Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam


N/T: Dedicado a Litha-chan (Heero sendo mais "japonês" nesse capítulo XD), DW03 (Duo acanhado é fofo, mas ele também merece passar vergonha às vezes...) e Lis Martin (mais um capítulo postado, vitória! *joga o pc pra cima*)!


Campo de Treinamento

Capítulo Vinte e Seis: Determinação


Heero e Duo foram direto para o canil e o treinador os deixou entrar. Enquanto andavam entre as jaulas, conversavam em voz baixa sobre a competição.

Mas quando o jovem de trança pousou a mão na maçaneta, ouviu um gemido gutural do outro lado. Paralizou seus movimentos, sentindo uma sensação de déjà vu, e virou-se para o líder. "Ouviu isso?"

Então uma voz soou claramente, mesmo através da porta ainda fechada... uma voz esbaforida cheia de excitação. "Oh Trowa, não pare!"

Duo afastou-se de um pulo, virando os olhos arregalados para Heero. Quando o líder fez menção de abrir a porta, o rapaz de trança tentou impedí-lo. "Ficou doido, Yuy?" sussurrou.

"Tenha dó, Maxwell! Não vai tirar conclusões precipitadas de novo."

O nativo de L2 hesitou, claramente em dúvida. "Não acho que seja um mal-entendido dessa vez..."

"Vamos descobrir." Heero abriu a porta de supetão e Duo tapou os olhos.

"Yuy, não!"

O som de risadas o fez espiar por entre os dedos.

Quatre e Trowa estavam recostados na parede, com Nanashi aproveitando do carinho deste. Ambos ostentavam expressões nada inocentes.

Duo rodou os olhos. "Muito engraçado. Como sabiam que estávamos aqui?"

Trowa apontou para o monitor de segurança, mostrando a entrada do canil.

"Babacas," o rapaz de trança murmurou, enrubescendo.

Heero sorria perante a situação envergonhada de seu companheiro. "Você mereceu."

Duo abaixou a cabeça. "´Tá, mereci."

Quatre riu. "Se pudesse ver a sua cara quando o Heero abriu a porta!"

"Impagável!" Trowa completou, sorrindo de orelha a orelha. "Oras, Maxwell, você estava pedindo!"

O alvo das zombarias apenas concordou. "Eu sei... eu sei." Pareceu encabulado. "Desculpe ter sido um escroto essa semana."

"Só essa semana?" Trowa provocou, mostrando que não estava realmente bravo. "Desculpa aceita." Virou um olhar astuto para o líder. "Está decepcionado por não ter perdido a aposta, não é?"

"Aposta?" Duo perguntou desconfiado.

"Barton!" o tom de Heero era perigoso.

"Apostei com Yuy que sua massagem não ajudaria muito o meu ombro." Trowa explicou ainda com um sorriso. "Mas ele estava certo. Estou ótimo."

"Parecia mesmo que estava sendo ótimo," Duo admitiu, lembrando-se do que ouvira.

"O que apostaram?" Quatre perguntou.

Trowa riu, balançando a cabeça. "Yuy me mataria se contasse."

"Pode apostar." O líder manteve seu olhar no chão, sabendo que teria os curiosos olhos violeta atentos em si e se encontrasse, a vermelhidão em seu rosto o denunciaria. "Não está na hora do almoço?" Mudou de assunto bruscamente.

"Muito sutil, Yuy," Duo falou maliciosamente. "Ei, Tro', precisamos bater um papo."

Trowa balançou a cabeça. "Desculpa, Maxwell. Não vai rolar."

"Ei... me dá uma chance. Posso bolar um bom suborno."

"É, e o Yuy consegue me quebrar em dois," respondeu calmamente. "O segredo dele está a salvo."

"Puxa-saco," o rapaz de trança resmungou, ajudando a guardar os cachorros soltos.

Caminharam lado a lado num silêncio agradável, embora atraindo olhares confusos por Heero e Duo parecerem civilizados juntos.

O jovem de L2 olhou de relance para o líder ao seu lado, este que já superara seu receio de Trowa revelar a aposta e voltara ao seu estado normal reservado. "Uau... eu andei tão chato assim?" perguntou em voz baixa.

"Por quê?"

"É que ouvi alguém comentando como o nosso time está se dando bem pra variar," explicou, franzindo o cenho de leve.

Heero esforçou-se para não deixar um sorriso transparecer. "Acho que você andou mesmo muito chato, Maxwell."

"Hmph."

Quatre riu, aliviado pela irritação de Duo ser claramente falsa.


Quando chegaram ao refeitório, o rapaz de trança procurou por Jason, esperando ter a chance de se desculpar pelo que dissera antes, mas o compatriota não estava por lá. Ao invés disso, Duo se aproximou de dois companheiros do time.

"Ei, Ben, o Jase está por aí?"

"A doutora quer que ele fique com o joelho para cima o máximo possível. Está no dormitório com o Adam." Analisou Duo. "Como estão as coisas?"

"Bem," o jovem do time Wing deu um meio-sorriso. "Eu meio que devo uma desculpa pra ele por ter apelado da outra vez." Deu de ombros. "Não tive uma manhã muito boa."

"Dá um pulo lá se quiser."

"Talvez. Ainda não sei o cronograma do dia. Pode dizer pra ele que quero uma chance pra me desculpar? Talvez mais tarde?"

Ben riu maliciosamente. "Como se você precisasse se desculpar com o Jase," comentou com sarcasmo.

"Acredite em mim. Eu preciso," Duo afirmou. Viu que seus colegas já estavam na fila de comida, então pediu licença e foi se juntar a eles.

"Tudo bem?" Heero perguntou, tentando ao máximo não soar ciumento.

"Tudo. Parece que o Jase tem que ficar de pernas para o ar. Ordens médicas." Os olhos violeta se focaram no líder. "Será que dá para dar uma passada no quarto deles depois, pra eu me desculpar?"

Heero hesitou por meio segundo, o suficiente para Duo perceber seu desgosto pela idea. Mas, por fim, assentiu. "Pode ser."

O jovem de L2 se mostrou desconfiado. "E você não vai ficar com ciúme, vai? Porque eu já disse que ele é só um amigo e eu não minto, nunca."

Heero tentou parecer casual. "Por que eu ficaria com ciúme?" questionou friamente.

Duo se aproximou. "Por eu ser irresistível?"

Heero bufou com ceticismo, colocando a sobremesa ao lado do prato de comida. "Metido," provocou, mantendo o rosto impassível.

"Presunçosamente confiante," sorriu de volta. "Como naquele dia de visitas." Ah sim, ele gostava de pensar naquele dia... no colo de Heero.

A expressão de desprezo do adolescente sério não era nada convincente, então ele pegou sua bandeja e foi até a mesa. "Menos conversa e mais mastigação, Maxwell."

"Senhor, sim senhor," sorriu.

Com as suas diferenças resolvidas, os quatro integrantes do time Wing finalmente alcançaram uma relação mais relaxada. Decidiram pular o jogo tradicional do fim de semana para planejarem como atingir o melhor desempenho na competição. Portanto, após terminarem de lavar as roupas e limpar o quarto, juntaram-se no que sobrou da tarde para discutir seus pontos fortes e fracos, com algumas cutucadas e brincadeiras.

Após uma breve pausa para o jantar, voltaram aos estudos e foram dormir mais cedo, todos precisando de boas noites de descanso após o dia cheio de emoções.


O dia seguinte era outro dia de visitas e, novamente, Trowa e Quatre receberiam seus familiares.

O artista circense estava particularmente ansioso, sabendo que teria que apresentar sua irmã para o Diretor com a intenção de faciliar a transição de Nanashi. Não que ele duvidasse da aceitação dela do cachorro, mas preocupava-se com uma repentina mudança de planos de Kushrenada. Suas preocupações se dissiparam quando um guarda chegou no quarto e lhe deu o recado de ir encontrar com o carceireiro no canil antes de ir ao centro de visitas.

"Ei, Quatre, quer vir comigo?" convidou esperançoso.

Quatre olhou para Duo rapidamente. "Tudo bem com você?"

Duo se aborreceu. "Puta que pariu, eu estava tentando te proteger, Quat. Não dá pra esquecer isso?"

O loiro sorriu com ternura. "Dá sim. E a propósito, posso não ter agradecido, mas apreciei o gesto."

"Só estava tentando vigiar a retaguarda de um companheiro de equipe," respondeu envergonhado.

"Sendo assim, eu assumo daqui," Trowa os assegurou, colocando-se ao lado de Quatre. "Vamos. Depois de conversar com o K., passamos no centro de visitas e te apresento a minha irmã."

O loiro assentiu. "Que ótimo. Até mais, Duo... Heero." Enquanto saia pela porta, voltou-se por cima do ombro. "Não façam nada que nós dois não faríamos!"

Duo se avermelhou por completo, praticamente reluzindo, e escondeu o rosto atrás de uma revista em quadrinho, esperando que o líder não notasse.

Mas, claro, o onisciente rapaz de olhos azuis notou. "O que foi, Maxwell? Cadê a sua confiança presunçosa hoje?"

De algum modo, estando sozinhos, Duo percebeu seus nervos vacilarem. Não conseguia flertar com o alvo de suas afeições sem ninguém para encobri-lo se algo desse errado. "Estou lendo," retrucou toscamente, sabendo que era uma resposta barata.

Heero riu baixinho, sentando-se na cadeira na frente do laptop. "Bem, tenho certeza de que o meu 'docinho de coco' pode me manter ocupado." Seus dedos deslizaram suavemente pelo teclado.

Os olhos índigo se desviaram rapidamente da revista, e ele suspirou internamente. Ah, como adoraria trocar de lugar com aquela maldita máquina!


Meia hora depois da saída de Trowa e Quatre, houve uma batida na porta.

Heero ergueu o olhar do laptop e pareceu confuso. "Entre."

Capitão Chang entrou, fechando a porta atrás de si.

"Nem brinca que a Relena veio de novo…"

Duo riu. "Ah, desencana, Yuy," brincou. "Eu te ajudo a se livrar dela de novo." Inclinou-se no canto de sua cama, dando ao outro rapaz um sorriso provocativo. "Podemos fazer uma performance que ela nunca esqueceria." Nem eu…

As faces do líder se avermelharam, e abriu a boca para responder.

"Relena não está aqui," Wufei interrompeu seriamente.

"Ah. Então tem outra razão para essa visita," Heero comentou.

"Pra falar a verdade, vim principalmente para ver Maxwell."

"Devo me retirar?" o jovem de olhos azuis perguntou franzindo a testa, tentando entender o que Wufei estava armando.

"Não é necessário," o Capitão respondeu logo, indo sentar na beira da escrivaninha, encarando Duo.

O rapaz de trança estudou as feições tensas no rosto do oficial chines. "Me meti em encrenca, senhor?"

"Não," Wufei o assegurou.

"O que aconteceu, Chang?" Heero questionou com firmeza, fechando o laptop e focando-se no amigo de longa data.

"Carroll está na enfermaria," o Capitão informou cuidadosamente, olhos sem se desviarem do rosto do recruta de L2.

"O quê?" Duo sentou-se de uma vez, atento. "Por quê? O que aconteceu com ele?"

"Aparentemente ele foi severamente espancado ontem a noite." A expressão de Wufei denunciava a sua raiva.

"Aparentemente?" os olhos indigo faíscaram com suspeita. "Ele não pode te dizer o que aconteceu? Ele não está… ele não-?"

"Não, apenas inconciente," Wufei se apressou em contar. "Ainda bem que dois dos colegas de time dele decidiram procurá-lo após ele ter sumido por uma hora."

"Onde ele estava? O que aconteceu?" As mãos de Duo se fecharam ao redor da coberta.

"É difícil determinar." O Capitão deu de ombros. "E não sei se ele vai recuperar a consciência antes da ambulância aérea* chegar."

"Ambulância aérea? Ele está mal assim?" perguntou com um certo desespero, nem mesmo reparando na mão reconfortante de Heero em cima da sua.

"A doutora Po ainda não tem certeza," o militar admitiu. "Ela acha que há alguns ferimentos internos, então mandá-lo para um hospital fora da base onde ele possa fazer cirurgia é o melhor a se fazer."

As feições de Heero se escureceram. "E você não sabe quem foi."

"Ah, até parece, Yuy!" Duo explodiu. "Sabe que foi o puto do Norton e sua gangue de idiotas!" Pulou de sua cama e começou a andar de um lado para o outro.

O capitão suspirou. "Ainda estamos investigando." Entregou um pedaço de papel para o rapaz inquieto. "Achamos isso no bolso dele."

Duo pegou e seu queixo caiu quando leu. "Não escrevi isso, Chang."

Heero tomou o papel dos dedos trêmulos do companheiro e leu em voz alta. "Jase, por favor, podemos conversar? Sozinhos. Atrás do vestiário, 21h – Duo."

Os olhos azuis se tornaram sombrios. "Duo não saiu do quarto ontem a noite, e estávamos todos acordados às 21h."

O jovem de trança parecia prestes a passar mal. "Merda. Eles sabiam."

"Sabiam o quê?" Wufei perguntou suavemente.

"Sabiam que o Jase... gostava de mim. E que eu gritei com ele ontem no refeitório." Fechou os olhos, colocando uma mão no rosto. "Os desgraçados sabiam que o bilhete o faria ir de qualquer jeito." Sua voz se entrecortou. "Esses filhos da puta me usaram para ferrar com ele."

"Na verdade, acredito que estejam usando Jase para ferrar você," Heero considerou. "Norton sabe que vocês são... próximos."

"Aw, que merda!" Duo rosnou, virando um olhar furioso para Chang. "Não pode mandar o Norton pra cadeia por isso?"

"Se puder provar, claro," Wufei afirmou. "Mas ele estava de serviço na cozinha até as 21h. Não tem como ele ter entregado o bilhete. Os companheiros do Jason encontraram o papel debaixo da porta quando voltaram do jantar. Deve ter sido alguém do time e não o próprio Norton."

"Então coloca esses malandros contra a parede até um deles abrir o bico!" Duo falou acaloradamente.

Wufei deu de ombros. "Estou tentando, Maxwell. Por que acha que demorei tanto para vir te contar? Eu estava pressionando o time todo do Norton por quase a noite toda. Juram que estavam na biblioteca, e tem testemunhas que concordam."

Os olhos índigo observaram o oficial com atenção, notando as olheiras, e as linhas de cansaço na face. "Deixa que eu os interrogo," sugeriu. "Me dá quinze minutos sozinho com qualquer um deles..."

Um sorriso passageiro apareceu nos lábios do chinês. "E daí eu teria que te mandar para L2, não?"

"Provavelmente," concordou. "Mas pode valer a pena..."

"Não. Vou achar um jeito," Chang atestou firmemente. "O ódio mútuo deles era conhecido por todos. Vou continuar tentando provar que o time do Norton provocou o ataque com ou sem o líder." Suspirou, frustrado. "Enquanto isso, sabem se Carroll tinha outro inimigo?"

"Não!" Duo respondeu prontamente. "E pare de falar nele no passado. Ele não está..." Sua voz se perdeu e deu as costas ao Capitão, tentando se recompor.

'De acordo com o que ele disse na entrevista com a psicóloga, ele perdou a todos que amou.'

As palavras de Wufei ecoaram na cabeça de Heero e ele estendeu a mão para colocá-la no ombro do amigo. "Ele vai ficar bem –"

Mas o rapaz de trança estapeou a mão. "Não me toque, Yuy!" esbravejou. Não se importe comigo. Ou vai morrer também, como todos os outros.

"Duo, Jason vai ficar bem," o líder falou. "Não vai perdê-lo. Ele não vai morrer só porque ele gosta de você."

O rapaz emocionado olhou por cima do ombro, impressionando o quão próximo o companheiro chegara de ler seus pensamentos.

"O helicóptero médico é só precaução, certo, Chang?" Heero perguntou.

"Por enquanto, a doutora Po está sendo cuidadosamente otimista," respondeu vagamente e suspirou. "Talvez eu deva deixá-los a sós. Tenho uma investigação para conduzir."

Duo o parou. "Posso ver Jase antes de ele ir?"

"Ele está inconsciente, Maxwell..."

"Mesmo assim," insistiu. "Só quero vê-lo."

"Vou perguntar para a doutora. Se ela concordar, vou mandar Carter para vir te buscar." Chang se foi, fechando a porta silenciosamente.

O jovem de cabelos compridos suspirou pesadamente e xingou.

"Não é culpa sua, Duo," Heero afirmou.

"Claro que é. Se eu o tivesse deixado no canto dele desde o início..."

"Primeiro, ele que chegou em você, não ao contrário," Heero o lembrou. "Segundo, Norton só passou a te odiar depois de eu eliminá-lo naquele jogo de baseball. Então é tão minha culpa quanto sua."

Duo pareceu desdenhoso. "O tipo de ódio dele não começa do dia para a noite, Yuy. Ele pode não ir com a sua cara por uma razão ou outra, mas a raiva dele com homossexuais é muito mais profunda." Os olhos índigo avaliaram o líder. "Ele não deve se tocar que você também é gay ou você também seria alvo da violência."

Heero não conseguiu resistir um sorriso. "Talvez eu deva te dar um beijo na frente de todo mundo na calistenia amanhã, aí não tem como ele não perceber," sugeriu casualmente, aproximando-se do companheiro de time.

O queixo de Duo caiu e uma vermelhidão tomou conta de seu rosto. "V-você não ousaria-?" gaguejou, desesperadamente tentando procurar um pensamento coerente. Mas tudo que conseguiu foi pensar em algo como oh por favor, oh por favor, oh por favor...

O sorriso de Heero se abriu ainda mais. "Não, eu não ousaria." Sua mão pousou gentilmente no rosto de Duo, o polegar trançando levemente os lábios perfeitos. "Um primeiro beijo não deve ser dividido com estranhos em volta..." Seu rosto se inclinou, os olhos focados apenas nos lábios a sua frente.

E então uma rápida batida na porta fez os dois se afastarem de repente antes de Carter aparecer.

O soldado observou-os por um momento. "Estou interrompendo alguma coisa?"

"Não, de modo algum," o líder falou com tato, virando-se para voltar a abrir o laptop.

"Chang disse que você pode ir para a enfermaria, Maxwell, mas tem que ser logo, o helicóptero chegou e estão quase prontos para levar o Carroll."

Duo esforçou-se para recuperar o fôlego perdido enquanto se afogava nos azuis dos olhos de Heero, e precisou obrigar-se a desviar a atenção da sensação do hálito quente do líder em seus lábios. "Uh... é, 'tá," balbuciou, fazendo aparecer seu sorriso característico e seguindo o militar. Olhou por cima do ombro antes de sair, e o líder encontrou o seu olhar com um sorriso e uma piscadela.

Com aquele simples gesto para levantar o ânimo, o jovem de L2 conseguiu controlar suas preocupações e seguir Carter até a enfermaria. "O Capitão falou algo do estado de Jase?"

"Estável," respondeu. "Quem o agrediu fez um bom trabalho." Viu a expressão tensa no rapaz ao seu lado e colocou uma mão ao redor dos ombros do menor enquanto caminhavam. "Não se preocupe. Se alguém pode encontrar o culpado disso, é o Chang. Continue com pensamento positivo na recuperação do seu amigo."

Duo assentiu, não convencido. Não achava que tinha pensamentos positivos o suficiente para ajudar. Tudo o que podia pensar era que mais alguém próximo havia se machucado e, mais do que nunca, era sua culpa.

A doutora Po movimentava-se agitadamente pela enfermaria quando chegaram, orientando os enfermeiros como mover o paciente seguramente para a maca. Virou-se rapidamente para os dois recém-chegados. "Maxwell!" seu tom de voz era educado, mas breve. "Só posso te dar um ou dois minutos. Quero esse rapaz fora daqui o mais rápido possível."

O jovem de trança concordou. "Obrigado por me deixar visitar." Viu o rosto ferido de Jason e estremeceu, gentilmente acariciando o bochecha dele. "Ah, que merda, Jase. Não era pra isso acontecer. Desculpa," murmurou. Percebeu os tubos de intravenosa e todas as faixas cobrindo o corpo deitado. "Vê se melhora, caramba – me ouviu? Nós, ratos de rua, somos resistentes, então nem pense em morrer!"

Jason não se mexeu, a respiração continuou devagar.

Duo se aproximou para sussurrar no ouvido do amigo. "Não se preocupe, cara. Vamos achar um jeito de provar que foi o Norton! Nem que eu tenha que enchê-lo de porrada até ele confessar!"

Pode ter sido apenas imaginação, mas o jovem de L2 jurava ter visto uma pontada de sorriso nos lábios de Jason.

"E melhore logo pra voltar. Vou sentir sua falta." Deu um passo para trás, encontrando a doutora Po ao seu lado, vendo a maca ser levada para a ambulância aérea.

"Não se preocupe," ela falou gentilmente. "A saúde dele é excelente e ele está estável por hora. Chegará ao hospital sem piorar sua condição."

O rapaz só conseguiu assentir com a cabeça miseravelmente. Homens não choram! Respirou fundo, trêmulo, passando uma mão pelo rosto. "Obrigado por deixar eu me despedir."

"O Capitão disse que vocês dois são... próximos," a doutora comentou.

"Jase é outro órfão de L2 como eu," deu de ombros. "Nos demos bem logo de cara." Olhou para a doutora de soslaio, franzindo o cenho. "Vão cuidar bem dele, não vão?"

"Claro que sim." Ela viu a dúvida em sua expressão. "Não acredita em mim."

"Eu..." ele parou, dando de ombros. "Quando se está inserido em um sistema que ignora pessoas sem dinheiro, aprende-se a esperar um tratamento de segunda ou nenhum."

"Está falando das clínicas de L2?" a doutora fez uma careta. "Ouvi falar delas... recusando os pacientes que mais precisavam." Balançou a cabeça. "Não é assim aqui. Ele vai para um hospital particular, as despesas pagas pelos impostos, e ele vai receber todos os cuidados que precisa. Prometo."

Duo sorriu e ela se maravilhou com o esplendor nos olhos índigo.

"Pronto para ir, garoto?" Carter perguntou, apontando para o alojamento.

"Posso ir sozinho..." Duo começou.

Mas logo foi interrompido por Carter. "Capitão Chang quer que eu me certifique que você não faça nenhum desvio no caminho, Maxwell." Abriu um sorriso feral. "Ele parece achar que você pode se perder e acabar no quarto do Time Fraction sem querer querendo."

Duo conseguiu forçar um sorriso. Na mosca! Era basicamente o seu plano. Foi um recruta bem deprimido que seguiu o soldado de volta para o quarto do Time Wing.


Tão logo Duo e Carter saíram, Heero fechou o laptop e discretamente saiu do quarto. Wufei pedira a Maxwell para não ir atrás do time do Kyle, mas não falara nada para um tal de Heero Yuy.

O líder casualmente andou pelos alojamentos, ficando próximo dos edifícios, lentamente fazendo o seu caminho até a base inimiga. Uma rápida analisada pela janela o revelou que estava vazia, então resolveu caminhar até o vestiário, como quem não quer nada, esperando encontrar a trilha de Kyle.

Não esperava encontrar logo quem procurava saindo do escritório do Diretor, com uma expressão de extraórdinária satisfação. Heero parou em uma sombra, assistindo a presa andar com a intenção de voltar aos alojamentos. Perturbou-se com a cena. O que Kyle estava fazendo confabulando com Kushrenada?

A primeira razão que lhe surgiu foi que Kyle estava, de alguma forma, conspirando com o carcereiro, provavelmente o informando sobre os outros internos. Um sorriso frio apareceu no rosto de Heero; o que os companheiros de time de Kyle achariam se soubessem que o líder deles estava dedurando todo mundo para o Diretor? Seria um belo modo de ostracizá-lo dos outros recrutas... se a informação vazasse.

Heero esperou para aparecer na frente do inimigo até o último momento possível, e a reação de susto do outro foi muito gratificante. "Norton, precisamos conversar."

Kyle recuperou a compostura rapidamente, procurando em volta, confirmando estarem desacompanhados. "O que quer, Yuy?"

"Já falei... conversar. Essa luta entre times tem que acabar."

O outro rapaz se surpreendeu, e balançou a cabeça, zombeteiro. "Deve estar de sacanagem. Acha que bater um papinho vai resolver? Esquece."

"Você veio atrás de mim e de Maxwell com um taco de baseball... e agora colocou o Carroll no hospital."

"Não fui eu, Yuy. Eu estava na cozinha. Pergunta pro Chang," sorriu desdenhoso. "Falando nisso, meu time inteiro tem um álibi para ontem a noite. Eles estavam na biblioteca e dois guardas podem confirmar."

Guardas? Guardas da prisão? Kushrenada está por trás da coisa toda? As peças começaram a se encaixar e começou a adivinhar a verdadeira relação de Kyle com o cruel carcereiro. Deve ser mesmo um informante... revelando quem são os amigos de Duo e como atingí-los para conseguir forçar o nativo de L2 a fazer alguma burrice, e mandá-lo para o xilindró.

Pelos deuses, Yuy! Você está ficando tão paranóico quanto o Maxwell. Não tem razão para achar que Kushrenada iria tão longe... ou tem?

Temporariamente abandonando essa trilha de pensamento, Heero decidiu permanecer focado no problema em mãos. "Só estou te avisando desde já, Norton... da próxima vez que você sequer olhar torto para o Duo..."

"Vai contar pro Chang?" completou com escárnio. "Vai fundo. Seja um X-9 e vai chorar na barra da saia do Capitão. Como se eu desse a mínima..."

"Não vou contar pro Chang," Heero corrigiu com calma. "Vou direto em você... uma noite dessas... quando você menos esperar." Os olhos azuis estavam acesos com uma luz pecamiosa enquanto encarava o metido a valentão. "E não perca seu tempo achando que pode se esconder. Porque eu vou te achar. Vou te encontrar pelo cheiro de medo que exala de você." Sorriu maléficamente, exibindo duas fileiras de dentes brancos. "E vou fazer com que se arrependa de ter nascido... antes de te matar."

Kyle o encarava boquiaberto. "V-você não pode me ameaçar!"

"Posso."

"Vou contar pro Kushrenada!"

"E agora quem é o X-9?" foi a vez de Heero zombar. "Aposto que seus colegas vão adorar saber com quem você troca uma ideia no seu tempo livre." Sabia que qualquer um amiguinho demais do carcereiro corria o risco de ser ignorado pelos outros, para não dizer persseguido por isso.

Kyle só conseguiu encará-lo de volta, com mais pavor do que desafio. "Por que quer proteger um bando de bichas, Yuy? E daí se acontecer alguma coisa com eles?"

"Duo é do meu time; Jason era um amigo," Heero respondeu vagamente, quase se recriminando por ter usado o pretérito se tratando do segundo. "E você é um cabeça de ervilha, um homofóbico patético dando uma de vilãozinho. Precisa acordar pra vida."

O outro rapaz contorceu o rosto. "Você é quem precisa acordar, Yuy. Cuida da sua vida e para de mimar um viadinho de L2. Ele vai ter o que merece cedo ou tarde."

"Você também," prometeu sem hesitar. "Lembre-se disso quando apagar as luzes hoje a noite." Virou-se e se retirou, deixando Kyle inquieto e hesitante até finalmente julgar seguro voltar para o quarto.

Continua...


*Medevac: um termo usado para o helicóptero-ambulância de resgate, usado para evacuação médica rápida.