Boot Camp

Por: Snowdragonct

Tradução: Aryam


CAMPO DE TREINAMENTO

48: Controle de Danos

No instante em que a porta do quarto se fechou atrás dos rapazes do time Wing, Duo começou a jogar coisas. Iniciou com os travesseiros e cobertas das camas, passando para botas, baús e outros objetos soltos. Enquanto expressava sua raiva e frustração de forma violenta, mantinha uma onda constante de xingamentos, sua voz gradualmente ficando rouca.

Os dois colegas de time apenas assistiram em silêncio até a fúria se desgastar na explosão, e ele se acalmar.

"Inacreditável!" por fim, grunhiu, caindo de costas na cama de Heero, braços abertos, e ofegante devido ao esforço.

Quatre sentou-se ao lado dele na cama com cuidado. "Não desista, Duo. Sei que a coisa parece feia-"

"Parece feia?" Duo ecoou erguendo a cabeça uma fração para fixar um olhar feroz no loiro. "Quat, é feia! Não tem como ficar pior!"

"Não é não," Quatre insistiu, colocando, cauteloso, uma mão no ombro de Duo. "Heero está a salvo por ora. Chang não vai deixar nada acontecer com ele e vai conseguir um bom advogado. Você ouviu-"

"Foda-se, Quatre! Já ouvi toda essa merda antes!" Duo tinha o semblante carregado. "Toda vez que fui preso, ouvi a mesma baboseira sobre ter um julgamento justo e uma sentença justa." Olhou para cima, deitado. "Não existe isso de justo quando se vem das ruas, Quat. Você não entende. Você cresceu num berço de ouro. O sistema nunca te passou a perna!"

"Não, quem me passou a perna foi o meu pai!" Quatre se irritou. "Ele descobriu que eu era gay e quando fui preso de novo, se recusou a me arranjar um advogado. Então tive um advogado público e a escolha entre três anos na prisão ou alguns meses no campo de treinamento."

Duo se apaziguou com o estouro do amigo e lhe ofereceu uma expressão de dolorosa. "Heero não vai se safar tão fácil, Quat. Sabe qual a sentença para assassinato?"

"De vinte cinco anos a perpétua," Trowa respondeu direto, recostando-se na parede e considerando seus colegas com uma expressão sombria.

Duo grunhiu de novo, colocando ambas as mãos sobre o rosto e murmurado um palavrão.

Quatre suspirou, balançando a cabeça para repreender o ex-acrobata. "É só no pior caso, Duo. Primeiro, ele tem que ser condenado. E você ouviu o Wufei. Ele vai ajudar a defender o Heero."

"O guardião dele fez mesmo tudo aquilo que você falou?" Trowa perguntou baixinho.

"É," o rapaz de trança respondeu com a voz fraca, deixando os braços caírem para os lados outra vez. "Na minha primeira noite aqui depois da solitária, tive um pesadelo. Heero me acordou e conversamos por um tempo." As linhas de sua face se suavizaram em uma expressão nostálgica enquanto se lembrava da gentileza do outro rapaz. "Ele me falou que sabia pelo que eu estava passando porque tinha passado pelo mesmo."

"Então ele foi acusado de agressão contra o guardião dele," Trowa resumiu. "E agora o cara morreu?"

Quatre franzia o cenho profundamente. "Que coincidência ele ter morrido assim que Heero fez dezoito..."

"Não é coincidência," Duo constatou apoiando-se nos cotovelos para poder ver os outros dois. "Kushrenada fez isso. E juro que vou descobrir como nem que eu tenha que encher ele de porrada!"

"Você só conseguiria se meter em encrenca," Quatre falou com gentileza, mas seu cenho franzia ainda mais. "Temos de descobrir uma forma legal de provar o envolvimento dele."

Os olhos índigo se voltaram desconfiados para o loiro. "Não vai me dizer que estou tirando conclusões precipitadas?"

"Nem a pau!" Trowa cortou com frieza. "Sabemos bem do que o Kushrenada é capaz." Seus olhos verdes se fixaram no rapaz de trança. "Ele quer te destruir, Maxwell. E se ele tiver que matar para conseguir isso... e eu acredito que ele fez exatamente isso."

"Mas como podemos provar?" o jovem de trança reclamou.

"Temos que armar para ele," Quatre respondeu calmo, a voz firme. "Como ele armou para você... e para o Heero."

Trowa assentiu com a cabeça. "Tem que ter um jeito de conseguir com que ele confesse. Tem de ter alguma coisa que ele queira."

"Tem sim," Duo concluiu. "Eu."


Major Merquise e Wufei seguiram os quatro policiais de L1 para o centro de detenção, determinados a se certificarem de que Heero não fosse mal tratado de nenhuma forma. Felizmente, esses não eram funcionários de Kushrenada, mas de uma entidade separada e, portanto, Wufei sabia que o diretor não conseguiria usá-los para chegar até Heero. O chinês fez uma nota mental para checar os antecedentes do carcereiro para confirmar se ele não tinha conexões com o sistema legal de L1.

Heero entrou na cela e se virou para os policiais tirarem suas algemas. "Wufei... precisa ficar de olho no Maxwell. Ele não vai aceitar isso de braços cruzados. Nenhum deles vai."

"Eu sei."

"E trate de protegê-los do Kushrenada."

Wufei suspirou e assentiu com um meneio de cabeça. "Vou fazer o meu melhor."

"Enquanto isso," major Merquise interrompeu, "Tenho uns papéis para você assinar, Yuy."

Heero se voltou perplexo para ele, e olhou para os formulários. "Formulários de alistamento?"

Merquise confirmou. "Confie em mim. Você se alistou logo depois da meia noite... assim que você e o seu time venceram a competição de capturar a bandeira. Isso é só papelada para confirmar."

Heero olhou para o amigo, que o encorajou. "Aceite, Yuy."

O rapaz assinou os papéis e os devolveu para o major. "Não entendo qual o sentido disso," ele notou. "Não vou poder estudar na Academia se for mandado para a cadeia."

"O sentido é que você faz parte da Subdivisão de Mobile Suits," o major respondeu. "Já enviei um pedido para o seu caso ser julgado na corte militar em vez da de L1. O seu advogado militar vai imediatamente pedir para a corte desconsiderar as acusações, baseadas nas circunstâncias atenuantes e por você já ter pagado sua pena por agressão na corte juvenil. Se tudo falhar e não conseguirmos o tribunal militar, ele vai pedir moção para que você seja enviado para a corte juvenil outra vez, já que era menor de idade quando ocorreram os crimes. De qualquer forma, vamos te tirar dessa."

Heero ergueu uma sobrancelha. "Você pensou em todos os detalhes, né?"

Merquise sorriu. "Pode apostar, Yuy," Os claros olhos azuis cintilaram com determinação. "Capitão Chang passou meses te elogiando." Seu olhar se virou, cálido, para o chinês. "E por ser tão raro o Chang oferecer elogios, eu lhes dou muito valor." Seu olhar intenso se fixou no jovem novamente. "Quero você e seu time na minha Academia e vou fazer o que estiver em meu poder para levá-lo... todos vocês."

"Obrigado," Heero respondeu com sinceridade.

"Sugiro que descanse," o major falou. "Capitão Chang e eu temos detalhes a discutir." Olhou de soslaio para os policiais de L1, próximos à porta do prédio. "Em particular."

Os dois militares da SMS se foram e Heero se sentou no canto da cama, averiguando a cela com um suspiro pesado. Não havia janelas, já que estava no meio do prédio, e a única porta tinha uma abertura por onde um guarda poderia espiar parar checar o detento. Além disso, havia uma cama, uma pia e uma privada. Mas diferente da cela de cimento na qual Duo fora aprisionado, essa tinha paredes normais, chão de linóleo, descarga para a privada e a pia funcionava. Em comparação, essa era quase uma suíte de luxo.

Decidindo relaxar, Heero deitou-se na cama, sabendo que Wufei se certificaria de que lhe enviassem o jantar e que ninguém colocasse as mãos nele. Na verdade, o líder estava menos preocupado com o próprio bem estar e mais com o que seu colega-quase-namorado faria em desespero. "Merda, Duo... confia no Fei, por favor," murmurou, fechando os olhos e tentando pensar em outras coisas, como a sensação boa da pele do rapaz de trança sob seus dedos, e o gosto doce de chocolate com pêssego e álcool do beijo naquela noite em frente à fogueira.


Duo não teve nenhum problema em escapar de seus astutos colegas de time. Dizendo que precisava de um banho depois de caminhar pela floresta por dois dias, atraiu-os para fora do quarto. E, uma vez nos chuveiros, demorou-se, usando a desculpa de precisar passar condicionador no cabelo, enquanto os outros dois iam até seus armários. Quando saíram de sua vista, trançou o cabelo com pressa, puxou o uniforme enrolado na toalha, vestindo-o enquanto deixava a água cair e passou pela saída dos fundos após abrir o cadeado com uns grampos de cabelo.

Ele estava grato pelos outros detentos ainda estarem na floresta para capturarem a bandeira, significando que os postos de guarda tinham apenas o mínimo de soldados e pouco se preocupavam com um recruta andando até o prédio administrativo.

A secretária de Kushrenada não trabalhava nos fins de semana, então Duo cruzou a sala em silêncio e abriu a porta do escritório sem bater. Fechou a porta atrás de si e, deliberadamente, trancou-a para o diretor notá-lo.

Kushrenada ergueu o rosto sem surpresa, sorrindo seco. "Veio me matar, Maxwell?" Desceu a mão para uma arma sobre a mesa. "Dê mais um passo e será justificado eu usar essa coisa."

Duo balançou a cabeça em negativa, encostando-se à porta. "Não vim aqui pra isso, K. Não é como se eu tivesse armas."

"E a sua faca do kit de sobrevivência?" Os olhos do diretor se semicerraram. "Pelo que me lembre, facas são letais o suficiente para os seus propósitos."

"Não estou aqui para debater isso de novo," Duo falou brusco. "Estou aqui para dizer que você ganhou." Deu de ombros, virando a cabeça para o lado e olhando, sob uma mexa úmida de cabelo que deixara cuidadosamente solta, para o homem. "Me fala o seu preço, K. Te dou o que quiser... faço o que me pedir... só deixe o Yuy ir."

Kushrenada riu consigo. "Veio salvar o seu amante, é?"

O rapaz assentiu com a cabeça. "Faço o que for preciso." Aproximou-se, forçando-se a encontrar os olhos fulvos em vez da arma. "Me diga o que fazer." Fez sua voz sair fraca, embargada de emoção. "Por favor."

O diretor se levantou, olhos passeando por Duo dos pés a cabeça procurando por armas. "Acha mesmo que vou acreditar que você está pronto para confessar o assassinado de L2? Só para voltar a trepar com o seu amiguinho?"

"Ele é mais do que isso," Duo insistiu. "Muito mais! Eu amo ele. E faço qualquer coisa para salvá-lo."

"Qualquer coisa?" perguntou curioso. Um novo brilho chegou aos olhos fulvos... predatório. Era o olhar pelo qual Duo esperava. Deu-lhe confiança de que o diretor queria um pouco mais dele do que só a confissão do assassinado do irmão.

Duo rodeou a mesa, mantendo as mãos à mostra para o homem não ser tentando a atirar. "Qualquer coisa. Prometo."

Kushrenada tinha um pequeno sorriso malicioso quando o jovem invadiu seu espaço pessoal, olhos índigo suplicantes, lábios levemente abertos convidativos. "Você me odeia, Maxwell," falou frio. "Por que devo acreditar em você?"

"Não precisa acreditar. Não estou dizendo que você tem de confiar em mim," o rapaz de L2 o assegurou. "Faça o que quiser. Agora. E deixe o Heero ir."

"Desde quando você confia em mim?"

"Desde quando passei a não ter escolha." Boa, Maxwell... isso soara desesperado o suficiente. Se ele mordesse a isca de uma vez... "Vamos, K.," encorajou. "O que você tem a perder?"

O diretor ergueu a mão para o rosto do rapaz, passando os dedos compridos pela mandíbula e estudando-o com desconfiança. "Por que tenho a sensação de que vou ser esfaqueado nas costelas?" perguntou sem baixar a guarda.

Duo ergueu as mãos num gesto de redenção. "Me reviste se quiser." Virou as costas para o homem, rangendo os dentes para não tremer com a proximidade de seu inimigo mortal.

"Vou aceitar sua palavra," respondeu baixo. "Vire-se."

Duo obedeceu, e Kushrenada ergueu o rosto do rapaz pelo queixo e lhe deu um beijo profundo... quase obsceno.

Lutando contra o reflexo de engasgar, Duo permitiu a invasão; jurou que permitiria até mais se conseguisse deixar o diretor numa posição comprometedora o suficiente para conseguir vantagem contra ele.

Treize se afastou minimamente, olhando para os olhos semicerrados queimando com ódio pouco disfarçado. "Ei, Maxwell," sussurrou. "Acha que sou tão burro assim?"

Duo piscou surpreso.

"Você tem dezessete, moleque. Se eu aceitar o que está oferecendo, você pode correr para o Chang gritando estupro presumido a plenos pulmões."

O rápido brilho que se passou nos olhos do rapaz o denunciou, e Kushrenada o empurrou com força, fazendo-o colidir contra a parede. "Dá o fora, Maxwell. Você nunca mais vai transar com o seu amiguinho de novo."

"Não vou contar pro Chang. Juro!" Duo prometeu. "Só faça que libertem o Heero."

"Saia!" o diretor exclamou, erguendo a arma e apontando-a para o detento. "Dá o fora ou juro que atiro e coloco uma faca na sua mão!"

Duo não duvidou por um segundo que o desgraçado faria o que disse. E mesmo que Chang fizesse um escarcéu sobre sua morte, seria tarde demais para ele. "Maldito seja, K. Seu filho da puta obcecado! Sei que você matou o guardião do Yuy... e juro que vou achar um jeito de provar."

"Assassinato não é fácil de provar, Maxwell. Eu bem sei. Agora some da minha vista ou te tiro daqui num saco de lixo."

Duo saiu sem dignidade, sem tirar os olhos da arma apontada para o seu peito. Quando passou pela porta, bateu-a e correu, abrindo de uma vez a porta da sala e disparando pelo complexo, apenas para esbarrar com capitão Chang e major Merquise.

"Aw, merda!" xingou quando quicou do peito largo do major após o impacto, cambaleando para trás e batendo a bunda no chão.

"Será que quero saber a resposta do porquê você estar correndo pelo complexo, Maxwell?" o major questionou, com um brilho vagamente divertido nos olhos azuis como gelo.

"Eu posso responder," Chang se adiantou, olhos negros furiosos. "Você foi ver o Kushrenada, não foi?" Uma rápida imagem do diretor caído morto em seu escritório com uma faca nas costas passou pela cabeça do chinês, mas tão rápido quanto, desapareceu; conhecia Duo bem o suficiente para acreditar que não faria algo tão drástico.

O jovem de L2 assentiu com a cabeça, envergonhado demais para encará-lo. "Achei que... já que... é culpa minha..."

Wufei puxou o rapaz para ficar de pé, deixando-o a milímetros de seu olhar escaldante. "Não é culpa sua, Maxwell."

"Se Kushrenada não me odiasse tanto, nunca se preocuparia em armar para o Heero."

"Você puxa muito a culpa para si mesmo," Wufei afirmou. "Kushrenada é um imbecil amargo e manipulador. Ele odeia a iniciativa Peacecraft desde o início. Ele quer que falhe. Se você não estivesse aqui, ele ainda ia querer que o programa falhasse."

"Se ele não achasse que assassinei o irmão dele, não odiaria tanto os presos juvenis," Duo murmurou.

"De novo, ele interpretar os fatos errado não é sua culpa," Chang insistiu. Fez uma careta de desagrado para o rapaz, que se encolheu. "O que, exatamente, você estava tentando conseguir no escritório dele?"

"E mais importante..." Merquise acrescentou. "O que te fez sair correndo daquele jeito?"

"Eu..." Duo ficou o olhar no chão, corando.

"Não acredito!" Wufei exclamou, entendendo.

Merquise riu. "Tentou seduzir o diretor, Maxwell?"

"M-mais ou menos."

"Seu idiota!" Wufei explodiu, resistindo ao impulso de chacoalhar o garoto até que entrasse bom senso naquela cabeça. "O que te fez pensar que ele estaria interessado?" Ao mesmo tempo, uma vozinha no fundo de sua mente o perguntava como alguém não estaria.

Duo o encarou petulante. "Aquele guarda estava," sua voz estava embargada com amargura e também teimosia.

O chinês balançou a cabeça. "Não é a mesma coisa, Maxwell. E o que achou que conseguiria seduzindo o Kushrenada? Acha que ele barganharia com você por sexo?"

O detento de trança deu de ombros, desviando o rosto do olhar acusador.

O major riu outra vez. "Acho que entendo," cantarolou satisfeito. "Se ele não livrasse Yuy, você teria ele com estupro presumido, é isso?"

"Ele armou para o Heero. "Eu sei que armou," Duo insistiu. "De algum jeito, Kushrenada arranjou a morte do guardião do Heero para acusar ele de assassinato." Os olhos índigo finalmente se encontraram com os negros enraivecidos. "Se ele armou, sabe quem é o culpado. E com a carreira dele na linha, ele sacrificaria qualquer um."

Wufei trocou um olhar cansado e triste com Merquise, então balançou a cabeça, impressionando com a ingenuidade do menino de rua. "Duo, mesmo se Kushrenada quisesse, ele não poderia libertar o Heero agora. As autoridades de L1 têm de conduzir a investigação completa e, até terminar, Heero vai ficar em custódia."

Independente das táticas sujas de Kushrenada, ele não conseguiria soltar o Heero agora nem que a vida dele dependesse disso. "Venha, Maxwell... para o meu escritório. Você, Zechs e eu precisamos conversar."

Naquele momento, Trowa e Quatre correram até eles, ambos ofegantes e com o rosto vermelho.

"Duo Maxwell, se fugir de novo desse jeito, vou cortar o seu cabelo enquanto dorme!" Quatre jurou furioso antes de jogar os braços ao redor do amigo.

"Epa. O cabelo não, Quat!" Duo se sobressaltou, jogando a trança para trás só por precaução. "Desculpa! É que... eu tinha de tentar..."

"Tentar o quê?" Quatre perguntou, soltando-se do abraço.

"Ele se jogou à mercê do Kushrenada," Trowa adivinhou, balançando a cabeça.

"Você quer dizer: se jogou no Kushrenada," Wufei corrigiu, desaprovando.

Trowa balançou a cabeça. "Que burrice, Maxwell. Não pode ganhar contra o K. Você que me ensinou isso. Lembra? Não jogue o jogo dele."

Wufei observou os três, sentindo que havia mais naquela história. "Meninos," falou grave. "Acho que é hora de vocês me deixarem a par da situação."

Duo olhou para Trowa e Quatre, depois para Wufei. "Acho que é sim," concedeu. Mas seu olhar recaiu no major, e ficou reservado. Pendendo a cabeça para o lado, contemplou Wufei. "Podemos conversar a sós?" perguntou tímido.

O chinês entendeu de uma vez. Enquanto os rapazes, Duo em particular, aprenderam a confiar nele, ainda estavam incertos quanto a Merquise. Mas assim que abriu a boca para falar que qualquer coisa a ser dita, poderia ser dita na frente do major, Zechs limpou a garganta.

"Estarei no meu escritório, Chang. Estou esperando a ligação de Une a qualquer momento, e quero estar lá para atender."

"Senhor, eu-"

"Junte-se a mim quando terminar a sua conversa."

"Sim, senhor." Wufei assistiu o seu superior se afastando a passos apressados, e focou um olhar penetrante em Duo. "Você também pode confiar nele, Maxwell. É um ótimo oficial."

"É, bem gato também," Duo concordou com um sorriso malicioso. "Mas não conheço ele tão bem ainda." Olhou fixamente para os olhos negros. "Confio em você, senhor. Só em você. E no meu time," acrescentou.

Trowa pousou uma mão reconfortante no ombro de Duo, enquanto Quatre fez o mesmo no outro ombro. "É hora de contar para o Chang o que o Kushrenada fez. Tudo," o moreno alto de olhos verdes falou.

Duo o observou incerto. "Mas e se-?"

"Tudo," Trowa repetiu. "Se ele escolher tomar providências, que seja. Mas se ajudar o Heero de alguma forma, vale a pena."

Duo olhou para Quatre, que também concordou, e se voltou para o capitão. "Você tem que entender, Chang. É difícil para a gente confiar em alguém do sistema. Mas eu confio, então vou ser franco com você." E procedeu a explicar tudo o que Kushrenada fizera, falara e tentara desde o primeiro dia. Deu quantos detalhes pode: sobre a cerca eletrificada, o tapa, a tentativa de fazer Quatre espiá-los, a suspeita de sabotagem da prova de obstáculos, a escapada dos cães de guarda... e então contou sobre toda a armação com Nanashi e como Kushrenada manipulara Trowa para cortar a corda.

Trowa, enfim, assumiu dali em diante, complementando como ameaçara contar a verdade, apenas para Kushrenada, por sua vez, ameaçar a vida do cachorro uma última vez. E confessou o uso indevido da medicação e como o diretor admitira ser o fornecedor. Chegou até mesmo a contar que se desintoxicara do remédio, deixando de fora a parte da ajuda da médica. Se alguém perguntasse, todos os membros do time Wing jurariam de pés juntos que a gentil doutora fora enganada e achara que Trowa apenas tivera uma gripe forte.

Wufei ouviu os testemunhos das atividades desonestas de Kushrenada, olhos negros arregalados com ódio. Quando terminaram, ele acreditava que o carcereiro era capaz de absolutamente tudo. Na verdade, ele desejou ter pressionado mais o guarda que atacara Duo, talvez o estuprador tivesse confessado que Kushrenada o obrigara a fazer aquilo.

Finalmente, Wufei se virou para Duo. "Maxwell—eu proíbo que você fique sozinho com o Kushrenada de novo!" falou com severidade "Percebe o risco que tomou?"

Duo baixou a cabeça, um pouco envergonhado. "Eu sei que foi idiota. Eu só queria tanto ajudar o Heero."

"Você pode fazer isso ficando longe de problemas até ele voltar," Wufei constatou firme, aproveitando a oportunidade para dar o conselho.

"Eu odeio ver o K. se dar bem fazendo tanta merda!"

"Ele não vai. Mas uma coisa de cada vez. Precisamos ajudar o Heero. Mesmo sabendo que Kushrenada está por trás dessa palhaçada, não podemos parar o processo contra Heero. Só depois que ele for inocentado, podemos nos concentrar em derrubar o Kushrenada."

"Você fala como se tivesse certeza de que ele vai ser inocentado," Duo começou, "mas e se-?"

"Não estamos considerando SE agora," Chang declarou. "Estou confiante que o major Merquise e eu podemos limpar o nome de Heero." Sua determinação era aparente. "E depois disso, quero ver como posso transformar a vida do Kushrenada um inferno por tentar sabotar a Iniciativa Peacecraft e por te perseguir, Duo, e o seu time. Quero dar a ele o gostinho da verdadeira justiça." Analisou os três rapazes. "Quando chegar a hora, vão me ajudar?"

Duo sorriu malignamente. "Faço o que você quiser se for para acabar com o Kushrenada."

"Todos nós!" Trowa o assegurou. "Estou disposto a usar um microfone oculto e fazer ele falar sobre a distribuição de droga, se puder."

"Bom, já que a ideia do estupro presumido foi descartada logo de cara," Duo considerou, "podemos pegar ele com o que der."

"Veremos," Chang falou. "Eu gostaria mesmo de conseguir evidência de que ele está envolvido na morte de Odin Lowe, mas posso me contentar com posse e venda de drogas. Pelo menos o removeria do sistema de justiça juvenil." Lançou um olhar severo para o ex-acrobata. "E quanto a você, Barton, e o que suas ações causaram ao time... Sem mencionar o abuso de drogas aqui dentro do campo..."

"Eu sei, senhor. Eu estava errado. E pode me punir como quiser se eu puder ajudar a conseguir evidência contra o Kushreanda antes."

Duo balançou a cabeça. "Capitão Chang... se punir Trowa, vai ter que punir todos nós. Ajudamos a encobrir." Mirou um olhar apelativo para o guardião. "Sei que ele quebrou algumas regras... mas foi só para salvar o Nanashi. E ele parou de tomar os medicamentos... e salvou a minha vida naquele penhasco. Se eu consegui perdoar ele, você também deveria."

"Não é questão de perdoar," o chinês falou. "É questão de princípio."

"E justiça?" Duo sugeriu. "Acho que a abstinência já foi punição adequada para as drogas. E quando ele salvou a minha vida, acho que compensou ele ter me entregado antes."

Wufei assentiu com a cabeça, cedendo. "Existe certa justiça poética em como a balança se equilibra." Sua expressão estava mais suavizada quando olhou de novo para Trowa. "Você não se safou totalmente, Barton. Mas o pior que posso te punir é que você pode precisar atender um aconselhamento contra drogas. Acho que pode viver com isso, não pode?"

Trowa concordou, não vendo uma forma lógica de discordar. "O que quer que decidir, senhor, contanto que seja depois de ajudarmos o Heero e acabarmos com Kushrenada."

"Vamos vencê-lo," o chinês prometeu. "Vamos esperar até uma oportunidade aparecer. Ou ele vai criar uma. Vocês se provaram hábeis em aproveitarem oportunidades. Aposto que essa não será exceção."

"Seja para o que precisar, conte conosco," Quatre declarou resoluto.

Wufei assentiu. "O que preciso agora é que vocês descansem no alojamento por enquanto. Os outros recrutas devem voltar até o anoitecer, e o jantar será um pouco mais tarde."

"Vamos tentar manter o Duo longe de encrenca," Quatre prometeu, olhando de soslaio para o amigo de trança.

"Ótimo. Passo no quarto de vocês quando tiver mais informações," Wufei fez sua própria promessa antes de dar meia volta e sair na mesma direção que Merquise.


Quando entrou no escritório, não perdeu tempo jogando conversa fora. "E então?" perguntou para o major, batendo continência e se deixando cair pesadamente numa cadeira.

"A coronel Une permitiu a extradição."

"Merda."

"Não se preocupe, Chang. Consegui permissão para você ir com ele. Ele não vai ficar sozinho com os policiais da colônia e, dentro de quarenta e oito horas, vamos ter a decisão do juiz se o caso pode ser passado para a jurisdição militar."

"Se a corte tem o direito de julgar ele como adulto por um crime que supostamente cometeu quando era menor de idade, certamente podemos adquirir o direito de julgá-lo no tribunal militar por um crime que ele supostamente cometeu como civil."

"Está vendo por que estou te mandando com ele?" Merquise sorriu. "Você tem uma língua afiada, Wufei." Ele deu ênfase nas palavras língua e Wufei de tal modo que fez o capitão corar.

"Ah, obrigado... senhor," Wufei agradeceu fraco. "Huh..." Onde fora parar a tal língua afiada? "Quando vamos pegar o ônibus espacial?"

"Logo pela manhã."

"Existe alguma chance de os policiais deixarem o time de Heero se despedir dele?"

"Vou ver o que posso fazer. Talvez eu consiga permissão para deixá-los na pista quando o transporte estiver pronto para partir. Eles podem pelo menos vê-lo indo embora."

Wufei concordou, já temendo ter de dizer para Maxwell que não haveria beijo de despedida. Mas, por outro lado, o garoto era esperto o suficiente para já saber disso. "Vou dizer ao time que o líder deles vai embora antes do café da manhã," suspirou.

O major o assistiu com um brilho maléfico nos olhos de gelo. "E você vai se psotar de guarda essa noite para assegurar que eles fiquem onde devem?" perguntou.

"Como é, senhor?" Wufei tentou soar inocente.

"Você já me contou muito sobre esses garotos," Merquise notou. "Estou esperando que eles tentem quebrar todas as regras possíveis para irem até o líder para uma última visita."

"Eu também," suspirou o chinês. "Assim que minha tropa chegar do exercício na floresta, vou deixar dois de guarda na cela do Yuy e mais dois para vigiar o alojamento do time Wing essa noite."

"Pode ameaçar os garotos com prisão se quiser," o major sugeriu. "Não vou mandá-los para lá, mas eles não precisam saber."

Wufei sorriu um pouco perverso. "Vou me esforçar ao máximo para matá-los de medo, senhor." Bateu continência convencido e saiu para dar as informações ao time Wing.


"Como assim logo pela manhã?" Duo questionou Wufei. "Vamos poder ver ele, né?"

"Não sei. O major vai conversar com os policiais de L1 e ver se podemos arranjar uma rápida visita." Suspirou. "Não conte com isso."

Duo desviou o rosto, ombros caídos.

"Maxwell." Wufei esperou até o rapaz olhar por cima do ombro. "Me faça o favor de não tentar entrar no centro de detenção para vê-lo?"

Duo deu de ombros, pendendo a cabeça para o lado. "Não prometo nada, Chang." O menino de rua já formulava planos desesperados.

Ora, seu...! "Maxwell, como seu guardião e superior, estou ordenando que fique longe do centro de detenção essa noite."

Duo bateu uma continência desleixada. "Entendido," falou. Não obedecido, mas entendido.

"Não é o que... Oh, deixa pra lá." Wufei o fulminou com o olhar. "Mas anote o que digo, Maxwelll - se eu te pegar onde não deve essa noite, pode dar tchau para a Academia."

Duo teve a decência de estremecer. Então assentiu com a cabeça, a expressão ainda desafiadora.

"Por favor..." Chang começou, mas seu orgulho tomou conta e resolveu não implorar por algo que nunca receberia. "Vocês podem ir para o refeitório quando quiserem," grunhiu áspero. "Depois voltem para cá e não saiam. Prometo que vou monitorar se me obedeceram."

"Sim, senhor," Quatre suspirou, procurando por reforço em Trowa, depois para o rosto tenso de Duo. "Eu... nós vamos... fazer de tudo para não te decepcionar." Mas quando viu a determinação nos olhos índigo, sabia que seria impossível.

Trowa também sabia, por isso nem tentou fingir. "Vamos jantar," falou para os outros dois depois que o capitão se retirou.

"Claro... uma última refeição parece apropriada," Duo deu de ombros passando pela porta.


Continua...