Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam


N/T:
Dedicado à Litha-chan (menina, se no capítulo passado mexer na nuca foi golpe baixo, nesse aqui tem uma covardia atrás da outra!) e Lis Martin (que bom que gostou do capítulo anterior! Falei que as coisas iam esquentar ^_~ e desculpa o sumiço!), o que seria da tradução dessa fic sem vocês duas?! Muito obrigada mesmo! E Kinrra, fico sempre feliz em ver quem já leu a fic voltar para conferir a tradução, obrigada pelo elogio e pelo comentário! Presente de feriado! Boa leitura!


Capítulo vinte e nove: Traições

Campo de Treinamento

Foi Quatre quem reparou que Duo mancava discretamente quando voltavam dos vestiários. "Quando machucou o tornozelo?" perguntou, seus astuciosos olhos verde-azulados fixados na perna do amigo.

"Ah... caí desajeitado descendo a parede... o chão estava muito macio," Duo murmurou, tentando, com muito esforço, não deixar transparecer seu andar irregular.

"Que tal uma parada na enfermaria?" sugeriu o loiro.

"Boa ideia, Winner," Heero respondeu antes do jovem de cabelos compridos poder protestar. "Vamos todos."

Sendo assim, os quatro rapazes foram visitar a doutora Po. Ela examinou o tornozelo do Duo, declarando uma leve torção, e o enfaixou firmemente, extraindo a promessa de que ele manteria o pé elevado pelo resto da noite e não faria esforço no dia seguinte.

"Mas ainda posso participar da corrida, né?" perguntou desconfiado, lançando a ela seu melhor olhar pidão.

Ela fez uma careta. "Se quiser deixar seu pé doer pra caramba nos próximos dias, vá em frente," resmungou sarcástica.

Ele sorriu alegremente. "Obrigado, doutora!" já estava porta a fora antes de ela poder esclarecer sua brincadeira.

"Não sabe o que é sarcasmo?" a médica gritou na direção de onde o rapaz saíra.


Heero olhava irritado para o companheiro de trança enquanto cruzavam o campo. "Por que não falou do ferimento antes, Mawell?"

"Porque não é nada demais," deu de ombros.

"Será se te tirar da competição."

Os olhos índigo se estreitaram. "Vou precisar de mais do que isso pra me incapacitar, Yuy. Já escapei de policiais com o meu braço quebrado... acho que consigo correr com o tornozelo um pouco dolorido."

"Você devia ter me avisado," insistiu.

Soltando um suspiro frustrado, Duo cruzou os braços. "Que saco, Yuy. Já sou crescidinho. Acho que consigo diferenciar um ferimento grave de um 'dodói'." Então sua expressão ardilosa retornou e piscou sensualmente para o líder, sabendo exatamente como melhorar o humor dele. "Mas se quiser me carregar para o quarto, querido, eu adoraria."

Os olhos azuis miraram-se perigosamente no companheiro e, de repente, Duo se viu ser levantado como uma boneca de pano e ser jogada por cima de ombros fortes.

"Yuy! Me põe no chão!"

"Você disse que ia adorar."

"Não achei que fosse me carregar!"

"Já devia saber que não pode me desafiar, Maxwell. É claro que vai sair pela culatra."

"Heero... isso não é muito confortável!"

"Não é pra ser."

Suplicou para Trowa e Quatre que os seguiam. "Ei! Podem me dar uma mão aqui?"

Como se aproveitando a deixa, os dois começaram a aplaudir... exageradamente.

"Odeio vocês!" Duo reclamou, grunhindo em desconforto enquanto o ombro de Heero machucava o seu abdômen.

Os outros dois começaram a rir tanto que precisavam se apoiar um no outro para não caírem no caminho.


O alarme das cinco da matina pareceu especialmente mais cedo na manhã seguinte. Após ser atirado em sua cama sem cerimônias, Duo se recusou a descer de novo pelo resto da tarde, citando "ordens médicas". O líder resolveu lidar tranquilamente com a situação, não se deixando afetar, portanto, resultando num empate entre os dois cabeças-duras, embora, em dado momento, uma discussão entre eles os mantiveram acordados mais tarde do que de costume. Por conta disso, muitos bocejos e grunhidos se seguiram quando tentavam se levantar.

Duo flexionou o tornozelo, dando passos experimentais pelo quarto. "Tá tranquilo," decidiu, notando Heero o observando.

"Sério?"

"Quantas vezes vou ter que repetir que não minto?" rebateu exasperado.

"De onde tirou isso?" Trowa perguntou do outro lado do cômodo, vestindo a camisa e passando uma mão pela franja. "Você realmente não mente?"

"Realmente," Duo respondeu sério. "Posso evadir uma pergunta, mas não vou contar uma mentira deslavada... nunca."

"Por quê?"

Duo deu de ombros, desviando o rosto, incomodado. "Prometi a alguém há muito tempo."

"Quem?"

"Irmã Helen... e Padre Maxwell," admitiu, sem tirar os olhos do seu baú. "No orfanato."

"Oh." Trowa abandonou esse caminho de perguntas, percebendo que investigar mais apenas irritaria o companheiro. Achou já ter revelações demais naquele dia.


Após os exercícios matinais e o café-da-manhã, todos os internos se reuniram na pista, que era onde a trilha da corrida começaria e terminaria. Apesar de boa parte do percurso ser fora da base – na floresta e nas montanhas – soldados correriam junto com os detentos para assegurarem a regra de 'sem-brigas'.

Além da escolta, cada time teria sua largada a cada quinze minutos para diminuir a chance de um grupo se encontrar com o outro.

O Capitão colocou o time Wing na frente, achando ser o mais seguro a fazer, pois nenhum dos outros poderiam armar uma emboscada ou armadilha.

A corrida de nove quilômetros e meio tinha o objetivo de testar o vigor físico individual. Para o evento, o time não precisava se manter unido. Na verdade, era esperado que alguns não chegassem até o final.

Claro que a expectativa era de que todos os quatro do time Wing terminassem.

Trowa estabeleceu um passo contundente, com suas pernas longas e corpo esguio. Heero corria como uma máquina... estável e incansável. Já Duo e Quatre não ficavam muito atrás. Por volta do sexto quilômetro, Heero ultrapassou um Trowa cansado, e o acrobata decidiu lutar pela liderança. A essa altura, os outros dois se distanciaram dos companheiros competitivos, contentes em manter um ritmo lado a lado.

E mais uma vez, no fim da manhã, o time Wing conseguira os melhores resultados. No individual, Austin empatara com Duo e Quatre pelo terceiro lugar geral, mas em se tratando de times, ninguém rivalizava com Wing.

Com os tempos de largada diferentes, foi assegurado que cada grupo, ao terminar a corrida, pudesse se banhar e trocar de roupa sem outros grupos por perto. Outra precaução que Wufei pensou ser sábia. Além de ter um soldado vigiando a entrada do vestiário para desencorajar qualquer tipo de provocação.

Quando todos os detentos estavam reunidos no refeitório para o almoço, Capitão Chang anunciou a surpresa.

"Primeiramente, gostaria de parabenizar cada um de vocês pelo respeito que demonstraram essa semana." Seus olhos negros esquadrinharam o local. "Sei que a competição pode causar rivalidades, mas todos se comportaram surpreendentemente bem. Espero que continue assim." Seu tom carregava um claro aviso. "Em segundo lugar, em vista do crescimento que percebi na maturidade em geral, decidi permitir a cada um de vocês a oportunidade de testar o último modelo do Simulador Mobile Suit." Ante os olhares questionadores, abriu um sorriso astuto. "É uma estrutura montada perto do acampamento... vocês entrarão em uma réplica perfeita de uma cabine de um mobile suit, com uma tela interativa de realidade virtual que os permitirão experimentar a sensação de pilotar de verdade, sem os reais perigos. Bem... sem muitos perigos." Deu de ombros. "Tem também motores programados para imitar o movimento de um suit de verdade, então podem ficar um pouco abalados se levarem a simulação a sério." Apontou para os Cabos. "Cada soldado trará o seu grupo para o campo depois do almoço. Poderemos assistir a cada tentativa no simulador."

Enquanto os rapazes retornavam à suas refeições, Wufei sorriu para os tenentes ao seu lado. "Vai ser bom pra dar umas risadas, no mínimo."


Assim foi, após o almoço, os rapazes sentaram-se agrupados, tendo que olhar para cima para ver a estrutura de metal da altura de uma casa e que genuinamente se parecia com a cabine de um mobile suit. Tinha uma armação ao redor, permitindo os motores se moverem e girarem para uma experiência mais verdadeira. Um telão do lado de fora permitia aos espectadores verem o que a pessoa dentro do simulador via.

Wufei ficou ao lado da estrutura com um leve sorriso em sua face geralmente séria. "Isso, recrutas, é o Simulador de Mobile Suit. Dentro dele, contém programas interativos para testar sua aptidão em pilotar na vida real. Os mecanismos do lado de fora possibilitam 'viver' a experiência como se estivessem mesmo dentro da coisa autêntica." Seu sorriso se tornou perverso. "A maioria dos novos recrutas vomitam na primeira vez. Espero que tenham tido um almoço leve... voluntários?"

Heero escolheu esse momento para puxar a trança de Duo e quando este ergueu a mão para afastar a do líder, o Capitão sorriu ainda mais largamente.

"Maxwell! Que ousado. Vem pra cá."

Duo virou-se enraivecido para Heero. "Vai pagar por essa, Yuy!"

O líder sorriu em retorno. "Promessas vazias."

Visivelmente tenso, o cidadão de L2 se aproximou do Capitão olhando desconfiado para a grande máquina. "Ah, considerando aquele almoço leve, senhor... não é melhor mandar outra pessoa primeiro?"

"Sua mão foi mais rápida, Maxwell," respondeu sem pestanejar. "Sorte sua." Apontou para a máquina. "Tente não vomitar nos controles, tá? É um saco limpar."

"Hum, certo. Vou tentar me controlar," murmurou sarcástico, seguindo um tenente para ser preparado corretamente. Após uma breve explicação sobre os controles e o que esperar, o soldado, com uma piscadela, saiu.

Quando a porta se fechou, Duo estava em uma vasta expansão de escuridão com a voz suave do Capitão soando pelo rádio, sua única comunicação com o lado de fora.

"Pronto, Maxwell?"

"Como nunca," suspirou. A tela se acendeu com um cenário ao fundo e um quadriculado sobreposto para facilitar a mira. "Uau," admirou-se. "Tipo um fliperama, só que... uau!" seus lábios se esticaram num sorriso enquanto experimentava com os controles de movimento e armamentos. "Uau."

Depois de cerca de quinze minutos, o Capitão o mandou parar e Duo desceu do simulador um pouco trêmulo, mas de excitação. Seu rosto estava avermelhado e ofegava um pouco, a franja grudada na testa suada. Mas seus olhos estavam acesos, alegres como o largo sorriso no rosto. Virou-se para Chang, rindo. "Caraca! Que demais!"

O oficial ergueu uma sobrancelha. "Pelo jeito, gostou."

"Pra caramba! É incrível!"

Wufei parecia vagamente desapontado. "Não se sente um pouco enjoado?" perguntou quase entristecido.

"Nem um pouco." Sentou-se novamente ao lado de Heero com uma expressão de pura malícia. "Acho que foi melhor do que sexo."

Wufei não segurou o riso perante a exaltação de Duo. "Acho que ninguém fez essa comparação antes."

Heero o olhou longamente de soslaio.

"'Tôfalando," Duo insistiu. "Foi a maior viagem!"

"Talvez você não tenha transado com a pessoa certa, Maxwell," Heero comentou casualmente.

O rapaz de trança parou por um momento; se seu rosto já não estivesse avermelhado, teria corado. Mas forçou um tom convencido. "Isso é uma proposta?"

O Capitão interrompeu rapidamente. "Mantenha o foco, Maxwell! E, Yuy, você é o próximo."

Heero se levantou, encarando a expressão provocante de Duo. "Te respondo depois de testar o simulador."

Duo ficou boquiaberto enquanto o via se afastar, perguntando-se o quão sério o outro falava ou se era apenas mais flerte casual. "Idiota," murmurou.

Quatre se aproximou do melhor amigo. "Como foi, Duo?"

"E pode deixar as referências sexuais de lado, Maxwell." Trowa também se aproximou para ouvir.

O jovem de L2 jogou um braço ao redor do loiro. "Oras, Barton, todas as outras comparações não são suficientes."

"Fala aí, como foi," Quatre persistiu.

Duo começou uma descrição detalhada que manteve os três ocupados até terminar o turno de Heero e este saiu do simulador tão suado e jubilante quanto seu antecessor.

"E aí?" Duo o recepcionou.

"Em segundo lugar, mas quase," Heero deu seu parecer, sem conseguir esconder o sorriso. "Acho que posso me acostumar com isso."

Duo quase perguntou se o líder gostaria de tentar o sexo para poder comparar melhor, mas sua coragem o falhou. E, além do mais, sentia-se tão esgotado pela concentração usada na simulação que provavelmente não teria energia... bem, pelo menos não para fazer jus a Heero. Deixou-se cair de costas na grama, grunhindo para as ideias rondando sua mente.

Heero deitou-se ao seu lado, enquanto Quatre se dirigia para o simulador. "Então, o que acha de vir comigo para a Academia, Duo?" perguntou baixo, num tom íntimo.

O jovem de L2 se virou para o líder. "Lá a gente pilota suits que fazem todas essas coisas?"

"É por aí."

"Tá," olhou para o céu novamente. "Onde eu assino?"

Heero fechou os olhos, simplesmente curtindo a perfeição do momento. Mas era o último momento perfeito por um longo tempo.


Na manhã seguinte, a competição centrou-se em lutas, então foram todos para o ginásio para torcer e participar das eliminatórias. O primeiro a conseguir acertar três vezes os pontos designados no corpo ou que derrubasse o oponente, ganhava o turno.

Contudo, Chang calculara mal um detalhe. Dessa forma, ele não tinha controle dos pares dos confrontos. Quando chegaram as oitavas de final, os quatro do time Wing, mais Kyle Norton, Austin Pritchard, e Ben e Adam do time do Jason se classificaram.

O Tenente Li analisou. "Está contando que Barton vai derrotar Maxwell?" perguntou em particular.

"Alegraria meu dia," o oficial suspirou.

Entretanto, não tivera tanta sorte. Enquanto Kyle conseguira derrotar Austin, Duo tivera muita sorte quando Trowa escorregara em uma toalha deixada perto demais do círculo e conseguiu derrubá-lo. Heero não teve muito problema com Quatre, apesar da excelência tática do loiro, e Ben derrotara Adam.

As finais foram determinadas por sorteio.

"Norton e Jacobs...Yuy e Maxwell," Li anunciou, trocando um olhar preocupado com o Capitão. Ambos tinham a esperança de que Norton caísse contra Yuy, o que eliminaria a possibilidade de Maxwell lutar com o seu arqui-inimigo. Mas as chances de Norton contra Jacobs eram boas e o resultado de Yuy e Maxwell era imprevisível.

A última coisa que Wufei queria era Maxwell entrando no ringue com Norton. Era certo de que a luta não acabaria sem ferimentos graves para um ou mesmo para os dois. E apesar de que não se compadeceria em ver Norton derrotado violentamente, após ver como Maxwell lidou com o simulador, não queria o rapaz de L2 ferido. E definitivamente não queria enviá-lo para a cadeia após machucar outro detento.

Cruzou os dedos na luta de Norton contra Ben Jacobs, o segundo em comando do time Jason. Mas por mais que quisesse a vitória de Jacobs, não podia interferir para que acontecesse. E por mais que desejasse que Norton utilizasse de força excessiva, isso não aconteceu também. No fim, após uma rodada vigorosa, porém controlada, Kyle Norton foi o vencedor.

Duo ponderou precisar brigar com Heero pelo direito de bater em Kyle. "Ei, Yuy," chamou baixinho, enfiando sua trança dentro da camisa para evitar a remota possibilidade do líder tentar algum truque sujo. "Te faço um trato. Me deixa ganhar para lutar contra o Kyle e pode ter seus privilégios de pentear meu cabelo de volta."

Heero riu, olhos azuis cintilando. "Sem chance, Maxwell. Ou você ganha ou você ganha nesse trato. E eu?"

"O cabelo, Yuy. O cabelo."

"Tem outros modos de conseguir o cabelo, Maxwell," respondeu convencido.

"Há! Até parece!" Retorquiu. "Juro que nunca mais te deixo tocar nele se me vencer."

Heero se virou para ele com um brilho nos olhos. "É mesmo?" perguntou suave, bem perto.

Ah, que tática injusta! Pare com os olhares sedutores! Duo engoliu seco. "Eu... não deixo. Talvez." Ah tá, quem estou enganando? Você mataria para ele passar a mão nos seus fios de novo, Maxwell.

Assim que começaram o round, Heero sabia que seu oponente estava sério em vencer, querendo nada mais do que a oportunidade de espancar Norton. E também sabia que Norton, por sua vez, tentaria provocar Maxwell para perder a calma ou deliberadamente o incapacitaria. Nenhumas das escolhas eram aceitáveis. Heero teria que vencer, pelo próprio bem do amigo.

O que se provou mais complicado do que imaginara, uma vez que os movimentos não convencionais de Duo desafiavam a lógica e o treinamento. O jovem de trança conseguiu o primeiro ponto com um golpe que passou pelas defesas do líder e o acertou nas costelas.

"Desiste, Maxwell," incitou, esperando chacoalhar a compostura do companheiro. "Vai ser o único ponto que vai conseguir fazer."

"Há! Vai nessa!" Duo girou para trás, por pouco escapando de um rápido chute frontal. Dançou um pouco, ainda se afastando, fazendo Heero persegui-lo e o líder começou a ter a sensação de que estavam brincando com ele.

A sensação aumentou quando Duo fez outro ponto com um soco com as costas da mão no ombro.

"Porra!" Heero murmurou, desviando do que teria sido o terceiro e último ponto, e tentando passar a perna no oponente.

Mas Duo saltou, evitando a perna de Heero e tentou o mesmo, quase sucedendo.

Heero percebeu que anteriormente, as lutas não foram nada mais do que brincadeiras para Duo. Dessa vez, ele estava completamente focado em vencer. E precisava só de mais um ponto. O único modo de virar o jogo, era conseguir três pontos seguidos ou derrubá-lo; era hora de medidas drásticas.

O líder se afastou, seus reflexos aguçados o permitindo se desviar de cada golpe veloz, atraindo Duo para mais perto. Então o segurou repentinamente, puxando seu oponente contra ele e pressionando seus lábios nos do outro rapaz.

Duo congelou, olhos se arregalando enquanto Heero o segurava com um agarre impossível de escapar, o beijo se aprofundando, até o rapaz de trança baixar suas defesas, permitindo, no susto, sua boca se abrir por onde uma língua abusada deslizou. Então, abruptamente, quando o jovem de trança tentou se desvencilhar, o pé do líder se enganchou por trás do seu joelho e o empurrou, derrubando-o pesadamente no tatame.

"Yuy é o vencedor!" o Capitão anunciou com um tom divertido.

Duo encarou descrente o líder que oferecia uma mão para ajudá-lo a se levantar. Mas recusou a oferta, sentindo-se flamejar de puro ódio. Rolou para o lado e se pôs de pé, exclamando para Heero. "Seu filho da puta desgraçado."

Yuy suspirou. Ele esperava o xingamento, mas também esperava que Duo aceitasse a derrota com mais graça. "Vale tudo, Maxwell" no amor e na guerra, deu de ombros, sem se importar com o que fizera contanto que mantivesse Duo longe de Kyle.

O queixo de Duo caiu. É isso? O maldito 'primeiro beijo' que Heero disse que não seria dividido com um monte de gente? Pelo jeito tinha uma exceção: não seria dividido a não ser que fosse um movimento tático aceitável. No instante seguinte, o punho de Duo se conectou com a mandíbula de Heero, jogando o líder para trás.

Wufei impediu que seus assistentes avançassem, querendo que Heero lidasse sozinho com a situação. É hora da colheita, Yuy.

"Se sente melhor?" Heero perguntou, sentando-se, colocando a mão sobre onde levara o soco.

"Vai se foder, Yuy!" Duo exclamou, enraivecido, dando um passo a frente com toda a intenção de continuar o ataque, porém, no fundo, havia mais do que ódio dentro dele.

Quatre respirou fundo, detectando a mágoa e a traição que Duo sentia. Heero usara a afeição que o rapaz de trança sentia por ele como uma arma; e, independente de suas razões, Duo não superaria essa tão fácil.

Heero se levantou lentamente, batendo as mãos nas roupas. "Se importa?" forçou o tom indiferente. "Tenho outra luta e você está no caminho, Maxwell."

Os olhos índigo se arregalaram e se semicerraram em seguida. "Já era, Yuy. Você, seu time idiota, sua Academia de merda podem ir pro fundo do inferno!" Deu meia volta e saiu com passos pesados para fora do ginásio.

"Winner," Heero chamou.

Quatre correu atrás de Duo, não se importando no mínimo em perder a última luta.

Trowa balançou a cabeça, lançando um olhar de pena para o líder.

"Norton e Yuy, a última luta do dia," Chang anunciou calmo. Passou ao lado de Heero, colocando uma mão em seu ombro. "Fez o que tinha que fazer, Yuy," sussurrou.

É, e você não tem ideia do que me custou...

Heero encarou Kyle, um brilho frio nos olhos. Derrotar Duo fora difícil... brutalmente difícil, pois ele se importava com o companheiro. Não teria nenhuma hesitação em acabar com a raça de Kyle o quanto antes. Sorriu, mostrando os dentes como num rosnado.

"Esperei muito por isso, Norton."


Duo entrou estrondosamente no quarto, sem se incomodar de fechar a porta e, literalmente, se atirou em sua cama. "Odeio aquele desgraçado... odeio ele... odeio..." soluçou em seu travesseiro, dando um soco no colchão. "Nossa, como odeio..." suas palavras se engasgaram quando lágrimas de ira escorram pela fronha, ele desejava poder se enfiar em um buraco e não sair mais.

Não ouviu a porta se fechar vagarosamente nem os passos suaves. Não conseguiu parar de chorar ao sentir uma mão em suas costas. Após alguns momentos, registrou a voz gentil de Quatre.

"... e não tem problema colocar pra fora, Duo. Alá sabe como foi uma semana emocional..." murmurava. "Mas Jase ficará bem, tenho certeza, e a competição está indo bem... vai melhorar, Duo. Prometo."

Gradualmente, recuperando o autocontrole, Duo desenterrou o rosto do travesseiro apenas o suficiente para respirar. "Porra, Quatre... ele trapaceou..."

"É, e foi um golpe muito sujo," o loiro reconheceu. "Mas você sabe porque ele fez isso."

"Sei... porque ele não confia em mim," respondeu rouco.

"Não, Duo, não é isso," Quatre arguiu. "Ele só quer te proteger... do Kyle e de você mesmo. Você sabe que se perdesse a cabeça contra o Kyle e o machucasse pra valer, acabaria indo pra cadeia."

"Você também não confia em mim," rosnou, limpando os olhos com a manga da camisa e se erguendo nos cotovelos. "Vai se foder, Quatre."

"Não vou não, Duo," recusou teimosamente. "Você tem que ouvir. Por mais capaz que você possa ser, sabe muito bem que não conseguiria se manter neutro em se tratando do Kyle. Estaria pensando no que aconteceu com o Jase e, ou acabaria cometendo um deslize e tomado uma sova ou encheria o Kyle de porrada."

"Ou, talvez, eu teria só o vencido e provado que, só por eu ser gay, não sou mais fraco ou mais burro do que ele," respondeu com rispidez. "Já pensou nisso, Quatre?"

"Ainda estamos falando do Kyle? Ou isso é sobre como o Heero te venceu?"

"Nem começa," Duo avisou.

"Como foi o beijo?" perguntou erguendo uma sobrancelha.

Duo se sentou, olhos faiscando. "Que porra de beijo? Aquilo não foi um beijo... foi uma distração calculada... uma trapaça dissimulada e imunda! E não quero ouvir mais falar sobre isso nem de você nem de mais ninguém!" Recostou-se na parede, puxando os joelhos e abraçando as pernas. "Merda... todo mundo nessa bosta de acampamento vai me encher o saco por causa disso amanhã."

"Provavelmente só verão como uma vingança por aquela vez que você se fingiu de morto pro Heero," Quatre amenizou. "Não é todo mundo que sabe o que você sente por ele."

Duo bufou, cético. "E que sentimento é esse, Quatre? Ódio por ele ser uma cobra manipuladora?" Encostou sua cabeça na parede. "Não sinto nada por ele. Não mais."

"Pena que não é tão fácil assim," o loiro suspirou.

Duo o encarou fixamente. "Claro que é. As ruas me ensinaram alguns truques sobre sentimentos. Posso ligar e desligar minhas emoções como uma tomada." Passou uma mão pela franja. "Da próxima vez que ver o Jase, vou mostrar pra ele o que é um beijo de verdade. O negócio é ficar com o seu próprio tipo de gente. Assim, quando me foderem, vai ser do meu jeito."

Quatre suspirou. O amigo passara de magoado para enfurecido para deliberadamente indiferente tão rápido que era difícil acompanhar. "Apenas faça um favor a si mesmo, Duo. Se acalme e pense bem. Não tente lidar com Heero hoje. Não vai dar certo."

"Não tenho nada pra dizer pra ele," Duo afirmou. "Nem hoje, nem num futuro próximo."


Quatre sentava-se nos degraus do alojamento quando Trowa e Heero chegaram.

Ao invés de entrar, Heero sentou-se ao lado do loiro. "Ainda bravo?"

"Bravo é pouco," suspirou.

"Talvez eu deva conversar com ele..."

"Não é boa ideia," Quatre deu de ombros e olhou para Trowa. "Até você pode ter mais chance com o Duo agora. Quer ir tentar a sorte?"

"Claro, me jogue para os leões," comentou com um falso humor e se adiantou para entrar.

"Você devia ter encontrado um jeito melhor," Quatre falou de supetão para o líder.

"Eu sei. Mas ele é muito bom, não tive tempo para planejar. Nunca pensei que ficaria entre eu, Duo e Norton nas finais. E acho que não ocorreu a Chang também." Heero olhou para o campo, ombros caídos. "Acha que o dano à nossa amizade é irreparável?"

Quatre soltou uma risada amarga. "Você beijou ele na frente de todo mundo e depois fez questão de mostrar que era só de sacanagem pra poder vencer. O que acha?"

O líder estremeceu. "Eu... não quis humilhá-lo assim. Mas eu tinha que vencer, pelo bem dele."

"Ele acha, entre outras coisas, que você não confia nele." Os azuis-esverdeados se encontraram com azuis prussianos. "Você não acreditou que ele poderia vencer o Kyle sem perder a cabeça, não é?"

"Não é isso," Heero insistiu. "Eu sabia que eu podia. Eu podia me distanciar do que o Norton fez com o Jason... que eu podia manter a calma e bater naquele panaca sem exagerar." Balançou a cabeça. "Duo estava muito motivado emocionalmente."

"Acho que ele queria que você o deixasse decidir por si mesmo," Quatre ressaltou, olhos nublados de emoção. "Não sei como concertar isso, Heero. Não sei se pode."

Heero esfregou o rosto, cansado. "Bosta." Forçou-se a se sentar direito, apesar da exaustão que sentia, mental e física. "Sabe, Winner, se eu manter Duo fora da cadeira, acho que é o que importa."

"Não pra ele." O loiro se levantou, bocejando longamente. "Alá, estou acabado. E ainda é meio-dia." Tentou um olhar compreensivo para o companheiro. "Estou assumindo que você ganhou a competição."

"Claro," Heero deu de ombros. "E mesmo sem exagerar, te garanto que Norton vai sentir cada pancada." Abriu um sorriso animalesco. "Acredito que ele estava indo para a enfermaria da última vez que o vi."

"Ótimo."

Trowa reapareceu. "Prontos para almoçar?"

"Ele não está com fome?" Heero suspirando, já sabendo da resposta, olhando para a porta fechada.

Trowa apenas bufou ironicamente.


Estavam na metade do caminho para o refeitório quando Kushrenada saiu do prédio da administração, acenando para Trowa. "Barton! Precisamos conversar!"

Heero observou a cena. "Vai lá. Nos encontre quando terminar."

"Beleza." O acrobata correu até o carcereiro e o seguiu até o escritório.

"Ah, Barton... são só alguns detalhes que tenho que discutir sobre o seu cachorro." O homem apontou para o rapaz se sentar na sua frente. "Sua irmã ligou do espaço-porto e ela estará aqui bem cedo no domingo para buscar Nanashi."

"Muito obrigado, senhor," Trowa agradeceu calidamente. "De verdade."

"Claro que sim." O diretor avaliou o jovem detento. "Contudo, preciso te pedir um favor." Inclinou-se para frente, olhos quase amarelos intensos. "Seu time está indo muito bem essa semana."

"Hum, está sim," o acrobata respondeu, perguntando-se o que ele queria dizer com aquilo.

"Se o seu time vencer todas as competições, terão vagas garantidas na Academia." Balançou a cabeça, franzindo o cenho. "Isso pode ser um problema."

"Como?"

"Se eu entregar o cachorro a você, preciso de garantias de que você pessoalmente tomará conta do animal o quanto antes." Kushrenada o encarou severamente. "Preciso saber que você não vai para a Academia."

"Te dou minha palavra," Trowa o assegurou, sentindo apenas uma pontada de arrependimento em renunciar a escola militar. Valeria a pena... se salvasse Nanashi.

Um sorriso predatório cruzou os lábios do homem. "Não tenho dúvidas de sua palavra, rapaz, mas temo que precise de mais garantia do que isso." Fixou-se nos olhos verdes. "Uma demonstração de boa fé, pode-se dizer. Quero que o seu time perca a competição do rio amanhã."

"Senhor?"

"Você me ouviu. Quero que se certifique de que eles não tenham êxito."

"Mas isso não depende de m-mim," Trowa balbuciou, repentinamente perdido. "Mesmo se eu não ajudar, eles ainda..."

O diretor depositou um objeto na mesa.

Trowa o pegou. "Um canivete? Como isso vai nos fazer perder?"

"Simples, Barton. Você corta a corda apenas o suficiente para quando ela ser puxada do outro lado do rio, ela se parta."

"Mas... alguém pode se machucar..."

"Ninguém vai se macucar, Barton. Confie em mim. O rio é bem calmo. O máximo que pode acontecer é alguém cair na água fria."

Trowa ergueu os olhos para o diretor como se o visse pela primeira vez. "Mas por quê?"

"Já te expliquei. Para que eu possa confiar em você com o cachorro, preciso saber que não irá para a Academia."

"Mas eu prometo –"

"Preciso ver acontecer, Barton!" o homem proferiu bruscamente, levantando-se de modo intimidador. "Certifique-se de que seu time perca amanhã ou esqueça Nanashi."

"Não posso fazer isso com eles," Trowa falou desgostoso.

"Então não posso confiar a vida de um animal perigoso a você," o carcereiro replicou. "Faça o que eu digo ou pode vir comigo agora mesmo me ver dar um tiro na cabeça daquele cachorro. A escolha é sua."

Trowa fechou os olhos, engolindo convulsivamente. Quatre estivera certo. Inferno, Duo estivera certo. E ele se iludira pela aparência de gentileza que o diretor mantinha e não vira o manipulador frio e calculista que ele realmente era.

"Vamos, Barton. Qual é o problema? Você sabota um pequeno exercício... o seu time perde... o cachorro vai para casa com a sua irmã. Ninguém vai saber que foi você e ninguém vai se machucar. E eu estarei convencido da sua sinceridade na promessa de cuidar do Nanashi."

Trowa sabia que não era só isso. Mas não tinha certeza do que era. Sinceramente não se importava em desistir da Academia; era um preço que pagaria com gosto por salvar a vida do Nanashi. Mas conhecendo a história do homem perverso com Duo, tinha que se perguntar qual motivação mais profunda o guiava. Não que ele quisesse se envolver na rivalidade de Maxwell com Kushrenada... na verdade, mais de uma vez sentira ciúme da proximidade do rapaz de trança com Quatre e se pegou desejando que o diretor o pegasse em uma traquinagem para mandá-lo embora. Mas ultimamente, as coisas haviam mudado. Era óbvio que Duo estava muito mais interessado em Heero e, sabendo disso, Trowa sentiu-se menos ameaçado. Chegou até a pensar em Duo como amigo, especialmente depois de vê-lo tão devastado pelo que Heero fizera com ele na luta.

"Decida-se logo!" o diretor perdeu a paciência. "Sim ou não, Barton."

O rapaz de olhos verdes assentiu com a cabeça miseravelmente, colocando o canivete no bolso.

"Certo. Espere até quase o início da competição para cortar a corda," Treize o instruiu. "E depois jogue o canivete no rio onde não será encontrado. Se o seu time não perder, Barton, o cachorro morre. Não se esqueça disso."

"Não vou," Trowa respondeu de imediato, seu tom cuidadosamente neutro para o homem não perceber o ódio contido nas palavras.

Continua...