Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
N/T: Um super obrigada à Lis Martin (sumida! Bom ter notícias suas!), MaiMai (outra sumida! Ow, obrigada por aparecer!), Harumi, Litha-chan e Thay Zaro pelo apoio! Um grande beijo e obrigada mesmo.
CAMPO DE TREINAMENTO
42: Evitando Desastre
Duo lançou um olhar furioso para o seu amigo loiro. "Puta merda, Quatre, você tinha que escolher a pior hora!" Heero se endireitou, mas o jovem de trança o pegou pelo pulso. "Não se atreva a sair daqui! Não acabei com você!"
O líder abriu um sorriso malicioso, livrando-se do agarre. "Mais tarde, baka. Temos que encontrar o Barton."
"Argh! Por quê?!" Duo reclamou levantando-se e batendo as mãos na mesa. "Como se perde uma pessoa inteira?" Virou-se irritado para Quatre. "Como?"
"Ele acabou o banho primeiro e quando voltei para o vestiário, ele tinha sumido," explicou desamparado. "Não me falou nada sobre ir a lugar algum."
"Você ouviu algo como uma briga ou vozes?" o líder questionou.
"Nada. Só tínhamos nós no vestiário. Dois caras que estavam lá quando chegamos já tinham ido embora antes de entrarmos nos chuveiros."
"E Barton não mencionou que ia para algum lugar?" Heero pressionou.
"Já falei... ele desapareceu," Quatre insistiu. "Eu saí e ele não estava mais lá. Pra onde teria ido?"
"Não dou a mínima para onde ele está," Duo grunhiu, ainda tentando resistir a vontade de enforcar o amigo pela interrupção. Ele estivera tão próximo daqueles lábios perfeitos do Yuy e, ao menos uma vez na vida, sentia como se estivesse no controle da situação. Eu odeio essa merda de vida!
"Mas, Duo, ele pode estar ferido ou com problemas! Ele anda tão deprimido." Os olhos verde-azulado marejaram. "Ele pode ter feito algo desesperado."
"Como cortar a porra de uma corda?" o recruta de L2 rebateu. "Acha mesmo que me importo se ele vive ou morre?"
Os olhos de Quatre se arregalaram e sua expressão fez Duo dar um passo para trás, sua raiva se esvaindo. "Como se atreve?!" irritou-se, suas preocupações culminando em raiva. "Duo Maxwell, você é o desalmado mais imprestável que já conheci! Não me importo com a merda que Trowa fez. Ele não merece morrer. Ele nunca quis te machucar – estava tentando salvar Nanashi – que foi mais amigo dele do que você! E ele passou a se odiar e ter remorso por tudo o que aconteceu!" O loiro se inclinou para frente e o rapaz de trança recuou mais. "Que merda, Duo! Trowa é do nosso time. E você pode odiar ele o quanto quiser, mas você vai nos ajudar a procurar e você vai aprender a trabalhar com ele no time!"
Duo piscou surpreso, boquiaberto, então Quatre o tomou pelo braço, lágrimas escorrendo pelo rosto enquanto encarava os olhos índigo. "Por favor, Duo! Por mim. Não consegue deixar de lado a sua mágoa e me ajudar?"
O rapaz de trança hesitou por um momento, lançando um olhar para Heero, que suspirou, e sua raiva começou a se dissipar enquanto seus olhos também marejavam. Jogou os braços ao redor do amigo, puxando-o para mais perto. "Desculpa, Quat. Fui grosso sem você merecer," murmurou suavemente. "Vou me esforçar mais, prometo. Vou tentar superar, tá? Mas vai levar um tempo."
Quatre assentiu, afastando-se um pouco e limpando as lágrimas com as mangas.
Duo virou-se para o líder. "Por onde começamos a procurar, ó destemido líder?" Mesmo enquanto falava, seu olhar se focou nos lábios que estivera tão próximo de beijar, e quase grunhiu. Foco, Maxwell, foco! Encontrar Barton primeiro... beijar Yuy depois.
"Winner, você conhece Barton melhor," Heero ressaltou. "Pra onde ele costuma ir?"
"O canil talvez, mas não desde que Nanashi foi embora." Quatre franziu o cenho, perdido em pensamento. "Se ele estiver doente ou machucado, pra enfermaria."
"Ele pode ter ido puxar saco do amigão Kushrenada," Duo sugeriu. Estremeceu ante o olhar frio de Quatre. "É possível. Ou ele foi matar o desgraçado se odeia ele tanto quanto diz."
"Ou..." Os olhos de Quatre se arregalaram sentindo uma tênue conexão... um eco de culpa, remorso e determinação. "Ele pode ter ido confessar para o Chang e limpar a consciência." Virou-se em pânico para o líder. "Sei que ele andava pensando em passar tudo a limpo. Não acha que ele...?"
Duo bufou irônico. "Olha, se ele quer abrir o bico, deixa ele."
"Ele vai ser mandado para L3," Heero concluiu.
"Já vai tarde," murmurou o rapaz de trança sem olhar para Quatre.
Foi Heero quem balançou a cabeça. "Inaceitável. Precisamos encontrá-lo e evitar que faça algo idiota, como confessar. Se temos uma escalada difícil para fazer, precisamos dele no time."
Duo resmungou.
"Quê?" Heero demandou.
"Eu queria nunca ter percebido aquela droga de atalho," grunhiu amuado. "Que tal esquecermos para não precisarmos do Barton?"
"Duo!" Quatre se irritou novamente.
"Ei! Eu—falei que ia tentar mais, Quat. Não significa que eu vá ficar feliz com isso."
"Eu sei," o loiro suspirou.
Heero gesticulou impaciente. "Foda-se! Precisamos encontrar ele agora! Eu checo o canil e a enfermaria. Quatre, vá para o escritório do Chang."
"Por que não ao contrário?" Duo questionou. "Chang é o seu amigão do peito."
"E se eu pisar no escritório dele, vai saber que tem coisa errada na hora," Heero explicou. "Winner sabe ser mais inocente, pode fingir que está só preocupado que Trowa possa ter sido pego pelo time do Norton ou outro rival sem deixar o Wufei desconfiado." Falou para Duo: "Você espera aqui, e se o Barton voltar, não o deixe sair".
"Posso quebrara as pernas dele?" perguntou esperançoso.
"Você prometeu sem ossos quebrados."
"Merda." Duo deixou-se cair na cadeira e apoiou os cotovelos na mesa, entristecido. "Você nunca deixa eu me divertir, Yuy."
Heero se inclinou sobre a mesa, o rosto a meros milímetros de Duo. "Mais tarde, Maxwell." Um pequeno sorriso provocante apareceu em seus lábios. "Mais tarde." Acariciou uma mão de Duo, resultando em um estremecimento de prazer, antes de se dirigir para a porta. "Vamos, Winner. Sebo nas canelas."
"...espero que não seja tarde demais," o loiro comentou, correndo atrás do líder.
"Capitão Chang?"
Wufei ergueu o rosto quando Trowa entrou em seu escritório.
"Preciso falar com o senhor."
O capitão o analisou. "Você parece péssimo, Barton. Ainda está doente?"
Trowa balançou a cabeça. "Estou me sentindo melhor, senhor." Pelo menos, fisicamente...
"Então qual o problema?"
"Eu... Tem uma coisa que você precisa saber..."
"Sobre?"
"Hum... bem..."
Uma batida forte na porta o interrompeu e Quatre apareceu em seguida. "Aqui está você, Trowa! Te procurei por todos os lugares. Lembre-se, ninguém sai sozinho. Segurança em grupo?"
Trowa virou-se, encarando friamente o companheiro. "Me deixe fazer isso, Quatre. Tenho que consertar tudo."
"Assim não," o loiro negou. Olhou para o Capitão, que estava perplexo e levemente entretido. "Senhor, se Trowa... saísse do time, o que aconteceria?"
"Sair do time? Por quê?" o militar perguntou.
"Hum... suponhamos que ele tenha um ferimento, como Jason. Ou ele fez alguma coisa que o mandasse para a prisão?"
"Bom, se não tivermos outros recrutas para preencher a vaga, o seu time seria desclassificado da competição e ficaria em último." Wufei franziu o cenho desconfiado. "De qualquer forma, afetaria a situação de vocês."
"Ouviu?" Quatre insistiu para Trowa. "Precisamos de você."
O acrobata o observou sombriamente. "E Duo concorda?"
"Ele vê a necessidade de você ficar," o loiro escolheu cuidadosamente as palavras, sabendo que o amigo ainda estava muito irritado. "E com tempo, ele vai superar suas... diferenças."
Trowa bufou. "É um jeito interessante de ver as coisas, Quatre."
"Do que isso se trata?" Wufei interviu, erguendo uma sobrancelha curiosamente. "Você e Maxwell andaram se estranhando?"
"Eles se desentenderam, senhor," Quatre explicou rapidamente. "Mas não é nada que não possa ser resolvido."
"Espero que sim," disse o Capitão focando-se em Trowa. "Seria uma pena, Barton, você abandonar o seu time a essa altura do campeonato."
Com a palavra abandonar, Trowa baixou a cabeça, derrotado. "Sim, senhor," suspirou apático.
Quatre o pegou pela mão e o puxou gentilmente. "Vamos para o alojamento, Trowa. Temos que planejar para competição."
Suspirando, o moreno alto assentiu com a cabeça e cedeu à pressão em sua mão, seguindo o loiro para a porta.
"Winner!" Chang o chamou. "Por favor, pode lembrar o Maxwell de quarta-feira? Ele tem um compromisso."
"Sim, senhor!" Quatre prometeu, arrastando Trowa para fora.
Assim que a porta se fechou atrás deles, o loiro encarou o moreno. "Que merda, Trowa! Você quase me deu um ataque do coração! Não sabia pra onde você tinha ido, se ficou doente ou se alguém te raptou. Você foi irresponsável e cruel!"
Trowa suspirou, baixando o olhar novamente. "Desculpa, Quatre. Eu não aguentava mais. Duo nunca vai aceitar minhas desculpas e eu nunca vou parar de me sentir culpado pelo que causei."
"Passou muito pouco tempo, Trowa. Não pode achar que ele vai te perdoar da noite pro dia. Mas sei que eventualmente ele vai... posso sentir." Procurou uma reação no rosto do outro. "Eu sei que você está arrependido de verdade. Ele também perceberá depois que superar as próprias emoções."
O moreno assentiu. "É que é tão... difícil ficar perto dele agora. Ficar perto de você. Eu sei que não mereço toda essa sua gentileza e isso é quase pior do que lidar com o temperamento do Maxwell."
Quatre ergueu uma sobrancelha. "Não penso assim, Trowa. Não estou sendo legal pra você se sentir mais culpado. Eu só..." gosto de você... estou caidinho por você... gostaria que você superasse essa tristeza e voltasse a mostrar interesse... O loiro suspirou pesadamente. "...estava tentando não piorar as coisas," deu de ombros. "Se exagerei, me desculpe."
Trowa balançou a mão. "Não se desculpe comigo, Quatre. Você não fez nada além de ser você mesmo... legal, gentil e compreensivo." Olhos verdes olharam por entre a franja. "Nunca mude."
O loiro corou ouvindo as palavras vindas num tom baixo. "Eu... nossa, acho que é uma das coisas mais gentis que alguém já me disse."
Trowa conseguiu abrir um pequeno sorriso. "É a verdade." Endireitou-se, erguendo os ombros. "Acho que é melhor eu voltar e encarar a fera. Yuy está muito bravo?"
"Preocupado," Quatre respondeu neutro. "Todos nós estávamos. Mas vai ficar tudo bem. Vamos ajudar a planejar a missão e nos sentiremos melhor, tá?"
"Talvez você esteja certo," o ex-artista circense concedeu. Descobriu que realmente acreditava naquelas palavras ao dizê-las. A missão ocuparia suas cabeças, dando-lhes algo para se concentrar além dos problemas.
Duo ergueu a cabeça repentinamente quando Quatre empurrou Trowa para dentro do alojamento. "Você encontrou ele! Estava onde você achava que estaria?"
"Claro," Quatre afirmou um pouco convencido. "Tentando contar tudo pro Chang."
Os olhos índigo se semicerraram. "Que coisa idiota, Barton. Posso te odiar... e só Deus sabe o quanto eu queria que você contasse pro Chang a verdade só pra te ver sendo mandado pra prisão e você pudesse sentir na pele o que eu senti... mas o Quat está certo. Somos obrigados a te aturar para ganhar essa competição idiota."
Trowa estremeceu ante o puro ódio escancarado na voz do rapaz. Virou-se e foi até sua cama.
"Duo! Você prometeu!" Quatre reclamou.
"Prometi tentar, Quat, tentar. Só isso. Nunca falei que eu seria educado com um maldito traidor."
"Duo!"
"Tudo bem, Quatre," Trowa suspirou. "Ele está certo. Só causei problemas e não tem razão pra ele me considerar mais do que uma mosca." Um pequeno sorriso tocou seus lábios. "Na verdade, acho que é melhor pra mim se ele continuar puto." O sorriso sumiu rapidamente. "Acho que não suportaria se ele me perdoasse."
"Pode ficar tranquilo," Duo rebateu friamente, voltando sua atenção para o mapa.
Heero entrou logo em seguida e imediatamente viu o acrobata. "Ah, que bom. Você não falou com Chang, falou, Barton?"
"Quatre me arrastou de lá antes que eu pudesse me incriminar," suspirou.
"Ótimo." Heero se sentou ao lado de Duo à mesa. "Precisamos de você para a missão de capturar a bandeira, Trowa. Tem escalada envolvida e você é o melhor nessas coisas acrobática." Os olhos azuis encararam fixamente o companheiro desanimado. "Duo encontrou um atalho que precisará de sua habilidade. Sinceramente, não conseguiremos sem você."
"Agradeço você tentar me fazer sentir importante para o time, Yuy, mas..."
"Cala a boca, porra!" Duo rugiu. "Ninguém está tentando te fazer sentir melhor, muito menos eu. Mas achei um caminho pela montanha que vai nos poupar 32 km de escalada pesada... se você conseguir subir no penhasco e fincar pontos âncora pra gente." Vesgueou para Heero, recebendo um olhar de aviso. "Pode ter certeza que procurei um jeito de fazer isso sem a sua ajuda, porque seria muito melhor se você desse o fora."
Trowa balançou positivamente a cabeça, deitando de costas e olhando para o telhado. "Me diga o que fazer, Maxwell, e eu faço."
"Heero é que dá as ordens," murmurou. "Não eu." Por mim, preferiria os 32 km.
O líder cutucou o rapaz de trança com o cotovelo. "Volta a planejar nossa infiltração. Quatre, faça nossa lista de suprimentos, eu vou traçar os planos no laptop para entregar ao Chang antes de começarmos."
"Sim, capitão," Duo falou, batendo continência jocosamente.
"Hum, Capitão Chang pediu para eu te lembrar do seu compromisso," Quatre falou receoso para o amigo.
"Caralho!" Duo rosnou. Ante a expressão questionadora de Heero, franziu o cenho profundamente. "Prometi ir ver o doutor G de novo." Abriu um sorriso amarelo. "Tenho que discutir meus problemas com raiva."
"Bom, você quebrou o braço do Norton," Heero o lembrou do que sua raiva era capaz.
"Foi—!"
"Eu sei. Autodefesa," o líder o assegurou, mas ainda preocupado. "Acho que Chang só quer se certificar de que você está bem com o que houve com o Norton. Ele se importa com a gente."
Dessa vez, um pequeno sorriso genuíno tomou lugar. "É, se importa." Encarou o líder. "Até que ele não é tão ruim. Para um fardado."
"Oh, fala isso na cara dele um dia," Heero riu. "Vai querer te usar como saco de pancadas." Virou-se para Quatre. "Pode mostrar para o Barton as fotos aéreas da montanha enquanto eu escolto Duo para a sessão?"
"Claro."
"Sessão?" Duo repetiu, a voz subindo em ultraje. "Até parece que é uma consulta de terapia ou sei lá."
"Ora, mas você devia estar fazendo terapia," o líder provocou. "É o que acho desde quando te conheci."
O rapaz de trança se levantou relutante, indo de encontro ao companheiro de time na porta. "Sabe o que pensei quando nos conhecemos?" Seus olhos índigo faiscaram.
O líder ergueu uma sobrancelha, sabendo que receberia uma resposta querendo ou não.
Quando se aproximou o suficiente para poder sussurrar, Duo parou. "Como você é gostoso."
Heero corou com o comentário, mas conseguiu manter o olhar sem desviar. "Digo o mesmo, Maxwell," murmurou como resposta.
O rapaz de trança riu e também corou ao mesmo tempo. "Touché."
Quando doutor G viu o rapaz de trança entrar, sorriu. "Que bom te ver de novo, Duo."
"Não fique tão surpreso," Duo falou sarcástico. "Aposto como Chang te falou para me esperar."
"Ele mencionou a ocorrência de um incidente que você poderia querer discutir."
O rapaz bufou. "É, mais ou menos isso. Houve um incidente. Mas não é o que ele está preocupado." Com a sobrancelha erguida do doutor, deu de ombros. "Não conto tudo pro Chang, doutor."
"Bem, sente-se e sinta-se livre para me contar o quanto quiser sobre o que quiser."
Duo sondou o homem cuidadosamente antes de se afundar na poltrona de frente para a escrivaninha. "Se eu te contar, não pode repetir para o Chang, né?" perguntou como precaução.
"Como te disse da última vez, Duo. Tudo o que você diz para mim é confidencial. A não ser que você expresse a vontade de se ferir ou ferir a outrem, ou cometer um crime, não posso revelar nossas conversas para ninguém... nem mesmo sob juramento para um juiz."
"Mesmo você sendo um conselheiro de presidiários..."
"Meus pacientes são prioridade," o doutor interrompeu. "Estou aqui para ajudar os detentos a lidar com os estresses da vida na prisão, não para escarafunchar mais sujeira para ser usada contra eles."
Duo assentiu com a cabeça. "Beleza. Porque vou te contar o que alguém fez e não quero que o Chang fique sabendo. Só quero saber como... como superar, tá?"
"Vou me esforçar para te ajudar," o doutor o assegurou.
Ao invés de contar sua briga com Norton, já que sentia estar resolvida, Duo contou a história de como Trowa confessou cortar a corda, deixando de fora a coerção de Kushrenada e as drogas, caso o doutor se sentisse obrigado a reportar. Mas falou sobre como reagiu mal à notícia e o quanto era difícil relevar a mágoa e traição.
"Não sei se estou sendo irracional," concluiu, dando de ombros. "Quero dizer, Quatre parece pronto para dar a Trowa uma segunda chance e só consigo pensar que ele vai fazer a mesma coisa de novo."
"Mas isso não é uma suposição irracional," o doutor respondeu. "Considerando o histórico dele, você não tem razão para confiar nele." Recostou-se na cadeira, vendo pensativamente o rapaz. "Fé cega é muito bonito na teoria, mas pessoas como você, que já foram traídas e se feriram como resultado, seriam tolas demais em esquecer a lição que aprenderam."
Um sorriso seco apareceu no jovem do rapaz de L2. "Sempre achei que eu fosse do tipo desconfiado, doutor. Mas nunca me passou pela cabeça que alguém do meu próprio time teria cortado a corda." Franziu o cenho. "Por que será?"
"Porque você compartilhou tanto com os seus companheiros que achou que podia confiar neles de verdade. Vocês suaram juntos, treinaram juntos, comeram juntos, competiram contra outros... e esse tipo de atividade cria laços que levam à confiança total."
"É. Que coisa idiota, né?" respondeu amargo.
"Não é idiota. Acha que não pode confiar nos outros dois, Heero e Quatre?"
"...com a minha vida," Duo falou sem hesitar.
"Por quê?"
"Porque..." franziu o cenho novamente, pensativo, até desistir e encarar o psicólogo. "Sei que eles nunca me machucariam de propósito... e que não deixariam nada de ruim acontecer comigo se pudessem prevenir."
"Como sabe?"
Os olhos índigo se enevoaram de confusão. "Eu sei."
"Mas você só os conhece pelo mesmo tempo que conhece Trowa."
"É, mas... Heero é quem me apoiou quando voltei para o time e depois quando surtei por causa da situação com o Trowa. E Quatre é o meu melhor amigo desde o primeiro dia aqui." Mirou o doutor. "Sei que nenhum deles me trairia como Trowa fez."
"E você tinha a mesma fé em Trowa antes da confissão?"
Duo ponderou. "Não... Quero dizer, ele já era amiguinho do Kushrenada e ficava com ciúmes do Quatre comigo." Deu de ombros levemente. "Acho que éramos tipo rivais."
"Então talvez a traição dele não tenha sido tão profunda quanto seria se fosse de um dos outros dois."
Os olhos índigo se semicerraram enquanto Duo matutava, tentando imaginar qual seria a sensação se tivesse sido Heero ou Quatre em vez de Trowa. "Talvez eu esteja exagerando," por fim, concedeu. "Quero dizer, acho que não deveria ter ficado tão surpreso quanto fiquei." Em retrospecto, nunca confiara em Trowa de verdade, mesmo após terem resolvido suas diferenças quanto à amizade dele com o diretor.
"O que não diminui a dor," o doutor afirmou.
"Mas... e agora?" Duo perguntou baixo, suplicante.
"É com você. Tem que tomar uma decisão. Se acredita que Trowa realmente está arrependido, que seu pedido de desculpas é genuíno, pode dá-lo outra chance ou continuar com raiva e isolá-lo completamente."
"Não posso confiar nele."
"E nem deveria. Quando sugiro em dar outra chance, não estou dizendo para confiar cegamente ou começar do zero. Quero dizer para permitir que ele tente recuperar uma porção da sua confiança... ao longo do tempo." Estudou a expressão perturbada do jovem à sua frente.
"Acho que devo tentar... dar outra chance," concluiu hesitante. "Sei que significaria muito para Quatre."
"Por quê?"
Duo olhou por entre a franja. "Ele está a fim do Trowa... desde o primeiro dia. Gosta muito dele. E anda tentando apaziguar os ânimos entre nós dois desde que tudo isso começou. Devo a ele pelo menos me esforçar em não odiar o cara que ele ama."
"Então pense com muita calma, Duo," o doutor sugeriu gentilmente. "Você tem o que precisa para perdoar Trowa?" Balançou a cabeça. "Nem todo mundo tem essa habilidade."
Um longo momento silencioso se passou enquanto o rapaz de trança refletia. "Consigo," eventualmente disse. "É em esquecer que estou tendo problemas."
"Não estou sugerindo para que esqueça," respondeu rápido. "Como falei antes, seria tolice. O que deve fazer é se lembrar que, embora as ações dele te colocaram na solitária, o que aconteceu depois não foi culpa do Trowa. E, pelo que me contou, não foi nunca intenção dele. Se ele soubesse o que aconteceria, talvez tivesse agido diferente. Com isso em mente, se puder perdoá-lo, pode dar a chance para que se redima."
"Não quero ele lambendo os meus pés nem nada disso," Duo fez uma careta. "Se ficar com medo de conversar comigo ou me tratar diferente, não vai dar certo."
"Isso tudo é com você, não é?" o psicólogo revelou. "Se agir como antes, Trowa também fará o mesmo... se ficar claro entre vocês que ele está em um período de provação, por assim dizer, e se desconfiar que ele está se preparando para traí-los de novo, você tem o direito de se distanciar dele."
Duo sorriu para o doutor. "Quer escrever o que acabou de falar para eu repetir exatamente igual quando voltar para o alojamento, doutor? Você tem um jeito com as palavras."
Doutor G riu com o tom brincalhão. "Você vai ficar bem, Duo," assegurou-o.
"Acha mesmo?"
"Eu sei que vai." O psicólogo se levantou, estendendo a mão para Duo apertá-la. "Você não precisa de mim. É um rapaz bem resistente. Mas sempre que quiser conversar, minha porta está aberta."
Duo apertou a mão oferecida, murmurando um agradecimento e saiu da sala para encontrar o líder sentado no degrau esperando por ele.
"Como foi?" perguntou se levantando.
"Foi bom." Deu de ombros. "O doutor me ajudou a resolver umas coisas. E acho que estou pronto pra pegar mais leve com Barton agora. Vou deixar ele em paz e tentar conviver. Talvez um dia eu até consiga gostar dele."
Heero balançou a cabeça enquanto ambos caminhavam lado a lado. "Você continua me surpreendendo, Maxwell."
"Vou ganhar um prêmio por isso?" Duo sorriu maliciosamente.
"Pode apostar," Heero prometeu.
Quando chegaram ao alojamento, Quatre e Trowa haviam terminado de estudar o mapa da montanha e já haviam formulado um plano de escalada. Estavam fazendo uma pausa, sentados na cama de Quatre e comendo sobras que trouxeram do almoço.
Heero apontou para o laptop. "Vocês viram as fotos?"
Quatre assentiu, estapeando a mão de Duo quando este roubou uma batata frita.
"E aí, Barton?" o líder pressionou. "Dá pra subir?"
O rapaz de olhos verdes assentiu com a cabeça. "Vai ser difícil. É bem perigoso, Yuy." Olhou preocupado de soslaio para o loiro. "Não sei se todos nós estamos preparados para uma escalada como essa. Na verdade, acho que nenhum de nós está. Mas se você quer tentar, eu vou na frente para encaixar as âncoras."
Heero virou para cada um dos membros do time. "E? Tem que ser uma decisão de grupo. Escalamos na esperança de pegar os soldados de surpresa quando chegarmos lá horas antes do previsto? Ou optamos pelo caminho mais seguro e nos matamos de correr?"
Quatre e Duo trocaram um olhar e o loiro deu de ombros. "Se Trowa acha que dá, devemos tentar."
O rapaz de trança lançou uma expressão duvidosa para o acrobata. "Você nos diria se fosse impossível, Barton?"
Trowa assentiu, forçando-se a encarar os frios olhos índigo. "Eu nem tentaria se fosse arriscado demais. Não me entenda mal. Não vai ser um mar de rosas. Mas se tivermos cuidado e o tempo colaborar, dá sim."
O jovem de L2 então concordou. "Eu topo." Voltou-se para Heero, vendo a expressão surpresa. "Que foi?"
"É só... você está fazendo de novo," o líder notou com um óbvio sorriso.
Duo refletiu o mesmo sorriso. "Então acho que mereço o dobro de recompensa."
"Será que é melhor nem saber do que eles estão falando?" Trowa murmurou com uma sugestão do seu antigo sarcasmo, balançando a cabeça.
"Aw, você não entenderia mesmo," Duo falou, seu tom quase chegando a sua provocação costumeira.
Os olhos de Quatre cintilaram e ele empurrou seu prato de batatas para o amigo. "Quer?" ofereceu com um cálido sorriso.
Duo sentou-se ao lado dele na cama, alegremente pegando uma batata frita. "Valeu, Quat."
Heero foi até o laptop, sentando-se na cadeira para estudar os planos, sentindo-se otimista. Não estava nem um pouco preocupado com a escalada desafiadora; sabia que se conseguissem manter o espírito de equipe, eram capazes de qualquer coisa. Podia até imaginar a expressão chocada de Wufei quando eles derrotassem seus melhores soldados e sua melhor estratégia.
A vitória os espera!
Continua...
