Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
N/T: Capítulo dedicado à Litha-chan (Menina, levanta da BR! Kkkk Espero que goste das tentativas de sedução do Duo desse capítulo! Bjs!) e a Harumi (Amei a onomatopeia XD Também quero um abraço dos GWboys, quem dera kkkkkk Bjs!)
Campo de Treinamento
Capítulo 40: O Pior Já Passou... Ou Não
Quando a luz da manhã raiou pela janela do alojamento, Heero já havia cochilado sentado na cadeira ao lado de Trowa. O acrobata descansava tão pacificamente que não precisava de observação constante.
Duo acordou primeiro, tendo um sono inquieto sem sua coberta de segurança Yuy, mas se sentiu descansado mesmo assim, e pulou silenciosamente da cama para andar pé ante pé pelo quarto até o banheiro.
Quando saiu, observou Heero dormir por um momento. Era uma novidade para ele poder encarar descaradamente o rosto de que gostava tanto, e um pequeno sorriso apareceu em seus lábios. Encontrou-se estudando a forma que os cílios escuros encostavam-se às maçãs do rosto o líder e o quão calmo e inocente parecia quando completamente relaxado. Não havia expressão defensiva ou tensão nos músculos suaves da face masculina, e os dedos de Duo se contorceram com vontade de acariciar as bochechas macias e bronzeadas.
Mas quando estava prestes a sucumbir ao impulso, aqueles profundos olhos azuis se abriram e o encararam. "Duo…" a voz de Heero estava rouca por ter acabado de acordar e ele soava como se pensasse estar sonhando.
"Bom dia, amor," Duo falou com o seu sorriso provocante usual. Bagunçou o cabelo já bagunçado, deixando seus dedos acariciarem por um pouco mais tempo do que achava que devia. "Dormiu bem nessa cadeira dura?"
Heero se endireitou, estremecendo e grunhindo.
"Pelo jeito não." Duo não era do tipo que deixava uma oportunidade passar quando batia na sua porta, e ele foi até detrás da cadeira, colocando as mãos nos ombros do líder e começou um gentil movimento de amassar.
"Oh." Heero relaxou sob a habilidosa massagem, fechando os olhos. "Nossa, Duo. Isso é muito bom."
"Ah-hã," Duo suspirou, amando como os músculos dos ombros se flexionavam ante o seu toque. "Eu podia fazer isso pro resto da vida," murmurou para si mesmo.
"Eu podia deixar," Heero respondeu.
"Caramba, Yuy… Você tem audição sobre-humana por acaso?" perguntou exasperado. "Você não deixa passar uma."
Heero sorriu maliciosamente. "Pois é. Eu sei de tudo e vejo tudo, Maxwell. E não se esqueça."
Duo ergueu o olhar, desviando-se do seu estudo anatômico, e encontrou Trowa, quem parecia estar dormindo razoavelmente calmo. "Como está o escroto traidor?" perguntou friamente.
"Melhor, eu acho," respondeu, ignorando a frase ácida.
"Que bom."
Heero inclinou a cabeça para ver o rapaz atrás de si. "Bom?"
"É. Quanto antes ele se recuperar, melhor pra eu encher logo ele de porrada."
O líder suspirou. "Não dá pra esperar depois de ganharmos a competição de capturar a bandeira? Ele não vai ajudar muito o time com ossos quebrados, Maxwell."
"Não vou quebrar ele," Duo sibilou num tom baixo ameaçador. "Prometo. Vou só arrebentar ele um pouco."
"O problema com isso é que ele luta tão bem quanto você," Heero salientou.
"Você não me viu motivado," Duo replicou tranquilamente. "Muito motivado."
Naquele momento, Trowa se mexeu, grunhindo e rolando antes de abrir os olhos. Piscou, franzindo o cenho como se confuso. "Onde eu tô?"
"Cadeia," Duo respondeu solícito.
"Acampamento Peacecraft," Heero contribuiu. "Lembra Barton? Campo de treinamento?"
"Campo de treinamento?" Trowa fechou os olhos, balançando a cabeça, cansado. "Que seja," murmurou, caindo novamente num sono agitado.
"Oh, se ele pensa que desenvolver uma amnésia conveniente vai salvar seu couro de mim..." Duo falou num tom ameaçador.
Heero riu baixo. "Não, Maxwell. Amnésia não é um efeito colateral de abstinência. Ele só está cansado e confuso. A cabeça dele vai clarear quando melhorar." Esticou-se, girando os ombros sob as mãos do rapaz de cabelos compridos. "Acho que eu deveria levantar. E você deveria ir ver como Quatre está."
Duo olhou para o loiro dormente. "Ele ainda está capotado." Sorriu irônico. "Conheço bem essas pílulas, ele deve ficar desacordado por mais umas horas." Ergueu uma sobrancelha, lançando a Heero um olhar malicioso. "Estamos mais ou menos sozinhos, Yuy."
A forma que os olhos azuis o fitaram fizeram as maçãs de seu rosto imediatamente corarem, apesar do seu comentário atrevido.
"Não me provoque," Heero murmurou com a voz rouca.
"Mas é o que eu faço de melhor," Duo rebateu. "Não foi você que me informou o quão... sedutor... eu sou?" Deslizou levemente as mãos pelos ombros do líder como se fosse enfiá-las pela camisa dele.
Mas Heero pegou as abusadas mãos assim que roçaram em sua pele. "Caralho, Duo... não."
"Não o quê, Yuy? Não é pra te jogar no chão pra te foder inteiro?" Os olhos de Duo ostentavam um brilho audacioso.
Heero desviou o olhar, grunhindo discretamente. "Você é um monstro, Maxwell, sabe disso?"
"Você que não sabe nem a metade."
O líder se forçou a se levantar, gentilmente empurrando as mãos de Duo e mantendo a cadeira entre eles. "Vou usar o banheiro e você pode ficar vigiando o Barton enquanto eu vou no refeitório para trazer comida."
"Não é para você sair sozinho, Yuy." Duo ainda o observava de forma predatória com um sorriso sugestivo. "Por que não fica aqui e encontramos uma forma de passar o tempo?"
"Norton se foi... Pritchard não é mais uma ameaça. Acho que posso arriscar uma rápida caminhada pelo acampamento."
"E confiar em mim para vigiar o desgraçado que me enfiou a faca nas costas?" questionou, balançando a cabeça. "Às vezes você pode ser bem ingênuo, Yuy."
Os olhos azuis o analisaram; o jovem de trança congelou no lugar e sua expressão debochada sumiu. "E às vezes você não se dá crédito o suficiente, Maxwell." Virou a cadeira, apontando para ela e Duo, lentamente, quase relutante, escarranchou nela, cruzando os braços sobre o encosto e deixando seu olhar se perder na direção do companheiro de time dormindo. Heero acariciou a franja castanha, deixando os dedos deslizarem pela lateral do rosto do recruta à sua frente. "Tome conta das coisas por aqui e estarei de volta antes de perceber que saí."
Os olhos índigo o miraram e Duo suspirou pesadamente. "Eu não sei por que faço o que você me pede, Yuy."
"Por que eu sou o líder do time?"
"Não, acho que é porque eu sou um completo idiota."
"Hn," foi a resposta totalmente ambígua de Heero antes de se virar e entrar no banheiro.
Quando saiu, Duo tinha apoiado o queixo nos braços cruzados e preguiçosamente observava Trowa dormir com uma expressão ilegível.
Quatre acordou para encontrar o quarto quieto e, ao se sentar, percebeu Duo ao lado da cama de Trowa. "Ei, Duo... como ele está?" perguntou, sentando-se e bocejando.
"Melhor do que tem o direito de estar," replicou num murmuro.
O loiro estremeceu, franzindo o cenho. Entendia a amargura de Duo, mas não era fácil para ele saber que o seu melhor amigo odiava o rapaz a quem tinha tanta afeição. E, sinceramente, se ele refletisse, o que evitara cuidadosamente até então, não mais tinha certeza de como se sentia em relação à Trowa. O rapaz de L3 traíra todos eles; causara dano irreparável em Duo, e quebrara a confiança que os três tinham nele. Parte de Quatre queria odiá-lo; mas mesmo assim, sabia o quanto Nanashi significava para o acrobata e como ele estivera desesperado para salvá-lo. Desesperado o suficiente para arriscar tudo e qualquer um.
Duo olhou sobre o ombro e viu os tristes olhos verdes azulados. Fez uma careta, voltando ao seu posto. "Yuy vai voltar logo com comida."
"Que ótimo." Quatre decidiu que era cedo demais para tentar discutir a situação com Duo e, ao invés disso, levantou-se e se vestiu, cumprindo a rotina do sábado de manhã como se não houvesse nada de errado.
No meio do caminho, Heero decidiu fazer uma visita ao escritório de Wufei. Sabia que o chinês acordava cedo e não se surpreendeu ao encontrá-lo em sua escrivaninha.
"Bom dia, Chang."
"Yuy." Wufei ergueu uma sobrancelha curiosamente. "Como vão as coisas com o seu time?"
"Quer saber quais foram os danos em Duo por causa da palhaçada do Norton?"
Uma sugestão de sorriso apareceu nos lábios de Wufei. "Tenho certeza de que se ele teve pesadelos, você estava bem ali para ajudar, não é?"
Heero riu secamente. "Ele não precisa de muita ajuda, Fei. Na verdade, acho que conseguir se defender do Norton aumentou a confiança dele um pouco. Ele está bem metido essa manhã."
"Ele nasceu assim, Yuy. Uma coisinha como o campo de treinamento não vai mudá-lo. Sinceramente, é uma das características dele que me fazem achar que será um piloto excepcional."
"Ou uma pedra no seu sapato," Heero murmurou.
"Ah, mas você é o líder dele, Yuy. Ele é a sua pedra... não minha."
O rapaz apenas balançou a cabeça, suspirando. "Enfim, Chang. Não vim aqui falar sobre Duo. Vim avisar que o Barton está gripado. Chamamos a médica para dar uma olhada nele ontem à noite e ela deu uns remédios... mas acho que ele vai precisar de um ou dois dias de folga dos exercícios."
"Sem problemas," o oficial militar respondeu. "Essa semana será preparativa para a próxima competição. Terão muita pesquisa e planejamento, e a calistenia como sempre e pista de obstáculos para treinos físicos. Dois dias não vão deixá-lo muito para trás."
"Que bom ouvir isso." Heero se inclinou contra a parede, relaxando levemente. "Pode avisar a irmã dele que Trowa não vai poder ir ao Centro de Visitas hoje?"
"Ah, é mesmo. Ela vem sem falta toda semana," Wufei lembrou. "Vou tentar entrar em contato antes que ela faça a viagem para cá."
"Obrigado. Sei que Barton vai ficar agradecido."
"Ela é uma irmã muito devotada, pelo que vi... E foi muito gentil da parte dela adotar o cachorro."
Os olhos de Heero se escureceram com a menção de Nanashi, pois o fez se lembrar do que custara a Duo. "Ainda bem que ela conseguiu salvar ele," falou com cuidado. E logo em seguida desse pensamento, sua mente trouxe a tona o carcereiro cruel que armara tudo. "Como vão as coisas com Kushrenada?"
Os olhos negros arderam. "Por que pergunta?"
"Porque sei o quanto ele quer acabar com Duo e com certeza não gostou de ter o dedo-duro de estimação, Norton, enviado para o hospital."
"Trocamos algumas palavras," Wufei deu de ombros.
"Palavras de baixo calão?"
"Algumas," respondeu com um sorriso. "Ele me falou para eu não abaixar a guarda."
Os olhos azuis se arregalaram. "O desgraçado te ameaçou, Wufei? Na sua cara?"
Chang assentiu com a cabeça. "Ele sugeriu que se algo acontecer comigo, ele dirá a Merquise que me avisou sobre as tendências perigosas dos recrutas."
"Merda, Fei! Esse cara está aprontando uma," Heero concluiu.
"Tenho certeza que sim." O chinês recostou-se confortavelmente na cadeira. "Estou quase certo de que ele instruiu Norton a provocar Maxwell para uma briga, esperando que o seu companheiro de time esquentadinho desse o primeiro golpe, o que o deixaria com problemas." Franziu o cenho levemente. "Claro que ele sabe que eu tenho a última palavra na disciplina de Maxwell... então deve ter suposto que eu dificilmente mandaria o menino pra prisão por uma simples briga. Nesse caso, não sei o que ele esperava conseguir."
"Talvez Kushrenada quisesse Duo machucado."
Wufei bufou secamente. "Você falou o óbvio, Yuy."
"E, pelo jeito, ele quer machucar você também." Heero fez uma careta de desagrado. "Você deve considerar ter alguém do seu lado o tempo todo, Chang... É mais seguro."
"Pensei nisso," Wufei admitiu. "E já informei meu comandante da situação. Ele está a caminho, aparentemente para supervisionar a competição. Mas eu acho que só quer estar por aqui para prevenir Kushrenada de estragar o programa inteiro." O oficial se levantou, andando inquieto pelo cômodo. "Se algo acontecer comigo, e um recruta levar a culpa, a Iniciativa Peacecraft seria completamente desacreditada."
"Parece que o diretor queria que falhássemos desde o primeiro dia."
"Ele me falou isso bem claramente na primeira semana. Ele acha que a Iniciativa é uma baboseira sentimental, e que todos os jovens que se meteram em encrenca suficiente para virem parar aqui não têm mais salvação."
Heero mal resistiu o impulso de contar a Wufei que Kushrenada estava vendendo drogas bem debaixo do nariz dele. Mas explicar como sabia disso era muito arriscado ainda, então mordeu a língua. "Estou preocupado com você, 'Fei."
O oficial sorriu sem humor. "Não fique. Sou mais cuidadoso do que você pensa. Sei que não sou invulnerável, Heero. Não vou e nem quero me expor a riscos desnecessários."
"É bom ouvir isso." Heero relanceou a porta. "Acho melhor eu ir andando. Prometi levar café da manhã para Duo e os outros."
"Te falei que seria um bom líder," Wufei o lembrou com um sorriso. Inclinou-se numa saudação cavalheiresca, a qual Heero imitou antes de sair.
A manhã passou rápida, com Heero, Duo e Quatre revezando a guarda ao lado de Trowa. Logo chegou o horário de visitas, e Heero insistiu para Duo acompanhar o loiro ao centro, enquanto ele permanecia como o enfermeiro da vez.
"Você precisa de uma folga," falou para o rapaz de trança, que ainda não parecia o mesmo depois de dois dias seguidos emocionalmente estressantes.
Duo sorriu ironicamente. "Por que não? Acho que posso seduzir um pouco as irmãs de Quatre." Sua expressão se tornou travessa. "Ouvi dizer que elas têm muito dinheiro, 'Ro. Qualquer uma delas seria um partidão."
Heero não mordeu a isca. Manteve o olhar na tela do laptop. "Pena que você não gosta da fruta, Maxwell."
Vendo que o líder não lhe daria a satisfação de demonstrar um pingo de ciúme, Duo suspirou profundamente e se virou para Quatre. "Se importa em me apresentar a fofa que trouxe os ingredientes para os s'mores? Quero agradecer pessoalmente."
"Claro."
Os dois foram para o Centro de Visitas e Heero continuou trabalhando no computador enquanto mantinha um olho em Trowa.
Muito antes de Duo e Quatre voltarem, Heero ouviu um gemido vindo da cama de Trowa e foi investigar.
"Como está se sentindo, Barton?"
Olhos verdes piscaram cansadamente para ele. "Péssimo," respondeu rouco.
"Dá pra ser um pouco mais específico?" Heero pediu. "Quero oferecer a doutora informações relevantes pra ela."
"Doutora?" Trowa tentou se sentar assustado. "Você vai chamar um médico?"
"Já chamei. Ontem à noite," Heero explicou. "Você estava delirando... prestes a ter convulsão. Não tivemos escolha."
O acrobata afundou-se de volta no travesseiro, fechando os olhos. "Quando vão me mandar embora?"
"Não vai acontecer," Heero respondeu firmemente. "A doutora Po concordou em tratar o caso como uma gripe, por enquanto. Mas se eu fosse você, ficaria limpo depois disso. Ela dificilmente vai ser tão generosa uma segunda vez."
"Te falei, Yuy. Já parei com aquela porcaria," Trowa suspirou, limpando a garganta incomodado.
"Quer água?" Heero estendeu um copo cheio e Trowa bebericou cautelosamente, balançando a cabeça quando terminou.
"Como convenceu a doutora a manter isso em segredo?" perguntou fraco.
"Ela gosta do Duo," Heero falou, notando como Trowa estremeceu ao ouvir o nome.
"Eu também," comentou suavemente, a voz cheia de amargura. "Você não sabe o quanto eu sinto muito pelo que aconteceu."
"Desculpas não vão apagar o passado," o líder rebateu sem pestanejar.
"Eu sei." Trowa se voltou para ele em interrogativamente. "O que diabos eu devo fazer, Yuy? Não posso mudar o passado. Não posso compensar Duo. O que eu devo fazer?"
"Eu não sei," o líder deu de ombros. "Pra começar, faça o que pode. Dê o seu melhor pelo resto desse treinamento e talvez as coisas se acertem."
"Você me odeia?"
Heero balançou a cabeça em negativa. "Você fez merda, Barton. É simples assim. Mas você não sabia o que aconteceria. Você não planejou deliberadamente para Duo ser culpado e definitivamente não sabia o que aquele maldito guarda faria." Seus penetrantes olhos azuis se escureceram. "Não me entenda mal. Estou puto com você." Balançou a cabeça novamente. "Mas te odiar? Não. Viemos muito longe como um time para eu te odiar por conta de um erro, não importa o quão monumental o erro tenha sido."
"E o Duo?"
Heero suspirou. "É, então. Tenho quase certeza de que ele te odeia."
"Não brinca."
"Você esperava menos?"
Trowa balançou a cabeça. "Vou ficar surpreso se ele não me encher de porrada na próxima vez que treinarmos luta."
"Ou antes," deu de ombros outra vez.
"E se ele for contar para o Chang?"
"Acho que ele não vai." O líder considerou por um momento. "Duo não é lá muito chegado em figuras de autoridade. Ele não é do tipo que sai dedando pra alguém no poder. Prefere encarar as próprias batalhas."
"—e executar a própria vingança?" Trowa adivinhou.
"Eu já fiz com que prometesse não quebrar seus ossos," Heero revelou.
"Estou muito mais aliviado," respondeu sarcasticamente.
"Podemos voltar ao tópico de como você está se sentindo? Especificamente."
O rapaz de L3 franziu o cenho pensativo. "Fraco," finalmente concluiu. "Sinto que mal posso me mexer. Meu estômago dói... músculos doloridos de vomitar. A garganta está arranhada. E estou com uma enxaqueca pior do que qualquer outra no mundo."
"É por aí mesmo," Heero opinou. "A doutora Po vai vir te checar pela tarde. Pedi para o capitão te liberar das calistenias e pista de obstáculos por dois dias."
Trowa fez uma expressão de desagrado. "Por que você está se esforçando tanto por mim, Yuy? Que droga! Eu sabotei o time... estraguei nossa chance de vencer a competição... quase te matei e..." Sua voz se perdeu momentaneamente, e seus olhos se umedeceram. "—e Quatre." Fechou os olhos com força. "Quase machuquei o Quatre," falou com a voz entrecortada.
"Olha," Heero começou bruscamente. "Se quer confessar, vai falar com um padre. Eu sei o que você fez, Barton, todos nós sabemos. E se eu fosse você, não ficaria repetindo... principalmente na frente do Duo. Deixa pra lá!"
Trowa assentiu, controlando as emoções, e virando a cabeça para o outro lado. "Vou dormir mais um pouco," informou baixo, fechando os olhos.
Heero apenas balançou a cabeça, levantou-se e voltou para o laptop.
Ainda estava no computador quando a doutora Po chegou para checar a condição de Trowa. A visita dela foi curta e amável, meramente confirmando os sinais vitais, perguntando como ele se sentia, e receitando mais descanso e comidas leves até que se sentisse melhor. Mas o prognóstico dela era muito positivo. Ela estava certa de que o pior já passara e apenas precisava recuperar as forças.
"E se precisar de analgésicos, rapazinho," a médica acrescentou como um aviso. "Venha até mim! Não quero mais ouvir de você voltar a tomar a porcaria que te colocou nessa situação!"
Trowa concordou humildemente. "Eu prometo... nunca mais."
A doutora recolheu os pertences, fez um gesto com a cabeça para Heero e pediu para ele dizer "oi" para Duo e Quatre por ela. Então se foi.
Enquanto Heero cuidava de tudo no alojamento, Duo e Quatre aproveitavam uma visita muito agradável de várias das irmãs Winner que fizeram a viagem. Mas ao fim, quando estavam prestes a sair do centro, Quatre avistou Wufei conversando com Catherine e parou, segurando o braço de Duo.
"Ei, Duo... podemos dar um "olá" pra Catherine rapidinho?"
O rapaz de trança olhou para a bela moça e concordou cansado. Por mais que odiasse Trowa e qualquer coisa remotamente conectada a ele, não podia recusar o tom de súplica na voz do amigo.
Rapidamente se juntaram ao capitão.
Wufei se virou ao se aproximarem cumprimentando com um meneio de cabeça. "Winner… Maxwell." Voltou-se para Catherine, de quem o rosto estava repleto de preocupação. "Eles são do mesmo time do seu irmão, senhorita Bloom. Talvez possam te atualizar nas condições dele." Deu um passo para o lado, deixando Quatre assumir, e parou ao lado de Duo. "Como está se sentindo, Maxwell?"
"Estou bem," respondeu com sinceridade.
"Que bom ouvir isso." Com uma curta reverência, Wufei seguiu o próprio caminho.
Duo focou-se em Quatre conversando com a irmã de Trowa. "Ele parece melhor essa manhã, sério. Acho que o pior da gripe já passou."
Ela o esquadrinhou. "Gripe. Tem certeza de que é só isso?"
O rapaz de L2 cutucou Quatre com o cotovelo, inclinando-se para perto. "Ela sabe, Quat."
O loiro mirou intensamente Catherine, mas decidiu continuar bancando o bobo por conta dos guardas que poderiam tentar bisbilhotar. "A médica examinou ele ontem, Catherine. Ela deu alguns remédios para aliviar os sintomas." Encarou-a, esperando que ela entendesse o porquê de não poder falar mais. "Ela vai voltar hoje à tarde para fazer outro exame. Prometo que seu irmão está em boas mãos."
Catherine assentiu, parecendo ter entendido. "Ele tem sorte de ter um time que o apoia," ela mediu as palavras. "Digam a ele para ser forte... e espero que melhore logo."
"Vou dizer."
"E diga a ele que está tudo bem no circo, e não me esqueci do que ele me falou do Nanashi, tá?"
Duo e Quatre trocaram uma expressão confusa e o recruta de trança franziu o cenho para a moça. "O vira-lata está bem?" perguntou com um sorriso brincalhão.
Ela fez que sim e pendeu a cabeça para o lado. "Vira-lata? Ele é um pastor de raça pura."
Duo riu. "Eu sei. Só chamo de vira-lata pra irritar o seu irmão." Deu uma piscadela. "E, pelo jeito, você também."
Ela riu também, balançando a cabeça. "Não sou tão fácil de provocar como o Trowa."
Dessa vez, o rapaz de trança bufou. "Nem me fale."
Quatre sorriu grato para o amigo, contente por ele estar sendo simpático com a irmã de Trowa. Recordou-se afetuosamente que um dos passatempos preferidos de Duo tinha sido provocar o acrobata antes da terrível noite da confissão. Então se entristeceu ao saber que essas brincadeiras jamais aconteceriam novamente.
Duo percebeu e suspirou. "Vamos, Quat. Temos que deixar a Catherine ir embora. Deve ser uma longa viagem para ela."
A moça sorriu calidamente para os dois e seu olhar se prolongou no loiro. "Foi bom te ver de novo, Quatre," falou. "Mande um abraço carinhoso para Trowa."
Ele corou levemente perante o olhar dela... Quase como se ela soubesse de algo que ele não. "C-claro," balbuciou apressadamente. "Faça uma boa viagem."
Ele e Duo escaparam do Centro de Visitas, o rapaz de trança atipicamente silencioso. Estavam na metade do caminho quando ele falou num tom sussurrado. "Você ainda gosta dele, não gosta?"
Quatre suspirou, balançando a cabeça. "Eu odeio ele, Duo. Odeio o que ele fez com você. Foi imperdoável." Seus olhos brilharam com lágrimas não derramadas.
Duo estancou no lugar, cruzando os braços. "Mas...?"
O loiro se surpreendeu.
"Dá pra perceber que tem mais."
"É só..." Quatre ficou cabisbaixo. "Ele está tão arrependido, Duo. Ele está tão cheio de desprezo próprio e dor..."
O rapaz de trança franziu o cenho. "E você está sofrendo por causa disso." O franzir se aprofundou. "Esse desgraçado não consegue parar de ferir as pessoas."
"Você também está sofrendo," Quatre ressaltou baixinho.
Duo o encarou friamente. "Não brinca, Winner. Fui espancado e estuprado não faz uma semana. É óbvio que ainda estou sofrendo."
"Sabe o que eu quis dizer. Você está ferido emocionalmente... porque alguém traiu a sua confiança." Quatre lhe dirigiu um olhar de pena. "O problema é que a sua raiva por ele te fere também."
O rapaz de trança esfregou o rosto. "E o que você quer de mim, porra?! Quer que eu perdoe ele?"
Quatre balançou a cabeça. "Como posso pedir algo que eu mesmo não consigo cumprir?"
"Então o quê?" Duo pressionou. "O que sugere?"
O loiro suspirou. "Ainda não tenho nenhuma sugestão, Duo." Virou-se desconfiado para o amigo. "Vai me ouvir quando eu tiver?"
Como resposta, apenas recebeu um dar de ombros, e o rosto do recruta de trança se desviou para o outro lado. "Depende do que você tiver a dizer. Não vou prometer nada."
"Justo," Quatre concordou fatigado.
Continuaram o caminho, alheios aos frios olhos observando-os a distância do prédio da administração. Kushrenada estava irritado. Voltou para sua mesa onde os arquivos de cada um dos membros do time Wing se espalhavam.
Afundou-se em sua cadeira, analisando a foto de presidiário de Duo Maxwell. Era recente, diferente da foto patética de doze anos de idade dele todo espancado e, ainda assim, reconhecível. Exceto pela desilusão nos olhos índigo e a face levemente mais fina, o jovem não mudara muito. Ele passara de 'fofo' para 'bonito', e muito mais esperto.
"Não mais esperto do que eu," Treize falou em voz alta. "Maldito seja Maxwell... Vou encontrar um jeito de te enfiar na cadeia mesmo que seja a última coisa que eu faça. Se eu tiver que me livrar de todo mundo com quem você se importa, eu vou."
O que o levou para o próximo arquivo: o de Heero Yuy. Colocou-o no topo da pilha, fitando os olhos azuis desafiadores e as feições bem definidas da foto. "Sofreu abuso... Hacker… Tentativa de homicídio." Tinha acesso às transcrições do julgamento e relatórios policiais. E, embora houvesse documentação da infância de abuso do garoto, o fato ficara visivelmente fora das audiências. Ele aceitara o acordo da Iniciativa Peacecraft se declarando 'culpado' das acusações de agressão e tentativa de homicício; portanto o abuso que sofrera nas mãos do pai adotivo não interferiu na sentença. "Estranho," o diretor considerou.
Mas não estava preocupado em tentar entender as motivações de Yuy. Seu único interesse era encontrar o ponto fraco para poder usar contra Maxwell. Havia sido bem fácil com Barton. Acusado duas vezes de posse de drogas, membro de uma gangue de rua conhecida como os Mercs e, finalmente, cometendo uma agressão bem documentada contra um policial, o acrobata de L3 fora fácil demais. Um sorriso vagamente convencido cruzou os lábios cruéis enquanto Kushrenada se reconfortava com o fato de que Barton lhe dera Maxwell de bandeja, mesmo que temporariamente. E embora tivesse falhado em enviá-lo para a cadeia, pelo menos tinha a satisfação de saber que o fizera sofrer.
Mas não era o suficiente. Ainda queria Maxwell encarcerado em L2, onde finalmente perderia aquele sorrisinho arrogante dele.
"Winner," suspirou o diretor, analisando a foto do rosto angelical no último arquivo. "Idealista incorrigível. Companheiro leal e amigo." Mas é claro que qualquer ação contra o loiro poderia seriamente sair pela culatra. A família era endinheirada e tinha influência e, embora, nenhuma das duas coisas fora usada para prevenir a prisão do rapaz de L4, muito dos dois o mantivera longe dos piores centros de detenção. Não que o jovem recruta tivesse cometido qualquer delito violento. Notavelmente, era o único membro do time Wing sem nenhum incidente... Pelo menos até passar tempo o suficiente no reformatório para ser alvo de valentões. Foi aí que ele mandou dois para o hospital, embora os detalhes do incidente fossem vagos. As testemunhas apenas diziam que ele surtara quando o encurralaram na lavanderia. O que mal explicava como um pequeno garoto como Quatre Winner surrara tão facilmente dois dos maiores garotos do lugar. Ninguém colocara a mão nele desde então. E fora um prisioneiro exemplar em todos os aspectos.
Kushrenada jogou o arquivo no fim da pilha. "Inútil."
Acomodou-se, acendendo o charuto, e abriu o arquivo dos funcionários ASMS transferidos para o Acampamento Peacecraft. Várias horas mais tarde, finalmente encontrou uma informação muito curiosa e útil: capitão Chang e Heero Yuy vinham da mesma cidade natal. Já que a diferença de idade era apenas de dois anos, era seguro assumir que se conheceram enquanto cresciam.
Seus olhos se semicerraram. "Ora, ora, ora... isso explica muito." Percebeu de uma vez porque Chang parecia favorecer o time Wing... Porque o oficial chinês insistira em agrupar os detentos por resultados nos testes e não aleatoriamente. Ele queria o amiguinho de infância no topo, que passasse para a Academia. "Vou pagar pra ver," murmurou o diretor, furiosamente fazendo anotações num pedaço de papel. Colocou o arquivo de Heero ao lado do de Wufei, procurando similaridades. E ao terminar, começou a formular o plano.
Eliminar Heero Yuy seria um golpe tanto em Maxwell quanto em Chang, já que o rapaz era importante para ambos. Poderia levar Maxwell a cometer um deslize, um deslize digno de ser punido… E tiraria a motivação de Chang de ver seus "recrutas" terem êxito. Contudo, uma ação direta contra Yuy seria um risco, já que Chang sem dúvida investigaria até o fim do mundo se fosse preciso. Não, devia ter outra forma de atingir o rapaz... Se livrar dele de uma vez por todas. Se ao menos ele desobedecesse a uma regra ou lei.
Então, atentando-se para um fato do arquivo de Yuy, Kushrenada teve uma luz inspiradora.
Sorriu satisfeito, remexendo por várias páginas até encontrar uma com a informação pertinente... O relatório médico de "Odin Lowe," o guardião abusivo de Yuy. Ele ainda estava em coma... Do qual os médicos não esperavam que acordasse. Mas era a diferença entre tentativa de homicídio e homicídio qualificado.
Pesquisando mais, o diretor encontrou a data de nascimento de Yuy. Sorriu triunfante ao ver quando o rapaz faria dezoito anos... A idade mágica para não ser mais qualificado para a vasta proteção proporcionada pelo sistema de justiça juvenil. Perfeito!
Treize Kushrenada rapidamente discou um número em seu vid-fone, mantendo a tela escura para preservar o anonimato.
"Qual é, K?" a voz rouca com um forte sotaque de quem fala com gírias de bandidos perguntou.
"Tenho um trabalho para você, Lou... em L1."
Continua...
