Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam


N/T: Como prometi para a Litha-chan (fiquei curiosa pra saber qual é a primeira fic que te deixa com pulgas no estômago! Me conta depois XD), aqui uma atualização especial de Dia das Crianças! Espero que gostem!


CAMPO DE TREINAMENTO
43: Afronta

Duo não perdoou Trowa da noite para o dia, mas sua atitude amansou o suficiente para o time funcionar como um todo.

Ficaram acordados muito além do toque de recolher na quarta-feira, planejando cada movimento que fariam na competição. Após algumas horas de sono, foram para a calistenia energizados pelo plano.

Durante a corrida matinal, Trowa fingiu passar mal e foi dispensado, período usado por ele para cumprir a tarefa de ir ao oficial responsável pelo estoque ver se conseguia corda extra para a escalada. O time não queria deixar pistas para o Capitão nem para os outros times fazendo o pedido normalmente. Assim, o moreno alto criou uma desculpa plausível para precisar da corda extra.

Conseguiu, e a guardou cuidadosamente no alojamento antes de seguir para a aula de armas se encontrar com os companheiros. Mas antes de chegar, foi avistado pelo diretor e chamado. Relutante, Trowa parou e se aproximou do homem que odiava.

"Faz uns dias que não te vejo, Barton," Kushrenada comentou. Passara cerca de uma semana desde que se viram da última vez.

"Chang nos mantêm ocupados," deu de ombros. "Falando nisso, eu tenho aula agora, então dá pra ser rápido?" Cruzou os braços, encarando o diretor com frieza.

"Oh, não me venha com essa. Não somos inimigos, Barton," Kushrenada cantarolou. "Já se esqueceu? Nosso inimigo em comum é o Maxwell."

"Já te falei, ele é meu companheiro de time," Trowa respondeu neutro.

"E eu te falei, ou você joga com as minhas regras ou o seu suprimento de drogas acaba e você explica os sintomas de abstinência para o Chang." Treize sorriu triunfante. "E aí ele vai te mandar pra prisão num instante."

Trowa deu de ombros novamente. "Pode valer a pena." Estava aliviado por já ter passado pelo sofrimento da abstinência, agora a ameaça do diretor era irrelevante. Mas o carcereiro não precisava saber disso... ainda.

"Oh, me poupe! Abstinência é uma coisa... mas e se eu contar tudo pro Maxwell sobre o que você fez com ele? Você sabe tão bem quanto eu que ele vai arrancar seu coração. Sinceramente, Barton. Me ajudar é simplesmente uma questão de sobrevivência para você."

"O que você quer?"

"Bem, nada agora, na verdade," o diretor falou. "No momento, tenho outras... alternativas abertas para mim."

Trowa franziu o cenho. Não podia ser coisa boa para Duo se Kushrenada tinha algum plano por debaixo dos panos.

"Mas perder Norton foi um desfalque grave na minha rede de informação," o homem revelou. "E Chang nem sequer considerou aplicar medidas disciplinares no moleque de L2. Aquele coração de mãe... só porque um guarda se divertiu um pouco com esse rato nojento de rua, Chang dá tratamento especial pra ele." Balançou a cabeça indignado. "Me diga uma coisa, Barton: Norton achava que Marxwell e Yuy estavam, ahm, envolvidos."

"Yuy é o nosso líder," Trowa respondeu de má vontade.

"Sim, sim, eu sei. Mas é algo a mais? Para o Maxwell."

"Um amigo," Trowa falou vagamente. De forma alguma ele contaria ao desgraçado do diretor qualquer detalhe do relacionamento entre o líder e o rapaz de trança.

"Um amante?"

O acrobata ergueu uma sobrancelha, curioso para saber até aonde ia esse interrogatório. "Hum, somos quatro dentro de um quarto, senhor. Não temos privacidade."

"Então se tivesse alguma... atividade você ouviria? Não é?"

"Não ouvi nada," respondeu sinceramente. Sabia muito bem que os dois não estavam se pegando; sabia dos pesadelos e sabia o quão emocionalmente frágil Duo passou a ser depois da solitária. "Acorda, K, Maxwell foi espancado e estuprado a menos de duas semanas. Acha que ele e o Yuy estariam trepando mesmo se eles quisessem?"

"E antes disso?"

"Olha," Trowa se impacientou. "Se você quer saber se tem alguma coisa rolando, pergunta pra eles. Eu tomo conta da minha vida, K."

"De agora em diante, você toma conta da vida deles," o diretor comandou com uma expressão de desagrado. "O rumor dos meus informantes é que são um casal. E meus informantes raramente estão completamente errados."

"E se estiverem?"

A expressão de Kushrenada se tornou astuta. "Olha, Barton, só estou curioso. Gosto de saber o que acontece na minha prisão. Você mantenha os olhos e orelhas abertas e me dê informação, e eu faço valer a pena."

"Eu te acho um baita escroto, K, e você sabe," Trowa falou irritado. "Por que acha que eu vou fazer o que pede?"

"Por isso." Kushrenada estendeu um pequeno envelope.

"Pode ficar," Trowa murmurou friamente.

"O seu estoque já deve estar acabando," o homem comentou.

Trowa deu de ombros evasivamente.

Kushrenada fez uma careta. "Vamos, Barton. Toma. Você precisa."

"Não preciso disso nem de você," o acrobata rosnou. "Agora sai do meu caminho e me deixa ir pra aula."

"Você vai se arrepender," o diretor avisou.

"Não mais do que já me arrependi de te ouvir," Trowa respondeu. Passou por Kushrenada e correu, quase chegando atrasado à aula de armas.

Sem tempo para compartilhar informações, Trowa apenas mostrou um sorriso enigmático e um polegar levantado para os companheiros para saberem de seu sucesso quanto à corda. Logo depois, a atenção completa foi tomada pela tarefa de limpar e montar as armas laser.


No início do almoço, Duo foi até a cozinha papear com Mitch, o cozinheiro chefe que o permitira afiar a faca do kit de sobrevivência. Sua missão era convencer o homem a lhe dar pimenta em pó para uma suposta pegadinha e não deixá-lo saber que era para uma variação de spray de pimenta a ser usado contra os soldados "inimigos".

Heero achou que seria uma ótima distração, temporariamente incapacitando os vigias sem causar dano permanente. E Wufei nunca imaginaria tal coisa, já que para ele os recrutas usariam apenas os instrumentos básicos recebidos.

Enquanto Duo abusava de seu charme, os outros três pegavam o almoço e se sentavam.

"Por que se atrasou para a aula?" Heero perguntou olhando para Trowa, sentado à sua frente.

"O maldito do Kushrenada me parou no meio do caminho," rosnou em resposta. "Ele está tramando alguma coisa, Yuy. E acho que envolve você."

"Por que acha isso?"

"Ele perguntou do seu relacionamento com o Maxwell... se são amantes."

"E o que você respondeu?"

"Falei que era praticamente impossível, considerando que são quatro num quarto só e Maxwell ainda está se recuperando do ataque daquele filho da puta."

"Ótimo." Heero ponderou. "Ele falou por que queria saber?"

"Claro que não," suspirou o acrobata. "Mas tentou me fazer pegar mais analgésicos... ameaçou cortar meu suprimento se não desse informação sobre o time."

"Você não aceitou?" perguntou Quatre preocupado.

"Nem a pau," Trowa respondeu com clareza. "Prometi a vocês, Quatre... Chega de drogas. Pra sempre." Deu de ombros levemente. "Minha palavra pode não valer muita coisa agora, mas estou falando a verdade."

O loiro sorriu calidamente. "Eu acredito em você, Trowa."

"Ainda precisamos lidar com Kushrenada," o líder fez uma careta de desagrado. "Ele obviamente não desistiu em se vingar de Duo."

"Mais grave ainda," Quatre interferiu. "Ele acha que pode te usar para conseguir isso." Ante os olhares dos outros dois, continuou. "Obviamente ele está interessado em seu relacionamento com Duo, ele deve te ver como uma arma em potencial para feri-lo."

"Nunca vou fazer isso."

Quatre bufou. "Disso eu sei. Mas acabaria com Duo se algo de ruim acontecesse com você."

"Vou tomar cuidado," Heero respondeu sem se preocupar.

"Nós vamos tomar cuidado," Quatre o corrigiu. "Precisamos ficar alertas de agora em diante."

"Alertas pra quê?" Duo perguntou, aproximando-se com a bandeja em mãos e sentando-se ao lado do loiro.

"Kushrenada," Heero resumiu. "Ele tem um truque na manga. Tentou fazer Barton aceitar mais drogas para convencer ele a entrar em outro plano."

A expressão do rapaz de trança se tornou sombria. "Alguém devia entrar no quarto dele no meio da noite e cortar a sua garganta," murmurou. Encontrou a surpresa no rosto dos companheiros. "Não custa sonhar," falou inocente, mordendo o seu sanduíche.

"Às vezes, Duo, você é um pouco... assustador," Quatre comentou lentamente.

Duo se inclinou, olhos faiscando. "Tenta viver em um beco escuro atrás de uma lixeira por meses, Quat... aí você vai saber o que é assustador." Abriu um sorriso reconfortante. "Não se preocupe... Eu só falo por falar. Eu nunca tentaria realmente matar ele nem nada, por mais tentador que seja. Não sou assim." Riu. "Mas é claro que eu não derramaria uma lágrima se alguém..."

"Maxwell, conseguiu a pimenta?" Heero cortou abruptamente, mudando de assunto.

"Claro."

"Será que não pode ser considerado, ahm, trapaça?" O loiro perguntou.

"Sinceramente," Duo respondeu. "Que soldado não precisa improvisar? Deveria ser requisito básico da missão."

Quatre riu baixo. "Provavelmente seria se estivéssemos em treinamento de operações especiais, Duo. Mas estamos no básico do básico."

"Por isso que vamos deixar todo mundo de cabelo em pé com o nosso improviso," o recruta de L2 completou.

"Tá bom," Heero abaixou a voz e se inclinou para o centro da mesa. "Essa noite vamos fazer as preparações finais... as distrações e arrumar as provisões." Os olhos azuis cintilaram em excitação, e Duo precisou se segurar para não cair em tentação e se inclinar também para ter o tão esperado beijo que Quatre interrompera tão abruptamente. Mas estavam no meio do refeitório e ele não queria estragar o momento em frente a espectadores. Isso já acontecera uma vez e a memória ainda era desagradável.

Então sua atenção foi roubada pela entrada de Chang acompanhado por um alto homem loiro, elegante, com longos cabelos loiros e olhos azuis gelo.

"Uau," Duo suspirou, olhos arregalados. "Quem é o bonitão com o Chang?"

Os olhos de Heero se semicerraram. "Major Zechs Merquise." Reconheceu o renomado diretor da Academia ASMS das descrições de Wufei nas cartas que trocaram enquanto ele era aluno.

Wufei foi direto à mesa do time Wing, cumprimentando-os com um meneio de cabeça. "Yuy."

O líder se levantou, fazendo um gesto para os companheiros o imitarem, e fez uma curta reverência de saudação.

O Major analisou os quatro rapazes com uma sobrancelha erguida. "Então esse é o seu time estrela, Chang?"

"Apesar do incidente no exercício anterior, eles estão em primeiro lugar," respondeu Wufei, tentando soar como se não estivesse se gabando. "Suas notas individuais – bom, o senhor viu os resultados e avaliações dos instrutores, sem mencionar as porcentagens promissoras."

"Realmente." O oficial se deteve em Duo por um momento, contemplando os grandes e brilhantes olhos índigo e o longo cabelo castanho. "Ora, fotos não te fazem jus, Maxwell."

Duo piscou surpreso. "Senhor?"

Wufei percebeu que Heero praticamente soltava fumaça pelas orelhas e atirava raios laser no Major com os olhos, e decidiu intervir antes que cabeças rolassem. "Ele só viu suas fotos de quando você foi preso, Maxwell. Lembra da sua aparência aos doze anos?"

O rapaz de trança sorriu. "Ah sim, dois olhos roxos e todo arrebentado da cabeça aos pés – literalmente."

Zechs balançou a cabeça, olhando de soslaio para Wufei. "Kushrenada e seus capangas deveriam ter sido demitidos e jogados na cadeia por aquilo."

O sorriso de Duo cresceu. "Gosto como pensa, senhor."

Heero ainda fumegava encarando Merquise e Wufei habilmente conduziu o Major pelo cotovelo. "Permita-me apresentar a você os outros times, senhor."

O Major ainda observando Duo, despediu-se dos rapazes e seguiu Wufei para a próxima mesa.

"Hum, por que essa cara de quem comeu e não gostou, Yuy?" o rapaz de trança perguntou, sentando-se.

"Não gostei do chefe do Chang," Heero resmungou.

"Hum. Por quê?" Duo sondou, pegando o resto do seu sanduíche e enfiando na boca.

"Por que ele não estava dando em cima, ele estava se jogando em cima de você, Maxwell," Trowa explicou, também se sentando e sorrindo maliciosamente ante a expressão sombria do líder.

"Dando em cima de mim?" Duo perguntou surpreso. "Tá maluco, Tro, ele tem o quê? Vinte e cinco ou trinta anos? Um pouco velho demais pra mim, não acha? Além do mais, estou de olho em outra pessoa."

"Ele tem vinte e três," Heero respondeu curtamente, aparentemente ignorando a última frase de Duo.

"Que seja. Ainda é velho demais," Duo insistiu.

"Não é o que ele acha," Quatre cortou o que o amigo diria a seguir, virando-se para ver Merquise de olho em Duo.

"Viu? Independente da idade, ele estava dando em cima de você, Maxwell," Trowa provocou.

"Aquilo não foi dar em cima," Duo contrariou. "No máximo, um flerte inocente."

"Tem diferença?" Heero questionou, ainda em pé com os punhos fechados.

"Claro." O rapaz de trança ergueu o rosto com malícia estampada. "Se eu disser: Yuy, você tem os olhos azuis mais lindos de todos e o cabelo mais me-joga-de-volta-na-cama-e-me-come que eu já vi. Isso é flertar."

"E o que é dar em cima?" Quatre perguntou curioso.

Duo sorriu malignamente. "Dar em cima seria algo como: Yuy, o que falta pra você e eu termos uma noite inteira de sexo selvagem e apaixonado?"

"Não muito," o líder murmurou.

"O que disse?" Quatre perguntou para o líder mal ouvindo o comentário.

Piscou os olhos índigo sedutoramente. "Não me diga que você está com ciúme. Do Major?"

Heero desviou o rosto e apenas grunhiu.

"Mas, Yuy, você sabe que é o único gato de olhos azuis na minha vida," o rapaz de trança o assegurou, encarando-o seriamente, um contraste direto com o seu tom brincalhão.

O líder o encarou de volta, vendo o rosto de Duo se avermelhar. Mas nenhum dos dois quebrou o contato ou tentaram esconder a sinceridade em suas expressões. Após alguns segundos, Heero pareceu satisfeito. "Baka," murmurou, cobrindo seu desconforto ao pegar sua bandeja e ir devolvê-la.

Duo também pareceu satisfeito. "Mas o seu baka," sussurrou esperançoso. Ele esperava que a possessividade de Heero indicasse genuíno interesse nele. E, cedo ou tarde, eles teriam o tão esperado beijo... e, se dependesse de Duo Maxwell, bem mais do que isso.

"Vamos, pessoal," Heero convocou. "Temos muito o que fazer ainda essa tarde e noite se quisermos ser bem-sucedidos."


Quando os rapazes cruzavam o campo, estancaram no caminho. A porta do alojamento estava escancarada e vários guardas sistematicamente reviravam todos os pertences.

"Mas que porra é essa?" Duo começou a se adiantar, mas foi parado por Heero que o pegou pelo braço.

"Maxwell, vai com o Quatre chamar o Chang."

"Mas—"

"Vai!"

"Heero, é o meu—"

"Já!" O líder girou Duo e o empurrou, fazendo-o dar vários passos na direção do refeitório. "Não discuta comigo agora, Maxwell."

Por incrível que pareça, Duo obedeceu sem questionar, percebendo a aflição do outro. Era óbvio que Heero queria protegê-lo do que Kushrenada tinha planejado, então apertou o passo com Quatre ao seu lado.

"O que acha que Kushrenada está atrás?" perguntou o loiro perturbado.

"Não sei, mas coisa boa não é," respondeu tenso.

Heero e Trowa continuaram, parando na frente do diretor.

"Tem algum motivo para estarem saqueando o alojamento?" Heero demandou bruscamente, dispensando qualquer polidez ao homem que atormentava um de seus amigos.

O olhar de Kushrenada se voltou para o acrobata. "Pergunte ao Barton, Yuy. Aposto como ele tem uma ideia."

Trowa cruzou os braços, olhos semicerrados. "Nem imagino do que esteja falando, K."

"É mesmo?" O sorriso era como uma promessa. "É o que vamos ver."

Os dois rapazes continuaram plantados observando cada baú ser forçado a abrir e os conteúdos esparramados nas camas. Os homens de Kushrenada vasculhando cada item.

"O que significa isso?" Uma voz retumbante perguntou. Mas não era o capitão e sim o seu superior, Major Zechs Merquise.

O diretor virou-se surpreso. "Quem diabos é você?"

"Esse é o Major Merquise," Wufei o apresentou enraivecido. "E você está além da sua alçada, Kushrenada."

"Tenho todo o direito de conduzir inspeções surpresa, Chang."

"Não mais," o Major rebateu também enraivecido. "Pessoalmente aprovei os documentos dando ao Capitão Chang total autonomia na supervisão de Maxwell e seus companheiros de time."

Duo e Quatre estavam logo atrás, tendo acompanhando os dois oficiais, e trocaram olhares confusos.

"Os documentos apenas dão a Chang a custódia de supervisionar Maxwell," o diretor contestou.

"Também especifica que ele pode contradizer qualquer ordem sua que envolva qualquer um dos recrutas, se ele julgar que você está além da sua alçada. E nota que qualquer interação direta entre você e os recrutas deve ser aprovada previamente pelo capitão, incluindo, mas não limitado a, buscas em locais ou pessoas, interrogatórios e punições de qualquer tipo."

"Só pode estar de brincadeira," Kushrenada rosnou. "Quando eu recebo dica de que um dos recrutas está usando drogas, tenho o direito de investigar."

"Não tem não," Merquise desmentiu calmamente. "Você tem o direito de pedir ao Capitão para te deixar investigar ou para ele proceder com a investigação."

"Que absurdo!"

"Absurdo é o que aconteceu com o Maxwell na solitária," Wufei refutou friamente. "Sua completa incompetência em prover um local e supervisão adequados para um interno juvenil causou danos irreparáveis e lhe custou o privilégio de supervisionar esses rapazes... todos eles."

"Privilégio?!" Kushrenada exclamou. "Você acha que conduzir um rebanho de marginais assassinos é um privilégio, Chang? É um trabalho sujo e ingrato que vocês tiveram a sorte de me dar!"

"Você não tem lugar no sistema carcerário juvenil, Kushrenada," Wufei constatou, o queixo erguido para poder olhar de cima para baixo para o pomposo diretor. "Além de seus métodos serem inadequados e violentos para menores de idade, sua objetividade é tendenciosa. Desde a morte do seu irmão, cada movimento na sua carreira foi uma tentativa óbvia de vingança contra o que você acha que foi a causa da morte dele... um ofensor menor de idade."

"Não qualquer ofensor menor de idade," o diretor corrigiu. "Esse ofensor menor de idade!" Apontou para Duo, que se recostara no batente assistindo a discussão como se visse um filme.

Repentinamente percebendo que tinham uma audiência, Chang e Merquise trocaram um olhar.

"Fora, Yuy!" Wufei ordenou. "Leve o seu time para fora até terminarmos."

Heero assentiu com a cabeça e saiu com os outros três, indo até o próximo alojamento para esperar.

Wufei se voltou para Kushrenada. "Certamente você não continuou nesse trabalho esperando pegar o Maxwell," o chinês ironizou. "Não tinha como você saber que acabaria encarregado da instalação onde ele seria encarcerado."

"Claro que não," o diretor zombou. "Foi pura sorte... até vocês mãezonas se envolverem. Ele é um assassino e vocês estão cegos." Seus olhos se semicerraram. "Ou vocês querem assassinos? Afinal, estão procurando meninos para transformarem em soldados."

Wufei encarou o homem, mas seu superior interviu delicadamente com um tom mais calmo do que o de ambos. "Diretor, essa discussão não nos levará a lugar nenhum. Por favor, nos informe que dica foi essa que o levou a uma busca ilegal nos alojamentos. Capitão Chang e eu decidiremos se a investigação continuará ou não. Enquanto isso, ordene a retirada dos seus guardas imediatamente."

Resmungando de raiva, Kushrenada mandou os guardas saírem, a frieza em seus olhos disputando com a de Merquise. "Tenho informação segura de que Barton tem usado drogas aqui no campo Peacecraft. Uma busca nos baús, camas e quartos deve ser feita." Deixou de fora de seu argumento o envelope recusado por Trowa estar em seu bolso. Sem saber o quanto o rapaz teria, trouxe a própria evidência para ser plantada, mas não tivera a oportunidade antes de ser interrompido.

Wufei bufou, cético. "Com todas as inspeções que fiz, seria impossível."

Um dos guardas que se retirava deu a Kushrenada um frasco recolhido do baú de Duo. "E isso aqui?" O diretor questionou, mostrando o frasco.

Wufei o pegou e inspecionou brevemente a etiqueta. "É remédio prescrito pela doutora Po para o Maxwell conseguir dormir sem os pesadelos que o seu guarda causou!" Sua voz trovejou.

"Meu guarda agiu em autodefesa..."

"Senhores!" O Major novamente interrompeu a briga, fisicamente ficando entre os dois, vendo a intenção de violência no Capitão. "Essa discussão é irrelevante e redundante. Diretor, por favor, volte ao seu escritório e releia os documentos que Capitão Chang te entregou explicando as suas responsabilidades e sua jurisdição. E, Capitão Chang, por favor, vamos continuar o tour para podermos voltar ao seu escritório e revisar os planos para o próximo exercício."

Os dois se abrandaram e Treize saiu batendo os pés sem olhar para trás. Suspirando pesadamente, Wufei levou o seu superior para fora, onde encontraram quatro rapazes ansiosos.

"Senhor?" Heero chamou incerto.

"Acabou o show, Yuy," o Capitão anunciou. "Kushrenada achava que Barton estava em posse de drogas." Seus olhos negros pousaram no acrobata. "Quer se defender?"

Trowa sustentou seu olhar. "Não estou em posse de nenhuma substância ilegal, senhor. Nem tenho qualquer intenção de estar."

Wufei sorriu tranquilizado. "Foi o que falei para o diretor. Mas ele é teimoso." Voltou-se para o jovem de trança.

"E ele me quer fora daqui," o recruta de L2 se adiantou em dizer, ao lado de Heero, praticamente encostado na presença sólida do líder.

"Felizmente, o Capitão Chang e eu não queremos," falou o Major.

Duo considerou os dois oficiais. "O que K quis dizer com Capitão Chang ter a minha supervisão?"

"Depois de descobrirmos que Kushrenada tem uma bronca pessoal com você, Chang e eu pedimos para o serviço social da Fundação Peacecraft e a Corregedoria da Prisão para apontar Chang como supervisor de sua detenção e reabilitação. Basicamente, eles deram a ele total controle sobre o que acontece com você daqui pra frente."

Duo ganhou uma expressão que misturava desconfiança e confusão.

"Para todos os efeitos, Chang é o seu diretor, oficial de justiça e tutor legal até você fazer dezoito anos," Heero explicou.

"O quê?!" Duo exclamou, totalmente chocado. "Você – você não pode ser o meu tutor!"

Wufei sorriu sem humor. "Acredite, Maxwell, é apenas uma formalidade. Apenas me assegura direitos legais para garantir o que é melhor para você."

"E responsabilidades legais também," o Major ressaltou para Duo perceber o quanto Wufei fizera por ele.

Duo encarou com dúvida o seu tutor. "Não é muita responsabilidade? O que acontece se eu fizer cagada?"

"Então eu falhei com você," o chinês respondeu virando o rosto para o lado, um pouco envergonhado.

Os olhos índigo focaram em Heero e depois em Wufei mais uma vez. Duo balançou a cabeça. "Não entendo por que você faria isso por mim, Capitão."

Os olhos negros miraram brevemente em Heero e este percebeu que Wufei fizera parcialmente pelo líder. "Relaxa, Duo," Heero falou, sorrindo gentilmente. "Só significa que você não pode ser jogado de um lado para o outro pelo sistema sem a aprovação de Chang. Então seja grato e se comporte."

Duo concordou com a cabeça, digerindo a informação e, por fim, descontraiu. "Quer dizer que você é o meu tutor, Chang?"

"Acredito que já tenhamos estabelecido este fato, Maxwell," respondeu secamente.

Duo sorriu travesso. "Quer dizer que posso te chamar de 'pai'?"

Os olhos do Capitão se arregalaram e seu queixo caiu, todos os outros, inclusive o oficial superior, começaram a rir. "Sob o meu cadáver!" Wufei explodiu em ultraje. "Eu não sou o seu 'pai', Maxwell. E não tenho intenção de ser chamado assim."

Heero aproveitou a deixa para cutucar. "Mas, Chang, isso te permitiria chamar ele de 'filho', 'filhote' e todo o tipo de apelidos carinhosos toscos."

O ultraje de Wufei sumiu e foi substituído por bom humor, fazendo-o abrir um sorriso perigoso. "Ele está certo, Maxwell."

Duo ergueu as mãos e se rendeu. "Fica Capitão Chang mesmo!" decidiu.

O Major deu uma risada e apontou sobre o ombro para o alojamento. "Chang, é melhor deixar o time de estrelas voltar ao trabalho. Eles tem muito o que arrumar antes da competição de amanhã."

"Aw, merda," Duo murmurou, lembrando-se da bagunça feita pelos guardas.

Wufei concordou com o oficial e se dirigiu a Heero. "Yuy, é melhor já começarem. Se vocês se apressarem, devem conseguir terminar antes da calistenia da tarde."

O líder bateu continência e levou o time para o quarto.

"Que zona," Duo suspirou, indo até a própria cama e começando a juntar os uniformes agora amassados.

Trowa suspirou também, ajeitando o seu baú e jogando seus pertences nele. "Desculpa, gente. É tudo culpa minha."

"Não é não," Quatre insistiu.

"Se eu não tivesse recusado o Kushrenada, isso não teria acontecido."

Duo se virou. "Você já devia saber, Barton, Kushrenada faz o que quer." Balançou a cabeça. "Não jogue o jogo dele, mesmo se for para acalmá-lo. Você vai perder."

Trowa concordou. "Você está certo."

"Devíamos contar para o Capitão que o Kushrenada está vendendo drogas," Quatre falou nervoso.

"Mas aí teríamos que explicar como sabemos," Heero argumentou. "Não. Por enquanto, vamos deixar quieto." Pareceu pensativo. "Teremos tempo de lidar com ele depois da missão."

Duo ergueu uma sobrancelha, pendendo a cabeça para o lado. "Seria divertido armar contra ele pra variar," notou. "E se conseguíssemos fazer o Chang dar um microfone escondido para o Barton e gravar Kushrenada dando drogas pra ele?"

Heero assentiu com a cabeça, gostando da sugestão. "É uma possibilidade. Mas não até estarmos próximos de nos graduar para o Chang não pirar com o uso de drogas de Barton. Um passo de cada vez. Temos uma bandeira para capturar."

Duo suspirou mais uma vez, pensando no quão sexy Heero ficava quando focado numa missão. E caminhar pela floresta, escalar montanhas e acampar ao ar livre poderia oferecer bastante tempo e privacidade para o tal do beijo que ele tanto desejava... não é?

Continua...