua bandeja e estendendo uma mão para o outro líder. "Deixa que eu levo pra você."
Duo olhou para Jason de modo cortante, a testa franzindo discretamente. Pode tirar o cavalinho da chuva, Jase! É melhor que não esteja flertando por aqui.
Heero entregou sua bandeja e favoreceu o colega com um educado menear de cabeça. "Obrigado, Jason."
E está usando o primeiro nome, inferno.
O rapaz de trança ouviu uma risada do seu lado, onde Quatre tentava abafar o som com a mão. "Que foi?" perguntou emburrado.
O loiro balançou a cabeça. "Nadinha," assegurou ao amigo. Ele se levantou também, recolhendo sua bandeja, reprovando a quantidade de comida deixada de lado por Duo.
O de trança suspirou exageradamente. "É, eu sei, Quat Pare de se preocupar comigo."
Os outros já se afastavam, enquanto os dois amigos foram colocar seus pratos no lugar correspondente.
"Quando vai resolver seu problema?" Quatre perguntou.
"Logo. Prometo. Não posso agüentar muito mais," Duo admitiu.
"Trowa e eu temos visitas amanhã de manhã," o loiro revelou propositalmente. "Talvez fosse um bom momento para conversar com Heero."
Duo empalideceu. "A-amanhã?" gaguejou desconfortável.
"Amanhã."
Agora sabia que não pregaria o olho esta noite.
Quatre e Trowa se preparavam para encontrar suas visitas, Heero sentava-se na frente do computador e Duo se impacientava.
"Maxwell, será que dá para parar de andar de um lado para o outro e ir ler um livro?" o líder rugiu sem desgrudar o olho do monitor.
"Não quero," Duo teimou, continuando a passear inquieto pelo quarto.
Quando Quatre foi para a porta, o rapaz de trança estava ao seu lado no segundo seguinte. "Vou com você e com o Trowa até lá, 'tá?"
"Vamos passar pelo canil primeiro," o loiro respondeu. "Falta quase uma hora antes dos visitantes chegarem."
"Tudo bem, também quero ver o Nanashi," Duo sorriu genuinamente. Voltou-se para Trowa. "Não vou ficar muito, Tro'. E se o K estiver lá, volto na hora."
"Tenha cuidado," Heero pediu, poupado um minuto de sua atenção. "Não vai querer se encontrar com o Kyle ou o Austin no caminho de volta."
"Pelo amor de Deus, Yuy-!"
"Maxwell, você o ouviu ontem. Kyle é problemático. E ele tem três companheiros de time."
"Escoltamos o Duo de volta antes de irmos para o centro de visitas," o loiro prometeu. "Não o deixaremos ir sozinho."
"Argh! Que coisa irritante," o rapaz L2 resmungou, mas não tinha discussão.
Os três saíram para encontrar o sol a caminho do canil. Os passos largos de Trowa o adiantaram dos outros dois e Quatre se aproximou de Duo.. "Você vai conversar com o Heero, não vai?"
"Por aí," respondeu vago. O que ele fará envolverá um pouco mais do que só falar, mas resolverá de uma vez por todas sua dívida... ou era o que esperava.
Quatre o analisou.
"Relaxa, cara Ficarei bem," Duo o assegurou, desejando se sentir tão confiante quanto soava.
Estavam a meio caminho dos canis quando viram Kushrenada na pista de exercícios, e Duo murmurou um xingamento. "Pois é, vou voltar... vejo vocês dois depois."
Trowa o agradeceu com franqueza. "Obrigado, Duo."
"Disponha."
Duo deu meia volta em direção aos alojamentos. Quando chegou até a porta, pousou a mão na maçaneta, respirando fundo. É agora ou nunca...
Entrou no quarto, fechando firmemente a porta atrás de si, trancando-a.
Heero deixou a tela, franzindo o cenho ao notar a expressão séria do jovem de trança. Ergueu uma sobrancelha quando Duo se aproximou silenciosamente, sentando-se na beirada da mesa, empurrando o computador com o quadril.
"Está pedindo para morrer, Maxwell?" ironizou sério.
"Digamos que odeio viver com pendências," respondeu calmamente. Seus olhos índigo encontraram os azuis. "Não consigo agüentar mais esse suspense, Yuy. Não consigo comer... dormir..."
"E o como espera que eu resolva seus problemas?" a pergunta era confusa.
Duo se inclinou, o rosto a meros centímetros do de Heero. "Acaba logo com a minha miséria!" exigiu. "Seja lá qual for sua expectativa - o que quiser - pegue de uma vez!" Começou a desabotoar a camisa.
"O que está fazendo?" Heero questionou, afastando a cadeira e se levantando.
"O que quiser!" Duo exclamou exasperado, jogando os braços para os lados. "Puta que o pariu, Yuy! Me diga logo e me deixe acabar com isso!"
A boca de Heero se abriu, mas não conseguia encontrar algo a dizer.
Duo saiu da mesa, chegando perto, expressão de dúvida. "É sério, Yuy... quer me comer? Ou prefere um boquete? Qual o preço? Falei 'qualquer coisa'. Só não esperava que você fosse esperar o Inferno congelar." Ainda desabotoava a roupa, e quando o último botão foi desfeito, Heero pode vislumbrar o peitoral liso e bronzeado acima do esbelto abdome ligeiramente torneado. Sua garganta secou, e engoliu em seco antes de conseguir proferir qualquer palavra.
"Duo—não!" exaltou-se, forçando-se a desviar o olhar para o rosto do rapaz a sua frente. Sentia a respiração de Duo em seus lábios, e via a raiva primitiva flamejando em seus olhos.
"Que merda, Yuy! Não pode me torturara come essa espera. Faça o que quer ou vá contar para o Diretor que quebrei as regras, e me mande para a prisão de uma vez. Não estou nem aí mais!" A voz de Duo se engasgou na última frase, e Heero sentiu uma pontada de compaixão.
"Não quero te comer, Duo..." Não desse jeito...
"'Então 'tá..." agarrou o cinto de Heero, mas este segurou suas mãos com firmeza.
"Não quero isso também!" Mentiroso.
O rapaz de trança sentiu-se perdido. "Então o quê? Tem que me dizer o que espera de mim!"
"Pra começo de conversa, poderia tentar não estar tão puto comigo," Heero retorquiu, soltando as mãos que segurava. "Não fui eu quem invadi os pertences alheios!"
"Ah 'tá - é porque você é perfeito!" Duo bradou. "Diferente de mim. Eu, por outro lado, sou pego com a boca na botija. Freqüentemente." Esfregou uma mão no rosto, o humor esfriando aos poucos. "Olha, não consigo funcionar assim, sem saber quando você vai exigir seu pagamento. Por favor, faça o que quer de uma vez! Me bata se for o que desejar. Me foda... não me importa." A voz sumia cansada... derrotada.
"Você não entende, Duo," Heero falou tenso. "Eu nunca-." Balançou a cabeça, dividido entre estar com raiva de Duo por pensar que o forçaria a fazer sexo, e tranqüilizar seu companheiro aflito que o respeitava demais para se aproveitar dele.
"Está tudo bem, Yuy," Duo sucumbiu, dando um passo a frente, braços levemente abertos como num convite. "Sinceramente... é melhor você do que a primeira gangue que me encurralar numa cadeia."
Olhos azuis se acenderam. Heero se maravilhou com o quão ignorante Duo estava ao fato de estar cortejando o perigo. "Cacete, que honra, Maxwell," zombou, acobertando seu desconforto com sarcasmo. Segurou Duo novamente pelo braço. "Perdoe-me se não pular nos seus braços depois de uma declaração tão profunda!"
O jovem de L2 tomou uns momentos para piscar, confuso, e seus olhos se estreitaram. "O que esperava?" estranhou. "Você me chantageia e espera que eu morra de amores?" puxou o braço, dando um passo para trás.
"Eu nunca te faria uma coisa dessas, seu imbecil!"
"Não? Não me vi cercado de alternativas, Yuy. E como eu disse, prefiro qualquer coisa à prisão."
"Eu nunca planejei contar nada para o Diretor!" Heero confessou. "Você chegou nessa conclusão sozinho!"
Duo ficou boquiaberto. "Mas você disse-."
"Não disse não!" Heero o interrompeu. "Lembra? Você fez aquela oferta idiota... depois me perguntou se eu achava que você tinha alguma chance na prisão. Falei que você era esperto o suficiente para sobreviver. E por alguma razão você assumiu que eu contaria tudo para o Diretor. E eu falei que não contaria."
"Mas você... tocou meu cabelo... meu rosto..." Duo balbuciou. "Pareceu que você... estava me mostrando o preço pelo seu silêncio."
"Eu estava tentando... te consolar," Heero falou desajeitado. "Você parecia tão desesperado."
"Eu estava," Duo admitiu. Balançou a cabeça. "Mas se não era o que queria dizer, por quê...?" Parou abruptamente, esfregando o rosto. "Que merda, Yuy! Nunca consigo ler sua expressão. Não sei quando está tirando sarro da minha cara ou está sério. Falei que faria qualquer coisa... e você disse 'qualquer coisa' naquele tom sugestivo..." fulminou o outro com o olhar. "Pra quê?"
"Eu estava te zoando," admitiu. "Você estava tão envergonhado por ter sigo pego me chamando de 'pedaço de mau caminho' que decidi tirar onda as suas custas. Acho que... estava flertando um pouco também... até perceber que você estava sério. Quando vi que você estava mesmo com medo, me senti... mal. Estava tentando te assegurar que eu não faria nada para te mandar para um lugar que te aterrorizasse. Fui meio incompetente."
Duo fechou os olhos, grunhindo. "Droga. Como pode tudo o que eu faço perto de você ricocheteia em mim, Yuy? Não dá pra ganhar."
"Talvez se você parar de ver tudo como um jogo, não pensará mais em ganhar ou perder," Heero sugeriu.
Duo assentiu com a cabeça, ainda sem conseguir encarar seu companheiro de time. "Então... posso ter certeza de que não vai me dedurar para o Diretor?"
"Pode," o líder concluiu. "E... também... não tem preço pelo meu silêncio."
"'Tá." O rapaz de trança conseguiu soltar uma risada fraca. "Hum... sobre isso... Desculpa se eu te constrangi. Deveria saber que você nunca iria querer..." Calou-se, envergonhado e surpreso com a pontada de desapontamento que sentiu. No fundo, sabia querer que Heero o desejasse - daquele jeito. E era um grande baque para seu ego descobrir estar errado. Uau, 'tá se achando demais, Maxwell! Achou que era irresistível? Bem vindo à realidade.
"Ei, Maxwell," Heero interrompeu o processo mental do outro. "Nunca diga nunca." Deu-lhe as costas antes de Duo conseguir ligar os pontos, e desapareceu dentro do banheiro.
Quando o rapaz de trança percebeu o sentido das palavras... ou pelo menos o que o outro moreno dissera... encarava uma porta fechada.
"Caramba..." Duo estava mais confuso do que nunca. Será que isso queria dizer que Heero estava interessado? Ou estava só tirando onda de novo? O jovem de L2 quase gritou de frustração. E lembrou-se sobre Heero dizer que flertara com ele, fazendo parecer que ele estava enfim interessando no final das contas. Esfregando as têmporas com os nós dos dedos, Duo decidiu parar de pensar por algumas horas. Só piorava sua situação.
Envergonhado como estava por ter se jogado em cima do líder do time Wing, decidiu fazer uma saída discreta antes de Heero voltar. Abotoou a camisa apressadamente e correu para o canil.
Encontrou Quatre esperando sentado num banco debaixo de uma sombra.
"Achei que estivesse no canil."
"Não queria ver Kushrenada tanto quanto você," Quatre admitiu. "Preferi te esperar por aqui. É bem seguro." Com a mão, mostrou um grupo de rapazes, em sua maior parte se dirigindo para o centro de visita, de um lado, ou refeitório, do outro. "Então, resolveu o problema com o Heero?" levantou-se e se espreguiçou.
"Uh, resolvi," Duo respondeu desanimado, passando a mão pela franja.
"E-?"
"E—Passei por idiota como sempre," o jovem de L2 suspirou, acompanhando o passo do amigo. "Foi só um mal entendido."
"Que bom... e agora está resolvido?"
"Está."
O loiro olhou para o rapaz ao seu lado de soslaio. "Como, exatamente, resolveu?"
Duo franziu o cenho. "Por que pergunta?"
"É que seus botões estão um pouco desalinhados," Quatre notou, sorrindo.
"Bosta." Duo apressadamente começou a arrumar a camisa, dessa vez certificando-se de que os botões estavam em suas respectivas casas. "Não pergunte!" rosnou para a expressão questionadora do amigo.
"Não queria mesmo."
Kushrenada não se encontrava no canil e Trowa brincava com Nanashi e Rusty no pátio.
"Hei, como andam as coisas?" Quatre chamou da cerca.
"Como sempre," o acrobata deu de ombros. "Nanashi é um desastre quando se trata de atacar." Sorriu com carinho para o grande cachorro correndo em volta dele em círculos, caçando a cauda de seu irmão. "Ele não consegue ser agressivo."
"Pra mim, 'tá ótimo," Duo comentou, recordando do encontro com os treinadores na floresta. "Quanto mais manso, melhor."
"Por que não vêm aqui ajudar?" Trowa chamou.
O jovem de trança fez uma careta. "Dá última vez que estive no pátio, acabei tendo que limpar excremento."
"Falando nisso," Trowa lembrou. "Tem um cesto e uma pá logo ali. Tenho que recolher o que esses dois deixarem para trás."
"Eu ajudo," Quatre se voluntariou, juntando-se ao outro rapaz com os cães.
Duo suspirou, recostando-se na cerca. "Eu assisto," informou.
"O que estamos assistindo?" uma voz com divertimento perguntou.
O rapaz de trança virou-se abruptamente, corando quando Heero se aproximou. "Estou vendo Tro' e Quat recolhendo caca dos cachorros. Já fiz minha parte da última vez." Ainda não era capaz de encontrar os firmes olhos azuis.
Heero se encostou ao seu lado, também observando os companheiros jogando uma bola de um para o outro, enquanto os cachorros tentavam pegá-la no ar. "Não quero que fique sem graça com o nosso... desentendimento... Duo."
"Tarde demais," murmurou, estudando as brincadeiras com exagero interesse.
"Não é que eu não... que eu não esteja..." Heero se fez parar, percebendo que qualquer coisa a mais poderia admitir seus sentimentos. "Entendo como chegou àquela conclusão," finalizou.
"É... eu tenho um ego do tamanho do mundo," o rapaz de L2 falou amargamente. "Deixa isso quieto, Yuy. Águas passadas."
"Acha que te respeito menos por uma presunção?"
Duo bufou. "Menos? O que é menor do que zero, Yuy?" Ergueu um olhar passageiro. "Nunca me respeitou... como pode me respeitar menos?"
"Você está errado," Heero suspirou. "Te respeito desde a segunda corrida de obstáculos."
"É, acho que não tinha razões antes disso," Duo concedeu. "Fui um completo idiota na primeira vez que nos conhecemos... fiquei bravo com você na segunda e terceira vez... e estraguei tudo nos obstáculos no dia seguinte."
Heero sorriu secamente. "E eu fui um babaca."
"É, você foi," Duo concordou timidamente, recordando o quanto a bronca do líder lhe doera. "Mas talvez você tivesse razão para ser. Acredito que você tenha muito a perder nesse tal 'acampamento'."
"Você também, Maxwell." O moreno de cabelos curtos o analisou. "Não quer uma chance de futuro?"
Duo riu sem humor. "Pelo amor de Deus, Yuy. Sou rato de rua. Nem mil anos nesse campo de treinamento mudarão este fato."
"A Academia mudaria," insinuou.
"Fala dos quatro anos de regras e rotina? Como acha que eu lidaria com isso, hum?"
"Tão bem quanto está lidando com o treinamento... provavelmente melhor. Não é tão restrito quanto pensa. Na Academia, seria livre para ir e vir, fora do horário de aula. Não precisa ficar na base o tempo todo. Teria mais liberdade do que pensa."
"Não tanto quanto teria sozinho."
"Mais," Heero insistiu. "Pense. O quão livre você era sobrevivendo e sofrendo nas ruas? É o que chama de liberdade? É assim que quer passar o resto da vida?"
Duo ponderou por alguns minutos, franzindo a testa. "É só o que sei," quase sussurrou.
"É só o que quer saber?"
Duo olhou para cima de repente, rosto contorcido. "Droga, Heero! Por que me faz esse tipo de pergunta?"
"Que tipo?"
"O tipo que me faz... duvidar..." balançou a cabeça, desviando o olhar. "Do tipo que me faz querer mais do que posso ter."
"Quer dizer, um futuro?" Heero pressionou, pressentindo vitória.
"É, por ai," respondeu sem força.
"Alguém precisava te fazer esse tipo de pergunta há um bom tempo," o líder deu de ombros. "Você precisava se perguntar." Cansado por ter falado mais do que de costume, retirou-se, deixando Duo com seus pensamentos.
"Hei, Heero-!" o jovem de trança chamou.
Olhou por sobre o ombro com ar de dúvida, tendo recuperado sua seriedade.
"Obrigado... por me dar algo pra pensar."
"Hn," Heero respondeu com um raro sorriso, continuando seu caminho para os alojamentos.
Continua...
