Boot Camp
Autora: Snowdragonct
Tradução: Aryam
Campo de Treinamento
Capítulo Vinte e Dois: Teias Entrelaçadas
O alarme das cinco da manhã fez os quatro garotos arrastarem-se penosamente para fora de suas camas. Duo sentou-se na beirada do colchão de baixo para pentear e trançar seu cabelo, enquanto esperava seu turno no banheiro, e encontrou-se com uma perfeita visão de Heero curvado sobre seu baú, ainda apenas de cueca e camiseta. Mmmm…
O jovem de trança sorriu. "Bom dia," desejou para ninguém em particular.
Quatre seguiu seu olhar e sorriu dissimulado. "Acho que depende do seu ponto de vista, mas sim, bom dia."
Heero endireitou-se com o rosto franzido, voltando-se para os dois com suspeita. Porém, não falou nada, vestindo suas roupas e passando a mão pelo cabelo para arrumá-lo, em seguida, recostou-se na parede ao lado da porta do banheiro, esperando a saída de Trowa.
"Bom dia, Heero," Duo falou nitidamente, estranhando o desinteresse do líder.
"Hn," respondeu reservadamente.
"Praticamente um raio de sol," suspirou Duo, balançando a cabeça.
Os rapazes rapidamente terminaram sua rotina matinal e se apressaram para a calistenia, entrando na fila a tempo dos anúncios diários do Capitão Chang.
"Para aqueles se perguntando sobre a competição entre times, permitam-me resumir o itinerário da próxima semana. Na segunda, teremos um teste de proficiência em escalada e rapel." O Capitão falava enquanto os recrutas bocejavam e tentavam prestar atenção. "Digo 'teste de proficiência' em vez de 'corrida', pois não quero que pensem que velocidade será o único critério. Se caírem do penhasco, não importa o quão rápido cheguem ao chão, não ganharão prêmios por isso. Portanto, velocidade e segurança serão exigidos."
Duo sorriu de canto, virando-se para Quatre. "Pode-se dizer 'senso de humor negro'?" gracejou.
"Maxwell," Heero sibilou baixo. "Olhos para frente!"
Duo irritou-se. O que ela achava ser apenas mau humor matinal parecia ser mais profundo. Heero voltara a ser o soldado eficiente e a atmosfera relaxada a qual curtiram por quase dois dias se reverteu na relação tensa e quase inimiga de antes. Rodando os expressivos olhos índigo, apontou o rosto novamente para o Capitão.
"Terça os times terão uma corrida na pista de obstáculos... e então na quarta terão corrida na trilha. Essas atividades serão realmente corridas. O tempo médio do time inteiro decidirá a posição." Olhou para a sua prancheta. "Na quinta, teremos uma competição de luta." Poupou um olhar passageiro para Heero e Duo. "E na sexta, atravessaram um rio... todos os quatro membros têm que atravessar em segurança para contar com o time todo." Os olhos negros varreram as fileiras. "O prêmio para quem ganhar essa primeira rodada será uma viagem para fora da base no fim de semana. O último lugar fará serviço de cozinha durante toda a semana seguinte. Perguntas?"
Como ninguém se pronunciou, seguiram com a corrida, e como esta era quatro quilômetros e meio ao invés de três, mal deixava tempo para o banho antes do café da manhã. Sendo assim, os rapazes se apressaram para o refeitório para não perderem a vez.
"Que merda," Duo bocejou, servindo-se de um segundo copo de suco de laranja. "Tenho certeza de que Chang quer nos matar." Pesarosamente puxou sua trança encharcada. "Não tive nem tempo para condicionador."
"Puta que pariu, Maxwell," Heero murmurou, tentando segurar um bocejo. "Para de reclamar do maldito cabelo! Temos coisas mais importantes para fazer com o nosso tempo."
"Talvez você tenha," Duo resmungou aborrecido. "Mas depois de ter tentado estrangular meu pescoço, o cabelo poderia ter um pouquinho de atenção!"
Heero ergueu seus olhos azuis penetrantes para o companheiro. "Talvez devesse dar a atenção dele para um par de tesouras," proferiu abruptamente igualmente aborrecido.
Os olhos índigo se arregalaram em indignação. De onde está vindo essa agressividade? E pra onde foi aquele Heero Yuy que estava flertando ontem mesmo? "Qual o seu problema, Yuy? O que eu fiz de errado dessa vez?"
"Nada, Maxwell." Heero percebeu estar particularmente irritado com o jovem de trança e tentou reinar sobre seu temperamento. Afinal de contas, ele estava bravo consigo mesmo - com sua fraqueza - não com Duo. E seu objetivo era ser um bom líder para o time, não um babaca sarcástico.
"Maxwell, é?" Os olhos de Duo se semicerraram. "Voltamos a estaca zero? O que aconteceu com aquela experiência de vínculo entre machos?"
"Temos um horário cheio pela semana."
"Ah, então só podemos ter um 'vínculo' em dias de visita?"
"Não estamos aqui para fazer amizade, Maxwell. Estamos aqui para nos qualificarmos para a Academia." Encarou seu companheiro longamente, sua expressão suavizando levemente. "É tudo o que importa agora, Duo. Depois que superarmos isso... se conseguirmos..." Sua voz sumiu e desviou o rosto. Não estava pronto para fazer promessas.
Duo não pode deixar de notar como aquele pequeno discurso era parecido com o qual ele mesmo dera a Jason. Ele se acalmou, voltando sua atenção para o seu prato. "'Tá certo, Yuy. Entendi o recado. Só negócios," suspirou.
O líder se remexeu desconfortavelmente, reparando na mão de Duo descansando na mesa, a meros centímetros da sua própria. Era tentador deslizar sua mão para que estivessem se tocando... oferecer algum conforto para o outro rapaz. Mas seria uma contradição direta ao que acabara de dizer, então resistiu ao impulso e suspirou internamente. Teriam tempo para conversar depois de completarem o treinamento... e talvez até lá conhecesse mais sobre seus próprios sentimentos para expressá-los ao jovem de trança.
Quatre observou o moreno de cabelos curtos interrogativamente, sentindo os conflitos internos alheio. Então os olhos verde-azulados brilharam com entendimento. Podia ver porque era difícil para Heero balancear sua atração por Duo com a responsabilidade de ser um bom comandante da equipe. Só esperava que o rapaz de olhos azuis se resolvesse antes de arruinar qualquer chance que pudesse ter como jovem volátil de L2.
Após o café da manhã, foram levados por uma trilha em um terreno que desafiava a velocidade, resistência e agilidade. Tiveram uma breve pausa para o almoço e retornaram para o campo de treinamento no meio da tarde.
Ao invés de obstáculos, receberam tempo livre para retomarem os estudos e visitarem a biblioteca, portanto, os rapazes do time Wing foram para o alojamento planejarem o resto do dia.
Duo, cansado, jogou-se em sua cama, ainda irritado com a antipatia renovada de Heero. "Não sei quanto a vocês, mas de qualquer jeito vou aproveitar um banho de verdade... e o meu cabelo 'ameaçador' vai ganhar condicionador." Os olhos índigo desafiaram o líder a contradizê-lo.
Entretanto, o rapaz de cabelos curtos observava a trança caída do lado da cama de cima e não parecia nem um pouco inclinado a comentar. Na verdade, ele precisou morder a língua para não se oferecer para ajudar, então se ocupou com o laptop.
Quatre sorriu astuciosamente para Duo. "Eu vou com você," ele se voluntariou. "Faz séculos que não temos mais do que cinco minutos para tomar banho."
Trowa estava ultimamente de bom humor - desde que percebeu o fato de Duo estar mais interessado em Heero do que em Quatre. E olhou para os outros dois com um sorrido vago. "Caramba, 'to dentro," ofereceu. "É melhor andarmos juntos o quanto possível, com Kyle por perto." Refreou-se em revelar que qualquer desculpa para ficar com Quatre já era o suficiente para movê-lo, mas o rápido e astuto olhar de Duo o avisou que ele já sabia de suas intenções.
Uma forte batida na porta interrompeu seus planos.
"Entre," Heero falou prontamente, erguendo o olhar do monitor para ver quem era.
O Diretor Kushrenada entrou e Duo sentou-se imediatamente, lançando um rápido olhar para Trowa. Merda! As drogas... Esse maldito deve saber delas e vai acabar com o time todo por causa da mancada do Trowa!
Apesar de sua relação cordial com o carcereiro, até mesmo Trowa estava apreensivo.
"Boa tarde, rapazes," Kushrenada falou suavemente, reparando no quarto todo de relance e mal se importando com o ódio no rosto de Duo. "Vejo que estão estudando... Muito responsável de sua parte," comentou. Então, sua atenção se voltou para o jovem mais alto do grupo. "Barton, ouvi que o Capitão lotou a agenda de vocês esta semana."
"Sim senhor," admitiu. "Quase não pude ver Nanashi."
"Ah, sim. É por isso que estou aqui," revelou o Diretor. "Acha que tem alguns minutos livres?"
Trowa voltou-se para Quatre, e este concordou rapidamente. "Duo e eu podemos ir sozinhos," assegurou ao moreno de olhos verdes. "Vá ver Nanashi enquanto pode."
"Obrigado," Trowa agradeceu calorosamente. Pulou de sua cama. "Adoraria acompanhá-lo, senhor."
"Excelente." O olhar de Kushrenada ficou-se em Heero. "E Yuy, acredito que vi um dos tenentes de Chang batendo de porta em porta. Estão entregando aos times kits de sobrevivência para o exercício de cruzar o rio na próxima semana. Vai precisar ir ao escritório de Chang para requisitar um. Por razões de segurança, um membro do time ficará responsável pelo kit, alguém além do líder." Lançou uma expressão zombeteira a Duo. "Alguém de confiança," sua voz deliberava escárnio.
Duo ficou tenso e revidou com um olhar nada amigável.
"Obrigado pela informação, senhor," Heero respondeu friamente. "Vamos para lá imediatamente." Virou-se para Duo, olhos azuis firmes... avisando para o rapaz se comportar na frente do inimigo. "Vamos, Maxwell. Podemos ir nós dois."
Sem se desviar do odiado carcereiro, o jovem de trança desceu da cama. "Tem certeza que quer confiar em mim, Yuy?" perguntou num tom perfeitamente glacial.
"Claro," a resposta foi curta e rápida. Heero pegou no braço de Duo pouco acima do cotovelo. "Vamos, Duo," falou baixo, educadamente acenando com a cabeça e escoltando seu colega.
Uma vez fora do quarto, Duo irradiou raiva. "Aquele filho da puta arrogante! Viu porque o odeio? Ele estava só tentando me sacanear."
"Não pode deixá-lo," Heero afirmou. "Sei que ele te provoca. Mas tem que permanecer calmo e usar a cabeça ou ele vai conseguir te fazer tropeçar e te mandar para a cadeia."
"Qual é a sua afinal?" Duo perguntou taciturno. "Agiu como um idiota o dia todo."
"Estou tentando te ajudar... ajudar a todos nós... a ter êxito nesse treinamento," Heero o lembrou.
"Não dá para fazer isso e ainda sermos amigos?" questionou.
Heero suspirou frustrado. "Não tenho certeza," admitiu com cautela. "Estou tentando ser um bom líder. E agora, isso é mais importante do que sermos camaradas, Maxwell. Consegue entender?"
"Estou tentando," deu de ombros. "Mas..." Ousou um olhar de esguelha, esperando ver a amizade relaxada e provocante do dia anterior. Sem mencionar todo o flerte descarado e excitante.
"Apenas... seja paciente," Heero sugeriu. "'Tá?"
Duo assentiu. "Não é o meu ponto forte, Yuy. Mas vou tentar," sorriu de canto. "Então, o que é esse kit superimportante que estão nos dando?"
"Vamos descobrir quando chegarmos à sala de Chang."
Trowa e Kushrenada deixaram Quatre aos estudos no alojamento e partiram para o canil.
Enquanto caminhavam, o interno olhou de relance para o Diretor. "Eu agradeço muito por me deixar ficar com os cachorros, senhor."
"O prazer é meu," ronronou o carcereiro, olhos castanhos calculando o rapaz. "Você tem verdadeiro dom com os animais."
Trowa deu de ombros. "Acho que é por ter trabalhado muito com eles no circo."
"Oh, acho que é mais do que isso - uma habilidade nata," o homem insistiu.
Alcançaram o canil e Trowa foi direto para o seu cercado preferido, abrindo a porta e deixando Nanashi e Rusty lhe dar o tumultuoso cumprimento costumeiro. Claro que Nanashi era, de longe, o mais afetuoso, mas até Rusty era gentil com o moreno de olhos verdes.
O rapaz ajoelhou-se para acariciar o pêlo de Nanashi, alegremente enterrando o rosto na juba espessa. "Bom garoto... você é o melhor!"
O sorriso satisfeito de Kushrenada não foi detectado por Trowa enquanto ele abraçava o animal.
O Diretor observava o interno com um brilho maléfico no olhar. "Ele é um belo cachorro mesmo. É uma pena..."
"Pena?" Trowa perguntou distraído, passando a mão pelas orelhas de Nanashi.
"Oh… nada, Barton. Não há nada para ser feito por ele de qualquer maneira."
"Como assim?" questionou, a atenção voltada agora para o homem.
"Se ele não der certo no programa de cão de guarda, temo que ele seja sacrificado."
"Sacrificado?" Trowa encarou o Diretor, olhos arregalados. "Por quê?"
"Bem, você deve entender, esse cães são criados para serem agressivos; séculos de seleção de raça. "Se não podem realizar sua função, têm que ser destruídos."
"Mas por quê? Por que não adotá-lo? É um ótimo cachorro!" Trowa exclamou vigorosamente. "É esperto, amigável e lindo. Não há razão para matá-lo!"
"Ah… vejo que o perturbei," falou Kushrenada, colocando um braço ao redor dos ombros do rapaz, conduzindo-o para longe do canil. "O problema, Barton, é que com gerações selecionadas e treinadas atrás dele, mais cedo ou mais tarde Nanashi se voltaria contra alguém. Ele não pode ser confiado fora do ambiente da prisão. E se ele não pode exercer seu trabalho aqui, não há lugar para ele."
"Mas você não pode!" Trowa bradou horrorizado, afastando-se. "Não pode sacrificá-lo! Ele não merece isso."
"Claro que não, Barton. Mas eventualmente ele merecerá." O Diretor balançou a cabeça tristemente. "É um fato simples da vida... por mais que ele pareça inofensivo agora, sua verdadeira natureza aparecerá, ele se tornará cruel e incontrolável." Era como se as palavras contivessem um duplo significado e, de fato, ele pensava nos detentos juvenis. Eles podem ser moleques menores de idade agora, mas dados alguns anos para se embrutecerem, serão tão violentos e incontroláveis quanto um cachorro de briga.
"Isso não é verdade!" Trowa discordou severamente. "Você não sabe disso. Ele pode ficar bem. Quero dizer, olha o bom caráter dele. Não acredito que ele possa se tornar violento!"
"Sua confiança nele é admirável... se não, errônea," suspirou o homem, contente com o pânico no rapaz. "Tenho que voltar para o escritório, Barton. Fique o quanto quiser. Faça-lhe companhia enquanto ainda pode."
Trowa assistiu o carcereiro ir embora, desespero revirando seu estômago. Abriu o canil e se juntou a Rusty e Nanashi, acomodando-se num canto e deixando-os se aninharem ao seu redor.
Enquanto o ex-artista de circo se afundava em melancolia, Duo e Heero ouviam a explicação do Capitão Chang sobre o kit de sobrevivência em seu escritório. Não passava de orientações básicas, mas por haver uma faca inclusa, um membro do time era requisitado a assumir total responsabilidade, como o Diretor explicara.
Duo leu o formulário que o Capitão lhe entregara, enquanto o oficial avaliava os rapazes.
"Já que tenho os dois aqui," Wufei falou contido, "gostaria de parabenizá-los pelo progresso do time."
"Obrigado, senhor," Heero agradeceu educadamente, notando o desdém de Duo.
"Você especialmente, Maxwell, tem me surpreendido," ressaltou o homem chinês.
O rapaz de trança lhe lançou um olhar. "Igualmente," respondeu secamente.
"Ouvi que surpreendeu a senhorita Peacecraft também," Wufei comentou com um brilho malicioso nos olhos.
Duo ergueu o rosto rapidamente e olhou de relance para Heero, querendo uma instrução. Não sabia se devia dar uma de João sem braço, soltar uma piada e parecer convencido ou se desculpar. Também não tinha idéia de como o homem a sua frente sabia de sua exibição no Centro de Visitas. "Eu—uh—Heero queria desencorajar as visitas, senhor. Eu só quis ajudar," confessou, por fim, rapidamente assinando no rodapé da página e recolhendo o pacote quase sem peso.
"Ah, então vocês não são—um casal?" Wufei perguntou com uma sugestão de sorriso.
Duo nem precisava mentir sobre isso. "De jeito nenhum!" Após uma breve reflexão, lembrou-se de emendar: "Senhor."
"É bom ouvir isso. Seria uma pena ter que separar o time," Wufei comentou casualmente.
Heero observou o Capitão com um olhar impossível de ser classificado. "Há algum regulamento sobre relacionamentos nos times, senhor?" questionou, o tom frio como uma calota polar.
"Nada por escrito," respondeu Chang, olhos fixos no seu amigo de longa data. "Mas é considerado imprudente."
O jovem líder teve o ímpeto de estrangular seu 'amigo de infância.' Wufei sabia muito bem das preferências de Heero... e queria determinar as intenções de Duo com o companheiro de time de um modo não tão súbito. Mas que merda, Chang, fique fora da minha vida particular!
"Não se preocupe, senhor," Duo suavizou a situação, nem ao menos se virando para o rapaz ao seu lado. "Yuy só quer saber de trabalho quando se trata desse campo de treinamento." Abriu seu sorriso característico. "Ao contrário de 'Maxwell o Fracassado'," continuou prestativamente.
"Não parecia um quando estava lutando no outro dia," o chinês deu de ombros.
"É só me dar uma chance," Duo sorriu ainda mais. "Com certeza vou estragar tudo logo."
A expressão no rosto de Wufei se fechou. "Você está tentando?" perguntou seriamente.
"Não, acontece naturalmente," respondeu com naturalidade, ajeitando a alça do kit no ombro. "Mais alguma coisa, senhor?"
O Capitão balançou a cabeça. "Apenas lembre-se que o kit é sua responsabilidade. 'Fracassado' ou não, está em sua custódia. Não perca, não o deixe jogado, não o empreste a ninguém. Entendido?"
"Senhor, sim senhor," o rapaz de trança bateu continência alegremente, voltando-se para o líder ainda furiosamente tentando abrir crateras na cabeça de Wufei com os olhos. "Pronto pra ir, Yuy?"
"Vai na frente... vou logo depois," Heero comandou sem deixar de fulminar o amigo com o olhar.
"Mas e-?" Duo hesitou, não querendo mencionar o conflito com Kyle.
"Estarei logo atrás," o moreno o assegurou. "Só quero um momento com o Capitão Chang."
Duo sorriu. "Ah… vou indo então pra vocês poderem falar mal de mim pelas minhas costas," caçoou, jogando um olhar astuto para Wufei.
A porta mal se fechou, Heero bateu as duas mãos na escrivaninha, inclinando-se para frente, dando mais intensidade ao seu olhar ameaçador. "O que foi essa palhaçada, Chang?"
Wufei ergueu as sobrancelhas. "Estava simplesmente lembrando Maxwell de manter o foco nos estudos e não no líder."
"E o que te fez pensar que ele tem qualquer interesse em mim?"
"Talvez porque ele tenha aceitado sentar no seu colo e te dar um amasso na frente da Relena." Wufei contra-atacou.
"Ele não 'concordou' com nada," o rapaz replicou. "Ele fez aquilo por impulso."
"Ah. Entendo."
"Entende o quê?" Os olhos azuis se semicerraram.
"Foi idéia dele."
"E?"
Wufei deu de ombros quase imperceptivelmente. "Não tenho certeza, Yuy. O que acha que significa?"
"Significa que ele é um palhaço e um espertalhão, e queria me ajudar a assustar uma garota. Já te falei isso." Pendeu a cabeça para um lado, estudando o amigo. "Ou você quer mesmo saber se Duo está seriamente interessado em mim?"
"você está interessado nele?"
"Achei que já tínhamos cruzado essa ponte."
"Não… eu perguntei se você achava que ele sabia que era apenas de brincadeira a pequena demonstração para Relena. Agora estou perguntando se você sabia."
Os ombros de Heero ficaram tensos. "Primeiro, não é da sua conta. Segundo, se foi ou não, nada pode acontecer até o fim desse campo de treinamento, porque essa é a prioridade. E terceiro, apesar da atitude irreverente, Duo é um excelente integrante do time e é mais do que capaz de manter sua atenção no trabalho."
"Eu sei disso," Wufei concordou com indulgencia. "E já foram duas vezes que o chamou de 'Duo' ao invés de 'Maxwell'. E também vi sua expressão quando ele fingiu desmaiar depois de tê-lo sufocado com a trança." Os olhos negros mostravam mais preocupação do que repreensão. "Tem algo forte aí."
"Claro que tem. Ele é um amigo e um colega de time," Heero concordou com franqueza.
"Então você vai esperar acabar o treinamento para chamá-lo para sair?"
"Si-. Quê?" Um rubor se apoderou das maças do rosto de Heero. "Sua coruja dissimulada."
Wufei se orgulhou de sue feito. "Talvez. Mas tenho meus motivos." Sua atenção estava fixa no rapaz a sua frente. "Não quero vê-lo magoado, amigo. E se Maxwell acabar sendo mandado para a prisão? O que vai fazer então?"
"Ele não vai," Heero afirmou.
"Mas se ele for?"
"Se ele fizer essa cagada então ele não será a pessoa que eu achei que fosse," insistiu.
Wufei suspirou. "Espero que ele atenda as suas expectativas."
Foi a vez de Heero dar de ombros. "Se não, não será a primeira vez na vida a me desapontar. Eu supero." Assegurou o amigo com tranqüilidade.
O chinês assentiu brevemente e retornou a sua postura de Capitão eficiente. "Sendo assim, sugiro que volte para o alojamento e vá chicoteá-los até ficarem em forma, Yuy. A próxima semana será um desafio, até mesmo para você."
Trowa não teve coragem de ficar com os cachorros após a revelação do carcereiro. Por mais que quisesse aproveitar cada momento que pudesse com Nanashi, percebeu que precisava compartilhar o peso da notícia com alguém. Logicamente, a primeira pessoa a vir na sua cabeça foi Quatre. Sentia-se mais próximo do loiro do que com qualquer outro, a não ser com a sua irmã, e precisava do conforto de saber que não estava só em se preocupar com o bondoso filhote. Despediu-se dos animais e correu para o quarto, entrando de supetão para encontrar Quatre deitado na cama lendo um livro.
"Quatre, eles vão matar Nanashi!" proferiu miseravelmente.
"O quê? Por quê?" o loiro se surpreendeu, sentando-se de uma vez.
"K. diz que se ele não aprender a ser um cão de guarda, não podem mantê-lo aqui.
"Por que não podem colocá-lo num lar? Sei que qualquer um ficaria feliz em adotá-lo." Quatre se lembrou de Nanashi brincando com uma bola, correndo e saltitando atrás dela, da última vez que visitara o canil. Sabia que não havia um osso de maldade naquele corpo peludo.
"Eu disse isso a ele, mas eles têm uma regra sobre tendência. Acham que a genética eventualmente vai tomar conta e ele pode atacar alguém." O rapaz passou a mão pelo rosto, em agonia. "Droga, Quatre... ele não merece isso." Sentou-se ao lado do loiro.
Sentindo a dor de seu amigo, o jovem menor colocou um braço reconfortante ao redor dos ombros do outro. "Não, não merece. Não tem como distorcer a regra? Alguma condição na qual alguém poderia adotá-lo?"
Trowa balançou a cabeça. "Kushrenada disse que ninguém consegue controlar um cachorro daqueles se ele se tornar violento."
Quatre franziu o cenho pensativo. "Isso não é verdade. Ele não é tão grande." Uma idéia se acendeu na cabeça loira. "Ei, Trowa, você lidava com leões no circo, certo?"
"Claro... o tempo todo."
"Então por que o Nanashi não poderia ir para o circo?" virou um olhar intenso no amigo. "Talvez a sua irmã pudesse vir pegá-lo... pergunte para o Diretor."
Trowa considerou a proposta, parte do desespero deixando a sua expressão. "Pode funcionar," concedeu. "Podemos garantir que ele nunca fique solto onde possa machucar alguém." Ergueu o olhar para o rapaz ao seu lado, olhos verdes vivos. "Essa idéia é perfeita, Quatre. Sei que Nanashi nunca vai se tornar violento, mas pelo menos posso assegurar K que podemos controlá-lo se o fizer." Um sorriso espalhou-se pelo seu rosto e num impulso, abraçou o árabe fortemente. "Obrigado, Quatre. Você é um gênio!" Afastou-se, deixando o rapaz o encarando estupefato. "Vou falar com o K agora mesmo!" Apressou-se, quase tropeçando em Duo ao passar pela porta.
"Que demônios..." o interno de trança observou o colega saindo e voltou-se para a expressão aturdida de Quatre. "'Tá legal, Quat? Você parece meio... catatônico." Balançou uma mão na frente do rosto do amigo. "Alguém em casa?"
"Ele... ele... me abraçou," balbuciou, piscando e percebendo a presença de Duo com um sorriso abobalhado.
O jovem de cabelo comprido ergueu uma sobrancelha. "Tro'?"
Quatre concordou.
"Uau... alto, moreno e silencioso finalmente deu em cima de você?"
"Hum…" O rosto de Quatre caiu. "Não sei se foi bem isso..."
"Então o que foi?" perguntou recatado para Quatre.
"Bem, ele me contou que vão sacrificar Nanashi e aí..."
"Nanashi? Por quê?"
Quatre explicou a situação, terminando com a idéia que dera de Trowa adotar o dócil cachorro para o circo. "E aí ele me abraçou e foi falar com o Diretor."
Duo franziu o cenho, coçando a cabeça. "Você está certo... não foi bem uma 'cantada'. Mas é um avanço, não?" Sorriu esperançoso. "Eu aceito isso do Heero com muito gosto..."
"Aceitar o quê?" a voz soou da porta.
Duo nem se virou. "Bisbilhotar é rude, Yuy."
"O que aceita, Maxwell?" pressionou, indo até o laptop e conferindo se não havia atualizações.
"A sua asneira, Yuy… Aceito a sua asneira dia após dia," Duo suspirou, caminhando até o seu baú onde jogara o pacote de sobrevivência. Pegou-o e colocou-o em sua cama, começando a desembrulhá-lo e a catalogar os itens.
Heero deu uma olhadela nas costas de Duo, em seguida sorriu para o loiro.
"Corda…" Duo jogou o rolo de corda na cama do líder. "Fósforos a prova d'água..." A caixinha seguiu a corda. "Faca." O jovem de L2 desenrolou a arma. "Estava certo," suspirou novamente. "Lâmina cega." Passou o dedão pela extremidade, analisando-a criticamente. "Essa merda seria completamente inútil se nos perdêssemos na floresta de verdade."
"Felizmente, não é o caso," Heero não parecia preocupado. "É apenas um exercício de cruzar o rio, Maxwell."
"É, mas se precisássemos da faca, seria inútil." Duo reafirmou, guardando a faca novamente. "Ei, Quat, vamos caminhar um pouco."
"Pra onde?" perguntou o loiro já se levantando.
"Armazém. Tem um amolador lá." Sorriu para o amigo. "Quero ver se o Mitch me deixa usá-lo por um minuto."
"Vocês dois tomem cuidado com os times do Kyle e do Austin," Heero advertiu, vagamente preocupado ao olhar por cima da tela do computador.
Duo sorriu mais, inclinando-se contra a mesa. "Preocupado comigo, 'Ro?" perguntou num sussurro rouco.
"Claro," a resposta era neutra. "Preciso dos quatro membros do time para ganhar a competição."
Os olhos índigo se semicerraram. "É isso?"
Heero ergueu o rosto calmamente, confiante de que Duo não poderia perceber que a proximidade fazia o seu coração palpitar loucamente. "Deveria ter outra razão?" Ah, mas tinha. Tinha muito mais do que o mero espírito de equipe envolvido no que Heero sentia pela ameaça de trança. E era um tremendo esforço para não se entregar.
"Acho que não," Duo se recompôs. Reservou mais um último olhar suspeito para o líder e acompanhou Quatre. "Vamos nessa, amigão." Entrelaçando seu braço com o do amigo, puxou-o para fora.
Trowa precisou esperar quase meia hora para ver o carcereiro, mas não estava disposto a desistir até falar com o homem. De modo algum deixariam aplicar a eutanásia no pobre cãozinho antes de sugerir o plano de Quatre.
Kushrenada deixou o jovem aguardando de propósito. Esperava algum tipo de apelo pelo cachorro. Inferno, contava com isso. E sabia que quanto mais Trowa esperasse, mais estressado e desesperado estaria.
Quando decidiu tê-lo exaurido o suficiente, chamou a secretária pelo telefone e a autorizou deixá-lo entrar.
"Barton… ora, que surpresa," havia uma expressão contente em sua face.
"Sim senhor, eu sei. Eu só... preciso falar com você sobre o Nanashi."
"Oh… Entendo," respondeu sombriamente. "Nesse caso, entre e sente-se."
Trowa se acomodou na cadeira oposta à mesa. "Sei que disse que ele deveria ser sacrificado, senhor. Mas e se... quero dizer... talvez haja uma alternativa," ofereceu fracamente.
"Bem que eu queria," o homem suspirou, ajeitando-se em sua confortável poltrona com uma expressão compreensiva.
"Quatre sugeriu que talvez minha irmã pudesse adotar Nanashi, poderíamos lhe dar uma casa segura," Trowa observou Kushrenada, esperando a resposta. "Nós tratamos leões, senhor. Tenho certeza de que conseguiríamos garantir a segurança pública de Nanashi também."
"Hmm, que idéia interessante," cantarolou Kushrenada, olhos fulvos se ascendendo de inspiração. Ele meramente esperava poder usar a vida do animal como influência sobre o rapaz para fazê-lo vigiar Maxwell e dedurá-lo quando este desrespeitasse a lei. Mas se ele arranjasse a adoção e deixasse Barton tão investido emocionalmente a salvar o cachorro que estaria disposto a qualquer coisa, as possibilidades se abriam na sua frente. Talvez o ex-circense estivesse disposto a dar um passo adiante... "Tenho que pensar sobre isso, Barton. Ele é um animal potencialmente perigoso."
"Sim, senhor. Felinos grandes também o são. E mesmo assim nunca tivemos um incidente no circo." Trowa estava cheio de esperança. "Posso prometer ao senhor, Nanashi nunca machucaria uma alma. Catherine pode tomar conta dele até eu terminar o treinamento, então eu posso assumir."
"E a Academia? Se seu time ganhar, vai para a Academia de Mobile Suits. Quem seria responsável pelo cachorro?"
"Sei que Catherine tomará conta dele o quanto for necessário." Trowa afirmou. "Nem sabemos se o time Wing vai terminar em primeiro lugar. Posso não precisar ir."
"Bem, tenho muito a considerar," falou o Diretor. "Te retorno assim que der." Sorriu com benevolência. "Volte para o alojamento. Peço para alguém te chamar assim que tiver uma decisão."
"Sim senhor." Trowa mordeu o lábio inseguro. "Por favor, considere com cuidado. Senhor, eu me importo mesmo com Nanashi... muito."
"Posso ver e certamente terá um grande peso em minha decisão."
"Obrigado." Trowa saiu e voltou para o quarto apressado.
Enquanto isso, Diretor Kushrenada sorria amplamente, pegando um dos seus melhores charutos e uma taça de xerez. Seus dias caminhavam para o melhor.
Continua...
Resposta aos comentários:
DW03, espero que mesmo vendo em inglês continue acompanhando a tradução ^.^ E eu que agradeço os comentários! É um prazer compartilhar coisas boas. Abraços!
Lytthos-chan, obrigada por ler e comentar! A cada capítulo parece que Heero e Duo dão um passo para frente e dois para trás XD Se ainda não viu nada de Gundam, eu recomendo que assista a série (pelo menos o OVA, Endless Waltz), mas o manga... particularmente, eu não gosto. Que bom que está gostando! Abraços!
Lis Martin, esse sonho do Heero (capítulo passado) é uma das minhas partes preferidas dessa história! Espero que esse capítulo dê para matar um pouquinho da saudade ^_~ E vê se não vai ser pega no trabalho lendo fanfics XD Super obrigada por comentar! Abraços!
Lou-Is-A, o capítulo passado foi bom mesmo, mas daqui pra frente as coisas vão começar a esquentar... O sonho do Heero é uma das minhas partes preferidas XD A fic, ao todo, tem 65 capítulos contando com Prólogo e Epílogo e mais uma continuação que ainda não está terminada. Obrigada por comentar! Abraços!
Jen Collins, super obrigada pelo comentário, é bom saber que voltou a ler! Gosto muito dessa história e fico feliz em poder compartilhar ^.^ a autora tem um jeito mesmo de envolver o leitor com tantas intrigas e esse relacionamento maluco entre o Heero e Duo. Espero que goste do capítulo! Abraços!
