Boot Camp

Autora: Snowdragonct

Tradução: Aryam


Nota da autora: Não me machuquem! Falei que teria angústia! Mas é só meio temporário, sério!

Nota da tradutora 1: Feliz 2014!

Nota 2: Muito obrigada à Lis Martin, Litha-chan, Kinrra e MaiMai pelo apoio! Desculpem pela demora, mas espero que ainda acompanhem a essa história!


Capítulo trinta e dois: Tempos difíceis

Campo de Treinamento

Heero não viu Chang naquela noite. Na verdade, o bilhete deixado pelo chinês dizia que ele voltaria apenas na manhã seguinte. Ele levara as evidências para serem examinadas no laboratório e consultaria seus superiores. O único incentivo era a informação que o ônibus para o espaço-porto chegaria apenas no domingo.

O líder do time Wing retornou para o alojamento, seu rosto franzido adiantando as más notícias para os seus companheiros.

"Más notícias?" Quatre perguntou assim que ele entrou.

"Chang saiu. Só volta amanhã."

Trowa ergueu o rosto pensativo. "E agora?"

"Agora nada," respondeu Heero rangendo os dentes. Foi até a janela, olhando para fora e, repentinamente, socou a parede o mais forte que pode.

Os olhos de Quatre se arregalaram quando sentiu a súbita onda de raiva vinda dele. "Não tem nada que possamos fazer?" Assustou-se com o gesso quebrado e rachado quando a mão do líder caiu para o lado.

Heero balançou a cabeça. "Chang volta amanhã à noite. O transporte de Duo chega no domingo. Até o Chang voltar, só podemos esperar. É tudo que podemos fazer."

Domingo! Trowa sentiu uma fagulha de esperança. Se o ônibus chegasse depois do horário de visita, ainda conseguiria salvar o seu companheiro de time. Assim que Catherine fosse embora com Nanashi, ele estaria livre para contar para o Capitão toda a maldita história. E mesmo que isso significasse desastre para ele, salvaria a pele de Duo. Por favor, tem que dar tempo!


Levou poucos minutos para Duo retirar sua gazua do cabelo e abrir as algemas. Mas ainda estava preso em sua pequena cela sem janelas e sem qualquer luz. Enquanto procurava no escuro por fraquezas na estrutura que oferecesse alguma possibilidade de fuga, sabia ser fútil. A porta não tinha nenhum mecanismo interno para ser contornado, era uma superfície lisa e sólida de metal.

Ah, desiste, Maxwell, você se fodeu.

Ele voltou para o canto e sentou-se contra a parede, enterrando o rosto nas mãos.

Como sou imbecil. Sabia no momento que vi Kushrenada aqui que ele tentaria de tudo para me ferrar. E ele conseguiu lindamente, eu nem vi acontecer. Todos aqueles anos no reformatório e esqueci de vigiar a minha retaguarda quando mais precisei. Panaca... mereci.


O sábado rastejou na velocidade de uma lesma. Após uma noite longa e inquieta, o time Wing continuou a sua rotina. Nenhum deles conseguiu tocar em comida, mas se mantiveram hidratados e foram limpar o quarto, depois lavar as roupas.

Recolhendo as roupas sujas de Duo, Quatre sentou-se na cama de Heero e escondeu o rosto.

"Quatre, não..." Trowa pediu, sentando-se ao lado do loiro.

"Não consigo evitar," respondeu com a voz abafada. "Não é justo!"

"Eu sei. Como eu sei," Trowa suspirou.

Heero murmurou um xingamento. "Pega logo essa roupa suja e vamos acabar com isso," rosnou, pegando sua própria pilha e saindo.

"Babaca," o acrobata resmungou.

"Não, ele está certo," Quatre concordou, respirando fundo e tentando se recompor. "Vamos terminar o trabalho. Vai ajudar a passar o tempo."

E mesmo ajudando a passar o tempo, não ajudou a melhorar o humor de ninguém.


Duo piscou quando a porta se abriu e um raio de luz vinda do corredor invadiu o local. Em seguida, o brilho de uma lanterna atingiu seus olhos e precisou erguer uma mão para protegê-los. "Merda! Quer me deixar cego?" reclamou.

"Pra onde foram as algemas dele?" a voz confusa foi nomeada por Duo como guarda idiota número um.

"Sei lá," respondeu guarda idiota número dois. "O que fez com elas, garoto?"

O preso pegou as algemas e as mostrou penduradas em um dedo. "Caíram," ironizou. "Devem estar com defeito... como tudo nesse lugar."

"Um espertalhão. O K avisou que ele gosta de bancar o engraçadinho." A luz se moveu para o outro lado. "Contra a parede, moleque. Mãos pra cima e pernas afastadas pra eu colocar as algemas de volta."

"Ah, faça-me o favor... estou preso em uma cela de cimento!" Duo exclamou, ainda se protegendo da luz. "Pra que eu preciso de algemas?"

"Ordens do Diretor."

"Foda-se o Diretor," Duo queixou-se, jogando os aros de metal na direção da porta. "E vocês não alimentam os presos na solitária, heim, seus desgraçados?"

"Você será alimentado depois que cooperar," um deles respondeu. "Contra a parede, rapaz, ou não vai comer."

"Cretinos." O detento se levantou, batendo na roupa e colocou as mãos na parede na clássica pose para revista. Logo em seguida, suas mãos estavam novamente atadas e, dessa vez, o guarda usou um escâner sensível o suficiente para detectar a gazua em seu cabelo.

"Ora, ora, que malandrinho!" o guarda exclamou espantado puxando o pequeno pedaço de metal do cabelo longo. Agarrou a trança e a puxou para trás. "Eu devia cortar tudo!"

Duo rangeu os dentes. "Não toca no cabelo, seu filho da puta!"

A mão rapidamente soltou a trança para empurrar sua cabeça forçosamente contra a parede. "Cala a sua boca suja. Não vão aceitar sua chatice em L2, palhaço." Uma risada baixa seguiu as palavras. "Quer saber? Fica com o cabelo. Os caras de lá vão adorar... podem fingir que você é uma garota enquanto te comem."

Toda a cor da pele de Duo sumiu; mesmo no escuro, ele sabia que cada milímetro de suas feições denunciava seu pavor. "Pelo menos vão só fingir," sibilou friamente com mais coragem do que sentia. "No seu caso, vão saber que você é uma garota... seu imbecil despintado." Soltou um ofego quando seu corpo foi pressionado contra a parede.

"Você é muito metido, moleque... que tal eu voltar mais tarde e provar que não sou despintado?" a voz sussurrou maldosamente.

Duo engoliu em seco, sentindo gosto de sangue por seu lábio ter se ferido, e fechou os olhos. É melhor calar a boca bem calada, Maxwell! Pelo menos uma vez na vida, cala a boca, porra!

Uma mão deslizou pelo seu corpo, descendo até apertar a sua bunda. "É, acho que vou te fazer uma visita depois do meu turno, gracinha."

O guarda saiu, batendo a porta e Duo choramingou, inutilmente mexendo nas algemas e rezando para que a promessa do homem fosse vazia. Mas parte dele sabia melhor. Uma das habilidades que adquiriu nas ruas foi ler as nuances na voz das pessoas. E definitivamente não tinha gostado do tom de voz do guarda.

Preso como um rato num labirinto sem saída. Devia ter fugido quando tive a chance...


Ao anoitecer, Heero andava de um lado para o outro na frente da janela, esperando a volta do Capitão. Ele liberou Quatre e Trowa para irem ao refeitório jantarem, esperando que pelo menos eles conseguissem comer alguma cosia. Claro que o loiro prometera lhe trazer um sanduíche que não tinha intenção de comer.

Após dez tentativas abortadas de trabalhar no laptop, desistiu e resolveu andar de um lado para o outro, de vez em quando olhando para a cama vazia de Duo.

Eu devia tê-lo deixado fugir. Ele não estaria nessa enrascada se tivesse ido embora.

O lado mais racional do cérebro de Heero o assegurava que o companheiro trançado estaria em uma enrascada maior ainda se ele tivesse fugido e fosse recapturado. Sabia que o rapaz de L2 não era culpado e poderia tentar provar. Se Duo tivesse fugido, seria considerado culpado e não teria como provar o contrário.

Heero parou, apoiando uma mão na parede e esfregando a testa com a outra. "Merda, Duo! O que vou fazer?" Seu polegar encontrou uma marca na parede e, vendo-a distraidamente, sorriu se lembrando quando Duo arremessou uma faca que fincara bem ali. Balançando a cabeça, afastou-se e se deixou cair em sua cama. Ainda estava deitado quando os outros companheiros voltaram.

"Ei," Quatre cumprimentou timidamente, aproximando-se e entregando um sanduíche. "Te trouxe um pouco de sustento."

"Deixe na mesa," Heero pediu de modo apático.

"Passar fome não vai ajudar ninguém," o loiro alertou. "Comi um pouco."

"Você deu duas bicadas e jogou o resto fora," Trowa dedurou no caminho para o banheiro.

"É... bem... eu não disse que comi muito." Os olhos verde-azulados viraram-se para o líder preocupados. "Vamos, Heero. Pelo menos uma mordida, você tem que manter sua energia."

Para ambos, soou como algo que Duo diria. "Merda," Heero suspirou, pegando o sanduíche e dando uma mordida. A comida travou em sua garganta, mas conseguiu fazer descer com o suco trazido por Quatre.

Quando ele viu pela janela as luzes acesas do prédio de administração, decidiu ver se Wufei retornara.


Capitão Chang suspirou após ouvir a batida na porta. "Entre, Yuy," chamou cansado.

Heero entrou, fechando a porta atrás de si e recostando-se contra ela.

"O que você fez? Acampou no batente do meu escritório?"

"Eu estava esperando a sua chegada," o líder deu de ombros e fixou um olhar preocupado no amigo. "Como ele está?"

"Não tenho ideia," Wufei revelou. "Não o vi. O diretor está 'fora' e o secretário está me enrolando por horas. Não consigo encontrar ninguém que me diga com precisão onde o Maxwell está."

"O acampamento não é tão grande assim."

"É para quem está fora da panelinha," o oficial replicou, frustrado. "Os guardas do Kushrenada são um grupo bem unido e, pelo jeito, leal."

"Tenha dó, Wufei, você tem a patente mais alta aqui!" Heero se irritou. "Ordene alguém que te leve para a solitária."

"Não posso," o Capitão insistiu. "Não tenho jurisdição sob os funcionários do presídio. Além do mais, duvido que Maxwell possa me dizer qualquer coisa relevante. Prefiro ir visita-lo quando puder dar a ele alguma esperança."

Heero fechou os olhos. "Então não há nenhuma?"

"Até agora, não," Wufei respondeu cabisbaixo, gesticulando para as fotos espalhadas na mesa. "Examinei a corda... a faca... tudo. Mas não se revelou nada que possa inocentar Maxwell."

"Eu sei que ele não é culpado, Wufei. Tem que ter como provar!"

Chang suspirou novamente. "Olha, Heero, eu sei que tem... alguma coisa entre vocês dois... algo mais do que camaradagem. Senão por que ele reagiria daquele jeito por causa de um beijo?"

"Peguei ele de surpresa," o líder comentou calmamente. "E ele se sentiu traído. Eu sabia que ia desestabilizá-lo, deixá-lo vulnerável, então usei isso contra ele."

"Não o teria deixado vulnerável se ele não sentisse alguma coisa por você."

"Talvez ele sinta. Ou sentia," Heero corrigiu. "Mas isso não tem nada a ver. Ele é inocente."

"E como pode ter tanta certeza?"

"Porque ele falou que é," tentou justificar. "E eu acredito que ele não minta."

"Ele pode não mentir, mas é um especialista em manipular a verdade."

"Falando em manipulação... Kushrenada não podia esperar por uma oportunidade melhor para sacanear o Duo." Heero se adiantou, examinando as fotos. "Não é extremamente conveniente que Duo tente algo tão descaradamente ilegal? Quero dizer, tudo o que ele fez com o time Pritchard foi colocar bosta de cachorro nos sapatos deles. Por que ele tentaria matar um companheiro de time?"

"Não acredito que ele tenha," o oficial concordou. "Mas ele pode considerar sabotar a sua chance na Academia se irritá-lo o suficiente."

"Não, ele não sabotaria," Heero discordou, lembrando que a solução de Duo era correr e se esconder. E mesmo que o rapaz de trança quisesse vingança, ele não se rebaixaria a tanto.

"O que você quis dizer com 'ele voltou' no outro dia?"

O líder respirou fundo, temendo este momento. Sabia que Wufei se lembraria. "Na noite antes de cruzarmos o rio, Duo escapou do acampamento. Ele estava pronto para fugir quando Winner e eu o alcançamos."

"Fugir? Pra onde?"

"Para a cidade mais próxima. Ele cresceu nas ruas, achou que podia surrupiar umas roupas, algum dinheiro e se misturar," explicou, franzindo a testa. "Foi culpa minha. Ele não estava fugindo do acampamento, estava fugindo de mim."

Um sorriso malicioso se abriu nos lábios do chinês. "Por mais assustador que você possa ser às vezes, Yuy, não consigo imaginar Maxwell fugindo de você. Pelo contrário, já vi como ele te olha."

Heero tentou não corar baixando o rosto. "Depois do beijo, ele queria correr o mais rápido que podia para ficar longe de mim. Winner e eu o convencemos de ficar."

"Winner... e você." O sorriso ficou ainda mais malicioso. "Aposto que não foi Winner que motivou ele a ficar." Ergueu uma sobrancelha. "O quanto teve que implorar? Ficou de joelhos?"

Os olhos azuis faiscaram. "Eu não imploro, Wufei!"

O Capitão não se intimidou. "Então como o convenceu?"

"Sinceramente, não sei," Heero pensou. "Mas acho... que parte dele não queria ir embora, caso contrário, argumento nenhum o teria convencido." Tentou voltar ao tópico. "A questão é, se ele tivesse feito algo tão criminoso como cortar a corda, ele não teria voltado."

"Vou dar uma de advogado do diabo, Yuy." Capitão Chang pretendia ser imparcial. "Poderia ser argumentado que ele voltou para ver o resultado de sua obra. Sabemos pelo incidente com o time Pritchard que Maxwell gosta de aproveitar os frutos de seu trabalho."

"Aquilo foi uma pegadinha, Wufei. Inocente e não machucou ninguém." Heero balançou a cabeça. "Não é da natureza dele ferir as pessoas."

O chinês jogou uma pasta com o nome do rapaz sendo discutido na mesa. "Ele colocou uma dúzia de detentos no hospital nesses últimos anos, Yuy, sem contar dois policiais e sabem-se lá quantas outras pessoas."

"E o que esses detentos estavam fazendo com ele?"

"Eu sei, eu sei, 'autodefesa'," o oficial revirou os olhos. "Como falei, só estou tentando te mostrar o que um promotor mostraria para um júri se estivéssemos na corte." Virou-se para a pequena janela gradeada. "Não acredito que ele seja culpado, mas preciso de prova irrefutável para apresentar à Comissão de Justiça."

"Mas até lá vai ser tarde demais!" Heero explodiu, sem saber mais o que fazer. "Sabe o que vai acontecer com ele em L2?"

"Claro que sei," o Capitão respondeu. "E estou fazendo todo o possível para prevenir que ele vá, mas preciso de algo sólido para trabalhar."

"Que tal o fato de que quando Duo escapou ele deixou o kit de sobrevivência para trás? Durante aquele tempo em que eu e Winner saímos atrás dele, ficou desacompanhado. Qualquer um teve acesso durante esse período."

"Não sei se ser negligente ajuda."

"Oferece dúvida razoável," Heero ponderou friamente.

"Ofereceria, se estivéssemos num julgamento," o oficial concedeu. "Mas não é o caso. Aqui, qualquer infração é uma passagem automática só de ida para a cadeia." Considerou. "Já que a lei foi desrespeitada, e não uma regra do acampamento, Kushrenada tem a palavra final."

"Kushrenada odeia o Duo."

"Claro que odeia, ele acha que Maxwell matou o seu irmão."

Os olhos azuis se arregalaram. "Então é por isso." Tentou se recompor do choque da descoberta. "Você tem que parar essa vingança, Wufei. Aposto que Kushrenada está por trás dessa armação. Sabia que o Norton anda fazendo visitas no escritório dele?"

"O quê?"

"No dia que o Carrol foi atacado, fui procurar pelo Norton..." Ante o olhar semicerrado de Wufei, Heero se defendeu. "Maxwell foi o único que prometeu não fazer nada."

"Não dê uma de espertinho, Yuy."

"De qualquer forma, Norton estava saindo do escritório do K quando o encontrei. Ele deve estar trabalhando para o Diretor."

"Não duvido nada," admitiu. "Mas o problema é: se eu for até Kushrenada e falar que Maxwell pode não ter cortado a corda e que outros poderiam ter tido a chance, ele vai perguntar quando e como. E vou ser obrigado a revelar que Maxwell deixou o kit abandonado quando tentava escapar..."

Heero estremeceu. "Tá, entendi. Ele seria enviado para L2 de qualquer forma." Começou a andar de um lado para o outro, desesperado por novas ideias. "E se o Maxwell tivesse outro motivo para ter abandonado kit?"

"Por exemplo?"

"Bem..." o líder se preparou. "E se Maxwell e eu tivéssemos dado uma escapada por um tempo para... ficarmos sozinhos?"

"Seria uma mentira, Yuy." Chang asseverou ou friamente. "Acha mesmo que o Senhor-Eu-Nunca-Minto quer que você tente ajudá-lo com uma mentira tão óbvia?"

"Ele não tem que se importar como vamos ajudá-lo. Além do mais, posso manipular as palavras tão bem quanto ele. Duo e eu estávamos na floresta juntos... sozinhos." Heero se virou para o Capitão com intensidade. "Por favor, Wufei. Não me importo com o que preciso fazer para salvá-lo. Vou assumir ter cortado a corda eu mesmo se for para mantê-lo fora da cadeia."

"Você não fará nada disso!" Chang afirmou, batendo as mãos na mesa, encarando o amigo fixamente. "Não vou deixar. Vamos encontrar outro jeito! Ainda temos até amanhã. Temos cerca de doze horas, Yuy e pretendo usá-las para provar que ele é inocente."

"E se você não conseguir?"

O Capitão fez uma careta desgostosa. "Não sei," por fim declarou.

O líder pegou o pedaço de corda enrolada posta em cima da mesa, passando o polegar pela extremidade cortada. "Queria que essa coisa falasse."

"Eu também," Wufei se levantou, alongando-se. "A viagem de volta foi infernal, Yuy. Se importa se eu dormir por algumas horas?" Reassegurou o amigo. "Prometo voltar ao caso antes do nascer do sol. Liguei para a Fundação Peacecraft, pedindo para eles intercederem e me darem mais tempo. Não desista ainda."

"Vou tentar," Heero falou desanimado, soltando a corda e arrastando os pés para fora do escritório.


Quando Duo ouviu a chave na porta da cela, ele sabia que não estavam trazendo o jantar. Embora estar em uma cela escura houvesse o deixado desorientado, tinha a sensação de ter passado muito da hora da refeição.

Seus medos foram confirmados pela luz que atingiu seus olhos ser acompanhada de uma risada ameaçadora. "Te falei que ia voltar, gracinha."

Empurrando-se para se levantar, engoliu em seco, conseguindo lançar um olhar desafiador. "Nossa, como você é valentão," zombou, erguendo os ombros para não se sentir tão impotente, mas as algemas não ajudavam. "Se achando o máximo porque vai pra cima de um garoto magricela algemado e encurralado? Vai se foder!"

"Você que está valente," o guarda respondeu com um sorriso audível na voz.

Duo estava contra a parede, tentando se lembrar do treinamento de autodefesa, torcendo para conseguir pelo menos causar dor antes do desgraçado o dominar.

Vendo a postura defensiva, o guarda riu, desviando a luz para o lado e desembainhando o cassetete. "Ah, vai ser divertido..."

"Merda."


O sol da manhã ainda não havia banhado o topo das árvores e Wufei já estava fazendo telefonemas na esperança de atrasar o transporte para o espaço-porto. Enquanto apertava mais um número no videofone, distraidamente passou os dedos na corda, encarando-a como se ela pudesse lhe oferecer respostas. Se ao menos, como dissera Heero, pudesse falar... saberiam exatamente quem sabotara o melhor time do acampamento.


Enquanto isso, Heero já estava andando de um lado para o outro, tendo passado outra noite em claro se repreendendo por todas as sacanagens que fizera com Duo. O rapaz era lindo, inteligente, simpático... tudo o que se pode querer em um companheiro, de time ou amoroso, e o líder achava que o tinha tratado como lixo a cada oportunidade. Se você sair dessa, jurou para si mesmo, tudo vai mudar, prometo. Sua mão encontrou a fenda na parede novamente e franziu o cenho, com a sensação de que aquela cicatriz profunda no gesso tinha algum significado.


Duo não tinha ideia de quanto tempo se passara ao acordar de cara no chão. Estava espalhado na superfície de concreto, dolorido da cabeça aos pés e tremendo de forma descontrolada.

A tremedeira o acordara, pois intensificava a dor. Engoliu um grunhido, tentando levantar o rosto e percebeu que escuro como estava, não havia motivos para olhar em volta. Um soluço quase escapou, mas engoliu de volta, forçando-se a ficar em silêncio. Não sabia se guardas, ou o guarda, estavam na frente da sua cela e não queria lhes dar a satisfação de ouvir o seu sofrimento. Não mais. Tinha uma vaga memória de xingar e gritar ameaças e insultos ao guarda que o atacou, como se fizesse alguma diferença. Mas ele não chorara, não implorara; ainda mantinha o seu orgulho.

Mexeu um braço cuidadosamente, sentindo as algemas frias contra seus pulsos. Rolou para o lado, gemendo com a dor em suas costelas, ajeitou as roupas, grato pelo seu atacante impaciente não ter se incomodado em removê-las completamente. Feito isso, seus dedos encontraram o tecido áspero da coberta por perto e o puxou para ele, delicadamente se enrolando nela. Depois encontrou energia o suficiente para rastejar até um canto da cela e se aninhou entre a privada e a quina, sentindo-se levemente menos vulnerável. Perguntou-se quanto tempo levaria para o ônibus chegar. Encostou a cabeça na parede e encarou a escuridão, refletindo que essa situação era a que deveria esperar pelo resto de sua vida miserável... espancamento, estupro e abuso físico e psicológico. Não tinha dúvidas de que a cadeia em L2 estaria cheia de bandidos e guardas muito piores em todos os sentidos. Tinha ainda menos dúvida de que eles achariam que o garoto bonitinho era um brinquedo para ser passado de mão em mão.

Engoliu o choro que ameaçou explodir pela garganta. Duo enterrou a cabeça nos joelhos. Estivera tão perto de conseguir algo melhor... tão perto de uma chance à uma vida de verdade... com amigos... com Heero.

Nossa, Heero. Deve ser o que mais dói... Saber que ele não se perderia naqueles olhos azuis outra vez ou que nunca se derreteria naquele peito quente e forte ou teria as mãos gentis em seus cabelos. E pensar que ameacei não deixá-lo tocar no cabelo nunca mais... Naquele momento, ele seria capaz de implorar de joelhos por um gesto de carinho.

Porra, Maxwell... é por isso que você não queria se aproximar de ninguém. Não machucaria tanto perder algo que nunca experimentou, mas um breve gosto do Paraíso só fez ir para o Inferno muito mais doloroso.

Continua...