Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
CAMPO DE TREINAMENTO
46: A Missão
No fim da tarde, os rapazes do time Wing estimaram estar a cerca de 1 quilômetro do destino. A essa altura, haviam escondido os equipamentos desnecessários, vestido os coletes laser, verificado as armas e revisado o plano.
Para começar, fariam uma varredura dos arredores, tentando se aproximar o suficiente para observar os soldados vigiando o casebre. Caiu nas costas de Duo e Trowa se aproximarem mais, enquanto Heero manteria distância para memorizar a rotina dos guardas, e Quatre estudaria os padrões de patrulha procurando pontos fracos.
"Vamos nos reencontrar aqui duas horas depois de escurecer," Heero falou para os companheiros. "Aí comparamos notas e finalizamos nosso plano. Por ora, é evitar armadilhas, distrair e incapacitar patrulhas, e enfrentar o misterioso obstáculo final preparado por Wufei naquela cabana." Seus olhos astutos estudaram cada um dos rostos à frente. "Se alguém pensar num plano melhor, não vamos hesitar em implementá-lo. Alguma pergunta?"
As três cabeças balançaram em negativa, e Heero assentiu com a dele, virando-se para sair. Quando o fez, Duo o pegou pelo braço, virando-o de volta para plantar um firme e breve beijo em seus lábios. "Pra dar sorte, 01," o rapaz de trança sussurrou.
Heero sorriu em resposta. "Se cuida, 02."
"Sempre."
Os quatro se espalharam pela vegetação espessa, cada um ciente de sua tarefa e pronto para completá-la.
A tarefa de Trowa envolvia se aproximar o suficiente do local para observar os soldados e tentar perceber alguma indicação de onde estavam as armadilhas e minas. Fazia sentido concluir que eles não pisariam nas próprias armadilhas, portanto, o caminho pelo qual andavam podia-se assumir ser seguro.
O ex-acrobata subiu em árvores para cumprir seu objetivo. Escalando habilmente num ponto alto para observação, fez seu caminho pelos galhos finos como se andasse em corda bamba. Além do mais, conseguiu se aproximar bastante do casebre sem se preocupar em tropeçar em fios ou pisar num buraco escondido.
Duo, por outro lado, ocultava-se entre a abundante vegetação, desaparecendo nas sombras e se movendo tão furtivamente que nem folha farfalhava nem graveto se partia para denunciar sua posição. Mas por ter escolhido o "caminho baixo", constantemente precisava tomar cuidado com surpresinhas deixadas para os recrutas.
Ele chegara a alguns tantos metros da área quando encontrou a primeira... um arame quase invisível esticado pela trilha, uma extremidade amarrada a uma granada laser que pegaria qualquer tolo andando despreocupado. Sorrindo sombriamente, o rapaz de trança começou a desarmá-la, preparando o caminho para a infiltração.
Enquanto Duo completava seus trabalhos furtivos, Heero alcançava seu próprio objetivo, e se esticou em um galho assistindo o fluxo dos guardas ao redor do casebre. Sua memória impressionante precisa o permitiu mentalmente guardar cada movimento e tempo dos vigias. Mas estava mais interessado na localização de Wufei, sabendo que o oficial estaria presente no exercício.
Sua paciência foi recompensada ao anoitecer, quando viu a figura esbelta do homem de cabelos negros abrir a porta e chamar a tropa para dentro.
Heero contou cada um ao entrar, desejando estar mais perto para poder escutar, mas era arriscado demais, pelo menos até seus companheiros de time compartilharem o que haviam descoberto das armadilhas. Portanto, ao invés disso, observou a fina fumaça se dissipar pela chaminé. Era a cara de Wufei estar confortável e quente em uma casa com aquecimento enquanto seus recrutas infelizes dormiam sob a noite fria da montanha. O chinês era tudo menos burro.
Então a porta se abriu e os soldados saíram. Cinco minutos... os homens ficaram lá dentro por exatamente cinco minutos. Heero sorriu satisfeito. Wufei ainda não os esperava; do contrário, não teria feito todos os guardas entrarem de uma vez, deixando a área desprotegida. Isso significava que o risco do atalho compensara. Ou, ao menos, compensaria se agissem logo.
Com um rápido cálculo de cabeça, estimou que entre a escalada do penhasco e a travessia do rio, conseguiram poupar umas doze horas. Concluindo, Chang não os esperaria antes do amanhecer, no mínimo. Perfeito!
Quatre se interessou em como as tropas de Wufei se portavam, mas seu interesse aumentou com a reunião de cinco minutos. Permaneceu em seu ponto de observação o suficiente para ver a ação se repetir uma hora depois. Continuou ainda mais onde estava para confirmar o mesmo intervalo. Então, com um amplo sorriso, o tático do time voltou para o ponto de encontro com um plano levemente maluco na cabeça.
Heero e Quatre chegaram à base ao mesmo tempo, ambos saindo de trás das árvores cautelosamente, certificando-se de que Chang não tinha enviado patrulhas mais distantes. Entretanto, não havia sinais de nenhum soldado tão longe do casebre, e a escuridão caíra tão completamente que era improvável a base do time Wing ser descoberta.
"Heh... acho que ele não nos esperava tão cedo," 01 falou convencido, aproximando-se de Quatre. "Conhecendo ele, Chang vai mandar guardas patrulharem mais longe da área da cabana para emboscar quem se aproximar. Só o fato de estarmos muito adiantados é que nos permite chegar tão perto sem encontrar ninguém."
Quatre concordou. "Faz sentido. Ele está poupando a tropa até sentir que existe alguma ameaça." Seus olhos inocentes se transformaram em maldosos. "Que burrice."
Heero riu, mas se virou ao som de um baixo assobio. Trowa desceu de uma árvore no arredor da clareira e se aproximou.
"Nada mau, Barton," o líder comentou, olhando para o topo das árvores. "Boa ideia viajar por cima."
"As pessoas raramente olham para cima," o ex-acrobata respondeu sorrindo.
" – como qualquer infiltrador sabe," a voz de Duo soou atrás dos três.
Todos se viraram alarmados, Heero erguendo a arma laser por instinto, até identificar sem sombra de dúvidas seu colega de time.
Duo se materializou para fora das sombras, guardando sua própria arma laser na calça. "Sentiram a minha falta?" perguntou com um sorriso brincalhão.
"Se eu tivesse puxado o gatilho, não teria," Heero rebateu, guardando a arma. "Certo, vamos ouvir o relatório de cada um, começando por você, 02."
Duo deixou a brincadeira de lado e adotou uma postura profissional num piscar de olhos. "Tá, o negócio é o seguinte. Julgando pela quantidade e posição das armadilhas, Chang não vai investir em patrulhas de longo alcance. Mas ele deixou uma saída. Tem uma pequena trilha mequetrefe sem qualquer tipo de arames nem bombas... provavelmente para deixar um ou dois soldados rondar além do perímetro." Duo ergueu um rolo de arame que recolhera desarmando as bombas. "É claro que agora as outras trilhas estão bem menos perigosas," deu de ombros. "Mas não podemos ser descuidados... posso ter deixado passar uma ou duas." Seus olhos claros cintilaram. "Posso até ter realocado algumas... só para dar aos soldados uma surpresinha."
Os outros rapazes do time riram com sorrisos malignos.
"Quantos soldados contou?" o líder questionou.
"Doze, sem incluir o Chang."
Heero se voltou para Trowa. "E você, 03. Quantos contou?"
"Doze."
"E como estavam posicionados?"
"Quatro nunca se afastam da cabana e oito patrulham os arredores. Trabalham em pares, e notei que evitam a trilha principal como se fosse veneno... devem ter entupido de armadilhas lá."
Duo riu. "Tinha mesmo."
"Quantas conseguiu desarmar?" Heero perguntou.
"Cheguei até a uns 30 metros, mas aí fiquei perto demais. Não quis estragar tudo sendo visto."
O líder assentiu com a cabeça em aprovação. "Certo... o que pode acrescentar sobre as defesas, 04?"
O loiro deu de ombros. "Formação bem padrão... exceto por uma coisa."
Todos os olhos se focaram nele e, por fim, Duo falou o que estava na cabeça dos outros dois. "Você viu uma fraqueza, né? Desembucha de uma vez, Quat!"
"O capitão faz reuniões de hora em hora. Observei doze soldados entrarem e doze saíram toda vez. Ficaram lá dentro por cinco minutos."
Duo franziu o cenho. "O que o Chang está pensando? Não pode tirar a patrulha inteira de posição e esperar manter a segurança."
"Não é isso," Heero falou firmemente. "Acho que estamos tão adiantados que o Chang ainda não colocou as tropas em alerta. Estão só matando tempo e praticando."
"Por quanto tempo?" Trowa indagou.
O japonês balançou a cabeça. "Difícil dizer. Mas se Chang imaginar que chegamos antes do previsto, ele vai levantar as defesas bem rápido antes do amanhecer."
"Então temos que agir antes, né?" o rapaz de trança instigou.
"Acho que devemos," Heero confirmou.
O loiro limpou a garganta propositalmente e seus colegas focaram nele mais uma vez. Sendo confrontado por três pares de olhos penetrantes, ele hesitou.
"Anda, 04," Duo o encorajou. "Posso ver o brilho nesses grandes olhos azuis que você tem algo em mente."
"Bem... sei que nosso plano original era usar as bombas de pimenta como distração enquanto desabilitamos os soldados," falou lentamente. "Mas esse plano envolve muita incerteza. Quero dizer, e se não funcionar como esperamos? E se a pimenta se voltar contra nós? E se –?"
"Corta o papo furado!" Duo exclamou.
Quatre se virou para o amigo pacientemente. "Já tentou exterminar ratos?"
O jovem de L2 bufou. "Porra, Quat! Eu vivia com eles. Às vezes até comia eles. Exterminar não era uma opção."
O loiro estremeceu. "Ah, tá. Você não era a melhor pessoa para usar essa analogia." Abriu um fraco sorriso. "Enfim, se você quiser exterminar ratos, o melhor jeito é pegar todos de uma vez."
" – quando estiverem dentro da cabana," Trowa completou, balançando a cabeça em afirmativa.
"Exato."
"Quer que a gente cerque a cabana enquanto estiverem em reunião?" Duo perguntou pensativo. "Seria quatro contra treze. Estaremos em desvantagem mesmo se pegarmos eles de surpresa."
"Além do mais," Heero acrescentou. "Chang fica dentro da cabana, então acho que ele é o obstáculo final." Balançou a cabeça. "Estou mais preocupado com ele do que com os soldados."
Quatre também balançou a cabeça. "Não, não... o plano tem mais do que só cercar a cabana," assegurou-os. "Bem mais."
Wufei sentava-se a uma pequena mesa em seu casebre, repassando o plano de defesa do perímetro uma última vez. Ao raiar do dia, enviaria patrulhas de longo alcance para procurar times se aproximando. Não que os esperasse antes do meio dia, mas conhecendo Yuy, precisava considerar a possibilidade de o time Wing chegar antes.
O chinês resistiu ao impulso de usar o GPS para localizar os recrutas pelas tornozeleiras. Na verdade, deixara o GPS no acampamento Peacecraft para afastar a tentação. Por mais que quisesse acompanhar o progresso deles, seria injusto. Embora soubesse com certeza que o major Merquise não tiraria os olhos da tela, ansioso por receber seu prêmio da aposta.
Wufei fez uma careta. Por que fizera uma aposta tão boba? Mais uma vez, o oficial mais alto na hierarquia pedira um jantar a dois, só que dessa vez chamara explicitamente de "encontro". E quando Wufei perguntara das regras sobre fraternização, o belo homem loiro rira e o assegurara que dois camaradas do exército jantando juntos não atrairia nenhum estranhamento. Também insistira que não era nada mais do que parecia... uma chance para ambos aproveitarem a companhia um do outro e conversarem fora do trabalho.
Contudo, o chinês não conseguia considerar o convite – ahm – aposta como apenas uma saída entre amigos. Tinha a distinta impressão de que seu mentor estava interessado romanticamente nele. Embora Zechs tenha prometido ser um perfeito cavalheiro, havia um risco inerente em se socializar com um superior. Não que Wufei não gostasse da companhia de Merquise – haviam passado muitas horas treinando juntos e eram extremamente compatíveis em temperamento, ambos eram guerreiros de coração e tinham orgulho em excelência –, mas nunca olhara para Zechs Merquise como um interesse romântico em potencial. Nunca olhara para nenhum homem dessa forma... e não fazia a menor ideia se queria.
O chinês se afastou da mesa xingando, levantando-se e andando de um lado para o outro. Então, decidindo precisar clarear a cabeça e se acalmar, resolveu passar a próxima meia hora meditando. Talvez dessa forma pudesse ficar mais alerta quando chegasse a hora da próxima reunião.
Indo até a sua cama, Wufei se sentou no colchão, cruzando as pernas, fechando os olhos, e deixando a mente lentamente clarear de todos os pensamentos conturbados.
"Pegou tudo?" Heero perguntou, seu olhar astuto analisando pela última vez seus colegas de time. Passara da meia noite, e os quatro completaram seus planejamentos e preparações.
Duo bateu nos bolsos. "Colete, arma, bombas de pimenta, cantil e toalha."
Trowa tocou em uma corda enrolada diagonalmente em seu torso. "Colete, arma, corda, faca."
"04?"
"Colete, arma, granada laser, dois cantis, três bandanas."
Heero assentiu. "E eu tenho o meu colete, arma, bandana e granada laser." Voltou a encarar os companheiros. "Alguma pergunta?"
"Sim," Duo voluntariou com um leve sorriso. "Você tem algum plano para depois da missão, gato?"
"Quer dizer além de te foder como se não houvesse amanhã?" Heero rebateu sem nem piscar.
O rapaz de trança ficou boquiaberto, olhando de soslaio os rostos sorridentes de Quatre e de Trowa, e então riu resignado. "Já sei, eu não devia provocar, Yuy."
"Mas não pare," o líder deu de ombros, checando os bolsos pela última vez. Respirou fundo e voltou com sua persona de soldado. "Vamos nessa," ordenou, saindo da clareira com passos confiantes.
Duo e Trowa foram juntos como uma dupla, com o primeiro liderando impecavelmente o time pelo caminho seguro. Quando se aproximaram do casebre, em território no qual Duo não limpara as armadilhas, Trowa assumiu, subindo uma árvore e puxando o jovem de trança em seguida. Continuaram pelos galhos até uns quinze metros, então esperaram pelo sinal.
Heero e Quatre foram por terra, pelo caminho que Duo mapeara para eles, usando a trilha segura. Quando se aproximaram, esconderam-se na vegetação, mas mantiveram uma distância razoável um do outro para caso um fosse pego, não denunciasse a posição do outro.
Então esperaram.
E quase uma hora mais tarde, a paciência deles foi recompensada com a porta do casebre se abrindo, mostrando a silhueta do capitão em um retângulo de luz.
Um por um, os soldados foram entrando enquanto o time Wing contava... e faltou um.
"Merda!" Heero sibilou, os olhos rondando, tentando penetrar a escuridão. Não era possível que eles tivessem contado errado antes, então ou um dos soldados fora embora por qualquer razão, ou um ainda patrulhava.
A cabeça loira de Quatre ergueu-se de uma moita e virou-se para Heero, mas estava escuro demais para trocarem sinais. Assim, o recruta de L4 começou a rastejar em direção ao líder pretendendo consultá-lo sobre mudarem para o plano B, ou seja, o plano original.
Quando Quatre estava no meio do caminho, Heero ouviu passos e fez um gesto exagerado para depois se esconder novamente na moita. Seu companheiro fez o mesmo, cobrindo-se atrás de grandes samambaias, pressionando-se contra o chão, congelado, totalmente imóvel.
O soldado descendo pela trilha quase pisou na mão de Quatre, estendida na frente dele. Na verdade, o calcanhar da bota de fato pisara na ponta de um dedo, enterrando-o na terra macia da floresta. O homem passou, correndo para a cabana.
"Desculpa o atraso, senhor! Patrulhei um pouco mais longe do que pensei nessa escuridão."
"Desleixado, Lareau!" Wufei repreendeu, gesticulando para o homem entrar e fechando a porta atrás dele.
Heero se levantou do chão, soltando um suspiro de alívio. Olhou para Quatre, agora apenas uns sete metros de distância, esfregando o dedo machucado.
"04!" Sua voz soou urgente.
"Pronto!" sussurrou firmemente.
Heero ergueu o rosto, em direção ao topo das árvores, onde os companheiros esperavam, e acendeu um fósforo, ergueu-o por três segundos e assoprou. Esperou na terra fria por mais trinta, então se impulsionou para ficar de pé e correu silenciosamente pela clareira na direção da cabana, sendo seguido pelo loiro.
Enquanto isso, tendo visto a pequena chama, Duo e Trowa dispararam para um galho próximo até chegarem o mais perto do telhado que conseguiram, e rapidamente amarraram uma corda. Depois, Duo a usou para descer, e Trowa o balançou para frente e para trás até poder soltá-la, voar e pousar no telhado.
Ciente de ter apenas alguns segundos até os soldados registrarem o barulho, Duo correu para ajoelhar-se ao lado da chaminé. Puxou uma toalha, molhou-a com água do cantil, sabendo que antes de terminar, Trowa já teria descido e estaria do seu lado.
O artista circense tomou a toalha para si, continuando a molhá-la, enquanto Duo tirava dos bolsos pacotinhos contendo pimenta ardida em pó e uma substância explosiva misturadas. Então enfiou as minibombas pela chaminé e seu parceiro enrolou a toalha tapando as aberturas para bloquear a saída da fumaça.
Houve um abafado boom logo abaixo dos dois, e o som de xingamentos e gritos.
Quatre esperava ao lado da porta quando os soldados transbordaram para fora, tossindo e amaldiçoando, acompanhados por uma fumaça de cheiro pungente. "Rosto no chão!" gritou autoritariamente, tentando fazer uma contagem com a luz fraca saindo pela porta.
Trowa e Duo caíram ao lado do loiro, tendo os dois se apressado em atravessar o telhado assim que ouviram a detonação e o pânico.
"03, cerca aqueles seis ali!" Quatre ordenou rapidamente. "02, fica na retaguarda e nos cubra; aqui, fica com isso caso precise." Jogou uma granada laser para o rapaz de trança.
Trowa mirou sua arma laser para os homens deitando no chão a contragosto, ainda tentando respirar e limpando as lágrimas dos olhos, enquanto o jovem de trança recuava para um canto da cabana empunhando a granada. Se os prisioneiros tentassem alguma coisa, pelo menos teriam a satisfação de levarem todo mundo junto.
Quatre terminou de contar e recontar, e faltava um. "Droga!" exclamou em pânico. "Cadê o Chang?!"
"Aqui," uma voz controlada soou, e a arma laser de Chang encostou atrás da cabeça de Duo.
"Porra!" o rapaz de trança reclamou frustrado.
"Sugiro, rapazes, que larguem as armas e se rendam." Wufei estava usando Duo como escudo humano, olhos negros focados nos outros rapazes. "Huh, a não ser você, Maxwell. Continue segurando firme essa granada ou vamos ser todos neutralizados e o próximo time vai poder entrar aqui tranquilamente e levar o seu prêmio."
"Pelo menos você perderia com a gente," Duo sugeriu friamente. Inclinou a cabeça para poder ver o capitão. "Como ficou atrás de mim?"
"Saí pela janela assim que encheu de fumaça." Wufei respondeu. "E o que diabos vocês usaram?"
"Pó de pimenta caiena e explosivo," Duo deu de ombros. Ousou outro olhar de esguelha para o capitão e por cima do ombro dele. "E funcionou," sorriu.
"Quase."
"Oh, eu diria que funcionou perfeitamente," outra voz soou, e Chang sentiu metal encostar em sua nuca.
"Yuy," rosnou enojado.
"Chang. Larga a arma."
"Cuidado. Você pode perder um companheiro," o chinês o alertou.
"É, mas eu já peguei a bandeira." Heero mostrou o prêmio que Wufei abandonara na pressa de se livrar da nuvem de fumaça.
"Como?"
"Bandana molhada cobrindo a boca e nariz," explicou com simplicidade. "Entrei pela janela depois que você saiu, peguei a bandeira, saí... a tempo de te parar."
"Mas eu ainda tenho um do seu time como refém," argumentou.
"Mais ou menos," replicou complacente. "Ele ainda está segurando a granada laser," Heero o lembrou. "Se neutralizá-lo, ele vai soltar, e vai te abater também."
Chang deu de ombros. "Então todos nós perdemos."
"Que conclusão mais suicida," Duo comentou com bom humor.
"Se não pode derrotar o inimigo, leve-o com você," o oficial ensinou.
Trowa finalmente decidiu que o trio já jogara muita conversa fora, se reposicionou discretamente e, sem preâmbulo, atirou no colete do capitão, ativando um alto beep que registrou o acerto, então após um segundo a vítima foi registrada como "morto", e sua arma foi desativada. Mesmo se tentasse atirar com ela, não conseguiria.
Olhos arregalados se voltaram para o acrobata de L3. "Que foi?" perguntou impaciente. "Vocês três ficaram debatendo por uma eternidade. Decidi dar um empurrãozinho."
"Mas você matou o Chang!" Duo protestou.
"Acho que você ficou órfão de novo," Trowa comentou dando de ombros, andando pela fileira de soldados no chão e confiscando suas armas.
Heero começou a rir atrás de Wufei.
"Não tem graça, Yuy."
"Depende do seu ponto de vista," o japonês discordou impertinente. "02, ajude 04 e 03 com os prisioneiros."
Duo se juntou a Quatre e Trowa, distribuindo entre os soldados cantis e bandanas para que pudessem lavar os olhos e melhorar os efeitos da irritação da pimenta.
Wufei se virou para Heero, praticamente soltando fumaça pelas orelhas. "Foi uma estratégia bem fora do comum, Yuy."
"Vou considerar isso como um elogio."
O chinês bufou com escárnio. "Se te faz se sentir melhor."
"Pelo que me lembro, você quer pessoas com mentes criativas para se juntar a Academia," o japonês comentou, sorrindo para o velho amigo.
"Sim, mas..." Wufei acabou desistindo e também sorriu. "Você me custou uma aposta com o Merquise."
"Apostar é um mau hábito," Duo anunciou, aproximando-se dos dois. "Eu bem sei, sendo um especialista no assunto."
"Que assunto? Apostas?" Wufei perguntou.
"Mau hábito," o jovem de trança respondeu zombeteiro. Ignorou o olhar fulminante do capitão e bateu continência para Heero. "Prisioneiros presos, 01. Mais alguma coisa, destemido líder?"
Heero se virou para Wufei, erguendo uma sobrancelha. "A operação pode ser considerada completa, senhor?"
O chinês assentiu com a cabeça. "Eu declaro que sim. Revisaremos os detalhes no acampamento. Enquanto isso, vocês quatro tratem de ajudar a limpar a cabana para deixá-la habitável. Vou chamar o transporte assim que amanhecer para não precisarmos andar de volta."
Duo empacou com o pensamento de limpeza. "Não podemos fazer nossos prisioneiros limparem?" Tardiamente se lembrou de acrescentar: " – senhor?"
Wufei sorriu maliciosamente. "No momento em que o exercício acabou, vocês se tornaram os prisioneiros de novo."
"Merda," o jovem de trança resmungou, dando meia volta para jogar um braço ao redor dos ombros de Quatre. "Vamos, cara. Essa bagunça é praticamente culpa sua, foi seu plano espantar eles com a fumaça."
"Mas você que roubou – ahm – pegou emprestada a pimenta," Quatre protestou.
Duo lançou um olhar preocupado para Wufei, que, por sua vez, ostentava uma expressão prometendo uma longa bronca. "É... valeu mesmo, Winner. Me lembra de nunca te pedir para me cobrir com um álibi!"
Procederam em ajudar os soltados a aerar a pequena cabana e arrumá-la. Aparentemente, a pressa de sair resultara em várias cadeiras caídas e pertences esparramados.
Menos de uma hora depois, tudo estava em ordem, e todos se juntaram para compararem notas sobre a missão. O time Wing estava ao redor da mesa e contavam ao capitão como conseguiram se adiantar tanto.
"Espera, me fala..." Wufei disse com o cenho franzido. "Exatamente qual penhasco vocês escalaram?"
"O grandão!" Duo explicou contente, inclinando-se sobre o ombro do capitão de uma forma que fez o homem reservado estremecer ante a invasão de privacidade.
Heero, sentado, localizou no mapa aberto na mesa. "Bem aqui," mostrou, apontando. "Coordenadas A-11."
"Impossível," o tenente Wolfe, um dos instrutores de sobrevivência, comentou. "Seria uma escalada difícil para uma equipe experiente com equipamentos de primeira linha."
"Foi mesmo," Trowa concordou com desdém. "Seu equipamento militar de escalada quase matou o Maxwell e eu."
Uma expressão de surpresa apareceu no rosto de Wufei. "O que aconteceu?"
Duo abanou a mão com descaso, sem querer que os zelosos soldados cortassem atividades futuras por causa de uma atitude ousada. "Ah, minha corda enroscou numa pedra afiada e o Tro teve que arriscar forçar dele para apoiar o meu peso até o Heero conseguir jogar outra corda de segurança. Não foi nada. Deu tudo certo."
Wufei lançou um olhar questionador para Heero, que ficou no meio termo. "Seria legal termos cordas de melhor qualidade."
"Vou manter isso em mente," o capitão anuiu. "Contanto que tenha em mente que isso é apenas um treinamento. Não vale a pena arriscar vidas, Yuy."
"Valeu a pena ver sua cara quando o Heero te pegou de surpresa," Duo se intrometeu presunçoso.
"Pode ser," o chinês concedeu, vendo o brilho de satisfação nos olhos de Heero. "Aproveitando o gosto da vitória, Yuy."
"Pode apostar... senhor." Heero permitiu um largo sorriso aparecer em seu costumeiramente sério rosto. "Tenho, de longe, o melhor time no Campo Peacecraft. Sei disso há um tempo, mas não sei se meus companheiros sabiam até hoje."
Wufei espelhou seu sorriso. "Ora, eles sabem agora, Yuy. E merecem a vitória; vocês todos merecem. A propósito, Heero, feliz aniversário."
Duo ergueu um olhar espantado para o líder. "É o seu aniversário? E nem falou nada?"
Heero deu de ombros. "Tecnicamente, já que sou órfão, não sei quando é o meu aniversário. Foi uma data escolhida para mim pela agência que cuidou do meu caso."
"Mas é o seu aniversário!" Duo contestou. "Devia ter dito alguma coisa." Endireitou-se, rodeou a mesa até onde estava o líder, consternado. "Nem arrumei um presente."
"Mesmo que você soubesse, não ia poder fazer nada."
"Eu teria pensado em alguma coisa."
"Ganhamos a competição," Heero recordou. "É o suficiente."
Duo ficou bem ao lado dele, ainda consternado. "Não é o suficiente. Você merece mais." Timidamente pousou uma mão no ombro do Heero.
"Eu tenho você," o líder comentou com um brilho divertido nos olhos. "Não tenho?" Envolveu a cintura de Duo, puxando-o para mais perto.
"Tem," respondeu. "A hora que quiser." Seu braço descansou confortavelmente ao redor dos ombros de Heero, e olhou afetuosamente para os cabelos bagunçados escuros.
Wufei grunhiu alto. "O treinamento ainda não acabou," avisou. "Será que podem manter seus hormônios adolescentes sob controle por mais algumas semanas?"
"Semanas?" Duo repetiu. "Acho que não, Chang."
"Como seu guardião, Maxwell, acho que tenho o direito de decidir quando você terá idade suficiente para namorar."
Duo piscou incrédulo, mas recuperou-se rapidamente. "Mas o Tro falou que eu era órfão de novo."
"Isso foi na competição. Na vida real, você vai ter que me aturar." Wufei ergueu as sobrancelhas numa expressão convencida.
"Ah é... pai?"Duo cruzou os braços, teimoso.
"É sim... filho." Wufei imitou os braços cruzados.
Ambos se encararam.
Continua...
