Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
Nota da autora: relembrando, até onde eu sei, a palavra shinnaino significa "amado". Espero não ter destruído o significado, porque gosto dela. (De novo, se eu precisar, posso dizer que é licença poética? Insanidade? Você que sabe.)
Nota da tradutora: Resposta aos comentários no fim do capítulo.
CAMPO DE TREINAMENTO
Capítulo trinta e nove: Tudo por um companheiro
Os rapazes prepararam a cama para a noite. Houve uma batida na porta. Duo estava mais próximo e abriu enquanto escovava o cabelo.
"Doutora Po!" ele exclamou surpreso, olhando por cima do ombro discretamente para conferir Trowa. O acrobata estava quieto, aparentemente dormindo, aproveitando o temporário alívio de seus sintomas. Heero apareceu atrás de Duo, cuidadosamente bloqueando a visão da doutora para a cama do doente.
O rapaz de L2 jogou o cabelo para trás, abrindo o sorriso mais charmoso em seu arsenal.
"Atendimento a domicílio?" perguntou ironicamente. "Ou devo dizer, atendimento ao alojamento?"
A mulher sorriu de volta. "Pode dizer como quiser," ela o assegurou. "Mas depois de cuidar do Kyle Norton hoje e ouvi-lo reclamar sem parar, achei melhor vir checar. Posso entrar?"
Instintivamente, Duo lançou um olhar duvidoso para o líder.
"Pode, claro," Heero respondeu educadamente, abrindo a porta e apontado para a sua mesa. "Estávamos nos aprontando para dormir."
"Então cheguei na hora certa," ela se alegrou, e ofereceu um frasco de remédio para Duo. "Tem o suficiente para hoje à noite e amanhã. Mas se precisar de mais, terá que ir até a enfermaria." Ela deu de ombros. "As regras são bem rígidas em como medicamentos são distribuídos na prisão."
"Claro," Duo concordou, pegando o frasco. "Pra que são?"
"Para dormir. Pelo que ouvi hoje, você vai precisar."
"O que ouviu?" o rapaz de cabelo longo questionou friamente.
"Ouvi muitas coisas. Vários rapazes apareceram na enfermaria com cortes e machucados." Ela sorriu cansada, balançando a cabeça. "Você sabe incitar uma revolta, Duo."
"Foi o Norton," Heero a corrigiu rapidamente, não querendo que a doutora tivesse a impressão errada do papel do seu companheiro de time no incidente.
"Eu sei," ela respondeu. "Alguns pacientes deixaram bem claro o que aconteceu." Sua preocupação se voltou para Duo. "Você está bem?"
"Estou," ele a assegurou.
"Duvido," a doutora repreendeu. "Ele te trouxe muitas memórias desagradáveis, se o que ouvi é verdade." Quando o jovem na sua frente desviou o rosto, cruzando os braços, ela colocou uma mão em seu ombro. "Quero que saiba que ele se foi. A ambulância aérea o levou embora algumas horas atrás, ele não vai voltar."
Duo lançou um olhar cético para a médica.
"O cotovelo dele quebrou," ela elaborou. "Foi esmigalhado, na verdade. Ele vai precisar de várias cirurgias para consertar, e meses de fisioterapia."
O rapaz de cabelo comprido estremeceu ante o tom de bronca. "Olha, doutora. Eu não quis..."
"Eu sei," Po o interrompeu. "Pelo que as testemunhas contaram e o que o Capitão me disse, está claro que ele te ameaçou. E acredito que ele teria cumprido as ameaças se tivesse a chance. Por mais que eu me oponha à violência, algumas pessoas só entendem brutalidade. O único modo de se proteger de alguém assim, é impedi-los de agir."
"Então... você não está brava comigo?" ele perguntou baixinho.
"Por que estaria?"
"Por te dar mais trabalho," comentou com um meio sorriso.
"Gosto de me manter ocupada," Po o acalmou. "Não ocupada demais... mas pra ser sincera, estou aliviada em poder mandar aquele garoto pra longe daqui." Ela balançou a cabeça. "Até quando eu estava colocando a tala no braço dele, ele não parava de falar sobre vingança... e cada coisa horrível e odiosa que ele falou... esse menino não é uma pessoa muito boa."
Duo riu. "Acertou em cheio." Então ficou sério, olhando-a de soslaio. "Mas talvez eu também não seja..."
"Você não é nada como ele!" a doutora exclamou. "E não quero ouvir outra sugestão de que seja." Bateu maternalmente nas costas do rapaz e foi quando os seus olhos passearam pelos fios longos e brilhosos. "Uau. Seu cabelo é lindo quando está solto."
Ele enrubesceu num adorável tom rosado, timidamente passando a mão pela franja. "Ah, obrigado, doutora. É bem mais fácil deixar trançado na maior parte do tempo." Ele puxou para o ombro e habilmente começou a trançá-lo.
"Não quis te envergonhar," Sally comentou gentilmente. "É que eu nunca tinha visto seu cabelo solto, mesmo quando você estava na enfermaria."
"É, pois é, não foram muitas pessoas que viram." Rapidamente completou a trança e a prendeu com um elástico.
A doutora olhou para Quatre, sentado ao lado da cama de Trowa, lendo um livro. "Como o Barton está?"
"Um pouco melhor," o loiro respondeu, erguendo o rosto para vê-la. "Hoje ele conseguiu beber um pouco de refrigerante sem colocar pra fora. Quando acordar, vou dar pra ele umas bolachas de água e sal, e suco."
"Boa ideia," ela aprovou. "Estou vendo uns panos e uma bacia. Ele está com febre?"
"Antes ele estava, mas não tanto agora," Quatre informou.
"Já que estou aqui, posso dar uma olhada," ofereceu.
Quatre franziu o cenho, desconfiado, olhando para a palidez de Trowa sem saber se ela atribuiria a uma simples gripe. "Ele acabou de cair no sono," falou suavemente com a expressão mais inocente que conseguiu. "Não pode esperar?"
"Oh, claro que sim," ela respondeu igualmente suave, abaixando a voz para não acordar o adolescente doente.
Heero aproveitou a deixa de Quatre. "Será que eu, Duo e você podemos conversar lá fora?"
Duo semicerrou os olhos, claramente descontente. "Não terminamos?"
Sally Po sorriu. "Terminamos, Duo. Apenas me prometa que vai tomar o comprimido se precisar."
"Sim, senhora," suspirou. "E o Capitão já me convenceu de ir ver o Doutor G na quinta. Pode relaxar. Estou tendo toda a terapia que preciso e mais um pouco."
"Ótimo."
A doutora foi embora e, pouco depois, Quatre suspirou aliviado.
"Graças a Alá! Achei que ela ia ver o quanto o Trowa está pálido."
Duo fez um barulho sarcástico e foi até o seu baú, jogando o frasco dentro, para em seguida escalar na sua cama, resmungando algo sobre como não se importava com o traidor.
"Não vai tomar o comprimido?" Heero perguntou, pegando o frasco.
O órfão de L2 se virou para o líder. "Quero tentar sem tomar nada. Esse remédio me deixa molenga." Parou, franzindo o cenho e lambendo os lábios. Queria perguntar se Heero odiaria a ideia de dormir na cama de cima com ele de novo. Sabia que nas duas noites nas quais dormira ao lado do líder tivera o melhor descanso de sua vida. Contudo, não sabia como perguntar. Na verdade, se usasse essas palavras, ele seria mal interpretado. Não que ele não quisesse que Heero dormisse com ele, no sentido de 'transar', mas não num alojamento na prisão, muito menos com duas outras pessoas no cômodo. Mas ele queria que Heero dormisse com ele, no sentido de dormir ao seu lado.
Heero tinha um incrível dom de captar os pensamentos de um certo desbocado de trança. "Precisa de um ombro amigo essa noite?" perguntou discretamente, pousando a mão no colchão de cima.
Duo sentiu o rosto se avermelhar, mas assentiu com a cabeça antes de se acovardar. "Acho que preciso do apoio," admitiu. "Não que eu não possa cuidar disso sozinho..."
"Sei que pode," Heero se apressou em confirmar. "Mas não faz mal em me deixar te ajudar como puder." Voltou-se para Quatre. "Quando vai descansar, Winner?"
"Se Trowa continuar calmo, logo."
"Me chama se quiser trocar comigo para você poder ir dormir." O líder jogou o travesseiro na cama de cima, pegou sua coberta e escalou ao lado de Duo, que educadamente encostou-se na parede para dar espaço. Ajeitou o travesseiro e deitou-se, esperando que o outro rapaz se acomodasse. Duo o fez, sem tocá-lo, mas próximo o suficiente para compartilharem calor corporal. Então Heero falou: "Anda, Maxwell. Você sabe que vai acabar jogado em cima de mim de manhã, então por que não coloca sua cabeça no meu ombro de uma vez?" Abriu um sorriso malicioso. "Você sabe que quer."
Duo semicerrou os expressivos olhos índigos. "Está ficando metido," resmungou, a voz quase rouca. Mas se aproximou, colocando a cabeça no ombro do líder, quase debaixo do queixo dele. Deslizou uma mão pelo estômago de Heero, sorrindo ao ouvi-lo prender a respiração. "Obrigado, Yuy."
Não. Eu que agradeço! Caramba, a mão dele parece veludo na minha pele.
"Nossa, Duo," sussurrou, envolvendo o rapaz nos braços e puxando-o para mais perto. Se Quatre não estivesse tão perto... Heero suspirou pesadamente. "Dorme, baka."
"Com você? Sempre," Duo murmurou sonolento, dividido entre querer ficar acordado e aproveitar a sensação do corpo de quem desejava tão próximo, e precisar dormir. "Hum. Um dia precisamos fazer isso quando eu não estiver tão cansado."
"Encontro marcado," respondeu baixo com sinceridade. Em poucos segundos, ambos caíram no sono.
Quatre odiava ter que acordar Heero, mas por volta da meia-noite, a condição de Trowa piorou. Ele se agitava e rolava na cama, tremendo violentamente. Embora o loiro tenha tentado acordá-lo, continuou sem reagir. Em desespero, finalmente foi até o líder.
"Heero...?"
Olhos azuis se abriram de uma vez, encarando Quatre. "Precisa de uma folga ou ele piorou?"
"Piorou."
Do lado de Heero, Duo se mexeu, meio acordado. "O que foi?" murmurou sonolento.
"Shh. Você volte a dormir," Yuy encorajou, tentando deslizar por debaixo dos baços do outro rapaz.
Duo ergueu a cabeça de onde a apoiava no ombro do líder. "Não dá... não se você levantar," avisou, bocejando amplamente. "É melhor eu levantar também."
Deixando a cama quente e o abraço ainda mais quente foi a coisa mais difícil que Heero podia se lembrar de fazer, ao menos recentemente. Mas, ainda assim, desceu para o chão e foi dar uma olhada em Trowa.
"Eu temia isso," suspirou. "Vamos precisar de um médico."
"Mas ela vai denunciá-lo!" Quatre protestou.
"Talvez. Mas se não chamarmos, pode ser pior pra ele." Heero ponderou, indo até o laptop. "De acordo com o manual médico que achei, se ele tiver convulsões pode ter danos cerebrais."
"O que a doutora pode fazer por ele?" Duo perguntou sentado com as pernas balançando na beirada da cama de cima, enrolado na coberta, com a aparência sonolenta e desarrumada. E, para Heero, adoravelmente sexy.
"Ela pode dar pra ele alguns remédios para prevenir as convulsões e aliviar alguns dos sintomas de abstinência."
Quatre franziu o cenho, seu rosto um verdadeiro estudo em emoções. "E se ela entregá-lo para o Capitão? Não vai ser mandado para a prisão?"
"Vai provar do próprio remédio," Duo comentou amargamente.
O loiro lhe mostrou uma expressão chocada. "Duo, por favor!"
"Desculpa." O rapaz de cabelos compridos baixou a cabeça. "É difícil não guardar rancor, Quat. Ele me sacaneou pra valer."
"Eu sei. Mas agora ele está sofrendo. Não importa o que ele fez, não podemos jogá-los para os leões."
Heero acercou-se de Duo para se apoiar na cama. "Winner está certo. Temos que apoiar o Barton. Como falei antes, depois que ele estiver bem, podemos decidir o que fazer sobre os seus problemas com ele."
"Meus problemas?" Duo repetiu acidamente. "Você faz parecer como se eu fosse de alguma forma responsável por ele me vender pro Kushrenada, Yuy. Não foi culpa minha!"
O líder se afastou rapidamente, sabendo que Duo ainda estava tenso. "Não quis dizer que tinha. Eu devia ter dito nossos problemas — todos nós — o time inteiro. Ele trapaceou a todos nós, e você foi quem pagou o pato."
"Pode apostar," Duo murmurou, sua postura desafiadora relaxando consideravelmente.
Mandou bem, Yuy. Quatre abriu um pequeno e cansado sorriso. Era óbvio que o líder aprendia rápido como ler as emoções de Duo e como reagir apropriadamente para evitar desastres. "Quem vai buscar a doutora Po?" perguntou em voz baixa. "E quantas chances temos de que ela não vai denunciar o Trowa?"
"Eu vou, e não faço ideia," Heero deu de ombros, vestindo suas calças e camiseta.
"Yuy."
"Hum?" Ele virou-se em dúvida para Duo.
"Você falou que ela pode dar remédios pra ele?"
"Claro," Heero respondeu um pouco impaciente. "É por isso que vou falar com ela."
"E se conseguíssemos os remédios sem a doutora?"
Os olhos azuis se escureceram perigosamente. "Não vamos invadir a enfermaria, Duo."
"Invadir não," Duo corrigiu cauteloso. "Mas e se nós fôssemos lá e eu distraísse ela enquanto você, ah, se apropria do que precisamos?"
"Achei que você ia parar de pensar como um ladrão," Heero acusou.
"Pensar não..." Deu de ombros. "Não posso mudar como penso. Só como ajo."
"E como planeja distrair a doutora? E como vou roubar os remédios? Não sou um ladrão, Maxwell."
"Ah, mas você não hesitou em invadir os meus registros médicos confidenciais," Duo rebateu irritado.
"Aquilo foi diferente." Heero também se irritou. "Duo, esse campo de treinamento é uma chance de começar de novo… parar de cometer crimes e fazer algo construtivo com o nosso tempo. Invasão foi o que te colocou aqui. Roubo foi o que te colocou aqui... você não pode continuar a fazer essas coisas."
"Era bem melhor do que cair morto de fome!" Duo bradou.
"É, mas agora você tem outras opções," o líder o lembrou. "Você nunca vai precisar roubar de novo, depois que o treinamento acabar."
"A não ser que eu volte para as ruas de L2," Duo ressaltou. "Aí eu vou fazer o que tiver que fazer."
"Olha... não temos tempo para esse debate," Heero mudou de assunto, frustrado. "Vou buscar a doutora para ver o Trowa. Vamos contar a ela tudo o que pudermos da verdade e cuidar dele." Calçou as botas e se inclinou para amarrar o cadarço quando percebe Duo começando a se vestir. "Pra onde vai, Maxwell?"
"Vou com você." Duo o encarou fixamente. "Você sabe a regra, Yuy. Ninguém sai sozinho." Sua expressão se tornou sombria. "Se algo acontecer com você..."
"Tá bom," Heero cedeu. "Pode vir."
No caminho, ensaiaram o que iriam dizer para a médica sobre a condição de Trowa. Não podiam contar a história toda, mas podiam revelar que ele tivera um ferimento no ombro e alguém o fornecera analgésicos. Eles decidiram contar que havia acontecido apenas uma vez, e que Trowa não percebera o quanto as drogas eram viciantes.
"E se ela não acreditar?" Duo perguntou, nervosamente passando a mão pela trança ao mesmo tempo em que andava, depois enrolando a ponta entre os dedos.
"Aí ela conta pro Chang e o Barton pode ser mandado embora," Heero explicou dando de ombros. Ele gentilmente retirou a trança dos dedos agitados do companheiro. "Para. Você vai ficar com pontas duplas," reclamou, distraidamente acariciando com o polegar o cabelo sedoso.
Duo o olhou longamente. "Você sabe que está acariciando a minha trança, não sabe?"
"Não é só o que eu gostaria de..." Heero parou abruptamente quando Duo também parou. Riu do choque estampado no rosto do rapaz de L2. "Ah, Maxwell, sua expressão não tem preço!"
Duo enrubesceu, puxando a trança de modo ineficaz, pois o líder a manteve em um aperto.
"É tão fácil te desorientar," Heero observou.
"Solta, Yuy," Duo pediu sem olhar para ele.
O líder, ainda gentilmente, usou a trança para puxar Duo mais perto. "Nunca," suspirou, deslizando os braços ao redor da cintura do outro jovem, envolvendo-o num abraço.
"Achei que você ia entender seus sentimentos só depois que o treinamento acabasse," Duo o lembrou.
"Isso foi antes de você quase ser mandado pra longe," Heero respondeu calmamente. "Tudo mudou."
Olhos índigo piscaram timidamente. "Sabe o que me assustou mais na solitária?"
"O quê?"
"Pensar que eu nunca mais ia te ver," Duo admitiu em um sussurro quase inaudível. Continuou rápido, antes que perdesse a coragem. "É meio idiota na verdade, porque sempre que eu me importo com alguém, algo terrível acontece e eu perco essa pessoa. E mesmo sabendo disso, eu me deixo me apegar. E a única coisa que me arrependi nessa droga de campo de treinamento, enquanto eu estava preso naquele buraco, foi que eu lutei contra você o tempo todo e desperdicei todo o tempo que tivemos juntos." Suspirou pesadamente. "Eu sei que ainda sou um mala sem alça, Yuy, é da minha natureza. Mas mesmo quando estou discutindo com você, eu ainda me importo."
Heero riu suavemente. "Você é um cara complexo, sabia?"
"Desculpa."
"Não se desculpe. Eu não mudaria nada em você," afirmou sem hesitar.
Duo o encarou de olhos arregalados. "Nada?"
Heero balançou a cabeça. "Vamos, idiota. Precisamos chegar na enfermaria." Manteve um braço ao redor da cintura de Duo enquanto completavam o resto do caminho até o centro médico, e bateram na porta discretamente.
A doutora Po nem ao menos pareceu surpresa ao vê-los no seu batente. Na verdade, julgando pela xícara de chá repousando na mesa a alguns passos de distância, ainda saindo vapor, parecia que ela estava esperando. "Vocês dois estão se tornando visitantes regulares," comentou com um pequeno sorriso, gesticulando para que entrassem. "Gostariam de uma xícara de chá? A água está quente."
"Não, obrigado," Heero recusou educadamente. "Não queremos incomodar."
"Fale por você, Yuy," Duo repreendeu. "Eu adoro incomodar os outros." Abriu o sorriso mais charmoso para a médica e o líder resistiu ao impulso de abraçar o rapaz ao seu lado. Dava para perceber que Duo estava se fazendo de fofo e o mais adorável possível para amolecer a doutora, e o que surpreendeu Heero foi o fato de que ele estava fazendo tudo por uma pessoa que odiava. Não importava o quanto as ações de Trowa o machucaram, o adolescente de L2 fazia tudo o que precisava para ajudar um companheiro de time, e Heero resolveu que expressaria o quanto estava orgulhoso dele na primeira chance que tivesse.
Duo tagarelou enquanto a médica lhe servia chá. Falou como ela tinha sido legal com ele enquanto estivera na enfermaria, e como ninguém, desde a irmã Helen, cuidara dele daquela forma.
Quando os três se sentaram ao redor da mesa, a doutora tinha uma expressão levemente confusa. "Duo, não que eu não esteja feliz em te ver tão... contente essa noite," ela começou com cuidado. "Mas é uma grande mudança de ontem à noite. Você está bem?"
Ele assentiu com a cabeça veementemente. "Estou bem doutora, sério." Bebericou o chá, olhos índigo estudando a face dela como se procurando alguma coisa. "Mas eu preciso da sua ajuda... bom... mais ou menos."
"Te falei antes. Qualquer coisa que precisar," ela reafirmou.
"É que não é pra mim," Duo revelou cuidadosamente. Baixou um pouco a cabeça, olhando para ela por entre a franja, e Heero mordeu o lábio para evitar sorrir. Que capacidade esse Maxwell tem de ser malandro! "Acontece, doutora, que o Trowa piorou e, hum, descobrimos que não é bem só uma gripe."
A médica o observou curiosa.
"Olha só, ele tinha esse ferimento no ombro, e com todo o exercício por aqui, voltou a doer." Balançou a cabeça tristemente. "De acordo com ele, analgésicos comuns nunca funcionaram, então dessa vez ele acabou pegando alguns com outro detento."
A expressão de Sally variou entre entendimento e preocupação. "Ele está tendo sintomas de abstinência," adivinhou rapidamente. "Que menino bobo!"
Duo concordou com um meneio de cabeça. "Ele não tem mais nenhuma droga, doutora. Verdade verdadeira!" Mirou nela um olhar suplicante com o qual ela teria que ter sido feita de pedra para resistir. "Foi um erro idiota. Mas se contar pro Capitão Chang..." deixou a frase pairar no ar.
Ela o analisou desconfiada. "Quer que eu trate um caso de abstinência e não faça um relatório," afirmou de forma neutra, seu tom não revelando nada.
Heero resolveu que deixara Duo carregar a responsabilidade mais do que devia. "Se Chang descobrir, ele pode se sentir obrigado pela honra a mandar o Barton embora. Ele vai para a cadeia, senhora. Tudo por conta de um erro bobo."
Ela fez uma careta, pensativa, levantando-se e andando pelo cômodo. "Vocês dois entendem que eu posso ser demitida por algo assim? Posso perde a licença médica."
"Eu sei," Heero respondeu simplesmente.
Sally Po se voltou acusatoriamente para Duo, que teve a decência de corar um pouco. "Então achou que poderia me seduzir e me convencer a violar a lei por você?" ela questionou rispidamente.
O rapaz de trança pendeu a cabeça para o lado. "Desculpa," pediu com a voz baixa. "Eu não tinha ninguém mais a quem recorrer."
"Não é culpa dele," Heero se apressou em consertar. "Duo não queria vir até você. Sério. Mas Winner e eu insistimos porque você parece... se importar."
Ainda por debaixo da franja, os olhos índigo se arregalaram na direção do líder. Duo não sabia que Heero podia ser tão manipulativo quanto ele próprio.
"Eu me importo," Sally admitiu, relaxando levemente. "Quais são os sintomas?" perguntou, virando-se e despejando a água quente na pia.
"Vômito, dores estomacais, fraqueza e tremores," Yuy recitou sem pestanejar. "Ele está febril e acho que está delirando. Estamos preocupados com convulsões."
"E deveriam," ela reforçou. Pegou a maleta preta debaixo da mesa e foi até o armário, abastecendo-se com alguns remédios. "E, pelo jeito, ele tem esses sintomas a vinte e quatro horas."
"Sim, senhora," respondeu. Olhou do outro lado da mesa, para Duo, ainda de cabeça baixa e mexendo inquieto na franja. Dava para perceber que o companheiro de time estava chateado pela doutora ter pensado que ele queria enganá-la. Por isso, tomou a mão do jovem de cabelo longo, balançando a cabeça levemente e baixando a voz. "Desculpa por te obrigar a fazer isso."
Duo assentiu com a cabeça fracamente.
Quando a doutora se virou e viu os dois segurando as mãos, apenas sorriu para si mesma e virou novamente antes de os dois a perceberem. Fechou a maleta e falou alegremente. "Prontos?"
"Sim, senhora," Heero replicou prontamente, soltando a mão do outro e se levantando.
Duo suspirou, indo até a porta e a abrindo. Acompanhou-os como uma sombra desanimada atravessando o complexo.
Trowa estava, se possível, ainda pior do que quando eles saíram, e o rosto de Quatre se iluminou de alívio ao ver a doutora. "Graças a Alá que você está aqui!" Ergueu-se, oferecendo-a a cadeira na qual estava sentado.
A médica não perdeu tempo conversando, rapidamente mediu os sinais vitais de Trowa, testou a reação da pupila à luz, e ouviu longamente o coração e pulmões. Então, ela tirou alguns frascos e seringas da maleta e mediu injeções para o acrobata debilitado.
Uma vez terminado, ela reservou um pouco de sua atenção a Quatre. "Quando falou que ele estava segurando líquido, era só balela? Ou era verdade?"
"Ele segurou," o loiro confirmou. "Hoje à tarde, consegui dar pra ele quase um copo inteiro de refrigerante. Ele não vomita há horas."
"Isso é bom," ela falou, balançando a cabeça. "Mas enquanto as drogas liberaram o sistema digestivo, ainda têm que sair do sistema nervoso." Empurrou a cadeira para trás, erguendo o rosto para ver os três adolescentes desajeitadamente assistindo-a. "Dei a ele medicamentos para prevenir convulsões geralmente associadas a esse tipo de abstinência. Mas ele ainda pode ficar confuso por várias horas. Se ele não parar completamente de delirar até meio-dia, quero que um de vocês vá me chamar." Seu olhar rigoroso penetrou cada um deles. "Fui clara?"
"Completamente," Heero respondeu seco.
"E alguém precisa ficar com ele o tempo todo."
"Já estamos fazendo isso," Quatre informou. "E continuaremos."
Ela olhou para o loiro interrogativamente. "Acredito que você seja o enfermeiro principal aqui."
Ele fez sinal afirmativo.
De sua maleta, ela tirou um frasco e colocou dois comprimidos na mão antes de passá-los para Winner. "Você parece exausto," notou. "Tome com um copo cheio de água e vá se deitar. É para você ter oito horas de sono antes de alguém te incomodar." Ela olhou por cima do ombro para Heero e Duo. "Posso contar com vocês para cumprir?"
"Sim, senhora," o líder prometeu.
Duo apenas assentiu com a cabeça, encarando o chão.
"Volto para checar o paciente em exatamente doze horas," a doutora os informou. "Enquanto isso, se piorar, me busquem imediatamente." Enquanto dava ordens, ela mais uma vez checou os sinais vitais de Trowa, refletindo estar infinitamente contente com a melhora. "Ele está respondendo bem à medicação. Com sorte, não terá outra crise." Levantou-se, recolhendo seus pertences.
Quatre foi ao banheiro encher um copo de água e Duo o seguiu, ainda desconfortável em estar próximo a doutora. O loiro engoliu os comprimidos e voltou-se curioso para o amigo, sentindo o desconforto. "Duo, obrigado por trazer a doutora Po. Sei que é difícil para você ajudar o Trowa."
"Não fiz por ele," Duo se apressou em dizer, a voz severa. Sua expressão se suavizou ao olhar para os olhos azul-esverdeados. "Fiz por você, Quat."
Quatre jogou os braços ao redor de Duo num abraço impulsivo. "Eu sei," sussurrou na orelha do amigo. "Obrigado."
O rapaz de trança retornou o abraço. "Como eu poderia fazer menos para o que tenho de mais próximo a um irmão?"
"É, espera até eu colocar as mãos em mais chocolate," Quatre respondeu. "Vou te fazer os melhores s'mores* da sua vida!"
Duo conseguiu abrir um fraco sorriso. "Vou gostar disso."
Enquanto isso, Heero teve a oportunidade de falar com a médica a sós. "Decidiu se vai contar para o Chang?" perguntou timidamente.
Ela franziu o cenho de leve. "Ainda estou pensando nisso," admitiu.
O líder balançou a cabeça positivamente. "Justo." Limpou a garganta, incomodado. "Sobre o Duo..."
"O que tem ele?"
"Saiba que ele se sente muito mal por ter te pedido ajuda daquele jeito." Heero olhou seriamente para ela. "Ele é uma pessoa boa. Acho que está preocupado que você está brava com ele por causa disso. E, como falei, Winner e eu o pressionamos. Quero dizer, era óbvio que você gostava dele."
Ela abriu um sorriso astuto para o líder. "Não tanto quanto você," provocou.
Heero corou, piscando surpreso. "Senhora?"
Ela abanou uma mão com desdém. "Não se preocupe, Yuy. Não é assim tão óbvio."
"O que não é?" a voz de Duo soou quando ele e Quatre retornaram.
"Nada, Maxwell," Heero respondeu rapidamente, rispidamente, andando até aporta para abri-la.
A doutora o seguiu, virando-se para os outros dois. O olhar preocupado de Quatre estava novamente em Trowa, enquanto Duo encarava qualquer lugar menos a médica. A expressão dela se suavizou ao estudar o garoto chateado. "Não estou brava com você, Duo."
Ele ergueu a cabeça de uma vez. "Mas eu..."
"Sua lealdade ao seu companheiro de time é admirável," ela falou rapidamente, antes que ele pudesse começar uma modesta desculpa.
Você não faz ideia, ele pensou amargamente.
"Embora eu preferisse que você tivesse confiado em mim desde o início," Sally continuou. "Sei que você não tem razão para confiar no sistema que armou para você se machucar." Sorriu sem qualquer humor. "E, querendo ou não, eu sou parte do sistema."
"Não, você não é," Duo garantiu, encarando-a diretamente nos olhos. "Você é melhor do que o sistema, doutora, porque você realmente se importa. E eu me sinto péssimo por achar que podia te manipular para você arriscar o seu trabalho."
O sorriso dela se aqueceu. "Não é um risco tão grande," ressaltou. "Nenhum de vocês vai contar o que eu fiz, e se eu documentar como um caso de gripe, posso justificar os medicamentos usados."
Duo se surpreendeu. "Você não vai contar para o Chang?"
Po balançou a cabeça. "Não, não vou. Espero que, em algum momento, vocês quatro provavelmente vão."
Heero ergueu o rosto repentinamente ante a resposta dela, então concordou. "Você está certa. Cedo ou tarde, não vou poder mais esconder. Vou ter que contar para o Wufei e torcer para que ele entenda."
Sally assentiu com a cabeça. "Por hora, acho que vocês quatro precisam muito um do outro para arriscarem. Sugiro tomarem conta de Trowa e ganharem a competição... aí sim se preocupem em confessarem para o Capitão Chang."
Duo foi até a doutora, olhando timidamente por entre a franja mais uma vez. "Existe alguma regra contra um detento abraçar a melhor médica do mundo?"
Ela riu. "Nenhuma."
Duo a abraçou, murmurando um "obrigado". Depois subiu na sua cama, muito envergonhado para olhar para trás.
Heero ofereceu um firme aperto de mãos, embora odiasse o gesto. Ele até mesmo sorriu para a médica. "Te devemos essa."
"Então me paguem fazendo algo de útil com suas vidas," falou com forçada severidade.
Quatre também a abraçou, prometendo seguir as instruções à risca.
Com um sorriso contente, a médica retornou para a enfermaria preencher os formulários necessários para documentar o "caso de gripe" e se safar.
Assim que Sally Po se retirou, Heero se recostou no beliche, ficando no mesmo nível de Maxwell. "Você vai dormir bem se eu ficar com o Barton?"
"É, acho que vou sobreviver," Duo respondeu com um sorriso zombeteiro.
O líder se virou para Quatre. "Fica na minha cama, Winner. Eu pego a cadeira do lado do Barton e assumo a guarda por algumas horas."
O loiro concordou, andando pesadamente até a cama debaixo do outro beliche. "Ei, Heero? Duo? Vocês dois são os melhores companheiros de time de todos os tempos."
"Você também, parceiro," Duo devolveu antes de mirar sua atenção nos olhos azuis de Heero. "E temos o melhor líder de todos os tempos."
O dito líder sorriu de volta. "Como te falei antes, Maxwell... Sou o melhor em um monte de coisas."
Duo se ergueu sobre um cotovelo. "Eu acho que foi que você tem o melhor de muitas coisas." Um olhar malicioso deslizou do rosto perfeito do líder para baixo. "Ainda estou esperando prova."
"Vocês vão fazer o Tro vomitar de novo se ele ouvir essa baboseira," Quatre mencionou sonolento da cama de Yuy, onde se deitava.
"Uau. Sarcasmo. Não sabia que você tinha a capacidade, Winner," Duo comentou.
Heero riu. "Parece que continuamos a nos surpreender." Fixou um olhar cálido no rapaz de trança. "Eu estava esperando uma chance de te dizer como fiquei orgulhoso de você lá na enfermaria."
Duo ergueu uma sobrancelha interrogativamente.
"Você não tem nenhuma razão para fazer favores ao Barton. Mas você agiu como um verdadeiro membro do time quando foi pedir para a Doutora Po ajudar ele. Fique impressionado."
Por mais que tentasse esconder sua exaltação perante o elogio, Duo não conseguiu evitar a faísca em seu olhar. "Obrigado, Yuy."
"De nada." Heero se inclinou, depositando um beijo na ponta do nariz de Duo. "Agora vai dormir, baka." Ele tomou seu lugar na cadeira a qual o loiro desocupara.
O jovem de trança deitou de costas, puxando a coberta até o queixo. "Ei, Ro... o que significa shinnaino?"
"Hum?"
"Você me chamou disso quando eu... ah, ontem... antes de irmos à enfermaria." Olhou de soslaio para o líder, olhos se semicerrando. "Não é outro insulto, né?"
"Hum."
"Acho que já te falei que hum não é resposta. Não é nem uma palavra!" Duo o lembrou.
"Vai dormir, shinnaino." Dessa vez, o jovem de L2 conseguiu praticamente ouvir o sorriso no rosto do outro.
"Eu preciso de um dicionário japonês," Duo murmurou, fechando os olhos.
Continua...
Notas de rodapé:
*S'more: biscoito recheado de marshmallow com um pedaço de chocolate. Tradicionalmente tostado na fogueira, comum em acampamentos.
Resposta aos comentários:
Ny-chan! Segura o seu kokoro! Perdoa-me pela demora com esse capítulo, mas cá está. Queria que tivesse sido mais emocionante para valer a espera, mas teve uns momentos fofos do nosso querido OTP, né? Eu adoro os seus surtos de alegria! Obrigadíssima! Beijos.
Alguém me belisca! Isso que vejo na página de comentários são mensagens da Harumi?! Ela surge como uma fênix flamejante! Kkkkkkkkkkk ri horrores com os comentários! Acho que você teve uma reação similar a minha quando o Trowa f*deu com tudo quando "se algo acontecer com o Duo eu quebro o Heavyarms!" Eu queria quebrar o Heavyarms e a cara dele! Concordo com o Wufei parecendo adolescente, é meio difícil separar ele dos outros rapazes e às vezes não parece que é para ele ser mais velho aqui. Super chato isso de não poder mais copiar texto do Fanfiction, mas existe um complemento para o Firefox (acho que deve ter pro Chrome também) que chama Right To Click, funciona para esse tipo de página que não te deixa selecionar texto. Que bom que voltou a ler e está gostando! Obrigada pelos comentários, beijos!
Nana, quatro anos, sério?! Gente, que vergonha que me deu, eu estou traduzindo essa bagaça há tanto tempo, acho que também não quero que acabe! Mas vai acabar, juro que vou até o fim, questão de honra. Não precisa ser tímida, eu fico tão feliz com comentários, quase morri com isso: "Você é magica." Awwwwwwwwww, obrigada! Eu devo estar com o rosto vermelho XD Gente, 39 capítulos é muita coisa mesmo, muitas emoções, e fico feliz por compartilhar tudo isso contigo. Obrigada demais pelo comentário! Beijos.
Oi Thayssa Zaro! Então, você está falando do Illy-chan e Grupo GW Traduções. Boot Camp não foi abandonada pelo grupo. A verdade é que eu fazia parte do grupo (na verdade, o grupo não se desfez formalmente) e eu mesma que traduzia Boot Camp e postava na conta do grupo. SÓ QUE cansei XD E preferi, por diversas razões, continuar postando somente na minha conta. Eu cheguei a deixar um aviso no último capítulo que postei naquela conta. Portanto, por aqui ainda estou postando sim! Essa fic não foi abandonada! E você vai terminar de ler sim se continuar me acompanhando! Muito obrigada pelo comentário! E espero que tenha gostado de mais esse capítulo! Beijos.
