Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam


N/A: O capítulo da reviravolta! Quem acompanha essa história, obrigada pela paciência e espero que gostem de mais um capítulo.


Capítulo Trinta e Um: Fundo Demais

Campo de Treinamento

Wufei considerou a tornozeleira de metal sendo mostrada a ele com a testa franzida, enquanto Duo mantinha a expressão mais sincera que conseguia. "Então... como exatamente isso caiu, Maxwell?" perguntou duvidoso.

"Deve estar com defeito... essa porcaria," o rapaz respondeu forçando indiferença.

"Claro. E o único dentre quarenta a falhar," o Capitão notou. Intimidou o detento de cabelos compridos. "Acho muito suspeito que logo o seu dê defeito."

"Estou falando, Chang... soltou de uma vez."

"Sozinho," cogitou. "Você, por acaso, ajudou a soltar?"

"Bem, estava balançando de um jeito desconfortável," deu de ombros, sem encarar o militar diretamente.

"Testando suas habilidades de abrir fechaduras, é?"

"Eu? Por que faria isso?"

"Você está evadindo."

"De modo algum," Duo rebateu. "E aí, tem um reserva ou não?" colocou as mãos nos quadris em uma postura de desafio. Blefando até o fim!

"Vamos cuidar disso depois," suspirou e encontrou o olhar de Duo. "Me dará sua palavra que não tentará escapar durante a travessia?"

Duo ficou sério, qualquer travessura se fora de seu rosto. "Prometo."

Wufei o estudou por um momento. "Se quebrar a promessa, vou te perseguir até os confins da Terra."

Os olhos índigo se arregalaram e o rapaz abriu um sorriso. "Oras, Capitão, não sabia que se importava tanto."

"Volte para o seu time ou vai perder o café da manhã e você vai precisar de uma boa refeição hoje."

Duo prestou uma continência indolente e correu para se juntar aos companheiros.

Heero reconheceu sua chegada enquanto enrolava seu saco de dormir. "Chang engoliu a sua desculpa?"

"Ele não resistiu ao meu charme," brincou, vasculhando seus pertences até encontrar uma barra de chocolate que sobrou da noite anterior. "Ah, café da manhã."

"Maxwell, estão fazendo-"

Olhos índigo faiscaram para o líder.

"Duo," Heero se corrigiu a contra gosto. "O cozinheiro está fazendo comida de verdade. Sugiro que não estrague o seu apetite com chocolate."

"Estragar? Vou comer a barra e a comida." Enfiou o doce na boca, mastigando e engolindo sem parar de enrolar seu saco de dormir.

Quatre estava aliviado por seu amigo estar mais normal, mesmo após a longa noite anterior. E a tensão de Heero diminuíra também. Contudo, não pode deixar de reparar no desânimo de Trowa.

"Você está bem?" perguntou para o mais alto, ajudando-o a empacotar suas coisas.

"Cansado," respondeu conciso. "Não dormi bem," admitiu.

"Nervoso por causa da travessia?" pressionou.

Trowa deu de ombros. "Acho que sim."

"Se alguém tem que ficar nervoso, sou eu," o loiro falou, amarrando as tiras para manter o saco de dormir enrolado. "Cresci viajando entre a Terra e L4 e, na Terra, vivia em um deserto." Tentou um sorriso fraco. "Não nadei muito, não sou muito bom nisso."

Trowa parou, contemplando-o surpreso. "Não me diga que você não tinha uma piscina na mansão Winner."

"Cloro irrita a minha pele," revelou corando levemente. "O único lugar que temos com água não tratada era próximo de um lago, mas raramente íamos lá."

Trowa achou divertido. "Quantas casas voc-? Ah, deixa pra lá. Pareço até o Maxwell, não quero ser xereta."

"Não tem problema," insistiu. "Nem eu sei quantos imóveis minha família tem. Eu meio que só acompanhava nos passeios." Sorriu. "É uma das razões de eu ter começado a entrar nos crimes virtuais... tédio."

"Negligência," Trowa sugeriu.

"Pode ser, de certa forma," concedeu. "Meu pai é um homem muito ocupado, nunca ficou muito em casa."

"E resolveu aparecer para te pegar com o filho do jardineiro," Trowa o lembrou sem esconder um sorriso malicioso.

Quatre ficou desconfortável. "Aquilo foi só... experiência," explicou com cuidado. "Foi o primeiro a realmente se interessar por mim então começamos um tipo de relacionamento." Fixou uma expressão franca no moreno. "Nunca passamos dos beijos. Foi azar que meu pai nos pegou."

"Ainda bem," Trowa comentou distraído, vendo Kushrenada passar além do ombro de Quatre.

"Por quê?"

A atenção do acrobata se voltou para o loiro. "Porque do contrário, eu nunca teria te conhecido."

Quatre corou, sem conseguir encará-lo. Ao invés disso, focou-se em recolher os equipamentos. Porém, antes de se afastar, ousou erguer o rosto. "Ainda bem mesmo," falou baixinho, virando-se rapidamente antes de ver a expressão contente em Trowa.


Após uma rápida refeição, os times se reuniram e se dirigiram para o rio.

"Que merda," Duo murmurou. "Vamos atravessar isso?"

"É um tanto quanto... intimidador," Heero admitiu, assistindo a corredeira com uma sobrancelha erguida.

O capitão Chang estava em conferência com os tenentes para decidir se cancelariam a prova. A chuva dois dias atrás aumentara o nível do rio, deixando as águas ainda mais agitadas. Entretanto, após vários minutos de discussão, os soldados decidiram descer as margens para encontrar uma área mais calma.

Pelo bem da segurança, posicionaram a equipe de resgate nos dois lados do rio. Quando um time completasse a travessia, retornariam por uma ponte de cordas anteriormente montada há alguns metros abaixo. Se algo desse errado, a equipe de resgate poderia usar a ponte para auxiliá-los.

Dessa vez, em vez do time em primeiro lugar puxar a fila, o Capitão os deixou por último. Tinha pouca dúvida que o time Wing se sobressairia como de costume, então queria deixar o melhor para o final. Além do mais, estava ciente da aposta entre os guardas e os soldados e queria manter o suspense... talvez ensiná-los uma lição sobre o mau da jogatina.

Todos testemunharam o segundo melhor time, Pritchard, fazer a primeira travessia do dia e a confiança aumentou ao verem o seguido sucesso do time Chase.

"Oras, se eles conseguem, nós conseguimos," Duo murmurou, lançando um olhar nada amigável para o time rival na outra margem.

Austin percebeu e abriu um sorriso zombeteiro. Mandou um beijo teatral na direção de Duo e o rapaz de trança, por sua vez, ergueu o dedo do meio em retorno.

"Maxwell!" a voz irritada do Capitão interrompeu as provocações. "Não conversamos sobre isso?"

"Conversamos sobre o time do Norton, senhor," respondeu prontamente. "E não fiz nada contra eles, como prometido."

Wufei rodou os olhos, virando-se para Heero em busca de apoio. "Explique para o seu companheiro de time, Yuy, que espero espírito esportivo entre todas as equipes."

"Sim senhor." Heero fez uma careta para Duo.

"Nem começa," os olhos índigo se semicerraram. "Não estou com humor para sermão hoje, Yuy."

Os olhos azuis o encararam. "Heero."

Duo hesitou e ficou na defensiva. "Não te perdoei tanto ainda," resmungou, quebrando o contato visual.

Heero não conseguiu conter um sorriso brincalhão. "Ainda?" repetiu esperançoso.

O jovem de L2 não gostou. "Não crie expectativas."

Quando chegou a vez do time Wing, os quatro iniciaram rápida e eficientemente. Apenas Trowa teve dificuldade, pois suas mãos tremiam tanto que derrubou a corda três vezes antes de conseguir dar o nó.

"Merda," sussurrou.

Duo estava ao seu lado e olhou de soslaio para o acrobata. "Tudo beleza, Tro?" atentou-se às mãos trêmulas.

"Beleza, Maxwell. Cala a boca e me dá a outra corda."

"´Tá, vai se foder também," Duo rosnou, obedecendo.

Em pouco tempo, fizeram a "ponte" de corda que praticaram antes, arremessaram e a asseguraram do outro lado e se aprontaram para atravessar.

"Certo... eu vou primeiro, e..." Heero começou.

"Eu vou," Trowa cortou, fitando preocupado a ponte de três cordas. "Eu tenho mais experiência com esse tipo de coisa. Se algo der errado, posso lidar melhor e me safar."

O líder concordou, vendo a lógica. "'Tá. Barton primeiro... Winner... Maxwell e eu." Esperou Duo corrigir o uso do seu sobrenome, mas aparentemente o rapaz só se incomodava quando era usado para dar bronca.

Trowa se adiantou, mas parou quando Quatre correu até ele. "Tenha cuidado, 'tá?" o loiro pediu. Sentia tanta ansiedade do moreno alto que precisou demonstrar alguma afeição.

"Vou ficar bem," assegurou-o, confiante, mas temeroso ao mesmo tempo.

Quatre franziu o cenho. "Você está bem?"

"Estou!" Trowa se irritou. "Não enche o saco, Winner!"

Magoado pelas palavras, Quatre voltou ao lado de Duo. "Não sei qual o problema dele," comentou desanimado.

Duo jogou um braço ao redor dos ombros do loiro. "Ei... todo mundo tem seus dias ruins, Quat. Olha como eu tenho agido ultimamente. Ele só deve estar nervoso."

O loiro assentiu, observando o ex-artista circense dar o passo inicial pela corda de baixo, segurando nas cordas laterais para se equilibrar e lentamente progredir.

A cerca de um terço do caminho, Trowa sentiu a corda começar a ceder levemente, como ele sabia que aconteceria, e parou, pronto para mergulhar na água quando precisasse.

Mas não precisou e estranhou, lentamente continuando o caminho, chegando até a colocar mais peso nos passos para ajudar a forçar o ponto fraco. Olhou para os seus companheiros de time; Heero fez um gesto como se apontasse para um relógio no pulso. Vai logo, Barton! Essa prova é cronometrada!

"Merda!" Trowa continuou, sua mente em um turbilhão. Se a corda não arrebentasse e o time vencesse, Nanashi morreria. Tentando desesperadamente pensar em outro modo de perderem, avançava cada vez mais.

E então, ao se virar para trás novamente, viu Quatre começar sua vinda. "Ainda não!" gritou, repentinamente aflito que a corda pudesse quebrar e derrubar aquele com quem se importa tanto, aquele que admitiu não ser bom nadador.

Mas o loiro não conseguia ouvir com o barulho da água corrente. Sua atenção completa estava na correnteza.

Trowa vacilou. Já quase no final do percurso, sabia que não alcançaria o loiro a tempo, mas voltou mesmo assim, sentindo a corda frouxar por estar sobrecarregada.

Vendo o acrobata retornar e percebendo que havia algo muito errado, Duo e Heero correram para bem próximo da água chamando Quatre. O loiro mal os ouviu, mas sentindo o pânico, olhou por cima do ombro para vê-los acenando.

Agindo por instinto, Quatre velozmente se agarrou a uma das cordas de suporte bem na hora que a corda em que pisava se partiu, derrubando-o na água. A água puxou suas pernas, ameaçando fazê-lo se soltar da corda a qual se prendia e carrega-lo rio abaixo.

Enquanto isso, do outro lado, Trowa se segurava na outra ponta, quase completamente debaixo d'água onde a ponte era mais baixa.

Soldados da equipe de resgate se apressaram para ajudar Trowa, enquanto Heero, Duo e os outros do outro lado, puxavam a corda na qual o loiro se agarrava.

"Porra!" Duo exclamou, percebendo que, mesmo com a corda de passagem tendo se partido, as duas laterais ainda estavam intactas e não conseguiam puxá-las. Correu para o kit de sobrevivência, buscando o canivete e correu de volta para a margem.

Heero viu o que ele fazia e resolveu ajudar. Duo o passou a lâmina e o líder entrou na água, uma mão segurando a corda. Ele lutou contra a correnteza até chegar ao loiro, este tentava chegar à margem aos poucos. Então, Heero segurou-se com força e, com um movimento preciso, cortou a corda atrás de Quatre.

No segundo seguinte, a correnteza levou os dois, puxando-os para baixo. Mas Duo e os soldados os puxaram, lutando em quantidade contra o rio.

A mesma batalha se dava do outro lado, onde cerca de doze pessoas também arrastavam Trowa para a segurança.

Após muitos momentos de luta, ambos os grupos conseguiram trazer os colegas para a terra.

Duo pegou desesperadamente a mão de Heero, puxando-o para fora e ajudando Quatre em seguida. O loiro o agradeceu como pode quando o rapaz de trança enlaçou sua cintura para trazê-lo para a borda.

"O que aconteceu?" ofegou, olhando ao redor. "Cadê o Trowa?"

"Pegaram ele do outro lado," Duo o assegurou, soltando-o quando estavam perfeitamente seguros. Então, o jovem de L2 correu para onde o líder estava sentado, arfante e afastando a franja molhada do rosto. "Você está bem, 'Ro?" perguntou, profundamente apreensivo, estudando o rosto do jovem na sua frente.

"Estou," respondeu sem fôlego.

"Caralho!" Duo soltou aliviado, puxando o líder para um abraço. "Achei que os dois iam se afogar!"

Heero mal teve tempo de registrar a demonstração de carinho antes de o rapaz de trança se soltar e voltar para o lado do loiro.

O Capitão Chang vociferava ordens, olhos negros registrando Trowa do outro lado do rio de joelhos cuspindo água, enquanto as tropas e os recrutas se ajuntavam para ajudá-lo e puxar o resto da ponte.

O carcereiro se aproximou da cena, tendo assistido tudo de camarote do jipe da prisão. "Chang! O que diabos está acontecendo?"

O oficial oriental virou-se para ele rapidamente, rosto franzido. "Não tenho tempo para você, Kushrenada."

"É isso que chama de recuperação juvenil? Alguém podia ter morrido."

"Estou ciente dos riscos," Wufei afirmou. "Sugiro que nos deixe averiguar o acontecido antes de criticar nossos métodos."

"Senhor...?" O tenente Wolf apareceu, com a corda enrolada nas mãos. "Hum, você vai querer ver isso, Capitão. Parece que foi cortada."

Wufei se virou abruptamente, olhos negros e frios como granito. "Cortada?"

Heero colocou-se de pé e, junto de Quatre e Duo, os três encharcados e exaustos, fizeram seu caminho até o comandante. "Eu cortei uma das cordas de equilíbrio," Heero voluntariou a informação, segurando o canivete suíço.

O tenente assentiu com a cabeça. "A corda debaixo... a que cedeu primeiro, também foi cortada."

"Impossível," Wufei falou em descrença, examinando a ponta esfiapada da corda. Ele tomou o canivete da mão de Heero, estudando a lâmina. "Yuy, você deu acesso a mais alguém ao kit de sobrevivência?"

"Claro que não. Maxwell assinou pela responsabilidade e ficou em cargo dele."

O Diretor bateu os pés, demonstrando indignação para esconder o triunfo. "Responsabilidade do Maxwell?" confirmou. "E ele também tinha acesso ao canivete?"

Os olhos de Duo se arregalaram. Puta merda...!

Todos os rostos se voltaram para o rapaz de trança, que sentiu uma onda de pânico. "Eu fiquei com o canivete, mas não cortei a corda!" apressou-se em se defender, virando-se desesperadamente para Heero. "Eu juro, Heero, não fui eu! Eu nunca faria isso!"

Houve uma pintada de desconfiança no líder quando sua memória recobrou a cena do jovem de L2 sentado numa pedra, soltando a tornozeleira com GPS e se preparando para fugir. "Tem certeza?" perguntou baixo com um olhar intenso.

Duo ficou boquiaberto. "Eu não minto, Yuy. Você sabe muito bem!"

Kushrenada chamou dois de seus guardas. "Algeme esse moleque. Vamos levá-lo de volta para o acampamento... joguem-no na solitária até contatarmos L2 para enviarem uma nave." Encarou Duo com uma expressão predatória. "Barton e Winner quase se afogaram, Maxwell. Isso foi tentativa de assassinato."

"Não!" Duo reclamou, afastando-se, balançando a cabeça. "Estou dizendo, estão errados!" Os guardas hesitaram, esperando a confirmação do Diretor.

"Levem-no!" Kushrenada ordenou, com custo não sorriu ante o puro terror estampado na face do jovem de trança.

"Espere!" O Capitão mantinha o semblante sombrio enquanto perscrutava o acusado. "Me diga que não foi você, Maxwell... que não foi revanche pelo que Yuy te fez na luta."

O rosto de Duo se avermelho. "Eu... ele, eu nunca...!" Ele estivera furioso o suficiente para ir embora, mas pensar que eles acreditavam na sua capacidade de sabotar o time era demais para aguentar.

"Oh, Duo," Quatre suspirou, incerteza e decepção em seu tom.

Presenciar a dúvida naquele que clamou ser mais do que seu amigo foi o que Duo precisava para suas energias o deixarem. Abaixou o rosto, ombros caídos. Não resistiu quando os guardas colocaram as algemas em seus pulsos.

Kushrenada finalmente se permitiu sorrir muito satisfeito. "Eu sabia, Chang. Cedo ou tarde suas máscaras caem." Com arrogância, incluiu todos os recrutas. "Comece a pensar quem será o próximo e talvez não tenha outra experiência de quase-morte em suas mãos."

"O que eu farei é investigar este incidente antes de assumir outro," Wufei declarou. "Vou precisar de uma cópia do relatório que pretende enviar para a Comissão, assim como os documentos de transferência para L2."

"Envio assim que puder," o carcereiro deu de ombros. Colocou-se na frente de Duo, encarando-o bem nos olhos, um sorriso cruel ergueu os cantos de seus lábios.

O queixo do detento de trança despencou, finalmente caindo a ficha. De algum modo, o Diretor orquestrara a sua queda. E eu nem percebi... "Seu desgraçado," xingou abatido.

"Leve o safado para o jipe," Treize exigiu novamente. "Irei em seguida."

Os guardas empurraram o corpo irresistente. Duo olhou por cima do ombro, sem conseguir encontrar os semblantes de seus companheiros, então baixou a cabeça e se arrastou pacificamente.

"Eu te avisei sobre ele, Chang," Kushrenada insistiu, o tom de repreensão e conspiração. "Sinceramente, uma pena que eu estava certo." Deu as costas e foi até onde os guardas e o prisioneiro o esperavam, o sorriso de vitória ainda estampado no rosto.

Wufei olhou para Heero longa e sombriamente, antes de girar e se afastar para assistir os tenentes e Trowa na travessia de volta.

Quatre perguntou desanimado para o líder. "Ele não faria, não poderia, não é?"

"Você me diz," Heero comentou, avizinhando-se e baixando o tom. "Você é o empata, Winner. O que você sentiu dele?"

"Choque... medo..." os olhos verde-azulados se umedeceram. "Traição. Ele ficou muito magoado por não acreditarmos nele..."

"Foi o que pensei," Heero suspirou. "Não foi ele." Seguiu com os olhos Kushrenada e seus guardas empurrando Duo para dentro do veículo. "É mais provável que tenha sido armação do K e algum de seus capangas."

"Oh Alá," Quatre proferiu. "Quando saímos do acampamento ontem..."

Heero assentiu. "O kit ficou desprotegido. Qualquer um... detento, guarda ou carcereiro poderia ter mexido." Balançou a cabeça pensativo. "Não faz sentido ter sido o Kushrenada. Se ele tivesse nos visto sair, com certeza teria nos prendido em flagrante."

"O time do Norton?" o loiro sugeriu.

"Esse é um bom palpite," Heero considerou. "Além do mais, a gangue do Pritchad ainda estava ressentida pela pegadinha com bosta de cachorro. Eles podem ter achado que isso teria ensinado você e Duo uma lição."

"Pode ter sido tanta gente," Quatre reclamou, frustrado. Trowa cambaleou na direção deles, ainda tossindo. "Você está bem?"

"Pra onde levaram Maxwell?" Trowa questionou com dificuldade, tirando água do cabelo.

"De volta para o acampamento, confinamento na solitária e depois pra cadeia de L2," Heero contou.

"Por quê?" Um nó se formou no estômago do acrobata. Era exatamente o que ele temia, de alguma maneira, Kushrenada distorcer tudo para se vingar de Maxwell.

"Descobriram que a corda foi cortada e Duo era o único com acesso ao canivete."

Os olhos verdes se arregalaram. "O que quer dizer? Por que ele tinha um canivete?"

"Oh... é mesmo, você estava com Nanashi quando Heero e Duo foram pegar o kit de sobrevivência," Quatre lembrou. "Duo ficou responsável pelo kit, que continha a corda, fósforos, outras coisas e um canivete suíço."

Trowa se sentiu enjoado, e não era culpa da água do rio. Oscilou, vacilante, e sentiu o braço de Quatre em sua cintura.

"Trowa, você está bem?"

Balançando a cabeça, o ex-artista circense caiu de joelhos, vomitando na grama.

"Precisamos levá-lo para a enfermaria," Heero concluiu. "Capitão!"

Wufei subia o monte. "Agora não, Yuy! Tenho que começar a investigação..."

"Barton precisa de um médico. Ele parece estar em choque por causa do acidente... está tendo náusea, tremedeira..."

Wufei gesticulou para um dos soldados. "Hayes... você e Smith levem Barton para o acampamento no jipe ASMS, levem-no para a médica." Deu uma chance para Heero. "Então, chegou a alguma conclusão?"

"Não foi ele," Heero afirmou.

"E como você sabe?"

"Porque ele não teria voltado se tivesse planejado afundar o time," deduziu.

"Voltar? De onde?" Os olhos do chinês se semicerraram. "Espera. Deixa pra lá. Não tenho tempo agora, Yuy." Confirmou que os dois tenentes levavam Trowa para o jipe militar. "Conversamos depois." Marchou antes que Heero pudesse impedi-lo.

"Reunir!" o tenente Lareou chamou os recrutas para a caminhada de volta.

Quatre sondou. "E agora? Não podemos deixar Duo ser mandado para a cadeia de L2, ele é inocente."

"Temos que achar um modo de provar," Heero cogitou. "Mesmo nós dois tivemos dúvidas, o que prova o quanto as coisas estão feias para o lado dele."

"Mas nós... ele precisa saber que acreditamos nele!" Quatre falou com urgência. "Não posso acreditar que duvidei dele... nem por um segundo." Balançou a cabeça, lacrimejante. "Ele precisa saber que vamos apoiá-lo."

"Temos que salvá-lo antes de ir para L2," Heero falou com firmeza. Fechou os olhos, facilmente imaginando o que aconteceria com Duo numa prisão de verdade. "Que merda, Quatre! Isso não pode estar acontecendo."

O loiro assentiu tristemente. "Bem que eu queria que não estivesse."


Duo foi jogado em uma cela menor do que o banheiro do quarto. Estava vazia, exceto por uma privada e uma coberta de lã; não havia nem mesmo um colchão para se deitar. Então essa é a solitária? Que espelunca...

Localizou a porta. "Ei, e as algemas?" esticou as mãos para as grades.

O carcereiro recostou-se no batente, relaxado. "Vai se acostumando, Maxwell. Serão jóias permanentes para o seu tipinho."

Duo o desafiou. "Quero um advogado."

"Boa tentativa... mas você sabia as regras quando veio pra cá... uma escorregada e ganha uma passagem de ida para L2... sem advogado, sem julgamento. Você quebrou a condicional, espertalhão."

"Não sei como armou pra mim, K, mas quando eu descobrir..."

"Descobrir?" Treize parecia estar se divertindo. "Maxwell, você não vai viver tanto. Quando os criminosos atrás das grades de L2 verem essa sua cara bonitinha..." Aproximou-se, cheio de maldade. "E esse cabelo..." estendeu a mão para tocá-lo, Duo se afastou violentamente, jogando a trança para longe.

"Sai de perto de mim."

"Você vai começar a dizer muito isso; como se fosse fazer diferença..." o Diretor zombou. "Quando os presos colocarem as mãos em você, vai desejar estar morto."

Duo engoliu seco, esforçando-se para manter uma postura de bravura. "Não, eu vou desejar que você estivesse morto." Seus olhos cheios de ódio. "É melhor você torcer para eu nunca sair."

"Oh, palavras corajosas, gracinha," Treize desdenhou. Deu tapinhas na bochecha do rapaz. Duo estremeceu e se encolheu. "Boa sorte lá na sua terra." Girando nos calcanhares, Kushrenada se foi e o prisioneiro suspirou em alívio misturado com frustração.

Então, aceitou seu destino, foi até o canto, pegando o cobertor – seu único conforto na fria cela de pedra – e enrolou-se derrotado.

Kusrenada parou fora da sala e pediu para os guardas. "Digam para os outros que é para considerarem Maxwell como perigoso e tomem as devidas providências, 'tá? Na segunda-feira, ele vai estar no primeiro ônibus espacial para fora daqui e vai receber a punição que tanto merece."

"Sim, senhor," responderam prontamente.


Trowa ficou pouco tempo na enfermaria. A doutora Po ouviu o seu coração e pulmões, deu-lhe dois tranquilizantes para relaxar e consentiu em deixá-lo ir para o alojamento. Mas ele não foi para lá de imediato. Nenhum dos outros detentos havia retornado ainda, já que era uma caminhada de dezesseis quilômetros. Mas sabia que Kushrenada voltara no jipe, sem dúvida para se vangloriar da condição de seu arqui-inimigo.

E quanto mais ele percebia o quanto havia sido usado, mais bravo ficava. Os tranquilizantes não eram o bastante, precisava concertar a besteira que fizera. No seu caminho, resolveu fazer um desvio. Bateu no escritório do Diretor, o rosto lívido. "Você disse que ninguém se machucaria!" acusou enraivecido.

O Diretor se levantou lentamente, rodeando sua mesa para fechar a porta e colocar suas costas contra ela para encarar Trowa. "Ninguém se machucou, Barton. Qual o problema?"

"Maxwell está na solitária. Esse é o problema!"

"Não. O seu problema é arranjar a vinda da sua irmã para que ela leve o seu cão." Treize elegantemente deu de ombros. "O que você tem a ver com o que acontece com Maxwell?"

"Ele é inocente!" Trowa rosnou por entre os dentes.

O carcereiro riu. "Uma coisa que ele nunca foi é inocente, Barton."

"Ele não cortou a corda."

"Ah, mas somente eu, você e esse escritório sabem disso," cantarolou Kushrenada.

"Vou contar para o Capitão..."

"Contar o quê? Que você é o culpado?" tornou-se ameaçador. "Te envio no próximo ônibus espacial para L3 depois de te fazer assistir eu dar um tiro na testa do seu precioso Nanashi."

Trowa se empalideceu. "Você... não ousaria!"

"Num piscar de olhos."

O acrobata ficou sem reação, um sentimento desolado se afixando em suas entranhas. "Você sempre soube que o Duo era o responsável pelo canivete, não é?"

"Você não?" perguntou Treize, genuinamente surpreso para depois rir em deleite. "Caramba... você não sabia! Você realmente não sabia quem seria culpado por cortar a corda. Impagável!" O carcereiro não podia estar mais satisfeito. "Então Maxwell é quem será punido. Grande coisa. Não é como se ele fosse morrer, ao contrário do cachorro que você lutou tanto para salvar."

"Mas não é justo..." Trowa discutiu. "Vá em frente e me mande para L3, só deixe que Catherine leve Nanashi e liberte Duo. Eu vou para a prisão, não me importo!"

"Eu não quero você na prisão, Barton. Quero Maxwell." Treize sorriu friamente. "E agora, eu tenho ele." E logo logo as piores gangues na cadeia de L2 o terão para fazerem o que quiserem.

"Por favor..."

"Oh, não implore," menosprezou, abanando uma mão. "Nunca caí nessa. Aceite e supere." Inclinou-se para frente. "Mesmo que você tentasse confessar, eu simplesmente negaria termos feito qualquer acordo e diria que você só está tentando ajudar um companheiro de time... um companheiro culpado."

"Seu filho da puta mentiroso!"

"Ah, palavras não me atingem. Maxwell é muito mais criativo em seus insultos, ele geralmente inclui minha mãe, irmã, ancestrais e alguns animais." Kushrenada gargalhou com a lembrança, eufórico por finalmente ter o seu tão odiado inimigo a sua mercê. "Vá para o alojamento, Barton. Ou eu dou logo um tiro no cachorro e te mando embora pra acabar com isso de uma vez."

Trowa fervia de ódio, mas não havia nada a ser feito no momento, então obedeceu, sapateando até o quarto.


Wufei esfregou a ponta do nariz e meditou. "Eu sinceramente não acreditava que ele podia fazer algo tão... maldoso," falou para o Major Marquise pelo videofone. "Mas há uma possibilidade bem pequena de outra pessoa ter sabotado o kit. O time do Yuy não é relapso com equipamento."

"Droga, Chang," o oficial loiro suspirou. "Não tem jeito de chegar a um veredicto positivo?"

"Cada time tem um canivete, colocado na responsabilidade de um integrante. Teoricamente, poderia ter sido qualquer um. Confisquei todos os canivetes, cordas e pacotes, checando a condição de cada um. Tirei as impressões digitais e as únicas no canivete do Duo são as dele e do Yuy."

"O que os companheiros dele dizem?"

"Yuy afirma que não foi ele, até parece bem confiante..." Wufei deixou a frase incompleta de modo significativo.

"Mas...?"

"Mas acho que ele está sendo parcial... envolvido emocionalmente."

"Ele está apaixonado pelo Maxwell?" o major questionou surpreso.

"Bem, no mínimo, sente desejo." Wufei considerou. "Talvez, além disso. Yuy não é de relacionamentos casuais."

"Caramba," Marquise suspirou, esfregando o rosto cansado. "Se for de ajuda, descobri porque Kushrenada é tão determinado em resolver o assassinato em L2, aquele que ele culpa o Maxwell de ter cometido."

Wufei ergueu uma sobrancelha, curioso.

"Foi o irmão do Kushrenada que morreu."

Chang endireitou-se de uma vez, atento. "Está brincando!"

"Não... chequei os antecedentes pessoalmente para verificar a informação."

"Veja só... isso certamente explica sua atitude contra Maxwell," Wufei comentou. "Exceto que, como um funcionário da lei, ele deveria ter aceitado que a falta de evidências fez a acusação de Maxwell ser fraca."

"Eu admito, a cena do crime é bem típica das quais Maxwell foi condenado... mas, minha nossa, a vítima foi esfaqueada quarenta e sete vezes. É impressionante que Kushrenada realmente acredite que um garoto de doze anos conseguiria fazer tal coisa e dar no pé sem deixar vestígio. Não encontraram a arma do crime, roupas ensanguentadas, indícios no corpo... nada. E olha que eles tentaram! Pra completar, encheram o menino de porrada tentando forçar uma confissão, mas nunca conseguiram. Mas por ser um garoto de rua, acharam que ele poderia ter descartado a arma do crime e roupas em qualquer lugar, assim tentaram acusá-lo de qualquer maneira."

"É. De acordo com Kushrenada, o defensor público fez a festa." Wufei fez uma careta. "Por mais que Maxwell seja 'bonito' com dezessete, ele deve ter sido dolorosamente adorável aos doze anos."

Zechs pegou uma foto tirada do garoto quando fora preso, ele era pequeno e magro com o mesmo rosto de faces cheias, grandes olhos tristes e franja desarrumada. A foto denunciava hematomas ao redor dos olhos e pela mandíbula delicada, descendo até o pescoço e desaparecendo por dentro da gola da camisa. "Você devia ver as fotos dele sem camisa, Chang. Deviam ter prendido os animais que fizeram isso com ele."

"Com certeza," Wufei sussurrou, voz engasgada com revolta. "É claro que Maxwell e Kushrenada têm motivo para serem inimigos mortais."

"Não acha que o Diretor deu um empurrãozinho para causar esse incidente, acha?" O Major sugeriu com cuidado.

"Se foi ele, não vou conseguir provar." Wufei franziu o cenho, esfregando sua testa. "Pelo menos, não a tempo. O ônibus vem no raiar do dia na segunda para levar Maxwell."

Os olhos de Zechs se arregalaram. "Você não me falou que o Maxwell conseguiu noventa e oito ponto nove pontos na primeira vez no simulador?"

Wufei assentiu, fechando os olhos, querendo grunhir. A pontuação do rapaz havia sido fenomenal... apenas uma fração menor que a de Heero. Ele tinha a exata aptidão necessária para pilotar mobile suits.

"Merda," Zechs murmurou deixando a compostura de lado. "Chang, quero que passe a evidência em pente fino. Veja se há qualquer detalhe que aponte para outro lado e me atualize amanhã."

"Sim senhor," o oficial chinês suspirou.


Heero apertara o passo no caminho para o acampamento para chegarem a tempo do jantar... não que os integrantes do time Wing estivessem com fome.

Trowa sentava-se nos degraus do quarto, as mãos na cabeça.

"Trowa! Achei que ainda estaria na enfermaria," Quatre cumprimentou aliviado.

O rapaz de olhos verdes ergueu o rosto ainda com uma expressão miserável. "Não tenho nada errado, Quatre. Só fiquei um pouco enjoado depois de engolir água do rio. Já estava melhor antes de chegar aqui."

O loiro assentiu com a cabeça, estranhando a melancolia vinda do companheiro. "Mas você não está bem," falou baixo, sentando-se ao lado dele.

"Como espera que eu esteja bem quando o Duo está prestes a ser mandado para a cadeia?" rosnou.

Quatre pareceu surpreso, e então sorriu. "Desculpe, Trowa. Não achei que você se importasse tanto," falou gentilmente. "Você e Duo são uma combinação bem volátil... não achei que fossem sequer amigos."

O acrobata discordou. "Não significa que eu queira mal pra ele."

"Falando nisso," Heero interrompeu. "Vou falar com Chang. Preciso convencê-lo a adiar a transferência até provarmos a inocência de Duo."

"E como pretende fazer isso?" Trowa demandou rudemente. "Ele estava com o maldito canivete...!" Se ele soubesse que Duo era o responsável pelo kit, talvez tivesse entendido o plano de Kushrenada a tempo de avisar o jovem de trança. Eu devia tê-lo avisado... avisado todos eles... contado pra alguém... qualquer um...

É, e depois ver Kushrenada explodir o cérebro do Nanashi...

O líder deu de ombros. "Não sei como, mas sei que tenho que fazer isso."

"Vai lá," Quatre apoiou. "Veja o que o Capitão pode fazer para ajudar. Vou ficar aqui com o Trowa... tentaremos bolar algumas ideias."

O ex-artista circense enterrou o rosto nas mãos. "É o que venho tentando," murmurou. Bem que eu venho tentado desde que sentei nesse degrau.

Continua...