Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam


Nota da Tradutora: Não quero tornar as desculpas um hábito, mas a demora nas traduções se devem a vários compromissos e projetos, inclusive uma exposição e outros projetos de tradução. Estou postando material para o blog Escrivonauta e agora estou na equipe do BLScans (chequem se puderem, os dois são muito bacanas!). Não quero entediá-las com explicações do que acontece na minha vida, então, sem mais delongas, apresento outro capítulo da série...:


Campo de Treinamento

Capítulo Vinte e Um: Intensidade Aumentada

O dia seguinte teve um ponto marcante no regime do acampamento. Tendo decidido que os recrutas se dotavam de excesso de energia, o Capitão Chang aumentou seus compromissos. A calistenia da manhã e da tarde foram estendidas para mais meia hora, e a corrida diária subiu de três para quatro quilômetros e meio. Para completar, juntamente com o horário de aula, os rapazes fariam mais escaladas e atividades de sobrevivência.

Wufei pensava ser o melhor modo de efetivamente minimizar as pegadinhas e confrontos físicos. Em seu novo regimento, os rapazes seriam sortudos de ter energia o suficiente para cambalear até suas camas à noite.

A primeira atividade do dia foi escalar um morro usando equipamento padrão militar. E como se não bastasse, os recrutas caminhariam por oito quilômetros para alcançar a parede de pedra.

A manhã se acabava quando os quarenta recrutas e seus supervisores alcançaram o destino. E quando lá chegaram, os soldados que subiram de jipe já haviam montado as cordas de segurança e as âncoras. Faltavam apenas as instruções de preparação, escalada e descida.

Para este exercício, os rapazes não se dividiram em equipes, embora continuassem em seus respectivos grupos por costume. Os times Wing e Clip se mantiveram juntos, assim como outros. Cinco rotas de escalada foram preparadas pelos soldados, para sempre terem cinco internos sendo guiados durante todo o processo.

Com experiência acrobática, Trowa não sentiu dificuldades em dominar a habilidade, escalando com a facilidade e graça de um mico, e deslizando para baixo destemido como uma cabra das montanhas. Seus outros três companheiros, embora menos acostumados, provaram-se pupilos superiores, rapidamente aprendendo como encontrar os melhores apoios para os pés e mãos e usar o terreno para sua vantagem. Quando seu turno terminou, Trowa foi convocado para ajudar os alunos mais lentos, enquanto Heero, Duo e Quatre sentaram-se com o time de Jason, recuperando as forças e assistindo.

Todos terminaram pelo meio da tarde, e caminharam os oito quilômetros de volta até o acampamento, chegando quase atrasados para o banho. E, mesmo as noites de segunda e quarta sendo a vez do time Wing usar a biblioteca, com acesso à internet, preferiram pular e irem direto para o alojamento descansarem mais cedo.

O resto da semana prometia ser igualmente exaustiva, com exercícios de longas caminhadas em terrenos diferenciados, atravessar rios e alpinismo agendados Na terça de manhã, logo antes da calistenia, o Capitão os informou que na semana seguinte teriam a primeira competição time contra time, e esta contaria para a pontuação final.

Sabendo o quão cheios os próximos dias seriam, Trowa planejou escapar na manhã seguinte para o canil ver seu querido Nanashi, caso não encontrasse tempo ao longo da semana. E após ouvir o anúncio de Chang, certamente não encontraria.

O rapaz de franja no rosto sabia que o líder insistiria para não ir sozinho, mas nessa ocasião em particular, tinha um segundo ponto de parada no roteiro; um o qual não queria o conhecimento de Quatre. E por mais que odiasse pedir um favor de Maxwell, ele já sabia de seus analgésicos, portanto não precisaria esconder a compra.

"Hei Maxwell…" Alcançou o companheiro no caminho para o café da manhã e o puxou para o lado o suficiente para conversarem em particular. "Preciso de um favor."

Duo o observou com cautela, depois sorriu. "Desculpe, Barton. Você não faz meu tipo."

"Babaca," Trowa grunhiu. "Só escute dessa vez. Preciso que vá comigo para o canil antes da aula de armas."

O rapaz de L2 hesitou. "Por que eu? Por que não Quat?"

"Não se meta, Maxwell. Só… me ajude," Trowa pediu baixinho... com urgência.

Os olhos de Duo se semicerraram quando entendeu do que se tratava. "Vai fazer uma compra, Barton? Onde? Um dos treinadores é um dos seus fornecedores?"

"Não... mas posso passar por ele na volta."

"Você tem que parar com essa merda," Duo aconselhou. "É viciante."

"Não brinca," respondeu sarcástico. "Por que acha que preciso de mais?" suspirou impaciente. "Se eu parar agora, fico doente por dias. Não vou ser de muita serventia para o time assim."

"E se Chang pedir um teste de drogas aleatório?" Duo criou possibilidades. "Ou uma busca pelos baús?"

"Bem, agora ele não encontraria nada no meu baú," Trowa resmungou. "Olha, meu ombro está um pouco melhor. Vou diminuir a dose e eventualmente parar. Mas vou precisar de pelo menos duas ou três semanas, para fazer devagar."

"É o que todos os viciados dizem," Duo rebateu. Observou seus outros colegas por um momento e voltou-se para Trowa. "Como vai explicar para Quatre que quis ir comigo em vez de ir com ele?"

"Não quer ir ver Nanashi?"

"Claro que quero. Sabe que adoro o vira-lata."

"Então só digo para o Quatre que você quis ir comigo. Sabe que ele vai insistir em ficar com Yuy por segurança."

"E eu devo fazer... o quê? Fazer vista grossa enquanto você compra drogas?" Duo desdenhou. Seus olhos índigos se mostravam desconfiados. "Tem certeza de que Kushrenada não está tentando armar para cima de nós dois?"

"Ele não tem nada com isso," Trowa rebateu com a testa franzida.

"Vamos fazer assim. Vou ver os cachorros com você. Mas vai fazer sua transação longe de mim. E se for pego, não sei de nada. Entendeu?" O rapaz de L2 bateu o pé. "Não vou para a prisão por isso, Barton."

"Juro que não vai," Trowa o assegurou. "Mesmo se eu for pego, você está fora disso."

O de trança deu um rápido suspiro frustrado. "Tudo bem, Barton. Mas se você não largas dessa porcaria... não te deixo chegar perto do Quat. Ele não precisa de alguém tão zuado na vida dele."

Heero e Quatre alcançando a porta do refeitório e esperavam por eles.

"Um pouco super protetor para um melhor amigo, não?" Trowa murmurou, sondando.

"Você nem imagina," Duo avisou. O fundo de seus olhos era assombrado. "Deixa eu te contar um segredo, Barton. Perdi todos com quem me importava na vida, exceto Howard e Hilde... e agora Quatre. Pode apostar que protejo as pessoas que adoro."

"Não vou machucar Quatre."

"Não de propósito." Duo ainda o analisava. "Mas se algo acontecer com você, ele vai sentir." Balançou a cabeça. "E se ele descobrir que eu não te impedi, talvez nunca me perdoe também. Promete mesmo parar com essa merda o quanto antes?"

"Prometo."

"'Tá." O jovem de trança apontou com a cabeça para os outros dois. "Vamos indo. Antes que eles suspeitem." Sorriu malicioso. "Não quero Yuy pensando que estou dando em cima de você."

Trowa o encarou longamente. "Então é nele que está interessado."

"Psh, fala sério..." rebateu com ironia. "Só quero dizer que ele nos encheria o saco se achasse que estamos distraídos da grande 'competição' na semana que vem."

"Conversa," Trowa duvidou, olhos verdes com um brilho de satisfação. "Você gosta de Yuy."

Duo se virou abruptamente, fulminando-o com os olhos. "Quer minha ajuda ou não? Por que está a um passo de eu tem mandar para a puta que te pariu, Barton."

"'Tá bom. 'Tá bom…" o mais alto balançou a cabeça, sem conter um sorriso.


Como combinado, logo após o café da manhã, Duo acompanhou Trowa até o canil. No momento que viu o grande cão pulando alegremente ao vê-los, esqueceu de sua irritação com o outro.

"Hei Nanashi! Bom garoto!" chamou, abrindo os braços quando Trowa abriu a grade. Um monte de pêlos amarronzados se jogou nos braços de Duo, quase o derrubando com o cumprimento efusivo. Rindo em deleite, o rapaz de trança abraçou o pescoço do animal. "Ei, bola de pêlo! Vai com calma."

Até mesmo o estóico rapaz do circo se viu sorrindo a alegria de seu companheiro com o cachorro amigável. "Aw, Duo… você só está piorando," comentou falsamente triste. "Como ele vai se tornar um cão de guarda se você continuar o abraçando assim?"

"Não vai!" Duo concluiu. "Ele vai ficar legal e fofo e nunca atacar inocentes jovens meliantes como nós."

"Mas esse deveria ser o trabalho dele," Trowa lamentou.

"Então ele que fique desempregado," brincou. Sorriu genuinamente para o companheiro. "Fico feliz que tenha me convidado," agradeceu baixinho, grato por Kushrenada não estar por perto.

"Não sei quando teremos outra chance," Trowa suspirou. "Chang vai nos manter ocupados pelo menos pelas próximas duas semanas."

"Ele é nos escraviza, isso sim."

Trowa viu a hora. "Droga. Precisamos ir."

"O quê? Cinco minutos? Chama isso de visita?" Duo protestou.

"Temos uma parada antes de voltarmos para o alojamento."

Lembrando-se da missão secundária de Trowa, Duo se desanimou e fez uma careta para ele.

"É, eu sei," suspirou o rapaz de olhos verdes. "Vou largar. Logo."

Assentindo, Duo abraçou pela última vez Nanashi e o colocou de volta na casinha. "Até mais, vira-lata," falou brincalhão, esperando a reação de Trowa. Mas o outro deixou passar o apelido maldoso.

Ao passarem pelo refeitório, Trowa parou. "Por que não espera naquele banco, na sombra?" sugeriu. "Vou estar logo ali na curva, caso precise de mim. E se for pego, você não estará envolvido. Pode ser?"

"Parece justo," Duo aceitou, sentando-se confortavelmente para esperar. Esforçou-se para não observar para onde Trowa ia nem com quem negociaria. Desse modo, se o perguntassem, poderia honestamente dizer não ter idéia como outro conseguira as drogas. Ao mesmo tempo, sabia estar em cima do muro, entre ser um colega de time leal e um cúmplice. E se Trowa fosse pego, tinha certeza de que ignorar esse acontecimento voltaria para atormentá-lo.

"Vamos, Maxwell." Trowa voltou rápido como prometera, e juntos voltaram para o alojamento, juntando-se aos outros para a próxima aula.


No meio da tarde, os rapazes sentiam os efeitos do segundo dia dos exercícios extras. Por isso, o Tenente Li recebeu um grupo bem abatido em sua aula de artes marciais.

Quando o soldado anunciou que experimentariam luta estilo livre, Duo virou um olhar acusador para Heero. "Foi idéia sua?" sibilou.

O líder deu de ombros, mal se virando para ele. "Posso ter sugerido uma certa variedade da última vez que falei com Chang." Seus olhos azuis brilhavam com divertimento. "Você sabe que quer."

"É, mas se eu acabar quebrando o nariz do Kyle ou do Austin, não quero saber de sermão," murmurou.

"Se o Li tiver metade do cérebro, não vai nos colocar contra nenhum deles," o líder falou despreocupado.

O tenente dividiu o ginásio em quatro "ringues", e cada Cabo vigiava a luta em cada um. Aparentemente, ele tinha pelo menos metade do cérebro, pois os internos lutavam contra os oficiais, mantendo relativamente o controle e ensinando técnicas e manobras durante o treino.

Após meia hora, Capitão Chang apareceu e inspecionou cada um dos ringues.

Quando chegou ao qual Duo lutava contra Cabo Carter, parou, demorando-se mais.

"Li?"

"Sim, senhor?"

"Quem ensinou Maxwell esse movimento que ele acabou de usar?"

O tenente deu de ombros. "Não está na nossa grade curricular, senhor. Acho que ele acabou de inventar." Sorriu de leve.

"E aquele?" Chang perguntou vendo Duo abaixar, evitando um soco de Carter, girando ao redor dele e dar um tapa com as costas da mão na cabeça do adversário o que seria, em um confronto de verdade, um belo golpe back fist.

"De novo, ele parece estar inventando conforme acontece," admitiu o outro oficial.

O Capitão pediu uma pausa, chamando Duo. Olhou o rapaz de baixo para cima. "Estilo interessante, Maxwell… não exatamente de um manual."

"Manual de quem?" Duo sorriu de volta, batendo no uniforme e o alisando em respeito ao oficial.

Wufei se virou para o tenente. "Li? Teria a gentileza de ensinar a Maxwell uma técnica de manual? Uma pequena combinação de kenpo e tae kwon do deve ser eficiente contra seus métodos."

"Sim, sir."

O rapaz de trança pareceu apreensivo, observando o tenente subir no tatame. "Fiz algo errado?"

"De modo algum. Só vou demonstrar o que poderia fazer com alguns movimentos mais convencionais." Inclinou-se em uma educada vênia e flexionou ou joelhos, circulando cuidadosamente.

Duo copiou os movimentos, esperando uma brecha.

O militar finalmente tomou a ofensiva com uma série de ataques e chutes com a intenção de desequilibrar seu oponente.

Duo defendeu e desviou com graça e velocidade felinas, e contra-atacou com um gancho que por pouco não acertou o rosto de Li.

Circundaram-se novamente, e Li mudou de estilo de ataque, tentando se aproximar. Duo se afastou e, com um sorriso feroz, abaixou e se aproximou, praticamente se entregando ao adversário.

Mas quando Li o agarrou, Duo rodou para o lado, jogando a cabeça para acertar a cara do oficial, jogando-o para trás cambaleando. Com rápidos reflexos, Li se esquivou do que seria um chute fatal, e agarrou a perna de Duo. O rapaz instantaneamente girou a cabeça com força para sua trança acertar Li no rosto e caiu no chão de costas, puxando um surpreso Li com ele. Seu pé livre posicionou-se na virilha de Li e o impulsionou para o alto, jogando-o para trás, por cima da cabeça de Duo, e espatifou-se de costas no tatame.

Tão rápido quanto o movimento, Duo o seguiu, envolvendo um braço ao redor do pescoço da vítima. "Diga, 'tio' Li..."

"É o suficiente, Maxwell," Wufei encerrou com calma.

O rapaz da colônia sorriu, o fôlego praticamente intacto, e soltou o soldado, permitindo-o rolar para o lado e se levantar. Duo também se ergueu, distraidamente tirando pó da roupa.

Wufei se aproximou dele, a testa franzindo cada vez mais. "Seus métodos não são nada convencionais, Maxwell."

"Mesmo? Não para um rato de rua de L2," Duo deu de ombros. "Nos viramos com o que funciona."

"E regras de combate?"

Os olhos de Duo se ascenderam com um brilho perigoso. "Pense o que quiser, Capitão, não há regras. Não na vida real."

"Na sociedade civilizada dita-se que-."

"'Civilizado' não tem nada a ver com luta," Duo interrompeu sem dó. "Sobrevivência é o que importa... de onde eu venho." Abriu outro sorriso feroz. "E por mais bonitinho que seus movimentos de manual são, não podem competir com golpes sujos."

Wufei ergueu uma sobrancelha, virando-se para Heero que ostentava uma expressão impassível. "Yuy… você é o próximo."

Duo prontificou-se a sair do colchão, mas a mão de Wufei o parou. "Você também, Maxwell. Vai lutar contra Yuy."

O rapaz de trança hesitou um pouco incrédulo. "Mas—ele é o líder do meu time..." comentou desconcertado.

O Capitão sorriu discretamente. "Então tente não machucá-lo." Parou ao lado de Heero quando este subiu no tatame. "Vença, Yuy. Não me importa como. Use cada truque que praticamos quando crianças."

Heero parou. "Mas Chang… e a justiça?" questionou com malícia.

"Será," murmurou o oficial chinês, saindo do colchão.

Duo observou Heero com estranheza.

O rapaz de cabelos curtos inclinou-se numa vênia quase zombeteira. "Pronto Maxwell?"

"Não estava assistido?" Duo rebateu convencido.

"Claro... E encontrei cerca de doze falhas nas suas táticas."

Os olhos índigo se semicerraram. "Você está pedindo," avisou.

"Menos provocação... mais luta!" Capitão Chang ordenou friamente.

"Não espere favores Yuy," Duo ameaçou.

"Igualmente." Heero atacou sem aviso, usando uma combinação de voadora com um gancho que quase acertou Duo nas costelas.

O rapaz de L2 recuou, circulando e desviando até ter mais espaço para manobrar. Mas Heero não lhe permitia tempo para contra-atacar. Ao invés disso, aproveitou sua vantagem, direcionando Duo pelo tatame.

Abaixando-se em um chute particularmente perigoso, o jovem de trança xingou, dando uma rasteira em seu adversário.

O líder caiu, mas ligeiramente pôs-se de pé, pulando para evitar o chute seguido e acertou um murro ardente no ombro do oponente.

"Merda!" Duo reclamou. Não doera muito... fisicamente, mas seu ego fora atingido. Começou a seriamente querer acabar com o seu companheiro de time.

O jovem de trança lançou uma série de ataques, empurrando o outro, forçando-o a se defender por um momento. Contudo, logo Heero se recuperou e revidou, e assim seguiram com uma dança fluida, nenhum ganhando vantagem por um bom tempo.

"Bem, eles merecem crédito pela energia," Li ressaltou para o superior.

O Capitão deu de ombros, indiferente. "Quero ver o que acontece quando eles descobrirem que Maxwell é muito rápido para ser derrotado por táticas convencionais, e Yuy é muito forte e habilidoso para ser derrubado por um lutador de rua."

"Por quanto tempo vai deixá-los nessa?" o tenente perguntou. Os treinos duravam apenas alguns minutos, já que o ritmo era maçante.

"Até Yuy provar meu argumento."

Alguns minutos mais se passaram, outros grupos terminavam seus exercícios e se aglomeravam para assistir.

Por fim, sentindo-se cansar... lentamente... Duo decidiu precisar tomar medidas drásticas. Iniciou uma série de ataques perfeitos, terminando com um chute giratório que teria jogado qualquer um longe.

Mas Heero seguiu exatamente o oposto do que seu instinto lhe pedia; avançou no ataque, em vez de desviar. E quando o rapaz se moveu para o chute, lançou o braço, pegando o fim da trança, enrolando-a no pescoço de Duo, torcendo-a num laço que pudesse apertar a vontade.

"Filho da puta!" o rapaz enforcado arfou, dedos segurando o próprio cabelo, tentando mantê-lo longe de sua garganta. "A... trança... não… Yuy!"

"Desista Maxwell. Te falei que o cabelo era uma ameaça!" Heero sussurrou em seu ouvido. É... uma ameaça que parecia pura seda em suas mãos... que o fazia desejar passar os dedos delicadamente pelos fios, ao invés de usá-la como uma arma letal.

Em qualquer outro momento, ter Heero pressionado contra ele, sentindo a respiração quente em seu cangote, ouvindo aquela voz rouca em sua orelha, transformaria os joelhos de Duo em geléia. Mas aquele maldito metido usava seu próprio cabelo contra ele! Mas, por Deus, aquele corpo completamente colado no seu, entre ofegos, suor, e adrenalina... Duo quase gemeu de desejo.

Então Heero riu, certo da vitória.

Rugindo de puro ódio, o jovem de L2 jogou a cabeça para trás, por muito pouco perdendo o rosto do líder, pois este desviou. Continuaram a circular, combatendo por controle enquanto Duo chutava, contorcia-se e xingava o máximo que seu suprimento de ar permitia.

Então, de repente, o jovem de trança ficou mole, mãos caindo para os lados, joelhos se dobrando sem apoio. Heero percebeu ainda estar apertando a trança na garganta e soltou na hora. O outro rapaz desmoronou. Curiosos se ajuntaram para ver o que acontecia.

"Duo! Você está bem?" A voz de Heero soou com urgência, fraca de preocupação, ele caiu de joelhos ao lado do companheiro de time. "Vamos—fala comigo!" Estapeou levemente o rosto corado do desmaiado. "Duo!"

Olhos índigo escurecidos se abriram, e seu dono murmurou algo roucamente... indecifrável.

"O quê?" Heero aproximou o rosto a meros centímetros do de Duo. Não percebeu o brilho maléfico nos olhos semicerrados.

Como um trovão, Duo deslizou um braço em torno do pescoço de Heero, virando e entrelaçando suas pernas ao redor do torso do outro. Uma mão no queixo de Heero, a outra na nuca, na clássica posição para quebrar o pescoço.

"Já chega!" Wufei anunciou, antes de se acabar em risadas.

"Perdeu, Yuy!" Duo sibilou satisfeito, soltando o rapaz espantado de seus braços, empurrando-o.

Wufei se dobrou, gargalhando com a oscilação de emoções na expressão geralmente tão série de Heero... surpresa... indignação... acanhamento... ultraje.

"Maxwell, seu desgraçado trapaceiro!"

Duo ficou de pé, arrumando a roupa e sorrindo largamente. "Não há regras, Yuy… com exceção de uma. Ninguém toca no cabelo!"

"Você é doente," Heero murmurou encarando-o. Teria ficado com mais raiva, mas Duo estava tão adoravelmente cheio de si, e Wufei ainda ria tanto, que não conseguiu manter a pose.

Após saborear o momento, Chang recuperou o fôlego. Até mesmo Heero sorria um pouco, porém, um brilho sinistro acendia seus olhos.

"Vingança é um prato que se come frio, Maxwell," murmurou com um olhar não tão ameaçador.

O rapaz de L2 chegou mais perto, sorriso aumentando. "Também te adoro Yuy."

"Alguém pode me dizer qual foi o erro de Yuy?" Wufei questionou a classe em geral.

"—segurar a trança!" alguém voluntariou a piada.

O Capitão deu de ombros. "Na verdade, esse foi um belo movimento tático. Maxwell perdeu o controle e, francamente, perdia a luta."

"Ei-," Duo protestou.

"Não, ele tem razão," Quatre interveio. "Heero tinha te pegado. Até você se fingir de morto, parecia que você não tinha escapatória."

Duo se abstraiu por um momento, recordando-se com gosto do agarre que Heero tinha nele. Se não fosse pelo fato de estarem lutando, teria sido bem prazeroso.

"Então qual foi o erro de Yuy?" Wufei perguntou novamente.

"Emoção," Trowa falou sem rodeios, pela primeira vez.

"Que emoção?" Heero questionou, faces levemente avermelhadas.

Atrás de Wufei, Duo sorriu como um maníaco para Heero e seus lábios formaram a palavra 'amor'.

"Baka!" o líder rosnou, respondendo com seu melhor olhar intimidador.

"Medo," Quatre interrompeu as provocação, recapitulando a reação de Heero quando viu o oponente estirado no chão. "Ele achou que Duo estivesse mesmo machucado."

"Portanto - sua preocupação pelo companheiro de time lhe custou a vitória," O Capitão concluiu. Voltou seus olhos negros para Duo, fazendo-o parar com as caretas direcionadas para o líder. "Se ele fosse um verdadeiro inimigo, Maxwell, sua manobra não teria funcionado. Quando se fez de morto, um inimigo de verdade—pelo menos descente—teria se certificado de que você estivesse morto mesmo."

Neste ponto, Heero encarava o chão irritado até a tampa por ter deixado emoções interferirem na missão. Todos os guias de estratégia militar que lera afirmavam ser vitalmente importante para o sucesso foco e disposição para sacrificar coisas importantes. E deixara um mero vigarista distraí-lo completamente. Um vigarista muito, muito atraente, com certeza...

"Não se sinta mal, Yuy," Wufei consolou, pousando a mão no ombro do amigo. "Se estivesse em uma batalha de verdade não estaria enfrentando um amigo, mas um inimigo mortal. E isso teria feito toda a diferença."

"Hn," respondeu, apenas superficialmente confortado.

"Além do mais, provou o que eu queria... que as habilidades cruas de Maxwell não serão sempre o suficientes para derrotar alguém bem treinado.

Duo se adiantou, dando de ombros. "Pode ser," concordou.

"Vê porque o treino é necessário?"

"Nunca disse que não era," o rapaz do time Wing rebateu.

"Quer reconsiderar o que a Academia pode fazer por você?" o Capitão perguntou sério.

Duo franziu o cenho, sua velha atitude desafiadora retornando. "Não sei o que espera que eu diga, Chang. Estou cumprindo minha pena. O que mais quer de mim?"

Wufei trocou brevemente um olhar com Heero, balançando a cabeça levemente. "Tudo bem, rapazes... dispensados. Já estão atrasados para o jantar, então sugiro que acelerem!" E retirou-se com seu costumeiro caminhar eficiente.

"Vocês ouviram," Heero falou para os companheiros. "A não ser que queria ficar com fome de novo Maxwell, é melhor nos apressarmos."

"Não precisa pedir duas vezes," Seu apetite retornara com força total após o estresse da semana anterior. Foi o primeiro a sair, mas diminuiu o passo para Heero o alcançar. Trowa e Quatre caminhavam agradavelmente perto, logo atrás do líder, conversando sobre o treinamento de Nanashi.

O jantar se passou razoavelmente tranquilo, uma vez que os recrutas estavam exaustos demais para gracejos. Simplesmente consumiram suas refeições em tempo recorde, guardaram as bandejas e rapidamente retornaram para os alojamentos.


No caminho de volta para o quarto, Duo se aproximou de Heero e jogou um braço ao redor de seu ombro, recebendo uma expressão irritada em recompensa pelo seu esforço.

"Ei, cara, eu só queria me desculpar. Foi um truque sujo que fiz."

Heero deu de ombros. "Funcionou."

"É, mas só porque somos - bem - amigos." Caminharam mais um pouco, Duo refletindo. "Somos amigos, não somos?" finalmente perguntou.

"Hn." O líder assentiu uma vez com a cabeça, clarificando a resposta.

O braço ao redor do ombro do líder se firmou por um instante. "Obrigado, Heero."

"Pelo quê?"

"—ser meu amigo."

Heero balançou a cabeça, admirado. "Baka."

"Heh…tomodachi?" Duo contra-atacou.

Heero o olhou de soslaio. "O quanto sabe de japonês afinal?"

"O suficiente para levar um tapa na cara," o rapaz de trança sorriu. Com isso, Heero riu brevemente, e um sorriso genuíno tomou o rosto de Duo. "Você tem a melhor risada, sabia?" informou a Heero.

Um brilho tomou os olhos azuis. "Tenho o melhor de muitas coisas," falou com astúcia.

Duo prontamente tropeçou nos próprios pés, somente continuando em pé por causa de seu agarre nos ombros do outro. Arregalou os olhos para o companheiro. "Está flertando de novo, Heero? Porque se estiver-"

Heero deslizou um braço ao redor da cintura de Duo, sem perder um passo sequer. "O que vai fazer?"

"Hum…ah…" Duo o acompanhou atordoado, esforçando-se por um pensamento coerente totalmente distraído com o calor envolvendo seu corpo. "Vou... hum... er... aproveitar?" finalmente conseguiu terminar, um pouco sem fôlego.

Heero riu novamente e borboletas deram piruetas no estômago do de trança. Nossa, como gostava dessa risada!

"É, vai mesmo," o líder falou convencido.

Duo não tinha idéia de como interpretar esse comentário. Queria dizer que ele gostava do flerte? Ou Heero implicava que Duo gostaria de ter outras coisas sendo feitas com ele? Não que o jovem de L2 não conseguisse pensar em dezenas de incríveis atividades prazerosas que queria fazer com (e pelo) Heero. Mas, caramba! A entonação na voz do moreno de L1 quase fizera soar como uma promessa.

Duo quase arfava entre andar, flertar e ter aquele braço confortavelmente pregado em sua cintura.

"Não pense demais," o líder repreendeu com um sorriso, praticamente ouvindo as engrenagens funcionando na cabeça do companheiro.

Chegaram ao quarto e Heero soltou a cintura de Duo, desprendendo-se do braço em seu pescoço, e subiu os degraus. Trowa alcançou Duo enquanto este parava para recuperar o fôlego. Quatre parou bem ao lado dele, sorrindo maniacamente.

"Aquilo pareceu divertido."

"Aw, Quat-." Duo olhou melancólico para a porta. "Não sei como interpretar nenhuma palavra que ele me diz," admitiu francamente.

"Ele gosta de você, Duo. Até aí é óbvio."

"Talvez, mas... não sei o que ele quer... o que ele espera." O rapaz de trança sentou-se no degrau, recostando-se na parede. "Droga, Quatre… esse acampamento só vai durar algumas semanas. E depois Yuy estará na Academia da Subdivisão de Mobile Suits. E eu estarei..." deu de ombros levemente.

"Por que não estará lá também?" Quatre questionou.

"Convenhamos. Não sou material para a Academia," suspirou. "Mesmo se eu quisesse ir—provavelmente me mandariam embora na primeira semana."

"Você não foi expulso daqui," Quatre o lembrou. O loiro se sentou ao lado do amigo, jogando o braço ao redor dos seus ombros, invertendo os papéis de costume. "Acredito que, se você quisesse entrar na Academia, se daria muito bem lá."

"É... se eu quisesse," Duo ecoou. "Essa é a parte que não tenho muita certeza."

Quatre lhe deu um sorriso de apoio. "Eu também estaria lá," tranquilizou-o. Os olhos verde-azulados se elucidaram ao pensar como seria sem seu melhor amigo para vigiar sua retaguarda e manter seu ânimo. Virou-se emocionado para ele. "Não quero estar lá sem você."

O jovem de L2 sorriu com ironia. "Você terá Trowa."

As faces do loiro se avermelharam. "Não é a mesma coisa e você sabe. Você é meu melhor amigo. Ele é..." Deixou o ar.

"Ele é o seu acrobata gostosão..." Duo terminou por ele, sorrindo de orelha a orelha. Fingiu pensar por um momento. "Aposto como deve ser muito flexível."

"Como consegue ser pervertido!" Quatre acusou.

"Não sabe o quanto," respondeu brincalhão.

"É, mas sei que vai me dizer o quanto se eu perguntar," rebateu igualmente.

Duo riu. "'Bora. Vamos entrar antes de começarem a achar que estamos tramando algo.


Heero acordou ao sentir uma brisa quando alguém ergueu sua coberta e juntou-se a ele na cama. Virou-se surpreso para encontrar um par de familiares olhos índigo emoldurados por macios cabelos castanhos. Quando abriu a boca para perguntar o que estava acontecendo, esta foi clamada por um beijo, e Heero prontamente se perdeu na maravilhosa sensação de ter a língua de Duo deslizando e explorando a sua própria. Gemendo contra os lábios do outro, Heero envolveu-o com os braços e o puxou para mais perto, deleitando-se ao sentir o peito descoberto. Deus, ele fantasiava com esse momento desde a segunda corrida de obstáculos. Quando retornaram ao alojamento cobertos de lama e Duo tirou a camisa, Heero sentiu um desejo arrebatador como nunca experienciara antes. E agora, ter o rapaz de cabelos compridos em sua cama, pele com pele, e aquelas mãos descendo pela sua cintura, agarrando seus quadris e apertando-o contra um corpo igualmente excitado. Perdeu o ar ante as sensações, passando as mãos nas costas esguias e enterrando-as no cabelo luxurioso, entregando-se àqueles lábios até achar que nunca mais precisaria respirar novamente.

O líder sentou-se abruptamente, respirando fundo. Sua mão imediatamente buscou o colchão, mas encontrou-o vazio. Apenas um sonho. Após a primeira onda de alívio se dissipar, veio a decepção.

Heero passou a mão no rosto, murmurando um xingamento. A última coisa da qual precisava era de uma distração da oportunidade dada por esse campo de treinamento, e Duo Maxwell era uma baita distração. Dos longos cabelos luxuriosos até os grandes e expressivos olhos, ele era absolutamente de parar o trânsito. O rapaz de L1 diria até 'lindo', mas a palavra implicava uma feminilidade da qual Duo faltava. Com exceção dos incomuns cabelos longos para um homem, não havia nada remotamente feminino em Duo; na verdade, era o que Heero achava o mais atraente. Seu companheiro de time era esbelto e vigoroso, com um temperamento e atitude que acendiam fogo à sua personalidade. Era inteligente, encantador e curioso; e pensar que cresceu nas ruas sob as piores circunstâncias. Nunca que ele deveria ter o infinito jogo de cintura e tal bom humor. Complexo, Heero decidiu. Duo não era nada menos do que complexo e o líder conseguia-se imaginar tentando decifrar o enigma pela eternidade.

Era por isso mesmo que precisava tentar se distanciar novamente. Deixara o outro persuadi-lo a flertar, provocar e brincar. Duo era contagiante. E Heero precisava de seus objetivos intactos, algo até então quase impossível. Suspirando profundamente, deitou-se de lado, puxando a coberta, resolvendo recuperar seu controle de alguma forma. Afinal de contas, sua meta era se tornar o soldado perfeito, não era?


Continua...


Back fist é um soco com as costas da mão.

Tomodachi é "amigo" em japonês.


Nota extra: Alguém notou a ironia do Wufei em querer provar para o Duo que seus métodos "sujos" não eram eficientes fazendo o Heero derrotá-lo com métodos "sujos"?


Resposta aos comentários:

MaiMai, "união faz a força", adorei! E não vai precisar mais tentar descobrir com o tradutor o que acontece nesse capítulo, pois aqui está ele XD Espero que tenha gostado. Obrigada por comentar! E sugestões são sempre bem-vindas. Se tiver tempo de revisar alguma coisa, agradeço eternamente! Beijos, moça!

DW03, obrigada por comentar! É tão bom acompanhar que está gostando da história. Heero é ciumento, só nunca vai admitir, e o Duo não se cansa de flertar descaradamente, mas isso vai começar a sair pela culatra e Chang cada vez mais se soltando. Beijos!

'Deiisoca, aqui está a continuação! Espero que tenha se divertido com mais esse aqui ^_~ Beijos!

Lis Martin, continuação aqui para matar um pouquinho da saudade da fic XD Tudo o que você falou de agora em diante vai se multiplicar (com algumas somas na equação para dramatizar :D). Obrigada por acompanhar (e me deixar saber disso ^_~)! Beijos!

Nana Yuko, olá! Viu como minhas traduções são escolhidas a dedo? XD Sim, a fic está completíssima, tem 65 capítulos e uma continuação em andamento (que infelizmente está sendo atualizada bem lentamente). Mas é só traduzir, revisar e postar (parece fácil, né?). Obrigada pelo comentário! Faz muita diferença, viu? Beijos!

Lou-Is-A, que fofo! Seu comentário fez meu dia! Até me fez respirar fundo e achar um tempinho entre meus compromissos malucos para tentar terminar de revisar (espero que esteja aceitável T_T). Obrigada por tomar coragem para comentar! E não se acanhe mais, viu como eu não mordo? XD Beijos!

Fabianadat, moça, não consegui te responder por PM! Parece que o sistema atualizou e... sei lá. Estou totalmente desatualizada em fanfics, sem tempo para ler mesmo . Tudo atrasado... Mas assim que der, vou lá dar uma olhada na sua d'O Caçador. Vi que terminou, que lindo! É sempre um momento tão emocionante, não? T_T Sumi um pouquinho mesmo, mas sempre apareço ^_~ Beijos!