Boot Camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
N/T: Obrigada pelo comentário, Diana! Espero que goste do capítulo! :D
CAMPO DE TREINAMENTO
47: Surpreendido
Depois de Wufei e Duo terminarem de brincar de siso – ahm, fulminando um ao outro com o olhar – a atenção deles se voltou para o aniversário de Heero, e como poderiam tornar a ocasião mais especial.
Foi Wufei quem bolou uma solução aceitável, ou seja, uma que não envolvia Heero e o seu "filho adotado" desaparecendo sozinhos para trasarem como coelhos. (Nota da autora: estraga prazeres).
Sem contar aos rapazes o seu plano, pediu para que eles desenrolassem os sacos de dormir e, no momento em que dormiram, saiu para fazer contato com a base.
"Chang?" a voz no rádio soou sonolenta e confusa.
"Sim, senhor."
"Aconteceu alguma coisa?" a voz soou mais alerta. "Não é... nem seis da manhã."
"Eu sei," o chinês suspirou. "Achei que o senhor gostaria de saber de imediato que ganhou a aposta, senhor."
Houve uma longa pausa... depois um som estrangulado, seguido por uma mistura de risada e comemoração.
Wufei suspirou novamente. Sabia que o seu superior ficaria convencido por ter ganhado, mas a comemoração era um pouco demais. "Terminou?"
"Nem comecei! Quero ouvir tudo! Como eles conseguiram? Quando? Como diabos chegaram na cabana tão rápido?!"
Chang interrompeu quando Merquise parou para tomar ar. "Eles escalaram um penhasco, senhor... um que não deviam sequer terem considerado."
"Nossa, adoro esses garotos, Chang! Leva eles pra Academia agora mesmo!" respondeu animado.
"É a minha intenção." O oficial jovem se encostou à parede da cabana passando uma mão pelo cabelo. "Mas antes disso, gostaria de pedir por transporte. Pode enviar um veículo grande o suficiente para cinco mais o motorista?"
"Considere feito!"
"Também gostaria de pedir permissão para levar os rapazes para almoçar, senhor," Wufei acrescentou. "Eles merecem um agrado pela vitória, não acha?"
"Com certeza." Uma breve risada. "Mas, por mais que eu goste deles, Chang, eles não estão convidados para o nosso jantar a dois."
Wufei agradeceu o fato de o transmissor ser apenas de áudio, assim o outro homem não veria seu rosto vermelho. "Ah... claro." Limpou a garganta timidamente. "A aposta."
"Não está pensando em amarelar...?"
O chinês estancou. "Sou homem de honra!" falou com firmeza. "Eu nunca jogaria a toalha para uma aposta!"
Mais uma vez, uma risada saiu do transmissor. "É claro que não. Me perdoe por sugerir tal coisa."
"Acredito que seja compreensível, devido a minha hesitação," Wufei admitiu, aplacado pelo pedido de desculpas.
"Juro pela minha honra, Chang, serei um perfeito cavalheiro. E se você decidir limitar esse jantar a apenas uma ocasião e nada mais, vou respeitar. Mas, primeiro, você precisa me permitir a chance de te impressionar com minhas brincadeiras, meu comportamento elegante e meu excelente gosto para companhia, tudo bem?"
Chang abriu um suave sorriso. "Tudo bem, senhor."
"Então, que horas vai trazer meu time preferido para cá?"
"No meio da tarde, no máximo. Oh, e, Major? Pode pedir para o motorista trazer quatro uniformes da Academia? Gostaria de tirar os meninos da roupa de prisão para o passeio."
"Boa ideia. Não quer atrair o tipo errado de atenção, né?"
"Exato."
E foi assim que, naquela manhã, os quatro integrantes do time Wing se encontraram uniformizados de estudantes da ASMS e sentados no jipe.
"Por que estamos vestidos assim?" Duo perguntou, puxando a gola apertada e examinando as vestimentas estanhas.
"É uma surpresa," Wufei falou misterioso e olhou para os quatro no banco de trás. "Confie em mim, Maxwell, você vai gostar."
Duo ainda parecia desconfiado. "Como se eu nunca tivesse escutado isso antes." Heero se inclinou para sussurrar algo na orelha dele, e o rapaz de trança gargalhou. "Agora sim, disso eu ia gostar."
"Yuy..." a voz de Chang carregava um claro aviso.
"Se acha que preciso da sua permissão para namorar o Maxwel..."
"Preciso te lembrar que eu sou o guardião dele?" Wufei recordou. "Sem mencionar que sou faixa preta em taikwondo, aikido, kenpo e..."
"Já entendi," Heero deu de ombros, olhando pela janela com desinteresse. "Mas isso não vai me parar," comentou baixo.
Duo sorriu de orelha a orelha, com uma expressão desafiadora para Wufei e se aproximando de Heero, gostando da proximidade oferecida pelo apertado banco do jipe. "Ei, Yuy," sussurrou, seus lábios quase encostando na orelha do líder. "Eu também não vou te parar."
Heero virou a cabeça para responder, mas acabou roçando os lábios nos de Duo e decidiu tirar vantagem da posição roubando um longo beijo.
"Tá decidido," Duo ofegou quando se separaram. "Além de não te parar... vou te ajudar."
"Estou contando com isso," Heero sorriu, endireitando-se no assento e simplesmente aproveitando a sensação inebriante de uma vitória merecida.
Wufei graciosamente fingiu não ver o momento íntimo pelo retrovisor, preferindo estudar a paisagem no caminho irregular.
Algum tempo depois, o jipe estacionou em um exótico restaurante, e os quatro recrutas trocaram sorrisos.
"Comida de verdade?" Duo perguntou, olhos cintilando.
"Olha só quem fala, o cara que comeu biscoito para cachorro," Trowa comentou risonho.
"Achei que seria bom variar da comida do campo," o capitão informou.
Quando saíram do jipe, Duo jogou um braço ao redor de Wufei num abraço brincalhão. "Você é ocara!"
Wufei se contorceu com a invasão do seu espaço. "Maxwell..."
"Ei, achei que ele ficasse só em segundo lugar," Heero lembrou seu companheiro.
Duo libertou o oficial indignado. "Aw, Ro, depende do que você está falando. Sabe que é sempre o primeiro pra mim," abriu um sorriso malicioso, "01."
Heero sorriu em resposta, gostando do quão perto Duo andava ao seu lado com seus ombros quase se tocando. Quatre e Trowa estavam igualmente próximos ao entrarem no restaurante.
O pequeno local parecia ter saído de uma revista de decoração – do jukebox antigo num canto às toalhas de mesa xadrez. Havia uma televisão velha num canto atrás do balcão exibindo um canal de notícias e uma garçonete encostada confortavelmente num cotovelo lendo jornais, enquanto outros clientes fruíam de seus pedidos. Poucos clientes estavam presentes, menos da metade da capacidade, algumas famílias almoçando e um grupo de adolescentes jogando sinuca numa mesa desgastada em uma área separada. Claramente, aquele era um ponto de encontro – provavelmente o único lugar para os jovens irem naquela pequena cidade na montanha. E, apesar da idade óbvia da construção, era limpo, claro e arejado, com um delicioso cheiro de carne e pão caseiro.
A garçonete se desencostou do balcão ao ver os recém-chegados e se animou quando reparou nos uniformes. "Olá, rapazes!" Cumprimentou, mirando as barras de capitão de Wufei. "Mesa para cinco?"
"Sim, obrigado."
Sentaram-se em uma mesa sob uma grande janela, e puderam olhar para os arredores interioranos.
"Que legal," Quatre falou bem humorado. Não tinha percebido o quanto sentia falta de coisas simples como ir tomar um sorvete numa sorveteria local. Sentia como se já fosse detento a uma eternidade.
Duo olhou para a mesa de sinuca como um cachorro olha para um prato de comida, perguntando-se se os adolescentes saíram logo para ele poder desafiar os companheiros de time num jogo. Uma das garotas do grupo o encarou de volta e sorriu sedutora.
"Nem pense nisso, Maxwell," Wufei murmurou discreto, enquanto a garçonete distribuía os menus.
"Quê?" O jovem de trança se virou para o oficial.
"Não quero que você se misture com os locais." Wufei clarificou. Notou o rapaz ao lado da garota que sorrira para Duo, e a expressão nada amigável que ele fizera para o recruta.
"Não quero me misturar," respondeu, recostando na cadeira. "Eu queria que eles fossem embora para eu poder te humilhar num jogo de sinuca... senhor." O sarcasmo usado na última palavra não passou despercebido.
"Olha como fala ou vou fazer você correr na pista quando voltarmos," o capitão admoestou, mas sua expressão se suavizou. "Além do mais, você não pode me humilhar em nada – filhote."
Os olhos índigo se semicerraram, e os outros rapazes riram. "Oh, Chang, você está pedindo!"
"Ora, se aquela molecada for embora antes de nós, será um prazer te provar." Wufei olhou para os adolescentes ao redor da mesa de sinuca, percebendo os olhares de flerte que várias das garotas mandavam para os rapazes de uniforme. Mas que droga. Esse deve ser um ponto de encontro... em um sábado à tarde, quando não tem mais nada para se fazer por aqui.
Apesar da preocupação, pediram as refeições sem incidentes. Os quatro do time Wing discutiram a missão bem sucedida e especularam a ordem na qual os outros times chegariam.
"Acho que Chase vai ficar em segundo," Heero previu. "Apesar de serem um bando de babacas, eles se saem bem nas provas."
"Mas o time do Jase é tão bom quanto," Duo protestou. "Ben está fazendo um ótimo trabalho desde que virou líder."
"Na verdade," Wufei interviu, "os dois times estão indo bem o suficiente para merecerem um convite da Academia."
Duo ergueu o rosto de repente. "Quer dizer que mais de um time pode ser convocado?"
"Com certeza," o oficial afirmou. "Apenas o time que ficar em primeiro terá matrícula garantida, mas qualquer indivíduo ou time com desempenho satisfatório pode receber a oferta de uma vaga. E, a meu ver, cerca de metade dos recrutas no campo mostraram inteligência e disciplina suficientes." Deu de ombros. "Não significa que eles aguentariam o primeiro semestre... mas têm potencial." Franziu o cenho. "E, para ser sincero com vocês, existe conversa de eclodir uma guerra entre as colônias e a Terra. Precisamos de recrutas competentes em treinamento o quanto antes e em quantidade. Quero os melhores e mais espertos lá dentro antes de pensarem em aceitar qualquer um."
"Guerra?" Heero perguntou, a expressão mais sombria que de costume. "Sério, Fei?"
"Receio que seja inevitável," o oficial respondeu, tomando distraído um gole de sua água. "É apenas uma questão de tempo."
"Valeu por estragar nossa comemoração," Duo murmurou, rabiscando na condensação de água por fora de seu copo.
Uma expressão de culpa apareceu no rosto de Wufei. "Droga, Heero. Ele está certo. Era para estarmos celebrando o seu aniversário, e lá vim eu com más notícias."
Duo se aproximou de Heero. "Posso te distrair, Yuy," sussurrou, descendo a mão para descansar na coxa do seu interesse romântico.
"Maxwell!" Chang repreendeu. "Mãos onde posso ver!"
"Nossa, Wuffers, você só sabe estragar o momento," o jovem de L2 reclamou, colocando ambas as mãos sobre a mesa.
"Não me chame de Wuffers ou você vai mesmo correr na pista quando voltarmos," o chinês avisou.
"Tá bom... pai."
"E flexões."
"Chato."
"Engraçadinho." No olhar de Wufei faltava veneno, pois ele estava aliviado por Duo ter desviado o assunto da guerra. E, pouco depois, os pratos chegaram, ocupando-os com hambúrguer frito na hora e batatas fritas.
Comeram em quase silêncio, aproveitando cada mordida, e completaram a refeição com sundaes cobertos com calda quente, um decorado com uma vela colocada pela garçonete após Wufei mencionar ser o aniversário de um dos rapazes na mesa.
Quando o japonês assoprou a vela, seus olhos cravaram em Duo, que lhe devolveu um sorriso conspiratório.
"Nem posso imaginar o que o Yuy desejou," Trowa murmurou sarcástico no pé do ouvido de Quatre.
O loiro riu sem se conter, recostando-se confortavelmente no ex-acrobata.
Wufei suspirou, desviando o olhar de forma deliberada. Ele não queria saber das intimidades entre os recrutas.
"Aw, acho que bebi muito refrigerante," Duo comentou. "Tem banheiro aqui?"
Heero apontou para um sinal no outro lado do restaurante com uma flecha para um corredor.
"Capitão?" o rapaz de trança pediu permissão para Chang.
"Pode ir," Wufei falou, abanando uma mão com desdém. "Você não precisa pedir permissão para usar o banheiro."
"Na verdade," Heero declarou, "ainda somos detentos, Fei. Ele precisa de permissão."
O chinês fez uma leve careta. "Você está certo, Yuy. Mas quero que saibam que não vai demorar para vocês serem livres, com uma ficha limpa e um novo começo."
Quatro pares de olhos se arregalaram, e Duo sorriu abertamente. "É como eu sempre digo, Chang. Você é o cara." Ele piscou para Heero, assegurando-o que ele quis mesmo dizer o segundo melhor cara. "Já volto." Levantou-se e foi até os banheiros, desaparecendo no corredor.
Wufei suspirou, um sorriso discreto em seus lábios. Uma curiosa leveza de espírito surgida do pensamento de os quatro recrutas saírem merecidamente da supervisão do sistema juvenil a caminho da Academia, onde suas habilidades e inteligência seriam apreciadas e cultivadas.
Heero conseguia ler a expressão do amigo desde que eram crianças, e seu sorriso espelhava o do chinês. Embora sua iniciativa inicial no campo fosse subir até o topo, agora percebia o quão importante era o time todo estar com ele no momento de sucesso. Além da sensação boa de não estar mais sozinho... sem mencionar no fato de ter encontrado um parceiro que queria manter ao seu lado no futuro.
Quatre praticamente reluzia, acomodando-se perto de Trowa sem ser óbvio. Podia sentir o bem estar e o otimismo radiando de seus companheiros e do benfeitor e, depois de tudo pelo que passaram, era sensacional.
Alguns momentos depois, Duo saiu do banheiro e encontrou uma garota no corredor o esperando.
"Oi," ela falou com um sorriso tímido.
"Hum, oi." Duo olhou por cima do ombro dela e viu Heero o observando curioso.
"Você não é daqui, né?"
"Não sou, não."
A garota analisou o uniforme, colocando um dedo na insígnia do lado esquerdo do peito. "O que significa SMS?"
"Subdivisão de Mobile Suits."
"Você é um soldado?" ela perguntou descrente.
"Eu, huh, vou estudar na Academia no próximo semestre."
"Oh, então você é um... cadete?"
"É, acho que sim," Duo respondeu, sem conter o sorriso quando considerou. Achava que, talvez, pudesse se acostumar a ser chamado assim. Soava elegante.
A garota olhou para a mesa na qual três rapazes e Wufei estavam sentados. "Eles também são cadetes?"
"Três deles sim. O cara com rabo de cavalo é o capitão Chang. Ele é oficial SMS."
"E isso faz dele, o quê? Seu chefe?"
"Tipo isso." Duo riu consigo mesmo. "Ele também é meu guardião."
"Guardião? Ele não parece muito mais velho do que vocês."
"Acho que ele tem uns vinte e poucos," deu de ombros.
"Quantos anos você tem?"
"Dezessete."
A expressão da garota se iluminou. "Eu tenho dezesseis." Então ela passou a flertar. "Quer jogar sinuca comigo e com os meus amigos?"
"Não posso," Duo recusou com o máximo de pesar que conseguiu fingir, observando discretamente o grupo ao redor da mesa de bilhar. Alguns dos garotos o observavam de volta, nada amigáveis. "É aniversário do meu amigo e estamos comemorando."
Ela se voltou para a mesa. "Qual?"
"O moreno de cabelo bagunçado e lindos olhos azuis," Duo descreveu um pouco sonhador.
"Oh." Ela se voltou para o rapaz de cabelos compridos desconfiada. "A gente podia se encontrar qualquer hora. Quer o meu número?"
"Eu... ahm. Estou compromissado," Duo se desculpou.
"Tem uma namorada te esperando em casa?"
"Tipo isso."
"E o Lindos Olhos Azuis ali? Tem namorada?"
"Ah... ele não é solteiro também," Duo se apressou em esclarecer. "Os outros também não são."
"Oh." Dessa vez, notava-se a decepção nela. "Acho que todos os soldados gatos já estão fora do mercado. Que pena." Ela deliberadamente passou o dedo pela estampa da SMS outra vez.
"Kara!" Um dos adolescentes se aproximou ostentando uma expressão irritada.
Ela lançou um olhar de desdém sobre o ombro, deixando os dedos deslizarem sugestivamente pela camisa de Duo.
"Presta atenção, ô quebra-nozes," o adolescente rosnou. "Deixa a minha namorada em paz."
O recruta de trança levantou as mãos e deu um passo para trás. "Opa. Você entendeu errado, parceiro. Eu não comecei nada. Ela veio falar comigo."
"Não tô nem aí," continuou a rosnar o adolescente, apertando com mais força o taco de sinuca. "Kara é a minha namorada e quero que você saia de perto dela."
"Considere feito," Duo deu de ombros. "Se importa de eu voltar para a mesa com os meus amigos?" Deu um passo para rodear os dois, mas o adolescente ciumento bloqueou sua passagem. Os olhos índigo faiscaram. "Olha... seja lá quem você seja, não quero problemas."
Na verdade, Duo estava seriamente preocupado que o garoto local arrumasse uma briga que poderia jogá-lo na prisão de novo. E ele trabalhara demais para deixar sua chance de ir para a Academia escapar pelos seus dedos por causa de uma garota qualquer.
"Você arrumou problema quando começou a dar em cima da minha namorada," o adolescente ameaçou.
"Puta merda," Duo resmungou. Se estivesse em L2, já teria quebrado uma cadeira na cabeça daquele valentão. Mas não estava em L2 e praticamente sentia o olhar penetrante de Chang. "Não quero a sua maldita namorada. Eu nem gosto de garotas!"
Caralho. Que coisa mais idiota para se falar no meio de um bando de caipiras ignorantes num restaurante de interior! Maxwell, seu imbecil!
O garoto riu. "Ha! O soldadinho é bicha, é?"
Duo quase se estapeou. "Escuta aqui, seu escroto, eu não estava dando em cima da sua namorada. Eu não quero problemas. E não estou nem aí para a sua opinião sobre a minha orientação sexual. Sacou? Sai da minha frente antes que você se machuque!"
"Algum problema, Duo?" uma voz calma e grave soou próxima.
O rapaz de trança viu Heero ao lado do adolescente. "Não é nada, Ro. Esse trouxa tirou a conclusão errada e não é inteligente o suficiente para saber quando se afastar."
"Agora seria uma boa hora," o líder aconselhou com um pequeno sorriso ameaçador.
O adolescente, de ombros largos, se virou para ver Heero, e não se impressionou. Na verdade, ele era uns doze centímetros mais alto do que os dois "cadetes", e seu tamanho o fazia pensar ter vantagem. "Ah é?" zombou. "E se eu não me afastar?"
"Você vai se machucar," Heero constatou.
Duo percebeu que o adolescente da cidade se aproximava, e quase grunhiu frustrado. Por que agora? O treinamento está quase acabando... o time Wing está no topo do mundo. Agora não é a hora de confusão.
A escolha foi tirada dele quando um taco de bilhar veio em sua direção com velocidade.
O rapaz de trança abaixou e o taco se espatifou na parede, caindo das mãos do atacante. Quando Heero pegou no ombro do namorado de Kara, segurando-o para não atacar Duo, o adolescente se virou e atacou o líder.
O japonês calmamente segurou o soco na palma da mão, apertou e girou o punho com força até ouvir um leve som de algo se quebrando; o atacante caiu de joelhos, xingando.
"Oh, legal!" Duo exclamou, ficando ao lado de Heero, enquanto os amigos do valentão se juntavam a briga.
Wufei soltou um palavrão em voz alta, ficando de pé ao mesmo tempo em que Trowa e Quatre para ir ao resgate; mas o oficial não precisava ter se preocupado. Os quatro integrantes do time Wing sabiam muito bem lidar com atacantes sem treinamento e sem disciplina, e demonstraram moderação notável nos golpes.
Formando um círculo, um de costas para o outro, enfrentaram os adolescentes locais, apenas desviando e se defendendo, protegendo um ao outro sem perder a tranquilidade. A incapacidade de penetrar a defesa controlada causou a queda dos marginais locais, eles tropeçavam uns nos outros e se batiam, ao invés das "vítimas".
Cruzando os braços, após ver que seus recrutas tinham tudo sob controle, Wufei foi até garçonete. "Com licença, senhora. Será que pode chamar a polícia e pedir para virem recolher os moleques atacando meus recrutas?" Escolheu as palavras deliberadamente, para lembrá-la de que os quatro detentos não haviam feito nada para provocar o acontecido.
"Oh, claro," ela concordou, correndo para o vid-fone fazer a ligação.
Quando as sirenes se aproximaram, os seis adolescentes estavam machucados, sangrando e exaustos, enquanto os detentos juvenis mal suavam.
O namorado de Kara, num último esforço, deu um soco na direção de Trowa quando este estava distraído, mas com suas habilidades acrobáticas e reflexos, Trowa desviou e o soco caiu direto no nariz da garota rondando perto deles.
"Caralho!" O atacante ficou de joelhos no mesmo instante se desculpando com a garota no chão. Ambas as mãos dela cobriam sua face, sangue escorrendo pelos dedos.
"Kara, desculpa!"
"Filho da puta!" ela rosnou, afastando as mãos dele, e suas amigas correram para acudi-la.
Os outros atacantes pararam, fascinados em ver o líder se humilhar perante a garota.
Wufei aproveitou a oportunidade para chamar os recrutas, mandando-os ficarem próximos da mesa esperando a polícia entrar. Eles seguiram as instruções, embora seus olhos vagueassem para a porta como se considerassem darem no pé. Certos hábitos nunca morrem.
Alguns segundos mais tarde, dois policiais entraram e logo perceberam os adolescentes agrupados ao redor de uma garota ferida e do, agora, ex-namorado.
"O que está acontecendo aqui?" um dos policiais perguntou para a garçonete e para o adulto uniformizado.
"Aw, Verne, é culpa do Harley," a garçonete explicou. "Kara tava de papo com o menino ali de cabelo comprido, o Harley ficou com ciúmes e começou a provocar briga."
O policial se virou para analisar o tal menino de cabelo comprido, prestando atenção especial na longa trança incomum e na expressão desafiadora. Wufei decidiu que deveria assumir.
"Sou capitão Chang da Academia da Subdivisão de Mobile Suits. Esses quatro rapazes são meus recrutas." Ele apontou para Heero e os outros. "Nenhum deles deu um único soco," informou aos agentes de polícia.
O guarda voltou-se para os valentões locais, notando o olho roxo de um, nariz sangrando de outro, e vários cortes e arranhões em todos. "Como ficaram tão acabados?" perguntou acusador.
"São desastrados," o chinês deu de ombros. "Tudo o que meus recrutas fizeram foi desviar. Esses idiotas se bateram."
O policial esperou a garçonete confirmar, e ela assentiu com a cabeça.
"Vamos, Harley," o guarda suspirou, puxando o garoto pelo braço. "Seu pai não vai ficar nada feliz com isso."
"Eu só tava tentando deixar aquela bichona longe da minha namorada!" Harley exclamou enraivecido.
Duo ergueu uma sobrancelha. "Nossa, Harley, você escutou o que acabou de dizer? Você me chamou de bichona na mesma frase em que me acusa de dar em cima da sua namorada. Não percebe o tamanho da burrice?"
"Quieto, Maxwell," Wufei pediu com os olhos semicerrados. Virou-se com uma expressão suave fixada no policial. "Sinto muito pelo incidente," falou. "E, embora meus recrutas tenham agido em autodefesa, certamente vou lhes dar uma aulinha sobre relações públicas."
Um sorriso apareceu no rosto do policial. "Esses são da tropa que está trabalhando com os presos do Campo Peacecraft?"
Wufei tentou não sorrir. "Pode-se dizer que sim." Não viu motivo para informar ao homem que os quatro se tratavam de detentos e não de soldados. Além do mais, faltava pouco para eles graduarem do treinamento e poderiam realmente ser cadetes.
"Terminamos por aqui?" Wufei perguntou.
"Terminamos, acho que nem precisa anotar nomes e a versão deles... já que a Bess concordou com a sua versão e o Harley confirmou." O policial foi até a garota ferida. "Você está bem, Kara?"
Ela assentiu com a cabeça. "Harley é um imbecil," murmurou. "Eu só tava conversando com o gatinho."
Duo sorriu para Heero. "Aw, ela me acha gatinho."
Os olhos azuis se semicerraram, depois suavizaram. "Você é."
"Você também."
Heero riu secamente.
"Não... sério. Quando eu falei para ela que eu sou compromissado, você foi a segunda opção."
"Nossa, estou lisonjeado," respondeu irônico.
Wufei decidiu que era hora de irem embora, antes de algo mais dar errado. "Hum, senhorita... Bess, não é? Me vê a conta, por favor."
Ela abanou a mão com descaso. "É por conta da casa, querido. Você e seus rapazes foram muito educados. Uma pena que o Harley e os outros bobocas estragaram o seu almoço."
Duo ostentou uma expressão contente. "Estragaram? Foi o melhor hambúrguer que já comi!" Virou um sorriso charmoso para a Kara. "Além do mais, uma garota linda deu em cima de mim."
Kara o observou desconfiada. "Como você sabe, já que você é... você sabe...?"
"Não significa que não posso admirar o que é bonito," Duo constatou. E sorriu agradecido. "E fez muito bem pro meu ego."
Ela corou um pouco, ainda segurando o gelo no rosto.
"É, então, chega de papo-furado, Maxwell," Wufei anunciou. "Vamos cair na estrada."
"Tá bom, pai."
Wufei rodou os olhos, empurrando o garoto na frente dele em direção à porta. "Parece até que você atrai confusão."
"Não é de propósito."
O chinês bufou, e subiram no jipe. Mas, por dentro, ele estava reluzindo de orgulho em como os rapazes agiram com controle. Sabia que, de fato, Duo e Quatre eram conhecidos por entrarem em brigas corporais na prisão, e tanto Trowa quanto Heero haviam sido presos por agressão. O fato de que haviam se contido impressionou o chinês. "Yuy."
O líder se virou para ele.
"Estou muito satisfeito com a atitude do seu time," Wufei confessou. "Me mostra o quanto vocês amadureceram dentro do campo de treinamento."
"Quer dizer que tenho permissão pra namorar?" Duo provocou, passando um braço ao redor dos ombros de Heero.
Wufei suspirou pesado. "Vou pensar nisso."
"Aposto que consigo achar alguém que você aprove," Duo falou com o olhar fixo em Heero.
"Humf," o capitão respondeu reservado. "Se esqueceu de quanto tempo já conheço o Yuy."
"Ei!" Heero protestou.
Os raios solares do entardecer trespassavam pela copa das árvores quando o jipe chegava ao portão do Campo Peacecraft e era admitido para entrar.
Duo cochilara no percurso, a cabeça sob o queixo de Heero e boa parte do seu peso recostada no líder, mas acordou quando o veículo parou, e ele despreguiçou-se.
"Já chegamos, Ro?"
"Chegamos sim." Heero o cutucou para que se endireitasse, e esfregou o próprio ombro para voltar a senti-lo. "Você é pesado, Maxwell. Da próxima vez, traga um travesseiro."
"Mas você já é um tão confortável," o jovem de trança provocou.
Saíram do veículo bocejando e se alongando devido à longa viajem, mas pararam ao ver o major Merquise atravessando o complexo até eles. Kushrenada ao seu lado acompanhado de quatro homens de uniforme.
Wufei foi ao encontro deles, e Duo fez uma careta para Heero. "Quem são esses palhaços com o Merquise e o K.?" perguntou. "Não reconheço o uniforme."
Heero estava concentrado, uma expressão sombria. "São policiais de L1," respondeu baixo, inesperadamente tenso.
"L1?" Duo analisou prudente os homens. "Não pode ter nada a ver com a gente. Estamos presos aqui há semanas."
Os rapazes ouviram a voz de Chang aumentar agitada, embora não entendessem as palavras.
"Não gosto de como estão olhando para nós," Duo murmurou. "Acha que é sobre o que houve no restaurante?"
"Não pode ser," Quatre o assegurou. "Viemos direto para cá. Nem os policiais locais poderiam ter chegado aqui antes da gente, muito menos a polícia de outra colônia."
"É sobre o Yuy," Trowa supôs. "São de L1. Só pode ser sobre você, Heero."
A mandíbula de Duo ficou tensa e ele franziu o cenho para o moreno de cabelos bagunçados. "Heero? O que podem querer com você?"
"Vamos descobrir." O líder se firmou enquanto o grupo de homens se aproximava.
Wufei, Merquise e Kushrenada ainda discutiam fervorosos, mas os quatro oficiais de L1 foram direto para os quatro rapazes.
"Heero Yuy?" um deles, pelo jeito o capitão, perguntou.
Heero fez um sinal e cruzou os braços.
"Você está preso," o homem continuou, gesticulando para dois colegas, que se aproximaram do rapaz com algemas.
"Quê?!" Duo se indignou colocando-se na frente do líder. "Como pode prender ele? Já estamos na cadeia!"
"Saia da frente, garoto," o oficial murmurou, colocando uma mão no peito de Duo e o empurrando.
O jovem de trança cambaleou um passo para trás, e se jogou para cima do policial, apenas para ser parado por Quatre e Trowa.
"Duo, calma!" Heero pediu, vendo a expressão mortífera no rosto dos oficiais e soube que eles não hesitariam em prender Duo também se tentasse interferir.
O capitão correu para se colocar entre Duo e os homens de L1. "Acalme-se, Maxwell. Não há nada que possamos fazer," falou com a voz amarga.
"Quê? Por que não?" Duo questionou. "O que está acontecendo?"
O carcereiro Kushrenada se aproximou com um sorriso convencido. "Seu querido líder está sendo preso por assassinato... é o que está acontecendo."
O queixo do recruta de L2 caiu e seus olhos arregalados se viraram para Wufei. Relaxou o corpo apenas para Trowa e Quatre o soltarem.
"O guardião de Heero morreu essa manhã," Wufei falou baixo, frustrado.
"O gu-? O filho da puta que estuprou ele?" Duo ficou ainda mais indignado. "Que bom! Ele merecia morrer!"
Os policiais algemaram Heero e o cercaram, observando com cautela os outros três jovens enraivecidos.
Wufei virou-se para Duo, seus olhos negros demonstrando sua raiva, embora sua voz fosse calma. "Merecendo ou não, Duo, ainda abre possibilidade de outro julgamento para Heero, com uma acusação bem pior."
O queixo de Duo caiu mais uma vez. "Mas isso não é justo! Não é certo! Heero não é um assassino!" Seu rosto ficou lívido e apontou para Kushrenada. "Você fez isso, seu desgraçado! Você arranjou tudo isso, eu sei que é coisa sua!"
Kushrenada manteve seu sorriso convencido. "Desculpa, Maxwell, mas seu amigo colorido fez isso sozinho. E já que ele tem dezoito anos agora, vai ser julgado como adulto e receber uma sentença de adulto. Melhor se despedir."
Duo fez menção de avançar nele, mas Quatre e Trowa o seguraram. "Não," o loiro avisou. "Duo, você vai parar na prisão de L2 se colocar a mão nesse nojento!"
Kushrenada provocou. "Vem, Maxwell. Me dê o seu melhor soco. Você está morrendo de vontade." É, me dê uma desculpa... qualquer uma serve.
O jovem de trança virou o rosto, xingando, e encontrou o olhar preocupado de Heero.
"Baka," sussurrou o japonês. "Não se preocupe. Vai dar tudo certo."
"Como vai dar certo?!" Duo questionou. "Como vai dar certo, Yuy? Aquele monstro abusou de você por sete anos, ele merecia morrer! Você não deveria ser punido!"
"E não vai," Wufei afirmou. "Você tem que confiar em mim, Duo. Vamos lutar. Eu vou ajudar o Heero a lutar. Tem gente que sabia do abuso, podemos provar autodefesa."
"Quando?" Duo duvidou. "Depois de jogarem ele na penitenciária para que ele seja espancado e... estuprado?" Sua voz falhou na última palavra e ele olhou para o chão, pressionando o punho fechado na testa. "Isso é ridículo!"
"Ele não vai para a penitenciária," Wufei prometeu. Abaixou a voz, não querendo que Kushrenada escutasse. "Não vou deixar que aconteça, Duo. Confie em mim."
Duo ergueu o rosto franzido. "Como você...?"
Wufei balançou a cabeça enviando uma óbvia mensagem de aviso. "Mais tarde. Conversamos mais tarde."
"Já terminou, Chang?" um dos policiais perguntou. "Temos de pegar um ônibus espacial."
"E vão esperar mais um pouco," Merquise retorquiu com frieza. "Como já falei, não temos autorização para extraditar até termos ordem direta do meu superior. E só podem falar com ela pela manhã."
"O mandato é toda a autoridade que precisamos," o policial falou.
"Eu reconheço que o mandato é válido, mas ainda não posso autorizar que levem Yuy até ter confirmação da coronel Une. É melhor os senhores se conformarem que terão de passar a noite aqui."
O diretor pareceu irritado. "Merquise, não tenho lugar para colocar esses homens! Deixa eles pegarem esse assassino asqueroso e irem embora."
"Você tem quartos inteiros no alojamento vazios dos vários detentos que falharam o programa," o major respondeu sem pestanejar.
"E onde sugere que eu coloque o Yuy?" o carcereiro exigiu saber. "Capitão Chang não tolera que eu use a solitária."
"Não," Wufei confirmou. "Não tolero. Não depois de ver as condições desprezíveis da sua solitária." Apontou para o prédio central. "Se bem me lembro, você tem várias celas adequadas bem ali. Use uma delas." Fixou um olhar frio no diretor. "E eu vou providenciar os guardas, Kushrenada. Eu sei que nenhum dos meus homens vai espancar e estuprar um detento."
Os quatro policiais de L1 trocaram olhares confusos e, por fim, se viraram para Merquise aguardando instruções.
"Senhores, por favor, venham comigo e com o capitão Chang, vamos mostrá-los a área de detenção."
Soltando-se dos companheiros, Duo foi até Heero, olhos índigo úmidos. "Isso não é certo, Ro."
"Vou ficar bem," Heero o assegurou. "Mas você tem que ficar longe de problemas. Me prometa."
Duo balançou a cabeça. "Não sei se posso."
"Você tem que ficar," Heero reafirmou. "Ouviu o Chang e o Merquise. Não vai acontecer nada comigo."
"Queria poder acreditar nisso." Duo sentiu lágrimas arderem os olhos e piscou com força para detê-las. "Não é justo."
"É, eu sei," o líder concordou com calma. "Mas temos de confiar que Wufei sabe o que é melhor."
"Caramba, Heero," Duo murmurou entrecortado. Deu um passo a frente, mas um dos guardas bloqueou-o com a mão, e ele parou, olhando para o capitão Chang suplicante.
Wufei balançou a cabeça em negativa, colocando uma mão reconfortante no ombro do jovem de trança. "Sinto muito, Maxwell. Você tem que deixar isso acontecer."
Heero falou com Wufei. "Chang, vou esperar por aquele advogado top de linha que você mencionou."
"Você o terá," o chinês prometeu.
"E mantenha o meu time longe de confusão," o líder pediu, olhando de relance para os outros.
"Só posso tentar," Wufei respondeu seco.
"Se já terminou, Chang," Kushrenada interrompeu, a voz cheia de desprezo, "eles precisam trancafiar o Yuy." Seus olhos fulvos cintilaram com triunfo. "E sugiro que mantenha os outros três numa coleira ou vão se juntar a ele."
Os oficiais de L1, guiando Yuy, seguiram Merquise até o centro de detenção. Wufei gesticulou para os outros três do time Wing. "Volte para o alojamento. Agora. E fiquem lá até que eu apareça."
Quatre fez um gesto de concordância, passando o braço pela cintura de Duo com firmeza para evitar que o amigo aflito fosse atrás de Heero. "Vamos, Duo. Vai ficar tudo bem." Trowa ficou do outro lado e, juntos, ele e Quatre conduziram o companheiro.
Capitão Chang encarou Kushrenada. "Isso ainda não acabou," profetizou.
"Oh, acabou sim, capitão. Você perdeu. Eu venci. Fim de papo."
"Veremos." Satisfeito em ver os companheiros de Heero voltando mesmo para o alojamento, Wufei seguiu o major, os oficiais e o prisioneiro.
Continua...
