Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
CAMPO DE TREINAMENTO
Capítulo 41: Planejando o Futuro
Trowa dormiu tranquilamente pelo resto do domingo à tarde e à noite. Apenas acordou quando Quatre insistiu que comesse sopa no jantar. A cor de sua pele estava muito melhor e parecia mais lúcido, embora ainda um pouco zonzo. Aquela noite foi uma de muitas na qual Quatre, Duo e Heero puderam dormir ao mesmo tempo sem precisarem se preocupar com outro membro do time.
A alvorada obrigatória de segunda fez todos rolarem das camas bocejando e cambaleando para se trocarem.
Quatre parou ao lado de Trowa, colocando uma mão em seu rosto, os olhos verdes se abriram. "Winner? É hora de levantar?"
"Não pra você," o loiro o informou. "O capitão te deu dois dias de folga. Fique aqui e descanse. Depois que terminarmos a calistenia e o café da manhã, te trago alguma coisa para comer."
Trowa abriu um fraco sorriso. "Obrigado, Quatre." Sua expressão ficou perturbada. "Você é muito bom pra mim, sabia?"
O loiro balançou a cabeça. "Precisamos de você saudável, Trowa. Todos nós. Não se preocupe com nada além de se recuperar por ora."
Trowa concordou, o olhar encontrando Duo penteando os cabelos longos de costas.
Quatre seguiu seu olhar e balançou a cabeça levemente. "Espera mais um pouco," sugeriu, sabendo que cedo ou tarde o moreno alto tentaria se desculpar de novo. Não achava que era uma boa ideia, ainda era muito cedo.
Olhos verdes encontraram os dele... compreensivos. "Talvez um dia?" ele sussurrou.
"Talvez," respondeu evasivo.
Heero, Duo, e Quatre deixaram Trowa, confiantes que ele ficaria bem pelo tempo em que estivessem na calistenia. Apenas Wufei sabia de sua doença, portanto ele não seria incomodado na ausência deles.
O capitão Chang esperava no campo, pronto para se dirigir aos recrutas e explicar mais detalhes da competição. Quando se organizaram em formação, ele sorriu sem humor, andando ao longo da fileira.
"A competição dessa semana será mais desafiadora do que a última," afirmou. "Enquanto a última competição dividia as tarefas, essa juntará tudo em uma missão. Como foram informados semana passada, cada time terá um ponto de início e um mapa. Sua missão será planejar um caminho para o objetivo, seguir o plano e chegar primeiro." Seus olhos escuros faiscaram em excitação, ele próprio planejara a atividade e estava muito interessado no resultado. "A bandeira que devem capturar estará no casebre nas montanhas. Sua rota até lá envolve atravessar rio, escalada, muita caminhada e, pelo menos, uma noite em bivaque*. Depois disso, começa o desafio."
Duo olhou para Heero com a sobrancelha erguida, perguntando-se se ele sabia de mais alguma coisa sobre a competição. Mas o semblante confuso do líder revelou a resposta.
"Para ganharem o prêmio, terão que atravessar um perímetro montado e mantido pelos meus soldados. Encontrarão armadilhas de diversos tipos e patrulhas. Terão que passar por tudo sem serem capturados ou mortos.
A mão de Duo se ergueu rapidamente. "Morto?" perguntou sem esperar que o capitão o chamasse.
Wufei sorriu pacientemente. "Cada um de vocês usará um colete de alvo e carregarão uma arma laser que marca o colete, assim como os meus soldados. Se forem detectados tentando passar pelo perímetro, levarão um tiro... laser. E se forem atingidos, serão classificados como feridos ou mortos... tropas feridas serão levadas em custódia. Mortas serão dispensadas da competição." Tirou uma arma laser do cinto. "Essa é a arma que carregarão. E grande parte dessa semana será para se familiarizarem em como cuidar dela e usá-la. Terão muitos tiros ao alvo para praticar."
Os olhos de Heero se acenderam após a explicação, e Duo se viu novamente se excitando com o brilho perigoso naqueles olhos azuis. Vagamente se perguntou se aquele brilho era tão intenso durante o sexo e decidiu que, custe o que custar, ele descobriria.
"Portanto, recrutas," Wufei continuou, encarando os jovens. "Essa é a semana de preparação. Enviarei seus panfletos de missão depois da refeição essa manhã. Pelo restante da semana, terão muita prática em detectar e desarmar armadilhas, infiltração e evasão, e proficiência nas armas laser. Também terão tempo de usar os arquivos da biblioteca online para pesquisar. Sexta de manhã, vamos para o ponto de partida e, ao anoitecer, a competição começa. Perguntas?"
A maioria dos rapazes ainda estava boquiaberta com a ideia de uma operação pseudo-militar dessa magnitude. As semanas de treinamento físico e aulas teóricas pareciam brincadeira de criança comparada à simulação.
Wufei acenou para o oficial responsável começar a calistenia, e se posicionou mais afastado para observar os recrutas.
Assim que os exercícios matinais terminaram, os rapazes correram para os chuveiros e para comer. O refeitório estava cheio de vozes animadas discutindo a missão.
O time Jason se juntou ao time Wing numa mesa, e mais dois outros rapazes de outros times, enquanto especulavam sobre o restante da semana.
"Ouvi do nosso tutor que ninguém nunca passou pelos guardas pessoais do capitão Chang," Ben falou para os outros rapazes, devorando a comida entre as palavras.
"Então eles fazem esse mesmo exercício na Academia?" Duo perguntou, sua atenção capturada pela conversa.
"É. Depois de uns dias tateando na floresta, querem que a gente tente passar pelos soldados mais vigilantes que já saíram da Academia," Ben comentou balançando a cabeça.
Quatre despejou leite em seu cereal assim como Duo o ensinara. "Tem que ter um jeito de passar por eles. Basta ter uma estratégia."
"Ele está certo," Heero concordou determinado. "Quero dizer, no mínimo, se criarmos uma distração, pelo menos um de nós pode conseguir entrar." Virou-se especulativamente para Duo.
O jovem de trança ergueu uma sobrancelha para ele. "Nem vem tentar me fazer de isca para um monte de soldados loucos para meter o dedo no gatilho, Yuy! Vai ser realista demais."
"Bom, você é o sedutor do grupo," provocou. "Mas eu estava pensando mais em criar uns fogos de artifício ou uma bomba de luz, algo nessa linha. O ideal seria o time todo completar o curso vivo."
"Ooo… explosivos!" Duo cantarolou feliz. "Eu topo. Aprendemos a fazer um aparelho bem legal na semana retrasada... acho que usava o flash de uma câmera.
"Exato," Heero concordou. "Precisamos descobrir qual ferramentas vamos receber e depois vamos... improvisar."
Um sorriso maldoso apareceu no rosto de Duo. "Me fala o que você precisa, oh líder destemido, e eu arranjo pra você.
Heero lhe lançou um olhar de aviso. "Chiu, Maxwell. Vamos discutir a estratégia no alojamento onde não temos plateia."
Ben sorriu. "Aw, Yuy… estávamos esperando pescar umas ideias," brincou. Então deu uma piscadela. "Não se preocupe. Temos uns truques na manga." Virou para Duo. "Jase foi um ótimo professor."
"...e até que beija bem," o jovem de L2 ponderou baixinho, olhos índigo passeando pelos lábios de Heero, recordando-se do beijo repentino durante a luta. Tentou se lembrar exatamente da sensação, mas o que se seguiu depois do acontecido, entorpeceu a memória ao ponto de que desejava tentar de novo, mas sem todo o drama.
Quatre tossiu discretamente, chamando a atenção de Duo, e sorriu.
"Não enche, Winner," murmurou em resposta, pegando sua bandeja e se levantando.
Os rapazes chegaram ao alojamento para uma pausa antes da próxima aula, e Quatre imediatamente levou o café da manhã para Trowa, enquanto Duo e Heero se juntavam com o panfleto da missão e o laptop, já começando a pesquisa.
O loiro se sentou na cadeira, gentilmente balançando o ombro do acrobata. "Vamos, Trowa. Hora de comer."
Os olhos verdes se abriram lentamente e Trowa sorriu cansado. "Ei, Quatre. Obrigado." Esforçou-se para se sentar, observando o loiro esvaziar o saco, colocando a comida no canto da cama.
"Torrada... suco... salada de fruta... e trouxe o sanduíche de ovo e presunto, se o seu estômago aguentar."
"Torrada e suco é um ótimo começo." Trowa pegou o copo de suco de laranja com a mão firme, bebericando com prazer.
"Como está se sentindo?" Quatre perguntou baixinho, colocando as outras coisas no criado mudo.
"Muito bem. Acho que vou sair da cama e esticar um pouco as pernas."
"Talvez essa noite. Não se apresse," o loiro aconselhou.
"Tudo bem, Quatre," o acrobata o assegurou. "Sinceramente, não é a primeira vez que passo por abstinência. É um saco."
Quatre assentiu com a cabeça, sombriamente se lembrando da confissão de Trowa e como ele mencionara o ferimento no ombro e como o levara às drogas. "Duo e eu vimos a Catherine no centro de visitas ontem," contou. "Quando contamos que você estava doente, ela pareceu saber do que estávamos falando."
Trowa bufou. "Ela já viu como é," admitiu. Abaixou a cabeça, escondendo os olhos atrás da franja. "O que ela falou?"
"Ela pediu pra dizer para você ser forte e se cuidar," Quatre respondeu. "E ela disse que o Nanashi está bem e que não se esqueceu do que você falou." Franziu o cenho, ainda incerto sobre a última parte. "O que você falou pra ela?"
"Falei que se o diretor entrar em contato com ela e perguntar, pra falar que o Nanashi morreu," revelou com a voz áspera. Ergueu o rosto revelando olhos espantados. "Quatre... a noite que ele me mandou cortar a corda, ele ameaçou atirar no cachorro se eu recusasse. E aí, depois que o Maxwell levou a culpa, fui até o K. Falei pra ele que eu ia contar pro Chang e ele só riu e disse que seria a minha palavra contra a dele e que eu estaria no próximo avião para L3, depois que eu assistisse ele enfiar uma bala entre os olhos do Nanashi." Balançou a cabeça. "Até quando entreguei a coleira para a Catherine, tive a sensação de que ele tentaria pegar o Nanashi mais tarde... por isso falei pra ela esconder o cachorro e dizer pra qualquer um da prisão que morreu."
Quatre sentia a dor verdadeira irradiando do outro rapaz, mas resistiu ao impulso de abraçá-lo. "Sinto muito por você ter passado por tudo isso sozinho," falou baixo. "Queria que você tivesse contado para a gente." Um franzido cruzou sua testa. "Teríamos achado um jeito de te ajudar, Trowa... como um time."
"Sei disso agora," admitiu. "Mas na hora, me senti encurralado... como se não tivesse ninguém para me ajudar. A minha gangue em L3 não era nada como um time, Quatre. Era cada um por si. Se você não se cuidasse, ninguém mais cuidaria."
"Não é assim aqui," o loiro insistiu. "Somos um time. E você é parte dele. Se alguém agir contra um de nós, vai ter que encarar a todos nós."
"Fala isso pro Maxwell," Trowa suspirou amargamente. "Aposto como ele não me defenderia."
"Ele já defendeu," Quatre o assegurou. "Quem você acha que foi atrás da doutora Po?"
"Achei que tivesse sido o Yuy."
"Ele levou Duo para que ela concordasse," o loiro revelou ao acrobata. "E ele disse que Duo foi ótimo... dando a cara a tapa sem levar em conta o que sente por você. Isso que é um time, Trowa. Você cuida deles, mesmo quando estão bravos um com o outro."
Os olhos verdes se umedeceram e ele esfregou a manga da camisa pelo rosto. "Droga, Quatre, eu não mereço fazer parte desse time!" exclamou entrecortado, desviando o rosto.
"Mas não muda o fato de que você faz. Você é parte do time Wing e nada vai mudar isso."
"Ei, Winner!" Heero chamou do outro lado do quarto. "Vem dar uma olhada nesse mapa."
"Já vou." O loiro apertou o ombro de Trowa de forma reconfortante. "Descanse mais um pouco," pediu. "As coisas vão melhorar. Você não vai estar tão emotivo depois que se recuperar."
"Merda, espero que você esteja certo." Trowa abriu um fraco sorriso, ajeitando-se contra o travesseiro.
Quatre se juntou aos outros dois, inclinando-se sobre o ombro de Duo para ver a tela do computador. "Essa é a localização do casebre?"
"É sim," Duo respondeu, apontando para a imagem aérea. "Parece que está ao lado da montanha... é o único caminho para subir. Alguma ideia de como vamos passar por eles se sabem de onde estaremos vindo?"
"Oh." A testa de Quatre se franziu em uma careta. "Vai ser um baita desafio."
"Não me admira que ninguém nunca conseguiu vencer o Chang nesse jogo dele," Heero suspirou. "Ele tem talento para escolher posições defensivas." Seus olhos azuis faiscaram num brilho ansioso. "Mas ninguém teve o que nós temos."
Duo o olhou descrente. "E o que seria...?"
"Eu."
"Você." O rapaz de L2 bufou. "Sabia que você tinha um ego grande, Yuy, mas me poupe!"
"Não é ego," o líder insistiu. "É conhecimento. Conheço Fei desde criança. Sei como ele pensa... que tipo de estratégia usa." Não havia qualquer sarcasmo em suas palavras. "Eu realmente acho que consigo bolar um jeito de vencer."
Quatre assentiu com a cabeça. "Por mim, tá ótimo."
"Seria legal esfregar na cara dele," Duo imaginou, observando a tela.
Heero riu calidamente. "É, seria. Ele costumava acabar comigo no xadrez... e na única vez que ganhei, parecia que o mundo tinha acabado. Ele odeia perder."
"Ah, sei não," Quatre ponderou, lembrando-se da vez que Duo quase venceu o capitão na pista de obstáculos. "Se vencermos, ele pode considerar uma vitória, já que quer que o nosso time ganhe."
"Ele quer que a gente vença os outros times," Heero corrigiu. "Mas não necessariamente quer que sejamos mais espertos do que os guardas e passe por eles."
Duo sorriu maliciosamente. "E é por isso mesmo que vamos conseguir, né?"
"Isso aí."
Pelo resto do dia, os três trabalharam duro, mais do que de costume, nos estudos. Receberam o equipamento laser e foram instruídos em como usá-lo, e passaram quase duas horas no tiro ao alvo antes do jantar.
Após a refeição noturna, Quatre ficou no alojamento para fazer companhia a Trowa e inteirá-lo aos assuntos das aulas, enquanto Duo e Heero seguiam para a biblioteca buscar um mapa topográfico mais detalhado da área onde a competição aconteceria.
Os dois rapazes do time Wing encontraram um canto silencioso da biblioteca e puxaram as cadeiras perto o suficiente para se tocarem. E por mais que fosse distrativo quando suas pernas ocasionalmente se roçavam, estavam muito excitados em tentarem derrotar os soldados de Wufei para deixar que isso os detivessem na pesquisa.
Saíram da biblioteca quase ao toque de recolher, e andaram atrás do time Jason no caminho de volta. E se notaram os olhares nada amigáveis dos colegas de time de Kyle, ignoraram completamente.
Terça-feira de manhã, Trowa insistiu que se sentia melhor e Quatre o deixou se levantar e caminhar um pouco, enquanto o resto deles ia para as aulas.
"Dê uma olhada nos planos para a competição, viu, Barton?" Heero sugeriu, amarrando o cadarço da bota. "Vai ter escalada e quero que você assuma essa parte."
Duo passava por Trowa a caminho do banheiro, quando o acrobata ergueu uma mão para pará-lo. "Maxwell... podemos conversar?"
O jovem de trança lhe lançou um olhar desconfiado. "Agora não é uma boa hora, Barton. Temos aula."
Trowa assentiu humildemente. "Mais tarde?"
Duo deu de ombros, quase esbarrando nele quando se retirou. "Tanto faz."
Os olhos verdes se voltaram para Quatre, que suspirou e balançou a cabeça. "Ainda não, Trowa," murmurou.
O acrobata virou para a porta que se fechou atrás de Duo. "Não consigo, Quatre. Quero me desculpar e ele só me evita." Sua expressão era de súplica. "Eu preciso me desculpar."
"Agora não se trata do que você precisa," Heero interrompeu, indo até eles. "Duo precisa de espaço e, como um time, precisamos focar na missão. Teremos tempo depois para lavar a roupa suja."
"Mas..." Trowa jogou as mãos para cima em desespero. "Aw, deixa pra lá. Você está certo, Yuy. Não mereço a chance de limpar minha consciência mesmo. Eu só tinha a esperança..."
"Mais tarde," Quatre insistiu. "Dê tempo ao tempo."
O acrobata sentava-se em sua cama, beliscando o café da manhã que Quatre o trouxera, quando Duo saiu do banheiro e os outros se retiraram. O moreno alto tinha a luxúria da privacidade, então pôde se afundar em culpa sem interrupções.
Logo após o almoço, Quatre correu com a refeição para Trowa e depois correu para não perder a aula de armamentos, mais uma vez deixando o jovem de L3 em sua melancolia. Contudo, ao longo do dia, Trowa decidiu que falaria com Duo à noite, antes que a culpa revoltosa o deixasse louco.
Passou a tarde inquieto e quando seus companheiros voltaram para se aprontarem para o jantar, decidiu se juntar a eles.
"Tem certeza?" Quatre perguntou incerto. "Posso te trazer algo pra comer," ofereceu.
"Não, Quatre. Preciso sair um pouco do quarto senão ficou louco," insistiu. "O ar fresco vai me fazer bem e posso já ter uma noção se vou estar bem para a calistenia amanhã."
"Tá bom." Enquanto Quatre estava feliz por seu amigo se sentir melhor, também estava preocupado com ele tentar se forçar em algum tipo idiota de esforço para se redimir. "Se prometer que vai me dizer se for demais."
"Prometo."
Duo olhou por cima do ombro e riu sarcástico. "Como se a palavra dele valesse alguma coisa."
"Maxwell..." o tom de Heero era claramente de aviso.
O rapaz de trança encarou o líder de modo feroz, casualmente lhe mostrando o dedo do meio e saindo pela porta.
Quatre fez menção de segui-lo, mas foi segurado por Heero. "Eu vou. Você e Barton nos encontrem no refeitório em quinze minutos."
Alcançou Duo no meio do acampamento. "Saindo sozinho de novo, Maxwell?"
"Duo." Os olhos índigo o encararam com raiva. "Esse foi o combinado, lembra? Você me chamar de Duo mais vezes."
Heero rangeu os dentes, não gostando de lembrar o último confronto. "Tem razão. Duo. Agora converse comigo."
"Conversar sobre o quê? Como você mesmo disse ontem, o Norton caiu fora e o Pritchard está do nosso lado, então não é mais perigoso andar sozinho."
"É pra você. Kushrenada ainda quer te ver na cadeia, ferido ou morto," Heero ressaltou bruscamente. "Os internos podem não ser uma ameaça, mas os guardas são."
"Que seja, vem comigo," Duo convidou, pegando na mão do líder com um sorriso sedutor.
"Você precisa pegar leve com o Barton," Heero pediu.
"Aw, que inferno! Você também?!" Duo rodou os olhos exasperado. "Quatre já está me enchendo o saco, me forçando a perdoar o desgraçado pelo que ele fez comigo. E agora você vai ajudar?"
"Não quero te forçar a nada nem Quatre," Heero o assegurou. "Mas quero que contenha seus comentários maldosos. Se você não consegue se dar bem com Barton, pelo menos me faça o favor de ignorá-lo." Gentilmente puxou Duo com ele enquanto andavam. "Precisamos dele na próxima semana. E isso significa que você precisa se focar na missão e não na sua raiva. Sei que ele fez uma merda das grandes. Ele também sabe. E não espero que você o perdoe de um dia para o outro. Mas precisamos funcionar como um time."
Duo se recostou nele, suspirando. "Só por você, Yuy."
"Eu sei," respondeu carinhosamente. "Não pense que eu não aprecio o que você está disposto a se comprometer por mim."
O rapaz de trança riu baixo. "Quer me colocar em uma posição comprometedora, Yuy? É só pedir."
"Eu quis dizer..."
"Eu sei o que você quis dizer."
Estavam sentados com a turma de sempre quando Quatre e Trowa se juntaram a eles. Imediatamente o jovem acrobata recebeu uma enxurrada de perguntas sobre como se sentia e quando voltaria às aulas. Respondeu brevemente, frases de uma palavra, olhos verdes vacilando entre o sorriso tranquilizador de Quatre e a gélida indiferença de Duo.
Quando o capitão apareceu para convocar os líderes a uma reunião, deu boas-vindas a Trowa com um sorriso amigável e um aperto de mão, antes de levar Heero.
Duo fez beicinho. "Não é justo. O Heero vai nessas reuniões de líderes, enquanto nós, buchas de canhão, ficamos para trás."
"Mas isso não significa que você está no comando até ele voltar?" Quatre teorizou.
Duo sorriu malignamente. "Ooo… acho que sim." Virou-se para o loiro com uma expressão sacana. "Significa que você tem que me obedecer," falou maliciosamente para o amigo.
"Ah... isso é abuso de poder, Duo."
O rapaz de trança riu. "Abuso? Que tal umas algemas de oncinha junto?
Quatre enrubesceu. "Que tal mudar de assunto? Podíamos conversar sobre a missão."
Trowa bocejou amplamente, esfregando os olhos. Olhou ao redor no refeitório, que se esvaziava rapidamente por conta dos times retornando aos estudos. "Não sei quanto a vocês, mas já deu pra mim. Podemos ir para o alojamento esperar pelo Yuy?"
"Duo?" Quatre perguntou.
"Por que não?"
"Me dá um segundo," o loiro pediu. "Eu queria pedir uma coisa ao oficial Carter." Deixou os dois a sós na mesa enquanto partia para procurar o soldado.
"Duo," Trowa começou baixinho. "Você disse que podíamos conversar mais tarde. Agora é mais tarde."
Os olhos índigo se fixaram nele friamente. "O que temos para conversar, Barton? Você me trocou por um cachorro. Não tem mais nada para ser dito."
"Mas isso só cobre o que eu fiz... não o porquê ou como ou o quão mal eu me sinto ou o quanto eu vou tentar me redimir com você."
"Não me importo com nada disso," Duo respondeu de supetão. "Já era, Barton. Não dá para desfazer o que já fez."
"Eu sei." Trowa jogou as mãos para cima, resignado. "Você já me disse isso, o Yuy me disse isso, até o Quatre. Só quero saber quantas vezes mais vou ter que dizer que sinto muito até você acreditar em mim."
"Você sente muito?"
"Sinto."
"Tá." Duo fixou um olhar fumegante em seu companheiro de time. "Você me passou a perna e agora espera que eu acredite que você sente muito."
"Se me deixar explicar como aconteceu, talvez você comece a acreditar."
"Parei de acreditar em contos de fadas antes de eu aprender a andar," murmurou, desviando o rosto.
"Eu não sabia que a faca estava com você. Quando K me pediu para fazer com que perdêssemos a travessia do rio ou ele atiraria em Nanashi, achei que ele só queria sacanear com todos nós."
"Até parece." Duo retornou com o olhar mortal para o acrobata. "Você sabia que ele me odiava. Só eu. Muito pessoalmente. Não me venha com essa de que nunca te ocorreu que eu ia levar a pior pelo que você fez."
"Me ocorreu, mas eu não consegui entender como cortar a corda levaria até você." Os olhos de Trowa se enevoavam com emoção. "Eu não sabia sobre o kit de sobrevivência, que você era o responsável."
"Não sabia? Ou não se importava?" questionou. "Tenha dó, Barton. Já percebi o jeito que você me olha quando eu finjo dar em cima do Quatre." Comentou astuciosamente de olhos semicerrados. "Não tente me dizer que não sentia ciúmes."
O acrobata deu de ombros. "Talvez um pouco."
"Talvez muito," Duo rebateu. "Aí quando a coisa ficou feia, você não estava nem aí se eu fosse mandado pra cadeia, não é? Ficaria com o caminho livre, não é verdade?"
"Não, Duo! Isso não tem nada a ver. Antes de atravessarmos o rio, eu sabia que você estava interessado no Yuy... não em Quatre. Eu não estava com ciúmes."
"Você ainda está," Duo zombou. "Eu posso ir lá agora mesmo e jogar meu braço ao redor dos ombros dele e te incomodaria. Você se perguntaria se somos mais do que amigos... ou se eu mudaria de ideia sobre o Yuy e decidiria que quero um loirinho de olhos claros."
"Não, não me incomodaria," Trowa insistiu. "Puta que pariu, Maxwell, o Yuy dorme na sua cama quase todas as noites agora. Acha que me preocupa você dar em cima do Quatre? Eu não me importo!"
"Mas você se importava," Duo o lembrou. "Quando foi importante, você se importava. E quando o K te falou para sabotar o time, você sabia quem pagaria o pato. Mas você não estava nem aí!"
"Tá bom! Eu não estava mesmo!" Trowa rosnou, dividido entre raiva e vergonha. "É o que queria ouvir? Eu não me importava com nada além de salvar o Nanashi a qualquer custo. E não consegui pensar em nenhum outro jeito sem que alguém se machucasse." Seu rosto se contorceu em desagrado. "Eu tive medo de confiar em você... em qualquer um... de contar o que estava acontecendo."
"E agora você quer que a gente confie em você. Quer ser parte do time que você mandou à merda." Duo balançou a cabeça. "Não sei como esquecer o que você fez, Barton."
"Então não esqueça. Vá em frente e me encha de pancadas, me lembre a cada segundo," Trowa desafiou. "Quer saber, Maxwell? Não importa mais." Colocou uma mão na testa. "Estou cansado. Estou doente pra caralho... e exausto de tudo isso. Cansado do medo, culpa e raiva." Fechou os olhos, descansando a cabeça nas mãos. "Joguei os remédios fora para o K não ter como me chantagear. Se ele vasculhar nosso quarto, não vai achar nada para incriminar ninguém. E não pode me obrigar a fazer nada me ameaçando não fornecer mais. Valeu a pena vomitar e a dor para estar livre da manipulação." Ergueu o rosto com uma expressão dolorosa. "O que vou ter que fazer pra ficar livre de você?"
Duo sustentou o seu olhar. "Tenta passar quarenta e oito horas numa solitária, ser espancado e estuprado, Barton. Seria um começo." Levantou-se, o corpo tenso. "Quatre! Pronto pra ir?" chamou pelo refeitório, mãos nos quadris.
Quatre parou de conversar com Carter, olhos se arregalando ao ver a postura curvada de Trowa e a raiva em Duo. "Já vou!"
Sua expressão curiosa foi ignorada pelos outros dois enquanto corria até eles e voltavam para o alojamento. Ninguém disse palavra e quando chegaram, Duo ficou no degrau do lado de fora esperando por Heero.
"O que aconteceu no refeitório?" Quatre perguntou assim que se viu sozinho com o acrobata.
"Tentei me desculpar," deu de ombros, subindo na cama e se estirando.
"Imagino que ele não tenha sido muito receptivo."
A única resposta foi uma bufada seca.
"As feridas ainda estão abertas, Trowa... de vocês dois," o loiro suspirou, sentando-se à mesa e olhando para o amigo.
"Teria sido melhor se eu tivesse confessado para o Chang logo que aconteceu," murmurou.
"Você estaria em L3 e Nanashi morto..."
"E Duo estaria bem, feliz e convencido como sempre." O acrobata encarou o loiro. "Odeio ter sido aquele que tirou tudo isso dele."
"Não foi você," insistiu. "Você não é responsável pelo que Kushrenada fez ou o que o guarda fez.
"Mas eu coloquei Duo naquela situação. Eu entreguei a cabeça dele numa porra de bandeja de prata."
"Nem me lembre," Quatre falou arrepiado. "Já é difícil o suficiente se lembrar que você não fez essas coisas de propósito. Mas é no que você tem que se segurar. Que você não quis machucar o Duo."
"Eu não me importava quem se ferisse," Trowa comentou com a voz fraca como um gemido. "Você quase se feriu."
Quatre se levantou e foi pousar uma mão no ombro de Trowa. "Você também," ressaltou. "Acho que o joguinho sujo do Kushrenada atingiu você quase tanto quanto Duo." Sua mão apertou o ombro de forma gentil. "Heero e eu superamos, Trowa. E, eventualmente, você e Duo também. Pode confiar em mim?"
Trowa assentiu, esfregando a manga da camisa pelo rosto. "Vou tentar, Quatre."
Quando Heero e Duo entraram, tanto Trowa quanto Quatre estavam em suas camas mais ou menos dormindo. Decidindo que o dia já se arrastara demais, seguiram o exemplo de seus companheiros.
Quinta de manhã, Trowa acompanhou o time para a calistenia e a corrida matinal. Apesar do fato de que facilmente ganhou a corrida duas semanas antes, lutava para completar o passeio de quatro quilômetros. Desistiu e andou o último quilômetro, com Quatre de companhia.
Duo não conseguiu se reprimir e sentiu um prazer perverso nisso, mas recordando-se da bronca de Heero do dia anterior, evitou qualquer comentário, focando em se preparar para a missão.
A tarde encontrou os rapazes nos alojamentos, vasculhando o mapa por um jeito melhor de chegar à área do casebre. Pelo menos, Duo estava vasculhando o mapa que estava estirado na mesa. Heero trabalhava ao seu lado no laptop, buscando imagens aéreas detalhadas do terreno para poderem julgar o tempo que levariam para a caminhada.
Quatre e Trowa compilaram uma lista de suprimentos que precisariam para a distração discutida anteriormente, quando o acrobata recostou-se na cadeira, cansado.
"Nossa, é difícil se concentrar," suspirou, passando uma mão pelo cabelo. "Acabei de perceber que faz dias desde que tomei banho. Eu estou pregando." Virou-se para o líder. "Yuy? Tudo bem se eu for nos chuveiros e voltar refrescado?"
"Com certeza vamos todos apreciar," Heero provocou. "O complexo é pequeno e, nesse quarto apertado... bom, sinceramente, você está começando a feder." Abriu um sorriso divertido para mostrar que estava brincando. Mais ou menos. Depois de passar dois dias vomitando e mais dois deitado na cama se recuperando, Trowa precisava definitivamente de uma chuveirada.
"Pois é. Obrigado pela honestidade, Yuy," o acrobata murmurou, pegando uma muda de uniforme limpo de seu baú e o kit de banheiro.
Duo ergueu o rosto como se fosse adicionar uma provocação, mas engoliu, ainda não pronto para trocar brincadeiras com o rapaz alvo de sua raiva. Franzindo o cenho em frustração, voltou a examinar o mapa, pesarosamente descartando seu comentário perfeito já formulado em sua cabeça.
"Vou com você, Trowa," Quatre se voluntariou, recolhendo suas coisas. "Vai saber se os colegas do Norton não estão procurando por vingança."
Duo suspirou alto. "É, desculpa pela 'quebra de braço', galera. Mas, sinceramente, ele já odiava a gente antes mesmo. Pelo menos agora tem três deles e não quatro."
Quatre sorriu para o amigo. "Eu teria feito o mesmo, Duo. Norton estava pedindo.
O loiro e Trowa foram para os chuveiros logo depois. Heero e Duo continuaram a pesquisa.
Cerca de meia hora depois, o jovem de trança estava fazendo caretas para o mapa, distraidamente mordendo as juntas dos dedos enquanto pensava. "Hey — Ro. Por que não podemos vir por aqui? Parece que nos pouparia uns vinte minutos de caminhada e nos leva até atrás do casebre."
Heero se inclinou sobre o ombro dele, quase encostando rosto com rosto ao estudar o mapa. "É um morro, Duo... deve ser uns sessenta metros de altura. Levaríamos horas para escalar, se conseguíssemos."
"Quantas horas?" persistiu.
"Não tenho certeza. Barton é o especialista em escalada," deu de ombros.
"Imagina, só a título de curiosidade, que nos levasse três horas para escalar. Ainda sairíamos na frente."
Heero analisou o terreno mais uma vez, olhos azuis intensos. "Hum... acho que sim." Franziu o cenho levemente. "Parece que cruzaríamos o rio mais no alto também."
"Talvez a gente não precise da ponte de cordas, né?" Duo considerou, virando o rosto para o companheiro, apenas para ter seus próprios lábios encostando na face bronzeada ao seu lado.
Heero ficou tenso, sentindo a respiração quente. Instintivamente, fechou os olhos e engoliu em seco, tentando recuperar a compostura.
Duo não segurou o sorriso que adornou sua boca. "Você tá legal, Yuy?" sussurrou num tom rouco. Então lambeu os lábios nervosamente, a língua quase tocando na mandíbula do líder.
O rapaz de L1 estremeceu apenas um pouco e prendeu a respiração. "Estou... estou..."
"Quente," Duo terminou por ele. "É, você é." Depositou um beijo logo abaixo da perfeita orelha... e depois outro ao longo da mandíbula. Então continuou até o queixo com beijos roçados pelo caminho até alcançar o canto da boca do líder. "Quer que eu pare?" sussurrou.
"Nunca," Heero grunhiu, virando-se para ficar de frente a ele.
Nesse momento, claro, a porta se abriu de repente e Quatre correu para dentro agitado, o rosto pálido. "Duo! Heero! Não consigo achar o Trowa!"
Continua...
Nota de tradução:
*Bivaque: termo militar para acampamento provisório (ao ar livre).
Resposta aos comentários:
Thay Zaro, oooooi! Kkkkkkk espero que tenha tido coragem de ler os últimos três capítulos e tenha visto que respondi seu outro comentário no capítulo anterior. Acho que esse capítulo deu mais agonia ainda de ver o Heero e o Duo se beijarem, né? Kkkk Às vezes me dá um certo desanimo com essa tradução, mas aí eu vejo um comentário como o seu e fico bem feliz de ter alguém que ainda quer ver essa fic até o fim! MUAH! Obrigada por acompanhar!
